Este é o volume 50 da Educação e Pesquisa. É, portanto, o último antes de a revista, inicialmente intitulada Revista da Faculdade de Educação da USP, completar seus 50 anos. Quase tão longeva quanto a própria unidade, a revista passou por muitas mudanças ao longo dos anos, que revelam novos modos de pensar a pesquisa e a comunicação científica. Se hoje parte importante das atividades de editoria de um periódico está voltada para os critérios de avaliação estabelecidos por comissões da Capes, em 1975, quando a revista foi criada, a principal atividade da Capes não era a avaliação da pesquisa ou de publicações científicas, mas a preocupação com a formação de professores e de pesquisadores para as universidades nacionais.
Critérios definidos para avaliação de periódicos impactam diretamente no dia a dia da editoria de uma revista, assim como a avaliação influencia a escolha, por pesquisadores, do periódico para o qual seu trabalho será encaminhado.
Neste sentido, a Educação e Pesquisa encara o bônus e o ônus do padrão de qualidade atingido ao longo dos tempos, tendo recebido, entre 2021 e 2023, uma média de 690 manuscritos, anualmente.
Tramitar todos estes textos demanda um trabalho coordenado de toda a equipe editorial, passando pela secretaria, pelos editores assistentes, pela editoria-chefe, e por seus numerosos avaliadores. Agradecemos a cada um de vocês por nos ajudarem nesta tarefa.
Neste ano de 2024 agradecemos especialmente a uma colega, professora da Faculdade de Educação da USP, que nos deixou, precoce e repentinamente, em setembro. Maria Angela Borges Salvadori foi editora assistente da Educação e Pesquisa entre os anos de 2012 e 2016. Neste período, a revista publicava seus artigos em fascículos impressos, embora também já disponibilizasse o material em formato digital. Com quatro edições anuais impressas, uma das atividades dos editores assistentes era organizar o editorial de cada número. Para o número 4, do volume 42, Maria Angela escreve o editorial intitulado “Olhar o outro, olhar a si, olhar junto” e o inicia com as seguintes frases:
Em Olhos de Madeira (2001), Carlo Ginzburg escreve sobre o estranhamento como critério fundamental para a produção de conhecimento. No prefácio da obra, defende o que se pode compreender como uma epistemologia da distância, condição indispensável para perceber o outro e, na direção inversa, o que somos. (Salvadori, 2016, p. 877).
Para este editorial, o estranhamento da ausência da Maria Angela nos permite reafirmar muito do que tivemos o privilégio de aprender enquanto convivemos com ela: a beleza e a elegância nas relações cotidianas, o cuidado com o outro, para que o outro perceba suas próprias qualidades, e a gentileza em permitir o diálogo afetuoso qualquer que fosse o assunto e o contexto.
Ao citar as ideias de Carlo Ginzburg, Maria Angela antecipa o efeito da sua ausência em nosso convívio diário, deixando boas lembranças, e, generosamente como ela era, nos ensina que a delicadeza e a seriedade não são contraditórias.
Com pessoas como Maria Angela em mente, continuamos nosso trabalho cotidiano na editoria da Educação e Pesquisa buscando aprimorar processos e métodos, de forma a corresponder sempre aos padrões de qualidade alcançados pela revista.
Neste mesmo ano de 2024, em consonância com critérios estabelecidos pelo Scielo, envidamos muitos esforços para atualizar as informações constantes no site da revista, especialmente aquelas destinadas a pessoas que cogitam Educação e Pesquisa como opção para envio de seus textos.
Também efetuamos mudanças no formulário de avaliação dos manuscritos, buscando descrever mais cada um dos itens e definir classificação de cada um deles para que avaliadores possam se sentir mais seguros na avaliação, o que impacta diretamente na decisão da editoria e na qualidade dos textos em seu formato final.
Também considerando demandas e apoio trazidos pelo Scielo, passamos a oferecer a autores de manuscritos submetidos à Educação e Pesquisa que possuem dados empíricos a possibilidade de alojá-los no repositório digital DataVerse7. Esta disponibilização é mais um elemento para concretização de fundamentos da ciência aberta e é um importante avanço para a avaliação dos textos, uma vez que permite a pareceristas e leitores o contato com as informações que sustentaram o estudo.
