Joan Scott, em ensaio publicado em coletânea do terceiro encontro Fazendo Gênero (SCOTT, 1999) depois de historicizar o conceito de experiência e de mostrar como ele é centrado na capacidade que temos de, em nome da experiência, reproduzir e transmitir, já que ela faz parte da linguagem cotidiana tão imbricada nas nossas narrativas que seria em vão querer eliminá-la, afirma que experiência é, ao mesmo tempo, uma interpretação e algo que precisa de interpretação. O que conta como experiência não é nem autoevidente, nem definido; é sempre contestável, portanto, sempre político. A partir de Joan Scott e de sua leitura na perspectiva de gênero, sentimo-nos à vontade para destacar, neste nosso último Editorial do ano de 2024, em nome da nossa experiência, o projeto Fazendo Gênero, que reúne há 30 anos, na Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisadoras e pesquisadores do Brasil e de universidades estrangeiras na América Latina, Estados Unidos e Europa com pesquisas no campo dos estudos de gênero e dos estudos feministas, o mesmo corpus que a Revista Estudos Feministas recebe para publicação. Queremos deixar neste Editorial parte da história desse importante evento de gênero no Brasil exatamente quando completa três décadas.
A tradição da UFSC na área dos estudos de gênero e feminista é bastante longa. Em 1984 foi criado, na UFSC, o Núcleo de Estudos da Mulher, que, a partir de 1989, com o I Encontro de Estudos sobre a Mulher, reestruturou-se como Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero, reunindo pesquisadoras de diversas áreas acadêmicas, como Literatura, Antropologia, Psicologia, Sociologia, História, Enfermagem e Nutrição, entre outras. Também em 1989 foi realizado na UFSC o 3º Encontro Nacional de Mulher e Literatura, que marcou o nosso salto qualitativo na consolidação dos estudos de gênero e feministas na universidade brasileira. Nos últimos trinta anos, esse campo cresceu significativamente na UFSC, com a abertura de disciplinas específicas em cursos de graduação e de pós-graduação, a criação de linhas de pesquisa em mestrados e doutorados, e uma vasta produção acadêmica que inclui dissertações, teses, artigos, livros monográficos e coletâneas publicadas pelas pesquisadoras da área. Atualmente, com um espaço físico garantido no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, consolidou-se institucionalmente o Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Com este breve histórico, queremos reforçar a comprovação de que, com uma produção acadêmica de vigor teórico, amplitude temática e diálogo transdisciplinar e transnacional - que inclui pesquisas, publicações, formação de pesquisadoras/es e projetos sociais -, os estudos feministas já estão consolidados no Brasil. Particularmente a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) teve e tem hoje um papel importante na construção e na consolidação desse campo de estudos no país. Somos inúmeras professoras doutoras que fazem pesquisa na área, situadas em diferentes programas de pós-graduação e que se dedicam, entre outras atividades, à orientação de dissertações, teses, projetos de iniciação científica e monografias de conclusão de curso. Além disso, desde 1999, um núcleo de professoras tem sido responsável pela edição da Revista Estudos Feministas, considerada uma importante publicação com escopo nacional e internacional dessa área, indexada nos principais bancos e fontes de referências científicas internacionais e Qualis A1 Internacional de várias áreas em um trabalho intenso e diário que exige muita dedicação, como toda revista on-line com três números anuais.1
Com vistas a consolidar este espaço de debate e troca interdisciplinar mais ampliado, a partir de 1994, começamos a organizar o evento, cujo nome nasceu do grupo de Letras, no espírito de que a função do gerúndio é se fazer um constante presente: fazendo gênero. Os 13 encontros do Projeto Fazendo Gênero, realizados respectivamente em 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006, 2008, 2010, 2013, 2017, 2021 (edição virtual) e agora, em 2024, a princípio, como podemos perceber, num intervalo de dois anos e, pela proporção que tomou, de três anos, depois para coincidir com o Congresso Mundos de Mulheres e pelo recesso provocado pela pandemia da covid-19, um