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Cadernos de Pesquisa

versão impressa ISSN 0100-1574versão On-line ISSN 1980-5314

Cad. Pesqui. vol.55  São Paulo  2025  Epub 13-Nov-2025

https://doi.org/10.1590/1980531411716 

ARTIGOS

A GENEALOGIA DOS GRUPOS DE PESQUISA EM EJA: SUA FORMAÇÃO E SUA INTELECTUALIDADE

THE GENEALOGY OF RESEARCH GROUPS IN YOUTH AND ADULT EDUCATION: THEIR FORMATION AND INTELLECTUALITY

LA GENEALOGÍA DE LOS GRUPOS DE INVESTIGACIÓN EN LA EDUCACIÓN DE PERSONAS JÓVENES Y ADULTAS: SU FORMACIÓN E INTELECTUALIDAD

GÉNÉALOGIE DES GROUPES DE RECHERCHE EN ÉDUCATION POUR LES JEUNES ET LES ADULTES : FORMATION ET INTELLECTUALITÉ

Morgana Zardo von Mecheln, conceitualização, curadoria, análise, validação de dados, redação do manuscrito original, revisão, aprovação da versão final do trabalhoI 
http://orcid.org/0000-0002-1180-2960

Maria Hermínia Lage Fernandes Laffin, conceitualização, curadoria, análise, validação de dados, metodologia, redação do manuscrito original, revisão, aprovação da versão final do trabalhoII 
http://orcid.org/0000-0002-4562-308X

IUniversidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Florianópolis (SC), Brasil;

IIUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC), Brasil;


Resumo

Apresenta-se a genealogia dos grupos de pesquisa (GP) em educação de jovens e adultos (EJA) no Brasil, no contexto dos movimentos históricos produzidos na dialética da materialidade acadêmica. A partir de uma releitura histórica, com base documental, foi possível identificar a genealogia dos GP, indo à sua raiz histórica, marcada pelo pensamento de Amélia Domingues de Castro, Gerd Bornheim, Florestan Fernandes e Joel Martins. O desenvolvimento do pensamento sobre a EJA não ocorreu apenas no interior dos grupos de pesquisa, pois há uma dinâmica entre os fatos históricos que mobilizaram os setores da sociedade civil e as instâncias científicas em um movimento contínuo da realidade concreta.

Palavras-Chave: EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS; GRUPOS DE PESQUISA; GENEALOGIA

Abstract

This article traces the genealogy of research groups (RG) in educação de jovens e adultos [youth and adult education] (EJA) in Brazil, within the context of historical movements shaped by the dialectics of academic materiality. Based on a historical reinterpretation supported by documentary evidence, it identifies the roots of these RGs, which were strongly influenced by the intellectual contributions of Amélia Domingues de Castro, Gerd Bornheim, Florestan Fernandes, and Joel Martins. The development of thinking on EJA, however, did not occur exclusively within the research groups themselves. Rather, it emerged from the dynamic interplay between historical events that mobilized sectors of civil society and scientific institutions in a continuous movement of concrete reality.

Key words: YOUTH AND ADULT EDUCATION; RESEARCH GROUPS; GENEALOGY

Resumen

Este artículo presenta la genealogía de los grupos de investigación (GI) en la educação de jovens e adultos [educación de personas jóvenes y adultas] (EJA) en Brasil, en el contexto de los movimientos históricos producidos en la dialéctica de la materialidad académica. A través de una reinterpretación histórica, basada en documentos, fue posible identificar la genealogía de los GI, yendo a su raíz histórica, marcada por el pensamiento de Amélia Domingues de Castro, Gerd Bornheim, Florestan Fernandes y Joel Martins. El desarrollo del pensamiento sobre la EJA no se produjo únicamente dentro de los grupos de investigación, ya que existe una dinámica entre los acontecimientos históricos que movilizaron a sectores de la sociedad civil y a las entidades científicas en un movimiento continuo de la realidad concreta.

Palabras-clave: EDUCACIÓN DE JÓVENES Y ADULTOS; GRUPOS DE INVESTIGACIÓN; GENEALOGÍA

Resumé

Cet article se presente sur la généalogie des groupes de recherche (GR) pour l’educação de jovens e adultos [éducation des jeunes et des adultes] (EJA) au Brésil, dans le contexte des mouvements historiques issus de la dialectique de la matérialité en éducation. À partir d’une relecture historique, basée sur une analyse documentaire, on a pu identifier la généalogie des GP, en remontant à leurs racines historiques, marquées par la pensée d’Amélia Domingues de Castro, de Gerd Bornheim, de Florestan Fernandes et de Joel Martins. Le développement de la réflexion sur l’EJA n’a pas seulement eu lieu au sein des groupes de recherche. En effet, il existe une dynamique entre les faits historiques qui ont mobilisé les secteurs de la société civile et les instances scientifiques, forgeant la réalité concrète dans un mouvement continu.

Key words: ÉDUCATION DES JEUNES ET DES ADULTES; GROUPES DE RECHERCHE; GÉNÉALOGIE

OTEXTO 1 QUE SEGUE FOI ESCRITO A PARTIR DO ESTUDO DOUTORAL DE MORGANA ZARDO von Mecheln, publicado em 2021 sob orientação da professora Maria Hermínia Lage Fernandes Laffin, intitulado Nas trilhas da educação de jovens e adultos: Análise dos métodos científicos em teses no contexto dos grupos de pesquisa, assim como dos dados de uma nova investigação que atualiza os obtidos na tese. Os dois estudos tomaram como base os dados do Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil (DGP) em dois períodos distintos, 2019 e 2025. A pesquisa foi realizada a partir de uma releitura histórica, utilizando-se da pesquisa documental, com o objetivo de investigar a origem dos grupos de pesquisa em Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil e como eles foram sendo constituídos ao longo da história com suas diversas e transitórias problemáticas, que, por sua vez, se tornam objetos de estudos das pesquisas científicas. A partir dos levantamentos, foi possível identificar: a pós-graduação e os grupos de pesquisa como formação humana e acadêmica; a constituição, a genealogia dos grupos de pesquisa (GP) e a intelectualidade no campo da EJA; os “objetos” de investigação nos GP, com os temas mais pesquisados; e as demandas atuais para a pesquisa em EJA.

Grupos de pesquisa como importante componente da pós-graduação

Para objetivar no estudo doutoral a análise dos métodos de teses voltadas à EJA, o caminho para identificação das teses produzidas foi destacar os GP direcionados a esse campo do conhecimento. Logo, é a investigação sobre os grupos de pesquisa em EJA que se apresenta neste artigo, que busca expor análises claras e interpretações fundamentadas, mantendo rigor metodológico (Severino, 2009, p. 206) e caracteriza-se como um gênero textual que valoriza a liberdade em relação a normas, sendo instrutivo ao apresentar ideias ou opiniões de forma crítica, argumentativa e expositiva.

Entende-se que os grupos de pesquisa são espaços privilegiados para a produção acadêmica, em uma associação de sujeitos originários de diversas formações e com percursos educativos também distintos, mas que se reúnem ao redor de determinadas temáticas, campos de estudo e, geralmente, lutam por financiamento e estabelecimento de suas particularidades na universidade. Castro (1986) afirma que há três principais fontes de motivação para aqueles que se dedicam à pesquisa científica no Brasil, são elas: a estrutura de poder e status dentro da área, os incentivos internos das instituições acadêmicas e os estímulos financeiros externos. No que se refere à estrutura de poder dentro de uma área específica de conhecimento, o autor elabora o termo colégio invisível dos cientistas, que aqui se engendram aspectos comparativos com a questão dos grupos de pesquisa. Pode-se alegar que os grupos de pesquisa são um modo concreto que corporifica o colégio invisível - uma vez que o próprio autor da expressão a descreve como ente abstrato, que pode ser abraçado voluntariamente e que nasce do contato continuado com outros grupos de pesquisa atuantes.

