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Revista de Educação PUC-Campinas

versão impressa ISSN 1519-3993versão On-line ISSN 2318-0870

Educ. Puc. vol.29  Campinas  2024  Epub 12-Nov-2024

https://doi.org/10.24220/2318-0870v29a2024e12079 

DOSSIÊ A construção de âncoras narrativas em tempos de plataformização digital

Neocolonialismos digitais e recuos civilizatórios através do agenciamento de infâncias e juventudes

Digital neocolonialisms and civilizational retreats through the agency of childhood and youth

Heloísa Andreia de Matos Lins1 
http://orcid.org/0000-0003-4956-8185

11 Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação. Campinas, SP, Brasil. E-mail: <hmins@unicamp.br>.


RESUMO

O ensaio problematiza a ascensão das novas direitas políticas no agenciamento das infâncias e juventudes, através de estratégias discursivas e estéticas afeitas ao cultivo público de reacionarismos, negacionismos e revisionismos, em que os usos inusitados das tecnologias digitais tornaram-se centrais na mobilização e expressão do medo, do cansaço, da desafecção e do ódio nas/ das massas como estruturantes de um projeto neocolonial. Através de estudos de comunicação política, dos estudos da mídia e da infância e da psicologia política, destacadamente, o trabalho busca explicitar alguns acontecimentos (recortados de cenas recentes latino americana e brasileira, já reportados por mídias jornalísticas) e tecer algumas análises em torno desse singular projeto de poder-saber que se alicerça e se fortalece afetivamente pela “gestão do ódio”, com narrativas da destruição (com ênfase nas memórias e nos conhecimentos históricos, científicos, culturais e ambientais) e pela chamada militarização da informação/ comunicação, dentre outros aspectos. O ensaio evidencia uma tendência de crescente onda de socialização e subjetivação políticas violentas - em sua maioria jovem, branca e masculina - isto é, de novas identidades políticas que passam a clamar pelo extermínio do(s) outro(s) “diferente(s)” e do ambiente, por “liberdades individuais” e pela “mão dura” do Estado, dentre outras pautas. O trabalho busca, por fim, discutir algumas possibilidades de enfrentamento nesses cenários.

Palavras-chave: Colonialismo digital; Juventudes; Infâncias; Novas direitas; Subjetivação política

ABSTRACT

The essay problematizes the rise of alt rights in the agency of children and youth, through discursive and aesthetic strategies aimed at the public cultivation of reactionism, denialism and revisionism, in which the unusual uses of digital technologies have become central in the mobilization and expression of fear, tiredness, disaffection and hatred in the masses as structures of a neocolonial project. Through political communication studies, media and childhood studies and political psychology, notably, the work seeks to explain some events (cut from recent Latin American and Brazilian scenes, already reported by journalistic media) and weave some analyzes around this unique project of power-knowledge that is based and strengthened affectively by the “management of hate”, with narratives of destruction (with an emphasis on memories and historical, scientific, cultural and environmental knowledge) and by the so-called militarization of information/communication, among other aspects. The essay highlights a tendency towards a growing wave of violent political socialization and subjectivation - mostly young, white and male - that is, of new political identities that start to call for the extermination of the “different”, “other (s)” and the environment, for “individual freedoms” and the “tough hand” of the State, among other issues. Finally, the work seeks to discuss some possibilities for coping in these scenarios.

Keywords: Digital colonialism; Youth; Childhood; Alt rights; Political subjectivation

Introdução

Seguíamos vendo as mil segmentações nas mídias tradicionais: muito caro para tão pouco. Até que chegaram as redes e tudo foi pelos ares. E nada voltou a ser igual. Nos tornamos digitais, exponenciais, em dois segundos, sem textos [...] (Fara, 2023, p. 123, tradução própria).

Giros narrativo e cultural contra os pactos civilizatórios

Ao final da primeira década dos anos 2000, o antropólogo argentino Néstor Canclini, ao discutir o papel da arte na sociedade caracterizada por incertezas (diante da queda de paradigmas que continham “promessas de revolução” ou bem-estar), já chamava a atenção para o crescimento do que considerou como fragmentação de visualidades sem histórias, isto é, fragmentação também da memória, sobretudo entre os jovens.