No editorial do volume 49, em 2023, pontuamos alguns elementos sobre o processo de avaliação e, em especial, o volume de trabalho associado a esta atividade envolvendo a atuação da secretaria, de editores e de pareceristas. A avaliação de textos é chave para a pesquisa acadêmica e caracteriza o conhecimento científico como elemento e produto de atividade social (Longino, 1990).
A função da avaliação por pares não é só checar se os dados parecem certos e as conclusões bem fundamentadas, mas para trazer à tona outra perspectiva sobre o fenômeno, cuja expressão pode levar a autoria do original a revisar o modo como pensam sobre e apresentam suas observações e conclusões. Colocando de outro modo, é para ter certeza de que a autoria interpretou os dados de um modo que é livre de suas preferências subjetivas. (Longino, 1990, p. 68-69, tradução nossa).
Tão importante e central ao processo editorial quanto as próprias publicações, a emissão de pareceres nem sempre recebe o mesmo crédito. Uma avaliação cuidadosa e criteriosa envolve a pessoa parecerista em processo de leitura, de análise e, muitas vezes, de busca por outros materiais para sugerir à autoria ou para complementar e aprimorar seus próprios entendimentos de modo a oferecer comentários que tenham possibilidade de contribuir com o texto em análise. São horas dedicadas à tarefa, e um recente estudo (Horta; Santos, 2024) revela que o engajamento de pessoas com a emissão de pareceres está relacionado a valores pessoais, perspectivas e escolhas que envolvem aspectos de estratégias de pesquisa. O estudo mostra que a publicação surge como prioridade para acadêmicos:
Isso não é uma surpresa, considerando a natureza competitiva dos sistemas de avaliação acadêmica e de pesquisa, principalmente associados à progressão na carreira, que são baseados nos perfis de publicação dos acadêmicos. (Horta; Santos, 2024, p. 1565, tradução nossa).
As ideias que subjazem a esta afirmação revelam que os ganhos, inclusive financeiros, com publicações podem ser mais diretos para uma pessoa do que a atividade de parecerista. Importante frisar que na realidade de periódicos nacionais, assim como editores de periódicos não são pagos para exercer esta atividade, a emissão de avaliação para manuscritos submetidos às revistas também não envolve remuneração.
Uma solução simples poderia ser a remuneração pela tarefa. Como toda resposta simples para um problema complexo, há ponderações que revelam contratempos em decorrência. Neste caso, a remuneração por parecer emitido pode gerar a profissão de parecerista e, em uma realidade em que esta tarefa se consolide, é possível cogitar o trabalho incessante e massificante de pessoas avaliando muitas propostas em curtos intervalos de tempo, de modo a garantir um salário minimamente aceitável. Em decorrência, surgem dúvidas sobre a qualidade de uma tarefa que pode assumir características de automação, em oposição ao envolvimento intelectual que costuma ser a marca dos bons pareceres.
Outra solução recente, que dialoga com preceitos da ciência aberta, é a produção de artigos a partir de pareceres. Embora esta não seja a finalidade desta modalidade de texto, é possível que seja entendida como uma bonificação à pessoa que emite pareceres, pois, se o tempo dedicado à tarefa concorre com a atividade de produzir um novo texto, seria possível ter uma publicação a partir da discussão mais estendida sobre um método de pesquisa ou sobre fundamentos teóricos que foram utilizados para a análise e construção de um parecer.
Um outro problema enfrentado pelas editorias de periódicos, que tem algum vínculo com a emissão de pareceres, são os prazos de tramitação de manuscritos. Avaliações externas de revistas consideram o tempo de tramitação, dentre outras variáveis, para classificar a qualidade de periódicos. Em medida semelhante, estes prazos são considerados por pessoas autoras no momento de submissão de seus produtos de pesquisa.
