SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.62 número72A pós-graduação profissional brasileira: entre o desenvolvimento de uma nova vertente e a distinção da diplomação existenteRelações entre fluência verbal e alfabetização: explorando a influência da linguagem oral no desempenho ulterior em leitura e escrita índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Revista Educação em Questão

versão impressa ISSN 0102-7735versão On-line ISSN 1981-1802

Rev. Educ. Questão vol.62 no.72 Natal abr./jun 2024  Epub 02-Dez-2024

https://doi.org/10.21680/1981-1802.2024v62n72id36473 

Artigos

Mulheres quilombolas e presenças no ensino superior

Mujeres quilombolas y presencia en la educación superior

Cynthia Cristina do Nascimento1 

Ms. Cynthia Cristina do Nascimento, Assistente Social, Universidade Federal de Mato Grosso (Brasil), Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais e Educação (GPMSE), Orcid id: https://orcid.org/0000-0002-5211-606X, E-mail: cynthia.nascimento@ufmt.br


http://orcid.org/0000-0002-5211-606X

Maria Aparecida Rezende1 

Prof.ª Dr.ª Maria Aparecida Rezende, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Mato Grosso (Brasil), Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais e Educação (GPMSE), Orcid id: https://orcid.org/0000-0001-8194-2443, E-mail: rezemelo@gmail.com


http://orcid.org/0000-0001-8194-2443

1Universidade Federal do Mato Grosso (Brasil)


Resumo

A universidade, embora potencialmente transformadora, também impõe padrões eurocêntricos que marginalizam perspectivas quilombolas. Nesse sentido, esse artigo tem como objetivo explorar, através dos relatos, as categorias de conquista e re-existência quilombola no contexto universitário, interpretadas à luz da fenomenologia Merleau-Pontyana. Metodologicamente, o estudo foi desenvolvido a partir da produção e interpretação de relatos de quatro estudantes quilombolas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Constatamos casos de sucesso acadêmico que enriquecem o conhecimento sobre suas experiências e percepções diante dos desafios estruturais. A implementação do Programa de Inclusão de Estudantes Quilombolas na UFMT ilustra um avanço significativo em termos de inclusão e representatividade. As mulheres quilombolas não apenas resistem, mas também se afirmam como agentes de mudança e resistência cultural, influenciando positivamente as suas comunidades. Portanto, o estudo destaca o impacto das políticas de ações afirmativas na promoção da igualdade racial e na democratização do acesso e permanência no ensino superior.

Palavras-chave: Mulher Quilombola; Educação; Acesso; Permanência

Resumen

La universidad, si bien es potencialmente transformadora, también impone estándares eurocéntricos que marginan las perspectivas quilombolas. En este sentido, este artículo tiene como objetivo explorar, a través de los relatos, las categorías de conquista y reexistencia quilombola en el contexto universitario, interpretadas a la luz de la fenomenología Merleau-Pontyana. Metodológicamente, el estudio se desarrolló a partir de la producción e interpretación de informes de cuatro estudiantes quilombolas de la Universidad Federal de Mato Grosso (UFMT). Encontramos casos de éxito académico que enriquecen el conocimiento sobre sus experiencias y percepciones frente a desafíos estructurales. La implementación del Programa de Inclusión Estudiantil Quilombola en la UFMT representa un avance significativo en términos de inclusión y representatividad. Las mujeres quilombolas no solo resisten, sino que también se afirman como agentes de cambio y resistencia cultural, influyendo positivamente en sus comunidades. Por lo tanto, el estudio destaca el impacto de las políticas de acción afirmativa en la promoción de la igualdad racial y la democratización del acceso y la permanencia en la educación superior.

Palabras clave: Mujer Quilombola; Educación; Acceso; Permanência

Abstract

The university, although potentially transformative, also imposes Eurocentric standards that marginalize quilombola perspectives. In this sense, this article aims to explore, through personal narratives, the categories of quilombola conquest and re-existence within the university context, interpreted in light of MerleauPonty's phenomenology. Methodologically, the study was developed from the production and interpretation of narratives from four quilombola students at the Federal University of Mato Grosso (UFMT). We identified cases of academic success that enrich our understanding of their experiences and perceptions in the face of structural challenges. The implementation of the Quilombola Student Inclusion Program at UFMT illustrates a significant advancement in terms of inclusion and representation. Quilombola women not only resist but also assert themselves as agents of change and cultural resistance, positively influencing their communities. Therefore, this study highlights the impact of affirmative action policies in promoting racial equality and democratizing access to and retention in higher education.

Keywords: Quilombola Women; Education; Access; Retention

Introdução

As mulheres negras brasileiras enfrentam um contexto desfavorável que revela a profundidade das desigualdades estruturais, afetando suas vivências e sociabilidades e obliterando suas oportunidades. A universidade, apesar de ser um espaço com potencial transformador, pode impor padrões eurocêntricos de conhecimento que marginalizam e desvalorizam as perspectivas quilombolas.

Em 2017, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) implementou em prática o Programa de Inclusão de Estudantes Quilombolas (PROINQ), fruto do movimento social quilombola, em busca da garantir o acesso ao ensino superior. Esse processo, apesar das resistências, resultou na instituição de uma política específica para quilombolas. Por conseguinte, houve a criação de sobrevagas, por um período de dez anos, em cursos de graduação, nos quatro campis da instituição. Desde a implementação dessa política de ação afirmativa, tem sido possível observar uma crescente representatividade das mulheres quilombolas. Portanto, o posicionamento do corpo da mulher negra, fora dos lugares sociais historicamente estereotipados, manifesta-se como uma forma de revolução social.

Assim, o objetivo do artigo é explorar, por meio dos relatos, as categorias de conquista e re-existência quilombola no contexto universitário. Com base nesse estudo, que aborda um tema de grande relevância e está no centro das discussões acadêmicas e sociais em várias partes do mundo, o presente artigo destaca-se como um relevante contributo para o campo da educação pluriversal. As experiências que aqui descremos representam casos de sucesso acadêmico que produzem e compartilham conhecimentos relacionados às vivências e percepções do mundo das mulheres quilombolas. Por outro lado, a entrada de pessoas, historicamente tratadas como desiguais, no ensino superior tem produzido diversos conhecimentos e experiências em suas vivências políticas, sociais e culturais. Portanto, as ações afirmativas têm sido fundamentais para a promoção da igualdade racial e para o fortalecimento da democratização do acesso à educação formal.