O autor destacava, já naquele momento, a agudização de modos de organização “presentistas” do sentido, tanto na arte como na vida cotidiana (ou seja, na cultura), considerando que um dos principais motivos para esse fenômeno seria “a obsolescência das inovações tecnológicas” (Canclini, 2010, p. 22, grifo próprio). Da forma como analiso, tal compreensão deve-se ao fato de o autor conceber a questão da reprodução/ repetição técnica, no lugar da criação, seguindo os preceitos benjaminianos, como se refere na obra.

Desde então, observamos “uma revolução tecnológica sem precedentes”, como apontam Faustino e Lippold (2023, p. 35), sob tais bases reprodutivistas, de forma acentuada, e teríamos nos tornado “sem textos”, no sentido da não (re) apropriação crítica de narrativas articuladas com uma história/ cultura/ memória sustentada, como nos sugere Fara (2023), na epígrafe deixada neste ensaio.

Fara (2023) argumenta que - como estratégia político-econômica capitalista - o marketing do individual, nessas sociedades fragmentadas, sustentou uma “personalização total” ou, no máximo, criou tendência para formas de “comunicação de nicho”, as tais bolhas que servem à “canalização de conflitos” (Mitchelstein, 2023, p. 68, tradução própria), em detrimento de esferas (também digitais) de convivência, aprendizados e fortalecimentos pluralistas e democráticos.

Cumpre destacar que, então, nestes contextos atuais (os digitais aqui em destaque), escutar, investigar, informar, narrar, debater, criar (com base nos conhecimentos histórica e cientificamente edificados) tornam-se “atos de resistência democrática” (Welp, 2023, p. 70, tradução própria), considerando aqui como objetivo a visibilização da articulação entre tais recuos civilizatórios e essas novas estratégias político-digitais, como será pormenorizado adiante. Esse processo se fortalece através da mobilização e agenciamentos sobre as juventudes, justamente em função da referida intensificação na organização “presentista” sobre a realidade, ou seja, trata-se de facilitação intencional e estratégica desses grupos políticos para a perda/ negação da história a sujeitos em formação, como é o caso das infâncias, adolescências e juventudes.

Nessa perspectiva, significa apostar na perda de uma cultura e da memória (perda de contextos interpretativos, de ancoragem); em outras palavras, apostar no apagamento dessas narrativas que cimentavam nosso pacto civilizatório e que nos sustentavam como sociedade, portanto. Um apagamento que se revela substrato e força para o crescimento desse tipo de projeto de poder-saber bastante singular. Isso porque há que se considerar que estamos diante de uma nova organização comunicacional, de um “giro narrativo” - já que a política é a disputa por sentidos -, como alerta Sanmartín (2023) ou de novos modos de desnarrativização para que se instaure uma cultura outra (Han, 2015)1 - ou ainda, de irrefreável descomunicação, através da disseminação ultrarrápida de fake news2, dentre outros recursos, como analisam Puente (2023) e Morozov (2018) -, em que: 1) as imagens são priorizadas como importantes estratégias agenciadoras políticas - em termos de socialização e subjetivação: Kiffer e Giorgi, (2019) e Lins (2022) -, com efeitos ainda mais imediatos (e talvez mais profundos) sobre as infâncias e juventudes (Lins, 2022; 2024), e 2) a informação circulante nas redes e fora delas, principalmente por agentes políticos, é militarizada.

Com relação ao primeiro aspecto sobre os modos de desnarrativizar ou descomunicar - paradoxalmente através de textos escritos e orais e, supostamente, de acesso crescente à “informação”, ou seja, “informação que não informa” -, como apontam Riorda e Quesada (2023, p. 5, tradução própria), os (ab)usos da imagem se referem ao que se subverte intencional e estrategicamente em termos dessas semioses, como no caso das Inteligências Artificiais, e como devem ser levadas a executar (nos próximos tempos, para muito além dos textos escritos) tais manipulações afeitas à inimizade e aos neocolonialismos próprios dos projetos políticos das novas direitas (Severo; Campos, 2020), a serviço do capital e do mercado, como fundamento (Faustino; Lippold, 2023). Com relação ao segundo aspecto do referido “giro narrativo”, a militarização da informação (Virilio, 2004) refere-se a um dispositivo para a formação dos “guetos de ódio” (França; Muneiro, 2020; Kiffer; Giorgi, 2019), centralmente, que constituirá as principais bases eleitorais desses grupos políticos que sustentarão o cultivo público de reacionarismos afetivos/ sociais, bem como negacionismos e revisionismos históricos e científicos de toda ordem e seus desdobramentos regressivos, conspiracionistas e fascistas (Szwako; Ratton, 2022).

