SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.33 número2REF: espaço de resistência onde não somos submissasSensibilidades e (in)visibilidades de artistas transviadas brasileiras índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.33 no.2 Florianópolis  2025  Epub 01-Maio-2025

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2025v33n295638 

Artigos

Memória e ancestralidade em “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo

Memory and ancestry in “Olhos d’água”, by Conceição Evaristo

Memoria y ascendencia en “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo

Geam Karlo-Gomes1  , Concepção, análise de dados, redação, discussão de resultados, revisão

Geam Karlo-Gomes possui Pós-doutorado na área de Ciências da Linguagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). É doutor e mestre em Literatura e Interculturalidade pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). É Professor do Programa de Mestrado Profissional em Culturas Africanas, da Diáspora, e dos Povos Indígenas (PROCADI) e do Programa de Mestrado Profissional em Letras - PROFLETRAS - Rede Nacional, ambos da Universidade de Pernambuco. É líder do ITESI/CNPq - Grupo de Pesquisa Itinerários Interdisciplinares em Estudos sobre o Imaginário, Linguagens e Culturas.


http://orcid.org/0000-0001-9569-1497

Josivaldo Silva Menezes1  , Concepção, coleta de dados, análise de dados, elaboração do manuscrito, redação, discussão de resultados

Josivaldo Silva Menezes é mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Culturas Africanas, da Diáspora, e dos Povos Indígenas (PROCADI/UPE) da Universidade de Pernambuco. Membro do grupo de pesquisa ITESI/CNPq - Itinerários Interdisciplinares em Estudos sobre o Imaginário, Linguagens e Culturas, da UPE Campus Petrolina. É especialista em Ensino de Língua Portuguesa e suas Literaturas (UPE) e graduado em Letras com habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE).


http://orcid.org/0000-0002-3100-4165

1Universidade de Pernambuco, Garanhuns, PE, Brasil. 55294-902 - procadi@upe.br


Resumo:

No presente estudo, analisa-se a memória em “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo (2016), compreendendo-a enquanto mecanismo de resgate da identidade da protagonista. Para tanto, as discussões aqui propostas acerca da ideia de corpo são mediadas por análises sociológicas e antropológicas. Logo em seguida, é analisado o papel da memória ancestral e o lugar ocupado por Evaristo e sua narrativa quando inseridas num contexto de produção intelectual pós-colonial. O corpus dialoga diretamente com os estudos da ancestralidade, memória e identidade, evidenciando a relação com os antepassados e rompendo com os estereótipos atribuídos ao corpo negro. Nessa perspectiva, dois aspectos nutrem a análise da categoria memória: o corpo, enquanto construção simbólica e cultural, e a força ontológica exercida pelo corpo negro, agora protagonista, pelo viés da cosmopercepção.

Palavras-chave: identidade negra; memória ancestral; corpo; Conceição Evaristo; “Olhos d’água”

Abstract:

The present study analyzes the memory in “Olhos d’água”, by Conceição Evaristo (2016), understand it as a mechanism for rescuing the protagonist’s identity. Therefore, the discussions proposed here about the idea of ​​the body are mediated by sociological and anthropological analyses. Soon after, the role of ancestral memory and the place occupied by Evaristo and her narrative when inserted in a context of post-colonial intellectual production are analyzed. The corpus dialogues directly with the studies of ancestry, memory and identity, evidencing the relationship with the ancestors and breaking with the stereotypes attributed to the black body. From this perspective, two aspects nourish the analysis of the memory category: the body, as a symbolic and cultural construction, and the ontological force exerted by the black body, now the protagonist, from the perspective of cosmoperception.

Keywords: Identity; Ancestral memory; Body; Conceição Evaristo; “Olhos d’água”

Resumen:

El presente estudio analiza la memoria en “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo (2016) entendiéndola como mecanismo del rescate de la identidad del protagonista. Por lo tanto, las discusiones aquí propuestas sobre la idea de cuerpo están mediadas por análisis sociológicos y antropológicos. Luego, se analiza el papel de la memoria ancestral y el lugar que ocupa Evaristo y su narrativa cuando se inserta en un contexto de producción intelectual poscolonial. El corpus dialoga directamente con los estudios de ascendencia, memoria e identidad, destacando la relación con los ancestros y rompiendo con los estereotipos atribuidos al cuerpo negro. Desde esta perspectiva, dos aspectos nutren el análisis de la categoría memoria: el cuerpo, como construcción simbólica y cultural, y la fuerza ontológica que ejerce el cuerpo negro, ahora protagonista, a través del sesgo de la cosmopercepción.

Palabras-clave: identidad negra; memoria ancestral; cuerpo; Conceição Evaristo; “Olhos d’água”

Introdução

Atualmente, a ancestralidade e a memória têm sido palcos de estudos para se compreender a história do povo negro, principalmente no tocante a como as violências e os preconceitos raciais têm se fortalecido ao longo dos tempos. Mas, muito além das problemáticas advindas das questões da cor, do gênero e da perseguição às religiões de matriz africana, a importância dos estudos direcionados à memória ancestral e atrelados às discussões em torno das corporeidades tem possibilitado uma maior compreensão acerca de como ambas atuam enquanto mecanismos de resgate e valorização das tradições africanas, ressaltando o protagonismo negro mediado pelo culto aos ancestrais, como é possível perceber no conto de Evaristo (2016), “Olhos d’água”, e que reforça a imagem da África enquanto espaço de cultura e religiosidade, distanciando-a da visão eurocêntrica que a demoniza.

Ao pensar nisso, e contrariando uma visão generalizada de África enquanto um continente de recorrentes pobrezas e disparidades sociais e econômicas, a tradição africana, que muito influencia a história da comunidade negra, não se resume a lendas inventadas e, menos ainda, às criações mitológicas que objetivam a propagação de entidades diabólicas, como é evidenciado no conto. Essa tradição, principalmente a oral, como acredita Amadou Hampâté Bâ (2010, p. 169), “baseia-se em uma certa concepção de homem, de seu lugar e do seu papel no seio do universo”. Ela é capaz de conduzir o homem e influenciar o seu pensamento de maneira a contribuir para a criação de um ser humano que se reconhece e compreende a sua história na construção do lugar a que pertence ou deseja pertencer.

No Brasil, “a ridicularização das características físicas e intelectuais dos povos escravizados” (Alyne Barbosa LIMA, 2022, p. 68), principalmente o negro, foi um recurso imensamente difundido para justificar e assegurar a permanência da escravidão negra. Isso resultou em uma tentativa de apagamento das manifestações da cultura africana em solo brasileiro que se mantiveram resistentes através de suas manifestações culturais, principalmente aquelas cujas bases são frutos da cultura oral.

Ao saber, então, que a memória e a ancestralidade têm sido objetos de estudos para se compreender a história da comunidade negra, ao buscar interpretar a construção do homem por meio das relações de poder entre povos, este estudo prioriza analisar como a memória ancestral atua enquanto mecanismo de resgate e valorização da cultura e da identidade negro-africana na atribuição do protagonismo ao corpo negro, de maneira a desconstruir os discursos estereotipados, tornando, assim, a sua história símbolo de luta e resistência. Para tanto, toma-se como corpus de análise o conto “Olhos d’água”, da escritora negra Conceição Evaristo (2016), uma das principais vozes femininas da intelectualidade brasileira, que, desde o início dos anos 1990, tem desempenhado papel importante na luta contra a violência de gênero, classe e raça.

