Os editoriais de uma revista contam sua história. Testemunham suas intenções (funções), constituem-se em importantes fontes de pesquisa sobre suas trajetórias, sua própria materialidade, objetivos, a comunicação dos temas que se propõem a tratar, os objetos das escritas/estudos que apresentam. E aqui estamos falando mais uma vez de uma revista que foi criada no Rio de Janeiro, com a participação de um coletivo de pesquisadoras da Região Sudeste do Brasil (e outras), com a função de,
...além de servir de canal de expressão dos movimentos sociais de mulheres, (...) difundir o conhecimento de ponta na área dos estudos feministas, ampliando e aprimorando esse campo de estudos não apenas entre especialistas, mas também entre este e os demais campos de conhecimento (Lena LAVINAS, 1992, p. 3).
Na continuidade, Lavinas, sua primeira editora, esclarece que a revista é composta de artigos, dossiês, resenhas, informações, e que apresentaria traduções de artigos inovadores e relevantes de autoras de prestígio no campo dos estudos feministas, ao mesmo tempo que traria um encarte com a versão, para o inglês, de artigos importantes de autoras brasileiras publicados a cada número da revista, no intuito de divulgar a produção de nossas pesquisadoras, “...assegurando um real e promissor intercâmbio intelectual entre pesquisadoras(es) nacionais e estrangeiras(os)” (Idem).
A questão da internacionalização de conhecimentos já estava, assim, contemplada na proposta da Revista Estudos Feministas, no editorial de seu número zero, que trouxe a apresentação das seções que a compunham. A trajetória da REF, que foi criada como “um periódico não diretamente institucional” (Idem, p. 4), de um campo pluridisciplinar, está abundantemente narrada em suas páginas e em outros veículos (ver Luzinete Simões MINELLA, 2003; MINELLA; Miriam Pillar GROSSI; Carmem Vera Gonçalves Vieira RAMOS; Juliana Cavilha Mendes LOSSO, 2004; MINELLA, Cristina Scheibe WOLFF, 2008; WOLFF; Mara Coelho de Souza LAGO; Tânia Regina Oliveira RAMOS, 2013), em função da produção publicizada de numerosos encontros com trocas de experiências em publicações feministas. É conhecida a migração da REF, em 1998, para Florianópolis, na Região Sul do país, onde foi institucionalizada na Universidade Federal de Santa Catarina, recebida por um coletivo de pesquisadoras ligadas a diferentes Centros de Ensino, que posteriormente criaram o Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC), o qual reuniu suas várias frentes de atividades. A edição da revista, atualmente em seu 33º volume, constitui importante frente de atuação do IEG.
Na UFSC, com apoio financeiro dependente de editais de CNPq e CAPES, acrescido eventualmente de algum auxílio de programas de pós-graduação, tendo como suporte técnico, nos últimos anos, o trabalho de bolsistas (muito eficiente, porém transitório) desde a aposentadoria da excelente servidora técnica que foi posta à disposição do periódico quando de sua vinda para a instituição, e dependendo do trabalho voluntário do coletivo de pesquisadoras, a REF passou por uma “metamorfose editorial” (MINELLA, 2008), num esforço de maior divisão de tarefas entre o coletivo.
Assim, foram criadas várias editorias, a serem assumidas por um grupo de editoras, em novas seções que se acrescentaram às de artigos, dossiês, encartes, resenhas, registros, agenda, constantes do projeto inicial da revista, e ponto de vista, logo acrescentado a ela por suas criadoras. Temos agora as seções de artigos, ponto de vista (que abriga ensaios e entrevistas), dossiês, seções temáticas, seções de artigos temáticos, resenhas, que ficam sob a responsabilidade das editoras de artigos, editoras de entrevistas, editoras de dossiês e seções temáticas, editoras de resenhas. Cada uma dessas editorias tem cerca de quatro editoras, com exceção da editoria de artigos, com mais de uma dezena de componentes. A REF já contou também com uma editoria de debates, desativada pela aposentadoria das organizadoras/editoras da seção.