A militância do Movimento Negro e o processo de democratização do país foram fundamentais para o avanço das políticas de ação afirmativa, especialmente as cotas raciais. Entretanto, a Lei de Cotas não tem contemplado as particularidades da educação quilombola, que estão diretamente ligadas às especificidades culturais pelo modo como essas comunidades vivem e se organizam socialmente, o que demanda uma educação específica e diferenciada (Freitas; Portela; Feres Júnior; Sá; Lima, 2019; Gomes, 2011).

O relevante levantamento realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) analisou as políticas de ação afirmativa para quilombolas em cursos de graduação, em universidades públicas, em 2019, assinala que a maior parte das ações afirmativas para quilombolas, nos quadros das universidades públicas, entrou em vigor no período posterior à implementação da Lei 12.711/12, lei que dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio, conhecida como Lei de Cotas.

São reservadas às cotas e subdivididas — metade para estudantes de escolas públicas que tenham renda familiar bruta igual ou inferior a um salário-mínimo e meio per capita e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário-mínimo e meio. Nesses casos, considera-se um percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas no estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa aponta, ainda, que as políticas de ação afirmativa para quilombolas, nas universidades públicas, não constituem uma política nacional, pois estão concentradas em poucos estados. A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) destaca-se como sendo um dos poucos casos na literatura em que quilombolas locais foram convocados para debater e desenvolver um modelo de política de cotas que os beneficiasse diretamente. (Freitas; Portela; Feres Júnior; Sá; Lima, 2019).

Quanto à sua estrutura, além da introdução, o artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente, discutimos brevemente os métodos de pesquisa utilizados; em seguida, apresentamos as colaboradoras. Na seção subsequente, expomos os resultados das interpretações dos relatos e, por fim, oferecemos algumas considerações finais.

Entre tramas e trilhas: configurações iniciais

Os fundamentos teóricos desse estudo baseiam-se na fenomenologia de Merleau-Ponty (2006), que enfatiza que a ciência é construída sobre o mundo vivido: “Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada” (p. 3). A pesquisa original da dissertação, orientada pela valorização da subjetividade e da experiência das mulheres negras quilombolas, universitárias permitiu amplificar e potencializar suas vozes. Os procedimentos empregados para a produção dos relatos incluíram a aplicação de formulários para a identificação das estudantes e a realização de entrevistas.

Para Merleau-Ponty (2006), o corpo é considerado nossa primeira via de acesso ao mundo, ao mesmo tempo que enfatiza a importância da percepção como uma experiência encarnada, na qual o corpo desempenha importante papel na construção do significado e na interpretação do mundo. Esse processo é visto não apenas como sensorial, mas também como uma atividade que integra dimensões emocionais e sociais. A corporeidade negra, historicamente marcada por estereótipos e opressões, exerce influência nessas experiências, configurando suas interações e percepções no mundo. Portanto, ao explorarmos essas nuances subjetivas e corpóreas estamos não apenas enriquecendo o nosso entendimento acadêmico, mas também nos engajando em um ato de empatia e responsabilidade social, conforme proposto por Merleau-Ponty, que nos convida a integrar a experiência humana em toda a sua complexidade na pesquisa acadêmica.

Por conseguinte, ao explorarmos os relatos das mulheres negras quilombolas percebemos uma experiência viva e dinâmica, entrelaçada às estruturas sociais e enriquecida pela narrativa e interpretação das intersecções de diferentes dimensões que configuram o mundo vivido. Os relatos que configurados como conquistas emergem com o protagonismo nas histórias, ao superar adversidades e alcançar objetivos acadêmicos significativos. Incluem a entrada e a permanência na universidade, a conclusão do curso de graduação, bem como a produção de conhecimento que valoriza a cultura e as questões das comunidades quilombolas. Mais ainda, ao imergirmos nessas experiências testemunhamos a força e a resistência dessas mulheres que rompem com as expectativas sociais e transformam as suas realidades por meio da educação.

Já, os relatos que interpretamos como re-existência quilombola podem ser compreendidos como um processo dinâmico que vai além de enfrentar desafios, remodelando ativamente a realidade. Eles redefinem os limites impostos pela sociedade por meio de mecanismos que garantem as suas existências materiais e simbólicas, no espaço universitário. Além disso, criam oportunidades educacionais e configuram uma narrativa que destaca a persistência e a perseverança das mulheres quilombolas.

Nesse texto estão descritos e interpretados relatos de quatro mulheres quilombolas, autodeclaradas negras que se voluntariaram para participar da pesquisa. Ingressaram na universidade nos anos de 2017 e 2018 via PROINQ; estão entre a faixa etária de 27 a 48 anos, distribuídas em diferentes áreas de conhecimento, a saber: Comunicação Social, Ciências Humanas e Ciências da Saúde. Durante a vivência universitária elas desenham seu lugar como sujeitas de enunciação e expressão de conhecimento. Essa conquista é concretizada ao realçar a sua pertença quilombola.

A pesquisa obteve aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n.º 65305822.2.0000.5690. As estudantes foram contatadas via e-mail institucional, com envio de convite para participação e documento de Consentimento Livre Esclarecido (CLE), contendo as diretrizes da pesquisa, teor das questões do formulário e da entrevista. Respeitando os parâmetros éticos optamos por adotar pseudônimos para a identificação das colaboradoras. A escolha dos nomes, realizada por elas, deu-se considerando a representatividade e os simbolismos que cada nome carrega, sendo nomes de mulheres negras anônimas ou públicas que marcaram a vivência das colaboradoras de forma singular.

Perfil das participantes

Benedita, Glória Maria, Maria e Tereza de Benguela emergem como figuras únicas e plurais, cada uma delas trazendo consigo vivências, desafios e motivações. No entanto, apresentam pontos que as conectam: são quilombolas, mães, ingressantes no ensino superior via programa específico, traçam suas trajetórias pela busca de emancipação via educação, com a intenção de retornar os conhecimentos acadêmicos em prol de ações para as suas comunidades. Entretanto, ainda que tenham esses pontos de confluência, elas não são um grupo homogêneo.

Benedita, 48 anos, traz consigo uma rica teia de vivências, desafios e motivações entrelaçados com a sua história sociofamiliar. Ela menciona ter atuado na presidência da associação de sua comunidade. Filha de uma união inter-racial, cresceu em uma família numerosa, composta por oito filhos. Seus pais sempre foram politicamente atuantes no contexto rural, transmitindo valores de engajamento e participação comunitária. Benedita começou a trabalhar aos 15 anos e, entre os irmãos, é a segunda a cursar o ensino superior.