Na pós-graduação, para Severino (2009), os alunos não devem apenas se envolver individualmente no processo de orientação com seu orientador, trata-se, da consolidação da tradição de trabalho coletivo, de caráter formativo e pedagógico para a constituição de novos pesquisadores no próprio grupo. Ainda segundo o autor, isso implica investimento sistemático na própria produção científica que coordena um conjunto de pesquisadores e não apenas processos isolados de orientação. Pereira e Andrade (2012, p. 156) consideram que os “grupos de pesquisa funcionam como instrumentos inseridos nas estratégias voltadas a fazer operar e organizar a produção do conhecimento”. Em outros termos, considera-se o grupo de pesquisa como um local de aprendizado e partilha de todos os processos que envolvem a trajetória científica: técnicas, metodologias, métodos, práticas, teorias, etc.

Histórico dos grupos de pesquisa no Brasil

Historicamente, as questões no âmbito da educação foram pensadas tanto no campo das práticas cotidianas, escolares ou não, como no campo da academia científica, e as ideias embrionárias dos atuais grupos de pesquisa começaram a ser desenvolvidas na década de 1980, na intenção de construir bases para trocas entre pesquisadores de diversificadas áreas educacionais. Para Gatti (2005), no início dos anos 1980, o Programa de Intercâmbio foi desenvolvido com o objetivo explícito de contribuir para a implantação e consolidação de grupos de pesquisa em educação no país, sendo uma das propostas precursoras da articulação entre instituições científicas e pesquisadores. Esse programa era fomentado por agências, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), mas, também, articulava-se com a recém-criada Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), de 1978. Na década de 1990, a expansão do programa culminou em sua vinculação definitiva aos grupos de trabalho da ANPEd, que passou a protagonizar os encontros e formando grupos e redes de referência em várias subáreas da pesquisa no campo da educação (Gatti, 2005).

E foi ainda na década de 1990 que os pesquisadores da área da EJA, inseridos nos grupos de trabalho Educação Popular e Movimentos Sociais da ANPEd, passaram a refletir sobre um grupo de trabalho específico para o campo da EJA. Assim, no ano de 1998 houve o primeiro encontro do grupo de trabalho 18: Educação de Pessoas Jovens e Adultas. Esse reconhecimento da EJA, como uma área de pesquisa e estudos na ANPEd, impulsionou o debate sobre as especificidades do campo nas universidades do país, diferenciando-a, principalmente, da educação popular. Em decorrência desse debate é que, a partir da década de 1990, começaram a ser formados os grupos de pesquisa dedicados ao aprofundamento das especificidades, epistemologias e problemáticas da EJA nos centros das universidades brasileiras.

Desde o início da década de 1990, com a criação do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil (DGP) no CNPq, realizam-se censos para o armazenamento de dados de determinado período histórico, sendo que o primeiro foi produzido em 1993. Atualmente, de acordo com o último censo do DGP no Brasil (Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil [DGP], n.d.), constam 42.852 grupos de pesquisa cadastrados, sendo que, desse total, 3.913 grupos são da área da educação, que, inclusive, é a área de conhecimento dominante, no que se refere à quantidade de grupos de pesquisa e pesquisadores.

Metodologia

A pesquisa empírica teve seu início em julho de 2019, por meio do site do DGP do CNPq. Utilizaram-se as palavras-chave “educação de jovens e adultos” para a consulta parametrizada na base corrente. Como opção metodológica para restringir o universo dos dados, foram eleitos para análise apenas os grupos de pesquisa certificados e atualizados. Após a aplicação dos filtros para identificar e selecionar os grupos chegou-se à totalidade de 28, no âmbito da EJA, como temática prioritária e que até então estavam cadastrados e atualizados no DGP/CNPq. Observando a produção acadêmica nesses grupos de pesquisa, foram identificadas 67 teses sobre o campo da EJA, publicadas por doutores vinculados a grupos de pesquisa também sobre EJA, as quais foram objeto de análise da tese, mas não neste artigo, mas que indicam a origem da pesquisa aqui apresentada.

Esses 28 grupos de pesquisa, identificados na Tabela 1, concentravam 760 pessoas nas seguintes categorias: pesquisadores, estudantes de doutorado, estudantes de mestrado, estudantes de especialização, estudantes de graduação, técnicos e egressos - sendo que essa última categoria passou a ser registrada apenas a partir de 2014; antes os participantes que saíam dos grupos não eram contabilizados no diretório. Na Tabela 1 são apresentados os grupos identificados.

Tabela 1 Grupos de pesquisa sobre EJA no Brasil, organizados por temporalidade 

N.* Ano de criação Grupo de pesquisa Instituição Líderes atuais
0 1995 Juventude e Práticas Educativas em Educação de Jovens e Adultos (antigo GP01) Universidade de São Paulo (USP) Descontinuado e substituído por novo GP
1 1997 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gepeja) Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Nima Imaculada Spigolon
2 1999 Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (Neja) Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heli Sabino de Oliveira
3 2003 Políticas Públicas, Educação Permanente e Práticas Educacionais de Jovens, Adultos e Idosos (Gejai) Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Rita de Cássia da Silva
Oliveira
Flávia Oliveira Alves da Silva
4 2003 Núcleo de Extensão e Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos (Nepeja) Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) Nagela Aparecida Brandao
Ana Catharina Mesquita de Noronha
5 2006 Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores Universidade Federal Fluminense (UFF) Sonia Maria Rummert
Jaqueline Pereira Ventura
0 2006 Educação de Jovens e Adultos em Espaços Escolares e Não Escolares (antigo GP7) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Descontinuado e substituído por novo GP
6 2006 Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos Universidade de Pernambuco (UPE) Waldênia Leão de Carvalho
Ernani Martins dos Santos
0 2007 Adultos, Jovens e Educação no Contemporâneo (Antigo GP9) Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Descontinuado e substituído por novo GP
7 2008 Grupo de Pesquisa Multidisciplinar em Educação de Jovens e Adultos (Multieja) Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Marinaide Freitas
Jailson Costa da Silva
8 2010 Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Epeja) Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Maria Hermínia Laffin
Paula Cabral
0 2010 A Educação de Jovens e Adultos: Políticas, Práticas e Discursos no Cenário Brasileiro (Antigo GP12) Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Descontinuado
0 2010 Proeja Grupo Cabedelo (Antigo GP13) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) Descontinuado
9 2010 Laboratório de Investigação, Ensino e Extensão em Educação de Jovens e Adultos (Lieja) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Enio José Serra dos Santos
10 2010 Aprendizados ao Longo da Vida: Sujeitos, Políticas e Processos Educativos Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Jane Paiva
11 2012 Educação, Direitos Humanos e Interculturalidade Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Graça Costa
12 2012 Núcleo de Estudos e Documentação em Educação de Jovens e Adultos (Nedeja) Universidade Federal Fluminense (UFF) Osmar Fávero
Elionaldo Fernandes Julião
13 2014 Pesquisas e Estudos em Letramentos de Jovens e Adultos Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) Verônica Pessoa da Silva
14 2015 Educação de Jovens e Adultos e Educação Popular: A Pesquisa a Serviço da Prática Educativa Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Luiz Gonzaga Gonçalves
Quezia Vila Flor Furtado
15 2015 Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Liliam Cristina Caldeira
Antonio Lino Rodrigues de Sá
16 2016 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens, Adultos e Idosos Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Regina Magna Bonifácio de Araújo
Fernanda Aparecida Oliveira Rodrigues Silva
17 2017 Núcleo de Pesquisa e Estudos em Políticas Públicas e Educação de Jovens e Adultos Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) Marilza Sales Costa
18 2018 Educação, Questões de Aprendizagem e Sistema de Crenças Universidade Estadual de Goiás (UEG) Gilson Xavier de Azevedo
19 2018 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (GP24) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Sandra Regina Sales
20 2018 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (GP25) Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Jarina Rodrigues Fernandes
0 2018 Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas e em Políticas Públicas (Antigo GP26) Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Descontinuado, substituído por novo GP
21 2018 Grupo Interdisciplinar de Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos e Educação Popular: Direito, Políticas Públicas e Processos Educacionais Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Elisete Enir Bernardi Garcia
André Boccasius Siqueira
22 2019 Grupo Interdisciplinar de Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gipeja) Instituto Federal de Alagoas (IFAL) Jailson Costa da Silva
Divanir Maria de Lima Rei

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

Nota:

* A numeração dos grupos de pesquisa foi feita a partir da presença do levantamento conferido em 2025. Os grupos descontinuados terão sua numeração zerada. Essa numeração será continuada na Tabela 3 com a identificação dos grupos identificados em 2025, para melhor se considerar o total de 59 grupos de pesquisa em EJA.

