Introdução
O Con Mis Hijos No Te Metas (CMHNTM) foi criado no Peru, em 2016, a fim de organizar a reação ao novo Currículo Nacional da Educação Básica. Suas primeiras articulações públicas ocorreram durante uma conferência em Lima, em 29 de novembro de 2016, que reuniu congregações evangélicas e lideranças políticas autoidentificadas como pró-família e pró-vida, entre as quais Christian Rosas, cientista político cristão representante da Coordinadora Nacional Pro Familia (CONAPFAM), que se tornou o porta-voz do CMHNTM. A atuação on-line do movimento se iniciou com a criação de uma página no Facebook e de um canal no YouTube, lançados em novembro de 2016. Desde então, o lema e a hashtag #ConMisHijosNoTeMetas se espalharam pelas redes sociais e pelas ruas, levando milhares de pessoas a manifestações que tomaram o Peru, e que se expandiram para outros países da América Latina, da Europa e para os Estados Unidos.
Segundo a apresentação da página no Facebook do CMHNTM Peru, trata-se de um Coletivo composto por “ciudadanos responsables, que buscan un desarrollo y crecimiento sano para sus hijos”.1 Seus idealizadores argumentam que o Ministério da Educação (MINEDU) estava introduzindo a “ideologia de gênero” por meio da reforma curricular, convocando a participação de pais e mães temerosos de que, sob pretexto de defender a igualdade de gênero, o Estado pretendesse “doutrinar” seus filhos.
O novo currículo foi implementado em 2017, sob forte pressão exercida pelo CMHNTM e por organizações como Padres en Acción. Foi um período de grande instabilidade política no país, quando os escândalos de corrupção e a animosidade de um Congresso dominado pela oposição fujimorista levaram a uma crise no Executivo, acarretando a renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski, em 2018, e o impeachment de Martín Vizcarra, em 2020. Nesse contexto, o CMHNTM estabeleceu vínculos entre a suposta ideologização perpetrada por meio do ensino e a noção de que um estado de corrupção moral havia se instaurado na presidência do país. O Coletivo convocava seus seguidores a se engajarem on-line e nas ruas, compartilhando publicações e participando de marchas. Ao mesmo tempo, os posts no Facebook divulgavam a atuação de congressistas evangélicos envolvidos com a campanha contra o Novo Currículo e publicavam fotografias e vídeos das manifestações em diversas cidades a fim de demonstrar a popularidade da causa.
A convergência de agendas programáticas de segmentos cristãos conservadores e da extrema direita populista em países da América Latina favorece a criação do que José Guadalupe e Oscar León (2022) definem como “novos grupos de pressão”, entre os quais identificam o CMHNTM, formando blocos articulados com os chamados “políticos antidireitos” a favor de uma agenda moral oportunamente convergente. Apesar dessa articulação, tais grupos buscam a impressão de serem parte de uma ação cidadã espontânea e apartidária, nascida da indignação popular contra uma crise moral, comum a vários países da região, mas com especificidades nacionais, bem como da ingerência de Estados supostamente tomados pelos interesses “subversivos” da “nova esquerda” (Nicolás MÁRQUEZ; Agustín LAJE, 2016).
Além de divulgar suas ações em oposição ao Currículo 2017, o CMHNTM sempre utilizou o Facebook para definir a tal “ideologia de gênero” como um risco para a “família”, buscando articular e ampliar a militância conservadora. Vale assinalar que o Facebook era a rede social mais utilizada no Peru, e que, em um único dia, a página do CMHNTM ganhou mil seguidores, e em 2018 contava com mais de 200 mil.2 Se desde o início a página servia de veículo para instruir e engajar seus seguidores, esta característica se acentuou ainda mais a partir de 2018, depois que o currículo foi implementado. A partir de então, o escopo se ampliou, passando a divulgar notícias internacionais a respeito de temas relacionados a conquistas políticas no campo conservador e conteúdos visuais e audiovisuais próprios ou repostados cujo objetivo era produzir engajamento constante. Com publicações praticamente diárias até 2020, os posts ofereciam informações e representações sobre os aliados e os adversários na batalha contra a “ideologia de gênero”.
Neste artigo, demonstro a importância da representação da mulher como parte dessa estratégia de engajamento, a qual reforça papéis sociais e estereótipos de gênero. Meu objetivo é identificar conexões entre a produção/divulgação de imagens e a difusão de um imaginário conservador sobre a mulher, bem como seu papel junto a movimentos que articulam racionalidade neoliberal e tradicionalismo moral (Wendy BROWN, 2019). Meus objetos de análise são artes digitais nas quais identifico que a representação da mulher desempenha uma função relevante para a construção do seu discurso político e moral.
A fim de realizar uma análise esmiuçada da representação visual da mulher pelo CMHNTM em particular, mas pelo neoconservadorismo em geral, selecionei, para este trabalho, oito artes produzidas a partir de desenhos, emojis, textos e fotografias postadas entre 2019 e 2020. A metodologia de análise considera procedimentos de conotação (Roland BARTHES, 1990[1961]) como os gestos e poses das pessoas fotografadas e/ou desenhadas, a presença de determinados objetos, símbolos e cores que agregam significados, o agrupamento de imagens correlatas ou antagônicas, bem como os recursos caricaturescos utilizados em memes, de modo que elementos iconográficos e textuais contidos nessas artes delineiem a mulher com o objetivo de gerar identificação ou rechaço. O critério para a seleção das imagens considera a pertinência de cada uma delas para demonstrar os três perfis de mulher que identifiquei como centrais para o discurso do CMHNTM e que serão objeto de análise deste artigo: a imagem da mãe, da mulher do povo e da feminista.
A imagem ideal da mulher é a da “mãe”, entendida como a mulher “de verdade”, a qual tendo sido abençoada pelo milagre de gerar uma nova vida, cumpre feliz e grata sua missão. Essa mãe é vista como uma aliada forte e corajosa, uma mulher “do povo” que, como a maioria das peruanas, estaria empenhada em proteger seus filhos da ingerência do Estado e de minorias alheias à vontade popular. Como oposição a essa mulher/mãe que simboliza o povo, é delineada a imagem da “feminista”, entendida como uma minoria histérica e violenta, cuja imagem é construída ao mesmo tempo como antipopular e antimaterna, entendida como uma ameaça às outras mulheres.