Alguns irmãos completaram o ensino médio através da Educação de Jovens e Adultos (EJA), enquanto outros estudaram somente até a quarta série. Ela menciona que a sua mãe tinha receio de que saíssem de casa para estudar, porque teriam que morar na casa de parentes ou amigos. Nos dois encontros que tivemos, ela enfatizou a história de luta e resistência de sua comunidade para manutenção e preservação do território. Diariamente, ela pega a estrada para ir à universidade em busca de sua formação, servindo de inspiração para a filha que, recentemente, ingressou no ensino superior. A falta de escolas em seu território é uma questão evidente que impacta negativamente a sua comunidade.

Glória Maria, 27 anos, é filha de um casal com oito filhos, sustentados pela agricultura familiar. Mãe de uma menina de 9 anos de idade, a sua trajetória é caracterizada pela busca de conhecimento e crescimento pessoal, (que) refletindo o seu desejo de alcançar a emancipação por meio da educação. Em 2017, ela deixou a sua comunidade e mudou-se com a filha, tornando-se a primeira de sua família a ingressar no ensino superior. Recentemente, uma irmã e uma cunhada também entraram na universidade por meio do PROINQ. A importância da educação destaca-se ainda mais quando comparada à situação de seus pais, que não tiveram acesso à escolarização. Glória Maria iniciou a sua vida escolar em uma escola improvisada, de pau a pique na comunidade e, durante o ensino médio, enfrentou grandes dificuldades de locomoção por longas distâncias. Ela concluiu a graduação em julho de 2023.

Maria, 40 anos, viúva há seis anos, é mãe de três meninos de idades de 23, 14 e 09 anos e mora com os seus pais; a renda familiar provém da pensão recebida em decorrência do falecimento do marido, complementada (pela venda eventual de produtos cultivados na roça. A comunidade da Maria foi fundada por seu bisavô fugido de uma fazenda onde era escravizado e, atualmente, é composta por 112 pessoas. A comunidade foi reconhecida como quilombola, em 2012, mas ainda está em processo de titulação. Não há escola no território da comunidade, obrigando as crianças a se deslocar até à cidade para estudar. Maria é a segunda pessoa da família a alcançar o ensino superior, portanto, um feito ainda mais significativo, considerando os vinte anos que passou afastada dos estudos, devido à proibição do marido de estudar e trabalhar fora. Ela enfrenta, diariamente, o deslocamento da comunidade a Cuiabá para frequentar a universidade.

Tereza de Benguela deixou a sua comunidade para cursar o ensino médio, em Cuiabá, uma mudança que trouxe implicações significativas para o seu futuro. Com 30 anos de idade, Tereza tem um companheiro e tem uma filha de 9 anos. A comunidade a qual pertence foi reconhecida, em 2005, pela Fundação Cultural Palmares como um território tradicional, cuja ocupação remonta à descendência comum de pessoas escravizadas nos engenhos. Atualmente, a comunidade é composta por onze famílias. A falta de escolas na sua comunidade exige que as crianças se desloquem até a cidade em busca de educação. A Tereza reconhece a baixa qualidade do ensino e a falta de estrutura, na época em que estudou na comunidade.

Ao examinarmos a faixa etária das mulheres quilombolas, situada entre 27 e 48 anos, e a sua inserção na graduação percebemos uma entrada que se diferencia dos padrões convencionais, ocorrendo de forma mais “tardia”. Esse fenômeno, abordado sob a perspectiva interseccional, revela obstáculos que retardam o seu acesso no ensino superior. O marcador geracional não é um marcador isolado, mas, sim, interligado a outros aspectos da identidade, como raça, gênero e classe social. São muitas maneiras pelas quais a desigualdade racial se manifesta no acesso aos direitos e oportunidades e a escolarização é uma delas.

Mesmo quando as famílias adotam uma postura positiva, em relação à escolarização, as mulheres negras quilombolas enfrentam significativas barreiras. Essas barreiras são atribuídas, muitas vezes, à falta de estrutura nas escolas, de recursos e serviços públicos sociais para as famílias, falta de apoio e financiamento para o investimento rural, insegurança da regularização agrária, pouco estudo formal, condições precárias de assistência à saúde, habitação e transporte.

Portanto, para essas mulheres estar na universidade expressa a rejeição às interdições interpostas pelas estruturas sociais que perpetuam a discriminação. Essa subversão de expectativas contribui para a redefinição dos conceitos de sucesso acadêmico e enriquecem a diversidade de perspectivas e trajetórias dentro do ambiente universitário. Nesse sentido, essas mulheres não apenas alcançam uma posição acadêmica, mas também desafiam ativamente os sistemas que buscam mantê-las à margem.

(Re)conhecê-las por elas mesmas: vozes de mulheres quilombolas

O protagonismo das mulheres quilombolas se fortalece na luta pelo reconhecimento de seus modos de vida, territórios e direitos coletivos. É necessário dar audiência às diversas narrativas presentes em outros contextos. Dessa forma, esse momento se torna propício para destacarmos a capacidade do corpo negro de se libertar das construções sociais.

A entrada na universidade representou para essas mulheres negras quilombolas uma grande conquista, como ilustra o relato de Tereza de Benguela:

Terminei o ensino médio e 2013 e aí tentei o FIES, mas aí ficar muito caro, eu não ia conseguir pagar e aí fui fazendo cursos online entendeu! Minha filha era pequena quando eu e fiz o seletivo ainda fiz no último dia da inscrição. Bem antes passei um dia aqui em frente, disse um dia vou estudar aqui eu gosto daqui, não sei como. Quando eu vi o resultado, nossa só alegria, dei um grito, fiquei feliz, que era Deus né dando a oportunidade [...] porque era algo que para mim era impossível, nunca ia conseguir estudar aqui na universidade federal, se fosse por Enem (Tereza de Benguela, 2023).

O relato da Tereza destaca a determinação e a vontade de buscar oportunidades no ensino superior, mesmo que a realização desse desejo parecesse distante, na época. A conquista de ingressar na universidade assume um significado profundo, a interpretação subjetiva de uma oportunidade que ela considerava, inicialmente, como algo inatingível. Portanto, fica evidente a relevância da política de ação afirmativa para quilombolas, que viabilizou o ingresso ao ensino superior para muitas mulheres quilombolas.