Ainda em 2004, a respeito da substituição da Guerra Fria para o que chamou de “pânico frio”, o filósofo francês Paul Virilio traçava um quadro bastante preocupante para o século 21, na direção do que estamos acompanhando atualmente. Segundo Virilio (2004, online), quanto mais o progresso técnico desenvolveu-se, mais a catástrofe se tornou iminente. Assim, em sua perspectiva, estava em curso uma guerra contemporânea que se desenvolveu a partir de uma dimensão fundamental: a informação. Em suas palavras:

A informação se tornou um elemento determinante do real, que produz, fabrica o real. Estamos diante da possibilidade de uma guerra ao real, e não somente contra os homens, as nações. Cada indivíduo começa a se perguntar o que é ou não real. Há uma perda da realidade, uma arma de guerra, ao mesmo tempo daqueles que detêm os meios de informação e daqueles que os utilizam de maneira desviada (Virilio, 2004, online).

Passados quase vinte anos, Fuchs (2023, p. 50, tradução própria) analisa que, de fato, estamos assistindo “à transgressão disruptiva do sentido coletivo de realidade como estratégia eleitoral”, a despeito de todas as conquistas e aspectos positivos que tais tecnologias também nos proporcionaram. Na obra organizada por Riorda e Quesada (2023), também podemos acompanhar essa mesma tendência interpretativa sobre os usos interessados nas redes sociais e novas tecnologias, a partir de micro enfoques de uma centena de intelectuais sobre o mesmo tema.

Neste contexto, os autores se remetem ao determinismo radical das palavras sobre a realidade, através de discursos simplificados, “onde o foco são as pessoas e os fatos descontextualizados em que perdem terreno os argumentos” (Riorda; Quesada, 2023, p. 5). Da mesma forma, para Fuchs (2023), o auge das redes sociais acelerou o surgimento de sociedades de atenção fragmentada, facilitando o surgimento de realidades alternativas, dados falsos e conspirações, de inviabilidade ao reconhecimento político das diferenças, lembrando de uma famosa frase do mentor da campanha eleitoral de Trump, Steve Bannon, ao explicar seu método, em 2019: “A oposição real é a mídia. E a maneira de lidar com eles é inundar a zona de merda” (Bannon, 2019 apudGuimarães, 2021), ou seja, a oposição, na lógica disruptiva, é a própria realidade (ou uma certa leitura dela): os fatos reportados pela imprensa livre à população, o que certamente tem valido para sustentar obscurantismos e anticientificismos de tais grupos populistas/ nacionalistas, ou seja, novas formas de opressão e colonialismo. Tais formas são sustentadas pelo racismo e outras violências - que engajam e dão lucros exorbitantes às big techs (Faustino; Lippold, 2023; Morozov, 2018) e que têm por substrato as fake news e o afundamento das democracias pelo mundo. Nas palavras de Morozov (2018, p. 2297), “as fake news são o subproduto do capitalismo digital”, portanto, ao capitalismo nada interessa a democracia ou a verdade dos fatos.

É esse tipo de conteúdo retórico, de símbolos, estéticas e performances reacionárias e xenófobas que engajam e mobilizam - formam “tribalismos radicalizados que assediam”, conforme Riorda e Quesada (2023, p. 5, tradução própria) -, que são cultivados, centralmente, gerando e ampliando “constelações afetivas” (Kiffer; Giorgi, 2019) em que o ódio é central como afeto político (Han, 2015); é instaurador, como em alguns dos seguintes exemplos: apologia às armas, uso de motosserras e leões ferozes como mascotes em campanhas eleitorais, “lacrações” e invectivas (Viennot, 2020), misoginia, homofobia, classismo, e um sem número de modalidades violentas (ou seus arremedos) da masculinidade branca heteropatriarcal que, seduzida pelas “soluções fáceis” apregoadas pelo chamado libertarianismo e afins (Rothbard, 2010; Vargas; Marques, 2022), clama pela redução de direitos, pela “mão dura” do Estado3 (principalmente às minorias sociológicas, políticas, linguísticas, etc.), “liberdades individuais” em si. Esse fenômeno coloca em risco e suspeição os pactos civilizatórios, ao mesmo tempo em que sustenta o “sujeito do desempenho”, o excesso de trabalho e a auto exploração, fazendo com que liberdade e coação coincidam, além da exploração do outro (Han, 2015). Nas palavras do autor: “o explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos” (Han, 2015, p. 16-17).

