Notas introdutórias
A história da sociedade brasileira é marcada por profunda desigualdade social, que se reflete na escolarização de crianças, jovens, adultos e idosos de diferentes regiões. Para os indivíduos pertencentes aos meios populares, a permanência na escola até o ingresso no Ensino Superior é fruto de um processo de escolarização árduo1, que exige grande esforço da família e do estudante para vencer os obstáculos impostos pela escassez econômica e pelo baixo capital cultural familiar (Bourdieu, 2010a).
Vale ressaltar que, segundo Bourdieu (2010a), o capital cultural compreende o conjunto de recursos, competências e apetências disponíveis em matéria de cultura considerada dominante, e que torna as diferentes formas de saber dignas ou não de legitimação2. Contudo, o capital cultural, por si só, influencia, mas não garante êxito nas trajetórias escolares. Ao analisar as diferenças no desempenho escolar entre crianças dos meios populares, Lahire (1997) mostra que há dinâmicas familiares internas capazes de explicar as variações de aproveitamento escolar, inclusive na tentativa de superar desvantagens educacionais, econômicas, sociais e culturais.
Tais dinâmicas familiares são diversas e sofrem influência da classe social, do momento histórico e do meio. A participação mais efetiva das mulheres no mercado de trabalho e nos espaços públicos, a partir dos anos 1970 (Guedes; Alves, 2004), aumentou a necessidade de buscar outras pessoas para auxiliar no cuidado com os filhos, principalmente entre os mais pobres. Destacam-se, nesse papel, os avós, que oferecem apoio afetivo e emocional em momentos de crise ou dificuldades familiares. Os mais velhos também têm contribuído economicamente para o sustento de muitas famílias, que dependem de seus membros aposentados para sobreviver (Bragato et al., 2023; Rabinovich; Bastos, 2019; Camarano, 2020).
Partindo dos questionamentos sobre o percurso escolar das crianças e jovens de camadas populares cuidadas por outros agentes socializadores diferentes dos pais, a pesquisa3 aqui apresentada teve como objetivo principal compreender quais foram as principais estratégias e mobilizações dos avós cuidadores que influenciaram a longevidade escolar e a inserção de seus netos jovens no Ensino Superior público.
O levantamento bibliográfico, realizado em bases de dados nacionais e internacionais, evidenciou a escassez de investigações sobre as trajetórias e mobilizações escolares dos estudantes de camadas populares criados e/ou cuidados por seus avós, conforme demonstrado na seção sobre procedimentos metodológicos. Assim, a pesquisa que originou este artigo trouxe contribuições relevantes para o campo da Educação ao abordar um tema pouco estudado, mas que provoca reflexões sociológicas, pedagógicas e históricas sobre família e longevidade escolar nas camadas populares.
Práticas educativas familiares: a escolarização das crianças e jovens nas camadas populares
No Brasil, as investigações sobre a relação família-escola ganham maior visibilidade a partir da década de 1970, o que nos sugere uma renovação nos trabalhos de pesquisa que se debruçam sobre o entendimento das práticas educativas familiares nos meios populares. Por estudantes de camadas populares, entendemos aqueles indivíduos oriundos de famílias com limitados níveis de escolarização, baixo padrão de renda, vinculados a ocupações que exigem pouca qualificação técnica (Souza, 2014; Viana, 2014), ou seja, que se distanciam da herança dos capitais (econômico, social, cultural e simbólico) descritos por Bourdieu (2010b).
Ao longo da vida, os estudantes de camadas populares e suas famílias enfrentam desafios, muitos deles na forma de exclusão e discriminação social. Sobre o preconceito contra os grupos familiares com configurações distintas da nuclear ou biparental, Romanelli (2003) nos traz que as famílias mais pobres tendem a ser qualificadas como desorganizadas e “desestruturadas”. Segundo o autor, tal interpretação, ancorada em uma postura etnocêntrica e de viés classista, toma como referência os modelos familiares das camadas médias e considera as famílias fora desse padrão como negligentes e pouco envolvidas com a escolarização dos filhos.
A respeito desse envolvimento, com base nos escritos de Bourdieu (2010b; 2008) a respeito das disposições e estratégias de investimento escolar de acordo com a classe social, Nogueira e Nogueira (2002) afirmam que as classes populares tendem a empreender um investimento relativamente baixo no sistema de ensino dos filhos, pois as chances de sucesso são reduzidas, devido aos insuficientes recursos econômicos e culturais que dispõem para auxiliar no bom desempenho escolar. Os estudos de Bourdieu e Passeron (1992) constatam, também, uma perspectiva de reprodução cultural na escola capitalista, isto é, “as pesquisas iniciais dos autores, realizadas ainda na década de 1960, [...] sustentam que a origem social dos alunos define as possibilidades de escolarização e determina os modos de vida e de trabalho dos sujeitos” (Carvalho; Vilela; Zago, 2003, p. 18).