Antes de analisar as artes digitais selecionadas, vale ressaltar que as imagens desempenham um papel crucial nas redes sociais por várias razões: 1) elas capturam a atenção de forma instantânea graças à atratividade visual e, por isso, os posts com imagens costumam ter mais curtidas, comentários e compartilhamentos do que os apenas textuais; 2) elas são eficazes porque muitas pessoas acessam redes sociais em celulares, e as imagens costumam ser fáceis de visualizar em telas pequenas; 3) as imagens permitem uma expressão criativa, fortalecendo a identidade da marca e criando uma conexão emocional com os seguidores. Sobre este terceiro ponto, cabe destacar que a própria bandeira do CMHNTM, formada por dois blocos nas cores azul e rosa-bebê, transmite, por meio da mensagem visual, uma noção de binarismo e de complementaridade entre o masculino e o feminino, e até em posts majoritariamente textuais a reprodução dos signos plásticos da bandeira remete a esses significados.
Martine Joly (1996) salienta que a sensação de que a leitura de imagens é natural e espontânea se deve à interiorização de convenções e signos socialmente compartilhados. Apesar do aperfeiçoamento das ferramentas de manipulação, as imagens divulgadas on-line não eliminaram essa sensação apontada pela autora. Por isso, a divulgação de registros fotográficos das marchas organizadas pelo CMHNTM e da atuação pública de seus líderes e parceiros, bem como de desenhos e vídeos produzidos a fim de explicar ideias e conceitos de modo didático, consiste em estratégias utilizadas pelo grupo. Neste artigo, entendo a linguagem visual como parte central do discurso do Coletivo, utilizada como meio importante de informar e formar seus militantes e, ao mesmo tempo, de demonstrar que compartilham uma mesma visão de mundo.
O CMHNTM busca atrair o apoio não só de lideranças, mas de indivíduos comuns, defensores de uma moralidade cristã e conservadora, os quais, segundo Daniela Meneses (2019), atuam como “pastores” nas redes sociais. O uso das imagens amplia esse poder de atração. Valendo-se do efeito de veracidade/neutralidade das fotografias documentais, ou do caráter didático dos desenhos, o conteúdo visual das postagens colabora para que a representação da mulher pareça óbvia e natural, embora utilize elementos estereotipados de significação, lançando mão de referências maniqueístas que contribuem para criar um cenário de caos moral. Desse modo, as imagens participam da narrativa de guerra cultural que, ao reduzir a mulher à mãe, vista como representante das maiorias populares, ou à feminista, vista como oposta aos interesses das demais mulheres, promove deturpações que comprometem o debate de gênero.
A mãe
Em 8 de março de 2020, o CMHNTM publicou uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, dedicando o post à “verdadera mujer”, identificada na mensagem textual como aquela que “instruye a sus hijos en el camino del bien”. O adjetivo “verdadeira” se destina tanto a excluir as mulheres trans da homenagem quanto a identificar a maternidade a toda mulher cisgênero.

Fonte: https://www.facebook.com/ConMisHijosNoTeMetasOficial/photos/a.335334723507119/1040575426316375. Acesso em 02/02/2024
#ParaTodoMundoVer Fotografia de uma mulher e uma menina de mãos dadas, ambas vestindo camisetas rosa-bebê estampadas com a logo do Con Mis Hijos No Te Metas
Figura 1 Homenagem ao Dia Internacional da Mulher, 2020
Na Figura 1, uma fotografia preenche toda a arte, apenas com a logo do CMHNTM e a frase “¡Feliz día de la mujer!” adicionados. A imagem retrata uma mulher e uma menina, presumivelmente mãe e filha, usando a camiseta do Coletivo. A mulher segura uma bandeira com uma mão e, com a outra, a da menina, inclinando-se levemente em sua direção, o que remete à ideia do estabelecimento de um vínculo forte entre elas. A expressão da mulher sugere que ela dizia algo motivador para a criança, que sorri, demonstrando aprovação e confiança. Os sorrisos de ambas, posicionados em pontos de interseção entre linhas verticais e horizontais segundo a regra dos terços,3 ganham destaque na composição visual.
No segundo plano, pessoas segurando cartazes indicam que a fotografia pode ter sido capturada durante uma marcha. Contudo, nesta cena, em especial, tal informação possui relevância secundária, se comparada a outras fotografias que analisarei adiante. Menos do que contextualizar, o fundo desfocado e predominantemente rosa envolve a mulher/mãe e a menina/filha na atmosfera de feminilidade sugerida pela cor que se tornou, por si só, um símbolo. Utilizado desde o final do século XX para distinguir mercadorias destinadas às meninas, o rosa-bebê é usado pelas militantes do CMHNTM como uniforme em manifestações e tornou-se símbolo de uma noção estereotipada do feminino.
Apesar de o texto se referir à mãe que instrui os seus filhos no caminho do bem, a criança retratada é uma menina. Uma mãe acompanhada de um filho do sexo masculino, vestido com uma camiseta azul-bebê, certamente não produziria o mesmo impacto visual. Segundo Joly, a presença de certos elementos numa imagem, sejam pessoas, objetos, cores, entre outros, comunica tanto quanto as ausências e, por isso, ao analisar uma imagem, é relevante considerar que todos os elementos presentes foram escolhidos entre um grupo de elementos ausentes (JOLY, 1996, p. 59). Nesta fotografia, a mãe estar acompanhada de uma filha e não de um filho é uma escolha significativa. A menina desempenha o papel de filha, mas também de uma nova geração de mulheres em formação, sendo também homenageada naquele dia. Quem observa a imagem é conduzida a olhar para o futuro, pois essa menina sorridente de cabelos castanhos e longos exerce o papel de filha e de futura mulher/mãe. Os signos icônicos e plásticos da imagem e as expectativas sociais sobre mulher, família, infância e maternidade sugerem que a menina aprende com a mãe o que significa ser mulher.
Segundo Elisabeth Badinter (1985), transformações que abrangem desde a noção de que o casamento implica liberdade individual e amor conjugal até as campanhas pelo aleitamento materno influenciaram a mitificação do papel da mãe. Para a filósofa, a associação entre as palavras “amor” e “materno” emergiu da preocupação do Estado em reduzir a mortalidade infantil, e que o discurso médico, filosófico e administrativo não apelou só a argumentos demográficos e econômicos, mas colaborou para difundir um ideal de maternidade fundamentado na noção de que o amor materno é intrínseco à natureza feminina. O amor materno naturaliza o enquadramento da mulher/mãe na função de responsável pelo cuidado das crianças e o reconhecimento social e a felicidade passam a ser o prêmio das mulheres que cumprem o papel de mães devotadas.
