1 Introdução
A COVID-19 foi descoberta na China no final de 2019 e em 11 de março de 2020 foi declarada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) (WHO, 2020). Sendo uma doença até então desconhecida, portanto, sem protocolo de tratamento e vacina preventiva, fez com que os países implementassem medidas rígidas de isolamento social para controle da disseminação da doença (Wilder-Smith; Freedman, 2020).
Falta de contato social, medo de infecção, medo da morte, informações imprecisas sobre a doença, imprevisibilidade do término da quarentena e de avanços tecnológicos para controle da doença foram apontados como fatores de risco para o desenvolvimento de desordem emocional e prejuízo da qualidade de vida (QV) (Leong Bin Abdullah et al., 2021; Silva et al., 2021; Ornell et al., 2020).
No contexto acadêmico soma-se, aos fatores citados acima, a suspensão abrupta das aulas presenciais, falta de acesso à universidade, rompimento da convivência com os colegas e professores, incerteza do retorno às aulas (Leong Bin Abdullah et al., 2021; Silva et al., 2021; Chang; Yuan; Wang, 2020; Wilder-Smith; Freedman, 2020).
Estudos realizados na Índia (Balhara et al., 2020), EUA (Mechili et al., 2020) e Grécia (Kaparounaki et al., 2020) identificaram uma prevalência de sintomas depressivos entre universitários durante o período da pandemia. Nos EUA, observou-se ainda um aumento nos sintomas de depressão, ansiedade, solidão e abuso de álcool entre participantes com idades entre 18 e 35 anos (Horigian; Schmidt; Feaster, 2020).
O prejuízo na saúde mental e na QV dos estudantes universitários durante o período da pandemia também foi demonstrado nos trabalhos realizados na Espanha (Odriozola-González et al., 2020), França (Wathelet et al., 2020), Colômbia (Pedrozo-Pupo; Pedrozo-Cortés; Campo-Arias, 2020), Estados Unidos (Son et al., 2020), Malásia (Leong Bin Abdullah et al., 2021), China (Cai et al., 2021), Jordânia (Almhdawi et al., 2021) e Noruega (Beisland et al., 2021).
Pesquisas realizadas com estudantes universitários brasileiros revelaram o impacto da pandemia de COVID-19 no prejuízo da autopercepção da saúde mental (Cortes; Pinho; Passos, 2023) e no aumento dos sintomas de depressão, estresse e qualidade de vida (Santos et al., 2022). Além disso, o Brasil foi apontado como um dos países com maiores índices de comprometimento da saúde mental, de acordo com uma pesquisa realizada pela CHEGG em 2021 (CHEGG.Org, 2021).
É amplamente reconhecido que a QV influencia na capacidade de concentração, sono e energia que, por sua vez, interfere, diretamente, no processo de aprendizado e formação do estudante universitário (Souza et al., 2021; Oliveira et al., 2020; Son et al., 2020). Dado que os estudos têm indicado uma diminuição na QV da população durante a pandemia, o objetivo deste trabalho foi avaliar a QV e os fatores associados dos estudantes universitários neste período.
2 Método
2.1 Tipo de estudo e participantes
Este é um estudo transversal realizado em duas universidades públicas brasileiras do estado de Goiás. A seleção das universidades foi baseada na participação dos pesquisadores como membros do corpo docente das mesmas. Estima-se que as duas universidades possuem juntas um total de 8.600 estudantes matriculados nos cursos de graduação (UFG, 2022; UFJ, 2022).
Em decorrência da suspensão das aulas presenciais e em conformidade com a Lei Geral de Proteção dos Dados Pessoais (Brasil, 2018), a Pró-Reitoria de Graduação das duas universidades assumiu a responsabilidade de enviar, por e-mail, o convite para participação na pesquisa a todos os estudantes regularmente matriculados em todos os cursos de graduação. O convite foi enviado no período de 04 de setembro a 03 de novembro de 2020, seis meses após a OMS declarar a pandemia do novo Coronavírus.
Junto ao convite, foi enviado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) adaptado para a versão on-line, com informações assegurando a privacidade da identificação e a confidencialidade dos dados. Além disso, os estudantes tinham a opção de retirar o consentimento a qualquer momento sem que isso prejudicasse sua formação acadêmica.
Ao aceitar participar da pesquisa, o estudante tinha acesso ao questionário sociodemográfico e ao questionário de QV, WHOQOL-bref, todos adaptados para a versão on-line. Para evitar respostas duplas do mesmo participante, a função "limitar respostas a uma vez por pessoa" foi ativada.