Contudo, nem todos os estudantes oriundos dos meios populares estão fadados ao fracasso. Muitos têm bom desempenho escolar e concluem a escolarização básica. Outros chegam à universidade. Para a discussão sobre o sucesso escolar nos meios populares, julgamos importante conhecer as diversas formas de socialização relacionadas às condições de existência, às relações sociais e à história desses grupos (Thin, 2006), inclusive no que se refere à mobilização escolar familiar, assim descrita por Viana (2007). Segundo a autora, inspirada em Lahire (1997), Van-Zanten e Duru-Bellat (1999) e Portes (2014), atitudes educativas que visam a intervenções práticas (controle metódico das atividades escolares, escolha dos estabelecimentos de ensino e das carreiras escolares, vigilância e encaminhamento das atividades de reforço e dos deveres escolares, comparecimento às reuniões pedagógicas e conselhos de classe etc.) são capazes de oferecer apoio moral e afetivo às crianças e aos jovens em seus percursos escolares, e de contribuir para o sucesso e a longevidade escolar.
Nesse sentido, ao considerarmos que as práticas dos indivíduos têm ligação com o patrimônio de disposições incorporadas ao longo de seus percursos, reconhecemos que há dinâmicas familiares internas capazes de explicar as variações de aproveitamento escolar, inclusive na tentativa de superar desvantagens educacionais, econômicas, sociais e culturais (Lahire, 1997). Desse modo, a pluralidade dos contextos vivenciados por esses indivíduos impacta, de diferentes formas, no processo de escolarização (Lahire, 2002; 2004).
Os resultados da pesquisa realizada por Lahire (1997) na década de 1990, demonstram, portanto, que indicadores sociológicos como origem social, meio social e grupo social, em muitos casos considerados causas de sucesso e de fracasso escolares, são elementos que influenciam as trajetórias escolares, mas não as determinam, pois grupos familiares do mesmo meio social possuem configurações particulares. Assim, segundo o autor, muitas famílias com baixo capital cultural e econômico interferem positivamente na escolarização dos filhos, ao adotarem práticas educativas que criam disposições para comportamentos valorizados pela escola (Nogueira, 2013). Desse modo,
[...] algumas famílias, apesar do seu baixo capital cultural, favorecem a escolarização dos filhos indiretamente, por meio da criação de um mundo ordenado, no qual impera o respeito pela autoridade (inclusive dos professores), a definição clara de obrigações (incluindo a realização dos deveres escolares), o estabelecimento de horários para a realização de atividades (entre as quais, os estudos), o controle sobre as relações de amizade, entre outros. Essas famílias, mesmo que de forma não inteiramente intencional ou consciente, preparariam seus filhos para atenderem certas expectativas próprias ao ofício de aluno: disciplina, bom comportamento, respeito às regras, perseverança, cuidado na apresentação das atividades escolares etc. (Nogueira, 2013, p. 9).
Também há famílias dos meios populares que supervalorizam a escolaridade dos filhos e a colocam como finalidade essencial por meio de um investimento pedagógico que pode tomar formas mais ou menos rigorosas e sistemáticas. Dentre elas, Lahire (1997) destaca a participação familiar constante na escola, a colaboração nos deveres de casa, o incentivo à realização de atividades extracurriculares, a cobrança do desempenho escolar, entre outros.
Sobre as práticas educativas nas camadas populares, ainda é pertinente destacar a presença de diversos indivíduos que têm contribuído para o processo de socialização e escolarização de crianças e jovens, como tios, avós, vizinhos e primos. Essa colaboração tem desempenhado importante papel no cuidado da criança e do adolescente, bem como no acompanhamento escolar, na participação nas reuniões escolares e no controle dos tempos de estudos e lazer.
Embora, no Brasil, haja pouco reconhecimento dos avós como membros que agregam valor à família e que são protagonistas na escolarização dos netos (cuidados ou criados por eles), diversos estudos têm demonstrado que sua colaboração pode se prolongar até tardiamente na vida dos netos, o que contribui fortemente para a longevidade escolar (Carvalho, 2023; Freitas, 2023; Rosa; Carvalho; Coutrim, 2022; Cardoso, 2011; Dias; Hora; Aguiar, 2010; Coutrim et al., 2007). Esse é o caso da pesquisa apresentada neste artigo, como veremos a seguir.