Apesar das transformações sociais resultantes da crescente inserção das mulheres na vida pública a partir do século XX - no mercado de trabalho, na produção cultural e intelectual e em movimentos sociais - e de grandes mudanças nos arranjos familiares, o ideal hegemônico da mulher/mãe não foi abalado de maneira significativa, permanecendo associado a uma concepção tradicional de família. Concepção esta que produções destinadas ao lazer e ao entretenimento, bem como propagandas comerciais e políticas contribuíram para massificar por meio de mensagens textuais, visuais e audiovisuais.
Campanhas publicitárias do Dia das Mães, por exemplo, vêm incrementando desde a primeira metade do século XX a produção de imagens que exploram comercialmente a celebração e difundem a imagem da mãe como uma mulher feliz e realizada, cercada de amor e ternura, socialmente valorizada. O sorriso estampado no rosto da mãe, o contato físico e os olhares afetuosos entre ela e seu(s)(a/as) filho(s)(as) são recorrentes em imagens que não só anunciam mercadorias com as quais as mães podem ser presenteadas, mas massificam uma imagem ideal da mulher/mãe. Apesar de historicamente construída, essa imagem hegemônica transmite uma mensagem de atemporalidade, estabelecendo uma forma tradicional de se entender e representar a mulher/mãe que, por sua vez, é entendida e representada como peça-chave da família tradicional. Modelo de família que tanto santifica a figura da mulher/mãe quanto fundamenta desigualdades de gênero.
Contudo, apesar de geralmente (re)produzirem padrões hegemônicos e estereótipos da mulher, da feminilidade e da maternidade, a publicidade e a indústria cultural buscam se adaptar às transformações no gosto e interesses de públicos-alvo diversos, estando permeáveis a uma série de revisões, refletindo mudanças sociais, culturais, políticas e estéticas de seu tempo. Não por acaso, a extrema direita conservadora critica a publicidade, a televisão e o cinema. Exemplo disso é que, em um post de 2 de março de 2020, o CMHNTM elogiou a decisão do governo russo de censurar a personagem lésbica do filme da Disney Pixar “Onward”. Para o Coletivo, o corte das cenas com a personagem nas exibições em salas de cinema da Rússia era um ato de proteção aos filhos dos cidadãos.4
Segundo a perspectiva do CMHNTM, a mulher “verdadeira” não pode ser trans, lésbica, feminista, nem ter qualquer outra orientação/identidade sexual e/ou postura política que desafie a “ordem natural” que caracteriza a mulher como mãe e a maternidade como “graça de deus”.
A partir do discurso de defesa da “ordem natural” e dos valores cristãos como tradição moral do povo peruano, a influência evangélica na política avançou no país na mesma medida em que temas sensíveis para a ideologia religiosa conservadora passaram a ser pautados no debate público. Guadalupe e León (2022) afirmam que, em vários países latino-americanos, novas formas de fazer política emergiram da união de setores religiosos e da extrema direita populista em torno de agendas programáticas comuns e que, no Peru, ações como o combate aos programas de educação sexual integral, sobre a qual o CMHNTM se alavancou, contribuem para naturalizar as relações entre evangelismo e conservadorismo político.
Nos posts do CMHNTM, a associação entre mulher e maternidade, bem como maternidade e dádiva divina, se manifesta a partir de signos icônicos, plásticos e textuais de variadas maneiras. Na arte (Figura 2) que celebrava o Dia das Mães de 2019, sete fotografias de manifestações foram dispostas ao redor da mensagem “¡Gracias Mamá!”, a qual traz também a sua logo, que serve como base para o desenho de algumas rosas cor-de-rosa sobre um fundo branco. O texto do post atribui à maternidade uma perspectiva cristã: “Feliz día a todas las madres que hoy son celebradas, apreciadas y amadas por haber sido bendecidas con el milagro más grande de esta tierra: dar a luz a otra vida humana”.5

Fonte: https://www.facebook.com/ConMisHijosNoTeMetasOficial/photos/a.335334723507119/816478698726050. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Arte digital composta de sete fotografias de mulheres em manifestações do Con Mis Hijos No Te Metas ao redor de uma mensagem de agradecimento às mães
Figura 2 Homenagem ao Dia das Mães, 2019
Nesta postagem, o texto e a imagem complementam-se. As flores desenhadas remetem ao presente clássico do Dia das Mães. O texto as felicita e reconhece seu papel. Mas as fotos retratam mulheres engajadas nas manifestações do CMHNTM, com destaque para o ativismo político das mulheres comprometidas com a conservação dos valores da família tradicional peruana, sem recorrer a elementos religiosos. A imagem destaca a militância conservadora da mulher/mãe.
Ao contrário da imagem analisada anteriormente, as mães e filhas(os) destas fotografias não estão destacadas do entorno nem estabelecem predominantemente uma relação entre si. Se comparamos a fotografia postada no Dia Internacional da Mulher em 2020 (Figura 1) com a que, na Figura 2, está localizada no meio da coluna esquerda - a qual também mostra uma mulher segurando a mão de uma menina, que se pode presumir ser sua filha, e uma faixa do CMHNTM -, vemos que, nesta, a mulher olha para frente durante sua caminhada, enquanto a menina vira o rosto para o lado, olhando para alguém ou algo que não foi incluído na composição. A fotografia abaixo desta registra uma mulher que sorri por trás de um balão que quase lhe esconde o rosto e, na foto ao lado, dois balões rosas e um azul encobrem totalmente o rosto e parte do corpo da menininha que aparece no centro da imagem. Embora não se possa descartar que se tratem, talvez, de composições mais descuidadas, feitas por fotógrafos amadores, é válido ressaltar que essas fotografias transmitem um efeito de naturalidade e espontaneidade próprio dos registros instantâneos, cuja força enunciativa está justamente em seu caráter despretensioso e rotineiro.
Nenhuma das fotografias que compõem a arte sintetiza idealmente a mulher/mãe, mas, em conjunto, mostram, por meio de registros de forte apelo documental, a mulher peruana média, a mulher do povo - como analisarei mais detalhadamente no próximo subitem - como a mãe comprometida com a conservação da família e da moralidade tradicional. Nesse sentido, vale a pena observar também, nesta arte digital, a fotografia no alto, à esquerda, a qual registra uma mulher sozinha, centralizada, em primeiro plano, com os braços erguidos segurando uma faixa, passando uma imagem de força e comprometimento. Embora, na imagem, ela não esteja acompanhada de alguma criança ou jovem que possa ser identificada(o) como sua(seu) filha(o), a inclusão desta fotografia na arte leva quem a observa a supor que se trate de uma mãe: uma mulher/mãe/peruana comum defendendo seus direitos.
