Apresentação
Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
A entrevista com as professoras Teresa Cristina Rebolho Rego de Moraes e Denise Trento Rebello de Souza, ex-editoras-chefes da revista Educação e Pesquisa, faz parte das comemorações dos 50 anos do periódico em 2025. No diálogo estabelecido a respeito do período em que exerceram a função, os fios tecidos pelas memórias das entrevistadas foram libertos e compuseram um rio de histórias, afetos e reflexões que nos fazem ver que o percurso trilhado para a consolidação da revista, por elas e por outras pessoas que apoiaram essa jornada, foi muito mais do que um trabalho acadêmico, mas um esforço coletivo que comungou (e ainda comunga) a esperança por uma contribuição efetiva à pesquisa e à educação.
Teresa Rego é docente titular do Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), onde, desde 1998, leciona Psicologia da Educação nos cursos de graduação e pós-graduação. Com formação em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), é mestra em História e Filosofia da Educação, doutora em Psicologia da Educação, livre-docente e professora titular pela FEUSP. Realizou estágios e visitas de pesquisa em renomadas instituições internacionais – incluindo universidades em Portugal, na Espanha, nos Estados Unidos, na França e no México –, além de pós-doutorados pela Universidad Autónoma de Madrid e pela Sorbonne Université Paris Descartes. Sua trajetória acadêmica é marcada por intensa atuação em pesquisa, pela liderança do grupo intitulado Temas da Educação Contemporânea e a Perspectiva Histórico-Cultural (CNPq2) e pela participação em associações científicas nacionais e internacionais, como a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED) e a International Society of Cultural-historical Activity Research (ISCAR). É autora e organizadora de diversas publicações, entre elas as seguintes coleções lançadas pela Editora Segmento: Coleção Pedagogia Contemporânea (4 volumes), História da Pedagogia (6 volumes) e Série Educadores Brasileiros (2 volumes). Suas investigações abordam a psicologia histórico-cultural e suas contribuições para a compreensão dos processos de constituição de subjetividades. Foi editora-chefe da revista Educação e Pesquisa (2008-2015) e representante no Comitê Consultivo da SciELO3 para Ciências Humanas.
Denise Trento é professora sênior do Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação da FEUSP. Desde 1989, desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão junto aos cursos de Licenciatura e Pedagogia, bem como nos programas de pós-graduação, nos níveis de mestrado e doutorado. Formada em Psicologia (1985) e mestra em Psicologia Escolar (1990) pelo Instituto de Psicologia da USP, obteve o título de PhD em Educação pelo Institute of Education da University of London (2001). Sua produção acadêmica concentra-se no estudo da escola e dos processos de escolarização, com ênfase nas práticas e dinâmicas do cotidiano escolar, na formação docente e nas implicações das novas tecnologias da informação e comunicação para a educação. É uma das idealizadoras e fundadoras do Laboratório de Práticas de Formação Inicial e Continuada de Profissionais de Escolas Públicas (LAFOPEP). Integrou a equipe da revista Educação e Pesquisa como editora-assistente (2008-2011) e, posteriormente, como editora-chefe (2011-2016).
A entrevista foi realizada no dia 31 de julho de 2025, pela plataforma de videoconferência Google Meet, em formato de bate-papo, para que os fios da memória sobre o tempo em que atuaram como editoras-chefes da revista fossem evocados à medida que as lembranças ganhassem formas e contornos afetivos e vivos. As entrevistadas tiveram acesso prévio ao roteiro de perguntas e consentiram com a participação na entrevista e com a exposição de seus dados no texto. A entrevista foi gravada e salva no Drive da entrevistadora, sendo a transcrição feita na plataforma Pinpoint4.
As memórias evocadas pelas entrevistadas evidenciam um período de inflexão na história da revista Educação e Pesquisa, marcado por transformações estruturais e pela busca de profissionalização editorial. As professoras recordam que, quando assumiram a editoria, o trabalho ainda se organizava com escassa infraestrutura e dependência de um quadro administrativo reduzido. A crescente demanda de artigos, impulsionada pelas mudanças nas políticas de avaliação acadêmica no País, impôs à equipe liderada pelas editoras-chefes a necessidade de redefinir fluxos, ampliar a comissão de editores-assistentes e adotar estratégias de gestão mais sistemáticas. Nesse contexto, a criação do modelo de dupla editoria representou não apenas uma inovação organizacional, mas também um mecanismo de continuidade e de partilha da responsabilidade editorial.