No início de 2025 foram atualizados os dados pela análise também do site do DGP, com a finalidade de verificar as continuidades, as mudanças em relação aos grupos, identificar os intelectuais que lideram esses grupos na atualidade, assim como as temáticas que esses grupos elegeram como objetos de estudo principais. Nessa análise, foram inseridas duas novas palavras-chave: “educação de pessoas jovens e adultas” e “educação de pessoas jovens, adultas e idosas”.

Continuidades e mudanças nos grupos de pesquisa em EJA: Da pesquisa de 2019 até os dados de 2025

Na análise das informações coletadas no DGP, é perceptível alterações importantes, tanto daqueles que foram descontinuados como dos grupos que foram identificados em 2025.

Alguns grupos não foram localizados, o que se deve, muitas vezes, à aposentadoria e inclusão de novos docentes em diferentes instituições, gerando a reformulação de alguns dos grupos e/ou a criação de novos. Dos 28 grupos da pesquisa inicial, 6 não foram identificados no DGP, conforme mostra a Tabela 2.

Tabela 2 Grupos de pesquisa voltados à EJA não identificados em 2025 

N. Ano de criação Grupo de pesquisa Instituição
1 1995 Juventude e Práticas Educativas em Educação de Jovens e Adultos Universidade de São Paulo (USP)
2 2006 Educação de Jovens e Adultos em Espaços Escolares e Não Escolares Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
3 2007 Adultos, Jovens e Educação no Contemporâneo Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
4 2010 Educação de Jovens e Adultos: Políticas, Práticas e Discursos no Cenário Brasileiro Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
5 2010 Proeja Grupo Cabedelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB)
6 2018 Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas e em Políticas Públicas Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

O grupo Juventude e Práticas Educativas em Educação de Jovens e Adultos da Universidade de São Paulo (USP) não foi mais localizado no DGP, mas há a identificação da criação em 2021 do grupo Pensamento, Políticas e Práticas em Educação de Jovens e Adultos e Educação Popular - USP, coordenado por Maria Clara Di Pierro. No próprio DGP, há a informação de que o novo grupo dá continuidade ao anterior.

Já os grupos 2 e 3 formaram, em 2023, um novo grupo, reunindo pesquisadores das duas instituições, da UFRGS e da PUCRS, passando a ser nomeado de Grupo de Estudos e Pesquisas Adultos, Jovens e Educação no Contemporâneo (Gepajec), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS e tendo como líderes Simone Valdete dos Santos e Mónica de la Fare. O GP prioriza investigações de processos e espaços de formação, formais e não formais, com pessoas adultas e jovens de distintos grupos sociais.

Sobre o grupo Educação de Jovens e Adultos: Políticas, Práticas e Discursos no Cenário Brasileiro da UFPB, não foram detectadas informações, no entanto foi encontrado, na mesma universidade, o Grupo de Estudos sobre Aprendizagem e Educação ao Longo da Vida no Contexto Inter/Nacional, criado em 2013, cujo líder é Timothy Denis Ireland, o qual não foi identificado na pesquisa de 2019, pois, provavelmente, não estava certificado no momento da coleta de dados. Desenvolve investigações sobre a educação para pessoas privadas de liberdade e a remição penal pela leitura, políticas nacionais e internacionais de aprendizagem e educação ao longo da vida, e as tecnologias de aprendizagens ao longo da vida.

Não foram localizadas informações sobre o Proeja Grupo Cabedelo, vinculado ao IFPB. Já o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas e em Políticas Públicas gerou um novo grupo no ano de 2018, intitulado Núcleo de Estudos e Pesquisas Paulo Freire (Nepaf), na UESB.

Portanto, em relação à investigação de 2019, permanecem 22 grupos. Além desses, foram localizados mais 37 GP, totalizando agora 59 grupos. Observa-se que 21 dos novos identificados em 2025 já existiam na primeira investigação, mas não foram captados pela busca. Relembra-se ainda que, mesmo que a busca identificasse grupos, cujo nome não inclua a EJA, o critério observado foi de que o GP precisava ter mais de uma linha de investigação para que se possa perceber um maior aprofundamento no campo. Para além do fato de haver em 2025 a ampliação dos descritores, incluindo os termos pessoas jovens, adultas e idosas e grupos voltados à privação de liberdade, mas com o foco na EJA. A organização desses novos grupos está situada na Tabela 3, dando continuidade à ordenação numérica da Tabela 1.

Tabela 3 Grupos de pesquisa sobre EJA no Brasil levantados em 2025, por temporalidade 