Cento e quarenta e seis estudantes responderam à pesquisa. Entretanto, dois deles deixaram de responder seis ou mais questões do instrumento de avaliação da QV, sendo assim, foram excluídos da amostra (Pedroso et al., 2010; WHOQOL GROUP, 2012). Dessa forma, a pesquisa contou com a participação de 144 estudantes, todos com idade superior a 18 anos, de ambos os sexos e provenientes de diferentes cursos de graduação.
3 Coleta de dados
Um questionário sociodemográfico foi utilizado para identificar o perfil dos participantes incluindo dados como idade, sexo, cor da pele autodeclarada, situação conjugal, renda familiar, instituição de ensino superior e número de horas dormidas por noite.
Para avaliar a qualidade de vida utilizou-se o WHOQOL-bref. Este instrumento é autoaplicável e composto por 26 questões. As duas primeiras questões referem-se à autopercepção da QV e da saúde e as demais questões abordam a QV em quatro domínios (físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente). Este instrumento foi desenvolvido pela OMS, traduzido e validado no Brasil. Cada questão é pontuada em uma escala Likert de 5 pontos, variando de 1 (nada/ muito, ruim/ nunca) a 5 (extremamente/completamente/ muito bom/ sempre) (WHOQOL GROUP, 2012; Fleck et al., 1999).
A análise do WHOQOL-bref foi realizada usando a ferramenta on-line elaborada por Pedroso et al. (2010) seguindo os critérios de correção estabelecidos pelo Grupo WHOQOL (Fleck et al., 1999). Essa ferramenta automatiza os cálculos dos escores e a estatística descritiva. É compatível com diferentes versões do software Microsoft Office (2000, XP, 2003 e 2007) e pode ser baixada através do link http://www.brunopedroso.com.br/whoqol-bref.html (Pedroso et al., 2010).
4 Análise estatística
As informações do questionário sociodemográfico e do WHOQOL-bref foram organizados em uma planilha do Excel (Microsoft Office Excel® 2010) e posteriormente transferidas para o software estatístico Stata versão 12.0®.
As variáveis categóricas foram apresentadas em frequência absoluta e relativa, o teste de normalidade (Shapiro-Wilk) foi aplicado para as variáveis numéricas. As variáveis normais foram descritas em termos de média e desvio padrão e as não normais em medianas e intervalos interquartil.
A comparação dos domínios do WHOQOL-bref por variáveis selecionadas foi realizada por meio do teste t-Student. As análises de regressão bivariada e multivariada foram usadas para examinar a associação entre as variáveis selecionadas e os domínios do WHOQOL-bref. Na análise de regressão multivariada foram selecionados potenciais variáveis de ajuste (universidade, idade, sexo, cor de pele, situação conjugal, renda familiar e número de horas dormidas) com significância estatística de 20% (p-valor <0,20).
5 Declaração ética
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob n°. CAAE 31942620.5.0000.5083.
5.1 Resultados
O estudo contou com 144 estudantes, sendo que 82 (56,94%) estudantes moravam na mesma cidade da IES e a maioria dos participantes eram estudantes da IES 2 (56,9%). Possuíam idade inferior a 23 anos (56,9%), sexo feminino (77,8%), cor da pele autorreferida parda (45,8%), que viviam sem companheiro(a) (87,5%) e com renda familiar acima de quatro salários-mínimos (51,4 %), conforme demonstrado na Tabela 1.
Tabela 1 Características dos acadêmicos de instituições públicas federais do estado de Goiás Brasil 2020/2021 (n = 144)
| VARIÁVEIS CATEGÓRICAS | N (%) |
|---|---|
| Instituição de Ensino Superior | |
| IES 1 | 62 (43,1) |
| IES 2 | 82 (56,9) |
| Cidade onde morava | |
| Na mesma cidade da IES | 82 (56,9) |
| Em outra cidade | 62 (43,1) |
| Idade (anos) | |
| < 23 | 82 (56,9) |
| ≥ 23 | 62 (43,1) |
| Sexo | |
| Masculino | 32 (22,2) |
| Feminino | 112 (77,8) |
| Cor de Pele | |
| Branca | 57 (39,6) |
| Parda | 66 (45,8) |
| Amarela | 16 (11,1) |
| Preta | 4 (2,8) |
| Indígena | 1 (0,7) |
| Situação Conjugal | |
| Com companheiro(a) | 18 (12,5) |
| Sem companheiro(a) | 126 (87,5) |
| Renda Familiar | |
| ≤ 4 salários mínimos | 70 (48,6) |
| > 4 salários mínimos | 74 (51,4) |
| Número de Horas Dormidas | |
| < 8 horas por noite | 78 (54,17) |
| ≥ 8 horas por noite | 66 (45,83) |
IES 1: Instituição de Ensino Superior 1. IES2: Instituição de Ensino Superior 2. Frequências absoluta e relativa apresentadas como: N (%).