As entrevistadas destacam que a profissionalização da revista exigiu esforços coletivos que envolveram negociações institucionais, a incorporação de novos funcionários e a criação de funções inéditas, como a de gerente editorial. Esses movimentos possibilitaram reduzir o tempo de tramitação dos artigos, formalizar procedimentos de submissão e ampliar a transparência das avaliações por pares. A adesão à plataforma SciELO e a digitalização do acervo foram conquistas que, além de modernizar os processos, conferiram maior visibilidade nacional e internacional ao periódico. Nesse percurso, a revista tornou-se referência para outras publicações, chegando a oferecer consultoria a equipes editoriais em busca de processos semelhantes.
O enfrentamento ao cenário de produtivismo acadêmico também foi um eixo recorrente nas memórias das entrevistadas. Elas se recordam da sobrecarga causada pelo elevado volume de artigos de baixa qualidade e da necessidade de instaurar avaliações iniciais mais rigorosas, incluindo o uso de softwares de detecção de plágio. Como estratégia de qualificação, instituíram dossiês temáticos que mobilizavam debates contemporâneos e ampliavam a participação de pesquisadores externos à USP, respondendo, assim, às exigências de internacionalização e ao combate à percepção de endogenia. A seção de entrevistas, por sua vez, foi criada como espaço inovador de circulação de ideias, favorecendo o diálogo com pesquisadores estrangeiros e trazendo discussões emergentes para o público brasileiro.
Ao rememorar esse período, tanto Teresa quanto Denise ressaltam não apenas desafios e conquistas, mas também a dimensão humana e formativa da experiência editorial. O trabalho intenso foi atravessado por laços de amizade, cooperação e prazer intelectual, em um ambiente que conciliava rigor acadêmico e convivência afetiva. Para ambas, a editoria constituiu uma oportunidade ímpar de aprendizado sobre os processos de produção e circulação do conhecimento científico, ao mesmo tempo em que reforçou a importância da colaboração coletiva para a sustentabilidade de um periódico acadêmico. Assim, suas narrativas revelam que a consolidação da revista resultou tanto da resistência às pressões externas quanto da construção de uma cultura interna de compromisso, seriedade e entusiasmo com o trabalho editorial.
ENTREVISTA
Viviane Pinheiro (VP): Gostaria de agradecer-lhes a participação nesta entrevista. A revista Educação e Pesquisa faz 50 anos em 2025. Então, teremos uma série de comemorações. Entre essas atividades está a proposta de publicação de entrevistas com as pessoas que foram editoras-chefes da revista. A parceria de vocês aconteceu em um importante período e as contribuições que deixaram trouxeram marcas para a consolidação do periódico como um dos mais relevantes no cenário educacional no Brasil e no mundo.
Teresa Rego (TR): Nós agradecemos por poder participar dessas comemorações, porque a revista foi muito importante para nós, na verdade. Será um texto de entrevista para cada dupla de editores-chefes?
VP: Sim, será um texto por dupla.
Denise Trento (DT): Sim, imagino que para cada dupla. Esse já é um dado para a entrevista, porque essa ideia de duplas de editores-chefes foi algo que começou em nosso período de atuação, porque os editores anteriores não trabalhavam dessa forma. Nós estávamos com muita demanda de trabalho na revista, muitos desafios, e nos ocorreu, em certo momento, que poderíamos fazer esse trabalho em parceria. Eu estive na revista como editora-assistente entre 2008 e 2011. Nesse período em que eu era assistente, era a Professora Lúcia Bruno a editora-chefe. Nós consideramos que seria bacana se pudéssemos dividir um pouco as atividades das editoras-chefes. Havia todo um trabalho de divulgação externa da revista, de dar maior visibilidade, e um trabalho interno de fazer a revista acontecer, de procurar verba, de fazer um meio de campo com a universidade, com a faculdade. Então, a Teresa fez a parceria com a Lúcia nesse período. Também criamos essa prática de manter uma dupla para poder dar uma continuidade ao trabalho da editoria da revista Assim, após essa gestão, em 2011, ficamos Teresa e eu. Essa foi uma das primeiras mudanças que fizemos. Não sei se essa prática existe em outras revistas. Também não sei se ela permanece dessa forma ou não.
VP: Sim, permanece dessa forma. Seguindo essa ideia do trabalho em parceria, podem contar um pouco como foi a experiência na editoria da Educação e Pesquisa?
DT: Eu me lembro que foi um período de muitas transformações, do ponto de vista das mudanças políticas do cenário de publicações. O Brasil estava passando por transformações radicais, eu diria. Estive na revista no período que foi de 2008 a 2011 como editora-assistente, e de 2011 a 2016 como editora-chefe. Saí em 2016, a Teresa saiu em 2015.