Ademais, este estudo também analisa como a literatura negra se alimenta da história por meio dos recursos memorialistas, para narrar, do ponto de vista negro, a relação com os ancestrais e de como a memória possibilita não apenas o contato com os antepassados, mas a (re)construção da identidade negra. Essas recorrências são perceptíveis no conto ao trazer para o campo do diálogo temáticas associadas à afrodescendência de um ponto de vista político e social.

Evaristo foi selecionada neste estudo haja vista ser, primeiramente, figura de deslocamento social, considerando o seu histórico intelectual e pessoal, que impõe à sua literatura uma atuação enquanto instrumento de denúncia diante do descaso e do abandono político e social frente à comunidade negra. Além disso, sua obra contempla figuras hostilizadas social e etnicamente, principalmente as femininas, que protagonizam as histórias.

Com efeito, para compreender as questões manifestadas nessa narrativa, este estudo está organizado de maneira a, inicialmente, estabelecer discussões acerca da ideia de corpo enquanto uma construção simbólica e cultural, tendo em vista que, sendo ele uma construção sociocultural, torna-se, nesse sentido, um corpo carregado de complexidades (LE BRETON, 2007). Igualmente, serão enfatizadas as noções de memória e ancestralidade para se entender, mais à frente, a maneira como a memória percorre as angústias e exclusões sofridas pela protagonista até (re)encontrar a sua identidade. Para tanto, toma-se como aporte teórico os estudos de Michael Pollak (1992), Elen Karla Souza da Silva e Daniel Conte (2019), Flávio Prates Cruz e João Santos de Jesus Neto (2020) e Ecléa Bosi (1979) para se estabelecer uma relação entre memórias individuais e coletivas e o resgate da identidade. Em seguida, Evaristo e seu conto serão contextualizados enquanto figuras de deslocamentos social e intelectual, no sentido de compreender o papel da chamada literatura negra ao longo dos tempos. Em especial, sobre a valorização da identidade negra, desconstruindo os pensamentos estereotipados dessa comunidade, discussão que recebe aqui o amparo teórico de Domício Proença Filho (2004), Regina Dalcastagnè (2012), Carina Bertozzi Lima (2009), Rafael Balseiro Zin (2018) e a própria Evaristo (2009). Por fim, será considerada a cosmopercepção partindo de Oyèrónké Oyěwùmí (2018) como forma de enxergar o negro pela sua plenitude humana, sendo esta visão centrada na ideia de que não há soberania entre grupos sociais e raças. Dessa maneira, tanto a ideia de corpo, considerada por Le Breton (2007; 2011), quanto uma construção simbólica e cultural (OYĚWÙMÍ, 2018), pelo viés da cosmopercepção, auxiliam na ideia de como é organizada e constituída a noção do corpo negro enquanto lugar de força e poder.

O corpo enquanto fenômeno social, cultural e simbólico

A maneira como o ser humano age em suas relações com o outro, assim como o meio e seus usos físicos, entra em dependência de um extenso e complexo sistema simbólico. Logo, compreender esse sistema é dirigir-se às discussões acerca da corporeidade humana levantadas pelo antropólogo e sociólogo David Le Breton, que acredita ser corporal a própria existência e condição humana (LE BRETON, 2011). O pesquisador direciona seus estudos à análise do corpo no contexto social, crendo ser este uma matéria dinâmica e, ao mesmo tempo, uma incrível ferramenta pela qual o homem pode projetar sentidos e valores.

Ainda segundo esse antropólogo, “é o corpo um vetor semântico pelo qual a evidência do mundo é construída” (LE BRETON, 2007, p. 7). Portanto, antes de qualquer atividade por ele realizada, ação praticada, produção e exposição de seus pensamentos e emoções, há, em si, a existência corpórea. Dessa maneira, entender o conceito de corpo, social e antropologicamente, possibilita compreender que é dele e por ele que “nascem e [se] propagam as significações acerca de sua existência individual e coletiva”.

Le Breton (2007) acredita que, pela corporeidade, o ser humano é capaz de estender as suas experiências ao meio ao qual está inserido. Para tanto, é necessário que esse corpo não seja creditado unicamente enquanto receptáculo, absorvendo e guardando experiências, mas também (re)produzindo sentidos a serem compartilhados com toda uma comunidade.

Em “Olhos d’água”, ao tentar se conectar às suas origens, a narradora questiona qual seria a cor dos olhos de sua mãe, e é esse questionamento que a faz reviver momentos conflitantes, mas também se reaproximar da tradição africana, tradição esta compartilhada por sua comunidade negra e que constitui parte fundamental de sua corporeidade.

O conto em questão aborda a violência racial de forma velada, mas dá margem para que o leitor compreenda as questões em torno do tema. Ao pensar nisso, a ideia do corpo negro, enquanto foco de violências, remete às questões propostas por Le Breton (2011), quando este considera não ser possível defini-lo partindo de uma única questão, como a biológica, uma vez que ele considera o corpo enquanto efeito de uma construção social, histórica e cultural.

Desse modo, Le Breton (2011) acredita que o corpo é uma construção simbólica e cultural e, por isso, é também complexa a sua definição. A premissa é a de que o seu conceito se torna paradoxal, considerando alguns importantes fatores: como a de ser ele, primeiramente, um demarcador de limites entre o sujeito e o meio social. Logo em seguida, o estudioso estabelece uma bipolaridade em relação à definição de sujeito, haja vista o distanciamento e a depreciação corpórea. Em vista disso, a ideia do corpo estaria atrelada à identidade do indivíduo, o que produz um sentimento de ser ele uma existência humana e não um lugar pertencente a uma comunidade em meio às diversas questões que constituem a noção de pertencimento.

É importante ressaltar, aqui, que a ideia de corpo abordada neste estudo é a daquele que sofre pelo crivo da transfiguração de sua identidade, ou seja, a do corpo imposto ao olhar da dominação. Nessa perspectiva, para se ter uma maior compreensão acerca do corpo, é importante considerá-lo simbólico e objeto de representações e imaginários, dado serem ambos os corpos, brancos e negros, como defende Le Breton (2011), também um objeto de análise para se compreender o tempo presente.

Ao que concerne ao corpo negro, Aníbal Quijano (2005) ressalta que, a partir do intuito de dominação e demarcação de espaços de poder ao longo de um vasto período colonial, o europeu propagou e difundiu a ideia da desumanização e escravização de pessoas negras. Além disso, os povos negros, mestiços e indígenas eram definidos como inferiores e expostos à dominação devido aos traços biológicos e fenotípicos, traços estes que foram utilizados enquanto referências às diferenças entre conquistadores e conquistados, o que resultou na ideia da cor enquanto categorial racial.

Conforme acredita Quijano (2005), aos poucos, as relações de poder foram se consolidando, inclusive, produzindo nas Américas identidades sociais diversas. Dessa maneira, ao passo que essas relações se configuravam em dominação, criavam e estabeleciam identidades associadas às hierarquias, determinando padrões de poder, sendo o negro, diferente de outras raças colonizadas, o elemento primordial à exploração.

