Introdução - Aperte aqui para começar a usar
gente o que é não binário? Desculpa perguntar é pq realmente não sei (usuária do menstruapp Flo Calendário Menstrual, em postagem anônima, em 2022)
O que é uma pessoa não binária, pergunta com certo embaraço a usuária do Flo Calendário Menstrual, um dos menstruapps mais baixados nas lojas digitais de aplicativos para smartphones.1Menstruapps e pessoas não binárias são termos que muito recentemente passaram a compor nosso léxico feminista e de pessoas que pesquisam gênero e sexualidade. Porém, a não binariedade de gênero começa a aparecer como tema acadêmico no início deste século, com Felicity Haynes e Tarquam McKenna (2001) em Unseen genders: Beyond the binaries. Porém, a ideia de fluidez dos gêneros e de transcendência da binariedade já circula nos anos de 1990 em obras como Gender Outlaw: On men, women and the rest of us, escrito por Kate Bornstein (1994).
Dri Azevedo (2024) aponta que, naquela década, alguns termos surgiram dentro do movimento anglófono de pessoas transexuais como propostas de tensionar o binarismo implicado na forma como os feminismos vinham construindo o conceito de gênero. Para Azevedo, termos como “genderqueer” e seus derivados (genderfluid, genderbender etc.)2 seriam antecedentes do que hoje estamos reconhecendo como não binariedade de gênero.
A partir da década de 2010, a identidade de gênero não binária começou a se consolidar como um movimento social, ganhando rápida visibilidade por meio das redes sociais. Hoje, ela está presente em diversos perfis e grupos, que se organizam e se conectam principalmente por meio de aplicativos (HBlynda MORAIS, 2024).
Perfis de pessoas transexuais, por exemplo, passaram a discutir a não binariedade de gênero na transexualidade como uma forma de enfrentar estéticas e intervenções cirúrgicas que procuram fazer a transexualidade corresponder ao binário estabelecido pelas normas da cisgeneridade (MORAIS, 2024). Pesquisadories3 também avolumam essa discussão, buscando “ultrapassar as convenções da régua cisgênera, que continua a medir os corpos trans e a definir suas categorias de pertencimento e desumanidade” (Lucas DANTAS, 2024, p. 173).
Em 2010, paralelo ao crescimento do debate sobre não binariedade nas redes sociais on-line, os menstruapps começaram a ser disponibilizados para download nas lojas de apps do sistema IOS e Android (Camilla RØSTVIK, 2022).
A relação entre apps para dispositivos móveis e gênero, como categoria política, é estreita (Gabriela PALETTA, 2019; Fernando POCAHY; Felipe CARVALHO; Dilton COUTO JR., 2020). Quando se trata de menstruapps, este vínculo é ainda mais acentuado.
Os menstruapps são aplicativos para o monitoramento do ciclo menstrual e de fertilidade, cujo sistema algorítmico está calibrado para avisar e/ou ensinar es usuáries a ler quando vem a próxima menstruação e/ou ovulação (PALETTA, 2019, p. 124), bem como incentivá-las e incentivá-los a registrar com regularidade de dados físicos, fisiológicos, psíquicos e emocionais, para que, assim, o app possa auxiliar tanto na concepção quanto na contracepção.
Esses apps operam com modelos de negócios que criam receita por meio da venda de dados pessoais e íntimos das/dos e des usuáries. Eles querem saber como você transa; se tem orgasmos e em que posição; se você se masturba; o que comeu; se está com dor de cabeça; cólica; de bom humor ou irritada; quanto você pesa, mede, anda... assim, conhecendo você melhor, as predições tenderão a ser mais precisas. Essa é uma das promessas. Há outras, como promover o autoconhecimento, maior controle sobre seu ciclo e gerenciamento de sua vida sexual e reprodutiva.
Os menstruapps datificam o ciclo menstrual, propõe Baumgarten (2024). Em sua etnografia digital, a antropóloga imerge no Clue analisando as categorias que o app oferece para registros de dados fisiológicos, corporais, psíquicos e emocionais. Em diálogo com Paul Preciado, Baumgarten propõe que “as categorizações presentes nos textos e ilustrações do aplicativo são parte da circulação simbólica e material do tecnogênero: tanto pela representação quanto pela coleta de informação” (Nicole BAUMGARTEN, 2024, p. 86). Controle, regulação e produção dos corpos se articulam e, assim, essas tecnologias participam também na construção e regulação das identidades de gênero.
Apps voltados para monitoramento de funções biológicas e fisiológicas não só mineram informações valiosas sobre saúde, ciclos naturais e estados emocionais de usuárias/es, como tendem a acenar com mágicas soluções individuais, diante de temas macrossociais como saúde, pobreza e desemprego (Evgeny MOROZOV, 2018).
Neste artigo, organizado em três seções e uma conclusão ainda em aberto, discutimos como as tecnologias digitais, como menstruapps, têm procurado contemplar a diversidade de gênero e sexual a fim de atender ao crescente mercado das femtechs4 e à franca queerização de identidades, pelas quais as sociedades ocidentais e de matriz ocidental, como é a brasileira, têm passado nas últimas duas décadas.