intervalo de quatro anos com retorno de três anos para esta última edição, resultaram na publicação de diversas coletâneas, números especiais de revistas acadêmicas com artigos inéditos de autoras nacionais e estrangeiras.2 Citamos cada uma dessas coletâneas, pois suas temáticas escrevem uma história paralela, que reforça a extensão pautada na interdisciplinaridade. O primeiro desses encontros, Fazendo Gênero - Seminário de Estudos sobre a Mulher, aconteceu de 30 de novembro a 2 de dezembro de 1994, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura, com Zahidé Lupinacci Muzart na coordenação. A ênfase desse primeiro encontro, de amplitude nacional, foi a questão do gênero na Literatura, História e Antropologia, com enfoque, ainda, em questões do feminismo contemporâneo. Esse evento possibilitou contatos, trocas de experiências e debates, além de proporcionar a publicação de uma primeira coletânea, intitulada Fazendo Gênero: Seminário de Estudos sobre a Mulher (MUZART, 1996), a qual reuniu os trabalhos apresentados por cerca de 100 pesquisadoras. E assim seguiu nossa trajetória: Fazendo Gênero 2 - Um Encontro Interdisciplinar - ocorreu nos dias 15 a 17 de maio de 1996, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC; o Fazendo Gênero 3 - com o tema Gênero e Saúde, foi realizado no Centro de Ciências da Saúde, de 13 a 15 de maio de 1998; o Fazendo Gênero 4 - Cultura, Política e Sexualidade no Século XXI - aconteceu nos dias 23, 24 e 25 de maio de 2000; o Fazendo Gênero 5 - Feminismo como Política, realizou-se entre os dias 8 e 11 de outubro de 2002. Estes dois últimos encontros resultaram na publicação, em 2004, de três Coletâneas. Os encontros que os sucederam retomaram a produção de coletâneas e publicações referentes a cada um dos eventos; o Fazendo Gênero 6 - Saberes Globais/Fazeres locais. Saberes Globais/Fazeres Locais - foi realizado de 10 a 13 de agosto de 2004; o Fazendo Gênero 7 - Gênero e Preconceitos - aconteceu nos dias 10, 11, 12 e 13 de agosto de 2006; o Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder - aconteceu entre os dias 25 e 28 de agosto de 2008; o Fazendo Gênero 9 - Diásporas, Diversidades, Deslocamentos - realizou-se de 23 a 26 de agosto de 2010; o Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismos - realizou-se de 16 a 20 de setembro de 2013; o Fazendo Gênero 11, junto ao 13º Congresso Mundo de Mulheres, realizou-se de 30 de julho a 4 de agosto de 2017, com uma fortalecida participação de ativistas de movimentos sociais e também de artistas, em sua continuada realização de performances e exposições nesses eventos; o Fazendo Gênero 12 - Lugares de Fala: direitos, diversidades, afetos - aconteceu de 19 a 30 de julho de 2021, na excepcionalidade de um seminário totalmente virtual em tempo pandêmico. Sempre amadurecendo ideias, chegamos ao recente e último Seminário Internacional Fazendo Gênero 13 - Contra o Fim do Mundo: anticolonialismo, antifascismo e justiça climática, que aconteceu de forma presencial no Campus da UFSC entre os dias 29 de julho e 2 de agosto de 2024, com a mesma proposta de uma intersecção com os movimentos sociais, agora bem mais ampliada, de criar um espaço interdisciplinar de diálogo, trocas e possibilidades de produção de conhecimentos com as questões de gênero e feminismos no centro das discussões, em conferências, mesas-redondas, simpósios temáticos, oficinas, minicursos, tendas com os movimentos sociais, feira de economia feminista e solidária, mostra audiovisual, atividades artísticas, exposição e avaliação de pôsteres que projetaram 213 novos e jovens participantes para o Fazendo Gênero 14, avaliados por uma centena de professoras, professores, pós-graduandos e pós-graduandas, na já emblemática e representativa Marcha das Mulheres pelas ruas centrais de Florianópolis e o prêmio Zahidé Muzart, em sua segunda edição para TCCs, dissertações e teses. Neste 13º Seminário Internacional Fazendo Gênero, as editoras da REF deram continuidade à proposta de Mesa-Redonda sobre Publicações Feministas, numa tradição que a Revista iniciou ainda em 2002 e 20033 e já vem se repetindo nesses encontros na UFSC a partir do Fazendo Gênero 10, em 2013, entremeados da participação de suas editoras em numerosos eventos realizados no Brasil e no exterior sobre o tema.
