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Cadernos de Pesquisa

versão impressa ISSN 0100-1574versão On-line ISSN 1980-5314

Cad. Pesqui. vol.55  São Paulo  2025  Epub 15-Dez-2025

https://doi.org/10.1590/1980531412496 

EDITORIAL

PARA ALÉM DO ACESSO: CIÊNCIA ABERTA E EQUIDADE NA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO

IFundação Carlos Chagas (FCC); Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), São Paulo (SP), Brasil; rpereira@fcc.org.br


Chegamos ao termo do volume 55 de Cadernos de Pesquisa. Encerrar um ciclo editorial em tempos como os nossos é mais do que um ato protocolar; é um gesto que exige uma pausa para a reflexão e um exercício de balanço em meio à vertigem provocada por crises complexas - econômicas, epistemopolíticas, ideológicas, humanitárias e climáticas. Nesse contexto, um periódico de Educação com a amplitude e a densidade histórica de Cadernos de Pesquisa (desde 1971), não é mero repositório de textos isolados da realidade social. Paolo Nosella, no apagar das luzes do século passado, sentenciou que “Se a história é um garimpo, a memória é a bateia que revolve o cascalho do passado e busca dados preciosos para continuar nossa luta” (Nosella, 1983).

Concordando com suas palavras, manter um periódico da área de Educação em franco funcionamento é um diário da jornada coletiva, por vezes árdua, do pensamento educacional, que revolve os cascalhos do passado, registra as tempestades do presente enquanto tenta rabiscar projeções e utopias de/sobre/para o futuro.

O ano de 2025, refletido nas páginas que publicamos, foi um testemunho dessa travessia. Navegamos por um espectro temático que reafirma o escopo abrangente da revista: dos desafios da gestão em democracias fragilizadas às micropolíticas da sala de aula; das novas configurações do trabalho docente à urgência das pedagogias decoloniais e antirracistas. Os artigos dissecaram a implementação de políticas, as tensões de gênero e raça na escola e os desafios da inclusão. A entrevista com Licínio C. Lima sobre a transição da “gestão democrática à hiperburocracia digital” trouxe ideias que nos ajudam a pensar o presente, enquanto as resenhas nos convidaram ao diálogo crítico com a produção recente, costurando o novo ao já estabelecido.

Os dossiês de 2025 merecem destaque especial por capturarem o zeitgeist em suas tensões fundamentais. O primeiro, “Universitarização e Profissionalização da Formação Docente: Tensões e Possibilidades”, mergulhou em um dos debates mais nevrálgicos da educação contemporânea. Ao analisar os delicados contornos epistemológicos e políticos da formação de professores - explorando as fricções entre o alto nível acadêmico exigido pela universidade e a prática profissional demandada pelo chão da escola -, o dossiê reafirmou a complexidade de formar um pro- fissional que seja, ao mesmo tempo, intelectual e técnico, reflexivo e prático.

Esse debate sobre as estruturas da formação encontrou um complemento no segundo dossiê do ano, “Narrativa de Si e Saberes Experienciais em Educação e Saúde”. Se o primeiro dossiê questionou como se forma, esse segundo indagou quem se forma e qual saber é validado. Em um momento de crescente tecnicismo, resgatar a narrativa como fonte de saber e como prática de humanização - tanto na saúde quanto na educação - é um ato político. Esse dossiê, ancorado em pesquisas que valorizam os saberes que emanam da própria experiência (seja da doença, da infância hospitalizada ou da prática profissional educativa), nos lembra que a ciência que ignora o sujeito é uma ciência incompleta, por vezes inumana.

Esses dois eixos - a estrutura da formação e o sujeito da experiência - colidem e dialogam com o terceiro grande vetor que atravessou nossas publicações e inquietações: a relação entre as humanidades, os dados e as novas tecnologias. Se, por um lado, celebramos a “virada narrativa”, por outro, nos vemos diante da ascensão das inteligências artificiais generativas (IA) e da datificação da vida, que tensionam a própria noção de autoria, de fonte e de verdade. Disciplinas que antes analisavam documentos, agora interrogam datasets. Cadernos de Pesquisa se vê, assim, na linha de frente de um debate inadiável sobre como as ciências humanas e sociais irão ressignificar suas práticas de pesquisa no século XXI.

Nessa encruzilhada, a importância histórica de Cadernos de Pesquisa presentifica-se, em sua relevância. Em tempos desafiadores, em que o financiamento à ciência brasileira, especialmente nas humanidades, é constantemente questionado e a própria universidade é instada a provar sua relevância em termos puramente mercadológicos, manter este diário de bordo público, gratuito, rigoroso e de amplo escopo é um ato de teimosia necessária.