Benedita (2023) afirma “[...] Foi uma novidade, ao mesmo tempo alegre de conseguir fazer uma faculdade federal que é difícil o acesso”, demonstrando a dualidade emocional de sua conquista. Esse relato revela como a sua percepção de universidade é influenciada não apenas pela conquista acadêmica em si, mas também pela consciência das barreiras estruturais que enfrentou, enfatizando, desse modo, a importância de reconhecer as dimensões emocionais e sociais envolvidas na experiência universitária.

De igual modo, é possível estabelecer uma ligação com o relato de Glória Maria, que evidencia as barreiras enfrentadas por muitas mulheres quilombolas em sua jornada educacional:

Até o meu quarto ano eu estudei na minha comunidade, e era da prefeitura e depois quando eu terminei o quarto eles fecharam todas as escolas da comunidade. Passaram só para uma comunidade, tipo 4 comunidades tudo só em um local. Então, eu comecei a precisar deslocar da minha comunidade para estudar. E aí no ensino médio também não foi diferente. [...] era só um barracão de pau a pique coberto com palha de babaçu. Então, a partir do quinto ano até o terceiro ano do ensino médio, foi nessa escola. Se chovesse, tinha que correr para dentro do ônibus, só que para ir embora a estrada... ficava muito feia, escorregando, o ônibus atolava. Então, tive essa dificuldade, mas graças a Deus consegui, né? Chegar até o terceiro ano e consegui ingressar na faculdade, graças a Deus (Glória Maria, 2023).

Nesse momento, Glória Maria aborda a sua trajetória escolar, enfatizando os percalços experienciados e como, por intermédio de muitas lutas, conseguiu superá-los e ingressar na graduação, ficando evidente a sua determinação.

A escola já vinha falando, incentivando estudar, focar mais, porque logo, logo ia ter essas oportunidades para a gente estar entrando numa faculdade. Então, assim quando eu terminei o meu ensino médio eu ficava tipo, fora da escola por não estar estudando, né! Mas eu estava sempre ali no meio, tipo, indo saber o que que estava acontecendo, participava de alguma reunião de comunidade que tinha dentro da escola. Então foi dessa forma que chegou pra gente as informações sobre o Programa (Glória Maria, 2023).

No primeiro fragmento, Glória Maria descreve a sua jornada educacional, o que afeta não apenas a sua educação, mas também o acesso a oportunidades futuras. Sua participação ativa na busca por informações educacionais e seu engajamento na escola da comunidade também demonstram a sua resistência à exclusão educacional.

O apoio familiar está presente nas narrativas e manifesta-se como um impulsionador da trajetória universitária:

Porque era difícil, né? É realmente difícil. Quando a gente tem filho, é difícil ao quadrado. Minha filha, ela tinha 4 anos, quando eu entrei, era pequenininha, né!. E era noite. E ela não estava na escolinha, cuidava dela durante o dia, chegava várias vezes já cansada. Tinha que deixar com a minha mãe. Então tinha tudo isso. Mas a minha mãe sempre me apoiava, então não me deixou desistir. Porque ela falava: “ó, minha filha, a vida é feita de oportunidades.” Então se Deus abriu essa porta pra você, você vai até o final. Aos trancos e barrancos você vai até o final. E assim eu tô aqui até o final (Tereza de Benguela, 2023).

[...]

Minha mãe sempre foi uma mulher que levantou bandeira atuante (Benedita, 2023).

[...]

Eu fiz só por fazer, pra incentivar o meu filho a fazer também. Porque aí ele vendo eu fazer a inscrição ele também fez. Agora quando eles estão desanimados e aí eles falam: “você está vendo? Até mamãe que está dessa idade vai estudar”. Porque os pequenos sempre têm dificuldade de acordar cedo para ele estudar e ficar com preguiça. Aí eu falo, você quer viver carpindo, viver no sol quente, aí ele vai, não, não quero essa vida pra mim. Minha mãe foi a primeira que me apoiou, era o sonho dela, se ela enxergasse, ela não pararia. Ela sempre fala. Tá com 60 anos. Só que ela ingressaria na faculdade, queria ter uma carreira. Ela sempre nos incentivou a estudar. Tanto que os outros meus tios, os filhos deles não estudavam. E o meu pai e minha mãe sempre pensavam em a gente estudar. E parei porque me casei (Maria, 2023).

As mães, em particular, são destacadas como figuras que fornecem orientação, encorajamento e exemplos a serem seguidos. Além disso, os relatos evidenciam as mulheres tendo papel ativo de apoio à educação de seus/ suas filhos/as. Outro aspecto recorrente nas narrativas, que podemos caracterizar como conquistas, é como a presença na universidade serve de exemplo, estimulando e abrindo caminho para outras pessoas de suas comunidades:

Como que a comunidade me vê como uma mulher quilombola fazendo a faculdade da universidade federal do Mato Grosso? que está sendo como um exemplo mostrando que nós podemos sim que eles também podem, que todos nós lá podemos sim entrar numa universidade. Aquela coisa de pertencimento, que parecia tão distante, que era muito difícil para se ter uma faculdade, hoje pra nossas jovens que estão vindo aí tá sendo um exemplo. Eu tô sendo um exemplo de que eles também podem, que eles podem sim ter uma universidade. [...] Eu como mulher quilombola, aos meus 48 anos de idade, está formando pra mim está sendo assim uma emoção muito grande, uma honra. Porque isso a gente via que era para poucos que tinha essa condição de estar formando né! se Deus quiser, é sim vou esse ano, até o final do ano eu estou formada. É uma Vitória na caminhada na nossa vida (Benedita, 2023).

A trajetória da Benedita é marcada pela emoção de servir de exemplo para a sua comunidade, ao destacar que a sua vitória representa uma superação e inspiração para os jovens locais. Não apenas se refere ao recebimento de um diploma, mas, sim, a uma realização pessoal, crescimento e autoconsciência que se manifestam corporalmente. Quando alguém se percebe nesse processo, há uma consciência de construção de conhecimentos, habilidades e identidade, refletindo-se em sensações de conquista, orgulho e confiança. Benedita destaca o sentimento de pertencimento à universidade, agora percebida como mais próxima, rompendo com a ideia anterior de distância e inacessibilidade.

Agora também tem uma sobrinha que passou pelo Programa, para a direito aqui, [...] tem pessoas da minha família que também entraram na universidade pelo programa no penúltimo, último edital. [...] podendo assim se sentir que é de direito que ele tem esse direito sim esse direito é dele ... eles vão vim em busca desse direito só que o estudo é fraco, mas a gente tá ali na luta que puder fazer pela nossa comunidade para esse jovem poder estar estudando tendo uma universidade eu vou correr atrás e tenho corrida atrás, lá da nossa comunidade tá vindo mais jovem aí (Benedita, 2023).