Com este relato quisemos, acima de tudo, transformar este Editorial da REF num repositório de nossa participação nessa cartografia que cruza, entrelaça, tece, atrai pessoas e pensamentos em torno da categoria gênero. O interdisciplinar de que tanto tem se falado não está em apenas aproximar disciplinas, porque nenhuma consente em abandonar-se, ensinou-nos Roland Barthes (2004, p. 42) em O grão da voz. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo, tanto no Fazendo Gênero quanto na Revista Estudos Feministas, que não pertença a ninguém, a nenhuma disciplina em particular. Os temas centrais dos 13 eventos, os títulos dos livros publicados,4 que de nossos Seminários resultaram, talvez representem melhor essa amplidão de perspectivas e a nossa efetiva participação junto a tantas e tantos pesquisadoras e pesquisadores na perspectiva do Masculino, feminino, plural (Joana Maria PEDRO; Miriam Pillar GROSSI, 2006); nas Falas de gênero (Alcione R. da SILVA et al., 1999); na Cultura e poder (Maria Regina A. LISBÔA; Sônia W. MALUF, 2004); nas Genealogias do silêncio (Carmen Sílvia M. RIAL; Maria Juracy F. TONELI, 2004); nas Poéticas e políticas feministas (Claudia de L. COSTA; Simone P. SCHMIDT, 2004); nos Saberes e fazeres de gênero entre o local e o global (Luzinete S. MINELLA; Susana B. FUNCK, 2006); nas Leituras em rede sobre gênero e preconceito (Cristina S. WOLFF et al., 2007); no Gênero em movimento: novos olhares, muitos lugares (Cristiani B. da SILVA et al., 2007); nas Leituras de resistência sobre corpos, violência e poder (Carmen Susana TORNQUIST et al., 2009a; 2009b); nas Dimensões de gênero e sexualidade em diásporas, migrações e fronteiras (RIAL et al., 2010; PEDRO et al., 2011; Silvia Maria F. AREND et al., 2011); nos Desafios feministas em linguagens e narrativas, políticas, entre lugares e mobilidades (FUNCK et al., 2014; Gláucia ASSIS et al., 2014; MINELLA et al., 2014); nos Mundos de Mulheres (Ana Maria VEIGA et al., 2019); nos Percursos, práticas e modos de (r)ex(s)istir (Janine G. da SILVA et al., 2023).
Para o último semestre de 2024, as ideias políticas circulam pelas cidades em busca de suas representatividades. As eleições municipais se revestem de grande importância com o fantasma da direita conservadora, antigênero e antifeminista que nos assombra, apesar da vitória eleitoral nacional de 2022, e como prenúncio da disputa que se avizinha em 2026. A questão da representatividade das mulheres, indígenas, negros, pessoas LGBTQIAPN+ está colocada principalmente nas candidaturas para vereança. Mas ela se coloca de ambos os lados, pois vemos cada vez mais crescente uma onda de candidatas mulheres “femininas”, mas antifeministas. O que fica patente é como o gênero e o feminismo estão em pauta, seja para afirmar posturas patriarcais, familistas e contra os direitos reprodutivos das mulheres e pessoas que engravidam, seja para disputar com essa perspectiva conservadora e até retrógrada. Em contraponto a esta posição conservadora estão candidatas, candidatos e candidates defendendo direitos adquiridos com muita luta, como é o caso do aborto em caso de estupro ou risco de vida para a pessoa gestante, colocando-se a favor de políticas de combate ao feminicídio, à homofobia à misoginia, à transfobia, ao racismo e ao capacitismo e pensando cidades cada vez mais diversas, inclusivas e acolhedoras.