Discutimos, a partir de uma pesquisa imersiva como usuárias críticas desses menstruapps, a arquitetura de dois dos mais populares apps para monitoramento do ciclo menstrual: o Clue Calendário Menstrual e de Ovulação e o Flo Calendário Menstrual. Detemo-nos particularmente no que os discursos chamam de “inclusão” e/ou “diversidade”.5 Interessa-nos, ainda, mapear e analisar as reações e resistências de usuáries que se autodeclaram como pessoas não binárias, acompanhando a interação des usuáries com o chatbot dos menstruapps. Somamos a esse material artigos redigidos pela equipe destes apps e publicados nas plataformas de ambos.
A menstruação e tudo que a ela se relaciona ainda estão cercadas de desinformação e tabus, de maneira que os menstruapps acabam por oferecer um território digital para aprendizados e trocas entre usuáries. Assim, dá-se seguimento a uma educação menstrual que, durante todo o século XX, foi prioritariamente promovida pela indústria de produtos higiênicos e, mais recentemente, pelos laboratórios farmacêuticos (Jeanne GUIEN, 2023). As Big Techs se somam a esta pedagogia que, mais do que ensinar, “produz corpos que se acoplam com uma sensibilidade fantasmática (Paul PRECIADO, 2020) a dispositivos tecnológicos, bagunçando os limites das fronteiras entre o ‘natural’ e o ‘artificial’, o ‘corpo’ e a ‘máquina’” (PALETTA, 2019, p. 124).
As interações entre usuáries e tecnologias digitais como a inteligência artificial (IA), chatbots e algoritmos de predição, geram um grande volume de dados sobre dissidências sexuais, como no caso de pessoas não binárias, que acabam colaborando, mesmo sem intenção, para a codificação de perfis queer, a partir da normalização destes. As predições nos aplicativos de acompanhamento do ciclo menstrual são geradas a partir de algoritmos que analisam dados inseridos por usuáries. Com base nesses registros, as informações são cruzadas com bases de dados populacionais e padrões fisiológicos. Muitos desses aplicativos usam aprendizado de máquina para refinar suas previsões, ajustando-se às variações individuais ao longo do tempo. Há, assim, a tendência de que estereótipos sobre identidades minorizadas sejam reiterados (Tarleton GILLESPIE, 2024).
Ao ecoarmos as inquietações de Felipe Rivas San Martín (2025), interrogamos “¿Cómo es posible que algo tan inclasificable como lo queer pueda ser capturado y codificado en las redes digitales al punto de establecerse como un patrón algorítmico?”. Parece-nos que, em tempos de capitalismo de vigilância (Shoshana ZUBOFF, 2021), estamos lidando com outros “problemas de gênero” (Judith BUTLER, 2003) em contextos nos quais corpos físicos e corpos de dados são cada vez mais indissociáveis. É sobre estas tensões que nos debruçamos.
Menstruapps e não binariedade
Os menstruapps atuam como usinas de geração de grandes volumes de dados, especialmente dados generificados, coletados de corpos menstruantes e/ou procriativos. Ao mesmo tempo, esses aplicativos moldam e produzem esses corpos, promovendo uma espécie de tecnopedagogia que ensina como menstruar de maneira mais autocontrolada e alinhada aos padrões contemporâneos (GUIEN, 2023).
A equação automonitoramento = autoconhecimento = empoderamento está presente na linguagem dos menstruapps. “Entenda seu ciclo e seja sua melhor versão”; “Conheça o seu corpo. Controle sua saúde”; “Quanto mais você monitora, mais precisas ficam as previsões”, são convites que estão na interface do Clue e do Flo.
Cercada por tabus e estigmas, a experiência menstrual, em sociedades de matriz ocidental, tem se constituído no silêncio e na vergonha, sustentada por meio de discursos biologizantes e higienistas (Carolina VÁSQUEZ, 2022). Associada ao “tornar-se” mulher, a menstruação e tudo que a cerca costumam ser vividas a partir de queixas, segredos e, mesmo, nojo.
Informadas por perspectivas ciscentradas, a menstruação, a gravidez e a menopausa foram construídas como experiências unicamente concernentes a mulheres cisgêneros, de forma que homens cis não foram nem educados e muito menos envolvidos nessas vivências que podem ocorrer com suas mães, irmãs, amigas e parceiras.
Mesmo diante de outras identidades que foram encontrando possibilidades de existência e expressão ao longo deste ¼ de século, o ciclo menstrual segue sendo tratado de forma altamente medicalizada e, paradoxalmente, naturalizada, excluindo homens transexuais, pessoas não binárias e outras pessoas que menstruam do rol de interesses e preocupações relativas ao ciclo reprodutivo. Diante desse cenário histórico, não é incomum que homens transexuais e pessoas não binárias encarem a menstruação como um elemento de desconforto e sofrimento causado pela propalada incongruência entre a identidade de gênero e o ciclo menstrual.