O corpo, como acredita Le Breton (2007), além de um lugar de valor, é também de imaginários e, enquanto derivação do imaginário do corpo, traduz aquilo que socialmente lhe é apresentado. É o que acontece com o racismo e a noção de raça, que atuam como mecanismos definidores de hierarquias, propiciando ao homem ser o que o antropólogo denomina de “artefato da aparência física” (LE BRETON, 2007, p. 68-69). Ou seja, é no corpo e com o corpo que o racismo repousa e estabelece uma relação imaginária, criando sentidos sobre ele.

Para Silvio Almeida (2020, p. 31), traços como a raça são considerados enquanto “um fator político importante e utilizado para naturalizar desigualdades e legitimar a segregação e o genocídio de grupos sociologicamente considerados minoritários” e, quando atrelados ao gênero, tornaram-se formas específicas de (des)legitimar as relações entre grupos sociais. A desumanização à qual as pessoas negras foram impostas séculos atrás, de maneira a silenciá-las a partir do apagamento de suas identidades, refletiu no quanto a sociedade ainda mantém enraizado o pensamento influenciado pela visão ocidental europeia de superioridade branca. Quando Albert Memmi (2007) afirma que há, para o colonizador, a necessidade de explicar, justificar e defender qual o lugar do sujeito inferior na sociedade, ele sintetiza a ótica que o colonialista tem de si mesmo, ou seja, o seu próprio lugar de dominação, ao passo que este sugere e determina, por uma visão racista, o espaço de subalternização do outro, e o impulsiona a entender que o seu lugar na sociedade é o da marginalização.

É notável a maneira como as práticas racistas e hegemônicas promoveram e ainda promovem ações que influenciam a percepção acerca de como são construídas as narrativas dos povos negros, pautadas na inferiorização, opressão e submissão. Como resultado negativo na imagem que se tem de seu próprio corpo, essas experiências deixam marcas internas no indivíduo, sendo, muitas vezes, capazes de levá-lo a desenvolver repulsa de suas origens.

É neste ponto que a memória contribui enquanto mecanismo de valorização da identidade negroafricana, pois mantém viva a história da comunidade negra sendo, então, vista não apenas enquanto um fenômeno unicamente individual, mas, sim, algo em comum entre todos aqueles que compartilham características biológicas, étnicas, religiosas e culturais. É, portanto, por meio do acesso à memória que o indivíduo será capaz de acessar e contar a história de sua comunidade negra permeada por uma perspectiva protagonista, ou seja, do ponto de vista negro.

Memória e ancestralidade

Pensar em memória é atrelá-la à ancestralidade e à cultura. De modo consequente, o homem, enquanto um ser cultural, como acredita Leonardo Tondato Mello (2021, p. 26), “está intimamente ligado aos significados que produz, assim como a cultura possui relação com os significados produzidos pelo homem em seus diversos momentos históricos”. E nessa relação entre memória e ancestralidade, toma-se como ilustração os povos yorubás que, cultural e filosoficamente, acreditam ser o corpo um fenômeno ancestral.

Lima (2022) ressalta que, para considerar o corpo enquanto fenômeno ancestral, é preciso, antes de tudo, estar atento para o fato da indispensabilidade dessa conceituação quando a memória é pensada como categoria: “Isto, pois, o corpo é o primeiro a ser atravessado pela cultura, bem como é o meio pelo qual é possível construir narratividade, seja ela oral ou escrita” (LIMA, 2022, p. 37-38). Dessa maneira, depreende-se a memória enquanto categoria, haja vista a ligação entre ela e o corpo, pois é este o que, como afirma Lima (2022, p. 38) primeiramente, partilha relações de atravessamento espaço-temporal e de “vivências e experiências de si e do outro”.

Em “Olhos d’água”, as experiências da infância da narradora expressam esse atravessamento de espaço e tempo, como no trecho “Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de prantos balbuciava rezas a Santa Bárbara” (EVARISTO, 2016, p. 17). Dessa maneira, Evaristo estabelece um vínculo entre passado e presente, sendo possível, pelo recurso memorialista, que, durante o desenrolar da narrativa, a narradora seja direcionada a aspectos de ancestralidade e ritualísticos da cultura africana.

A memória, conforme defende Pollak (1992), trata-se de um fenômeno individual, pessoal, íntimo, próprio de cada indivíduo. Entretanto, desde os anos 20 e 30 do século passado, o sociólogo francês Maurice Halbwachs destacava que a memória deveria ser entendida, acima de tudo, enquanto um fenômeno social construído “coletivamente e submetido a flutuações, transformações e mudanças constantes” (POLLAK, 1992, p. 201).

É a memória que possibilita acessar situações ocorridas e estabelecidas em momentos passados. Assim acredita Bosi (1979, p. 09), para quem a memória passa a desempenhar um papel decisivo no processo psicológico contido na relação entre passado e presente, na qual as experiências vivenciadas no passado vêm a se manifestarem no presente “ocupando o espaço todo no inconsciente”.

Eduardo David de Oliveira (2012) e Augusto Sérgio dos Santos de São Bernardo (2018), em seus respectivos estudos, ao abordarem a questão da memória atrelada à ancestralidade, acreditam estar a filosofia desta associada ao que se chamaria de “encruzilhada do pensamento contemporâneo” (OLIVEIRA, 2012, p. 28), no tocante às questões primárias. Comumente, é o movimento do tempo e do encantamento o que, para as civilizações africanas, direcionaria tanto as singularidades, quanto as pluralidades do corpo.

A ancestralidade, conforme São Bernardo (2018, p. 231), pode ser lida, então, como uma categoria de alteridade, que possibilita “entender os territórios desterritorializados que, ao se reconstruir, a exemplo da experiência negra no Brasil, constroem outros territórios capazes de suspender a temporalidade e linearidade de uma história de cunho progressista e unívoca”. Dessa maneira, as civilizações africanas sempre estiveram ligadas à ancestralidade, (re)construindo outros novos territórios, refazendo memórias e (r)estabelecendo relações de poder simbólico com o corpo.

O racismo, assim como o culto às divindades africanas, diz respeito a memórias coletivas que são compartilhadas por toda uma comunidade, em seus aspectos humanos, culturais e sociais. Nesse ponto, a memória desempenha importante papel, pois permite “a relação entre o corpo presente com o passado” (BOSI, 1979, p. 9). Quando uma pessoa negra relata experiências de violências sofridas pela questão da cor da pele, é um fator a ser partilhado por outras pessoas negras.

A memória pode ser entendida, então, como um mecanismo de (re)construção da identidade, pois cada sujeito é possibilitado de retornar às suas experiências de vida, a recuperar vivências que constituem as suas marcas identitárias, assim como as de seus antepassados. Stuart Hall (2006, p. 10-12) esclarece que a identidade na pós-modernidade é um tema bastante discutido na teoria social e nos Estudos Culturais, o que ele chama de “crise de identidade”. Em estudo dirigido ao tema, o sociólogo apresenta três tipos de concepção para a identidade, sendo: (a) o sujeito do Iluminismo, dotado de total consciência de sua existência no mundo. É, também, consciente de sua razão, além de centrado; (b) o sujeito sociológico, por qual a construção de seu núcleo interior não se dá de maneira individual, mas, sim, em coletividade e, por isso, não é um sujeito autossuficiente e autônomo e; (c) o sujeito pós-moderno. Este último se concretiza enquanto resultante das transformações institucionais e estruturais e, portanto, não possui identidade fixa ou permanente, estando associado ao caráter globalizante da sociedade.