A luta pelo direito das mulheres é uma luta contínua e de todas nós. É uma luta interminável. Infelizmente, temos que reconhecer que a combinação de machismo e misoginia, somada à cultura da violência contra as mulheres, está arraigada em nossa sociedade, sobretudo nos homens, independentemente do lugar que ocupam, ou da responsabilidade institucional que tenham, contaminando, inclusive, os altos escalões dos poderes executivo e legislativo. As questões de violências e assédios, tanto nos meios acadêmicos, como nas empresas e instituições públicas, afloram a cada momento, evidenciando o quanto ainda temos que enfrentar. Mas também podemos perceber que começam a surgir frutos dos esforços feministas, já que a própria denúncia e o reconhecimento da violência são passos de grande importância.
O eixo dos artigos, da Seção Temática e das resenhas deste número da REF é o das interseccionalidades, das tensões, dos paradoxos e dilemas dos feminismos e dos estudos de gênero. Sentimo-nos representadas e envolvidas nestes diferentes temas, tempos e espaços, seja através dos imaginários estéticos, seja através dos imaginários políticos individuais e coletivos.
O primeiro artigo, intitulado “El quiasmo narración-afecto”, analisa as relações entre a disseminação de uma história colonial única e o ódio racista. As reflexões críticas de Chimamanda Ngozi Adichie sobre a noção de “história única” constituem o ponto de partida (e de chegada) de uma argumentação consistente que de início constrói pontes entre os feminismos negros e os enfoques decoloniais sobre modernidade e colonialidade em vários autores. No caso dos feminismos negros, um episódio vivenciado, sofrido e relatado por Audre Lorde é sensivelmente tratado em seu conteúdo racista. Às suas percepções são articuladas as contribuições de Chimamanda Adichie, Patricia Hill Collins e Hazel Carby. O artigo relaciona as reflexões dessa primeira parte com a análise daquilo que denomina como “funcionamento do ódio racista”, a partir das contribuições teóricas da perspectiva do Giro afetivo, conforme o ponto de vista de algumas autoras. Finalmente, fundamentada no ponto de vista de Merleau-Ponty, retomado por Judith Butler sobre o “quiasmo”, a autoria explora as relações entre narrações e afetos, para assinalar a existência de uma “referência mútua entre dois termos”. Ou seja, para conceber que “as narrações que propagam uma história hegemônica repleta de estereótipos racistas e sexistas estão investidas afetivamente, e ao mesmo tempo, elas participam das atmosferas afetivas sociais, produzindo efeitos e materializando-se em atos de ódio racistas”.
O artigo “Tensões entre modelos femininas na Espanha: a voz de Pilar Palomero em Las Niñas” é uma reflexão teórica e crítica sobre a voz da diretora de cinema, reconhecida pelos inúmeros prêmios e menções na indústria cinematográfica espanhola e sobre seu primeiro longa-metragem. A análise proposta traz a temática de Las Niñas, as personagens e o estilo visual da narrativa que aborda o contexto sociopolítico e cultural do período descrito, através de uma perspectiva feminista sobre corpo, prazer, violência espaço e autoria e as tensões existentes entre estes temas centrais.
Sob a ótica da masculinidade, o artigo “‘Força, explosão e libido’: efeitos da testosterona sob a ótica de homens usuários” discute três principais efeitos do hormônio sexual testosterona, a força física, a agressividade e o desejo sexual, para refletir sobre atributos da masculinidade hegemônica, a partir de entrevistas com homens usuários. Os resultados da análise apontam para um looping effect do modelo tradicional de masculinidade, que precisa ser expandido para comportar corpos atravessados por marcadores sociais na construção de uma imagem semelhante do corpo masculino.