[...]

Porque a minha comunidade é formada mesmo, assim... tem três pessoas, mas a maioria é particular. Aqui da minha comunidade só eu, e agora meu menino que vai entrar. Tanto que as meninas mais novas, não só da minha comunidade como das outras lá, começaram a interessar mais. Começaram perguntar como que faz para ingressar, como que eu fiz. Serviu pra aflorar o desejo, porque muitos tinham vontade de fazer achava que não tinha oportunidade, ou que já tava velho demais tanto que meu pai até voltou a estudar, mas ele tá estudando no EJA, né! tá fazendo e muitos agora querem ingressar, então já tentaram, ariscaram mais fazer o ENEM, fazer a inscrição novamente, tentar de alguma forma entrar na faculdade (Maria, 2023).

Os relatos acima destacam um aspecto importante da dinâmica educacional: o impacto geracional, familiar e comunitário de suas conquistas acadêmicas. Essas conquistas refletem o transpassar de barreiras significativas que elas enfrentaram, ao longo de suas vivências.

E hoje, já no processo onde eu estou, como alguém que já está formando, que já sabe muitos caminhos, sabe por onde trilhar, é saber que é espaço nosso também. Entender que é o nosso espaço, que a gente tem que tomar conta dele sim! hoje também eu fico meio como conselheira das pessoas que estão entrando.

Um apoio mesmo para eles [...] então eu sinto prazer de estar nesse lugar, onde eu posso ajudar (Glória Maria, 2023).

Resguardadas as suas particularidades, suas experiências na universidade têm gerado uma transformação social em suas comunidades. Suas conquistas inspiram o coletivo a buscar o sistema educacional e proporcionam um valioso apoio de orientação para as pessoas que buscam o mesmo caminho. Na entrevista Glória Maria também anuncia: “Eu acredito minha formação vai ser muito benéfico para a comunidade, para o pessoal mesmo. E a minha intenção é essa, é fazer com que o posto lá funcione, atender a população” (Glória Maria, 2023). A partir dessa narrativa compreendemos que a intenção delas é clara: não se vêm desvinculadas de suas origens. Para a Glória Maria a formação acadêmica adquirida não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para promover o desenvolvimento e o bem-estar de sua comunidade.

A educação como um meio de promover mudanças sociais e melhorias tangíveis na vida das pessoas também é evidenciada nas narrativas de Benedita, Maria e de Tereza de Benguela. Essa intencionalidade pode ser entendida como um ato de re-existência, uma vez que desafia os estereótipos sociais.

Porque o meu projeto é da comunicação inclusiva na trilha autoguiada do Parque, para que a comunidade, possa sentir pertencimento. (Benedita, 2023).

[...]

Tema do meu TCC, estamos falando sobre cultura quilombola. Cultura quilombola, relacionada a minha comunidade (Maria, 2023).

[...]

Depois que eu terminar, pretendo fazer um projeto de agroecologia lá na comunidade (Tereza de Benguela, 2023).

As mulheres quilombolas estão cientes da importância da presença na universidade. Demonstram como pretendem direcionar seu aprendizado e o conhecimento adquirido para abordar questões específicas de suas comunidades. A afirmação positiva de si foi algo importante em suas experiências, fortaleceram o processo de re-existência em permanecer na universidade.

Sou uma mulher quilombola, vou ser uma mulher quilombola profissional daqui uns dias, com muito orgulho, muito grata por tudo que eu vi, por tudo que eu vivenciei, por tudo que eu aprendi. Porque não tem preço todo o aprendizado que a universidade me proporcionou, sou uma mulher inteligente também. Apesar de não demonstrar muito, mas sim, sou quilombola, sou inteligente, sou forte! Nunca tive vergonha de me apresentar. Falar minha referência, de onde eu vim, de onde eu sou, para onde eu vou voltar, porque eu, assim que eu formar, conseguir emprego na minha comunidade, eu vou voltar sim. E eu me enxergo, eu sou uma mulher quilombola, eu sou feliz por ser quilombola, eu sou grata por ser quilombola, eu sou uma mulher resistente sim, sou uma mulher forte, que busca força, principalmente nas minhas dificuldades e olho pro meu caminho daqui pra frente, um caminho brilhante cheio de coisas boas e, sim, eu tenho orgulho de mim, tenho orgulho da minha vida que eu passei, das dificuldades que eu passei tanto lá no sítio quanto aqui na faculdade e consegui superar todos. Eu sou grata por cada momento que eu vivi (Glória Maria, 2023).

[...]

Hoje tenho muito orgulho de ser quilombola, eu me autodeclaro porque eu conheço muitos quilombolas que não se autodeclaram quilombolas, e isso é um orgulho (Tereza de Benguela, 2023).

[...]

Assim, eu vejo muito querer. Querer fazer esse curso. E essa trajetória é você querer (Benedita, 2023).

Esses relatos expressam, ainda, a compreensão do corpo negro como uma existência material, simbólica e política, conforme delineia Gomes (2017). A autora elucida que essa visão de si implica que a vivência das pessoas negras, com suas identidades corpóreas, profundamente influenciadas pela negritude, culmina na produção de saberes únicos, categorizados como saberes emancipatórios. A autora enfatiza que eles constituem um conhecimento importante para desafiar a regulação que incide sobre os corpos negros e impulsionar mudanças sociais voltadas à emancipação, tal como evidencia o relato de Glória Maria:

Eu agora me sinto privilegiada por ter força, por resistir por todas as dificuldades que foram impostas no meu caminho. Eu consegui chegar até aqui, eu falo que hoje eu sou uma universitária do nono-semestre. Eu me sinto com um dever cumprido. Tipo, de vir mostrar, não só pra mim, mas pra sociedade, que a gente pode sim. Que a gente tem o direito. E que, não por a gente ser quilombola, que a gente precisa ser menosprezada pelos outros. A gente precisa sim de ajuda, tipo, dos nossos colegas que não são quilombolas, mas a gente também tem força de vontade, a gente também tem inteligência, a gente também tem capacidade. Então eu sinto isso. Hoje eu me sinto honrada de poder mostrar tudo o que eu sei, de poder trazer um caminho, abrir um caminho de ideias que a gente consegue sim, que a gente pode ir muito além do que as pessoas imaginam e do que nós mesmos podemos sonhar, porque era uma coisa que eu achava que era impossível, tipo, para mim (Glória Maria, 2023).