TR: Fiquei na revista de 2008 a 2015. Então, fui editora-chefe por duas gestões. Fui editora-chefe com as colegas Lúcia Bruno e com a Denise. Que eu me lembre, foi até a Marta Kohl que me indicou para compor a editoria. Uma das razões era porque eu tinha certa experiência trabalhando com editoração. Eu produzia muitos livros, já tinha trabalhado na revista e em algumas publicações da Editora Abril. Enfim, cheguei e, nesse percurso, achei que era um trabalho extremamente desafiador, mas bastante recompensador e também muito formativo. Foi uma experiência maravilhosa. Foram anos incríveis, de trabalho realmente muito intenso, em que aprendi demais. De editora-assistente, logo fui convidada para fazer dupla com a Lúcia como editora-chefe. Como a Denise falou, naquele período houve um boom de artigos que começaram a ser submetidos, um aumento muito grande mesmo. Entre outras razões, por causa das mudanças políticas da época. No lugar do livro e do capítulo, o artigo começou a virar algo muito valorizado no cenário de avaliação de produtividade acadêmica. A revista Educação e Pesquisa sempre foi muito prestigiada e muito procurada. Nós já tínhamos um fluxo grande, só que, nesse período, acho que duplicou – se não triplicou – a quantidade de artigos. E nós contávamos com uma estrutura menor, por isso nós optamos por essa dupla de editores, que funcionou muito bem para atender à crescente demanda de trabalhos. Mais do que isso, acho que houve mudanças internas que nós fomos obrigadas a fazer com o objetivo de profissionalizar os processos editoriais da revista. É preciso lembrar que, apesar dos esforços e das conquistas dos colegas que nos antecederam, quando nós assumimos, era tudo muito precário do ponto de vista dos recursos humanos e materiais. Nós tínhamos uma secretária, basicamente, que era muito esforçada, muito trabalhadora, mas não tinha formação para desempenhar essa função. Nós não tínhamos sala, nós não tínhamos praticamente nada. A secretária trabalhava em uma espécie de cubículo ligado ao espaço de outra seção. Nós não tínhamos verba, era tudo muito amador mesmo.
DT: Tínhamos verba do SiBi5. A verba do SiBi sempre teve.
TR: É, mas era uma verba muito pequena. Nós não tínhamos recursos financeiros para dar esse salto profissional, né? Então, nós fomos fazendo o que podíamos.
VP: Só voltando à questão da necessidade de organização da comissão editorial. Devido a esse aumento de artigos, foi necessária uma reorganização da comissão? Foi necessário mudar o funcionamento da revista?
DT: No começo, eram dois editores-assistentes por departamento. Eram seis, no total. Nós começamos com essa reorganização dos editores-assistentes. Passamos a três por departamento. Acho que, inicialmente, aumentamos o número de assistentes e posteriormente é que aumentamos para dois editores-chefes. Então, passaram a ser nove assistentes e dois chefes. A revista teve esse grande impulso quando nós fomos acolhidos pela Biblioteca. Aí, mudou a história, né?
TR: Verdade, Denise. Além do aumento do número de assistentes editoriais, fizemos – com o apoio da Direção – toda uma negociação com a Lina Flexa, que na época era responsável pela Biblioteca, para que tivéssemos uma sede no prédio (que havia sido recém-construído) e algum tipo de apoio mais efetivo em termos de recursos humanos, já que a função exercida estava mais próxima daquele setor. Nessa época conseguimos uma sala e também que um funcionário da Biblioteca fosse designado para ajudar na revista. Foi então que o José Aguinaldo da Silva passou a compor nossa equipe, a princípio, dividindo-se entre mil tarefas até conseguir uma participação mais efetiva. Ele foi fundamental no processo de profissionalização do nosso trabalho. Com o tempo, conquistamos uma outra funcionária, que é a Anna Cecília de Paula Cruz. Também foi uma conquista muito grande. Praticamente formamos a Anna Cecília. Hoje, Aguinaldo e Anna Cecília continuam sendo figuras cruciais para a revista.
DT: Você se lembra que foi a Lisete Arelaro, diretora da Faculdade de Educação na época, que negociou conosco a vinda da Anna Cecília? Ela era de outro setor e a Lisete achou que ela seria muito boa para a revista. Ela foi perfeita, né?
TR: Foi perfeita! Ela e o Aguinaldo foram um diferencial. Lembra que nós íamos toda semana chorar as pitangas com a Direção, dizendo que precisávamos nos profissionalizar? Os dois cresceram muito com a revista e a revista cresceu muito com eles. Um pouco antes disso, já tínhamos conseguido contratar uma outra pessoa, o Wilson Gambeta, que foi um funcionário maravilhoso, um editor muito experiente do mundo editorial privado, que nos ajudou a dar passos significativos nos processos de submissão e avalição dos artigos.
VP: Acredito que, nesse processo de profissionalização da revista e de reorganização, houve muitos desafios e conquistas, não é mesmo?