O artigo “Transversalidade e Interseccionalidade em Políticas Públicas LGBTQIA+ em Florianópolis” parte da análise de dois Planos de Políticas Públicas para LGBTQIA+ da cidade de Florianópolis, SC, Brasil, produzidos no âmbito do Conselho Municipal LGBTQIA+, em 2012 e 2019. Fundamentadas em leituras que destacam a importância das interseccionalidades e transversalidades na construção de políticas públicas, as autoras analisam os referidos planos e destacam as dificuldades de colocá-los em prática, tanto pelos embates políticos que suscitam, quanto pela questão da alocação dos recursos.
Várias reflexões relevantes de uma filósofa feminista norte-americana são abordadas no artigo “Filosofia (feminista) da ciência: a contribuição de Nancy Tuana”. Parte-se de considerar que, nas últimas décadas, o campo dos estudos filosóficos e históricos da ciência se ampliou e se consolidou, impulsionado pelo desenvolvimento das epistemologias críticas, incluindo as análises feministas das práticas científicas. No contexto do debate sobre ciência e gênero, o artigo destaca a produção intelectual de Nancy Tuana, mediante análise de obras relevantes que revitalizaram as discussões feministas pioneiras em epistemologia.
As relações entre epistemologia feminista e extensão universitária, por sua vez, são exploradas no artigo “Por uma Extensão Universitária Latino-Americana e Feminista”. Seu ponto de partida é uma crítica à exclusão das mulheres “da produção, transmissão e disseminação do conhecimento”. Considerando a relevância da extensão na formação de estudantes e docentes, o texto focaliza o lugar da mulher nas práticas dessa área, ressaltando a necessidade de fortalecimento da epistemologia feminista.
O artigo “Female narrative subversions in the ‘narcoreality show’ Cartel Crew” analisa a representação de personagens femininas no reality show Cartel Crew, que foi transmitido por uma TV a cabo dos Estados Unidos. Embora o show apresente personagens femininas que se destacam, as autoras ressaltam que, mesmo quando essas personagens mulheres estão em posições de poder, este é mediado por homens. Embora os papéis femininos tenham sido reconfigurados para parecerem mais modernos e universalmente atraentes, evidenciam-se os sinais da visão patriarcal que informa essas produções.
Ao considerar que a violência contra as mulheres tem um caráter estrutural e constitui um problema público, a autora do próximo artigo desenvolve sua “Abordaje de la violencia contra las mujeres: una mirada a la realidad cubana”, revisando as principais medidas antecedentes e normativas sobre a questão do trato das violências de gênero no seu país. Atenta à análise de medidas de prevenção, proteção, reparação e penalização de formas extremas dessa violência, como o feminicídio, a autora traz reflexões importantes sobre um problema que demanda políticas públicas eficazes que extrapolam o contexto cubano, conforme ressalta.
O amor familiar e a própria família patriarcal são o tema do artigo “Paradojas y dilemas del amor familiar” no contexto da Colômbia. A análise parte da teoria de Pierre Bourdieu, e coloca em questão a heteronormatividade das famílias, a desigualdade entre os amores maternos e paternos e, finalmente, a noção de propriedade dos filhos com relação aos pais. O artigo faz uma reflexão sociológica, mas também propõe o direito legal das mães de reconhecerem seus filhos.
Em “Sarah Affonso: diálogos transatlânticos”, há uma abordagem crítica endereçada à contextualização e ao lugar na história da arte moderna portuguesa das figuras de linguagens e terminologias empregadas pela crítica coeva para Sarah Affonso (1899-1983), pioneira do movimento modernista português, artista que encontrou por todo seu caminho entraves concretos e inconscientes definidores do seu destino como mulher e como artista, pois coadjuvou sua identidade para protagonizar a do esposo e artista vanguardista, Almada Negreiros (1893-1970).