A maioria dos estudantes (44,4%) considerou sua QV como "boa", 31,9% "nem ruim, nem boa", 15,9% "muito boa", 6,9% "ruim" e 0,7% "muito ruim". Quanto à autopercepção sobre a saúde, a maioria dos estudantes (38,2%) mostrou-se "satisfeita" com a própria saúde, 31,6% avaliaram como "nem insatisfeito, nem satisfeito", 16,7% "insatisfeitos", 9,7% "muito satisfeitos" e 3,4% "muito insatisfeitos".
Em relação aos domínios do WHOQOL-bref, as relações sociais obtiveram maior pontuação (13,5 ± 3,9) seguidas pelo domínio meio ambiente com 13,15 ± 3,01, domínio físico com 12,77 ± 2,54 e domínio psicológico com 12,73 ± 2,54.
Uma análise comparativa entre os escores encontrados para QV Geral/Total e os domínios do WHOQOL-bref com cada uma das variáveis sociodemográficas (IES, idade, sexo, cor de pele autorreferida, situação conjugal, renda familiar e número de horas dormidas) foi realizada e possibilitou verificar que menos de 8 horas de sono diminuiu significativamente o escore de todos os domínios quando comparado com quem dorme 8 horas ou mais (Tabela 2).
Tabela 2 Avaliação dos domínios do WHOQOL-bref de acordo com número de horas dormidas e dados sociodemográficos dos acadêmicos de instituições públicas federais do estado de Goiás Brasil 2020/2021 (n=144)
| VARIÁVEIS | QV Geral/Total Média e DP | Domínio Físico Média e DP | Domínio Psicológico Média e DP | Domínio Relações Sociais Média e DP | Domínio Meio Ambiente Média e DP | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Número de Horas Dormidas |
< 8 horas (n=78) ≥ 8 horas (n=66) |
12,56 (0,25) 13,65 (0,27) |
12,42 (0,24) 13,18 (0,35) |
12,16 (0,33) 13,41 (0,29) |
12,92 (0,47) 14,14 (0,45) |
12,58 (0,33) 13,82 (0,36) |
| p-valor | 0,002 | 0,037 | 0,003 | 0,032 | 0,006 | |
| Instituição de Ensino Superior |
IES 1 (n= 62) IES 2 (n=82) |
13,27 (0,30) 12,90 (0,23) |
13,57 (0,34) 12,15 (0,25) |
12,63 (0,37) 12,80 (0,29) |
13,07 (0,46) 13,79 (0,46) |
13,24 (0,38) 13,08 (0,34) |
| p-valor | 0,838 | <0,001 | 0,357 | 0,141 | 0,379 | |
| Idade (anos) |
< 23 (n=82) ≥ 23 (n=62) |
13,55 (2,09) 12,40 (2,28) |
13,04 (2,58) 12,42 (2,45) |
13,17 (2,49) 12,15 (2,99) |
13,97 (3,67) 12,84 (4,20) |
13,93 (2,79) 12,12 (2,98) |
| p-valor | 0,001 | 0,080 | 0,014 | 0,044 | <0,001 | |
| Sexo |
Masculino (n=32) Feminino (n=112) |
13,58 (0,44) 12,91 (0,20) |
13,18 (0,38) 12,65 (0,25) |
13,71 (0,55) 12,45 (0,24) |
13,67 (0,74) 13,43 (0,37) |
13,47 (0,64) 13,06 (0,27) |
| p-valor | 0,067 | 0,149 | 0,011 | 0,388 | 0,251 | |
| Situação Conjugal | Sem companheiro(a) (n = 126) | 13,25 (0,20) | 12,84 (0,22) | 12,91 (0,24) | 13,51 (0,35) | 13,51 (0,26) |
| Com companheiro(a) (n = 18) | 11,73 (0,49) | 12,25 (0,63) | 11,48 (0,66) | 13,26 (0,98) | 10,31 (0,56) | |
| p-valor | 0,003 | 0,181 | 0,020 | 0,399 | <0,001 | |
| Renda Familiar |
1 a 3 salários (n=70) 4 ou mais salários (n=74) |
12,61 (0,25) 13,48 (0,26) |
12,14 (0,25) 13,36 (0,32) |
12,65 (0,33) 12,81 (0,32) |
13,87 (0,50) 13,12 (0,42) |
12,33 (0,34) 13,92 (0,34) |
| p-valor | 0,009 | 0,002 | 0,362 | 0,127 | <0,001 | |
Nota: IES 1: Instituição de Ensino Superior 1. IES2: Instituição de Ensino Superior 2.