No entanto, S.E. Frank (2020: 15) observa que a disforia não se origina do sangramento menstrual em si, mas das normas sociais que constroem a menstruação como feminina. A.J. Lowik (2020: 7) acrescenta que nem todas as pessoas trans e não binárias que menstruam sentem angústia, o que complica “a narrativa dominante (...) de que a menstruação sempre desencadeia disforia de gênero para as pessoas trans” e que a supressão da menstruação deve ser o remédio escolhido. Assim, é necessário desconstruir e criticar o discurso menstrual para reconhecer as “multiplicidades das realidades menstruais” (Persdotter, 2020: 367) e entender como as perspectivas trans e não binárias desafiam a menstrunormatividade e contribuem para e ajudam a desgenerificar e despatologizar a menstruação (Rydstrom, 2020) (Rowena KOSHER; Lauren HOUGHTON; Inga WINKLER, 2023, p. 2).6
Menstruapps como o Clue e o Flo têm se proposto a mudar essa relação “disfórica” entre menstruação e corpos dissidentes da norma cisgênera. O Clue, por exemplo, se descreve na loja virtual da Google Play como um app inclusivo: “usamos linguagem neutra. Temos em nosso aplicativo pessoas de todas as etnias, gêneros e orientações sexuais” (citado por BAUMGARTEN, 2024, p. 60).7 Ambos os apps anunciam-se como seguros em muitos níveis: privacidade de dados; qualidade técnica; rigor científico das informações que disponibilizam para usuárias, usuários e usuáries.
O artigo “Falando sobre períodos além do gênero”, escrito por Jen Bell (2017) e publicado na seção “Igualdade de Gênero” do Clue, em 2017, explica a escolha do aplicativo em se tornar acessível também para pessoas fora dos padrões binários. O texto reconhece que “pessoas que não se encaixam na definição comum de ‘mulheres’ podem facilmente se tornar isoladas, marginalizadas, estigmatizadas e discriminadas” quando a linguagem sobre o ciclo menstrual é direcionado exclusivamente ao público feminino. Acessibilidade e linguagem de gênero no Clue, escrito por Mike Lavigne e Lisa Kennelly (2017), e publicado na mesma seção, reitera a proposta de inclusão. Apesar de reconhecer que, em alguns idiomas, a linguagem neutra precisa ser melhorada, o app diz ser projetado para “todos os nossos milhões de usuários, independentemente do gênero” (grifo do aplicativo).
Apesar de o Clue não ser focado exclusivamente na gravidez e adotar linguagem neutra, Joelle Schantz, Claudia Fernandez e Anne Marie Jukic (2021, p. 14) avaliam que o app acabava por focar a parceria sexual preponderantemente cis e heterossexual. Esta ambiguidade levou à atualização gratuita do app, que, em dezembro de 2022, anunciou em seu site o “relançamento” da plataforma com novo design e com o acréscimo de mais de 40 opções de monitoramento.8 Esse retorno do Clue a queixas e apontamentos feitos por usuáries quanto às incongruências na sua linguagem reforça a ideia da potencialidade do app em calibrar um sistema algoritmo queerizado. Por exemplo, na descrição da aba referente à vida sexual, em 2024, o Clue expressava que “as opções de monitoramento da vida sexual podem ser aplicadas a todas as orientações sexuais”.9
O Flo também propõe debates sobre hormônios e diversidade de gênero, mas o faz a partir de um serviço interno de conversas anônimas entre usuáries chamado “Papo Privado”. Entre as diferentes chaves temáticas oferecidas ali, encontra-se a aba “Saúde LGBTQ+”, onde há uma série de perguntas elaboradas por especialistas em saúde que compõem a equipe do Flo e inteligência artificial do app. Nos cards (cartões digitais com texto e imagens) aparecem questões como: “Qual o efeito da terapia hormonal de afirmação de gênero? Compartilhe”; “Se você é trans/não-binário e tem menstruação, como se sente acerca disso?”. A primeira resposta a esse conjunto de perguntas vem na forma de apelo/recomendação.
Eu queria que desse para mudar os pronomes aqui no app, sabe? escolher os pronomes ele/dele ou elu/delu, isso afeta minha autoestima e a autoestima de outras pessoas trans também vou tentar avaliar a playstore, se possível curtam meu comentário para chegar neles obrigado! (Fala de usuárie identificade com ícone de uma ovelha estilizada, postada em março de 2024).
As 299 pessoas que responderam à pergunta reproduzida mais acima queixam-se da forma como o app se comporta frente às pessoas trans e não binárias. Mulheres lésbicas também intervêm na postagem (Figura 1). Ao mesmo tempo que reconhecem as qualidades do app, pontuam cis-heterossexualidade indisfarçável do Flo.

#PraTodoMundoVer: A imagem mostra uma captura de tela de celular com uma conversa composta por quatro balões de mensagens de fundo cinza. À esquerda dos balões estão círculos com os ícones de cada usuário: no primeiro há um pato com fundo cinza, no segundo um cachorro com fundo azul claro, no terceiro um gato com fundo rosa e no quarto o pato se repete.