Ocasionalmente, a Revista Estudos Feministas apresenta uma seção especial, tendo publicado, inclusive, três números especiais, dois deles na sua “primeira fase, locação Rio de Janeiro” (Albertina COSTA, 2004), o número especial (segundo semestre, 1994), que reuniu “grande parte dos artigos apresentados no Colóquio Internacional Formação, Pesquisa e Edição Feministas na Universidade: Brasil, França e Quebec” (LAVINAS, 1994, p. 7) e oSpecial Issue (primeiro semestre, 1999), que reuniu a versão, para o inglês, de artigos de pesquisadoras brasileiras sobre variados temas, contidos nos encartes dos números da REF publicados no Rio de Janeiro. O terceiro, volume 12, número especial, de 2004, trouxe artigos produzidos no I Encontro Internacional e II Encontro Nacional de Publicações Feministas, realizado pela REF, em 2003, na Ilha de Santa Catarina.
Foram publicadas três seções especiais, acrescidas da seção “Lélia Gonzalez Presente!”, que compõe este número da revista. As duas primeiras, publicadas no volume 16, número 1, de 2008, e, cinco anos depois, no volume 21, número 2, de 2013, estiveram voltadas para a divulgação dos textos resultantes das trocas de experiências e reflexões em encontros das responsáveis pelas edições da revista em sua primeira fase, e as editoras e pesquisadoras atuantes na segunda fase da REF em Florianópolis, celebrando, respectivamente, os 15 anos e 20 anos da continuada publicação do periódico. A terceira,Special Section, Feminisms in Uncertain Times, publicou em inglês textos de trabalhos e conferências apresentados por participantes do evento que reuniu, na UFSC, em 2017, o13th Women’s Worlds Congress, e o Seminário Internacional Fazendo Gênero 11: Transformações, Conexões, Deslocamentos.
Não podemos, porém, a cada número de nossa Revista, deixar de lançar um olhar para nosso tempo, para o mundo e para o Brasil. Dois momentos aqui se fazem importantes como registro histórico e ético: o horrível genocídio em Gaza e a expansão da direita radical e do conservadorismo em relação à questão ambiental.
Em editoriais anteriores temos manifestado nossas preocupações com a escalada da violência em territórios onde os conflitos armados parecem ter ultrapassado os limites da crueldade humana. Na impossibilidade de abordá-los em conjunto, e sem desconsiderar a crítica situação da Ucrânia, numa guerra contra a invasão da Rússia, que se arrasta desde fevereiro de 2014, destacamos, neste Editorial, a gravidade da situação enfrentada pela população civil em Gaza. No Editorial do volume 32, número 2, de 2024 (MINELLA; RAMOS; LAGO; WOLFF, 2024), ressaltamos que o número de mortos, segundo organismos internacionais, tinha alcançado 36 mil pessoas; poucos meses depois, ao elaborarmos o Editorial do volume 33, número 1, de 2025 (MINELLA; LAGO; WOLFF; RAMOS, 2025), o número de mortos atingidos pelos sucessivos ataques da máquina de guerra do exército israelense foi estimado entre 47 mil; atualmente, segundo as fontes consultadas, esse número aumentou para 53 mil. A situação das crianças tem sido desesperadora. Segundo o Diretor Geral do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para o Oriente Médio e o Norte da África, Edouard Beigbeder, em Declaração divulgada em 27 de maio do corrente ano, desde o final do cessar-fogo iniciado em janeiro e suspenso em março de 2025, até o momento, mais de 1.309 crianças foram mortas e 3.738 feridas. Isto significa que, desde o início da guerra, em outubro de 2023, 50.000 crianças foram mortas ou feridas (UNICEF, 2025).
As estimativas revelam que, no geral, mulheres e crianças constituem, desafortunadamente, os maiores segmentos da população atingida. Segmentos altamente vulneráveis, formados por pessoas famintas, doentes, feridas, vulneráveis, sem casa, sem alimentos, sem remédios e desarmadas. Entre uma ou outra frágil promessa de cessar-fogo, são justamente essas pessoas que pagam o preço mais alto de um confronto absurdo, cruel, desumano, no qual se destaca a enorme desproporcionalidade das forças.
Estarrecidas diante das imagens transmitidas pelas mídias, percebemos as dificuldades que tanto os fóruns internacionais quanto cidadãos e cidadãs comuns enfrentam nas tentativas de encontrar respostas para questões angustiantes: até quando os palestinos continuarão enterrando seus mortos? Quantos sobreviverão? Em quais condições? Haverá um acordo possível? O que dizer diante do desespero das crianças e mulheres famintas, traumatizadas, chorando seus mortos, com pratos e panelas vazias nas extensas e tumultuadas filas por alimentos insuficientes para todos? Como explicar a frieza dos demais países, seus cálculos racionais, suas lógicas, suas propostas de ajuda que sempre chegam atrasadas, e quando chegam a tempo, o governo de Israel proíbe sua entrada por longos períodos? Por que as sanções impostas pelos países ocidentais ao governo israelense demoram tanto para acontecer? Por que o Conselho de Segurança da ONU parece ter perdido, ao longo das últimas décadas, sua capacidade de neutralizar os vetos das nações poderosas? Por que a entrada em cena do segundo governo Trump complicou ainda mais a situação na Palestina?