Frequências absoluta apresentadas como: N.
DP: desvio padrão
p-valor refere: Teste t-Student não pareado, considerando p<0,05 para significância estatística (em negrito)
O número de horas dormidas e idade se mostraram associadas com a QV Geral/Total (Tabela 3). O domínio físico mostrou-se associado à IES e a renda familiar; o domínio psicológico ao número de horas dormidas, idade, sexo e a situação conjugal. O domínio meio ambiente mostrou-se associado com o número de horas dormidas, idade, situação conjugal e renda familiar. Não houve nenhuma associação entre as variáveis com o domínio relações sociais.
Tabela 3 Associação entre as características sociodemográficas e os domínios do WHOQOL- bref dos acadêmicos de instituições públicas federais do estado de Goiás brasil 2020/2021 (n=144)
| Geral/Total | Domínio Físico | Domínio Psicológico | Domínio Relações Sociais | Domínio Meio Ambiente | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| β 1 (95% IC) | p-valor 1 | β 1 (95% IC) | p-valor 1 | β 1 (95% IC) | p-valor 1 | β 1 (95% IC) | p-valor 1 | β 1 (95% IC) | p-valor 1 | |
| Número de horas dormidas (< 8horas/≥8horas) | 1,094 (0,373; 1,816) | 0.003 | 0,760 (-0,073; 1,591) | 0.073 | 1,241 (0,350; 2,131) | 0,007 | 1,218 (-0,0707; 2,508) | 0,064 | 1,242 (0,267; 2,218) | 0,01 3 |
| IES (IES 1 /IES 2) Idade (anos) (<23/≥23) | -0,373 (-1,120; 0,373) -1,155 (-1,880; -0,432) |
0.324 0.00 2 |
-1,422 (-2,235; -0,608) -0,600 (-1,441; 0,241) |
0.001 0.161 |
0,170 (-0,750; 1,089)-1,020 (-1,924; -0,115) |
0,715 0,027 |
0,714 (-0,594;2,022) -1,128 (-2,428; 0,171) |
0,283 0,088 |
-0,156 (-1,160; 0,847) -1,812 (-2,769; -0,854) |
0,758 0,000 |
| Sexo (masculino/ feminino) | -0,674 (-1,560; -0,210) | 0.134 | -0,531 (-1,535; 0,474) | 0.298 | -1,255 (-2,331; -0,180) | 0,02 3 | -0,239 (-1,802;1,325) | 0,763 | -0,406 (-1,560; 0,787) | 0,502 |
| Situação Conjugal (com/sem companheiro/a) | -1,511 (-2,604; -0,419) | 0.00 7 | -0,585 (-1,849; 0,679) | 0.362 | -1,428 (-2,785; -0,719) | 0,03 9 | -0,254 (-2,219; 1,712) | 0,799 | -2,90 (-4,328; -1,481) | 0,00 0 |
| Renda Familiar (≤4/>4 salários mínimos) | 0,878 (0,151; 1,605) | 0.018 | 1,220 (0,405; 2,034) | 0.00 4 | 0,163 (-0,748; 1,074) | 0,724 | -0,750 (-2,045; 0,545) | 0,254 | 1,590 (0,631; 2,548) | 0,00 1 |
| Número de horas dormidas (< 8horas/≥8ho-ras) | 0,829 (0,128; 1,531) | 0,021 | 0,641 (-0,174; 1,457) | 0,122 | 1,027 (0,140; 1,915) | 0,02 4 | 1,144 (-0,172; 2,460) | 0,088 | 0,736 (-0,156; 1,628) | 0,105 |
| IES (IES 1 /IES 2) Idade (anos) (<23/≥23) | 0,767 (-0,923; 1,077) -0,771 (-1,523; -0,019) |
0,88 0,045 |
-1,374 (-2,537; -0,211) -0,525 (-1,400; 0,345) |
0,02 1 0,237 |
0,134 (-1,132; 1,400) -0,742 (-1,694; 0,210) |
0,835 0,126 |
-0,055 (-1,931; 1,822) -1,202 (-2,614; 0,208) |
0,954 0,094 |
1,376 (0,104; 2,648) -0,906 (-1,863; 0,502) |
0,034 0,063 |
| Sexo (masculino/ feminino) | -0,744 (-1,573; 0,839) | 0,078 | -0,615 (-1,578; 0,348) | 0,209 | -1,306 (-2,355; -0,257) | 0,01 5 | -0,315 (-1,869;1,239) | 0,69 | -0,478 (-1,532; 0,575) | 0,371 |