N. Ano de criação Grupo de pesquisa Instituição Líderes atuais
23 2000 Grupo de Ensino-Pesquisa-Extensão em Educação Popular e Estudos Filosóficos e Histórico-Culturais (Genpex) Universidade de Brasília (UnB) Renato Hilário dos Reis
24 2007 Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional na Cidade e no Campo Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Edna Castro de Oliveira
Karla Ribeiro de Assis Cezarino
25 2009 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gepeja) Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) Francisco Canindé da Silva
Maria da Conceição Fonseca
26 2009 Políticas Públicas e Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Marcia Soares de Alvarenga
27 2009 Sujeitos, Espaços e Práticas no Campo da Educação de Jovens e Adultos Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Claudia Barcelos de Moura Abreu
Mariângela Graciano
28 2010 Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos e Diversidade na Amazônia (Gueaja) Universidade Federal do Pará (UFPA) Georgina Negrão Kalife Cordeiro
29 2011 Educação de Jovens e Adultos e os Desafios na Contemporaneidade Instituto Federal Catarinense (IFC) Anderson Sartori
30 2012 Grupo Colabor(Ação): Estudos e Pesquisas em Educação de Pessoas Jovens, Adultas e Idosas Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) José Jackson Reis dos Santos
Lorita Maria Weschenfelder
31 2012 Grupo de Pesquisa em Educação, Educação de Jovens e Adultos, Currículo e Saberes Docentes (Grupeegs) Universidade Estadual de Alagoas (UEAL) Jenaice Israel Ferro
32 2013 Grupo de Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos (Grupeja) Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Leôncio José Gomes Soares
Fernanda Aparecida Oliveira Rodrigues Silva
33 2013 Grupo de Estudos sobre Aprendizagem e Educação ao Longo da Vida no Contexto Inter/Nacional Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Timothy Denis Ireland
34 2014 Grupo de Pesquisa, Práticas e Estudos da Educação de Jovens e Adultos (Gruppeeja) Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Mariana Cassab Torres
35 2014 Educação de Jovens e Adultos: Docência, Formação de Professores e Processos Pedagógicos da EJA Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) Sita Mara Lopes Sant’Anna
36 2015 Formacceinfância, Linguagens e EJA (Forinleja) Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Ana Paula Silva da Conceição
Rosemary Lapa de Oliveira
37 2016 Núcleo de Investigação e Práticas em Educação nos Espaços de Restrição e Privação de Liberdade (EduCárceres) Universidade de São Carlos (UFSCar) Elenice Maria Cammarosano Onofre
38 2016 Núcleo de Estudos sobre Acesso e Permanência na Educação Instituto Federal Fluminense (IFF) Gerson Tavares do Carmo
39 2017 Conjunturas de Pesquisas e Estudos em Educação Jovens e Adultos (Conpeeja) Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Lívia da Silva Modesto
Daniela Lopes Oliveira Dourado
40 2017 EJA em Pauta: Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Adenilson Souza Cunha Júnior
41 2017 Grupo de Estudos e Pesquisas de Práticas Educativas na Educação de Jovens e Adultos (Gepeja) Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Eduardo Jorge Lopes da Silva
Rayssa Maria Anselmo de Brito
42 2017 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gepeja) Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) Fábio Fernandes Villela
43 2017 Núcleo de Pesquisa e Extensão em Educação de Jovens, Adultos, Idosos e Campesinos (Nupeejaic) Universidade Estadual de Alagoas (UFAL) Sara Jane Lino de Cerqueira
Jhonatan David Santos das Neves
44 2018 Núcleo de Estudos e Pesquisas Paulo Freire (Nepaf) Universidade do Sudoeste da Bahia (UESB) Maria de Cássia Passos Brandão Gonçalves
Inês Angélica Andrade Freire
45 2019 A EJA em Contexto de Privação de Liberdade Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcia Regina Barbosa
46 2019 Grupo de Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos (Gpeja) Universidade Federal Fluminense (UFF) Adriano Vargas Freitas
Maria Cecilia de Castello Branco
47 2019 Práticas, Tecnologia Digital e Inclusão na Educação de Jovens e Adultos (Eja-Consupra) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) André Guimarães Valente
Fernanda Paixão de Souza Gouveia
48 2020 Nepeja Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Marcus Vinícius Furtado da Silva
49 2020 Observatório Vozes da EJA Brasil - África Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-
-Brasileira (Unilab)
Luís Carlos Ferreira
50 2021 Formação de Professores e Tecnologias Educacionais Emergentes para a Educação de Jovens e Adultos Universidade do Estado do Amazonas (UEAM) Ethel Silva de Oliveira
Elisângela Silva de Oliveira
51 2021 Movimentos Sociais, Educação Popular e Educação de Jovens e Adultos Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Kergileda Ambrosio de Oliveira Mateus
52 2021 Pensamento, Políticas e Práticas em Educação de Jovens e Adultos e Educação Popular Universidade de São Paulo (USP) Maria Clara Di Pierro
53 2022 Grupo de Pesquisa sobre Educação de Jovens e Adultos (Gpeja) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT) Silvia Maria dos Santos Stering
54 2022 Grupo de Estudo e Pesquisa Educação em Privação de Liberdade Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fabiana de Moura Maia Rodrigues
55 2022 Grupo de Estudos e Pesquisas Trabalho e Educação, Educação do Campo e Agroecologia e Educação de Jovens e Adultos (Gepeja) Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) Custódio Jovêncio Barbosa Filho
56 2022 Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens, Adultos e Idosos (para e com) Surdos (Ejaisurdos) Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Poliana da Silva Lima Andrade
Daniele dos Santos Barreto
57 2023 Adultos, Jovens e Educação no Contemporâneo Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Simone Valdete dos Santos
Mónica de la Fare
58 2023 Educação de Pessoas Jovens e Adultas e Idosas, Educação Popular, Trabalho e Diversidade (Ejapod) Universidade Federal da Bahia (UFBA) Gilvanice Barbosa da Silva Musial
59 2024 Esperançar: Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Popular Universidade de Brasília (UnB) Maria Clarisse Vieira

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

Traçam-se algumas hipóteses para o fato de a busca ter obtido esses dados anteriores de 2019 e anterior a esse ano: a primeira é de que a plataforma nem sempre gera os dados solicitados, mesmo grafando o nome do grupo de pesquisa, o sistema não localiza. Nesse segundo momento da investigação, foi necessário fazer busca na rede de internet para situar dados de determinado grupo e, no DGP, usar o recurso do nome do líder do GP ou múltiplas tentativas para obtenção das informações. A segunda hipótese é de que, no primeiro levantamento, parte desses grupos poderia não estar certificada ou atualizada; e, por último, poderá ter ocorrido alteração em GP cujo título e linhas de investigação não tinham como foco central questões sobre a EJA, mas que nesse período esse campo ganhou centralidade. Com base nessas hipóteses recomenda-se o aprimoramento dos repositórios de dados para futuras investigações, considerando o crescente avanço de tecnologias para lapidação de grande volume de informações.

Territorialidade dos grupos de pesquisa em 2025

Em 2019, foram levantados 28 grupos de pesquisa e em 2025 constatou-se que 6 deles foram descontinuados, sendo identificados mais 37, totalizando 59 grupos.

No que se refere à territorialidade dos grupos de pesquisa, pôde-se constatar a distribuição regional na área do país da seguinte forma: 23 grupos na região Sudeste, 20 grupos no Nordeste, 6 grupos na região Sul, 5 na região Centro-Oeste e 4 grupos na região Norte. A região que concentra a maior quantidade de grupos de pesquisa é a Sudeste, que também concentra a maior quantidade de instituições de ensino superior. Chama a atenção o estado do Rio de Janeiro, agregando 5 grupos, seguido da Paraíba, com 4. No que diz respeito às instituições do Rio de Janeiro, nos grupos de pesquisa ali presentes, é inegável a herança teórica e prática de Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Osmar Fávero e Paschoal Lemme - que possui o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Fluminense e o título de Professor Emérito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro -, os quais deixaram um legado no estado e na formação dos pesquisadores do campo da EJA. Destaca-se que Osmar Fávero desenvolveu sua produção política, pedagógica e teórica e que sua:

. . . trajetória profissional pode ser, em parte, conhecida por seu vasto curriculum vitae, em que se evidencia a relevância do seu trabalho, sem expressar, no entanto, toda a intensidade de uma vida dedicada à Educação. Uma vida que se faz presente em muitos momentos importantes para a construção da Educação Popular no Brasil. . . . É professor Emérito da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. (Esteban, 2022, p. 1).

O Nordeste quase alcança a região Sudeste, com 20 grupos, o que mostra o seu espaço territorial, assim como o interesse voltado ao campo da EJA. Vale lembrar que a Bahia conta com 9 grupos desse total e é esse estado que possui o único Programa de Pós-Graduação em Educação de Jovens e Adultos (Ppgeja) com um mestrado profissional em funcionamento na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

De todas as instituições que dão suporte aos grupos de pesquisa, apenas cinco se constituem em Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia - um de Alagoas, dois do Rio de Janeiro, um do Mato Grosso e um de Santa Catarina -, indicando que as pesquisas sobre EJA partem também das reflexões provenientes do âmbito da educação profissional e tecnológica, principalmente em decorrência da oferta, nos institutos federais, do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja), que articula a formação profissional com a elevação de escolaridade.

A partir do conjunto dos 58 grupos de pesquisa sobre Educação de Jovens e Adultos, no Brasil, é possível traçar a linha histórica de sua criação, considerando os que atualmente constam no DGP. O Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos foi o primeiro a ser criado, em 1997, na Unicamp, seguido pelo Núcleo de Educação de Jovens e Adultos, em 1999, na UFMG. Nos anos 2000, observa-se um crescimento na criação desses grupos. Em 2003, foram criados dois grupos: Políticas Públicas, Educação Permanente e Práticas Educacionais de Jovens, Adultos e Idosos; na UEPG; e o Núcleo de Extensão e Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos, na UEMG. Os anos de 2006, 2008, 2010, 2012, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019 também marcam a criação de novos grupos em diversas universidades brasileiras. Em 2020, foram criados dois grupos, Nepeja na UFU e Observatório Vozes da EJA Brasil - África na Unilab.

No período de 2021 a 2024, também foi registrada a criação de novos grupos de pesquisa em EJA, sendo o mais recente criado em 2024 na UnB, intitulado Esperançar: Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Popular.