Fundamentando-se em poetas mulheres, na teórica de uma escrita feminista em Hélène Cixous e em outros teóricos, a autora do ensaio “Medusa: reler o mito, reescrever a história” toma a poesia contemporânea do Brasil como uma reescrita da história para, num deslocamento do ponto de vista como método, propor uma releitura do mito de Medusa como forma de oportunizar a produção de uma nova articulação entre literatura e história.
A Seção Temática que compõe este número da REF finaliza a edição das propostas selecionadas pelo Edital n.1/2022, para a publicação de Dossiês e Seções Temáticas na Revista Estudos Feministas em 2023 e 2024. Foi uma experiência exitosa em função da importância dos temas e da qualidade das propostas apresentadas, razão pela qual a coordenação editorial e demais editorias da Revista optaram por desdobrá-la num segundo edital, destinado a compor os três números de cada volume com publicação prevista para 2025 (v. 33) e 2026 (v. 34). A Seção Temática “Estudos Feministas da Deficiência: diálogos interseccionais” proporciona à REF a divulgação de reflexões atuais e necessárias sobre questões relativas às deficiências, ainda insuficientemente abordadas nas publicações de nossas áreas, apesar de sua relevância. Organizada por Anahí Guedes de Mello, Marivete Gesser e Debora Diniz, inicia com detalhada apresentação dos artigos que tratam de temas referentes à intersecção entre estudos da deficiência e estudos feministas.
Nesses textos em que, juntas como responsáveis por sua coordenação editorial, introduzimos a leitura de mais um número da Revista, buscando articular questões locais e além com notícias e reflexões atuais de interesse nos estudos feministas e de gênero, muitas vezes nos deparamos com escritas que nos provocam incontida emoção. É o caso do texto de Adriano Nuernberg (2024, In Memoriam), com seu testemunho do viver com câncer agressivo que interrompeu, inclusive, a continuidade de seu trabalho na UFSC onde, após ter realizado graduação (Psicologia) e seus estudos pós-graduados nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) e no Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH), já com vários anos de magistério superior em instituição privada, ingressou como professor concursado no Departamento de Psicologia. Com tese defendida na área dos Estudos de Gênero do Doutorado Interdisciplinar (NUERNBERG, 2005), e ligado inicialmente ao Núcleo de Pesquisas Margens, Adriano propôs ao Departamento de Psicologia a criação do Núcleo de Estudos de Deficiência (NED), que coordenou até sua aposentadoria precoce, em função da doença. Adriano se foi muito cedo, mas deixou relevante produção, com pesquisas sobre gênero e sobre as intersecções gênero e deficiência, tendo se debruçado sobre os estudos e pesquisas do tema deficiência nas últimas décadas de seu trabalho docente na UFSC. Deixou, sobretudo, um exemplo de profissional e de ser humano.
Mais uma vez a REF cumpre seu papel de registrar bons livros. Neste número, temos quatro resenhas importantes para as abordagens contemporâneas que têm sido empreendidas: nem análise nem ensaio, mas leituras, falas, trocas, num repertório de discursos possíveis para a viagem empreendida entre Chile, Europa, Argentina e Brasil, mulheres lendo o feminicídio, mulheres assassinas e mulheres assassinadas, quase uma profecia para o atual interesse pelas trues crimes; a correspondência entre Virginia Woolf e Victoria O’Campo e suas cartas para a periferia, metaforizando a fome para falar sobre o entreguerras. Temos, ainda, uma necessária proposta de uma pedagogia dos feminismos para instrumentalizar meninas e mulheres do século XXI a partir mesmo de uma experiência dos anos de chumbo; também temos a leitura da historiografia do feminismo do Brasil, perpassando pelas faces do conservadorismo através da apresentação de filantropas e feministas do começo do século XX. Desta forma, incentivamos mais uma vez as leitoras na formação de uma biblioteca contemporânea com novos nomes da produção feminista recentemente publicada