Sabemos que as guerras existem desde a Antiguidade. Nos livros de história e filosofia, por exemplo, bem como em artigos, noticiários, documentários, filmes etc., os conflitos armados entre nações ou em seu interior (as guerras civis) despontam como acontecimentos trágicos, com alta capacidade de destruição, capazes de ceifar milhares, às vezes milhões de vidas, enquanto redefinem fronteiras e realocam populações de modo arbitrário, gerando novas formas de submissão. No caso específico de Gaza, onde se entrecruzam e se retroalimentam as dimensões econômicas, políticas, identitárias, étnicas e religiosas, tudo indica que falta vontade política dos líderes envolvidos, inclusive dos aliados internacionais, em desenhar e consolidar acordos. Quem sabe, dentre outras razões, porque os palestinos são vistos como parte de segmentos da população que tem sido considerada pelas políticas excludentes como “não humanos”, como diria María Lugones (2014). Sabemos também que o reconhecimento dos seus direitos a um Estado próprio desconstruiria uma polarização altamente funcional para o projeto autoritário e expansionista das forças israelenses. Projeto apoiado no seu exército equipado com armas de longo alcance, teleguiado através de altas tecnologias de guerra e por homens armados até os dentes, chancelados pelo Estado e chamados de “soldados”. Eles podem matar, pois são guerreiros do bem. Do outro lado, sem a legitimidade de um Estado próprio, com armamentos precários, inferioridade numérica, além de outros limites, tem-se os “terroristas”. Ou seja: os “maus”, aqueles que, no âmbito das batalhas não apenas discursivas, nem deveriam existir.
Sem dúvida, desafortunadamente, a naturalização das guerras faz parte da expansão da extrema direita a níveis nunca vistos depois da II Guerra Mundial, cuja defesa das restrições das políticas sociais, das redes de proteção social, paralelamente ao ataque sistemático e violento aos direitos humanos, tem levado ao limite as ideologias ditas neoliberais.
No plano local, ao acompanhar as atividades do Congresso Nacional publicizadas pelas redes midiáticas, podemos testemunhar as posturas de muitas deputadas federais e algumas senadoras que, embora em significativa desvantagem numérica na eleição de parlamentares femininas nestas casas e dos ataques misóginos de que são vítimas contumazes, fazem-nos sentir muito orgulho por seu desempenho em defesa das pautas que importam. Num parlamento cujas discussões e posturas (de algumas mulheres, inclusive) nos envergonham e indignam, é um alento acompanharmos o trabalho das parlamentares (feministas todas) a quem nos referimos.
Com relação às ministras nomeadas pelo presidente Lula neste mandato, e nas quais depositamos altas expectativas, algumas já foram substituídas (Ministérios de Esporte, Saúde, Mulheres). Enfim, trata-se de um governo de coalizão... A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, já eleita para o parlamento e responsável por este ministério em outros tempos, é uma mulher da qual podemos nos orgulhar por sua dedicação à causa da preservação ambiental e dos povos que habitam as florestas e a Amazônia. Reconhecida internacionalmente, Marina trava luta diária pela preservação ambiental. Neste mês de maio, assistiu ao que caracteriza como “o golpe de morte no licenciamento ambiental no Brasil”, pela votação que aprovou, no Senado, o Projeto de Lei nº 2.159 (SENADO FEDERAL, 2021), o chamado PL da Devastação, que estabelece normas gerais para o licenciamento de atividade ou de empreendimento utilizador de recursos ambientais, capaz de causar degradação do meio ambiente. Em face da votação do projeto que tramita há quase 22 anos, na palavra da ministra, e estava há quatro anos parada no Congresso, Marina faz um veemente apelo à sociedade civil por uma “sustentabilidade política” da população, no sentido de impedir este retrocesso legislativo no país. Grandes prejudicados com este Projeto de Lei, no modo como está sendo aprovado, são os povos indígenas em função das mudanças nos limites de licenciamento ambiental; os povos tradicionais, defensores das florestas e do meio ambiente, cuja questão do Marco Temporal voltou a ser ameaçada pelo poder legislativo. Dessa forma, apesar de toda luta de Marina, como gostamos de a chamar, Marina Mulher e Ministra, corpo e alma, o PL