O livro “Educação de mulheres ao longo dos séculos XIX e XX” é uma coletânea composta por prefácio, apresentação e oito capítulos, escritos por professoras/pesquisadoras do Grupo de Pesquisa Educação de Mulheres no Século XIX e XX pertencentes a instituições universitárias de todas as regiões do Brasil e de Portugal.
O prefácio e a apresentação são da autoria das pesquisadoras Fabiana de Sena da Silva e Sonia Maria da Silva Araújo. No primeiro (pre- fácio), Silva (2022, p. 8) sublinha: “Este livro enfatiza a complexidade e a diversidade das experiências e realizações vivenciadas por mulheres por meio da educação em diferentes épocas [...]. Por isso, nos atravessa no tempo, porque as histórias aqui contadas não são só delas, são de todas e todos”. No segundo (apresentação), Araújo (2022, p.14) realça: “[O livro] traz à superfície histórias sobre/de mulheres na sua interseção com a educação.”
No Capítulo Um, “A vasta educação de bons costumes para as mulheres (Caicó – Rio Grande do Norte, séculos XVIII e XIX)”, Marta Maria de Araújo e Cristina Coimbra Vieira analisam 41 assentos de matrimônio (25 do século XVIII e 16 do século XIX), em conformidade com os conceitos de habitus e classes de habitus, do sociólogo Pierre Bourdieu, particularmente de mulheres que se casaram mais de uma vez na então Freguesia da Gloriosa Senhora Sant’Ana do Seridó. Nesses dois séculos, o sacramento do matri- mônio realizado em Caicó, no que diz respeito às mulheres que se casaram – uma ou mais vezes –, envolvia elementos simbólicos intermediários (exame da doutrina cristã, confissão etc.), como procedimentos religiosos, civis e pedagógicos, concernentes à socialização da educação e dos bons cos- tumes. Para as autoras, o habitus de mulheres se casarem mais de uma vez era consentâneo com classes de habitus (amor conjugal, amor afetivo, amor materno) propriamente para a perpetuação do capital cultural (educação dos bons costumes e escolarização dos filhos), com rituais de conveniência social e alianças Intersocietárias com as gerações mais jovens.
No Capítulo Dois, “Uma educação ‘moderna’ para as princesas do Brasil: as escolhas pedagógicas da condessa de Barral”, as autoras, Maria Celi Chaves Vasconcelos e Ana Cristina Borges Lopes Monteiro Francisco, analisam a educação das princesas Isabel e Leopoldina, filhas de D. Pedro II, que tiveram como preceptora a condessa de Barral. Para Vasconcelos e Francisco (2022, p. 35), ao convidar essa preceptora educada na França para educar as princesas, “[...] D. Pedro II elegia também o tipo de formação que julgava adequada às suas filhas”. Por seu turno, a condessa preceptora definiu um plano de estudos que abrangia desde instrução formal (matérias como Alemão, Álgebra, Botânica, Filosofia, Francês, Grego, Inglês, Latim, Português etc.) até aprendizados de etiqueta cerimonial, música, pintura, poesia, trabalhos manuais e exercícios físicos. Para as autoras, a formação integral das duas princesas, como intencionava D. Pedro II, assemelhava- -se à dos irmãos príncipes: Afonso Pedro de Alcântara e Pedro Afonso de Bragança.
O Capítulo Três – “Educação de mulheres ao longo dos séculos XIX e XX: uma análise bibliográfica (2018-2021)” –, escrito por Lia Machado Fiuza Fialho e Vanusa Nascimento Sabino Neves, objetiva a sistematização da produção acadêmica do Grupo de Pesquisa Educação de Mulheres acerca da história da educação de mulheres, publicada em periódicos científicos de 2018 a 2021, totalizando 166 artigos. Entre as abordagens teórico-meto- dológicas levadas a efeito nos trabalhos desenvolvidos, aparecem estudos biográficos, (auto)biográficos, histórias de vida, abordagens da história cultu- ral, da história social e da história oral, principalmente. Em geral, os artigos trazem à luz peculiaridades da educação de mulheres de classes sociais distintas em dif
No Capítulo Quatro – “Cartografia de mulheres intelectuais nos sécu- los XIX e XX: entre a educação e a militância no Pará” –, a autora, Laura Maria Silva Araújo Alves, delineia traços biográficos de dezoito mulheres intelectuais paraenses que se distinguiram como escritoras, poetisas, musicistas, teatró- loga, educadoras, jornalistas, além de militantes políticas. Evidentemente, para Alves (2022, p. 87), o cotidiano dessas mulheres e seus estilos de vida “[...] continuariam demarcados por assimetrias ao nível de suas reponsabili- dades familiares, profissionais e sociais”.