Figura 1 Captura de tela do chat “Papo Privado”, elemento do Flo Health
As logomarcas de ambos os apps também oferecem material interessante para análises de gênero (Figura 2) relativas às propostas de inclusão de corpos, gêneros e orientações sexuais diversas. O Clue, por exemplo, se vale de uma mandala vermelho-alaranjada como símbolo gráfico. Ao lado dela aparece o nome do app escrito em uma fonte sem serifa, fina, enquanto o Flo utiliza como imagem uma pena que parece flutuar. A logomarca é rosada, escrita em fonte serifada e arredondada, qualidades que remetem a valores propagados de feminilidade.

Fonte: Sites oficiais do Clue e do Flo.
#PraTodoMundoVer A imagem mostra as logomarcas do app Clue, em vermelho, e do app Flo, em rosa.
Figura 2 Logomarcas
Nenhuma destas escolhas, sabemos, são aleatórias. A mandala do Clue e a pena do Flo estão prenhes de significados. Mandalas, apesar de serem símbolos milenares, se popularizaram no ocidente nos anos de 1960, sobretudo por influência de Carl Jung em O homem e seus símbolos. A mandala é uma forma geométrica que, em muitas tradições culturais, representa a totalidade. Ao mesmo tempo, a que ilustra a logomarca do Clue remete a uma eletrosfera, forma associada às ciências duras (hard sciences) como a química e a física, tidas popularmente como mais precisas e confiáveis.
Já a pena flutuante do Flo sugere fluidez e leveza. Enquanto o Flo oferece um mundo rosa, diáfano e cheio de elementos associados pelo senso comum ao feminino, o Clue parece ter optado por signos mais englobantes em termos de gênero e orientação sexual, relacionando-se visualmente ao científico, ao mesmo tempo ao sangue e à delicadeza.
Em 2023, como parte de seu esforço para ser mais inclusivo em relação à diversidade de gêneros, corpos e orientação sexual, o Flo começou a usar o termo “pessoas que menstruam”, mas, desde 2021, já incluía em sua biblioteca artigos voltados ao público LGBTQIAPN+ (LGBTQ+, no app). Porém, pelo que constatamos em nossa pesquisa, diferente do que se passou com o Clue, o Flo manteve tanto sua linguagem gráfica quanto a escrita ancorada em referências ciscentradas. Quando analisamos os textos disponíveis no site e no app do Flo, constatamos que as referências se voltam apenas a mulheres cisgêneras, de modo que “Todas as pessoas que menstruam”, como locução que atestaria a proposta de inclusão, desaparece. Na iconografia e nas ilustrações calcinha rendilhadas, corpos com muitas curvas, seios volumosos e perfis que remetem a mulheres flutuam entre muitos tons de rosa.
Por outro lado, ao lermos os artigos publicados por ambos os apps, é possível constatar que tanto o Clue quanto o Flo (o primeiro com mais resultados tabulados por nós) vêm se esforçando para se mostrarem inclusivos e confiáveis tecnológica e cientificamente. Porém, os esforços inclusivos não criaram reais fissuras na lógica binária que organiza o Flo.
Até que ponto esse esforço de inclusão não é também uma forma de captura de dados que atualiza sistemas algorítmicos em plataformas digitais? Na avaliação de Graciela Natansohn (2019), a incitação ao automonitoramento colabora para uma vigilância via rastros digitais. “A vigilância por defeito, por default, embutida nas tecnologias, é uma estratégia comercial e patriarcal para controlar e restringir direitos” (NATANSOHN, 2019, p. 139). O que acontece, então, quando esse aparato discursivo olha para as dissidências?
Vigilância queer
Os aplicativos disponíveis na Google Play ou na Apple Store são os novos operadores da subjetividade. Lembre-se então de que, quando você baixa um aplicativo, ele não está sendo instalado em seu computador ou em seu celular, mas em seu aparato cognitivo (PRECIADO, 2020, p. 79).
A advertência de Paul Preciado ecoa no texto de San Martín, nesta Seção Temática. O autor traz as preocupações presentes no dossiê “Queer Surveillance”, publicado em 2019, na revista Surveillance & Society.10 No editorial daquela edição, Gary Kafer e Daniel Grinberg, organizadores do dossiê, definiram a vigilância queer como uma dinâmica de poder que atualiza a queeridade (queerness) como forma de traçar e retraçar limites e fronteiras entre normalidade e estranhezas, capturando o que cabe nos parâmetros da normalidade, abandonando o que pareça excessivo, de maneira que a dicotomia entre normal e anormal siga sendo o referente que exclui e classifica o que pode ser considerado queer. Dito de outra forma: quando o Flo distingue “mulheres e meninas” de “pessoas que menstruam”, propondo uma categoria identitária à parte ao invés de abrangente, reitera o queer como outro que desenha a fronteira entre norma e desvio.
Por outro lado, o que temos observado nesta pesquisa imersiva, de inspiração na etnografia digital,11 é que a queeridade nos apps investigados não é externa à vigilância como uma identidade preexistente. Ela é, de fato, produzida dentro dos processos de vigilância como sua própria condição de possibilidade - vigiar e produzir formas de subjetivação que incitam o controle de si a partir da autovigilância. Os menstruapps são parte de um cenário mais amplo de datificação dos corpos, onde o monitoramento da saúde reprodutiva e menstrual se torna um dado biopolítico.