| Situação Conjugal (com/sem companheiro/a) | -1,014 (-2,113; 0,085) | 0,07 | -0,416 (-1,694; 0,862) | 0,521 | -0,863 (-2,254; 0,528) | 0,222 | 0,575 (-1,487; 2,637) | 0,582 | -2,256 (-3,654; -0,859) | 0,00 2 |
| Renda Familiar (≤4/>4 salários mínimos) | 0,831 (-0,164; 1,825) | 0,101 | 0,182 (-0,974; 1,339) | 0,756 | 0,151 (-1,108; 1,410) | 0,812 | -0,992 (-2,858; 0,874) | 0,295 | 2,465 (1,200; 3,730) | 0,00 0 |
Nota: IES 1: Instituição de Ensino Superior 1. IES2: Instituição de Ensino Superior 2.
95% IC: intervalo de confiança de 95%
β: coeficiente de regressão, sendo β 1 regressão bivariada e β 2 regressão linear multivariada.
6 Discussão
Este estudo investigou a QV e fatores associados dos estudantes universitários de duas universidades públicas do estado de Goiás durante o período de isolamento social causado pela pandemia de COVID-19.
A maioria dos alunos participantes era da IES 2, moravam na mesma cidade da IES, tinha menos de 23 anos de idade, era do sexo feminino, vivia sem companheiro(a) e possuía renda familiar acima de quatro salários mínimos. A maioria considerava sua qualidade de vida como boa e estava satisfeita com sua saúde, assim como os universitários que participaram de outros estudos no Brasil no período de pandemia (Vilanova-Campelo et al., 2021; Silva, 2021; Ramos et al., 2020).
Em nosso estudo, os estudantes apresentaram uma pontuação mais alta no domínio relações sociais, indicando que receberam apoio e suporte social durante a pandemia. O domínio das relações sociais envolve suporte e apoio social (WHOQOL GROUP, 2012). Esse resultado está em concordância com os achados dos estudos de Silva (2021), Leite et al. (2020) e Ramos et al. (2020).
Mesmo diante das medidas rígidas de isolamento social para controle da disseminação da doença, uma possível explicação para estes resultados pode ser encontrada no estudo de Cheah et al. (2021) e Clemente e Stoppa (2020), no qual os participantes utilizaram a tecnologia (chamada telefônica por vídeo, participar de lives musicais e eventos científicos de forma remota) como uma ferramenta para manter o contato social com os amigos, familiares e comunidade.
Outro fator que pode ter influenciado na pontuação do domínio relações sociais é o retorno dos estudantes que se mudaram de cidade para cursar a graduação à casa de suas famílias no período da pandemia. Isso pode ter proporcionado a oportunidade de receber suporte social e emocional de seus entes queridos (Alomar; Palaian; Shanableh, 2021; Leite et al., 2020).
O domínio do meio ambiente está relacionado à percepção do indivíduo quanto a segurança física e proteção, ambiente físico, recursos financeiros, transporte, disponibilidade e qualidade dos cuidados de saúde e sociais, oportunidades de adquirir novas informações e habilidades, participação em recreação e lazer (WHOQOL GROUP, 2012). Dessa forma, o retorno dos estudantes à casa dos pais, proporcionado um ambiente seguro e protegido, onde podem receber os cuidados essenciais para a saúde, pode ter contribuído para uma boa pontuação no domínio meio ambiente.