A linha histórica demonstra um crescente interesse pela pesquisa em EJA no Brasil ao longo dos anos, com um aumento significativo a partir dos anos 2000. De modo acentuado, a EJA é pesquisada e debatida nas universidades federais e estaduais do país, evidenciando a relevância do ensino público e gratuito para a formação não apenas de licenciados que atuam na prática escolar, mas, sobretudo, para a formação de pesquisadores que se debruçam sobre o campo, a fim de investigá-lo para a mais profunda compreensão sobre as dinâmicas e problemáticas da EJA.

Categorias temáticas levantadas no estudo

Dada a importância de um estudo com base empírica documental, produziram-se esquematicamente as categorias temáticas dos grupos, possibilitando um panorama geral do campo da EJA. Como um dos objetos foi a identificação dos métodos das teses dos grupos identificados em 2019, foram detectadas 67 produções de teses que têm como campo de estudo a EJA em 18 grupos de pesquisa. Essas teses, localizadas de modo on-line, foram classificadas em categorias temáticas, ou seja, tendo a EJA como campo principal de estudo, e verificada a especificidade de cada aprofundamento teórico e empírico. As especificidades para a categorização foram identificadas a partir das informações constantes nos resumos das teses, sendo que as que não foram localizadas não compuseram a categorização em decorrência da falta de elementos suficientes para uma análise, uma vez que seria inviável eticamente classificar uma pesquisa apenas por seu título. Percebe-se que em dez GP não foram identificadas teses sobre a EJA. Também foi possível constatar a presença de doutores de diferentes universidades em grupos de pesquisa articulados por pesquisas interinstitucionais, como no caso do GP11 - Epeja -, o que corrobora a avaliação de que esse tipo de pesquisa é de relevante importância para o campo acadêmico. Os grupos de pesquisa dão visibilidade aos estudos, por isso, membros de distintas universidades encontram-se nesses espaços, fazendo com que alguns pesquisadores participem de mais de um grupo.

Em vista desses apontamentos, foram obtidas as categorias temáticas dos estudos sobre EJA desenvolvidas em grupos de pesquisa, como demonstrado na Tabela 4. Salienta-se que há grupos que atendem a mais de uma categoria.

Tabela 4 Categorias temáticas das teses sobre EJA 

Categoria temática Quantidade de teses Grupos de pesquisa
Políticas públicas 14 GP0, GP1, GP8, GP10, GP20, GP0 (antigo GP26)
Sujeitos da EJA 11 GP1, GP4, GP6, GP8, GP8, GP9, GP10, GP10, GP15, GP21
Formação de professores 9 GP1, GP6, GP8, GP12, GP16 GP26
Prática pedagógica 6 GP6, GP7, GP8, GP12, GP9, GP10
Espaços da EJA 5 GP2, GP4, GP6, GP7, GP8
Epistemologia 4 GP8, GP8, GP11, GP12
Ensino de... 3 GP2, GP9
Currículo 2 GP7, GP18
Não foi possível identificar* 13 GP0 (antigo GP1), GP2, GP7, GP8, GP0 (antigo GP13), GP10, GP12, GP20
Total 67

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

Nota:

* Refere-se às treze teses cujo texto não foi localizado on-line, algumas elaboradas no exterior.

É importante observar que a mesma temática pode estar presente em diferentes grupos de pesquisa e que essa categorização tem um olhar subjetivo. Além disso, é possível perceber que a EJA é um campo de conhecimento já consolidado há décadas nas pesquisas acadêmicas, aprofundando-se principalmente nas problemáticas no âmbito das políticas públicas, da formação dos professores, das práticas pedagógicas e dos sujeitos desse modo particular de educação. Não obstante, mesmo a categoria políticas públicas sendo a especificidade com o maior número de teses, estas estão concentradas em apenas seis grupos de pesquisa, principalmente no Gepeja da Unicamp, ao passo que a categoria mais espraiada é sujeitos da EJA, tendo sido identificada em 10 dos 18 grupos de pesquisa.

Assim, as teses identificadas nos grupos de pesquisa se apresentam como importantes veículos de investigação da realidade posta, publicizando indicativos das possibilidades de conhecê-la de modo orgânico, em um esforço pelo fortalecimento da EJA, como campo de conhecimento sistematizado e produtor de saberes. Para Haddad (2002, p. 15), “há um desafio crescente para as universidades no sentido de garantir/ampliar os espaços de discussão da EJA nos cursos de graduação, pós-graduação e extensão, sendo fundamental considerar nestes espaços a produção já existente em Educação de Jovens e Adultos”.

No segundo momento da investigação, com base nos dados de 2025, também foram analisadas as categorias temáticas extraídas dos próprios objetos identificados nos títulos e linhas dos grupos de pesquisa (Tabela 5).

Tabela 5 Categorias temáticas identificadas nos grupos de pesquisa voltados ao campo da EJA, 2025 

Categorias temáticas Grupos de pesquisa em que foram identificadas
Educação de jovens e adultos (EJA) GP1, GP2, GP5, GP6, GP8, GP9, GP11, GP14, GP20, GP24, GP25, GP28, GP29, G32, GP34, GP39, GP40, GP41, GP52, GP54, GP56, GP58
Sujeitos da EJA GP5, GP8, GP21, GP26, GP30, G32, GP37, GP43, GP43, GP54, GP55, GP56
Estudos e pesquisas em educação de jovens e adultos GP1, GP6, GP8, GP11, GP20, GP24, GP25, G32, GP39, GP40, GP42, GP55
Educação popular GP19, GP27, GP51, GP52, GP58, GP59
Políticas públicas na EJA GP3, GP4, GP12, GP22, GP26, GP35
EJA e processos de ensino-aprendizagem GP18, GP23, GP31, G32, GP41
Inclusão social e diversidade GP11, GP49, GP58, GP59
Inter-relação pesquisa e extensão GP4, GP9, GP23, GP43
Educação de pessoas jovens, adultas e idosas GP21, G32, GP36, GP44
Educação em contexto de privação de liberdade GP37, GP454, GP54
Formação de professores na EJA GP34, G32, GP40
Educação e aprendizado ao longo da vida GP15, GP34
Tecnologias na EJA GP38, GP41
Educação ao longo da vida GP15, GP34
EJA no campo GP55
Educação de jovens, adultos e idosos surdos GP56
Letramento na EJA GP18
Movimentos sociais GP51
Paulo Freire e a EJA GP54
Trabalho e EJA GP5

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

Observa-se que há uma ampliação de problemáticas a serem enfrentadas pelos grupos de pesquisa, mostrando-se o aprofundamento do campo ao observar a sigla EJA ou o termo educação de jovens e adultos na maioria das nomenclaturas dos grupos, reiterado nas linhas de pesquisa, situados no DGP.

As categorias educação de jovens e adultos, sujeitos da EJA e políticas públicas têm um lugar de destaque no conjunto dos grupos, assim como ocorreu na análise das teses estudadas da investigação de 2019. Outras marcam menor representatividade, como aprendizado e educação ao longo da vida, educação popular, educação profissional, educação em contexto de privação de liberdade, educação de jovens, adultos e idosos surdos, questões étnico-raciais e EJA, trabalho e EJA, tecnologia na EJA, letramento na EJA e inclusão social e diversidade.

Visualiza-se uma diversidade de temas abordados pelos grupos de pesquisa, o que nos indica como as diferentes problemáticas da EJA são estudadas em diversas instituições acadêmicas e a importância dessas categorias no contexto das políticas públicas, da formação de professores e das práticas pedagógicas na EJA.

Em um breve olhar, destaca-se a ausência de questões relacionadas a currículo e princípios pedagógicos de EJA, avaliação na EJA, as questões étnico-raciais na EJA e formação docente. Essas questões foram identificadas em grupos que não tinham EJA como foco central, mas a EJA constitui o lugar em que essas questões eram debatidas e nem sempre com a profundidade necessária para os estudos voltados à EJA.