Um estudo realizado com dados coletados entre pesquisadores de um instituto localizado na Noruega busca entender aspectos relacionados à produtividade em pesquisa, mais especificamente à produção de textos escritos (Nygaard, 2017). Embora elementos considerados na coleta e discussão de informações, chamados de “aspectos de negociação”, sejam próprios daquele contexto, de modo geral, os resultados do estudo dialogam com a realidade que vivemos no país. São apresentados e discutidos quatro “aspectos de negociação” em pauta durante a construção de produtos advindos da pesquisa: gênero (da escrita), colaboração (se em coautoria ou texto solo), qualidade (alcance ou extensão do produto) e processo (como o texto é produzido).
De modo geral, os três primeiros aspectos revelam elementos vinculados aos impactos que a produção pode ter, seja pelo tipo de texto escolhido, pela pontuação recebida a partir dele (no contexto norueguês, artigos escritos em coautoria tem seu crédito fracionado entre coautores quando é necessário contabilizar a produtividade de pesquisadores) ou pela intenção em divulgar mais rapidamente e menos extensamente os resultados de uma pesquisa. Elementos como estes impactam diretamente na qualidade da pesquisa, embora, à primeira vista, isso não fique evidente. A escolha de onde se publica e da extensão do estudo não necessariamente se vinculam a uma expectativa de diálogo com pares, mas à possibilidade de haver um resultado de pesquisa divulgado. De modo semelhante, a escolha por produzir textos com ou sem co-autoria, se apenas considerada pelo fracionamento de pontuações, pode sustentar concepções e modos de produção intelectual que não se relacionam com características das ciências como prática social (Longino, 1990) e tão fortemente aceitas nos dias atuais.
O último “aspecto de negociação”, o processo, consiste em um problema vivenciado por grande parte de pesquisadores que atuam em instituições de ensino e pesquisa: a necessidade de equacionar o tempo da pesquisa com os tempos do ensino, da extensão e da gestão. Este elemento encontra referência, inclusive, na própria atividade de avaliação já apresentada, sendo reconhecida como de menor importância. De mesmo modo, também a atividade editorial, como mencionado, por não ser atividade remunerada e, em muitos casos, não ter nem valoração simbólica, pode onerar quem a realiza em detrimento da produção que possa realizar.
Diante de tantos e de tão complexos dilemas, e das pressões sofridas para que se publique, o assédio a pesquisadores de revistas consideradas predatórias, para publicação de estudos em curto prazo e a “preços módicos” oferece uma alternativa a quem, por qualquer razão, enfrenta dificuldades em ter seus textos publicados em periódicos com reconhecida qualidade editorial.
Entendidas como problema, as revistas predatórias atuam como solução. Cabe, portanto, inverter a lógica: por que elas existem? Quais condições de produção e comunicação sustentam a existência de periódicos que não se preocupam com a qualidade do que se publica, mas apenas com o pagamento pelo serviço?
Diante disso, assusta pensar na existência de um jogo da comunicação científica, em que a editoria é apenas um dos atores, junto de autores e leitores. Neste jogo, os objetivos seriam os números e não a qualidade do que se publica; e a quantidade de produtos, e não a avaliação ou o processo de produção, legitimaria o que é tomado como boa pesquisa. Em decorrência, poderiam surgir concepções de que políticas editoriais estão mais preocupadas com a recorrência de ideias, sem novidade ou originalidade, atestando supostas relevâncias, em prejuízo de debates críticos, sobre temas emergentes e de fronteiras do conhecimento.
Dentro do que nos é possível, a Educação e Pesquisa tem buscado não fugir a seus objetivos de divulgar resultados relevantes de pesquisas produzidas nas mais diferentes áreas do campo educacional. Por isso, além de artigos submetidos e avaliados em fluxo contínuo e de entrevistas com pesquisadores da área, já tem se tornado recorrente a existência de seções temáticas.
Neste número 50, são 85 artigos publicados que analisam diferentes aspectos e fenômenos educacionais, dos mais tradicionais àqueles que têm ganhado relevância nos dias atuais como, por exemplo, as práticas anti-racistas, as fake news, o bullying. Há, ainda, uma entrevista com a professora Maria Victoria Benevides, professora aposentada da Faculdade de Educação da USP e grande nome dos estudos em educação e direitos humanos. Além disso, este número é composto por textos vinculados a duas seções temáticas que se encerram neste ano: Educação em contexto de crise sanitária causada pela Covid-19 e Juventudes, itinerários e reflexividades. Os trabalhos foram submetidos ao longo de 2022 e início de 2024. A maior parte dos artigos foi publicada no volume 49 de 2023.