No tópico seguinte, apresentarei alguns exemplos latino-americanos e brasileiros que acabam por materializar esse “barulho público” e, mais particularmente, suas linguagens do ódio político (Kiffer; Giorgi, 2019), uma vez que um fenômeno social adquire significado político quando construído discursivamente (Sanmartín, 2023). Essas linguagens buscam contagiar e reorganizar o campo cultural, através dos impactos sobre os processos de socialização e subjetivação políticas democráticas, forjando “novas” identidades políticas e, possivelmente, criando novos contornos de uma “cultura de direita”.

“Descomunicar para engajar”: a programação da desafecção traçada para as infâncias e juventudes

Sustentar uma nova cultura e novas mentalidades, ou seja, garantir que um fenômeno social tenha determinados sentidos políticos (e jamais outros), a médio e longo prazo, implica uma “formação”/captura de suas bases, necessariamente, passando pelo agenciamento de um grupo social muito importante nesse contexto: o das infâncias e juventudes, tal como as novas direitas tem investido de forma contundente, em várias partes do mundo (Lins, 2022).

Aqui explicito alguns acontecimentos (recortados de cenas recentes latino americana e brasileira e que já foram reportados por mídias jornalísticas), como anteriormente contextualizado, considerando esse singular projeto de poder-saber que se fundamenta e fortalece afetivamente pela gestão e “politização do ódio” (Puente, 2023), destacadamente a partir das narrativas da destruição ou descomunicação (principalmente das memórias e conhecimentos históricos e científicos). Além desse aspecto, tal projeto passa pela chamada militarização da informação e acaba por reproduzir como “a crueldade está na moda”. Assim, observa-se “uma preocupante tendência para a humilhação e à exposição dos outros ao ridículo”, como avalia o escritor e professor argentino Kohan (2024). Em outras palavras, no caso aqui tratado sobre as infâncias e juventudes latino-americanas e brasileiras, observamos “identidades nascidas na violência de fraturas sociais expostas” (Riorda, 2023, p. 37, tradução própria).

Sustentando os elementos apontados, tal empreitada passa a se intensificar pelo uso das plataformas digitais, por uma “nova comunicação” que prioriza a imagem (Vargas, 2023), também não por acaso, considerando que, praticamente, não há regulação dessas mídias, em que crianças e jovens estão inseridos enormemente (tais como Twitter, TikTok, Instagram, streaming, Whatsapp, dentre tantas outras).

Segundo o levantamento TIC Kids Online Brasil, realizado mais recentemente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), o uso de redes sociais é uma das atividades online que mais cresceram entre crianças e adolescentes: “Em 2021, 78% dos usuários de Internet com idades de 9 a 17 anos acessaram esse tipo de plataforma, um aumento de 10 pontos percentuais em relação a 2019 (68%)” (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informaçao, 2022, online). Em síntese, um grupo extremamente propício para a reconfiguração de credibilidades (Martínez, 2023), rumo a uma cultura distinta em que os públicos (principalmente digitais) precisam estar hipersensibilizados (Pedemonte, 2023).

Para tal meta, em que a verdade deve se tornar subjetiva (Rubí, 2023), o sistema midiático-digital é colonizado/ programado por discursividades e atitudes políticas interessadas na desafecção (afetos negativos, afeitos ao “cansaço” de que trata Han (2015), por exemplo), cinismo e desconfiança (Muñiz, 2023; Sánchez, 2023). Como analisa Vengoechea (2023, p. 47, tradução própria), a comunicação digital e as redes “permitiram aos fanáticos descer das arquibancadas até o campo para jogar com a equipe. Esse excesso de jogadores desordenou a partida e o caos se apoderou do jogo da política e passamos a uma era de enfrentamento”. Assim, nesses contextos, estão sendo agenciadas as posições de crianças e jovens, seus interesses mais imediatos (e talvez futuros), lamentavelmente.