E essa teimosia ecoa. A procura expressiva pela revista, atestada pelas aproximadamente 500 submissões recebidas em 2025, demonstra sua vitalidade e centralidade. É significativo notar que, embora a maioria das submissões (cerca de 70%) ainda seja de autores brasileiros, a cartografia da procura por Cadernos de Pesquisa é global e mostra uma penetração que transcende os eixos geográficos tradicionais. Recebemos um fluxo de contribuições de toda a América Latina (notadamente Chile, Colômbia, Argentina e Peru), da Europa (Portugal, Espanha e França), bem como de países de outros continentes, como foi o caso de Moçambique, Angola, Nigéria, Indonésia, Malásia, Cazaquistão e Chipre.

Essa procura massiva, que infelizmente nos obriga a rejeitar um número significativo de trabalhos por não se alinharem estritamente ao nosso foco editorial, normas ou mesmo pelo comprometido trabalho dos pareceristas ad hoc, não é apenas um indicador de prestígio. É um sintoma da necessidade de espaços de diálogo científico que sejam, ao mesmo tempo, rigorosos e abertos ao Sul Global.

Isso nos leva ao desafio central que marcará as próximas décadas da comunicação científica: a democratização do conhecimento e a promessa da Ciência Aberta.

Cadernos de Pesquisa tem um compromisso histórico com a disseminação pública e livre do saber; o acesso aberto é, para nós, um princípio ético inegociável. Contudo a agenda da Ciência Aberta (que abrange não só o acesso ao artigo, mas a transparência de métodos, os dados abertos, a avaliação aberta e a ciência cidadã) não pode ser ingênua. Ela carrega consigo o risco de se tornar uma nova forma de exclusão, uma armadilha de meritocracia epistêmica.

Em um sistema global de ciência profundamente assimétrico, “abrir” a ciência pode, paradoxalmente, reforçar privilégios. Quem possui os recursos (formação, tempo, financiamento, infraestrutura tecnológica) para gerir dados abertos? Quem pode pagar as taxas de processamento de artigos (APCs) exorbitantes cobradas por megajornais comerciais do hemisfério Norte? Quem tem o capital linguístico e cultural para navegar nas novas exigências de transparência?

A verdadeira democratização não é apenas acesso; é participação e representação. Por isso, para Cadernos de Pesquisa, a Ciência Aberta só faz sentido se for radicalmente concebida como um projeto de equidade. Um projeto que questione ativamente como podemos criar alternativas para que cientistas pertencentes a grupos sociais historicamente desfavorecidos - marcados por raça/etnia, gênero, classe, deficiência - e aqueles situados em regiões e instituições periféricas possam não apenas consumir, mas produzir e divulgar conhecimento.

O debate sobre Ciência Aberta é, fundamentalmente, um debate sobre justiça social e sobre qual futuro queremos para a ciência. É sobre reconhecer que o conhecimento produzido por uma comunidade científica mais equitativa e plural é, simplesmente, um conhecimento melhor, mais robusto e mais relevante.

Ao fechar este volume, Cadernos de Pesquisa sublinha seu compromisso irredutível com essa visão. Um compromisso com uma ciência que não se esconde em uma torre de marfim, mas que se enraíza nos desafios da vida social; um compromisso com a justiça epistêmica, com o rigor bioético, com a defesa da vida e com a sobrevivência do planeta.

Vivemos a vertigem de um quarto de século que já se foi e, como nos lembra o poeta, ainda estamos distantes de encontrar um rumo. Na década de 1970, Gilberto Gil, em sua canção “Queremos saber” (1977/1998), parecia antecipar a ansiedade de nossa era digital e algo- rítmica. Diante das “novas invenções” - sejam elas a antimatéria, o raio laser ou os algoritmos de aprendizado profundo -, a pergunta de Gil ainda ecoa com urgência: “O que vão fazer / Com as novas invenções?”.

Nossa tarefa, como educadores e cientistas humanos, não é apenas buscar o “raio laser mais barato” ou a IA mais eficiente. É exigir, como Gil, uma “notícia mais séria” sobre as implicações dessas ferramentas. Implicações, como ele canta, “Na emancipação do homem / Das grandes populações / Homens pobres das cidades / Das estepes, dos sertões”. A questão de Gil conecta a inovação tecnológica diretamente à justiça social. Se “foi permitido ao homem / Tantas coisas conhecer”, nosso compromisso inadiável, e o compromisso deste periódico, é interrogar o real e divulgar conhecimento científico para que todas as pessoas pensem sobre “o que pode acontecer”.

Que sigamos, em 2026, com a coragem de querer saber e a responsabilidade de fazer saber!

Rodnei Pereira
Editor-chefe de Cadernos de Pesquisa
Primavera de 2025

Como citar este texto Pereira, R. (2025). Para além do acesso: Ciência Aberta e equidade na produção de conhecimento científico. Cadernos de Pesquisa, 55, Editorial e12496. https://doi.org/10.1590/1980531412496

Referências

Gil, G. (1998). Queremos saber [Música]. In O Viramundo (ao vivo). Polygram. (Obra original publicada em 1977). [ Links ]

Nosella, P. (1983). Compromisso político como horizonte da competência técnica. Educação & Sociedade, 14, 91-97. [ Links ]

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