Os avós e sua participação nas famílias contemporâneas
Com o aumento da expectativa de vida, as gerações têm tido a oportunidade de conviver por mais tempo. Além da transmissão das vivências, na convivência intergeracional entre avós e netos, podemos observar o desejo de compensação daquilo que não puderam oferecer aos seus filhos e/ou que os filhos estão impedidos de ofertar aos seus netos. Os resultados da investigação de Coutrim (2007) sobre os idosos trabalhadores informais demonstra que, na impossibilidade de os pais arcarem com oportunidades de estudo, passeios e aquisição de bens e alimentos para crianças e adolescentes da família, os avós buscam suprir tais necessidades.
Os avós denominados guardiões ou cuidadores (principais responsáveis pelas crianças e jovens sob seus cuidados) também estão presentes na escolarização dos netos, constroem estratégias educativas diretas ou indiretas e lançam mão de táticas que contribuem para o processo educativo. Nesse ponto, julgamos importante deixar claro que, com base em Bourdieu (2010b) e em Lahire (1997), por estratégias educativas, entendemos as diversas práticas e técnicas cujo objetivo é alcançar o sucesso escolar (disciplina, bom comportamento, respeito às regras, acompanhamento das atividades escolares, vigilância dos horários destinados aos estudos). Além da ordem moral doméstica, algumas famílias recorrem a formas de autoridade com os filhos, pois a escola é um lugar regido por regras de disciplina. Nesse sentido, Lahire (1997) afirma que essas famílias exercem a autoridade por meio da vigilância e da punição dos filhos, enquanto outras utilizam o diálogo.
Para melhor compreendermos a forma de atuação dos avós cuidadores, também cremos ser essencial acrescentar, à discussão sobre estratégias educativas, o conceito de tática e fazer uma distinção entre os dois: para Certeau (2012), a estratégia é o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um indivíduo traça um caminho a ser percorrido. A tática acontece de maneira a se lançar em uma brecha: “ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ‘ocasiões’ e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas” (Certeau, 2012, p. 94-95).
Ainda segundo Certeau (2012), a tática é o aproveitamento das ocasiões, sem grande planejamento. As estratégias, por outro lado, requerem planificação, organização prévia. Desse modo, em se tratando das famílias dos meios populares, em alguns casos, elas podem até mesmo desconhecer os caminhos necessários que levam a prole à longevidade escolar, mas também buscam possibilidades que aparecem no percurso para atingir esse objetivo.
A pesquisa de Coutrim et al. (2007) demonstra que há um esforço por parte dos avós em contribuir com o processo educativo dos netos, apesar de nem sempre atuarem de forma estratégica. O mesmo pode ser observado em estudos que ressaltam a participação recorrente de outros cuidadores que auxiliam as crianças nas tarefas diárias, como tios e tias, vizinhos e primos mais velhos (Mainetti; Wanderbroocke, 2013; Azambuja; Rabinovich, 2013; Osório; Sinésio Neto; Souza, 2018).
A atuação dos avós como cuidadores em tempo integral dos netos não se restringe ao Brasil. Ao analisar a literatura publicada entre 2000 e 2022 em países latino-americanos, como México, Argentina e Chile, sobre o papel dos avós na vida e na educação escolar dos netos, Freitas (2023) concluiu que os avós com baixo nível de escolaridade não conseguem auxiliar diretamente os netos em suas tarefas escolares, mas buscam a ajuda de terceiros. Isso demonstra o quão valiosos são os esforços dos mais velhos na escolarização dos netos.
Essas estratégias e táticas educativas desenvolvidas pelos avós não estão restritas aos netos em idade escolar e à colaboração nas atividades pedagógicas, como demonstrou a pesquisa realizada por Dias e Silva (2003), com 100 universitários com idade média de 21 anos, distribuídos em diferentes cursos da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os resultados revelaram que, além do apoio emocional, os netos contaram com a ajuda financeira de seus avós. Conforme mencionado, apesar de a convivência entre avós e netos impactar na vida de crianças e jovens, as pesquisas de Dias e Silva (2003) e de Carvalho (2023) ainda são exemplos raros da discussão sobre o papel dos avós guardiães na vida dos netos adultos.
A investigação apresentada neste artigo traz mais elementos para a discussão sobre a participação dos avós na vida dos netos, mas, antes de apresentarmos os resultados, consideramos importante explicar os passos da pesquisa que nos levaram até eles.
Procedimentos metodológicos
A pesquisa, de cunho qualitativo, teve como campo de investigação a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG - Campus Divinópolis), única universidade pública4 na região centro-oeste mineira que oferta diversas graduações. A escolha por essa instituição se pautou em seu prestígio e boa reputação, uma vez que assume, hoje, posição de relevante universidade pública do Estado5.