A narrativa de Glória Maria expressa o reconhecimento da própria capacidade de enfrentamento e persistência. Sua autoestima e autoconfiança foram fortalecidas ao longo de sua trajetória, bem como a valorização do esforço pessoal e legitimação de seus saberes, como ferramentas para alcançar o sucesso. Percebemos que ela se sente responsável por algo maior do que apenas a sua própria trajetória educacional. Há positivação de sua experiência, pois ela se vê como uma agente ativa em sua própria vida e no meio em que vive. Além disso, ela confere legitimidade às pessoas quilombolas, na buscar pela educação superior. Essas afirmações são uma forma de re-existência e reivindicação de igualdade de oportunidades, em um contexto onde as barreiras podem ser significativas.

Tereza reforça a ideia de que a educação não é apenas uma conquista pessoal, mas também um ato de re-existência, uma afirmação de identidade e responsabilidade coletiva. Ela pavimenta o caminho para outras gerações:

Eu não desisti, porque se eu desistisse, igual te falei anteriormente, que atrás vem gente, e se eu parasse, eu não ia dar vaga para outra pessoa. Então, eu tenho que ir até o final para Programa ver que a gente realmente quer se formar. Porque se eu paro no meio do caminho, eu mostro desinteresse... tanto para mim e tanto para o Programa. Então isso foi muito importante. Eu nunca desisti, porque outras pessoas precisam também, outros quilombolas também precisam se formar. Então a gente tinha que ir até o final pra dar vaga pra eles também, mostrar interesse e sempre olhar pra frente e saber que isso aqui é uma oportunidade única (Tereza de Benguela, 2023).

Ao explorar o fragmento, podemos inferir que a estudante expressa uma visão positiva do futuro. Evidência que ela reconhece a educação como uma possibilidade de crescimento coletivo.

Merleau-Ponty (2006) enfatiza a importância do corpo na nossa experiência do mundo. Nas vozes das colaboradoras, podemos identificar como suas trajetórias são vividas de forma corpórea. Podemos associar a maneira como seus corpos estão diretamente envolvidos nas barreiras que enfrentam, seja na luta para superar as dificuldades de acesso à educação, seja na sensação de realização que experimentam em seus corpos, à medida que avançam em suas vivências universitárias. Para o autor, nossas ações são sempre intencionais e direcionadas a um propósito.

No entanto, as intenções demonstradas pelas mulheres negras quilombolas do nosso estudo vão além do âmbito pessoal, uma vez que buscam impactar positivamente suas comunidades. Isso revela que a educação transcende o aspecto cognitivo e torna-se uma experiência que afeta integralmente a existência dessas mulheres.

Com base no que o autor dispõe, a chegada de Maria à universidade ilustra essa perspectiva, ao compartilhar um período particularmente desafiador em sua vida:

Foi até um período que eu estava passando por um momento difícil, meu esposo tinha acabado de falecer. Foi até um momento que mexeu muito com o meu psicológico, porque eu comecei a ocupar minha mente, eu me sentia depressiva. E aí eu comecei a estudar e comecei a envolver com as coisas, porque aí faz leitura, você viaja nas leituras (Maria, 2023).

Maria prossegue explicando como a sua experiência universitária tem promovido mudanças, especialmente na criação de seus filhos, diante das estruturas de opressão às mulheres:

[...] na criação dos meu filhos, hoje eu falo para eles diferentes do que me falavam. Você pode ser o que você quiser, basta querer. Essa questão do machismo, essa questão racial. Porque eu só tenho filhos homens. Então, incentivá-los a não ser machista, porque querendo não a gente vê muito preconceito em relação à mulher. E isso aí é questão pra gente também como mãe, abrir a visão de nossos filhos. Porque a mulher tem direito também de ir pra onde ela quiser, ela pode ser o que ela quiser ser. Uma mulher não foi feita só pra... Porque na antiguidade lá da nossa comunidade, até o meu esposo tinha essa visão que mulher nasceu com ser mãe e dona de casa, nada mais. E hoje em dia não, as mulheres estão ganhando mundo. O máximo que a mulher conseguiria ser, antigamente, o que eles achavam era professora, enfermeira. Hoje não, nós vemos uma mulher de atuação em todas as áreas (Maria, 2023).

Maria demonstra uma consciência crítica em relação às questões de gênero e ao papel que desempenha como mãe na promoção da igualdade. A educação é uma ferramenta poderosa na transformação das normas de gênero e no combate ao machismo. Nesse contexto, Maria reconhece a interseccionalidade de gênero e raça, pois, como mulher negra quilombola, ela compreende os desafios enfrentados pelas mulheres em sua comunidade, em relação ao preconceito racial e às questões de gênero. Em seus relados, Maria exemplifica como o marido não a deixava estudar e trabalhar, limitando-a ao ambiente doméstico.

Nesse contexto, percebe-se que emergem certas estratégias de permanência, especialmente aquelas relacionadas ao autorrespeito em meio a circunstâncias difíceis:

Eu tive algumas dificuldades, mas graças a Deus eu tive muita parte de estar comunicando. Durante esse tempo entre as matérias obrigatórias e optativas, eu peguei matérias que eram mais direcionadas para mim profissionalmente e com algumas coisas que eu quero estar trabalhando. Então eu fui buscando, fui fazendo meu percurso. Porque como você já entra com uma idade na faculdade, você já trabalhou muito, você tem outro tipo de conhecimento do que esse jovem que está entrando agora, que nunca trabalhou, que o pai sempre apoiou em estudo e que está aqui. E eu já estou vindo com conhecimento diferenciado deles, eu já sei o que eu quero. Então, aí você fica se olhando umas coisas, você é a tia, né? Porque eu sou a tia da turma. Tia daqui tia dali. Eu tenho professor muito mais novo eu (Benedita, 2023).

A própria presença de Benedita na instituição como estudante desafia as expectativas relacionadas à idade, o que constitui uma re-existência direta a normatizações sociais sobre quem “deve” ter acesso à educação superior. Ela menciona que a sua idade e experiência de vida foram um diferencial, pois traz consigo um conjunto singular de conhecimentos e sabedoria que potencializaram a sua experiência universitária. Essas características fundamentam suas escolhas assertivas, conforme menciona ao direcionar as disciplinas alinhadas com os seus objetivos profissionais e interesses pessoais. Além disso, expressa o desejo de utilizar a educação superior como uma forma de revitalizar seus conhecimentos.