No Dia Internacional da Mulher de 2019, também foi publicada uma arte digital com fotografias de mulheres em manifestações do CMHNTM (Figura 3). É coerente com o discurso do grupo que uma homenagem à mulher no dia 8 de março se assemelhe a uma homenagem ao Dia das Mães, desconsiderando especificidades que remetem à origem dessas datas comemorativas, seus usos políticos, religiosos, comerciais etc., bem como os conteúdos simbólicos a elas relacionados. A comparação entre os posts que celebram o Dia da Mulher e o Dia das Mães revela semelhanças e diferenças importantes de observarmos.

Fonte: https://www.facebook.com/photo?fbid=779620902411830&set=a.335334723507119. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Arte digital composta de treze fotografias de manifestações do Con Mis Hijos No Te Metas ao redor de uma mensagem desejando Feliz Dia da Mulher
Figura 3 Homenagem ao Dia Internacional da Mulher, 2019
Além das treze fotografias que registram a presença feminina nas marchas organizadas pelo grupo, nesta imagem, a logo do CMHNTM aparece centralizada, junto a uma frase desejando feliz Dia da Mulher. A maioria das mulheres veste a camiseta rosa, mas, diferentemente da Figura 1, a cor não domina o quadro. O rosa e o azul são preponderantes e remetem à identidade visual do CMHNTM, mas dividem a composição cromática com outras cores e elementos sem conteúdo simbólico marcante, como os prédios, os automóveis e outros objetos capturados nas fotografias. Ao incluir esses elementos na composição, as fotografias transmitem uma mensagem de veracidade típica do fotojornalismo, a qual reforça o caráter documental desses registros, assemelhando-se às características das fotografias utilizadas na arte postada no Dia das Mães de 2019 (Figura 2).
No canto inferior, à direita, da Figura 3, uma fotografia destaca um dos rostos mais conhecidos do CMHNTM Peru: a pastora evangélica e deputada Milagros Aguayo, discursando ao microfone enquanto levantava o braço com o punho cerrado, gesto de força e resistência recorrente em manifestações políticas. Várias mulheres registradas nas demais fotografias do conjunto replicam o gesto simbólico. Outras seguram faixas, bandeiras, balões rosas e azuis. Apenas duas dessas treze fotografias trazem mulheres acompanhadas de crianças que parecem ser suas filhas, uma no colo, na foto no alto, à direita, e outra empurrada num carrinho de bebê, na foto disposta no centro da imagem, abaixo da logo. A terceira fotografia, de cima para baixo, à direita, registra várias adolescentes, mas nenhuma das mulheres adultas incluídas no enquadramento pode ser identificada como mãe de alguma delas. Estas adolescentes aparecem como parte das mulheres de todas as idades a que a mensagem textual do post se refere: “feliz día a todas las mujeres en todas las etapas de la vida, que luchan día a día por sus hijos, su familia y la libertad”.6
Aqui também o texto é mais do que legenda e a imagem é mais do que ilustração. Enquanto, na mensagem visual, o engajamento feminino junto à causa do CMHNTM se mostra central e a maternidade aparece pontualmente, a mensagem textual indica que os filhos e a família - ao lado da liberdade, outra palavra-chave do discurso conservador - são o centro da vida das mulheres. A representação da mulher “do povo”, a qual analisarei a seguir, parte da noção de que a conservação dos direitos da família tradicional motiva politicamente as mães e cidadãs, bem como justifica todo tipo de luta cotidiana da mulher das classes populares, inclusive o trabalho remunerado.
A mulher do povo
Em 24 de maio de 2019, o CMHNTM divulgou fotografias de manifestações num momento de intensa crise política no país. Muitas delas destacam o protagonismo feminino, como a Figura 4, que registra manifestantes na Praça Bolívar, em Lima, em frente ao Congresso Nacional. Apenas a logo do CMHNTM foi adicionada no canto da arte. O registro fotográfico já tem como conteúdo textual as frases escritas nos cartazes e, junto a outros elementos visuais, por si só já transmite a mensagem desejada.

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=824871881220065&set=a.347122862328305. Acesso em 11/03/2024.
#ParaTodoMundoVer Fotografia de uma manifestação em que várias mulheres seguiram cartazes do movimento Con Mis Hijos No Te Metas
Figura 4 Manifestação na Praça Bolívar, Lima, 2019
A fotografia mostra a ação de mulheres: no centro, uma delas improvisa um modo de proteger da chuva a menina que se pode presumir que seja sua filha; outras seis seguram faixas estampadas com as mensagens “Devuelvan la plata al pueblo” e “Mis hijos no son del Estado” sobre a bandeira azul e rosa-bebê; uma delas fala ao microfone, transmitindo uma imagem de liderança. As mulheres assumem um lugar preeminente na composição. No segundo plano, a estátua de Simón Bolívar sobre o cavalo identifica o local onde a cena foi registrada, mas não só. O monumento acrescenta à imagem noções ligadas ao personagem histórico, como força, coragem e liberdade, ideias que não se limitam à ação política dos homens, mas que incluem as mulheres.
Nas faixas, o Estado é apresentado como uma fonte de corrupção, contra a qual é preciso lutar. Por sua vez, a corrupção é entendida tanto como um problema econômico quanto como uma degradação moral.7 As frases erguidas por essas mulheres exigem que o Estado não se interponha entre os pais e seus filhos e que devolva o dinheiro ao povo. Desse modo, o Estado é acusado de ser formado por instituições nas quais o povo não pode confiar, repletas de políticos corruptos e desinteressados pelas suas reais necessidades. Causa que demanda a atenção de todo cidadão e toda cidadã peruana.
Sobre a exigência de que o dinheiro fosse devolvido ao povo, cabe lembrar que, em 2019, o CMHNTM se engajou na campanha contra um acordo de colaboração firmado com a Odebrecht que gerou grande polêmica no país. O Estado peruano havia retido 1050 milhões de Soles proveniente da venda da hidrelétrica de Chaglla pela empresa brasileira a um consórcio chinês a fim de assegurar o pagamento de reparação civil pela empresa. Após o pagamento de dívidas e reparações, o Ministério Público determinou a devolução de 524 milhões de Soles remanescentes da venda à Odebrecht, o que ocasionou uma onda de protestos. Vários parlamentares, muitos dos quais da bancada do partido Fuerza Popular e aliados do CMHNTM no Congresso, questionaram o acordo e tentaram impulsionar projetos para que o valor não fosse restituído enquanto as investigações dos escândalos de corrupção que envolviam a empresa e vários políticos - inclusive do Fuerza Popular, como se constatou posteriormente - não fossem esclarecidos (Melissa BARRENECHEA, 2019). Nas ruas e nas redes sociais, através da hashtag #524Millones, manifestantes pediam que, apesar do acordo de colaboração para investigar os casos de corrupção, o valor não deveria ser restituído a uma empresa corrupta, mas que deveria ser devolvido ao povo peruano.