A busca sistemática da bibliografia de base sobre o tema foi feita em diferentes portais acadêmicos. O levantamento bibliográfico foi feito no Banco de Teses e Dissertações da Capes, no Portal de Periódicos da Capes e na plataforma Scielo. O portal Google Acadêmico foi utilizado como recurso extra para encontrar os trabalhos indisponíveis nas plataformas citadas. Utilizamos, como descritores, os termos “relações intergeracionais” and “avós e netos”; “avosidades”; “netos criados por avós”; “relações intergeracionais”; “avós e escolarização dos netos”. Ao aplicarmos os filtros da grande área do conhecimento Ciências Humanas e da área do conhecimento Educação, chegamos a 42 trabalhos, mas 13 foram descartados por serem anteriores à Plataforma Sucupira e estarem indisponíveis em outras bases de dados. Após a seleção e leitura criteriosa dos textos, foi aplicado um questionário online a todos os estudantes do 1º período dos 17 cursos ofertados na UEMG (Campus Divinópolis), com perguntas fechadas sobre perfil socioeconômico, trajetória escolar na Educação Básica e relação com os avós cuidadores. Acreditamos que os percalços causados pelo período atípico (ensino remoto em decorrência da pandemia de COVID-19) tiveram impacto no estudo. Contudo, obtivemos um número representativo de respondentes por meio desse instrumento de coleta de dados aplicado entre julho e agosto de 2020. Do total de 720 questionários enviados, tivemos 279 respostas.
Como critérios de seleção para as entrevistas, definimos: ter sido cuidado ou criado por avós (período integral ou acima de oito horas diárias); ter renda per capta de até três salários mínimos; ingresso em curso de alto e baixo prestígio, considerando a concorrência na instituição de Ensino Superior; e conviver com os avós cuidadores6. Optamos por diversificar a amostra ao selecionar jovens que frequentam cursos de alto prestígio e outros matriculados em cursos de baixo prestígio com o objetivo de encontrar diferenças mais ou menos sutis entre o capital cultural dos avós e as práticas educativas adotadas por eles, que influenciaram na longevidade escolar dos netos.
As entrevistas semiestruturadas foram feitas com quatro estudantes do sexo feminino e suas avós considerando aspectos da trajetória familiar e escolar pela Plataforma Teams, utilizada no ensino remoto da UEMG, e duraram de 40 minutos a uma hora. Não era nosso objetivo restringir a pesquisa a estudantes do sexo feminino, mas nenhum rapaz e nenhum avô se prontificaram a dar seus depoimentos. Salientamos que ouvir os relatos das estudantes e de suas avós cuidadoras nos permitiu ampliar a análise das práticas educativas desenvolvidas nessa relação, ao discutirmos as relações intergeracionais no processo educativo nesses arranjos familiares, cujos avós são os principais provedores.
Durante as entrevistas, realizadas virtualmente, em consequência das exigências de distanciamento social durante da pandemia de COVID-19, todas as avós precisaram da presença das netas: foi necessário que elas auxiliassem no posicionamento da câmera, no acesso à plataforma virtual e na repetição e/ou explicação de alguma pergunta que as avós não tivessem entendido. Todavia, as estudantes não intervieram nas entrevistas, apenas acompanharam os relatos, sem manifestar qualquer discordância ao que foi pontuado pelas avós.
Após a transcrição e leitura dos depoimentos transcritos, a última etapa da pesquisa consistiu no tratamento do material e na triangulação das fontes com base na análise do conteúdo (Bardin, 1977) e orientada pelas categorias: relações intergeracionais entre avós e netas; práticas educativas que possibilitaram a longevidade escolar; e convivência entre avós e netas ao longo da vida.
Participantes da pesquisa
A partir dos 279 questionários respondidos pelos participantes da pesquisa, verificamos que 26 estudantes informaram ter sido criados ou cuidados por seus avós durante mais de oito horas diárias. Considerando os critérios de seleção, desse total, foram escolhidas quatro estudantes para as entrevistas e os relatos revelaram que, em três configurações familiares, haviam estratégias claramente definidas para que as netas chegassem à universidade e, no caso de um núcleo familiar, as “argúcias no tempo” (Matos, 2011, p. 5) conduziram a estudante no caminho. Apresentamos, a seguir, as estudantes e suas avós participantes das entrevistas:
Quadro 1: Dados gerais sobre as estudantes e avós entrevistadas7
| Estudante | Idade | Curso | Avó | Idade | Tempo de cuidado na infância |
Ocupação | Escolaridade da avó |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Clarissa | 22 anos | Gestão Pública | Sra. Marlena | 67 anos | Tempo parcial | Do lar | 4ª série (5º ano) |
| Ana | 22 anos | Química | Sra. Leila | 71 anos | Tempo integral | Professora aposentada |
2º grau (Ensino Médio) Magistério |
| Clara | 19 anos | Psicologia | Sra. Maria | 60 anos | Tempo parcial | Empregada doméstica |
3ª série (4º ano) |
| Mariana | 20 anos | Psicologia | Sra. Belinha | 66 anos | Tempo integral | Do lar | 5ª série (6º ano) |
Fonte: Carvalho (2023)
Em relação às características socioeconômicas e culturais das estudantes e suas trajetórias escolares, dos quatro casos analisados, Ana pode ser classificada como de classe média, considerando seu acesso a certos recursos culturais desde a infância (computador, coleção de livros infantis, curso extracurricular, avó professora das séries iniciais, frequência em escola privada). As outras três universitárias são pertencentes aos meios populares e seus percursos se assemelham em alguns aspectos.