TR: Sim, nós fomos obrigados a nos profissionalizar, com recursos muito escassos, mas com muita boa vontade da Direção da época, da Biblioteca, dos colegas que integravam a comissão editorial e, enfim, desses funcionários que toparam e se apaixonaram pelo projeto a ponto de estarem conosco até hoje na revista. Uma coisa que também tentamos na época era despersonificar, porque, quando assumimos a revista, tudo era muito centrado na secretária: a memória da revista, o registro, todos os processos de tramitação de artigo. Então, não tinha um procedimento combinado, era tudo muito amador mesmo. Nós passamos a fazer todo um processo de adaptação para entrar no SciELO Submission, com o apoio do Wilson, que foi uma conquista enorme. Fizemos também todo o processo de digitalização das revistas, porque nós conseguimos uma verba, se não me engano, da Fundação Carlos Chagas para digitalizar todos os números, o que foi uma conquista maravilhosa também.
DT: Diminuímos muito o tempo de tramitação de cada artigo, porque as revistas demoravam às vezes um ano, dois anos para dar uma resposta. Então, conseguimos, pela profissionalização, acelerar muito o processo. Inclusive, o Wilson elaborava todas as estatísticas daquele período. Foi ótimo! Ele era um gerente editorial contratado, que fazia um trabalho de cerca de 20 horas por semana e estava sempre presente. Era um trabalho impecável. Organizava toda a distribuição da revista. Ele deu um grande impulso para a agilidade do processo.
TR: A figura do gerente editorial foi uma conquista muito importante. O editor-chefe é uma cabeça mais acadêmica, assim como os editores-assistentes também têm um know-how mais acadêmico. Contudo, há um trabalho que extrapola esses saberes e é muito grande, que é esse gerenciamento editorial. Foi esse cargo que criamos para o Wilson. Ele desenvolveu muito bem a função (enquanto tínhamos verba) e nós conseguimos reduzir muito o tempo de tramitação. Os prazos, os procedimentos, as cartas de recusa... tudo isso não existia. Elaboramos formulário de parecerista, banco de pareceristas. Digo isso não para ficar puxando brasa para nossa sardinha, mas para dizer que tivemos mesmo que nos profissionalizar, tendo em vista a mudança no cenário editorial. Até então, as revistas acadêmicas tinham prestígio, mas elas não valiam ouro na avaliação de pesquisadores como passaram a valer, né? Isso é, até aquele momento, publicar em revista não tinha um valor tão importante quanto publicar um livro, uma coletânea ou um capítulo. Nesse período, em particular, foi quando houve essa guinada na área de Humanidades. De modo similar ao que já acontecia nas chamadas Ciências duras, os livros e capítulos começaram a não ter tanto valor – eu diria: quase nenhum valor. Já os artigos em revistas indexadas tiveram um grande boom. Foi por isso que tivemos que nos adaptar e correr atrás dessa profissionalização.
DT: E você se lembra que começamos a ser chamadas para ajudar outras revistas a criar procedimentos de profissionalização? Algumas revistas pediram nossa ajuda. Foi bem bacana! Foi uma época de muito trabalho, mas tínhamos muito prazer no trabalho que fazíamos. Tanto que dedicávamos horas e horas por semana fazendo esse trabalho. Era muito bacana. As reuniões eram muito agradáveis, nós nos divertíamos.
TR: Era muito trabalho, mas também muita risada, muita alegria.
DT: Muita alegria mesmo, porque era um trabalho que engrenava. As pessoas compraram a ideia. Começamos a ver resultados na diminuição do tempo de tramitação. A entrada no SciELO Submission foi maravilhosa. Nós fomos uma das primeiras revistas a ter essa prática do Ahead of Print. Ou seja, antes mesmo de o artigo estar dentro de um número propriamente dito, ele já estava com a formatação XML, com toda a marcação do texto. Essa prática permitia que os leitores tivessem acesso ao material em primeira mão. Paulatinamente, foram se desvinculando do material impresso. Até então, não tínhamos essa ideia de uma publicação contínua.
VP: Eu imagino que a organização e a divulgação dos números era bem diferente. Nessa época, como eram divulgados os números da revista?
DT: Então, com o Ahead of Print, começamos a dar a possibilidade aos autores de divulgarem o artigo e de informarem em seu currículo, já indicando a revista e o DOI6. Isso acontecia quando o artigo já estava diagramado. O processo era o seguinte: o artigo aprovado passava primeiro pela revisão de português e depois precisava ser diagramado. Nós tínhamos uma revisora oficial maravilhosa, a Ana Paula Renesto. Era uma época de vacas gordas. Nós tínhamos o Wilson, a Ana Paula e o apoio da Biblioteca. Estávamos em uma fase de altíssimo nível da revista. Não escapava nada. Era um trabalho não remunerado, mas que amávamos fazer. Tinha, inclusive, uma empresa que era contratada por licitação, que fazia a marcação. Quando estava tudo pronto, diagramado, revisto, tudo certinho, o artigo ficava disponível no site da SciELO. Então, mandávamos para os autores. Já estava publicado, mas ainda não em um número da revista. O próximo passo, que nós acompanhamos, foi tirar os números e virar fluxo contínuo. Nós acompanhamos essa virada, mas saímos quando ainda eram quatro números no ano. A mudança foi depois.