da Devastação está dando uma espécie de ‘carta branca’ para a exploração predatória no Brasil, episódio que posteriormente culminou com a sessão do Senado, no dia 27 de maio de 2025, quando ela teve o microfone cortado e se retirou da sessão do Senado.1 Parlamentares ofenderam a ministra na Comissão de Infraestrutura do Senado. Em determinado momento, o senador Marcos Rogério, do PL, presidente da Comissão, disse que Marina deveria “se por no seu lugar” e o senador Plínio Valério, do PSDB, afirmou que respeitava a mulher, mas não a ministra. Com a dignidade que lhe é peculiar, Marina Silva defendeu que é necessária, antes, uma avaliação ambiental estratégica. Fazemos questão de registrar a resposta de Marina, antes de se retirar do plenário: “Eu digo com toda tranquilidade da alma, que isso tem uma mistura de técnica e de ética, porque eu não faço meu trabalho pensando nas próximas eleições. Eu faço meu trabalho com base naquilo que é a lei e pensando nas novas gerações” (Marina SILVA, 2025). Nós, feministas, teóricas do gênero, sentimo-nos machucadas e ofendidas pela misoginia no espaço que teria que ser a casa da democracia contra quem representa dignamente resistência. Resta, neste Editorial, nos somar a ela e dizermos: não somos submissas.
Deslocamos, agora, nosso olhar para a Seção Especial dedicada à Lélia Gonzalez neste número da REF, planejada e organizada por pesquisadoras de várias procedências, que homenageia agora, em 2025, esta importante teórica ativista brasileira, no ano que completa 90 anos de seu nascimento, em 1º de fevereiro de 1935.
Os artigos desta Seção abordam diferentes temas a partir das contribuições de Lélia para o entendimento das especificidades étnico-raciais e de classe da nossa sociedade: as conexões entre as populações negras e indígenas nas Américas; as semelhanças entre as perspectivas de Paulina Chiziane (2021) em Niketche: uma história da poligamia e de Lélia Gonzalez (1984) em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”; sua teoria crítica capaz de desafiar a hegemonia intelectual e biomédica brasileira, destacando os efeitos do colonialismo sobre a formação das sociedades; bem como suas reflexões sobre a produção literária de mulheres negras e indígenas brasileiras, a partir da categoria político-culturalAmefricanidade; a perspectiva interseccional de Lélia na análise da transição escola-trabalho entre jovens brasileiros/as; suas reflexões em diálogo com as teorias interseccionais mais recentes. Finalmente, a análise da experiência de tradução coletiva para o espanhol do livroPor um feminismo afro-latino-americano, de Lélia.
Além da Seção Especial, este número da revista também traz importantes e variados artigos. Com o objetivo de analisar a significativa emergência da variedade de artistas trans na cena musical contemporânea, autores e autora de “Sensibilidades e (in)visibilidades de artistas transviadas brasileiras” trazem reflexões proporcionadas por pesquisa realizada sobre o tema em diferentes fontes midiáticas do país (plataformas digitais e programas televisivos). Com acurada crítica às armadilhas da visibilidade midiática, o estudo alerta para o fato de que as representações promovidas pelos regimes de visibilidade funcionam em estrutura que reforça a hegemonia cisheterossexual, em renovado processo de normalização, resultando na exclusão de corpos trans divergentes, das novas formas de representações.
“Memória e ancestralidade em ‘Olhos d’água’, de Conceição Evaristo”, conto da obra de Conceição Evaristo (2016), é artigo que o compreende enquanto mecanismo de resgate da identidade da protagonista e do papel da memória ancestral quando inseridas num contexto de produção intelectual pós-colonial, bem como percebe a força ontológica exercida pelo corpo negro pelo viés da cosmopercepção.
O artigo “El doble rasero de género en la escena musical barcelonesa” tem como ponto de partida a apresentação de uma série de entrevistas consideradas semiestruturadas para aprofundar como se dá a experiência de trabalho de um conjunto de profissionais no setor musical na cidade de Barcelona, na Espanha. A partir do conceito de “doble rasero”, o artigo identifica os principais obstáculos que as mulheres enfrentam no desenvolvimento de suas carreiras, cercadas de enfrentamento de sexismo, discriminações e violência.