Clara, mesmo com uma renda familiar característica de camadas populares, teve a oportunidade de concluir a Educação Básica em escola pública, quase em sua totalidade, sem precisar trabalhar (no 3º ano do Ensino Médio, exerceu atividade informal aos finais de semana). Em relação à sua preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), informou-nos que escolheu um cursinho na modalidade virtual porque era mais barato, uma vez que a madrinha era quem pagava as mensalidades.
A ex-estudante do curso noturno de Pedagogia, Clarissa, à época da pesquisa, trabalhava como agente comunitária de Saúde. Estava cursando Gestão Pública em uma universidade privada, na modalidade da Educação a Distância (EaD), e sua mudança de curso e de instituição teve ligação com o fim da pandemia de COVID-19 e o retorno das aulas presenciais, porque o deslocamento do trabalho para a universidade estava financeiramente inviável para ela. Assim como Clara, foi estudante de escola pública ao longo da Educação Básica. Dentre as dificuldades relacionadas ao seu percurso escolar, Clarissa nos relatou que os materiais didáticos eram precários e, várias vezes, reutilizava os cadernos de um ano letivo para outro.
Nossa quarta entrevistada, Mariana, estudante de Psicologia, assim como Clara, conciliou estudos e trabalho no 3º ano do Ensino Médio, quando ministrava aulas particulares. Bem próxima da realidade de Ana, que cursou até o 9º ano em escola particular, Mariana estudou em uma instituição privada até o 2º ano do Ensino Médio, investimento pago pelo avô. Com seu falecimento e o alto custo da mensalidade na escola particular, a universitária e sua avó optaram pela escola pública.
Práticas educativas que possibilitaram a longevidade escolar nos meios populares
No caso de Clara, estudante de Psicologia, a avó, figura central no seu processo educativo, cursou até a antiga 4a série primária, hoje 5º ano, e, no momento da entrevista, trabalhava como empregada doméstica. Clara estudou integralmente a Educação Básica em escola pública, e a avó, Maria, comparecia às reuniões escolares e a outros eventos promovidos pela escola, bem como incentivava a neta, quando criança, nas práticas de leitura.
Não obstante, outros investimentos pedagógicos podem ser observados: a avó pagava excursões e demais atividades extraescolares que pudessem contribuir com o capital cultural da neta e, no Ensino Médio, arcava com professores particulares, caso houvesse necessidade. A respeito da ordem moral doméstica, a estudante nos relatou que a tia graduada em Pedagogia a auxiliava nos deveres escolares e que a avó controlava, na infância, os seus horários de estudo. Contudo, salienta que era disciplinada e tinha um compromisso diário com os deveres escolares.
Sobre o controle do tempo e das tarefas escolares, Lahire (1997) pondera que a construção de um ambiente familiar ordenado, com regras bem definidas de convivência e obrigação, bem como o estabelecimento de horários para os estudos, tende a se refletir em posturas adotadas pelos filhos que se sobressairão na escola, pois favorecem o desempenho escolar, mesmo sendo provenientes de um meio familiar com baixo capital cultural e econômico.
Além da avó, a estudante de Psicologia morava com a tia, que exerceu um papel fundamental em sua escolarização. A importância dos tios na família ainda é pouco estudada. Sobre o tema, Silva e Rabinovich (2020) realizaram uma pesquisa com grupos familiares pertencentes às camadas populares, residentes no subúrbio de Salvador - BA. Os resultados mostraram que tios e/ou tias têm papel importante junto a crianças e jovens, pois aconselham e oferecem orientações sobre os riscos e perigos na vida e em momentos de decisão.
No caso da nossa entrevistada, a tia é Pedagoga e a auxiliava nos deveres escolares, inclusive, emprestava o computador para fins de estudo, cobrava boas notas na escola e supervisionava, na infância, os seus horários. Por ser professora dos anos iniciais e conhecer a cultura escolar, a tia de Clara exerceu um controle sistemático de sua vida escolar.
Mesmo que a avó, Maria, não percebesse a correlação do sucesso escolar de Clara como fruto dos modos de socialização familiar, a organização cotidiana para os estudos que a neta internalizou, ainda na infância, o acompanhamento escolar da tia, o incentivo da avó para que a neta se destacasse na escola e o próprio esforço da estudante foram elementos condicionantes importantes na trajetória escolar longeva da universitária. Constatamos, assim, que a avó usou inúmeras táticas, mas não estratégias, bem definidas para que a neta chegasse ao Ensino Superior. Para isso, foi essencial a colaboração da tia nos estudos.