Genealogia dos grupos de pesquisa em EJA

Por meio do levantamento dos dados dos grupos de pesquisa, foi possível identificar relações entre os membros constituintes, em especial no que se refere à relação de historicidade entre orientador e orientando, permitindo elaborar uma rede da capilaridade dos pesquisadores. Ressalta-se que essa capilaridade nem sempre se refere a uma relação epistemológica, mas é construída pelas condições objetivas de ofertas de cursos de pós-graduação no Brasil. Em decorrência disso, os grupos de pesquisa acabam por se tornar os importantes centros de disseminação dos estudos sobre educação e, no caso deste artigo, da EJA, e isso é percebido pela genealogia dos grupos aqui identificada.

Entende-se por genealogia o estudo da origem de grupos sociais, assim como sua evolução e dispersão, dispensando-se, nesse caso, as questões referentes às origens biológicas e genéticas. Tomando esse conceito, assume-se como genealogia aqui o estudo da capilaridade, origem e dispersão acadêmica e intelectual dos grupos de pesquisa. Desse modo, é apresentada, a seguir, por meio de um mapa conceitual, a genealogia dos grupos de pesquisa sobre EJA no Brasil. Nesse mapa conceitual, foi identificada a data de defesa das teses dos pesquisadores, o que permitiu compreender em que momento histórico e político do país e da pós-graduação em Educação se deu sua formação.

Atenta-se ao fato de que, pela limitação espacial, privilegiou-se o destaque aos pesquisadores que são, nos dias de hoje, importantes referências para o campo de estudo da EJA, embora tenham sido identificados outros nomes que têm contribuições significativas para a EJA, mas suas teses não estavam on-line, assim como outros nomes, cujos orientadores não fizeram sua formação doutoral no Brasil, além de evidenciar o aumento de novos investigadores e, portanto, novos intelectuais da área. Informa-se que essa genealogia foi construída no estudo doutoral com dados de 2019. No entanto, na análise atual, essa genealogia se encontra pertinente ainda, mas acrescida de novos pesquisadores, os quais são representados ao se identificar os líderes atuais dos grupos de pesquisa (tabelas 1 e 3).

Fonte: Elaboração das autoras com dados da pesquisa.

Figura 1 Genealogia dos GP sobre EJA 

É possível perceber quatro intelectuais brasileiros que estão na base da genealogia histórica dos grupos de pesquisa sobre EJA no Brasil, são eles: Amélia Domingues de Castro, Gerd Bornheim, Florestan Fernandes e Joel Martins. A seguir, esses estudiosos serão apresentados para uma melhor compreensão das origens do pensamento sobre a EJA que se desenvolve entre aproximações e divergências, e se amplia até a atualidade.

Amélia Americano Domingues de Castro nasceu em 1920, na cidade do Rio de Janeiro, e faleceu no ano de 2020. Segundo informações da Academia Paulista de Educação (“Comunicado - Nota de falecimento Professora Amélia Americano Domingues de Castro - 30/08/2020”, 2020), formou-se em Geografia e História pela USP em 1941, em 1953 concluiu o curso de Filosofia e em 1963 obteve a livre-docência pela mesma universidade, com a pesquisa intitulada Didática do estudo: Na perspectiva do desenvolvimento intelectual (Castro, 1963). Pesquisadora dedicada ao aprofundamento das questões da didática, Amélia Domingues de Castro é considerada uma das pessoas que introduziram o estudo dos escritos de Jean Piaget no final da década de 1940 no Brasil, principalmente a aplicação da teoria de Piaget às práticas pedagógicas (Vasconcelos, 1996); e um de seus livros mais conhecido é Piaget e a didática (Castro, 1974). Não se pode desconsiderar a controversa participação de Amélia Domingues de Castro na votação do manifesto contra as aposentadorias compulsórias, baseadas no Ato Institucional n. 5, em 1969. A professora proferiu o único voto contra o manifesto de protesto da Congregação da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, historicização feita no livro de Giannazi (2014). Foi a única docente a receber o título de Professor Emérito por estas três universidades paulistas: USP, Unesp e Unicamp. Ocupou a Cadeira n. 22 da Academia Paulista de Educação. Por ser estudiosa da didática e ligada às teorias de Piaget, pode-se inferir que Amélia Domingues de Castro aproxima-se do estruturalismo enquanto concepção teórica. Essa intelectual está na raiz genealógica do grupo de pesquisa 2: Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos, da Unicamp.

Gerd Alberto Bornheim nasceu no estado do Rio Grande do Sul, em 1929, e faleceu no ano de 2002. Graduou-se em Filosofia em 1951 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; em 1953 começou a estudar em Paris, na Universidade de Sorbonne, época em que conviveu com intelectuais como Merleau-Ponty, Piaget e Bachelard. De volta ao Brasil, desenvolveu importantes trabalhos sobre o teatro e reflexões estéticas, destacando a dimensão histórica nas pesquisas filosóficas, preocupando-se notadamente com os problemas contemporâneos e suas articulações políticas e práticas, inclusive apoiando os jovens universitários que participavam da resistência à ditadura militar - comportamento esse que resultou em sua cassação como docente em 1969. Para Paz (2018), foram mais de 40 anos de reflexão sobre a atualidade das práticas culturais, sendo que a linguagem e a comunicação sempre estiveram presentes no percurso, contribuindo para a obtenção de um novo acesso às expressões culturais e à valorização de tais expressões em face da sua polissemia. Bornheim é autor de importantes obras como: O sentido e a máscara (2020), Introdução ao filosofar: O pensamento filosófico em bases existenciais (2009), Metafísica e finitude (2001). Filósofo estudioso de Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger, Gerd Bornheim pode ser considerado um conhecedor da fenomenologia. Esse intelectual é raiz histórica do grupo de pesquisa 6: Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores, da UFF.

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no ano de 1920, e faleceu no ano de 1995. Em 1941, ingressou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cursando Ciências Sociais. Em 1945, iniciou a carreira docente como assistente do professor Fernando de Azevedo, na disciplina de sociologia. Florestan Fernandes ascendeu rapidamente na titulação universitária: o mestrado em 1947, o doutorado em 1951 e a livre-docência em 1953 (Fernandes, 2015). Lutou ativamente contra a ditadura, sendo, em decorrência disso, cassado e aposentado compulsoriamente em 1969. Escreveu importantes obras como: A revolução burguesa no Brasil: Ensaio de interpretação sociológica (1976), Poder e contrapoder na América Latina (2015), O que é revolução (2024). Foi deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores na Assembleia Nacional Constituinte, auxiliando na pavimentação do caminho para a democracia. Fernandes (2015) o define como um sociólogo socialista, sendo até hoje referência teórica e prática para diversos estudos no campo das ciências humanas de modo amplo. Pode-se inferir que Florestan Fernandes está alinhado à perspectiva materialista histórica do fundamento marxista. Esse intelectual é raiz dos mais antigos grupos de pesquisa sobre EJA no Brasil, espraiando-se nos grupos: GP1, GP2, GP3, GP5, GP8 e GP16.

Joel Martins nasceu no ano de 1920 e faleceu em 1993, na cidade de São Paulo. Graduou- -se em Pedagogia e Filosofia pela Universidade de São Paulo, tendo sido professor da rede pública estadual de São Paulo. Também pela USP, desenvolveu seu estudo doutoral em psicologia da educação, finalizado em 1953. Ainda na década de 1950, trabalhou com Fernando de Azevedo, a convite de Anísio Teixeira, no Centro Regional de Pesquisas Educacionais (Buffa & Nosella, 1991). Ainda segundo os autores, Joel Martins foi severamente criticado por sua formação estadunidense e seu trabalho junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que, no início da década de 1960, era associado à tentativa de vender a universidade brasileira aos interesses americanos. No fim da década de 1960, era professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde esteve engajado na vanguarda da pós-graduação, sendo responsável pelo planejamento e implementação de diversos programas nas universidades do país. Saviani conviveu com o professor Joel Martins no momento da regulamentação dos programas de pós-graduação na PUC-SP e publicou um importante relato, intitulado “O protagonismo de Joel Martins na pós-graduação” (Saviani, 2005), mostrando os processos de luta e enfrentamento para a formação dos intelectuais e cientistas brasileiros. Saviani (2005) relata que, em 1968, Joel Martins já despontava como o principal articulador dos estudos no âmbito da pós-graduação e do desenvolvimento de pesquisas na PUC-SP. No que diz respeito à visão de mundo, Joel Martins mesmo se definia como “fenomenólogo do meu jeito”, considerando ser possível realizar as convergências entre o marxismo e a fenomenologia (Buffa & Nosella, 1991). Esse intelectual é raiz de diversos grupos de pesquisa sobre EJA, tendo sua capilaridade nos grupos: GP0 (antigo GP7), GP7, GP8, GP9, GP10, GP12 e GP25.