Em suma, para Hall (2000, p. 111-112), o termo aplicado mais discretamente à identidade, e em que o estudo aqui se apoia, é “o ponto de encontro e de sutura” entre os discursos e as práticas capazes de fazer o indivíduo questionar, falar e convocar para que este seja tomado pelo desejo de assumir o seu lugar enquanto sujeito social de discursos particulares.

Em Hall (2006), as identidades sociais devem ser pensadas e construídas em conformidade com os aspectos culturais, sendo capazes de representar-se por meio de processos de identificação que possibilitam ao homem se localizar no mundo. Dessa maneira, as categorias de identidade e memória ancestral são eixos importantes, quando se é referido aos aspectos da cultura negra e alimentam boa parte da história social, assim como também a fortuna crítica literária brasileira.

A identidade, como afirma São Bernardo (2018, p. 233), requer sempre uma história, pois “exige o debate da diversidade e da diferença”. Isso só é possível quando se pensa na relação da ancestralidade e da memória com a história, ou seja, a “ancestralidade consiste na produção de memória, pela qual as civilizações se reivindicam a partir dos passados feitos e refeitos à luz do presente e da presença”.

A existência dos cultos aos ancestrais na cultura africana torna-se um exemplo de existência reivindicada, pois atua enquanto signo de resistência e luta. Para Prates Cruz e Jesus Neto (2020, p. 181), “a prática ancestral é bastante comum no mundo africano mesmo nos cultos contemporâneos”. A tradição cultural e a manutenção de valores religiosos, morais e de adoração a entidades e divindades estabelecem ligação direta com a natureza. É por meio dessa conexão sobrenatural que as heranças africanas são mantidas. Entretanto, a visão que muitos têm acerca das práticas e adoração africana acaba gerando, conforme Cruz e Jesus Neto (2020, p. 181), “preconceitos e apatias sociais de uma cultura ocidental limitada”.

É nesse ponto que o resgate da memória do negro, pensada muito além da escravização, possibilita enxergar as relações humanas do corpo negro com a sua história, sem que a desumanização imposta à pessoa negra predomine, haja vista que o seu passado, quando valorizado, dá sentido e força às lutas e resistências de sua comunidade.

Conforme Silva e Conte (2019, p. 424), apesar de terem sofrido um apagamento de sua identidade durante o longo período de escravização, por parte de seu colonizador, “os negros e afrodescendentes teceram suas identidades e, através das rememorações, reestruturaram suas vidas delineando novas estruturas culturais ocorridas de sua condição em terras peregrinas”. Sendo assim, para garantir que a sua identidade e a sua literatura não desapareçam, “os povos diaspóricos podem se valer de suas memórias, culturas e ancestrais” (SILVA; CONTE, 2019, p. 424), para contar e (re)construir a sua história, como é possível perceber na ficção de escritores e escritoras negras como Evaristo e o seu conto “Olhos d’água”.

Cruz e Jesus Neto (2020) acreditam que os ancestrais, enquanto símbolos de força, poder e sabedoria, são os grandes responsáveis por manterem vivas, por gerações, a continuidade da vida e a história de uma comunidade. A conexão e a valorização da memória, da ancestralidade e da cultura negro-africana são perceptíveis nos escritos negros de Evaristo. Por meio da memória e sob uma ótica protagonizante, a escritora resgata e propaga a história de povos negros, assim como também de seus cultos aos ancestrais, agindo como uma conselheira para apresentar às pessoas negras de gerações e contextos diferentes a sua história e a sua cultura.

A desmistificação do exótico africano pela cosmopercepção

A partir de Evaristo, é possível perceber a sua preocupação em descrever como as questões sociais e raciais estão enraizadas, pela ótica da branquitude, na população negra, resultando na inferiorização desses sujeitos, principalmente as mulheres negras. Essa visão, por ela tão fortemente combatida, ficcionaliza seus escritos e é uma de suas características artísticas, tendo em vista partirem de suas experiências enquanto mulher negra, nascida em uma favela da zona sul de Belo Horizonte, em 29 de novembro de 1946.

De família pobre, Evaristo ainda teve mais seis irmãs e, sendo ela a mais velha, desde muito jovem começou a trabalhar para garantir o sustento da casa. Aos sete anos, morou com uma tia, irmã de sua mãe e, aos oito, teve o seu primeiro emprego como empregada doméstica.

Hoje, Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, título conquistado em 2011, Evaristo se destaca como romancista, poetisa, contista e crítica literária, tendo algumas de suas obras publicadas em outras línguas, comumente inglês, francês e espanhol. Conhecida por expressar, por meio de sua escrita ficcionalizada, a realidade vivida por pessoas negras, a autora é símbolo de luta e resistência e sua escrita é marcada pela narrativa diaspórica. Recentemente, recebeu o prêmio de Intelectual do Ano - Troféu Juca Pato, pela publicação do seu romance Canção para ninar menino grande, em 2022 (EVARISTO, 2018).

Quando Evaristo se insere, enquanto voz, enquanto figura da intelectualidade, torna-se, também, figura destoante em um contexto dominado pelo machismo e o racismo que imperam na literatura brasileira. Isso por meio de uma escrita a qual ela justifica como o “mote e motor de sua produção literária” (Eduardo de Assis DUARTE, 2013, p. 143), conceituando-a por escrevivências, conceito este, conforme Lima (2022, p. 16), criado despretensiosamente pela própria Evaristo, durante o período de produção de sua dissertação de mestrado, em 1995.

Para Josenéia Silva Costa (2018, p. 56), a literatura de Evaristo é capaz de explorar e debater como ainda o corpo negro está enraizado no discurso literário colonial, principalmente o feminino. A autora provoca, então, um deslocamento de seu lugar imposto, tendo em vista ser a sua escrita “interpelada por um lugar de mulher negra”.

É indo pela contramão que subalterniza a pessoa negra e que muito a indignifica e, geralmente, a resume à marginalização, que a literatura de Evaristo segue. Seus personagens negros não são definidos pela miséria e tristeza. São seres de extrema complexidade e responsáveis por protagonizarem suas próprias narrativas, sem que, para isso, seja necessária a permissão/intervenção do branco exercendo a figura de dominador e determinando os espaços sociais supostamente delimitados ao negro.

É importante ressaltar que, até que a literatura de autoria negra encontrasse espaço para se firmar enquanto produção artística e intelectual brasileira, ela atravessou um longo caminho, sendo que o que se tem hoje no cenário literário brasileiro, em torno dessa literatura, seja em prosa ou poesia, é bastante recente, principalmente quando se considera a consolidação de escritores e obras negras nos espaços intelectuais.

Proença Filho (2004) e Lima (2009) compactuam, em seus estudos, de ideias semelhantes acerca do negro na literatura brasileira, no sentido de que, desde muito cedo, a sua presença em literatura nunca esteve livre do olhar marginalizador. Isso porque sempre esteve marcando o processo de consolidação da história social, cuja ideia do negro inferiorizado foi dando espaço a um sujeito de complexidades mais profundas, à medida que os movimentos pela igualdade étnica e social foram se fortalecendo.