Longe de apelar à domesticidade feminina, a Figura 4 mostra mulheres atuantes na vida pública, reivindicando direitos como mães, esposas, cidadãs e trabalhadoras, mulheres “do povo” envolvidas tanto na campanha contra reformas educacionais quanto em movimentos anticorrupção. Há aí uma articulação entre as figuras da mãe e da mulher “do povo” na imagem de uma mãe “guerreira” que luta pelo direito de proteger seus filhos e de cobrar do Estado injustiças e crimes contra eles praticados. Essa representação, que enfatiza certas dimensões tradicionais da maternidade ao mesmo tempo que nega outras, como o afastamento da vida política, ganhou expressão através de movimentos como o das Madres de La Praza de Mayo, na Argentina, e das Mães de Acari, no Brasil, entre outros, tornando-se referência de resistência e luta por justiça. De acordo com Jurema Brites e Cláudia Fonseca (2013), a atuação pública dessas mães que sofrem, mas lutam, produz reconhecimento e solidariedade, adquirindo legitimidade justamente por sua condição de mães enlutadas.
É importante salientar que, assim como outras referências simbólicas produzidas por segmentos sociais marginalizados e/ou perseguidos, o conservadorismo também apropria a “mãe que luta” a fim de legitimar sua pauta antigênero, como se também se tratasse de uma resistência contra violências e injustiças. A militância feminina torna-se peça-chave do tradicionalismo moral propagado por discursos como o do CMHNTM. Mas não de qualquer mulher. A adesão buscada é a da mulher “de bem”, entendida como cidadã honesta, mãe de família e cristã, cuja legitimidade é construída como inquestionável, dentro e fora do ambiente doméstico.
Mostrando-se como aquele que, de fato, agrega e dá voz às mulheres, o discurso neoliberal conservador se anuncia como antielitista, antiesquerda e antiminorias, afirmando-se como um movimento de luta pela vida, pela liberdade e pela legitimidade do poder da família - no singular - e que, por isso, representa os interesses das maiorias populares, homens e mulheres.
Flavia Biroli, Maria Machado e Juan Vaggione (2020) argumentam que a participação política das mulheres conservadoras é essencial para combater agendas feministas e fortalecer estratégias que buscam renaturalizar a moral religiosa como ética pública. Os autores afirmam que, à medida que a atuação de grupos cristãos, em especial neopentecostais, na esfera política, se amplia cada vez mais em toda a América Latina, o ativismo conservador feminino adquire um lugar de destaque. Entre as mulheres de melhor condição econômico-social, algumas despontam como líderes e chegam a ser consagradas pastoras e a participar ativamente da vida pública, inclusive de disputas eleitorais. Muitas vezes, filhas ou esposas de pastores são encorajadas a se candidatar, visando ampliar o capital político das famílias que lideram as igrejas. Já entre as mulheres de origem humilde, o ideário neopentecostal e da teologia da prosperidade oferece certo tipo de acolhimento, permitindo-lhes desenvolver formas de sociabilidade, adquirir autoridade moral e enfrentar desafios como a violência doméstica e a pobreza.
Desse modo, o movimento associa a imagem de mulheres “do povo” para que outras mulheres “do povo” se identifiquem e se vejam representadas. As mulheres conservadoras desempenham um papel simbólico importante pois, ao mesmo tempo que reafirmam papéis tradicionais do feminino de acordo com preceitos cristãos, seu ativismo corrobora o argumento de que a igualdade política e civil entre homens e mulheres foi alcançada e que desigualdades econômicas, violência e abusos provêm de atitudes individuais, não de uma estrutura patriarcal. O discurso conservador reconhece lutas feministas do passado, especialmente as de conteúdo liberal, mas deprecia movimentos feministas do presente, caracterizando-os como inúteis, destrutivos e afastados dos interesses da maioria das mulheres.
Em El Libro Negro de la Nueva Izquierda... (MÁRQUEZ; LAJE, 2016) - muito citado em publicações do CMHNTM - Marques e Laje afirmam que a luta pela igualdade legal em relação aos homens, na primeira metade do século XX, foi liderada por mulheres inteligentes e provocou mudanças importantes e necessárias. Ao contrário, os movimentos feministas atuais são acusados de serem teorizados por mulheres ressentidas e mal-intencionadas, não passando de um plano da “nova esquerda” para destruir a família como parte da estratégia para derrubar a superestrutura que sustenta o capitalismo e, por isso, pouco têm a ver com a busca de igualdade para as mulheres.
A afirmação de que, no século XXI, a esquerda substituiu os trabalhadores explorados pelas minorias identitárias e que trocou a luta armada pela doutrinação cultural tem sido repetida por lideranças neoliberais conservadoras. Exemplo disso é que, segundo os argumentos de Marques e Laje, índices como nível de escolaridade feminina, representação parlamentar e mortalidade no parto evidenciam que o desenvolvimento capitalista promove por si só equidade entre homens e mulheres.
Actualmente sabemos gracias a los índices económicos internacionales que aquellos países donde se cuenta con mayor libertad y apertura económica - es decir, con mayores grados de capitalismo de la manera en que lo hemos definido con Friedman -, es donde la mujer puede gozar de más amplios márgenes de libertad e igualdad respecto de los hombres (MARQUES; LAJE, 2016, p. 128).
Ao analisar o tradicionalismo moral no interior da racionalidade neoliberal, Brown afirma que o destronamento do político e o desmantelamento do social em favor do mercado e da tradição demandam a expansão do que denomina “esfera pessoal protegida”. Isso ao argumentar que a ampliação do papel econômico e social da família tradicional não é coincidência de interesses, mas inerente à deslegitimação do Estado e ao desenvolvimento de políticas e subjetividades antidemocráticas no mundo contemporâneo. Desse modo, valores associados à moralidade cristã e à família tradicional, tais como “hierarquia, exclusão, homogeneidade, fé, lealdade e autoridade - ganham legitimidade como valores públicos e moldam a cultura pública conforme se juntam com o mercado para deslocar a democracia” (BROWN, 2019, p. 142). Ao partir dessa dupla privatização, a nação é entendida como empresa competitiva e, ao mesmo tempo, lar a ser protegido.