TR: Então, Viviane, a divulgação era muito por meio do boca a boca. Os próprios autores eram importantes divulgadores. Mas, quando criamos o site para hospedar a revista e principalmente todo aquele acervo digital, quando conseguimos digitalizar todos os números anteriores, o próprio site começou a ser um uma fonte de divulgação e de consulta. O site começou a ser muito, muito visitado.
DT: Você está falando do site na SciELO, certo? Porque antes de estar na SciELO, nós tínhamos o site local, né?
VP: Ah, existia um site da revista antes de integrar a plataforma da SciELO? Como foi integrar essa plataforma? Quais foram as consequências para a revista?
TR: Existia um site da revista, mas não tinha muitas informações. Quando nós hospedamos o acervo digitalizado, o site começou a existir oficialmente. Foi exatamente nessa época que nós conseguimos nos hospedar na plataforma da SciELO, o que deu uma visibilidade internacional imensa. Antes era no SIBi, no setor de revistas da USP. O ingresso na SciELO era muito difícil e era muito complicado permanecer, porque ela pautava muito suas ações tendo como parâmetro as Ciências duras. Foi um período complicado, porque aquilo não servia para nós, das Humanidades. Coincidentemente, houve uma eleição para representantes da SciELO, entre os editores das revistas brasileiras indexadas. E eu fui oportunamente eleita representante das Humanidades no comitê da SciELO. Foi também um outro período de muitos aprendizados. Um grupo hegemonicamente masculino de editores com cabeça de Exatas, super favoráveis ao produtivismo, uma coisa assustadora. Então, eu tinha embates grandes com eles, tentando mostrar que, nas Ciências Humanas, o ritmo de produção era outro. Eles, de certo modo, foram um pouco mais flexíveis, no que eles puderam, e eu também aprendi muito. Enfim, nós aprendemos. Esse cenário de produtivismo era uma coisa que nos afligia muito, porque... o que começou a acontecer? Começamos a receber toneladas de artigos, sendo que, dessas toneladas, aproveitávamos 5%. O resto era lixo. Não sei se hoje ainda é assim, Viviane.
VP: Sim, ainda temos um panorama de muitas recusas.
TR: Um panorama de muita recusa. Muita recusa trabalhosa, porque envolvia pareceristas. Acho que só no final começamos a eliminar alguns antes de mandar para pareceristas. Começamos a fazer triagem e recusa inicial, porque víamos que não cabia enviar alguns a pareceristas.
DT: Começamos a usar alguns recursos para fazer uma avaliação inicial sobre cada artigo submetido. Um recurso que nós tínhamos era um software que identificava plágio. Esse trabalho inicial era do editor-assistente. Antes de destinar a um parecerista, tinha que fazer uma leitura avaliativa do texto. Anna Cecília e Aguinaldo também ajudavam nisso, cada um com suas habilidades e responsabilidades. Fazíamos essa triagem para não queimar os pareceristas. Se fosse necessário, nós mesmas fazíamos o parecer inicial, recusando quando era evidente que o artigo não teria a mínima chance de ser avaliado. Mas era um processo que fazíamos com muito cuidado e com critérios.
TR: Era uma necessidade mesmo. Começou a aparecer a chamada ciência salame7, com a prática de fatiar a mesma pesquisa em diversos textos. O autor publicava, republicava... Fiz uma reflexão sobre esse cenário (que chamei de veneno remédio) num artigo que publiquei na época. Você conhece esse artigo8, Viviane?
DT: Teresa, isso fez parte de um evento na SciELO. Você se lembra?
TR: Sim, o artigo nasceu de uma fala que eu fiz, como representante das editoras de Humanidades, em um grande evento organizado pela SciELO. O artigo que resultou dessa fala, na verdade, é um balanço do nosso trabalho na Educação e Pesquisa e do cenário produtivista que começava a se impor de modo significativo e apressado, o que, na minha opinião, era muito perigoso para a pesquisa de modo geral. Perigoso porque levava a publicar qualquer coisa, e não a prezar por artigos de qualidade. Então, nós tínhamos um trabalho árduo de qualificar a revista, de buscar bons artigos. Começou a ficar ainda mais difícil fazer a revista, na verdade, porque vinha muita porcaria, né?