É mais precisamente no início do século XIX que o negro, enquanto temática, passa a se manifestar no campo literário por meio da literatura abolicionista de Castro Alves, sem que isso se tratasse de uma novidade. Isso tendo em vista aquele já se manifestar enquanto personagem nas poesias que o antecedem (PROENÇA FILHO, 2004). O negro, retratado como o sujeito à servidão e objetificado, perdura durante um longo tempo influenciado pela ideologia branca. Dessa maneira, levou um tempo até que ele fosse visto enquanto figura de poder, e os cenários cultural e social influenciaram a perspectiva de autores acerca de como representá-lo, de maneira que sua voz pudesse ser ouvida.

Além de toda a questão envolvendo a voz dos colonizados que ecoava nos espaços intelectuais, como acontece com a literatura, é importante ater-se ao que afirma Duarte (2008) ao tratar da personagem negro-protagonista. O pesquisador esclarece que, hoje, a chamada literatura afro-brasileira ou negro-brasileira encontra-se a ampliar o seu corpus e cada vez mais tem explorado não apenas a temática do negro escravizado. Dessa forma, o que antes se voltava ao negro enquanto tema principal, deu espaço ao universo humano, social e cultural alimentando e nutrindo a literatura brasileira.

Quanto aos conteúdos presentes nas obras da literatura afro-brasileira, Duarte (2008, p. 13) ainda destaca algumas que acredita de maior relevância: primeiramente, as temáticas, em meio ao “resgate do povo na diáspora brasileira, passando pela escravidão e de suas consequências ou ir à glorificação de heróis, como Zumbi e Ganga Zumba”; em seguida, as tradições culturais e religiosas transplantadas para o Brasil, com ênfase para “a riqueza dos mitos, lendas e de todo um imaginário circunscrito muitas vezes à oralidade”. Outro aspecto atrelado à temática “situa-se na história contemporânea e busca por inserir o leitor em dramas vivos na modernidade brasileira” e a desvinculação da criação de personagens negros, quando o seu autor-criador seja também negro ou afrodescendente. Em seguida, a autoria e, por fim, o ponto de vista. “O tópico da autoria é um dos mais controversos”, haja vista envolver questões biológicas, biográficas e fenotípicas, “mas também em função da defesa do que é ser negro no Brasil”, assim como também de “uma literatura negra de autoria branca” (DUARTE, 2008, p. 13-14).

Pensar em uma literatura negra ou afro-brasileira é pensar em um conceito recente, ainda mais considerando os primeiros registros da literatura brasileira de autoria negra do início do século XIX, mas que vão se fortificando em solo nacional nas três últimas décadas. A literatura produzida por Evaristo confronta as imposições sociais de classe, raça e gênero e surge dando voz às figuras estigmatizadas, principalmente às mulheres negras, o que fortalece, por meio de rememoração, a memória histórica, como se percebe na narrativa de “Olhos d’água”.

Esse rompimento com as amarras sociais presentes na literatura negra de Evaristo é o que Dalcastagnè (2012, p. 13) afirma, quando diz ser a literatura, um “território contestado”. Para a pesquisadora, desde que a literatura era tida enquanto instrumento da identidade nacional, até a atualidade, diversos grupos sociais buscam apropriarem-se de seus recursos para garantir que sejam ouvidos e, “muito além de estilos ou escolhas repertoriais, o que está em jogo é a possibilidade de dizer sobre si e sobre o mundo, de se fazer visível dentro dele” (DALCASTAGNÈ, 2012, p. 13) e, enquanto espaço de produção simbólica de sentido, a literatura tem se tornado um espaço intelectual cada vez mais disputado por escritores e críticos na busca pela legitimação do poder de fala.

Não basta, porém, apenas a pouca existência dos marginalizados na ficção e de sua busca relutante em se manterem na ficção enquanto “voz”; a situação torna-se ainda mais complexa quando há um protagonismo negro feminino. Evaristo (2009) ressalta ainda a complexidade no tocante à produção literária brasileira que, frente à representação literária da mulher (negra) foi, durante muito tempo, a de “corpo-procriação e/ou corpo-objeto de prazer do macho senhor” (EVARISTO, 2009, p. 23), sendo esse aspecto um ponto alto de referenciação aos estereótipos atribuídos ao corpo negro feminino presentes no discurso literário desde o Brasil colônia, no qual o corpo da mulher desempenharia as funções de trabalho e/ou servidão doméstica e sexual.

O discurso do corpo negro, enquanto figura da flagelação e da dominação, ao longo dos tempos de produção intelectual, reforçou negativamente o lugar dessa comunidade, alimentando e incentivando um pensamento de soberania branca. Nesse sentido, retoma-se Le Breton (2007) no que se refere à presença do outro (do branco) resumindo a existência do corpo negro em contextos de subalternizações. Para o estudioso, “aos olhos do racista, são as condições de existência do homem que são os produtos inalteráveis de seu corpo” (LE BRETON, 2007, p. 73), assegurando-lhe ser este nada mais que um artefato de seus aspectos físicos, “do corpo imaginário ao qual a raça dá nome”.

Um dos pontos considerados pelo processo de colonização de povos negros no mundo foi a defesa da ideia destes enquanto sujeitos à dominação, devido a seus traços biológicos. A socióloga negra e nigeriana Oyěwùmí (2018, p. 306), em estudo publicado na década de 1990, discute acerca das formas de perceber corpos em um mundo ocidental e afirma que “a ideia de que a biologia é o destino - ou melhor, que o destino é a biologia - tem sido a base do pensamento ocidental por séculos”.

A socióloga explica que a noção de diferenças entre grupos sociais hierarquicamente definidos, tendo como critérios a biologia, ainda goza de certo prestígio, inclusive “entre os cientistas sociais” que se propõem a explicar a sociedade humana sem utilizarem termos genéticos para tal. No Ocidente, acredita Oyěwùmí (2018, p. 306-307), “as explicações biológicas parecem ser privilegiadas em relação a outras formas de explicar as diferenças de gênero, raça ou classe”.

Nessa perspectiva, aqueles indivíduos e grupos que se autodeclaram enquanto superiores traçariam as questões biológicas como forma de estabelecer o seu domínio sobre o outro, o que supostamente justificaria o lugar de desprestígio destes em consonância com os demais grupos dominantes. Assim, acredita Oyěwùmí (2018, p. 307) que a intenção da sociedade, ao se referir ao homem, era de associá-lo ao corpo de duas maneiras, sendo a primeira como metáfora da biologia e, a segunda, associada à matéria física. Por isso, a sociedade era permeada por diversas questões que definiam o corpo, comumente corpos brancos e pretos, corpos de adultos, crianças e idosos. Com efeito, esse pensamento atribuiria “ao corpo uma lógica própria”: a de que seria possível identificar e determinar o lugar social do indivíduo, assim como as suas convicções ou a inexistência delas, apenas ao olhar.

Ao pensar no contexto literário, e ainda em consonância ao que a pesquisadora nigeriana propõe, a razão pela qual seria o corpo um objeto de tamanho interesse no ocidente é o fato de ser ele mediado pela visão, pelo enxergar. Por conseguinte, é sabido que a questão racial é também uma discussão que transita pelo estético do corpo, o que permite a compreensão acerca da maneira como o preconceito racial violenta a identidade, atribuindo ao corpo características de negatividade.