Clarissa, por sua vez, teve um percurso acadêmico distinto de Clara. A ex-estudante do curso noturno de Pedagogia, no momento da entrevista, estava cursando Gestão Pública em uma universidade privada, na modalidade EaD. Notamos que Clarissa não tinha estratégias bem definidas quando escolheu cursar Pedagogia na UEMG, e vale destacar que a estudante é a primeira de sua família a ingressar no Ensino Superior. Segundo Teixeira e Dias (2020), os estudantes de primeira geração, isto é, os primeiros em sua família a chegarem ao Ensino Superior, possuem objetivos de carreira menos rígidos e aceitam fazer ajustes ao longo desse percurso.
É importante pontuar que, em relação à sua trajetória na Educação Básica, Clarissa teve apoio da mãe, que acompanhava as atividades escolares, participava das reuniões e outros eventos escolares, bem como fazia escolhas relacionadas aos estabelecimentos de ensino frequentados pela estudante. Entretanto, era sua avó quem administrava a rotina diária dos estudos. Essa avó, assim como as demais que entrevistamos, também cobrava boas notas na escola, examinava os cadernos da neta e os boletins, e era rígida na rotina de estudos:
“[...] ‘cê’ não fazer, ‘cê’ não vai fazer nada. ‘Cê’ vai fazer primeiro os deveres. Porque a hora que ‘cê’ chegar lá na escola a professora... a primeira coisa que ela vai ver é o seu caderno.” Aí, é quando eu via que ela tinha acabado, eu falava assim: “agora ‘cê’ pode fazer o que ‘cê’ quiser, mas primeiro ‘cê’ faz os deveres”. Não deixava ela fazer outra coisa, não. Chegava da escola, falava com ela: “faz o dever que e aí ‘cê’ pode brincar, pode fazer o que ‘cê’ quiser. Mas o dever, ‘cê’ tem que fazer” (Sra. Marlena, avó de Clarissa).
O relato da sra. Marlena demonstra que a estudante viveu em um ambiente familiar ordenado (Lahire, 1997) e, inclusive, tinha apoio psicológico da avó para prosseguir nos estudos. Mesmo sem condições de realizar investimentos financeiros ao longo do percurso escolar da neta, Marlena afirmou que ofereceu incentivos para que Clarissa pudesse chegar ao Ensino Superior. Esse incentivo pode ter sido pautado por dois motivos: não ter a oportunidade de ter uma escolarização prolongada; e almejar que a neta tivesse um destino escolar diferente do de sua mãe, que não chegou à universidade.
Ana, 22 anos, estudante do curso de licenciatura em Química no ano de 2020, embora tenha respondido perguntas no questionário online que a classificavam como pertencente aos meios populares, não se enquadrava nesses indicadores, conforme afirmaram Souza (2014) e Viana (2014): pais com baixa escolaridade e baixa renda familiar, bem como aqueles indivíduos que ocupam posições que se situam na base da pirâmide social. No entanto, decidimos entrevistar Ana e sua avó por atenderem a outros critérios definidos na pesquisa.
Ao contrário do percurso escolar de Clarissa e Clara, Ana frequentou, durante oito anos, escola particular. A partir do 9º ano e até a conclusão do Ensino Médio, a universitária estudou em escola estadual. Em sua trajetória escolar, a avó foi peça fundamental, como nos relatou. O fato de a avó ter sido professora alfabetizadora é relevante, pois, certamente, recorreu a estratégias e materiais que pudessem auxiliar a neta na vida escolar, o que é reconhecido pela própria estudante:
e a minha avó, por ter sido professora de pré-primário, então, na minha alfabetização, ela me ajudou muito, porque eu lembro que a minha mãe não tinha paciência pra me ajudar. Nessa fase assim, de escrever, letrinha por letrinha [inaudível] e é meio que até hoje assim com a minha irmã. E a minha avó sempre teve, sabe? Sentou ali comigo e pegava historinha e lia historinha comigo (Ana, estudante de Química).
Ao longo da entrevista, constatamos que a rotina diária de estudos na execução de outras tarefas durante a infância e juventude foi um fator de peso no percurso escolar de Ana. Como nos lembra Lahire (2002, 2004), o desempenho escolar tem forte ligação com a organização e a rotina doméstica do lar. Nesse sentido, ao longo da vida, a estudante adquiriu esquemas comportamentais não reproduzidos, necessariamente e de maneira direta, mas que a influenciaram em sua escolarização e na organização do seu cotidiano. Por exemplo, os horários da estudante para estudar, brincar e ter acesso ao computador eram pré-definidos pelos avós. Além disso, eles proporcionaram à neta o acesso a atividades extraescolares, como aulas de Kumon8.