No aprofundamento da denominada genealogia do pensamento que fundamenta os pesquisadores vinculados a grupos de pesquisa sobre EJA, foi interessante observar que os quatro intelectuais, sendo apenas uma mulher, nasceram na década de 1920, anos esses que foram palco de grandes debates educacionais, época dos Pioneiros da Educação Nova e das grandes reformas estaduais de ensino. Também os quatro pensadores tiveram seu apogeu acadêmico nos anos 1960, passando por todas as transformações provocadas pela ditadura militar, cada um lidando com elas a seu modo. Sendo assim, são sujeitos de grande relevância para o desenvolvimento da práxis no campo da educação brasileira e, sobremaneira, para a formação do quadro de intelectuais no âmbito da pós-graduação do país.

É importante situar que diferentes perspectivas epistemológicas2 orientavam os processos e dinâmicas de pesquisa de Amélia Domingues de Castro, Gerd Bornheim, Florestan Fernandes e Joel Martins. Destaca-se, na maioria dos casos, mas não de forma direta, que essa aproximação às raízes do pensamento dos intelectuais que influenciam os estudos da EJA deu-se pela linha de orientação na pós-graduação e, por essa razão, é importante salientar alguns pontos: as orientações não possuem caráter determinista, assim como na genealogia genética há traços que se mantêm e outros que não passam às próximas gerações; há que se considerar o caráter meramente formal em que algumas orientações ocorreram, principalmente nas décadas de 1950 e 1960, quando a formação acadêmica em nível doutoral, muitas vezes, era realizada no exterior e em poucas universidades no Brasil, dando ao orientador e orientando características diferentes das que estão presentes nos dias atuais, muito mais ligadas à titulação de sujeitos já inseridos na dimensão da intelectualidade; os pesquisadores em nível doutoral possuem relativa autonomia teórica frente aos seus orientadores, que podem trabalhar mais como mediadores do que indutores intelectuais de seus alunos.

Genealogia histórica

Ainda enquanto destaque manifestado nos dados empíricos, foi viável identificar o ano de defesa de doutorado de cada um dos pesquisadores presentes no mapeamento. Localiza-se, cronologicamente, a trajetória genealógica dos pesquisadores, em seu sentido histórico e não - necessariamente - epistemológico, como já foi reafirmado, que provocou repercussões objetivas no campo da pesquisa educacional. Amélia Domingues de Castro, Florestan Fernandes, Joel Martins e Gerd Bornheim concluíram seus estudos doutorais na década de 1950, época de efervescência de grande progresso intelectual, valorização dos saberes científicos e reconhecimento do Brasil como território fecundo para o desenvolvimento de suas próprias epistemologias, tendo, como exemplo, a tese de Florestan Fernandes (1952), intitulada A função social da guerra na sociedade Tupinambá, defendida em 1951 na USP.

Na década de 1970 estão localizados os estudos de Newton Balzan, Celso Beisiegel, Ana Maria Saul e Dermeval Saviani, em um contexto de ditadura - inclusive os anos de chumbo, período compreendido de 1968 a 1974, os mais repressivos da ditadura militar brasileira. Essa conjuntura influenciou as pesquisas daquele tempo, que contestavam os cenários que se apresentavam, como, por exemplo, a tese de Celso Beisiegel, intitulada A educação de adultos analfabetos no estado de São Paulo, defendida em 1972 na USP; e a pesquisa de Dermeval Saviani, intitulada O conceito de sistema na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, defendida em 1971 na PUC-SP.

Nos anos 1980, encontram-se as teses doutorais de Fabio Beck, Leda Scheibe, Osmar Fávero e Leandro Konder. Produzidas nas circunstâncias da redemocratização brasileira, os autores procuravam compreender os atos ocorridos durante a ditadura e prospectar com otimismo os próximos passos da mais recente democracia, como, por exemplo, o estudo de Osmar Fávero, intitulado Uma pedagogia da participação popular: Análise da prática educativa do MEB - Movimento de Educação de Base (1961-1966), de 1984 na PUC-SP (Fávero, 2006); e a tese de Leda Scheibe, intitulada Pedagogia universitária e transformação social, de 1987, também na PUC-SP.

O início dos anos 1980 é chamado por Saviani (2000) de período da fase de consolidação, em que se reduz a abertura de novos programas. Em 1984, houve a criação do Programa de Educação Matemática da Unesp, campus de Rio Claro, e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. Posteriormente há a expansão de criação dos programas, que se acelera nos anos 1990, assim como nos anos 2000 e 2010, com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (2001-2010) e Dilma Roussef (2011-2016), tanto para cursos de mestrado como de doutorado. Foi nesse contexto que localizamos a produção acadêmica das décadas de 1990, 2000 e 2010. A década de 1990 foi marcada por importantes estudos que trouxeram contribuições para o campo educativo, particularmente para a EJA. Esse contexto impulsionou diversas teses específicas sobre a área e esse mapeamento torna-se evidente nas investigações de Leôncio Soares, intitulada Educação de adultos em Minas Gerais: Continuidades e rupturas, de 1995 defendida na USP; de Sérgio Haddad, com o título Estado e educação de adultos (1964-1985), também defendida na USP em 1991; e de Sonia Giubilei, nomeada Trabalhando com adultos, formando professores, de 1993 na Unicamp.

Na sequência, na primeira década dos anos 2000, com uma maior estruturação do campo, assim como o aumento no número dos grupos de pesquisa sobre EJA, foram desenvolvidos estudos que passaram a se debruçar sobre as especificidades objetivas encontradas empiricamente, principalmente a formação docente, a constituição da identidade dos programas, as questões relativas ao direito e as concepções da área. Também, nesse período, já se contava com as primeiras reuniões do Grupo de Trabalho Educação de Pessoas Jovens e Adultos da ANPEd. Dentre os pesquisadores, selecionam-se as teses de Silmara de Campos, intitulada Histórias e memórias de educandos e educadores na constituição da identidade do Projeto Educativo de Integração Social-Peis: Referências em políticas públicas e institucionais para a educação de jovens e adultos e formação de educadores (2004, Unicamp); A política de formação de professores que atuam na educação de jovens e adultos em Goiás na década de 1990 de Maria Margarida Machado (2002, PUC-SP); Educação de jovens e adultos: Direito, concepções e sentidos de Jane Paiva (2005, UFF); A constituição da docência entre professores de escolarização inicial de jovens e adultos de Maria Hermínia Lage Fernandes Laffin (2006, UFSC); e Educação de jovens e adultos ou educação da classe trabalhadora? Concepções em disputa na contemporaneidade brasileira de Jaqueline Pereira Ventura (2008, UFF).

Já os anos 2010 apresentam novos debates influenciados por anos de relativo aumento nos investimentos governamentais no campo da ciência e educação, mas que não arrefeceram as lutas pela defesa da EJA; assim, encontramos assuntos relativos a financiamento, espaços além da escola, acesso e permanência, gênero e sexualidade, dentre outros. Destacam-se os estudos doutorais de Roberto Catelli Júnior, intitulado Políticas de certificação por meio de exames nacionais para a educação de jovens e adultos: Um estudo comparado entre Brasil, Chile e México (2016, USP); de Samira Vigano, intitulado Sujeitos jovens e adultos LGBT: Diálogos sobre gênero, sexualidade e escolarização (2019, UFSC); de Heli de Oliveira, intitulado Educação de jovens e adultos em espaços religiosos: Escolhas, negociações e conflitos (2012, UFMG); de Sandra Leite, intitulado O direito à educação básica para jovens e adultos da modalidade EJA no Brasil: Um resgate histórico e legal (2013, Unicamp); e o de Anderson Carlos Santos de Abreu, com o título Bases epistemológicas no campo da pesquisa em educação de jovens e adultos no Brasil (2018, UFSC).