A Figura 4 mostra as mulheres “do povo” como cruciais na denúncia de um Estado cada vez mais deslegitimado, contribuindo para produzir uma versão privatista da legitimidade política. Nela, os cartazes reivindicam a educação dos filhos como direito exclusivo dos pais e como parte do direito à liberdade, interesse dos cidadãos em geral, mas, especialmente, das mulheres, vistas como responsáveis pelos filhos, pela família e, por conseguinte, pela nação.
Mas não é só nas marchas que o Coletivo identifica a força e as virtudes da mulher do povo; é também no exercício de suas responsabilidades cotidianas, que assim representa as mulheres/mães trabalhadoras de classe popular. Em uma postagem de 10 de março de 2019 (Figura 5), por exemplo, a fotografia de uma mulher limpando vidraças pichadas foi utilizada pelo CMHNTM para exaltar as qualidades da mulher peruana como mãe e trabalhadora, isto é, como a mulher que, pelo bem de sua família, enfrenta a dupla jornada de trabalho de cuidado e sustento dos filhos, tendo ou não um homem no papel de marido e pai ao lado.

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=780793035627950&set=a.347122862328305. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Fotografia de uma mulher uniformizada trabalhando na remoção de pichações feitas sobre uma parede de vidro
Figura 5 Mujeres valientes y aguerridas
A arte traz a fotografia de uma mulher limpando pichações sobre uma vidraça, feitas provavelmente no dia 8 de março, entre as quais é possível identificar algumas frases que se tornaram lemas em manifestações de movimentos de mulheres e movimentos feministas como “ni una menos” e “sangro por mi hermanas”. A fotografia não mostra o rosto da mulher. Suas expressões faciais, nesse caso, não são decisivas para comunicar a mensagem pretendida. Esta mulher retratada de costas enquanto limpava as pichações, uniformizada, de cabelos presos, corrigindo os estragos feitos por outras mulheres, as feministas, representa a mulher trabalhadora. Ela não se distrai nem para posar para a fotografia. Retratada desta maneira, simboliza a trabalhadora mãe de família, uma entre as muitas mulheres peruanas das camadas populares que, segundo o conteúdo textual do post, saem diariamente de casa para trabalhar a fim de sustentar seus filhos. Ela não se abala com chiliques e “pirraças” feministas e segue realizando sua tarefa. Desse modo, embora o corpo da mulher feminista esteja ausente na imagem, esta serve como base para a comparação por meio de elementos que apelam para o antagonismo entre a feminista e a mulher/mãe trabalhadora.
Como salienta Barthes (1990[1961]), além da legenda, a conotação depende de uma série de associações a gestos, objetos e disposição de elementos iconográficos nem natural nem artificial, mas culturalmente compartilhados e, portanto, históricos. Na fotografia da mulher removendo as pichações, vários significados são transmitidos para além daquilo que o registro mostra porque nele existem códigos compreensíveis para quem observa. O uniforme, o gesto de limpar, a concentração nesse movimento e os cabelos presos da mulher estão associados às noções de dever, ordem, trabalho. Ao mesmo tempo, as pichações são associadas a vandalismo, desordem e imaturidade.
O conteúdo textual do post reforça ainda mais a oposição entre a infantilidade da feminista e a maturidade da mulher/mãe trabalhadora: “Mientras el feminismo destruye el concepto de mujer y su feninidad, mujeres valientes y aguerridas salen día a día a luchar por sus hijos y su familia, incluso si esto implica limpiar las pintas de los berrinches feministas”.8 Ao declarar que a valentia é uma qualidade das mulheres trabalhadoras das classes populares e não das feministas, o texto afirma que o feminismo não é capaz de representá-las, ao contrário, as ameaça, visto que destrói o conceito de mulher e de feminilidade.
A maneira como o CMHNTM representa a mulher do povo conecta as mulheres que enfrentam uma dupla jornada de trabalho, o doméstico não remunerado e o trabalho fora, muitas vezes mal remunerado, com aquelas que saem às ruas debaixo de chuva (Figura 4) para protestar por seus direitos como cidadã que paga seus impostos, trabalhadora, mãe e cristã. São a essas mulheres que o discurso conservador contrapõe a imagem da feminista, construída discursivamente como uma minoria histérica, imoral e abortista e, por essas razões, incapaz de se identificar com as mulheres do povo.
A feminista
O contraste entre as imagens da mulher/mãe/cristã, entendida como representante das maiorias populares, e da mulher feminista, nos posts do CMHNTM, é notável. Enquanto fotografias documentais, algumas desprovidas de legendas, transmitem as qualidades da primeira, os posts que representam a feminista recorrem a recursos iconográficos próprios dos memes, como desenhos, símbolos e palavras de efeito, abordando-a de modo caricatural. Para retratá-la de forma negativa, são empregadas estratégias de conotação que vão do apelo à vulgaridade até a encenação de atos violentos, disseminando medo, estereótipos e preconceitos.
Em 1 de abril de 2019, o CMHNTM publicou uma variante antifeminista de um meme que circulou em diversas versões sobre a diferença entre igualdade e equidade (Figura 6). Na versão original, o meme traz três personagens masculinos, um homem adulto, um menino maior e um menor, todos tentando assistir a um jogo de beisebol com o auxílio de caixotes que servem para garantir que estejam altos o suficiente para enxergar acima de uma cerca. Na coluna que representa o igualitarismo, a distribuição de um caixote para cada um não permite que o menino menor veja a partida. Na segunda, representando a equidade, a distribuição de caixotes de acordo com a altura de cada personagem permite que todos enxerguem o jogo. Outras variantes incluem uma terceira coluna com representações da “realidade” - onde o homem fica com os três caixotes para si - o “socialismo” -, onde as pernas dos personagens são cortadas e nenhum deles enxerga o jogo - “liberação” -, onde não há a cerca e todos assistem à partida livremente - “revolução”, onde o menino menor mata os outros dois personagens e empilha os caixotes sobre os corpos para assistir ao jogo; entre outras versões.9

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=792256761148244&set=a.347122862328305. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Meme de três personagens tentando assistir a um jogo de beisebol atrás de uma cerca. Na primeira situação, todos estão sobre uma caixa. Na segunda, todos conseguem assistir ao jogo, pois a criança menor está sobre duas caixas, a maior sobre uma. Na terceira, a mulher está sobre as três caixas, esmagando a criança menor
Figura 6 Feminismo versus igualdade
Na versão postada pelo CMHNTM, cabelo rosa-choque e um símbolo do feminismo foram acrescentados sobre o desenho do homem, transformando-o em uma mulher feminista. A substituição é tosca e todas as características do desenho continuam remetendo a um corpo masculino. Na terceira coluna, a feminista toma os três caixotes para si, impedindo o menino maior de ver o jogo e matando o menor esmagado sob os caixotes. Apesar de a imagem ser suficientemente explícita, sobre ela é acrescentada a palavra “niños”, para não deixar dúvida de que as crianças são as mais prejudicadas pelo feminismo. O conteúdo textual do post declara: “El feminismo nunca ha buscado igualdad, por el contrario, busca asesinar a niños y crear una muleta legal para tomar lo que no ha podido lograr por méritos propios”.10 A imagem e o texto associam o feminismo ao egoísmo e ao assassinato de crianças, desvinculando-o de noções de igualdade e equidade, e lhe atribuem uma imagem cruel e monstruosa.