Ainda se pautando em Oyěwùmí (2018), os pesquisadores Arthur do Nascimento Silva, Tarcísio Moreira Mendes e Julvan Moreira de Oliveira (2020), em estudo dedicado às questões de descolonização do corpo negro, atentam para a supremacia do sentido da “visão” na cultura ocidental e todas as distinções que emergem da imagem do branco superior, denominada por Oyěwùmí de cosmovisão. Em contrapartida a essa maneira de enxergar o negro como inferior em relação ao branco, a nigeriana propõe uma transmutação ao contrapor a cosmovisão à cosmopercepção. Esta, diferentemente daquela, considera diversas formas, sentidos e combinações de sentidos, enquanto produção equitativa de relações de poder.

Nesse sentido, é aqui que Evaristo e o conto “Olhos d’água” estão inseridos, pois distanciam o negro da marginalização a que seus corpos foram impostos; e, para isso, recorre à memória ancestral. A escritora cria, então, personagens “capazes de tecerem narrativas em que as suas identidades negras e de gênero se tornam foco” (COSTA, 2018, p. 68), combatendo o racismo e reconstruindo uma identidade que se buscou apagar desde a colonização.

Narrado na primeira pessoa, “Olhos d’água” apresenta, sob a ótica feminina, a relação conturbada entre a protagonista e as suas memórias. Por meio de um insistente questionamento, “Qual a cor dos olhos de minha mãe?”, a narrativa se aprofunda nas memórias da narradora, da infância à vida adulta, rememorando passagens marcadas pela miséria, como é possível notar no trecho que segue:

Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida (EVARISTO, 2016, p. 16).

O fragmento acima compõe um momento bastante rememorado pela narradora, quando esta associa as lembranças de sua infância com as de sua mãe. O leitor tem, aqui, a rememoração de um momento da vida da narradora marcado pela pobreza em que ambas, mãe e filha, se conectam. E tendo a escassez de comida como um fato marcante nessa fase da vida, Evaristo aborda a questão da miséria e propõe um passeio pela memória da protagonista enquanto elo que mantém viva a relação entre ela e sua família; entre passado e presente.

Em “Olhos d’água”, a protagonista é apresentada em um contexto de busca pela própria identidade e, para que isso seja possível, a personagem precisa ir de encontro com o seio familiar/antepassado, em meio a seus medos, saudades e lembranças e, antes mesmo de seu retorno, é transposta a um lugar de dor, mas também de amor e afeto:

Uma certa noite, há anos, acordei bruscamente e uma pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei reconhecer o quarto da nova casa em que eu estava morando e não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali. [...] E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite, se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusativo. Então, eu não sabia qual a cor eram os olhos de minha mãe? (EVARISTO, 2016, p. 15).

Ao associar sua busca à figura da mãe, a narradora sempre retorna ao questionamento “De que cor eram os olhos de minha mãe?”, sendo retomado num total de dez vezes. Esse questionamento, segundo Costa (2018, p. 65), “é o fio que conduz a narradora-personagem a tomar consciência sobre a sua identidade perdida” e que, automaticamente, já a direciona a um lugar subjetivo, sendo necessário “que ela faça uma viagem à sua cidade natal, que é uma simbologia às suas memórias de infância, às suas divagações de criança e reflexões de adulta”. Quando pensa na mãe, o lugar da dor, definido pela pobreza e a miséria, dá lugar à saudade, e o afeto vem a transbordar:

Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... da verruga que se perdia no meio de uma cabeleira crespa e bela. Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando deixando por um momento o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias e se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo dela (EVARISTO, 2016, p. 16).

Os sentimentos da tristeza e da miséria por elas vividos eram suplantados pelo amor materno. Custa à narradora lembrar a cor dos olhos de sua mãe porque, em muitos momentos, a mãe precisou esconder a dor da miséria para proteger as filhas. Da mesma maneira que a narradora não lembra a cor dos olhos de sua mãe, ela própria não sabe qual a cor de seus próprios olhos, porque há uma linha tênue entre a perspectiva de mundo dela criança até a vida adulta.

Outra questão intrigante na narrativa é a da figura do pai, completamente ausente e não mencionado. Nesse ponto, Evaristo intensifica e engrandece a figura feminina enquanto força diretora: a mulher que exerce total liderança no lar e, principalmente, na criação de seus filhos. Na perspectiva de Renato Noguera (2017, p. 64), essa figuração representa “um aspecto importante da cultura iorubá e que está naquilo que a antropologia define como matrifocal. Na etnia, a articulação da família é protagonizada pela mulher, e não pelo homem, ao contrário das sociedades patriarcais”.

A figura ausente do pai retoma uma triste realidade brasileira, que é a das mães solo ou, o mais possível, mulheres abandonadas e rejeitadas por seus companheiros. Diferentemente de outras situações, que vêm marcar dolorosamente a narradora, a não presença da figura masculina não se reflete, necessariamente, em suas dores. As marcas que se intensificam são resultados de outras questões, comumente a pobreza, o medo pelo desabar da moradia devido às fortes chuvas, a saudade da mãe e a dúvida que a corrói a respeito de qual a cor dos seus olhos. Esses pontos permitem que o leitor seja direcionado a um contexto marcado pela angústia, mas, ao mesmo tempo, apresenta a figura memorável da mãe da protagonista, assim como também a sua família - as suas irmãs - e/ou a orixá Oxum:

Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de casa em busca de melhor condição de vida para mim e minha família: ela e as irmãs tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera minha mãe. Reconhecia a importância dela em minha vida, não só dela, mas de minhas tias e de todas as mulheres de minha família. E também, já naquela época eu entoava cantos de louvor a todas as nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás1, donas de tantas sabedorias (EVARISTO, 2016, p. 18).

Enquanto instrumento de resgate da identidade negroafricana, a memória, como apresentada na passagem da narrativa de “Olhos d’água”, apresenta a sua dimensão social, ou seja, aproxima um momento passado relacionado ao presente, pois é possível perceber a ligação da protagonista com as figuras femininas de poder de sua família, assim como as suas ancestrais. De tal maneira, também é nítida a relação do povo negro com a natureza:

Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor dos olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum (EVARISTO, 2016, p. 19).

No conto, ao mencionar Mamãe Oxum, o elemento água se configura enquanto lembrança. É a água que anuncia derrubar o barraco em que moravam na infância; a água que fervia na panela, sem nenhum alimento; é a água salgada em formato de lágrimas a escorrer dos olhos da protagonista e que, no final do conto, quando ambas, mãe e filha, se encontram, ao encostarem os rostos uma na outra, tem-se o encontro de suas lágrimas, como se fossem dois rios que se entrecruzam. Dessa maneira, o elemento água, simbolicamente representado e materializado durante toda a narrativa, edifica a relação com a natureza, sendo esta uma das características mais iminentes na relação entre passado e presente.

Ao apresentar uma África mediante as influências da religiosidade, Evaristo mantém vivos, na contemporaneidade, os aspectos da história, principalmente aqueles que têm como base a história oral, muito importante na identidade negra. Cabe, aqui, atentar para o fato de como o senso comum simplifica e padroniza o continente africano, por uma ótica preconceituosa, enquanto lugar primitivo. Para evitar cair no senso comum, ao qual a propagação de informações simplistas e deturpadas a respeito de África é fortemente difundida, faz-se necessário buscar fontes históricas que informem o porquê de um território tão extenso e rico ser constantemente exposto como um lugar de pouca ou quase nenhuma história.