O domínio físico permite avaliar a percepção do indivíduo sobre sua capacidade física, como a dor e desconforto, energia e fadiga, sono e repouso, mobilidade, atividade física cotidiana e capacidade para o trabalho (WHOQOL GROUP, 2012). A pontuação encontrada nesse estudo do domínio físico pode ter sido influenciada pela falta de planejamento de horários de estudo, pelo desconforto causado pelo excesso de exposição à tela do computador, além de fadiga visual, dores de cabeça e dores musculares durante as atividades acadêmicas remotas em condições ergonômicas desfavoráveis (Silva et al., 2021).
A não dependência dos alunos ao transporte público ou caronas para locomover-se até a universidade também pode ser considerada (Barros; Peixoto, 2022). Os estudantes que possuíam renda familiar maior obtiveram melhores pontuações neste domínio indicando que o ambiente de estudo destes poderia propiciar maior conforto. Estes sinais e sintomas podem afetar a qualidade do sono que gera desatenção, dores e sintomas depressivos, podendo afetar o desempenho acadêmico (Menegaldi-Silva et al., 2022).
O local de estudo é uma das principais dificuldades encontradas pelos estudantes durante o período de pandemia pois o ambiente de aprendizagem é dividido com os demais membros da casa. Nesse caso, a presença de diversos estímulos pode desviar a atenção e a concentração do estudante durante as aulas impactando no desempenho acadêmico (DOSEA et al., 2020).
O domínio com a menor pontuação foi o psicológico. Este domínio envolve sentimentos positivos e negativos, pensar, aprender, memória e concentração, autoestima, imagem corporal e aparência, espiritualidade/religião/crenças pessoais (WHOQOL GROUP, 2012). A baixa pontuação neste domínio também foi observada no estudo de Santos et al. (2022) que destacou o surgimento de pensamentos negativos devido ao isolamento social, o medo de ser infectado, morrer ou de perder pessoas queridas. Acompanhando esses fatores, destacam-se ainda a ansiedade, desesperança, raiva e a sensação de desamparo, que podem contribuir para a baixa pontuação nesse domínio (Meister et al., 2023)
A variável "número de horas dormidas" mostrou-se associada a todos os domínios da QV. A dificuldade em gerenciar o tempo de estudo junto com as outras atividades diárias tornaram-se mais evidente. O tempo dedicado a redes sociais, filmes e séries aumentou, enquanto as atividades acadêmicas deixaram de ser prioridade. Isso afetou a qualidade do sono, com alguns estudantes enfrentando insônia, enquanto outros sofriam de sono excessivo (Duong et al., 2023). A má qualidade do sono foi identificada como um dos fatores que impactam negativamente a QV dos estudantes em estudos conduzidos na Turquia (Yavuz; Kugu, 2022), China (Zhang et al., 2022) e Espanha (Ramón-Arbués et al., 2022). Além disso, a má qualidade do sono está associada ao surgimento de estresse (Alotaibi et al., 2020), mudanças de humor (Short et al., 2020) e um desempenho acadêmico inferior (Al Shammari et al., 2020).
Conclusão
Neste estudo, o domínio psicológico obteve menor pontuação pode-se inferir que o mesmo esteja relacionado ao fato de estarmos em período pandêmico em que houve restrição do convívio social, informações restritas sobre a doença bem como alta incidência de infecção e mortalidade (Silva et al., 2021). Foi possível observar a associação entre as variáveis sociodemográficas selecionadas e a QV, principalmente em relação a variável número de horas dormidas.
Ressalta-se que o grupo de estudantes que participou deste estudo, em sua maioria, vive em ambiente cuja renda familiar é superior a 4 salários, não podendo extrapolar para outros grupos com renda inferior.
Diante do aumento da ocorrência de transtornos mentais durante a pandemia, estudiosos da área têm enfatizado a urgência de implementar medidas de intervenção nas universidades para promover e preservar a saúde mental desse público (Ritvo et al., 2021).
As principais limitações deste estudo é o fato de não podermos determinar uma relação causal entre as variáveis sociodemográficas selecionadas e a QV, além disso, por ter uma amostragem não probabilística, este estudo não permite a generalização dos resultados. A falta de acesso dos pesquisadores ao e-mail dos estudantes prejudicou a divulgação da pesquisa em larga escala. Além disso, para aqueles que o e-mail foi enviado, tivemos pouco retorno dos questionários respondidos constatando a baixa adesão dos estudantes das duas instituições. Existem algumas desvantagens em relação às pesquisas realizadas por meio do correio eletrônico: as respostas aos questionários online geralmente são mais baixas, a taxa de retorno de questionários enviados por e-mail é de 34,8% (Tai et al., 2018).










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