VP: Então, vocês tinham um grande desafio de qualificar os artigos publicados na revista, o que levou a uma maior profissionalização dos processos editoriais. Podem nos contar um pouco mais sobre as ações que fizeram para enfrentar esse desafio?
DT: Uma das coisas que fizemos para qualificar os artigos foi a demanda dirigida, por meio dos editais para dossiês. Dois editores-assistentes ficavam responsáveis por cada edital. Em 2013, que eu me lembre, foi a nossa segunda demanda dirigida. Os responsáveis foram o Vinício de Macedo Santos e a Cláudia Vianna. Eles fizeram o dossiê sobre desigualdade, diferença, políticas públicas e educação. Começamos a fazer um número por ano de demanda dirigida. Isso foi seguido de um seminário. Então, a revista tinha uma vida que movimentava a Faculdade de Educação, movimentava a própria universidade. Convidávamos os autores para fazer esse evento, que era o lançamento do número. Era bem bacana! Essa foi uma estratégia para qualificar a demanda. Na época, a revista ainda era impressa. Havia um cuidado com a beleza, com a estética da revista. Teresa, lembra que fizemos um número de 40 anos?
TR: É verdade, Denise! Organizamos um evento comemorativo de 40 anos e publicamos um número especial, com capa diferente! Produzimos juntas um editorial para esse número, com um balanço do trabalho da revista nos seus 40 anos9.
DT: É aquela capa meio douradinha. A revista ficou linda! A edição de luxo foi justamente em 2015. Fazíamos a divulgação desses números e havia uma preocupação de dar visibilidade da revista para fora, que era o que a Teresa fazia bastante, especialmente quando ela foi representante das Ciências Humanas na SciELO. Isso deu à revista uma visibilidade nacional. Se já não tinha essa visibilidade, passou a ter. Era uma época de muito prestígio da revista. Havia um trabalho de ponta que foi criado por nós, juntamente com os funcionários, que eram maravilhosos e muito competentes.
TR: Era um trabalho muito sério. A trajetória da revista Educação e Pesquisa foi bastante parecida com a de outras revistas que se profissionalizaram, como Caderno de Pesquisa, Educação e Sociedade. De um nascimento mais endógeno para um caminho mais rigoroso do ponto de vista da indexação, da avaliação às cegas, da avaliação entre pares. Claro, existiam procedimentos anteriormente, mas eram mais informais, até porque a demanda era menor. Então, manter calendário, fluxo, quantidade de publicações por ano, profissionalizar a equipe, qualificar a revista diante dessa enxurrada de péssimos artigos... Foi todo um trabalho que tinha que acontecer ao mesmo tempo. Os dossiês temáticos foram importantes nesse processo. Com o tempo tornaram-se comuns. Foi uma excelente iniciativa, porque foi uma maneira não só de dar visibilidade à revista, mas também de angariar artigos mais qualificados, porque era uma concorrência nacional. Essa concorrência nacional era positiva, já quebrava um pouco com essa ideia equivocada que algumas pessoas tinham: “Ah, a revista Educação e Pesquisa é endógena. Só publicam entre eles, quem é da USP”.
DT: Tínhamos uma temática para o dossiê. O número de artigos de autores da Faculdade de Educação ou mesmo da USP era contado e não podia ultrapassar certo limite, exatamente porque a SciELO cuidava da questão da endogenia. Às vezes, os artigos de colegas da casa, ainda que aprovados, precisavam aguardar um pouco.
TR: E uma outra coisa para qualificar a revista e torná-la, vamos dizer, uma referência nacional, foi aquela sessão que criamos chamada Entrevistas. Por quê? O que nós pensamos? “Bom, nós precisamos nos diferenciar um pouco das outras revistas, especialmente participar de uma maneira mais atualizada dos debates internacionais”. Como a Faculdade de Educação sempre recebia professor visitante, nós começamos a perceber que podíamos nos aproveitar disso para trazer essas contribuições para a revista. Então, por exemplo, se a professora Marília Pinto de Carvalho estava recebendo um professor tal, falávamos: “Ah, você não quer fazer uma entrevista com ele?”. Primeiro, passamos a sugerir a realização da entrevista; depois, os próprios professores começaram a nos dizer: “Ah, eu estou em contato com um professor da Dinamarca e quero fazer uma entrevista, porque ele é muito bom na temática de gênero”. Teve uma época em que tinha até de fila de entrevista! A iniciativa também trouxe benefícios para os alunos, levando-os a conhecer os debates internacionais, a conhecer os autores, um pouco da sua vida e a obra. Foi uma conquista bacana da revista.