Para 2025, as seguintes seções já estão em andamento para publicação no volume 51.
A seção temática intitulada “Práticas educacionais inclusivas no ensino superior: dilemas atuais”, coordenada pelas professoras Rosana Passos (UFMG) e Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins (Unesp), visa discorrer sobre os desafios da implementação das políticas de inclusão e acessibilidade à estudantes com deficiência na Educação Superior em universidades públicas do Brasil. A temática surge da necessidade de se difundir estudos sobre as políticas educacionais e as práticas educacionais inclusivas desenvolvidas nesta etapa de educação; a estrutura, o funcionamento, as ações e os serviços dos Núcleos de Acessibilidade em diferentes contextos universitários; o debate em torno do modelo social da deficiência em diálogo com as políticas afirmativas universitárias; dentre outros que integram as preocupações de valorização da educação como direito fundamental à consolidação de uma sociedade diversa e inclusiva.
A seção temática “Discussões sobre alfabetização e letramento: homenagem à Professora Magda Soares”, organizada por Fernando Rodrigues de Oliveira (Unifesp) e Emerson de Pietri (USP), compõe as muitas manifestações de reconhecimento do papel de Magda Soares para a produção de conhecimentos sobre os processos de alfabetização e de letramento no país, de que são parte suas proposições pedagógicas com vistas ao desenvolvimento do ensino e da aprendizagem da escrita em suas fases iniciais. Os trabalhos em sua homenagem tematizam suas ações no campo da pesquisa e do ensino e oferecem importantes contribuições não apenas para o conhecimento mais detalhado da trajetória e das realizações de Magda Soares, mas também para a produção de conhecimentos no campo dos estudos da alfabetização e do letramento. Como mencionado em outro momento, esta seção temática é tanto uma homenagem como um gesto de agradecimento e reconhecimento pela inestimável contribuição da professora Magda Soares à educação brasileira.
A seção temática intitulada “A Formação de professores, o debate decolonial e as Leis 10639/03 e 11645/08” foi proposta por Mônica do Amaral (FEUSP), Maria da Glória Calado, (FEUSP), Renato Noguera (UFRRJ) e Valdirene Rosa de Souza (FEUSP). Tendo recebido submissões ao longo de 2024, os primeiros textos serão publicados em 2025 e apresentam trabalhos de pesquisa na escola pública, envolvendo a formação de docentes na rede de ensino e ações didático-pedagógicas dirigidas aos discentes da educação básica, com vistas a construir uma epistemologia interseccionada, transversal e pluriversal entre ciências e humanidades com base na história e culturas africana, afro-brasileira e indígena praticadas no território urbano periférico e rural, enquanto espaços de memória e de resistência, de modo a contemplar a diversidade étnico-racial do país no âmbito da formação escolar e garantir a efetivação das Leis 10.639/2003 e 11.645/08. A partir de novas estratégias pedagógicas críticas, decoloniais e contracoloniais, busca apresentar a força propulsora da corporeidade e da ancestralidade africanas e indígenas como instrumentos valiosos e dinamizadores da vida dos extratos sociais e populações historicamente prejudicadas no exercício pleno de seus direitos, sendo, ao mesmo tempo, fundamentais para a promoção de uma educação emancipatória e antirracista.
Por fim, a seção temática sobre “Inteligência Artificial na Educação” está planejada para receber submissões ao longo do ano de 2025 e é coordenada por Julio Cabero (Universidade de Sevilha), Julio Ruiz Palmero (Universidade de Málaga) e Hugo Heredia Ponce (Universidade de Cádiz). A intenção desta seção é discutir a Inteligência Artificial (IA) a partir do entendimento de como ela tem gerado uma rápida transformação no campo da educação, dialogando com seu potencial para a melhoria de processos de ensino e aprendizagem. Portanto, espera-se que esta seção temática consolide o conhecimento existente, fornecendo orientação prática e estímulo do debate crítico em uma área de crescente importância e interesse tanto para a comunidade acadêmica quanto para a sociedade em geral.