No Capítulo Cinco, “Mulheres e representações na imprensa peri- ódica paranaense no início do século XX, Diário da Tarde – lugar sócio/ econômico como espaço de reconhecimentos”, as autoras, Rosa Lydia Teixeira Corrêa e Maria Eduarda Garcia Alves, definem como fonte da pesquisa o jor- nal Diário da Tarde, de Curitiba, por publicar matérias que se reportavam às distintas representações da mulher paranaense. A partir da indagação “Como a mulher é representada nessa imprensa jornalística no início do século XX?”, as autoras classificam as matérias segundo as categorias “violência contra a mulher”, “anúncios de criadas e amas”, “compromissos sociais” e “professo- ras” (transferências, dispensas, exonerações, afastamentos por licença). Em relação a essa última categoria, não foi encontrado nas matérias nenhum enaltecimento do magistério ou mesmo do valor do trabalho das professoras de escolas primárias.
No Capítulo Seis, “A imprensa comunista como fonte de estudo para a história das mulheres e para a história da educação – memórias do jornal Momento Feminino (1947 a 1956)”, da autoria de Caren Victorino Regis e Lia Ciomar Macedo de Faria, são trazidos ao conhecimento de pesquisado- ras e pesquisadores matérias sobre educação feminina que foram veiculadas por um jornal do Partido Comunista do Brasil de título Momento Feminino, editado no Rio de Janeiro, o qual circulou nacionalmente por nove anos. Conforme Regis e Farias (2022, p. 119), o impresso Momento Feminino “[...] é uma memória subterrânea por sua dupla entrada: por ser um impresso feminino e militante”. Além do mais, é uma memória coletiva, política, e uma memória histórica, para conhecimento da história da educação de mulheres e de leituras femininas por meio de um impresso político e militante.
O Capítulo Sete – “Trajetória pioneira de Dorcelina Folador na ges- tão político-educacional de Mundo Novo-MS (1996-1999)” –, escrito por Alessandra Cristina Furtado e Ana Karoliny Teixeira da Costa, detém-se na trajetória e nas representações de Dorcelina de Oliveira Folador, militante na política e nos movimentos sociais. No município de Mundo Novo (Mato Grosso do Sul), Dorcelina de Oliveira Folador exerceu o cargo de pre- feita (1997-1999) e implementou o Programa Bolsa Escola, dentre outros. Na juventude, ela fora uma das lideranças da Pastoral da Terra da Igreja Católica e correspondente do Jornal dos Sem Terra, órgão do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Na apreciação de Furtado e Costa (2022, p. 136), a trajetória política e nos movimentos sociais de Dorcelina Folador reverbera “[...] a representação de uma figura feminina [...] que deixa um legado acerca de uma nova cultura educacional [...], a partir do entendi- mento do sujeito em sua integralidade capaz de conquistar sua emancipação social [...]”.
O Capítulo Oito – Norma Porto Carreiro Coelho e Josina Maria Lopes de Godoy: as autoras do ‘Livro de Leitura para Adultos’” –, escrito por Raylane Andreza Dias Navarro Barreto e Maria de Souza Cavalcante, des- vela os processos formativos, as atuações intelectuais e militantes na causa da educação popular de Norma Coelho e Josina Godoy, autoras do Livro de Leitura para Adultos, utilizado no Movimento de Cultura Popular da cidade de Recife na década de 1960. Para Barreto e Cavalcante (2022, p. 142), o livro de Norma Coelho e Josina Godoy “Com aparência simples constituiu- -se um instrumento emancipador, pois era uma Cartilha que ensinava a ler e escrever, mas também apresentava elementos que dotavam o estudante de noções básicas de cidadania e democracia.” Sem dúvida, a militância na causa da educação popular de intelectuais como Norma Porto Carreiro Coelho e Josina Maria Lopes de Godoy põe em destaque a história de mulhe- res que são universais e protagonistas como escritoras de livros para adultos.