No artigo “El mito de las disidencias LGBTQIA+ en medios digitales chilenos”, a autora e autores se debruçam sobre as notícias sobre o dia internacional do orgulho LGBTQIA+ de 2022. Foram analisadas notícias dos principais meios de comunicação digitais do Chile, os mais lidos, e a partir destes, foi possível encontrar construções míticas sobre as dissidências sexuais, que variam desde perspectivas mais informadas e abertas, a outras mais intolerantes. De qualquer maneira, fica explícito que o discurso midiático, de maneira geral, obedece aos interesses dos grupos hegemônicos que monopolizam a forma como se constrói o modo como a sociedade entende e significa as pessoas LGBTQIA+.
Por sua vez, o artigo “Representações visuais da mulher e mobilização conservadora” aborda as representações das mulheres como expressões do discurso político e moral de um coletivo peruano de caráter conservador que se intitulaCon Mis Hijos No Te Metas(CMHNTM). Ao analisar as artes digitais, ou seja, imagens fixas compostas por desenhos, fotografias, emojis e textos, postadas pelo grupo em sua página do Facebook, são identificadas três representações que reforçam papéis sociais tradicionais e estereótipos de gênero: a mãe, a mulher do povo e a feminista.
O assustador incremento das taxas de violências contra as mulheres no país tem provocado um interesse especial das pesquisadoras e, por isso mesmo, continua ocupando um expressivo espaço de divulgação na REF. Neste número, dois artigos refletem sobre algumas das suas especificidades. O primeiro deles, “Violência doméstica: crenças e o impacto de campanhas publicitárias”, realizado com mulheres residentes em Portugal, analisa as crenças sobre a violência doméstica em suas relações com as campanhas publicitárias institucionais. Na sequência, o artigo intitulado “O Sistema de Informação e a Violência por Parceiro Íntimo” aborda o Sistema de Informação da Secretaria de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, focalizando a construção das estatísticas sobre esse tipo de violência, produzidas pelas instituições da Segurança Pública, observando seu alcance e seus limites.
O artigo “Cidadania masculina e paternidade na Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988)” aborda a licença paternidade na Assembleia Nacional Constituinte no período de redemocratização do Brasil. Ao analisar os discursos das subcomissões que discutiram a questão, a partir do Institucionalismo Discursivo, da Análise Crítica de Discurso e da perspectiva de gênero, as autoras mostram como a licença paternidade ficou ligada a uma concepção bastante limitada das relações de gênero e, especialmente, da masculinidade. Isso enseja a possibilidade futura de revisões sobre a licença paternidade.
O ensaio “Espírito militar, virilidade e a manifestação de sujeitos dissidentes: diálogos possíveis” traz uma reflexão sobre o conceito de espírito militar, no âmbito das forças armadas, articulando esta problematização aos estudos de gênero e diversidades. O texto trabalha com as contradições das normas estabelecidas nos contextos militarizados, que são considerados conservadores e permeados por lógicas cisheterosexistas, buscando compreender a cultura existente, mas também as resistências que envolvem a busca de direitos ligados à diversidade sexual e de gênero.
Na nossa política de importantes dossiês, este número conta com um dossiê temático que trata o tema das representações de gênero e da diversidade nos esportes, visando contribuir significativamente para o campo dos Estudos de Gênero, dos Feminismos e da Teoria Queer, ampliando o entendimento sobre como identidades, sexualidades e corpos diversos participam e desafiam as práticas e representações esportivas. Ao reunir pesquisas e análises que investigam as dinâmicas de inclusão, exclusão e marginalização nas arenas esportivas, o dossiê pode proporcionar insights valiosos para a compreensão das formas de resistência e inovação no esporte. Assim, ele abre espaço para uma discussão aprofundada sobre como mulheres, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIAPN+ reivindicam visibilidade e ocupam lugares historicamente negados ou marginalizados.
Mais uma vez nossa seção de resenhas desafia saberes disciplinares ao trazer resultados de leituras inovadoras e avançadas sobre narrativas que falam de racismo, de falocentrismo, de opressões urbanas, de memórias e políticas de gênero, de direitos LGBT+ e a importante leitura ensaística de bell hooks sobre pessoas negras e o amor ou o amor em pessoas negras. Estas leituras revelam importantes campos de disputas, como toda prática social, sem desejarem, porém, respostas ou soluções. Reside aí a base da bibliografia feminista e de gênero das resenhas selecionadas a cada número.