VP: Ainda voltando à questão dos desafios que vivenciaram na revista, além da qualificação e da profissionalização diante do panorama de produtividade, há algum outro desafio que foi marcante nesse período?
DT: Ah, sim! Depois que a Teresa saiu, ficamos Cláudia Vianna e eu como editoras-chefes, porque era sempre assim: uma ficava e outra era substituída. Então, eu fiquei um período com a Teresa e depois com a Cláudia. O período com a Cláudia foi, assim, uma loucura. Começamos a ter que fazer licitação. Nossa! As editoras-chefes tinham que entender de licitação. Você não tem ideia do sofrimento que foi esse período para as editoras-chefes e a Direção, que era da Lisete Arelaro e depois da Belmira Bueno! Nós tínhamos que preparar projetos de licitação, porque houve mudanças na forma como podíamos utilizar as verbas do SIBi. Tinha muito dinheiro, mas tínhamos que usar de uma certa forma. Nós tínhamos que contratar empresas por pacotes. Então, tivemos que preparar a licitação de como seria o texto da revisão de inglês, da revisão de português, para fazer um leilão para licitação. Era uma loucura, né? Éramos nós que preparávamos isso, com a ajuda da seção de compras. Na minha gestão com a Cláudia, foram essas as maiores dificuldades que passamos a ter, para viabilizar cada número da revista. Tanto que depois que eu saí, em 2016, logo na sequência, quando a Rosângela Gavioli Prieto e o Emerson de Pietri entraram como editores-chefes, a impressão da revista foi suprimida, porque estava impraticável.
TR: Um outro desafio, que eu estava me esquecendo de comentar, é que, ao mesmo tempo que buscávamos profissionalizar os processos, começamos a pensar estratégias para intensificar a internacionalização do periódico. Estávamos convencidos de que a revista não era da faculdade, era uma publicação de educação e pesquisa do mundo, ou seja, internacional. Começamos, então, a estimular a participação de autores estrangeiros. Na época, ensaiamos a ideia de chamar editores-assistentes internacionais, mas isso não se efetivou na nossa gestão. Depois eu soube que isso acabou se concretizando e é muito importante, né? Acho que um desafio, além desse de se tornar uma revista internacional, era, paradoxalmente, o de marcar presença também na faculdade. Então, por exemplo, nas reuniões de Congregação, até então não se participava. A revista nem aparecia. Coincidentemente, eu estava participando da Congregação na condição de representante de doutores, se não me engano, e comecei a dar notícias da revista, o que também foi importante, porque os colegas foram acompanhando as transformações em curso.
VP: Era necessário marcar um espaço institucional também. O tempo todo nesse limbo, entre o institucional e a ampliação em nível nacional e internacional, não é?
DT: Sim, o tempo todo. Por isso a nossa luta por publicar em inglês, o que era caríssimo. Era uma luta para manter as revisões de qualidade, pois os custos eram altos. Outro desafio era sempre aumentar o número de artigos publicados em inglês, porque nós não cobrávamos a publicação, nem a tradução, de nenhum autor, inclusive em inglês. Alguns artigos eram escolhidos, sendo indicados pelos editores para essa tradução. Indicávamos aqueles que considerávamos que apresentavam maior interesse internacional, além da excelência. Nossa ideia era tentar verter o número inteiro da revista para o inglês. Não conseguimos chegar nesse patamar no número inteiro, mas teve uma época em que estávamos com 50% traduzido.
TR: Chegamos a 50%. E um dos critérios era o de temáticas emergentes, temáticas que dialogassem com pesquisas internacionais e, às vezes, até temas bem regionais. Nós pensávamos: “O mundo merece entender como é a educação dos indígenas de certa região do Brasil”. Então, começamos a perceber que era só assim que podíamos falar com essa comunidade científica.
DT: Às vezes, o autor tinha verba de financiamento de pesquisa para bancar a tradução. Nesses casos, o próprio autor custeava, mas era mais raro isso acontecer. Nós nem queríamos, pois preferíamos trabalhar com nossos tradutores para manter a qualidade. Tudo para manter um nível altíssimo, de excelência. E isso era difícil, por conta das limitações de recursos financeiros.
VP: Acredito que atuar como editoras-chefes foi uma experiência marcante e de muitas aprendizagens para vocês. De que forma isso contribuiu em suas trajetórias de pesquisa no campo da educação?
TR: Olha, para mim, foi significativo em vários sentidos. Foi a comissão em que eu mais me realizei, porque eu senti que era um trabalho mais afeito ao meu perfil profissional. É um trabalho de natureza acadêmica. Os demais trabalhos em comissões têm uma conotação de gestão para os quais eu até não me sinto preparada, pois têm uma carga administrativa muito grande. A revista tem obviamente uma carga administrativa, ainda mais nessa posição de editora-chefe; todavia, o nosso preparo acadêmico tem utilidade e nos habilita a enfrentar os inúmeros desafios cotidianos. Isso é, a nossa formação acadêmica é bastante útil para escolher pareceristas, é útil para fazer uma leitura crítica do artigo, é útil para conduzir a própria dinâmica dos números da revista. Essa é uma razão. A outra razão é que foi onde eu mais convivi com os colegas de uma maneira gostosa. Era um trabalho em equipe, uma equipe muito unida e solidária. Todos nós nos tornamos grandes amigos. O clima ainda é assim, Viviane?
VP: O clima é muito bom. Hoje as reuniões são online, o que promove um certo distanciamento. Acredito que as reuniões não eram online, né?
TR: Não. Eram reuniões presenciais. Então, a reunião sendo de manhã, íamos almoçar logo depois, todos juntos.
VP: Mas o trabalho na revista é de muita parceria. Acho que faz parte da própria cultura que foi sendo mantida na revista, de parceria, de ajuda. Então, se um editor-assistente não tem parecerista, procura os outros, solicitando indicações. Todos se ajudam. Há um trabalho colaborativo, mas acho que essa perspectiva de fazer as coisas online acaba distanciando as pessoas.
TR: É verdade. Levávamos lanchinho, bolinho... Então tinha essa coisa da convivência que eu acho que faz diferença. Porque todos nós éramos apaixonados pela revista, pela tarefa, tínhamos muito orgulho do trabalho que realizávamos E essa convivência com a equipe era muito prazerosa. Foi também um grande aprendizado entender esse cenário editorial mais amplo em que nos inserimos. Enfim, como editores tivemos a oportunidade de conhecer não só o funcionamento da nossa revista, mas de todo o sistema de publicação acadêmica do Brasil e do mundo contemporâneo, porque as revistas passaram a ser de fato internacionais. Até então, elas eram mais locais, mais regionais. Eu acho que foi um aprendizado maravilhoso.
DT: Eu aprendi muito nessa parte toda de editoria. Para mim, era um universo um pouco mais desconhecido. Com tantos artigos tão variados, acabávamos aprendendo efetivamente sobre diferentes temáticas. Especialmente com as demandas dirigidas. Líamos muito e aprendíamos demais. E a própria gestão de pessoas mesmo, porque tínhamos que fazer a revista funcionar. O dentro e o fora da revista, os funcionários, a interlocução com as instâncias da universidade, com o SIBi, com a Direção, com os colegas... Foi um aprendizado muito grande. Era muito disputado estar na revista, não só por causa do prestígio, mas porque era uma equipe que funcionava muito bem.
TR: Você está lembrando uma coisa interessante. Hoje, na avaliação do CNPq ou da Capes10, vale muito ser editor de revista. Nessa época não valia nada, absolutamente nada. Não ganhávamos dinheiro, não ganhávamos prestígio, nada, só muito trabalho. Acho que hoje já é mais disputado, entre outras razões, porque vale muitos pontos na avaliação, né?
VP: Vocês têm algo mais a acrescentar sobre essa vivência como editoras-chefes?
TR: Não! Eu só queria parabenizar vocês pela iniciativa, porque acho que fazemos pouco isso na universidade. Estamos sempre olhando para frente. Considero importante rever os processos, reconhecer os avanços, entender as motivações do passado. Foi esse também o tom que adotamos nas comemorações dos 40 anos. Também procuramos celebrar e prestigiar quem tinha passado até então na editoria de Educação e Pesquisa. Inclusive, na época, convidamos boa parte dos ex-editores para compor a comissão científica do periódico. Enfim, são gestos pequenos, mas são dignos de nota. Então, só quero deixar registrada a minha alegria de conceder essa entrevista. Muito obrigada!
DT: Eu acho que é um trabalho importante, porque as revistas são feitas por pessoas, por pessoas que não ganham nada por isso. É pelo compromisso acadêmico, então é muito bom ter isso reconhecido. Obrigada, Viviane, pela escuta. A Teresa já disse tudo. Faço delas as minhas palavras. Foi muito bacana participar, uma excelente oportunidade de relembrar. Aquela foi uma época muito boa para mim, em termos profissionais. Gostei muito daquele período.
TR: Inclusive a nossa amizade, né, Dê? Nós nos tornamos ainda mais amigas depois dessa experiência juntas.
VP: Eu só tenho a agradecer a vocês. Foi um prazer ouvir e aprender também, porque é um processo de aprendizagem contínuo. Essas memórias são muito valiosas. Então, muito obrigada pela entrevista e por todo o trabalho que vocês fizeram nesses anos. Todos os enfrentamentos desses desafios representaram um marco muito importante para a revista e para a educação.
