Segundo Júlia dos Anjos, para deslegitimar falas de mulheres que se posicionam contra o status quo e isolá-las do restante das mulheres, páginas antifeministas do Facebook recorrem ao “senso de urgência controlada”, caracterizado pela autora como um equilíbrio entre: 1) estimular a raiva e, com ela, o desejo de agir imediata e efetivamente contra tudo considerado execrável no feminismo; 2) provocar reações como riso e descrédito contra tudo visto como atitudes ridículas de mulheres fracassadas. Ao identificar as feministas como monstros políticos que rompem pactos sociais e agem em benefício próprio a fim de impor, “como déspotas, suas práticas a todos e exterminar, como ditadores, os que pensam diferente”, não é de estranhar que o discurso antifeminista utilize a expressão “feminazi” (ANJOS, 2022, p. 11).
Na argumentação da centralidade da linguagem na guerra cultural, Marques e Laje defendem o uso de palavras como “feminazis” - em referência ao ódio político contra opositores segundo critérios sexuais - e “hembrismo” - para ressaltar o suposto caráter de inversão do machismo. Para os autores, empregar o mesmo nome utilizado por “aquellas mujeres que lucharon siglos atrás por causas nobles” para se referir às “nuestras feministas radicales de hoy” acarreta o risco de gerar uma simpatia ingênua a um movimento cuja continuidade parece ser apenas o nome (MARQUES; LAJE, 2016, p. 151).
A articulação entre a retórica liberal de direitos à liberdade e à expressão, o apelo aos valores cristãos e da família, e o avanço da extrema direita não são um fenômeno exclusivamente latino-americano. Contudo, a associação entre feminismo e “nova esquerda”, bem como feminismo e “assassinato de crianças”, vem se intensificando à medida que a pauta do direito ao abordo, relativamente recente na região, se expande. Ao propagar a ideia de que a “ideologia de gênero” é o modo como a “nova esquerda” pretende impor uma espécie de “pesadilla distópica, mezcla de libertinaje y estatismo asfixiante” (Paulo RAVECCA et al., 2022, p. 7), atores e movimentos autoidentificados como pró-vida e pró-família caracterizam o aborto como algo impossível de ser reivindicado como um direito.
Imbricadas, a perspectiva cristã de maternidade e a legalização de uma estrutura familiar que se tornou padrão normalizador naturalizam determinado ideal de “mãe” ao mesmo tempo que condenam o aborto como crime/pecado contra as leis humanas e de Deus. O Peru tem uma das legislações mais restritivas da América Latina em relação ao aborto. Criminalizado desde o Código Penal de 1863 até os dias atuais, uma exceção foi estabelecida em 1924 para casos em que a interrupção da gravidez é o único modo de salvar a vida da gestante. Apesar dos debates ao longo da década de 1980 sobre a ampliação da descriminalização do aborto, principalmente em casos de estupro, a única exceção mantida no Código Penal de 1991 foi a já estabelecida na primeira metade do século (Andrea Carrillo FREY, 2021).
A legalização da interrupção voluntária de gravidez até a 14ª semana, na Argentina, em 2020, deu novo fôlego a tentativas de flexibilização do aborto no Peru, bem como a reações a qualquer tipo de mudança. Em 2022, o Congresso Peruano rejeitou o Projeto de Lei 954, apresentado pela deputada Ruth Luque, que previa despenalizar o aborto em caso de gestação decorrente de estupro. No ano seguinte, o mesmo Congresso aprovou o PL 785, apresentado por Milagros Aguayo - que vimos discursando com a camiseta do CMHNTM na Figura 3 -, que reconhece os direitos do concebido. A vitória mostra a força do conservadorismo no Congresso peruano, embora a lei promulgada em 2023 não faça mais do que reafirmar o conteúdo do inciso I do 2º artigo da Constituição de 1993, que estabelece que toda pessoa tem direito “a la vida, a su identidad, a su integridad moral, psíquica y física y a su libre desarrollo y bienestar. El concebido es sujeto de derecho en todo cuanto le favorece”11 (PERÚ, 1993, p. 9).
O CMHNTM reagiu à legalização do aborto na Argentina, alertando para os perigos desse avanço em outros países. Em 10 de dezembro de 2020, no Facebook e no Twitter, circulava um desenho12 de uma ativista de lenço verde entregando uma faca nas mãos de uma gestante (Figura 7), acompanhada de uma mensagem textual afirmando que “toda vida es un milagro, un don de Dios con una dignidad inherente y absoluta” e que “los asesinos orquestados tras falsos movimientos sociales, inoculados por un orgullo que ciega y una necedad que mata pretenden que todos seamos cómplices de este abuso con nuestro silencio e indiferencia”, concluindo que “el amor que late en nuestro corazón es más fuerte que cualquier campaña orquestada mundialmente”.13

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=1255013971539185&set=a.335334723507119. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Desenho de uma mulher grávida ajoelhada enquanto outra mulher, de pé, entrega-lhe uma faca apontada na direção do feto, o qual pode ser visto através do ventre transparente da gestante
Figura 7 Legalização do aborto na Argentina
Na imagem, a mulher que segura a faca é identificada como uma militante feminista por elementos como o lenço verde que leva no pescoço - o qual se tornou símbolo do movimento pelo aborto legal e seguro na Argentina, inspirado no lenço branco das Madres de La Plaza de Mayo - e como o cabelo curto, raspado nas laterais e pintado de rosa, assim como seus pelos da axila. Seu olhar é macabro e sua atitude é opressora. Ao entregar uma faca nas mãos da mulher grávida, a feminista parece tentar convencê-la a matar o feto. A gestante, ajoelhada, parece suplicar pela vida do filho que carrega no ventre. O ventre é transparente, mostrando um feto desenvolvido, e dele emana uma forte luz.