As práticas educativas na trajetória escolar e de vida de Ana não se restringiram à educação formal. Os avós, ao lado da mãe, proporcionaram o enriquecimento do capital cultural da estudante: “eles me levavam, assim, em teatros, a gente gostava muito de ir naquele Circo de Soleil, balé do Grupo Corpo, sempre foi coisas assim que a gente fez”. A oportunidade que os avós deram à Ana de acesso a apresentações artísticas e outros bens permitiram a aquisição de capital cultural valorizado socialmente e pela escola. Isso permitiu que ela se distinguisse das demais entrevistadas, pois teve, ao seu alcance, um patrimônio cultural diversificado, que pôde ser convertido favoravelmente em seu desempenho escolar.
Por fim, nossa última estudante entrevistada, Mariana, também estava cursando Psicologia. No momento em que participou da primeira etapa desta pesquisa, estava em fase de transferência para o curso de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Assim como no caso de Ana, que cursou até o 9º ano em escola particular, Mariana estudou em uma instituição privada até o 2º ano do Ensino Médio, custeada pelo seu avô.
No que diz respeito à rotina de estudos, a estudante nos informou que não havia um horário específico para se dedicar aos deveres escolares. Seu avô a presenteou com um computador, ajudava na realização de cursos extracurriculares, na aquisição de material escolar e uniforme, mas quem controlava as atividades escolares era a avó. Em relação à participação nas reuniões escolares, o avô também comparecia, o que revela, como apontam Dias (2022) e Rosa, Carvalho e Coutrim (2022), que os avós podem contribuir tanto para as transmissões quanto para orientações educacionais.
Sobre a vida escolar da neta, a avó Belinha, que considera Mariana como filha, ressaltou que escolhia os estabelecimentos escolares frequentados pela estudante de Psicologia e buscava sempre os “melhores colégios”. Ainda pontuou que esse esforço na trajetória escolar da neta é explicado pelo desejo de lhe oportunizar condições que seus três filhos não tiveram. Além disso, outros materiais didáticos e livros de histórias infantis foram comprados pelos avós para Mariana durante a Educação Básica.
Os cadernos da universitária também eram supervisionados pela avó, que nos relatou que o acompanhamento escolar da neta foi mais sistemático, pois já não estava mais exercendo atividade profissional e podia dedicar mais tempo às explicações. A supervisão da avó se estendia, igualmente, para a organização dos horários de estudo:
gostava que ela chegasse, almoçasse, dava um tempinho e começasse [a fazer os deveres escolares]. Porque eu acho que aí acompanha o raciocínio, né, e tudo. Mas era difícil... tinha dia que ela me obedecia, tinha dia que não. Mas eu respeitava, porque, né, cada um é cada um. Às vezes, ela tava cansada, porque vai chegando, vai ficando muito apertado, aí eu respeitava o horário dela (Sra. Belinha, avó de Mariana).
Quando a avó não tinha conhecimento para auxiliar Mariana na realização das atividades escolares, os primos foram a rede de apoio encontrada. Bourdieu (2010b) revela que a rede de ligações é entendida como o produto de estratégias de investimento social, isto é, a busca por trocas úteis para a vida econômica e cultural dos indivíduos. Destacamos, ainda, no que diz respeito às práticas educativas, que essas relações, denominadas pelo autor como capital social, foram relevantes para a trajetória escolar da estudante, pois ofereceram os subsídios necessários para que adquirisse um capital cultural, que foi transformado em capital escolar.
Algumas reflexões sobre a relação entre as estudantes ouvidas na pesquisa e suas avós
Uma característica comum presente nas relações intergeracionais entre as avós e netas entrevistadas são os sentimentos de amor e gratidão. Notamos que todas as estudantes reconhecem a importância de suas avós ao longo de seus percursos escolares e pessoais, seja nos ensinamentos morais e éticos, imprescindíveis à formação do ser humano, seja na contribuição dada pelas avós ao longo do percurso na Educação Básica. Outra característica marcante na relação entre avós e netas são as lembranças que as estudantes têm das suas cuidadoras ao longo da vida. Elas trouxeram, em seus relatos, fatos marcantes que permearam as relações intergeracionais durante a infância, a adolescência e a fase adulta.
Foi ainda possível notar que as avós reconhecem os esforços das netas ao longo da trajetória escolar. Todas pontuaram que não tiveram “trabalho” em relação à escolarização na Educação Básica, pois as estudantes eram disciplinadas e comprometidas com as tarefas escolares. Contudo, é preciso mencionar que as próprias famílias organizaram uma rotina de estudos e que a supervisão das atividades era prática comum.
Também destacamos que, embora o ingresso na universidade não fosse fruto de um planejamento claro de escolarização, a chegada das netas na universidade pública foi um momento de comemoração pelas avós. Foi possível perceber, nas entrevistas, a afeição das avós quando indagadas sobre como foi receber a notícia da aprovação das estudantes na UEMG. Todas sorriram! O relato de Maria, avó de Clara, foi contundente: “porque a gente acha que pobre não tem vez, né?”.
Em relação às estratégias e táticas educativas nos meios populares, desconsiderando o contexto de Ana, que é de classe média, inferimos que Mariana e Clara, com a colaboração de suas avós, traçaram um objetivo em suas vidas e foram em busca de sua concretização: o ingresso na universidade. Mesmo enfrentando desafios de ordem pessoal e financeira, tiveram o que chamamos de trajetórias escolares “improváveis”. Clarissa, entretanto, recorreu à tática para ingressar na universidade pública, tanto que não conseguiu permanecer na graduação após o fim da pandemia de COVID-19 e o retorno das aulas presenciais. Mesmo assim, há algo que devemos ressaltar: todas as mulheres que participaram deste estudo estão nos bancos universitários e suas avós tiveram participação central no alcance da longevidade escolar.
Considerações finais
A pesquisa aqui apresentada teve como objetivo central compreender quais foram as estratégias e mobilizações dos avós, principais agentes educativos das estudantes de camadas populares de uma universidade pública no centro-oeste mineiro, que influenciaram a longevidade escolar e a inserção de suas netas jovens no Ensino Superior público. Compreendemos que as camadas populares elaboram suas táticas e estratégias de escolarização longeva a partir do momento em que reconhecem o acesso à universidade como um futuro possível. No entanto, uma das premissas que devem ser consideradas é a situação de desvantagem financeira e/ou emocional que esses indivíduos, com distintos processos socializadores, vivenciam em seu percurso.
Destacamos que, dentre as principais estratégias e mobilizações das avós cuidadoras que influenciaram a longevidade escolar de suas netas, foi possível identificar a colaboração de uma rede de apoio a qual as famílias recorrem para o auxílio nos deveres de casa (tios e primos). Além disso, o apoio financeiro e emocional das avós foi essencial: três das quatro universitárias investigadas informaram que as avós contribuíram financeiramente com a escolarização. O apoio emocional foi relatado por todas as estudantes, o que revela que, mesmo que as avós não estejam próximas da cultura escolar, com exceção de uma universitária, elas se esforçaram para que as netas alcancem sucesso nos estudos.
Pontuamos, ainda, que os estudos sobre longevidade escolar nos meios populares (e, até mesmo, em outros segmentos sociais) não podem negligenciar o entrelace de diferentes configurações familiares atuais, como no caso de pais e mães solos, ou de famílias em que os genitores estão ausentes. Nessas situações, avós e/ou tios são chamados a atuar. Por vezes, mesmo com baixa escolaridade, os avós das camadas populares desenvolvem táticas e estratégias que visam à permanência dos netos nos bancos escolares, o que revela a necessidade de lançar luz ao papel desses protagonistas no processo de escolarização contemporâneo.
Este estudo ainda ressalta a referência às avós como “portos seguros” pelas netas. A garantia de segurança emocional e financeira, por meio das avós, foram elementos que se destacaram nas falas das estudantes entrevistadas. Entretanto, é importante pontuar que as jovens participantes da pesquisa foram alunas com bom desempenho ao longo de seus percursos escolares e responderam às expectativas familiares.
Ressaltamos também que a influência das avós na escolarização de suas netas acontecia por meio de duas maneiras: modo educativo direto: a avó como figura central na coeducação, em que o papel da mãe ou da tia era mais limitado; modo educativo indireto: papel coeducativo da avó, mãe ou tia marcado pelo hibridismo, ou seja, ambas participavam da criação/cuidados das estudantes. A presença até de primos no auxílio quanto aos deveres mostrou que foi importante uma rede de apoio à escolarização das jovens entrevistadas.
Como recomendações futuras de pesquisas, é relevante trazer à luz a relação dos avós com a leitura, pois notamos que, mesmo sem escolaridade prolongada (exceto no caso da avó de Ana), os mais velhos buscam se aproximar da cultura letrada, o que influencia no processo coeducativo dos netos. Finalmente, almejamos que os resultados desta pesquisa contribuam com as análises de futuros estudos e investigações sobre trajetórias escolares “improváveis” e a longevidade escolar de camadas populares, especialmente nas configurações familiares em que os avós são os principais responsáveis pela educação dos netos. A relação entre avós e netos é muito mais rica do que podemos perceber com um olhar superficial e merece ser aprofundada pelos estudos na área da Educação.










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