Na consideração das abordagens e dos questionamentos apresentados acima é que se torna possível pensar em uma história de pessoas negras e seus ancestrais sendo valorizada, como acontece nos contos evaristianos, como visto nas memórias da narradora de “Olhos d’água” que conta, através das suas memórias, que são também memórias de seus antepassados negros, a história à qual pertence. Isso, em meio às violências a ela atribuídas, também reconstrói a sua identidade, valorizando a sua integridade histórica e simbólica, sendo esta reproduzida e propagada perante as gerações futuras:

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente no meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho, como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como se estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha filha falou:

- Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos? (EVARISTO, 2016, p. 19).

A memória desencadeia e suscita na protagonista não apenas recordações. Ela também contribui na permanência de uma identidade negra vinculada pela valorização e manutenção dos aspectos históricos dessa comunidade. Apesar de não haver, na narrativa, palavra ou trecho empregando termos como violência racial, racismo, preconceito, o “sentido de denúncia apresentado no decorrer do conto reforça a perda da identidade e a urgência por reencontrá-la” (SILVA; CONTE, 2019, p. 428). Isso porque, quando Evaristo insere a protagonista em um contexto pelo qual suas vivências são por ela narradas, permite que as memórias atuem como mecanismo de manutenção de sua identidade histórica e negra.

Essa maneira de se enxergar como a responsável de sua história é, pois, uma influência da cosmopercepção, que contribui de maneira a distanciar o exótico e a demonização da cultura africana. Logo, essa percepção só é possível quando as diversas formas de sentidos e combinações de sentidos são adotadas, onde não há soberania entre raças. O negro, portanto, poderá contar a sua história e, principalmente, sentir-se protagonista dela.

Considerações finais

Enquanto mecanismo de busca da identidade negra ancestral, a memória é capaz de desconstruir estereótipos atribuídos à pessoa negra, tendo a sua história como mecanismo de valorização da ancestralidade africana. A maneira como o indivíduo age em suas relações com o mundo entra em consonância com um complexo sistema simbólico no qual o corpo é responsável por atribuir a capacidade de projetar sentidos e valores acerca de si e de sua existência, sendo então possível entender que é corporal a própria condição humana.

Diante disso, se o corpo é definido como uma construção simbólica, sua construção é também complexa de se definir. Dessa maneira, o corpo negro, assim como qualquer outro, também representará concepções de construções diversas, muitas delas mediadas por elementos manipuladores do sistema de dominação. Foi neste ponto que os estudos concernentes à memória ancestral contribuíram no sentido de se compreender como questões direcionadas à racialidade se fortaleceram na busca pelo silenciamento e apagamento da identidade negra nacional com intuito de desumanização de povos fragilmente suscetíveis à dominação.

E por meio da abordagem dada à memória, Evaristo discute o lugar do negro na sociedade pelo olhar protagonista, tendo as experiências individuais e coletivas de sua narradora no conto “Olhos d’água” e reafirmando que pessoas negras podem (re)escrever suas próprias narrativas, antes contadas pela ótica ocidental europeia. Ao utilizar a metáfora da cor dos olhos, a narradora traz para o campo do debate questões de extrema importância à religiosidade: o culto aos antepassados, aos orixás e às iabás, assim como a relação familiar, o descaso e o abandono, entre outros temas que despertam a curiosidade acerca da influência da cultura africana na consolidação da história social brasileira.

Durante as discussões aqui propostas, os caminhos percorridos estabeleceram um diálogo frente às questões de cunho social, antropológico e literário atribuídas ao corpo negro. Nesse viés, é possível pensar em como as relações de poder se estabelecem entre grupos sociais diversos, criando, determinando, (des)legitimando poderes entre os sujeitos, como acontece com os discursos racistas.

Com efeito, observa-se que as experiências de violências e preconceitos raciais as quais a comunidade negra sofre passam a ficar enraizadas enquanto experiências também corpóreas, que resultam negativamente em suas subjetividades. Assim, o sujeito negro passa também a figurar numa literatura que, ainda influenciada pela supremacia branca, o insere num contexto de relações de poder. Até que a produção intelectual dê margem ao protagonismo negro, ultrapassando questões biológicas e fenotípicas de condição de inferiorização, o cenário intelectual se vê motivado a acompanhar as mudanças de perspectivas acerca da condição humana e das diversidades de corpos que constituem a sociedade.

Por esse ângulo, é possível afirmar que Evaristo tem noção do poder que o seu corpo de mulher negra exerce em uma sociedade machista, classista e racista. Por isso, impõem-se enquanto intelectual, lidando com questões e problemáticas diversas. Igualmente, ela tem consciência de que é preciso ultrapassar barreiras e fronteiras no campo discursivo, a fim de estabelecer um diálogo que ocupe os espaços que foram/são negados aos corpos negros.

Afinal de contas, escritores e escritoras como Evaristo, e sua narrativa aqui analisada, surgem como fontes que asseguram e permitem aos violentamente silenciados, principalmente as mulheres negras, um espaço que reivindica um pertencimento social e cultural, por meio de uma literatura que se nega a aceitar as correntes, a chibata, o tronco e a senzala. Evaristo evoca as memórias e os ancestrais enquanto ordens de poder e valoração cultural e religiosa e que, atreladas a outros elementos simbólicos significativos às condições de dor da sua comunidade negra, assim como também à obstinação em encontrar respostas, representadas através do choro da narradora-protagonista, reforçam que, apesar do distanciamento físico, não há distância de suas origens, aproximando-a sempre de seu(s) (ante)passado(s).

Por fim, é válido salientar que o poder exercido pela autora e sua escrita, tão clara e coesa, que oportuniza falar sobre as religiões de matriz africana, são uma maneira genuína de combater a violência racial, o preconceito, a intolerância religiosa e o racismo, unindo a história dos povos de origem africana à prática intelectual, ao enxergar o homem pelo viés da cosmopercepção, ou seja, sem diferenças entre classes e raças, um contexto de valoração da igualdade e integridade humanas.