A imagem constrói uma cena chocante e absurda: uma gestante obrigada a abortar contra a vontade, acuada diante da imposição de uma feminista que parece ter prazer em assassinar um inocente. Contraditoriamente, se nas imagens analisadas até aqui a figura da mãe foi representada pelo CMHNTM por mulheres fortes e corajosas, empenhadas em proteger seus filhos, a mãe desta cena parece uma mulher frágil. A imagem remete ao arraigado estereótipo da mulher indefesa e apela a quem se choca com a cena que tente salvar não só a criança, mas também essa mulher das ameaças do feminismo.
Nem sempre, porém, as feministas parecem tão ameaçadoras no discurso antifeminista. Às vezes, elas aparecem como depravadas e ridículas, mas sempre demonstrando a incompatibilidade entre feminismo e mulheres “de bem”. De modo esquemático, um post de 19 de fevereiro de 2019 (Figura 8) traz uma arte que contrapõe duas fotografias às quais se acrescentaram textos e emojis a fim de acentuar o caráter didático da composição visual. De um lado, uma mulher com um bebê no colo é identificada com a palavra “femenina” e vários emojis com símbolo de “joinha”; do outro, duas mulheres nuas da cintura para cima são identificadas com a palavra “feminista” e emojis de estupefação. Ao associar feminilidade e maternidade, a arte atribui um valor positivo à mulher que tem o bebê no colo e, ao mesmo tempo, agrega um valor negativo à fotografia que representa o feminismo.

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=770293943344526&set=a.335334723507119. Acesso em 11/03/2024
#ParaTodoMundoVer Arte digital com a fotografia de uma mulher com uma bebê no colo, sobre a qual há a palavra “feminina” e emojis com o símbolo de “joinha”; ao lado, outra fotografia de duas mulheres identificadas com a palavra “feminista”, sobre a qual há emojis com expressão assustada
Figura 8 Feminina versus feminista
A fotografia que, nessa arte, simboliza o feminismo, circula na internet pelo menos desde 201414 e mostra ativistas do Coletivo FEMEN, fundado em 2008, na Ucrânia, e atualmente sediado na França. Os seios das mulheres estão desfocados, remetendo à ideia de que a cena é imprópria e exige censura. Tal ideia é reforçada pelos emojis com expressão de perplexidade, o que indica que a manifestação daquelas mulheres parece vulgar e irracional. Além do mais, a mensagem em inglês “no god in my vagina”, pintada sobre o tronco de duas mulheres europeias, ao mesmo tempo que desafia a religião, amplia a distância entre suas pautas e métodos de manifestação e as necessidades da mulher peruana com a qual o CMHNTM busca se conectar.
Ao realizar uma busca por outras publicações on-line da fotografia da mulher com o bebê no colo, não encontrei outras ocorrências nem no Google Lens, nem no TinEye ou no Yandex. Ainda que não seja possível afirmar que se trate de uma mulher e de uma criança peruanas, tampouco é possível descartar essa alternativa. Na fotografia, o cabelo preso da mulher destaca a expressão do seu rosto, que lança um olhar doce e sereno para o lado. A criança em seu colo - a qual, devido ao enfeite que tem na cabeça, pode-se presumir que seja do sexo feminino - olha na mesma direção. Os olhares e os sorrisos da mulher/mãe e da bebê são singelos e transmitem uma mensagem de delicadeza para a composição.
Enquanto a mensagem textual do post indaga “¿Crees que la verdadera esencia de la mujer radica en ser femenina o feminista?”, a arte responde a pergunta por meio da atribuição de elementos iconográficos positivos para a primeira e negativos para a segunda, de modo que texto e imagem se complementam. Na defesa da ideia de que há uma essência feminina, o CMHNTM apela novamente para a noção de que a mulher “verdadeira” é somente aquela identificada à maternidade, contrastando-a à feminista, vista como antipopular, antinacional, anticristã e antimaterna.
Considerações finais
Vimos, neste artigo, que o Coletivo peruano Con Mis Hijos No Te Metas - como outros “grupos de pressão” que formam blocos articulados com lideranças de extrema direita a favor de uma agenda moral (GUADALUPE; LEÓN, 2022) -, além de promover manifestações nas ruas, vem utilizando as redes sociais como estratégia para difundir uma visão do mundo conservadora e angariar apoio popular. Se a oposição ao Novo Currículo Nacional proposto pelo MINEDU justificou sua formação, com o passar dos anos, seus posts no Facebook se destinaram ao combate contínuo a tudo que pudesse ser identificado como “ideologia de gênero”, vista como um perigo para todos, mas, principalmente, para as crianças.
Embora não tenha sido meu objetivo analisar a imagem das crianças pelo CMHNTM, para concluir este artigo, considero relevante acrescentar que o grupo as entende e representa como uma geração ameaçada, que deve ser protegida da crise moral instalada no mundo contemporâneo. Pais e mães são vistos como focos de resistência contra ameaças vindas de diversas partes, seja do Estado, organismos internacionais, ONGs, produção acadêmica ou meios de comunicação, cujas ações escusas levariam a um cenário distópico de incitação ao aborto, perseguição religiosa, homossexualização e abuso de crianças, assim como de desintegração da família.
Ao afirmar que a motivação central da vida das mulheres é a proteção da família - tradicional e normativa - e dos filhos, ameaçados -, vimos que a mulher adjetivada pelo grupo como “verdadeira” é apenas aquela que se enquadra no perfil de mãe e cristã, vista como representante das maiorias populares num país de forte tradição conservadora. Por meio da análise de artes digitais postadas pelo CMHNTM no Facebook, vimos que as três categorias de mulher identificadas neste artigo - a mãe, a mulher do povo e a feminista - delineam o perfil das aliadas na luta contra a “ideologia de gênero” e das inimigas. Desse modo, a incompatibilidade entre as pautas feministas e as necessidades das “mães responsáveis” e “cidadãs de bem” deveria ser defendida também pelas próprias mulheres. Tais representações não só refletem, mas procuram moldar o imaginário coletivo sobre o papel da mulher nas lutas políticas e sociais, reforçando papéis tradicionais e estereótipos de gênero