[...] no começo a gente fica um pouco acanhado, porque só vejo jovens, a minha sala. E nesse semestre eu até vejo gente mais da minha idade, só que quando eu ingressei aqui, era só jovens. Então eu me sentia envergonhada, tímida. Até mais difícil a gente fazer uma aproximação, só que eles... eles foram bem acolhedores também. Porque às vezes eu ficava muito... Até na hora de apresentar os trabalhos, eu já tinha um tabu comigo mesmo porque eu era negra. Eu fui crescida assim, diminuída, né! Então, pra me chegar ali, apresentar, falar, eu era muito tímida pra explicar. Até hoje eu tenho timidez, assim, mas eu já consigo explicar um trabalho, falar mais abertamente. Eu tive uma professora que ela dava o texto pra gente e ela mandava a gente ler o texto, analisar e montar nossas críticas. Então ali obrigavam de uma forma a gente a expressar, aprimorou muito o meu conhecimento, sim. Me deu uma nova visão de tudo aquilo que eu vivia, que eu achava que estava certo e agora não concordo com muitas coisas (Maria, 2023).

O relato de Maria destaca as interseções entre idade, identidade racial e discriminação, revelando as dinâmicas sociais e raciais que, frequentemente, afetam indivíduos em ambientes educacionais. Suas palavras ilustram o impacto do racismo em sua autoestima e confiança pessoal, enquanto ressaltam seu processo de superação e desenvolvimento pessoal. Maria menciona a sua evolução na capacidade de expressar suas ideias, apesar da timidez inicial, evidenciando como a educação desafia e desconstrói crenças. Seu relato, até o momento, aponta para um caminho de autodescoberta ao longo da sua experiência universitária.

[...] eu já entrei e desde o começo já comecei a me sentir...excluída e também não tentei ficar me incluindo em lugar onde não me cabia, fiquei na minha, fazendo o que eu sabia, tentando dar o meu melhor, e assim até hoje (Glória Maria, 2023).

A experiência de Glória Maria é caracterizada pela sensação de exclusão, refletindo como o corpo negro é, frequentemente, alvo de tratamento excludente em diversos contextos, incluindo educacionais. Contudo, ela demonstra re-existência, ao optar em manter a sua identidade e não comprometer quem ela é, para se ajustar aos padrões predominantes. Essa atitude pode ser vista como uma estratégia de autopreservação. No entanto, essa decisão de "ficar na minha" também teve implicações emocionais, como o isolamento e a solidão, mencionados em outras partes da entrevista. Isso demonstra que as escolhas feitas em resposta à exclusão não são isentas dos desafios emocionais.

Você deixa de ser quilombola porque você saiu da comunidade? Não. Você saiu da comunidade para buscar algo melhor para você e para a sua família. Mas você continua sendo quilombola. Sua raiz é quilombola, entendeu? Seus antepassados, ancestrais... Isso é bonito, você conquistar coisas por seu mérito e ter ajuda de afirmações políticas, de políticas públicas (Tereza de Benguela, 2023).

Por sua vez, Tereza de Benguela reconhece que a busca por uma vida melhor e o acesso a oportunidades educacionais fora da comunidade são legítimos e não negam a identidade quilombola, de modo que, nesse percurso, as mulheres quilombolas estão se reafirmando em suas identidades, enquanto buscam o sistema educacional. O fragmento, a seguir, mostra como os espaços coletivos são extremamente importantes para o fortalecimento da autoestima, da voz e do ativismo das pessoas racializadas:

Mas do coletivo negro eu participei de rodas de conversas, eu fui... em reuniões que tiveram, tipo, é um lugar que eu me sentia, ah, é aqui que eu preciso estar. E muitas vezes eu deixava de ir por conta mesmo da carga horária que eu tinha, da disciplina que era muito, então eu ficava sobrecarregada e não conseguia participar de todos, mas os poucos que eu participei foi bom, foi um lugar onde eu me sentia acolhida eu tinha como... eu tinha voz, eu era acolhida e bem recebida e me sentia bem... pertencente (Glória Maria, 2023).

Outrossim, estão presentes diversas forças motivacionais que impulsionam essas mulheres quilombolas a se afirmarem em um ambiente acadêmico desafiador, portanto, trajetórias que se consolidam com pequenas conquistas, diariamente, que as levarão à diplomação.

Eu sempre falo isso para minha irmã, para quem entrou, que a vergonha que eu senti junto com a vontade de vencer me fez não desistir. Então eu chorei, eu passava por momentos bem difíceis mesmo e a hora que parava de chorar ou que dormia eu acordava já com um pouquinho de vontade a mais. Então até falo para elas: Ah, você está cansada, chora! Tenta fazer alguma coisa, mas não desiste, porque desistir não é o melhor caminho. Então você aprende a descansar, deita, descansa, dorme, chora, outro dia você levanta e é um novo dia, mas não desistir, por quê. na faculdade, principalmente para a gente que é quilombola, o que mais tem é pontos para que a gente possa desistir. A gente tem que ter força, tem que resistir e continuar (Glória Maria, 2023).

Fica evidente nessa narrativa que a vontade de vencer é uma forma de intencionalidade. Glória Maria não apenas chora, mas também acorda com a determinação de continuar. Não é apenas uma resposta passiva às dificuldades, mas uma expressão intencional de persistir, uma força que a motiva a agir. Seu corpo age de acordo com a sua intenção de não desistir, e essa ação é orientada para o objetivo de concluir os estudos. A re-existência manifesta-se quando ela usa a expressão não desistir repetidamente, enfatizando a importância de continuar avançando. Ela reconhece as dificuldades que as estudantes quilombolas enfrentam na universidade, mas escolhe resistir, além de encorajar outras pessoas a não se abaterem pelas adversidades e a continuarem a lutar. Essa percepção é fortalecida nos demais relatos de Glória Maria:

Então é um privilégio a gente conseguir entrar, mas ainda é um ponto de resistência, que a gente tem que resistir, né? Existir, resistir e permanecer! Então a gente tem que estar sempre nesse caminho de tentar fazer a melhor forma e trazer mais quilombolas para mais mulheres quilombolas, mais pessoas que lutem e que eles resistam. Apesar de todas as dificuldades, é um lugar onde nós merecemos estar! Então é um lugar nosso também e que venham mais (Glória Maria, 2023).