Desde Foucault (1987), a vigilância é entendida como um elemento central nos processos de constituição subjetiva, associada à disciplinarização dos corpos e à normalização dos comportamentos. Em sua análise do biopoder e da sexualidade como dispositivos históricos que incitam o discurso sobre o sexo, Foucault mostra que o poder não se exerce apenas por meio da repressão, mas também pela produção e controle de saberes, normas e práticas sociais.
[o] ponto central do funcionamento da vigilância é a presunção de “noções normativas de incorporação” que exigem transparência do corpo para a criação de significado e intervenção (van der Meulen e Heynen 2016: 19). As identidades queer são opacas para esses sistemas na medida em que as configurações supostamente impróprias de gênero, sexo e sexualidade ocultam o corpo e o tornam uma inconsistência ameaçadora. Como Kathryn Conrad (2009b: 380) escreveu naquela edição [referem-se à edição no.4 de 2009, da Surveillance & Society Issue] “as técnicas de vigilância, elas próprias tão intimamente ligadas aos sistemas de informação, exercem pressão normativa sobre corpos e práticas não normativos, como os de sujeitos queer e genderqueer”. Por exemplo, tecnologias biométricas, como scanners faciais, são calibradas com base em suposições binárias de incorporação de gênero e heterossexualidade compulsória (Keyes 2018). As pessoas que não estão em conformidade com as convenções dominantes de vestuário e aparência de gênero são computadas como “falhas do sistema biométrico” (Magnet 2011: 48) que devem ser corrigidas pela conformidade com as construções discursivas no software. Sem dúvida, a vigilância há muito tempo é hostil às identidades queer e trans na tentativa de controlar o desvio (KAFER; GRINBERG, 2019, p. 593).12
Nos dois menstruapps que estamos tratando aqui, há uma clara tensão entre reconhecer essas experiências identitárias e constituí-las como “normais”. As aspas, aí, estão para tornar essa ambiguidade ainda mais visível. Uma normalidade que só pode se efetivar a partir da captura da “estranheza”, que precisa perder sua opacidade para se tornar codificável.
Como um corpo que escapa ao binário masculino/feminino pode ser reconhecido como um corpo que menstrua? Em um dos muitos artigos que recheiam o site do Clue, uma resposta é ensaiada. Em “Como usar o Clue app me ajudou a aceitar minha identidade não-binária”, artigo publicado na biblioteca do Clue em julho de 2020, Aubrey Bryan (2020), hoje trabalhando no Clue, conta como, com o app, aprendeu a menstruar como pessoa não binária.
Quando ouvi falar do Clue, me impressionei com a inclusividade e como se declarava publicamente que era um app para qualquer pessoa que menstruasse. Eu comecei a monitorar minha menstruação, e eventualmente me candidatei e acabei indo trabalhar no Clue.
Quanto mais eu registrava no app, mais a minha mentalidade evoluía. Ao desviar-se da ideia de que o ciclo menstrual tinha um gênero explícito, eu pude me libertar da relação entre minha menstruação e meu gênero (BRYAN, 2020, grifos nossos).
Quanto mais Bryan registrava seus dados no app, mais o Clue aprendia como uma pessoa não binária vivia seu ciclo menstrual. Alimentava, assim, um sistema “algoritmo queer”. Alimentar um algoritmo significa fornecer-lhe dados para que ele aprenda a reconhecer padrões, fazer previsões ou tomar decisões. O processo envolve fornecer grandes quantidades de exemplos (dados) para que o algoritmo possa aprender como identificar características relevantes. Ou seja, não é o indivíduo que interessa, mas uma massa de comportamentos individuais. É o que San Martín (2025) identifica como “salto pós-individual”,
pues el monitoreo no se focaliza en los datos propios de cada individuo por separado y en particular, sino en el conjunto de datos de grandes grupos de usuarios. Los datos producidos por la interacción humana con los dispositivos son derivados a grandes bases de datos de manera despersonalizada y desagregada, es decir, el dato se desacopla del sujeto del cual surge. Los algoritmos procesan esos datos para encontrar correlaciones y crear perfiles de usuario que son modelados prototípicos de carácter estandarizado y a la vez flexible que ocupan el lugar de los usuarios en la dinámica administrativa de la tecnología informática. Esta definición es decisiva pues el algoritmo no opera directamente sobre el usuario, sino sobre el perfil de usuario que ha sido construido también por los algoritmos como un material técnicamente administrable (grifos nossos).
Quando pessoas não binárias são convidadas a se sentirem à vontade para registrarem seus dados pessoais, fisiológicos e emocionais nos apps, vão oferecendo ao algoritmo elementos singulares para que um perfil seja codificado, estandardizando identidades que se constituíram como fora do standard. Paradoxalmente, há uma customização digital13 que permite que o sujeito se reconheça naquele perfil, ou seja, tenha uma experiência individualizada, ao mesmo tempo que seus dados vão sendo datificados de forma desagregada. Desta formar, criam-se modelos generalizados de comportamentos preditíveis (SAN MARTÍN, 2025).
A não binariedade como “potência subversiva” (Mariana POMBO, 2024) é queer ou cuír (como temos usado na América do Sul),14 não só porque desliza para além dos binarismos de gênero, colocando o próprio conceito em xeque, mas porque o cuír/queer, em sua gênese política, propõe-se justamente a “colocar-se contra a normalização - venha ela de onde vier” (Guacira LOURO, 2003, p. 546). De modo que
la capacidad algorítmica de “codificar lo queer” podría ser comprendido como el correlato sociotécnico de un proceso de integración de las minorías excluidas, pero también como una intensificación expandida de la vigilancia digital y las dinámicas de control. Para entender este punto es fundamental examinar las modalidades técnicas concretas que están en juego en este “algoritmo queer” y las novedades o diferencias que establece con las otras dinámicas de vigilancia queer (SAN MARTÍN, 2025).
A queerização algorítmica, ou o esforço das plataformas em se “queerizar”, pode ser lida como uma cooptação mercantil de identidades disruptivas. Algoritmos de filtragem colaborativa, por exemplo, têm a capacidade de fazer previsões bem-sucedidas em todos os campos quando comparados a algoritmos de compartilhamento de conteúdo.15
Neste artigo,
nosso foco são os algoritmos de filtragem colaborativa, em parte porque sua capacidade de fazer previsões bem-sucedidas em todos os campos é considerada mais forte do que a dos algoritmos baseados em conteúdo, mas também porque eles exigem e exploram métodos “participativos” para desenvolver novas técnicas de classificação (Celia LURY; Sophie DAY, 2019, p. 22).16
Os métodos participativos operam a partir da premissa de que usuárias/os têm em comum mais do que um único interesse compartilhado, o que dispensa a acumulação à participação de muitos usuários para produzir recomendações personalizadas para um perfil específico (LURY; DAY, 2019, p. 22). Grosso modo, um perfil que compartilha conteúdos sobre seu interesse entusiasta sobre o novo livro de Judith Butler provavelmente guarda mais coisas em comum com outras pessoas que também apreciam as ideias da filósofa, além do interesse nas produções teóricas de uma das mais expressivas autoras queer. Os algoritmos de filtragem colaborativa não alocam previamente usuáries/as/os em categorias preexistentes, por isso nos parecem interessantes quando se trata de identidades que só muito recentemente começaram a se articular como coletivo.
Os algoritmos de filtragem colaborativa, usados pelos menstruapps para personalizar a experiência das pessoas que os utilizam, são actantes que interagem com dados coletivos e individuais para recomendar conteúdos, funcionalidades e até notificações. Esses algoritmos interpretam dados inseridos por usuáries e geram recomendações personalizadas. Neste contexto, o algoritmo deixa de ser apenas um mecanismo técnico e assume um papel ativo na formação de identidades e práticas de autocuidado, ao sugerir formas de entender o ciclo menstrual de uma maneira que pode reforçar ou desafiar normatividades de gênero.
Em uma rede sociotécnica, onde algoritmos operam como actantes, eles não apenas agregam dados para oferecer recomendações, mas também exercem uma forma de vigilância contínua sobre os corpos e as identidades. Essa vigilância algorítmica, ao observar padrões de uso, sintomas e respostas dos usuários, participa da normatização e, muitas vezes, da patologização de experiências corporais, conforme os parâmetros de normalidade definidos pelos próprios algoritmos e pela rede de desenvolvedores e profissionais de saúde. Para pessoas não binárias ou queer, isso pode representar uma pressão velada para ajustar suas práticas e autoentendimento a padrões cisnormativos, comprometendo a capacidade do algoritmo de gerar uma subjetivação verdadeiramente inclusiva. No capitalismo de vigilância, o que pode significar a “vigilância queer” (ou estamos falando de vigilância do queer)?
Vigilância, paradoxos e capturas
O conceito de capitalismo de vigilância foi proposto por Shoshana Zuboff em seu livro The Age of Surveillance Capitalism, publicado originalmente em 2018 e no Brasil em 2021. Para a pesquisadora norte-americana,
o capitalismo de vigilância reivindica de maneira unilateral a experiência humana como matéria-prima gratuita para a tradução em dados comportamentais. Embora alguns desses dados sejam aplicados para o aprimoramento de produtos e serviços, o restante é declarado como superávit comportamental do proprietário, alimentando avançados processos de fabricação conhecidos como “inteligência de máquina” e manufaturado em produtos de predição que antecipam o que um determinado indivíduo faria agora, daqui a pouco e mais tarde. Por fim, esses produtos de predições são comercializados num novo tipo de mercado para predições comportamentais que chamo de mercados de comportamentos futuros. Os capitalistas de vigilância têm acumulado uma riqueza enorme a partir dessas operações comerciais, uma vez que muitas companhias estão ávidas para apostar no nosso comportamento futuro (ZUBOFF, 2021, p. 22).
Vigiar e prever compõem a díade que orienta esse modelo que, ainda segundo Zuboff, tem potencial para moldar comportamentos individuais para interesse de terceiros. No capitalismo de vigilância, o poder é instrumentário, próprio desta fase do capitalismo, e opera com “a instrumentação e instrumentalização do comportamento para propósitos de modificação, predição, monetização e controle” (ZUBOFF, 2021, p. 521, grifo no original) dos comportamentos humanos, inclusive, aqueles residuais, como sangue e excreções. Ao corroborarem a visão de Zuboff, os mentruapps se interessam em comoditizar nosso sangue, nossas dores, humor e gozo.
O Flo, por exemplo, estimula a interação entre usuárias, usuários e usuáries com garantia de anonimato e de intervenção feita por especialistas. Ao mesmo tempo que se tem ali a extração de um superávit comportamental em um espaço para a livre dissertação, é também naquele chat que usuárias, usuários e usuáries têm encontrado interlocução e escuta mútua, numa troca que vamos chamar, aqui, de “entre pares”.
Desde as falecidas comunidades do Orkut17 que, a partir de 2004, começaram a fazer sucesso no Brasil, dissidências de gênero e sexualidade passaram a desenhar territórios digitais, onde intensas trocas ocorriam (Regina FACCHINI; Carolina DE CASTRO, 2009; Andréa DOS SANTOS; Suely DE AQUINO, 2011; Carolina PARREIRAS, 2008). Com a emergência dos apps para smartphones, a portabilidade e a conexão perpétua, assistimos ao borramento cada vez mais flagrante entre privado e público. O pessoal foi encontrando um espaço político e, paradoxalmente, íntimo, na chamada internet.
As dissidências se expressam, por exemplo, nos chats dos menstruapps ou em canais do YouTube, como a pesquisa de Kosher, Houghton e Winkler (2023, p. 3) procura mostrar. A partir da análise de 19 vídeos sobre “MENstruação”,18 e mais de 12 mil comentários, as autoras avaliam, em tom celebratório, que há um vasto “arquivo vivo de corporeidade e identidade trans” (living archive of trans corporeality and identity) disponibilizado em plataformas comerciais como o YouTube. Ainda segundo as pesquisadoras, a plataforma passou também a ter acesso a um novo vocabulário no momento mesmo em que esses termos estavam sendo formulados e experimentados. Kosher e colaboradoras levantaram uma série de eufemismos utilizados por homens trans e pessoas não binárias para falarem de menstruação, bem como para nomear partes do corpo e a si mesmos/mesmes. No “Papo Privado”, nas discussões em torno da menstruação, transexualidade e não binariedade, por exemplo, surgem termos como “Lésbicas MDS”; “hetero cis”; “transmasc”; “cis sáfica”; “corpos AFAB”; “gênero fluído”; “demissexual”; “demigirl’; “assexual”; “bigênero”. Esse farto e novo vocabulário reflete mudanças significativas pelas quais viemos passando como sociedade. Mudanças estas que os apps estão assimilando graças à interação que ocorre dentro deles e para além das plataformas, possibilitando que identidades antes invisibilizadas ganhem contornos codificáveis.
Así, la capacidad algorítmica de “codificar lo queer” podría ser comprendido como el correlato sociotécnico de un proceso de integración de las minorías excluidas, pero también como una intensificación expandida de la vigilancia digital y las dinámicas de control (SAN MARTÍN, 2025).
Os trabalhos sobre sistemas de vigilância pressupõem “‘noções normativas de incorporação’ que exigem transparência do corpo para a criação de significado e intervenção” (KAFER; GRINBERG, 2023, p. 593),19 e quando se trata de corpos e identidades que escapam a essas presunções, o sistema tende a não identificá-las e/ou não reconhecê-las. Mais grave, tende a penalizá-las. Como discutem Mariah Silva e Sara York (2025, nesta Seção Temática), a vigilância é desigualmente distribuída, pois carrega marcas de gênero, raça, classe e territórios. Ao pensarmos com elas, interrogamos: as pessoas não binárias, que nomeiem-se de lésbicas desfem,20 trans nãobináries21 ou queer, têm potencial de confundir os sistemas de vigilância? Esta é pergunta retórica, pois, apesar de reconhecermos a existência de territórios digitais onde dissidências se identificam e se articulam, o fato é que eles ainda estão situados em domínios oligopolistas, em que empresas globais se nutrem de dados de comportamentos triviais, ao mesmo tempo que extraem tonalidades psíquicas e emocionais (Fernanda BRUNO; Anna Carolina BENTES; Paulo FALTAY, 2019) de quem utiliza esses serviços.
O que isso pode significar quando estamos diante de identidades emergentes (AZEVEDO, 2024)? Como a rede constituída por atores humanos e não humanos vai se tecendo na tensão entre resistências e vigilância? Ou, em que medida novas identidades já estão se conformando na fricção permanente entre perfis digitais e um self analógico? Sem pretensão de oferecer respostas taxativas a estas perguntas, ensaiamos possibilidades para pensar teoricamente as provocações que elas guardam.
As identidades queer estão sendo apreendidas e aprendidas pela IA (ver Julianna MOTTER, 2025) a partir de uma rede de atores humanos e não humanos. Estão implicadas nesse aprendizado alguns mal-estares: controle, vigilância e normatividade.
San Martín (2025) considera que
se podrían describir aquí dos posibilidades de existencia de lo queer ante el régimen algorítmico. Por un lado, podría ser que el interés de datificación "total" que expresa la utopía Big Data termine integrando lo queer a través de esa datificación, de la formación de correlaciones, construcción de patrones y perfiles móviles que no están orientados por una evaluación normativa. En cierto sentido, podría decirse que en esta operación lo queer se integra y a la vez desaparece como un elemento más de la hipernormalización algorítmica, pues pierde su excepcionalidad, rareza, extrañeza y disruptividad que lo caracterizaban [...].
Por outro lado, a subjetivação queer em menstruapps pode se revelar como um campo de tensão e criação. Se esses aplicativos tentam “ensinar” aos usuários formas normativas de autocontrole e saúde, podemos também considerar que as pessoas não binárias podem reinterpretar essas práticas, transformando os aplicativos em ferramentas de expressão, resistência e exploração de identidades subversivas. Pressupor que as pessoas são passivas diante dos usos das tecnologias não é apenas ingênuo, mas empiricamente insustentável (José VAN DIJCK, 2019).
Apps como o Flo e Clue têm buscado interagir com as dissidências, se apresentando como territórios digitais confiáveis, nos quais capturas e resistência se friccionam, contribuindo para que as identidades não binárias se constituam nos apps, por meio deles e para além deles. A visibilidade ocorre dentro de um ambiente de vigilância e coleta de dados. A questão é se essa visibilidade proporcionará, de fato, uma amplificação autêntica das vozes dissidentes ou se acabará por enquadrá-las em uma moldura controlada e passível de exploração.
Conclusões duvidosas
Ao parafrasearmos Daniela Alaattinoğlu (2022), discutimos, neste artigo, como os menstruapps se colocam na peculiar interseção entre os debates contemporâneos de gênero e a busca capitalista por novos produtos e mercados.22 Vimos que, apesar das plataformas possibilitarem a expressão de novas identidades de gênero e sexualidade, isso não ocorre sem que elas se beneficiem da visibilidade dessas identidades. Visibilidades estas que podem rapidamente se tornar hipervisibilidade no contexto do capitalismo de vigilância. Na prática, isso significa que a presença de identidades não binárias nos menstruapps não ocorre apenas para dar reconhecimento e acolhimento, mas também para transformar essas identidades em dados que possam ser analisados, segmentados e, eventualmente, monetizados.
A comercialização das margens acontece quando as plataformas monetizam essas identidades, transformando-as em commodities (Sarah ROBERTS, 2019). Quais problemas de gênero (gender trouble) podem surgir dessa comoditização do subversivo?
Quando se procura transformar identidades dissidentes em produtos consumíveis, seu potencial subversivo, de certa forma, tende a ser neutralizado. A subversão, que inicialmente busca questionar as normas de gênero, pode ser esvaziada de seu caráter crítico ao ser moldada para atender à sua algoritmização, o que tende a criar a ilusão de inclusão, enquanto as estruturas normativas continuam inalteradas.
O que constatamos, em nossa imersão diária na arquitetura de dois menstruapps, é que está em curso um esforço de algoritmização do queer a partir da ideia de “inclusão da diversidade” propagada pelo Clue e Flo. Nestes apps, há toda uma incitação ao autoescrutínio, ao monitoramento atento de sintomas, humores e atenção a alertas sobre saúde sexual a partir da disponibilização de dados sensíveis, como já discutido aqui. São esses dados percebidos e registrados devidamente aqueles capazes de gerar a previsibilidade prometida pelos menstruapps. Os algoritmos de predição aprendem, mas têm dificuldade de lidar com o desvio. Porém, o desvio pode ser estabelecido como a fronteira que divide identidades “estáveis” (o que sabemos ser uma contradição em termos) e as que derivam nas águas profundas do digital.
Por outro lado, efeitos políticos podem surgir dessas tentativas de capturas digitais e algoritmizações, como a publicização de opressões e exclusões, sobretudo quando se trata de temas tabu como menstruação e reprodução envolvendo corpos que escapam à régua cisgênera. Vimos que os apps não só se esforçam em contemplar a não binariedade, mas acabam por contribuir para que estas se constituam a partir das trocas promovidas em uma complexa rede de relações entre atores humanos e não humanos.
A não binariedade como força subversiva, mas também como identidade plural,23 desestabiliza a cis-heteronorma a partir de seu “espectro caleidoscópico, em constante movimento, que não se deixa apreender por uma única categoria identitária tampouco por materialidades corpóreas” (Gabrielle WEBER; Silvana NASCIMENTO, 2024, p. 274). Mas, ainda assim, temos visto que a não binariedade começa a ser digitalmente codificada.
Porém, nos mesmos espaços em que a vigilância ocorre, acontece também a possibilidade de agregação crítica, promovendo-se maior visibilidade e legitimidade a existências que foram historicamente inviabilizadas. Entre tensões e paradoxos, a captura de dados e o controle algorítmico permanecem, deixando em aberto a questão de até que ponto é possível alcançar uma autonomia plena nesses ambientes, uma vez que o capitalismo sempre foi bem-sucedido em domesticar e mercantilizar as dissidências. Porém, ele nunca foi capaz de impedir de forma absoluta o surgimento de dissidências de gênero e, menos ainda, que estas resistam, criando outros problemas de gênero para o cistema.










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