Tomando esse processo de análise da constituição dos grupos de pesquisa sobre EJA, da identificação dos pesquisadores que se dedicam à compreensão da EJA e da produção das teses, foi possível entender o desenrolar histórico ao longo das décadas, percebendo que as mudanças no contexto social e acadêmico impactam fortemente as investigações, em um movimento dialético entre as práticas percebidas e as teorias estudadas.

Também não se pode desconsiderar, podendo ser percebido visualmente, o aumento da representatividade das mulheres dentre os pesquisadores no espaço acadêmico. Historicamente, a ciência de modo amplo e as pesquisas acadêmicas no campo da educação, de modo específico, foram constituídas pelo ponto de vista dos homens, realizando seus interesses e demandas. Mesmo assim, com o crescimento da participação de mulheres nas atividades científicas, seu reconhecimento na carreira ainda é reduzido, representando a minoria nos cargos de administração e gestão nos centros de ensino superior, inclusive nos espaços que elas são a maioria, como nos centros de Filosofia e Ciências Humanas e nos centros de Letras e Artes (Leta, 2003). Ou seja, ainda que tenha ocorrido um aumento quantitativo no número de mulheres inseridas nos processos de pesquisa acadêmica no campo da EJA, essas ainda carecem de reconhecimento em suas carreiras científicas.

A influência de Paulo Freire na constituição dos grupos de pesquisa

Outro fato que chama a atenção é a influência de Paulo Freire no mapeamento elencado, embora ele não tenha coordenado GP, pois, considerando que a criação do diretório de grupos de pesquisa do CNPq é de 1992 e, após essa data, Paulo Freire atuou pouco tempo no âmbito universitário, quando veio a falecer em 1997. Contudo, sua importância para a constituição dos GP e do campo da educação, em geral, e da EJA, de modo específico, dá-se por sua presença em títulos e linhas de pesquisas dos GP, além de se contar com ex-orientandos desse educador. Além disso, sua historicidade foi materializada em suas ações desenvolvidas nos anos de trabalho, principalmente na alfabetização de adultos, tanto no Brasil como em vários outros locais do mundo. Já em 1959 apresenta sua tese de concurso público para a cadeira de História e Filosofia da Educação de Belas Artes de Pernambuco da Universidade Federal do Recife, intitulada Educação e atualidade brasileira (Freire, 1959). Sua obra é vasta e nos deixou um legado carregado com seus princípios éticos, filosóficos e político-pedagógicos, documentados em cartas, artigos, ensaios, livros, vídeos gravados com entrevistas e aulas magnas.

Em uma busca no repositório Pergamum da PUC-SP, foram localizados três trabalhos orientados por esse educador: em 1987, duas dissertações, a de Maria Eliete Santiago, que desenvolveu uma proposta de intervenção curricular junto a professores de 1ª a 4ª série, e a de Antonio Lino Rodrigues de Sá sobre a educação popular em uma escola pública; em 1997, foi identificada uma tese, a de Mário Sérgio Cortella sobre a escola e o conhecimento. Já no sistema Acervus da Unicamp, foram localizadas duas teses no ano de 1987, uma de Egle Pontes Franchi, que estudou as questões linguísticas no processo de alfabetização, e outra de Maria Oly Pey sobre o discurso pedagógico na escola. Na análise dos grupos de pesquisa, foi constatada uma orientação de mestrado no ano de 1987 de Antonio Lino Rodrigues de Sá, cuja pesquisa é intitulada de Alternativa de educação popular em escola pública: Um estudo sobre a experiência da Escola La Salle em Rondonópolis-MT (Sá, 1993). Esse professor coordena o GP Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos da UFMS. Além disso, foi identificado um grupo criado em 2018, cujo nome toma como foco o educador - Núcleo de Estudos e Pesquisas Paulo Freire (Nepaf) - na UESB, que tem como líderes Maria de Cássia Passos Brandão Gonçalves e Inês Angélica Andrade Freire.

Freire atuou política e pedagogicamente de um modo que influenciou diversos outros intelectuais, e aqui podemos citar Joel Martins que, de acordo com Buffa e Nosella (1991), estabelecia uma relação entre Marx e o intelectual brasileiro. Paiva (1987) reforça que o pensamento de Paulo Freire se apoiava em uma visão cristã de mundo, articulando a fenomenologia e a dialética marxista e, em decorrência disso, mostrou-se aprazível para diversos grupos que se colocavam ativamente nos movimentos sociais das décadas de 1960 e 1970. Até os dias atuais, é um autor que fundamenta os estudos da EJA.

Considerações finais

Observou-se que o desenvolvimento do pensamento sobre a EJA e dos seus intelectuais não ocorreu apenas no interior dos grupos de pesquisa, ao contrário, há uma dinâmica entre os fatos históricos que mobilizaram os setores da sociedade civil e as instâncias científicas em um movimento contínuo e indivisível da realidade concreta. Ou seja, a formação intelectual do campo da EJA dá-se na materialidade do mundo que se apresenta: intensamente ligada às lutas societárias, nas dimensões políticas, acadêmicas, culturais e produtivas.

Os investigadores destacados na genealogia dos grupos de pesquisa constituem a identificação do grupo de intelectuais que originaram o campo, assim como aqueles que dão continuidade às pesquisas em EJA no âmbito da pós-graduação, dos grupos de pesquisa e da militância em EJA.

Essa genealogia evidencia o movimento histórico desses intelectuais na construção de referenciais teóricos e metodológicos para a EJA e de seu papel social na própria constituição da EJA como área do conhecimento, uma vez que, no conjunto da produção desses intelectuais, vêm-se constituindo epistemologias que se relacionam aos objetos das pesquisas, o que permite reconhecer a EJA como campo de estudo importante para a educação brasileira e substancialmente para a pós-graduação.

Apostar na investigação sobre a EJA e sobre o que vem sendo produzido nesse campo é uma das possibilidades de fortalecimento da área, no sentido de objetivar políticas de oferta de EJA, de formação docente e de financiamento para novas pesquisas.

Por último, registra-se o agradecimento àqueles intelectuais que vieram antes de nós, pois sua historicidade nos possibilita olhar para a riqueza da produção teórica e de suas contribuições para as políticas públicas e para condições atuais dos grupos de pesquisa e da investigação na EJA!

1Em artigo anterior (Mecheln & Laffin, 2019), foi publicada parte da pesquisa que tinha como objetivo identificar os grupos de pesquisa voltados à Educação de Jovens e Adultos (EJA) cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tendo como foco a distribuição desses grupos nas diferentes regiões do país. Os dados e análise deste artigo foram ampliados, particularmente, no que se refere à genealogia histórica desses grupos, assim como houve atualização de novos grupos criados até o presente ano.

2Para mais informações consultar Mecheln (2021). O debate sobre as perspectivas epistemológicas foi realizado com base em Meksenas (2011).

Como citar este artigoMecheln, M. Z. von, & Laffin, M. H. L. F. (2025). A genealogia dos grupos de pesquisa em EJA: Sua formação e sua intelectualidade. Cadernos de Pesquisa, 55, Artigo e11716. https://doi.org/10.1590/1980531411716

Disponibilidade de dados

Os dados subjacentes à pesquisa estão informados no artigo.

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Recebido: 22 de Janeiro de 2025; Aceito: 28 de Julho de 2025

Editor responsável

Rodnei Pereira https://orcid.org/0000-0002-2315-7321

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