A percepção de Glória Maria sobre a universidade sintetiza a luta constante que as mulheres quilombolas enfrentam no ambiente acadêmico. Ao afirmar que a universidade é um lugar delas, reivindica o seu direito de ocupar esse espaço e encoraja outras pessoas a fazerem o mesmo.

Então eu sempre falava, eu até falei para uma colega: não desiste, vai até o final! Porque aí a gente vai, né, que atrás de nós vem gente, né, e aí pra vir gente, a gente tem que concluir, (Tereza de Benguela, 2023).

Já, a compreensão de Tereza enfatiza não apenas o seu próprio benefício, mas também o abrir caminho para quem desejam seguir seus passos.

Tudo que o Programa coloca que vai ter ...eu comunico a comunidade. Abriu... O edital. Gente, tá tendo um curso ...Tá tendo isso aqui. Eu passo para comunidade. Eu vejo assim, é uma batalha, é uma luta, porque a faculdade...Ela é só um começo. E aí você, quando sair daqui você vai se especializar na área. Ainda mais no meu curso, .... É um leque que você pode estar trabalhando. E você vai focar no que você quer. Então, e nisso que você vai querer, pra ser boa você tem que estar qualificando, fazendo mais cursos dentro da área. Só que é aquela situação (Benedita, 2023).

Igualmente, Benedita expressa o seu compromisso em facilitar o acesso de outras pessoas à educação superior. A busca pela qualificação é vista por ela como um caminho necessário para o sucesso acadêmico e profissional.

Eu acredito que consegui compartilhar um pouco da minha vivência, da minha alegria de ser quilombola, do meu orgulho de estar representando a minha comunidade quilombola, a minha família como a primeira pessoa a se formar da minha família, do quilombo a primeira pessoa por se formar pelo programa também. Então, compartilhei minha trajetória, foi um prazer. Só que não foram todas as pessoas que acolheram a minha história, que acharam interessante, mas eu compartilhei aquilo que eu pude. Levei o nome da minha comunidade, honrei e consegui chegar a um nível onde muitos não acreditaram. Então é um privilégio a gente conseguir entrar, mas ainda é um ponto de resistência, que a gente tem que resistir, né? Existir, resistir e permanecer. Então a gente tem que estar sempre nesse caminho de tentar fazer a melhor forma e trazer mais quilombolas, para mais mulheres quilombolas, mais pessoas que lutem e que eles resistam. Apesar de todas as dificuldades, é um lugar onde nós merecemos estar. Então é um lugar nosso também e que venham mais (Glória Maria, 2023).

Glória Maria demarca as contribuições das mulheres negras quilombolas para a transformação da realidade social. Nessa quebra de estereótipos é importante considerar a abordagem delineada por Gomes (2017) sobre a tensão entre regulação e emancipação no paradigma da modernidade ocidental. Esse paradigma, tradicionalmente, estabelece uma hierarquia entre o conhecimento científico, representado pelo cientista em seu gabinete e o conhecimento prático vivenciado no mundo. Com base no que a autora dispõe, podemos inferir que as mulheres negras quilombolas desafiam essa dicotomia, enriquecem o conhecimento-emancipação com suas experiências e saberes.

Considerações (quase) finais

A metodologia fenomenológica adotada nesse estudo permitiu conhecer as percepções das mulheres negras quilombolas no e sobre o contexto universitário. Merleau-Ponty (2006) argumenta que o corpo não é apenas um objeto físico, mas também um meio de percepção e interpretação. Nesse sentido, as narrativas dessas mulheres revelam não só os desafios físicos/materiais da educação superior, como também as transformações subjetivas e sociais que ocorrem ao longo dessa jornada educacional.

Ao iluminar as interações entre a subjetividade, a corporeidade e as dinâmicas sociais esse estudo evidenciou como as mulheres negras quilombolas reconfiguram significados associados ao corpo negro no ambiente acadêmico. Através da educação, elas não apenas superam barreiras individualmente, mas também fortalecem suas identidades coletivas, conectando a comunidade quilombola à esfera acadêmica. As conquistas são, assim, vistas não apenas como realizações individuais, mas como formas de re-existência cultural e emancipação feminina.

Portanto, a interpretação fenomenológica enfatiza a importância de considerar as vivências subjetivas e as percepções corporais como elementos essenciais na construção do conhecimento. Assim, o presente estudo não apenas amplia o nosso entendimento acadêmico sobre as experiências das mulheres quilombolas, mas também promove uma reflexão sobre a importância de abordagens metodológicas que valorizem perspectivas outras.

Entendemos que a apreensão de todas as nuances desse percurso é uma tarefa desafiadora, dada a riqueza e a singularidade de cada vivência. Todas essas leituras e releituras na relação do mundo vivido descrito, construído e constituído é o que traz o poder de explorar, por meio dos relatos, as categorias de conquista e re-existência quilombola afirmada no início deste texto. O percurso dessas mulheres envolve não só o deslocamento por salas de aula universitárias, mas também por complexos contextos sociais, nos quais a identidade quilombola se encontra, muitas vezes, em um estado de tensão e de negociação.

Referências

BENEDITA. Relato. Cuiabá (Mato Grosso), 27 abril. 2023. [ Links ]

BRASIL. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Lei das Cotas. Brasília: Presidência da República, 2012. [ Links ]

FREITAS, Jefferson Belarmino de; PORTELA, Poema; JÚNIOR, João Feres; SÁ, Izabele; LIMA, Louise. Políticas de ação afirmativa para quilombolas nas universidades públicas brasileiras (2019). Nexo Políticas Públicas (GEMAA), Rio de Janeiro, 2021. [ Links ]

GLÓRIA MARIA. Relato. Cuiabá (Mato Grosso), 27 abril. 2023. [ Links ]

GOMES, Nilma Lino. O movimento negro no Brasil: ausências, emergências e a produção dos saberes. Política & Sociedade, v. 10, n. 18, p. 133, 2011. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2011v10n18p133. Acesso em: 23 mar. 2023. [ Links ]

MARIA. Relato. Cuiabá (Mato Grosso), 27 abril. 2023. [ Links ]

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. [ Links ]

NASCIMENTO, Cynthia Cristina do. A trajetória e permanência de mulheres quilombolas no Programa de Inclusão de Estudantes Quilombolas na Universidade Federal de Mato Grosso. 2024. 186 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2024. [ Links ]

TEREZA DE BENGUELA. Relato. Cuiabá (Mato Grosso), 27 abril. 2023. [ Links ]

Recebido: 28 de Maio de 2024; Aceito: 28 de Julho de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.