Referências

ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Jandaíra, 2020. [ Links ]

BÂ, Amadou Hampâté. “A tradição viva”. In: KI-ZERBO, Joseph (Org.). História Geral da África I: Metodologia e pré-história da África. 2 ed. Brasília: UNESCO, 2010. p. 168-2012. [ Links ]

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 4 ed. São Paulo: TAO, 1979. [ Links ]

COSTA, Josenéia Silva. “O lugar da identidade, da ancestralidade e da mulher negra: tessituras temáticas no conto ‘Olhos d’água’, de Conceição Evaristo”. Opará: Etinicidades, Movimentos Sociais e Educação, Paulo Afonso, v. 6, n. 9, p. 56-73, jul./dez. 2018. Disponível em Disponível em https://www.revistas.uneb.br/index.php/opara/article/view/OPARAV6N9_3 . Acesso em 20/10/2022. [ Links ]

CRUZ, Flávio Prates; JESUS NETO, João Santos de. “A memória e ancestralidade presente no romance Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo”. Revista Humanidades e Inovação, v. 7, n. 3, p. 180-184, 2020. Disponível em Disponível em https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/1473 . Acesso em 15/09/2022. [ Links ]

DALCASTAGNÈ, Regina. “Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as novas vozes sociais”. Iberic@L, n. 2, p. 13-18, 2012. Disponível em Disponível em https://iberical.sorbonne-universite.fr/wp-content/uploads/2012/03/002-02.pdf . Acesso em 08/01/2023. [ Links ]

DUARTE, Eduardo de Assis. “Literatura afro-brasileira: um conceito em construção”. Estudos de Literatura Contemporânea, Brasília, n. 31, p. 11-23, 2008. Disponível em Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/231171186.pdf . Acesso em 05/03/2023. [ Links ]

DUARTE, Eduardo de Assis. “O negro na literatura brasileira”. Navegações, Porto Alegre, v. 6, n. 2, p. 146-153, jul./dez. 2013. Disponível em Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/231171186.pdf . Acesso em 05/03/2023. [ Links ]

EVARISTO, Conceição. “Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”. Scripta, Belo Horizonte, v. 13, n. 25, p. 17-31, 2009. Disponível em Disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/4365 . Acesso em 15/09/2022. [ Links ]

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2018. [ Links ]

EVARISTO, Conceição. “Olhos d’água”. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 15-19. [ Links ]

HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. [ Links ]

HALL, Stuart. “Quem precisa de identidade?”. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133. [ Links ]

LE BRETON, David. A Sociologia do corpo. 2 ed. Tradução de Sônia M. S. Fuhrmann. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. [ Links ]

LE BRETON, David. Antropologia do corpo e modernidade. Tradução de Fábio dos Santos Creder Lopes. Petrópolis: Vozes, 2011. [ Links ]

LIMA, Alyne Barbosa. Olhos d’água de Conceição Evaristo: Memória e Ancestralidade para a regência do feminino negro. 2022. Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (PPLET), Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil. Disponível em Disponível em https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/34088/3/OlhosD%c3%a1guaConcei%c3%a7%c3%a3o.pdf . Acesso em 22/12/2022. [ Links ]

LIMA, Carina Bertozzi. “Literatura Negra - uma história”. Terra Roxa e outras terras - Revista de Estudos Literários, v. 17, p. 67-77, 2009. Disponível em Disponível em http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol17A/TRvol17Af.pdf . Acesso em 25/02/2023. [ Links ]

MELLO, Leonardo Tondato. O envelhecer: uma análise junguiana na mitologia africana. Guarujá: Científica Digital, 2021. Disponível em Disponível em https://doceru.com/doc/ex8ss51 . Acesso em 22/01/2023. [ Links ]

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido de Retrato do colonizador. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. [ Links ]

NOGUERA, Renato. “Alguns mitos iorubás”. In: NOGUERA, Renato. Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017. p. 48-86. [ Links ]

OLIVEIRA, Eduardo David de. “Filosofia da ancestralidade como filosofia africana: educação e cultura afro-brasileira”. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação - RESAFE, n. 18, maio-out. / 2012. Disponível em Disponível em https://periodicos.unb.br/index.php/resafe/article/view/4456 . Acesso em 05/03/2023. [ Links ]

OYĚWÙMÍ, Oyèrónké. “Visualizando o corpo: Teorias Ocidentais e Sujeitos Africanos”. Tradução de Leonardo de Freitas Neto e Osmundo Pinho. Novos Olhares Sociais, v. 1, n. 2, p. 294-317, 2018. Disponível em Disponível em https://www3.ufrb.edu.br/ojs/index.php/novosolharessociais/article/view/452 . Acesso em 02/12/2022. [ Links ]

POLLAK, Michael. “Memória e Identidade social”. Estudos Históricos, v. 5, n. 10, p. 200-2012, 1992. Disponível em Disponível em http://www.pgedf.ufpr.br/memoria%20e%20identidadesocial%20A%20capraro%202.pdf . Acesso em 12/01/2023. [ Links ]

PROENÇA FILHO, Domício. “A trajetória do negro na literatura brasileira”. Estudos Avançados, v. 18, n. 50, p. 161-167, 2004. Disponível em Disponível em https://www.scielo.br/j/ea/a/mJqCRgkgYfJzbmnfBJVHR9x . Acesso em 24/08/2024. [ Links ]

QUIJANO, Aníbal. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142. Disponível em Disponível em http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf . Acesso em 08/11/2022. [ Links ]

SÃO BERNARDO, Augusto Sérgio dos Santos de. “A lenda e a lei: A ancestralidade afro-brasileira como fonte epistemológica e como conceito ético-jurídico normativo”. ODEERE Revista do Programa de Pós-Graduação em Relações Étnicas e Contemporaneidade - UESB, v. 3, n. 6, p. 226-250, 2018. Disponível em Disponível em https://periodicos2.uesb.br/index.php/odeere/article/view/4422 . Acesso em 04/03/2023. [ Links ]

SILVA, Elen Karla Sousa da; CONTE, Daniel Contes. “O vaivém das memórias em Olhos d’água, de Conceição Evaristo”. Fólio-Revista de Letras, Vitória da Conquista, v. 11, n. 2, p. 423-434, 2019. Disponível em Disponível em https://periodicos2.uesb.br/index.php/folio/article/view/5527/4619 . Acesso em 20/10/2021. [ Links ]

SILVA, Artur do Nascimento; MENDES, Tarcísio Moreira; OLIVEIRA, Julvan Moreira de. “De África, Nzinga; da Diáspora, Dandara: cosmopercepção descolonizando o corpo negro”. Revista da ABPN, v. 12, n. 33, p. 402-430, 2020. Disponível em Disponível em https://pdfs.semanticscholar.org/b8f7/ab6b4e848d097f16ad7dc3f880f14b2c46d5.pdf . Acesso em 15/02/2022. [ Links ]

ZIN, Rafael Balseiro. “Literatura e afrodescendência no Brasil: condições e possibilidades de emergência de um novo campo de estudos”. Caderno Seminal Digital, v. 29, n. 29, 2018. Disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/cadernoseminal/article/view/30978/23754. [ Links ]

1 Orixás femininas. Na cultura iorubá, quer dizer “Mãe”, “Senhora” ou mesmo “aquela que alimenta seus filhos”. Representa as mães, orixás femininas: Iansã (Senhora dos ritos funerários, dos ventos e das tempestades), Nanã (Guardiã do poder ancestral), Oxum (Senhora das águas doces, associada a beleza e fertilidade), Obá (Guerreira solitária e silenciosa), Iemanjá (Senhora das águas salgadas).

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: KARLO-GOMES, Geam; MENEZES, Josivaldo Silva. “Memória e ancestralidade em Olhos d’água, de Conceição Evaristo: a perda da identidade e a urgência por reencontrá-la”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 2, e95638, 2025.

Financiamento: Não se aplica

Consentimento de uso de imagem: Não se aplica

Aprovação de comitê de ética em pesquisa: Não se aplica

Recebido: 25 de Julho de 2023; Revisado: 06 de Setembro de 2024; Aceito: 13 de Dezembro de 2024

geam.k@upe.br

josivaldo.smenezes@upe.br; jos.menezes@hotmail.com

Conflito de interesses:

Não se aplica.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons