1 INTRODUÇÃO
Durante muito tempo, o olhar direcionado às pessoas com deficiência era delimitado pelo modelo médico e assistencialista, voltado, principalmente, à saúde e às atividades básicas de vida diária. Hoje, tem-se um olhar mais amplo diante do indivíduo, e acredita-se que uma multiplicidade de fatores está envolvida na construção do sujeito autônomo, que circula e atua na vida social de forma participativa (Maia Filho et al., 2018).
Dentre os diferentes aspectos que compõem a construção da identidade e subjetividade de cada indivíduo, as manifestações artísticas e culturais permitem que o homem se relacione em sociedade servindo como um elo de comunicação entre o ser e o mundo. A dança é uma vertente artística que traz em evidência o movimento humano e, desde os primórdios, fez parte do cotidiano de diferentes povos, assumindo variados papéis ao longo da história (Corrêa, 2010).
À medida que a sociedade foi evoluindo, a dança conquistou novas áreas de atuação, sendo, hoje, além de um importante meio de manifestação artístico-cultural, um elemento facilitador do processo de ensino-aprendizagem, do desenvolvimento psicomotor e da promoção da saúde global (Loth et al., 2012; Rossi-Andrion & Munster, 2021; Teixeira-Machado & DeSantana, 2013).
Nos anos de 1980, a interface entre dança e deficiência começou a ganhar a atenção de pesquisadores brasileiros. Enquanto as primeiras pesquisas envolvendo essa temática eram publicadas, a discussão em torno da deficiência ganhava mais força. O termo “inclusão” começou a ser difundido por volta de 1990 e trouxe um conceito mais abrangente, abarcando todas as pessoas com necessidades especiais, inclusive aquelas com deficiência. A partir desse novo conceito e de uma nova perspectiva, surgiram cada vez mais movimentos a favor da inclusão nos diferentes âmbitos sociais (Fonseca, 2009).
Foi quando surgiu o novo modelo social da deficiência, com a intenção de substituir o modelo médico anteriormente difundido. No novo modelo social da deficiência, o corpo assumiu um papel central e, a partir de discussões, houve a emergência do corpo com lesões, reconhecendo a subjetividade das suas características e necessidades. Os ajustes arquitetônicos e de acessibilidade deveriam variar de acordo com a multiplicidade dos corpos, portanto estes não deveriam ser ignorados. A deficiência deixou de ser vista como problema individual e passou a ser considerada uma questão coletiva, pois pode ser fruto até mesmo de um desgaste natural do corpo, como são os casos dos idosos.
É importante destacar que a inclusão dos idosos no universo da deficiência modificou o rumo do debate. A visão da deficiência como um problema social, considerando a representatividade do corpo, repercutiu de forma positiva na implementação de políticas de educação, de saúde pública e de direitos humanos. O foco passou a ser medidas de reparação de desigualdade, e não mais medidas de reabilitação (Corrêa, 2010; Diniz, 2007).
O corpo, sendo também elemento central na dança, encontrou a liberdade por meio do seu autoconhecimento. A autopesquisa do corpo e do movimento é parte intrínseca do dançar e é a partir dessa experimentação que novos caminhos são construídos e reconstruídos, que ajustes são criados e todos os corpos são incluídos.
O diálogo entre dança e deficiência vêm acontecendo nos mais diversos contextos: educacional, artístico, esportivo e de reabilitação. Dessa forma, de acordo com cada proposta, variam os profissionais envolvidos, as técnicas de dança utilizadas, a metodologia e as finalidades. Assim, pode-se perceber o caráter transdisciplinar que a dança apresenta, podendo estar presente em vários contextos, permitindo a interação entre duas ou mais áreas distintas do conhecimento, ampliando e potencializando o processo por meio dessas interrelações (Rossi & Munster, 2013).
Ao pensar a dança no contexto da deficiência, as características apresentadas tornam-se ainda mais expressivas, visto que sua plasticidade abre espaço para as potencialidades e as peculiaridades de cada corpo. Além disso, é também um meio de interação e comunicação por meio da linguagem corporal, transmitindo a intencionalidade interna do indivíduo nos movimentos realizados (Fernandes, 2006). A experiência do corpo pode contribuir para um melhor desempenho da expressividade (Miller, 2012; Siviero, 2010).
Diante da grande variedade de possibilidades que o corpo e a dança permitem, nesta pesquisa, propôs-se a realizar um levantamento da produção científica dentro da temática “dança e deficiência”, com o objetivo de refletir sobre os estudos que responderam à pergunta norteadora desta revisão integrativa: Como a literatura tem abordado a temática “dança” no contexto da deficiência?
2 MÉTODO
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa que consiste em uma abordagem metodológica mais ampla quando comparada a outras revisões. Considerou-se mais pertinente a escolha deste tipo de revisão, pois ela permite a inclusão de pesquisas realizadas a partir de diversos métodos, possibilitando uma visão mais ampla do fenômeno estudado. Foram resgatados dados teóricos e empíricos, com diferentes finalidades, como: verificar conceitos, analisar metodologias, entre outros.
Esta revisão integrativa foi desenvolvida a partir das seis fases descritas por Souza et al. (2010). Na primeira fase, houve a elaboração da pergunta norteadora: Como a literatura tem abordado a temática “dança” no contexto da deficiência? Na segunda fase, caracterizada pela busca na literatura, foram selecionados os artigos que respondiam à pergunta norteadora. Foram realizadas pesquisas, no período de janeiro a março de 2022, nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Periódicos CAPES). As buscas foram realizadas por meio do cruzamento, com o operador booleano “AND” entre os descritores em português: “dança”, “pessoas com deficiência” e “terapia através da dança”; e em inglês: “dancing”, “disabled persons” e “dance therapy”. As palavras poderiam estar presentes em qualquer um dos campos do artigo. Não houve delimitação do ano de publicação.
Como critérios de inclusão foram definidos: a) texto disponível na íntegra; b) ter sido publicado em português ou inglês; c) ter sido revisado por pares; e d) pertinência da temática. Já os critérios de exclusão foram: a) artigos indexados repetidamente nas bases de dados; e b) não atenderam aos objetivos deste estudo. Inicialmente, foi realizada a leitura dos títulos e dos resumos, sendo observada a presença das palavras-chave. Posteriormente, realizou-se a leitura na íntegra dos artigos, atentando-se para os critérios pré-estabelecidos.
A terceira fase foi caracterizada pela coleta de dados dos artigos selecionados por meio do instrumento validado por Ursi (2005). Nessa etapa, a partir da leitura completa, as informações de interesse foram extraídas dos artigos e transferidas para o instrumento mantendo a sua fidedignidade. Foram coletados dados referentes à identificação do artigo: título do artigo, nome dos autores, idioma, ano de publicação, instituição sede do estudo; ao tipo de publicação: área de publicação, características metodológicas, objetivo ou questão de investigação, amostra, tratamento dos dados, intervenções realizadas, resultados, análise e implicações, nível de evidência; e avaliação do rigor metodológico: clareza na identificação da trajetória metodológica no texto e identificação de limitações.
Na quarta etapa, houve a avaliação do rigor metodológico dos artigos a partir da identificação dos tipos de delineamentos. A identificação do nível de evidência de cada estudo pela caracterização do delineamento de pesquisa aconteceu de acordo com a escala proposta por Stetler et al. (1998), que pode ser observada no Quadro 1 a seguir.
Quadro 1 Sistema de classificação de evidências organizado de forma hierárquica em seis níveis
Nível de evidência | Abordagem metodológica abordada |
---|---|
Nível 1 | Evidências provenientes da metanálise de estudos clínicos controlados e randomizados. |
Nível 2 | Evidências resultantes de estudos individuais com delineamento experimental. |
Nível 3 | Evidências de estudos quase-experimentais. |
Nível 4 | Evidências de estudos descritivos (não-experimentais) ou com abordagem qualitativa. |
Nível 5 | Evidências obtidas de estudos de caso ou relatos de experiência. |
Nível 6 | Evidências elaboradas a partir das opiniões de especialistas. |
Nota: Adaptado de Stetler et al. (1998).
A quinta etapa foi caracterizada pela discussão dos resultados, a partir da síntese e interpretação dos achados. Nessa etapa, os autores fizeram observações acerca do estado da arte do assunto pesquisado, explicitando vieses e identificando lacunas que possam ser preenchidas com estudos futuros.
Na sexta etapa, foi realizada a apresentação desta revisão integrativa por meio da síntese do conhecimento, introduzindo o assunto abordado ao longo do estudo.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Inicialmente, foram encontrados 196 artigos a partir dos descritores, nas bases de dados pesquisadas (Periódicos CAPES: 144; MEDLINE: 31; e LILACS: 21). A remoção dos artigos duplicados e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão resultou em 124 artigos para a leitura do título e resumo. Destes, 32 artigos foram selecionados para a leitura na íntegra. Ao final desse processo, foi encontrado um total de 20 artigos que respondiam à questão norteadora deste estudo.
Foram organizados os principais dados de acordo com o instrumento utilizado para coleta de dados. Os artigos selecionados são caracterizados por estudos de natureza qualitativa e quanti-qualitativa. Após a análise do rigor metodológico, foi encontrado um único artigo de revisão sistemática (Prieto et al., 2020), portanto em Nível 1 de evidência. Não foram identificados nenhum estudo de natureza experimental. Três estudos possuem metodologia quase-experimental (Carvalho et al., 2020; Rossi-Andrion & Munster, 2021; Viriato et al., 2014), 11 são descritivos (não-experimentais) (Albarran et al., 2018; Bertoldi & Margueritte, 2021; Cardoso & Limão, 2018; Cintra et al., 2015; Ferreira, 2000; Freitas & Tolocka, 2005; Lopes & Araújo, 2012; Paula et al., 2011; Pereira et al., 2012; Rossi & Munster, 2013; Santos & Coutinho, 2008), dois são relatos de experiência (Carvalho et al., 2020; Rocha & Kleinubing, 2014) e três são artigos com opinião de especialistas no assunto (Carmo, 2019; Rigo et al., 2019; Santos et al., 2019).
Foi acordado entre os autores que todos os artigos que respondessem à questão norteadora, independentemente do nível de evidência, seriam selecionados para discussão dos dados. Considerou-se importante incluir a análise de todos os estudos para o conhecimento dos tipos de delineamentos, métodos e desenhos de pesquisa que têm sido adotados nos estudos que envolvem a temática.
Quanto à data de publicação dos artigos, variaram entre o ano de 2000 até 2021. O gráfico da Figura 1 mostra como a publicação dos artigos foi distribuída ao longo dos anos.
O gráfico aponta para um crescimento no número de publicações nos anos atuais. Pode-se observar que, na primeira década, 2000-2010, há três artigos publicados; já na segunda década, 2011-2021, foram publicados 17 artigos. Alguns estudos já relataram essa gradativa ampliação das publicações na área da deficiência nas últimas décadas, relacionando-a a um maior interesse da sociedade em debater o assunto diante do surgimento de políticas públicas e promulgações de leis que colocaram em evidência essa temática (Prieto et al., 2020; Rossi & Munster, 2013). Outra questão a ser pontuada é o fato de que a redução na produção dos artigos nos anos de 2020 e 2021 (quando comparada ao seu maior número em 2019) coincidem com o início da pandemia da covid-19, período em que as produções científicas, de uma maneira geral, foram abaladas pelo cenário mundial.
Quanto à área de publicação das pesquisas, há uma maior concentração de estudos envolvendo a dança e a deficiência publicados na área da Educação Física (Figura 2). Dentre os nove artigos publicados nessa área, cinco são focados na dança esportiva em cadeira de rodas (Ferreira, 2000; Freitas & Tolocka, 2005; Lopes & Araújo, 2012; Paula et al., 2011; Pereira et al., 2012), os demais retratam a dança como elemento de transformação pessoal e social em diferentes contextos (Carvalho et al., 2020; Oliveira et al., 2019; Pietro et al., 2020; Santos et al., 2019).
Também foram encontrados artigos publicados nas áreas da Educação (Cintra et al., 2015; Rocha & Kleinubing, 2014; Rossi & Munster, 2013; Rossi-Andrion & Munster, 2021), das Artes (Albarran et al., 2018; Bertoldi & Margueritte, 2021; Cardoso & Limão, 2018; Rigo et al., 2019), e Interdisciplinar (Carmo, 2019; Santos & Coutinho, 2008) e Psicologia (Viriato et al., 2014).
Quanto às deficiências abordadas, a deficiência física (também identificada por “cadeirantes” em alguns estudos) e a deficiência de uma forma generalizada, foram as duas formas mais frequentemente mencionadas. Também foram encontrados estudos sobre deficiência visual, deficiência intelectual, autismo e Síndrome de Down. Quanto às características dos participantes dos estudos, foram identificados participantes das seguintes faixas etárias: crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Em relação à composição do aporte teórico, não foi encontrada uma linearidade, baseando-se alguns estudos em obras de autores como David Le Breton e Maurice Merleau-Ponty (fenomenologia) para fundamentar suas discussões e, na área da Dança, o pesquisador mais mencionado foi Rudolf Laban. Essa falta de linearidade e diálogo entre os estudos já realizados dificulta o desenvolvimento de uma linha de pensamento contínua, complementar, gerando dificuldade até mesmo com a heterogeneidade dos termos utilizados nos estudos envolvendo dança e deficiência.
Os contextos dos artigos foram variados. Foram identificados: contexto educacional (escolas), contexto artístico (grupos profissionais ou amadores, espetáculos ou festivais de dança), contexto esportivo (competições de dança) e contexto de reabilitação (clínicas de fisioterapia/terapia). Nesse sentido, as temáticas e as técnicas utilizadas em cada estudo variavam de acordo com o contexto. Foram identificadas: dança educativa, dança esportiva em cadeira de rodas, hip-hop, contato improvisação, dança contemporânea e dançaterapia.
O contexto e as técnicas foram definidos a partir das finalidades. Portanto, dentre os estudos, se destacaram: a proposta pedagógica, envolvendo os aspectos de ensino e aprendizagem da dança; a performática, relacionada ao desempenho e à expressividade do bailarino; a competitiva, envolvendo o alto rendimento do bailarino/atleta; e a terapêutica, envolvendo a reabilitação.
O Quadro 2 mostra a caracterização geral dos artigos incluídos na revisão integrativa.
Quadro 2 Dados retirados dos estudos selecionados para compor a amostra
Título do artigo | Autor/ ano | Objetivo | Resultados |
---|---|---|---|
O sentido do sentir: corpos dançantes em cadeira de rodas | Ferreira (2000) | Conhecer os significados da dança para as pessoas portadoras de deficiência física. | A dança pode contribuir para o autoconhecimento, para descobertas de transformações sociais, como forma de expressão e comunicação. |
Desvendando as emoções da dança esportiva em cadeira de rodas | Freitas e Tolocka (2005) | Levantar subsídios para o trabalho com a emoção dos praticantes de Dança Esportiva em Cadeira de Rodas. | Emoções: alegre, por estar participando de um evento; medo, por não querer realizar coisas erradas; nervoso, devido à presença do público. |
Pessoas com deficiência e dança: uma revisão de literatura | Santos e Coutinho (2008) | Identificar e analisar o tipo de racionalidade presente na literatura sobre as categorias dança, corpo e pessoas com deficiência. | Foram encontradas diversas opções de nomenclatura e diferentes opções epistemológicas ao abordar a temática da deficiência, com falta de uniformidade na expressão usada. |
Carga física da dança esportiva em cadeira de rodas | Paula et al. (2011) | Verificar o comportamento da frequência cardíaca de dançarinos durante uma competição de Dança Esportiva em Cadeira de Rodas. | A média da carga física das rodadas foi de 89,9% da frequência cardíaca máxima. Houve diferença significativa de intensidade, sendo o Jive mais intenso do que o Samba e a Rumba não havendo diferença entre essas duas. |
Perfil de campeões da dança esportiva em cadeira de rodas | Pereira et al. (2012) | Buscar características marcantes do perfil dos campeões da dança esportiva em cadeira de rodas. | O campeão internacional apresentou valores ligeiramente superiores na mentalização visual e auditiva. |
The wheelchair dancer within the context of spectacles | Lopes e Araújo (2012) | Refletir sobre os sentimentos e as percepções de bailarinos com deficiência motora nas relações sociais no contexto de ensaios, apresentações e espetáculos de dança. | A participação dos bailarinos em cadeira de rodas em espetáculos e apresentações abertas ao público é importante para o reconhecimento social e de potencial e para as relações interpessoais. |
Dança e deficiência: uma revisão bibliográfica em teses e dissertações | Rossi e Munster (2013) | Identificar e analisar a produção científica acerca da dança para pessoas com deficiência em teses e dissertações nacionais. | Foram encontradas 28 dissertações e 7 teses; prevalência de adultos com deficiência física; estudos de caso; aporte teórico em Rudolf Laban; processos de ensino-aprendizagem; maior evidência à dança contemporânea e dança em cadeira de rodas; em contextos artístico e educacional. |
Contribuições da dançaterapia no aspecto emocional de pessoas com deficiência física durante programa de reabilitação | Viriato et al. (2014) | Analisar a contribuição da dançaterapia no aspecto emocional dos pacientes em reabilitação, a partir da sua percepção. | 69,56% referiram boa autoestima antes, e ao final, 95,65%; antes 69,56% se consideravam tímidos, 43,47% (depois); menor sensação de tristeza, apenas 4,43% (antes 52,17%). Inicialmente 13,04% referiam sempre ter dificuldade para se comunicar, 4,34% (depois). |
Dança e experiência estética: a extensão universitária em cena | Rocha e Kleinubing (2014) | Promover entre professores discussões sobre a dança e sua contribuição na formação humana e (re)conhecimento da diversidade. | As oficinas contribuíram para a construção de um novo olhar para o corpo diferente e para a dança que esses corpos realizam. A dança pode ser capaz de nos sensibilizar para a beleza de todos os corpos. |
As contribuições do lúdico no processo de desenvolvimento das crianças com síndrome de Down na educação infantil | Cintra et al. (2015) | Analisar os subsídios da ludicidade no processo de ensino e aprendizagem de crianças com Síndrome de Down, com enfoque principal nas contribuições da dança. | Acreditamos na necessidade de um trabalho consciente e interdisciplinar que contemple as demais práticas da escola, a ampliação da formação do professor em relação à abordagem corporal, além de formação prática, visto que a dança constitui uma atividade importante dentro da escola. |
A dança e as pessoas com deficiência visual: uma análise de vinte anos de produção acadêmica brasileira | Albarram et al. (2018) | Realizar uma revisão bibliográfica de trabalhos publicados em congressos acadêmicos, artigos, dissertações e teses no idioma português, no Brasil, entre 1996 e 2016, sobre o papel da dança na vida da pessoa cega. | A dança permite o contato do dançarino com o mundo; desenvolve habilidades motoras, espaciais e de locomoção em deficientes visuais; desenvolve aspectos sociais, psíquicos e melhora a autoestima; a profissionalização dos bailarinos cegos, indicam a dança como elemento de inclusão social. |
A percepção corporal para deficientes visuais através da dança | Cardoso e Limão (2018) | Compreender como os deficientes visuais percebem os sentidos durante a prática da dança à luz da fenomenologia de Merleau-Ponty, por meio de uma revisão de literatura. | A dança proporciona maior autonomia e autoestima, descoberta de valores, facilita o contato com o mundo, possibilita o uso da imaginação e da liberdade de expressão, permite a percepção corporal e espaço temporal. |
O se-movimentar na dança em cadeira de rodas | Rigo et al. (2019) | Refletir sobre os conceitos “corpo substancial” e “corpo relacional” na Dança em Cadeira de Rodas. | A Dança em Cadeira de Rodas vem mostrando-se como importante ferramenta de comunicação e interação. |
A visão da pessoa com deficiência por crianças sem deficiência entremeada pela dança: um encontro de possibilidades | Oliveira et al. (2019) | Verificar a possibilidade de reconstrução da percepção pelas crianças sem deficiência sobre as potencialidades das pessoas com deficiência por meio da prática da dança. | Os desenhos e discursos pré-intervenção com valorização de padrões físicos pré-definidos; nenhuma referência a uma pessoa com deficiência na dança. Pós-intervenção, notou-se maior flexibilidade na forma de pensar e agir; indivíduo mais respeitador e valorizador das diferenças. |
Dança para pessoas com deficiência: um possível elemento de transformação pessoal e social | Santos et al. (2019) | Compreender o papel da dança na vida de pessoas com deficiência; refletir a dança baseada nas obras de Le Breton. | O corpo com deficiência que ocupa espaços antes dominados pelo corpo ideal leva os espectadores a dialogar/confrontar com a história desse corpo com as próprias histórias, valores e (pré)conceitos. |
Desnudando um corpo perturbador: a “bipedia compulsória” e o fetiche pela deficiência na Dança | Carmo (2019) | Ressignificar o olhar sobre a dança condicionado pelo pensamento hegemônico que padroniza, encaixota e determina o ser/estar no mundo. | Em comparação ao contingente da Dança, no Brasil, ainda há número muito reduzido de artistas com deficiência. No entanto, alguns sujeitos conseguem apontar para outras possíveis perspectivas. |
A linguagem como instrumento de inclusão social: uma experiência de ensino do hip hop para jovens e adultos com deficiência intelectual e autismo | Carvalho et al. (2020) | Compreender e analisar as diversas manifestações de linguagem produzidas ao longo de uma experiência de ensino do hip hop para o reconhecimento de jovens e adultos com deficiência intelectual e autismo. | Compreensão sobre as diversas formas e possibilidades de linguagem produzidas com o grupo de modo crítico e criativo, considerando as potencialidades, o protagonismo e o reconhecimento dos participantes. Os elementos do hip hop atendiam às particularidades dos alunos, ampliando as formas de linguagem e promovendo a inclusão. |
Dance programs for school-age individuals with disabilities: a systematic review | Prieto et al. (2020) | Examinar a literatura de pesquisa publicada referente a programas de dança para indivíduos com deficiência em idade escolar, descrevendo as características do estudo e os principais achados. | Programas de dança fornecem uma série de benefícios. Vários programas de dança estão disponíveis, mas precisam de pesquisas mais rigorosas para confirmar as evidências. Também necessita de estudos mais amplos; a dança pode promover a saúde e o bem-estar de indivíduos com deficiência em idade escolar. |
Beirando as margens: percepções de pessoas com deficiência sobre atuação profissional em dança | Bertoldi e Margueritte (2021) | Investigar como pessoas com deficiência, estudantes de dança no contexto do ensino não-formal, percebem o campo de atuação artística profissional em dança. | Distanciamento entre a tese de valorização das diferenças e as práticas de dança vivenciadas pelos participantes. A percepção sobre atuação profissional em dança é vinculada a modelos de corpo de pessoas sem deficiência. |
Dança educativa para crianças com deficiência física: repercussões de um programa de ensino | Rossi-Andrion e Munster (2021) | Analisar o envolvimento dos participantes em: rolamentos, deslocamentos diversos e nos fatores de movimento, de um programa de dança educativa; em quais aspectos analisados a intervenção promoveu maior ou menor influência. | Observou-se ganhos expressivos em: lateralidade, ritmo de movimentos, exploração de direções (frente, lado e trás) e dos níveis de espaço (baixo, médio e alto), compreensão e realização dos fatores de movimento “fluência”, “peso”, “tempo” e “espaço”. |
Notas. Podem ser observadas algumas nomenclaturas e termos atualmente considerados inadequados quando se fala sobre deficiência, porém, como os dados foram retirados dos artigos, manteve-se a sua fidedignidade; assim, eles foram transcritos sem alterações. Os dados extraídos dos artigos publicados em inglês foram traduzidos pelos autores ao serem inseridos no referido Quadro.
Os achados desta revisão integrativa demonstram um número restrito de estudos envolvendo a temática dança e deficiência, inclusive na área da Educação. Tal fato contrasta com as conquistas positivas presentes na legislação atual no âmbito da educação, reconhecendo-a como elemento de construção da cidadania e da inclusão social e, principalmente, um direito de todos. O aprofundamento no conhecimento sobre a área educacional é de grande importância para que as atividades vivenciadas nesse ambiente sejam apreciadas por todos os alunos, sendo a diversidade e a identidade elementos centrais para a construção de metodologias (Camargo, 2017).
Aos poucos, principalmente por meio dos estudos de Laban (1978), a dança foi sendo relacionada ao processo de ensino-aprendizagem, e sua proposta é educar por meio do movimento corporal. Em um processo de autodescoberta (de si e do mundo que o envolve), o aluno é guiado a uma experiência capaz de romper com barreiras arraigadas socialmente, revelando as implicações sociais da dança (Rebelo, 2014). Apesar de a dança ser reconhecida como facilitadora de uma educação emancipadora, é preciso ampliar pesquisas para encontrar novos e eficientes caminhos.
Outro ponto a destacar-se é a escassez de rigor metodológico de algumas pesquisas, abrindo espaço para vieses e questionamentos sobre a confiabilidade dos dados. Faltaram informações sobre a caracterização dos participantes, sobre como foram estruturadas as intervenções e quais os elementos utilizados, como foi recrutada a amostra; enfim, detalhes sobre o caminho metodológico percorrido. Alguns estudos não mencionaram, nem mesmo, informações sobre questões éticas que envolveram a pesquisa. Além disso, as pesquisas contam com um número reduzido de participantes, restringindo o olhar acerca dos resultados.
Dentre os artigos, três envolveram a realização de intervenção. As técnicas de dança utilizadas foram: dançaterapia, contato improvisação e estudos do movimento de Laban. Aprofundando um pouco mais na análise de cada técnica escolhida, observou-se que elas possuem alguns elementos em comum como a ampla liberdade de movimento, tendo como foco as diversas possibilidades de expressão do corpo no espaço, explorando a subjetividade (Teixeira, 2015).
Apesar das características em comum, as técnicas foram utilizadas com objetivos distintos em cada estudo. Em Viriato et al. (2014) os autores realizaram intervenções com sessões de dançaterapia em um grupo de 23 jovens adultos, com o objetivo de verificar sua influência no aspecto emocional dos participantes. Para a coleta dos resultados, foram utilizados questionários aplicados pré e pós-intervenção, além da análise de desenhos feitos pelos participantes. Os resultados descritos no Quadro 2, apresentado anteriormente, mostram as mudanças satisfatórias encontradas pelos autores nos aspectos investigados.
No estudo de Oliveira et al. (2019) foram realizadas intervenções com a técnica de contato improvisação em um grupo de 13 crianças, com o intuito de observar possíveis mudanças na percepção da deficiência. Os dados foram coletados por meio de filmagens da roda de conversa realizada com os participantes e, também, da análise de desenhos feitos pelos participantes nos momentos pré e pós-intervenção. Os autores notaram algumas mudanças na visão da deficiência após a interação entre os participantes por meio da dança (Quadro 2).
Rossi-Andrion e Munster (2021) aplicaram um programa de dança educativa baseado nos estudos de movimento de Rudolf Laban em um grupo de quatro adolescentes com o objetivo de analisar o envolvimento dos participantes com as atividades propostas e quais as principais influências das intervenções nos aspectos (qualidade do movimento e psicomotricidade) analisados. Para a coleta de dados, foi utilizado o diário de bordo da pesquisadora e um instrumento elaborado por ela. Foram notadas evoluções positivas nos elementos investigados (Quadro 2).
É importante destacar que o estudo de Rossi-Andrion e Munster (2021) relata detalhadamente a forma como o programa de dança educativa foi organizado, estruturado e aplicado, assim como o conteúdo abordado. Além disso, traz a proposta de um método avaliativo que acompanha toda a evolução do aluno (Instrumento de Acompanhamento da Aprendizagem em Dança Educativa - IAADE), a cada sessão, permitindo uma comparação entre os resultados obtidos pelo próprio sujeito (intra-sujeitos). A relevância desse estudo para a área da Educação envolvendo a temática dança e deficiência é notável, visto a escassez de instrumentos avaliativos que contemplem as especificidades dessa população. As autoras destacam a importância de se ampliar a amostra em novos estudos e confirmar a eficácia e a confiabilidade de sua aplicabilidade, validando o instrumento para uso em futuras pesquisas.
Por fim, a revisão sistemática de Pietro et al. (2020) também merece ser destacada. Os autores investigaram os estudos publicados sobre programas de dança para indivíduos com deficiência em idade escolar. A aplicação dos programas acontecia fora da escola em locais públicos ou estúdios privados, ou dentro do ambiente escolar, como parte do currículo ou durante as aulas de Educação Física. Apesar de os achados apontarem para benefícios físicos, sociais e psicológicos dos indivíduos, Pietro et al. (2020) ressaltam as limitações do estudo: poucas informações relativas às limitações e vieses; falta de descrição das características dos participantes, das estratégias de recrutamento e explicação explícita do método de amostragem; carência de informações sobre questões éticas (informações sobre Termo de Consentimento ou aprovação ética do estudo).
Portanto, vale destacar que, dentro da metodologia específica adotada em cada estudo, é importante que os autores descrevam as etapas e os caminhos percorridos, ressaltando fragilidades e dificuldades encontradas no desenvolvimento da pesquisa e destacando pontos que possam ser relevantes para uma melhor compreensão do estudo e construção do conhecimento.
4 CONCLUSÕES
Esta revisão integrativa teve como objetivo realizar um levantamento da produção científica dentro da temática dança e deficiência, no intuito de refletir sobre os estudos que responderam à pergunta norteadora: Como a literatura tem abordado a temática “dança” no contexto da deficiência? Observou-se que as publicações envolvem diferentes áreas do conhecimento: Educação Física, com um maior número de publicações, seguida por Educação e Artes.
Em relação às deficiências abordadas, a deficiência física e a deficiência de uma forma generalizada foram as duas mais encontradas; além de estudos sobre deficiência visual, deficiência intelectual, autismo e Síndrome de Down. Os participantes eram de diversas faixas etárias: crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Quanto à metodologia, os artigos apresentaram abordagem qualitativa e quanti-qualitativa. Foi encontrada uma revisão sistemática (publicada na área da Educação). Não foi encontrado nenhum estudo com delineamento experimental. E mais da metade dos artigos foram caracterizados como descritivos (não experimentais). Apenas um artigo, de delineamento quase-experimental, publicado na área da Educação, traçou seu caminho metodológico de forma consistente e fidedigna, permitindo a compreensão das intervenções e das avaliações realizadas. Alguns estudos careceram de algumas informações metodológicas que poderiam auxiliar em uma compreensão mais ampla da pesquisa, além de aumentar a relevância e a confiabilidade dos resultados encontrados.
Não houve uma linearidade na composição do aporte teórico, sendo mencionados autores como Le Breton e Merleau-Ponty e, na área da Dança, Rudolf Laban. Em relação aos contextos, foram identificados: contexto educacional, contexto artístico, contexto esportivo e contexto de reabilitação, com as seguintes propostas, respectivamente: pedagógica, performática, competitiva e terapêutica. As técnicas de dança utilizadas foram: dança educativa, dança esportiva em cadeira de rodas, hip hop, contato improvisação, dança contemporânea e dançaterapia.
A partir desse panorama geral das publicações envolvendo a temática em questão, foi possível conhecer quais as tendências científicas e quais os caminhos vêm sendo percorridos. Foi possível identificar as fragilidades e as lacunas presentes no diálogo entre dança e deficiência. Essa interface mostrou-se ainda pouco explorada, mesmo demonstrando possuir grande potencial transformador nos diferentes contextos em que pode ser inserida. Alguns programas de dança já foram desenvolvidos e é importante o empenho e a colaboração entre pesquisadores e profissionais da área para continuar a fomentar discussões e experiências que apoiem a dança como um elemento capaz de abarcar todos os corpos, em suas mais diversas nuances.