Um exemplo recente ocorreu na Argentina, quando o governo federal decidiu extinguir o Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xonofobia y el Racismo (Inadi), apesar das graves violações de direitos humanos que o instituto vinha lutando contra, em nome do “enxugamento dos gastos públicos do Estado” (como o atual presidente vem fazendo com outras instituições) (Laje, 2024). A propósito, para esses grupos políticos, os Direitos Humanos (em perspectiva pluralista) fazem parte de uma doutrinação, de uma “ideologia woke que está impondo neodireitos”, como Francisco José Contreras, advogado, professor da Universidade de Sevilha e deputado nacional do partido ultradireitista Vox, busca reforçar, por exemplo, num curso de formação online @Tecnopolitea. Javier Milei, na ocasião da extinção do Inadi, inflamando suas bases e fazendo o já comentado “barulho público”, disse que o Instituto “não servia para nada”, que “era inútil para a sociedade”, já que se chocava, em suas palavras, com a “liberdade de expressão” e representava, assim, uma “polícia do pensamento”. Essas expressões vociferadas coincidem com os pressupostos de desconstrução narrativa em torno das agendas pluralistas de Direitos Humanos, em que vários segmentos políticos, empresariais, jornalísticos, etc., obviamente afins às extremas direitas, alimentam esse ideário de um suposto “progressismo radical”, da “tirania DEI” (diversidade, equidade e inclusão), entendida, segundo a empresária e conselheira em educação, Diniz (2024, online), como:

[...] um movimento poderoso infiltrado na academia e em todo o sistema educacional [...] a institucionalização das pautas identitárias [...] com um entendimento muito peculiar sobre o que é o racismo, justiça social e democracia que reprime ‘opiniões divergentes’, em nome da “praga do discurso único”.

Com intencionalidades e pressupostos descomunicativos e desafectivos afins, em seu perfil no Instagram, Milei faz uso de um forte apelo imagético às camadas mais jovens, ao representar o fim do referido Instituto, com golpes do leão enfurecido, mascote desde a campanha eleitoral (Figura 1) e que ganhou destaque a partir de um de seus principais chavões populistas que exprime a militarização discursiva e sua intenção de despertar a “virilidade”: “Eu não vim aqui para liderar cordeiros. Vim acordar leões” (Smink, 2023, online). Ao lado dessa imagem, aponto uma outra com o leão dócil, além da referência a um de seus cachorros de estimação, assim como uma alusão ao protagonista do filme “O exterminador do Futuro”. Todos esses recursos simbólicos certamente buscam agenciar os interesses das infâncias e juventudes (Figura 1).

Fonte: Mosaico elaborado pela autora (2024). Imagens disponíveis em no perfil @javiermilei, no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C3qcw_lvDN2/;https://www.instagram.com/p/C3FrEeoIK3B/; https://www.instagram.com/p/C1b787zgtGv/; https://www.instagram.com/p/Cy1AOFqgXmU/.

Figura 1 Iconografia voltada ao público infantojuvenil. 

Como analisa o líder do partido liberal argentino Republicanos Unidos, Yamil Santoro, o atual presidente “é o primeiro produto genuíno das redes sociais, nascido da viralização e dos cortes do WhatsApp. Ele é o primeiro a emergir deste novo paradigma político”, como trouxe à tona a biografia de Milei, escrita pelo jornalista Juan Luis González, intitulada El loco: La vida desconocida de Javier Milei y su irrupción en la política argentina, que é assim sintetizada: “É a radiografia de uma sociedade aterrorizada, solitária e oprimida da qual Javier Milei é, apenas, seu melhor personagem” (González, 2023, p. 223, tradução própria).

Há dados de que os jovens foram centrais na eleição de Milei (os eleitores com idades entre 18 e 29 anos representam quase 25% do eleitorado argentino, sendo que o voto de jovens, homens, sem educação superior e sem boas perspectivas no mercado de trabalho, do interior e com até 24 anos, está monopolizado pelo atual presidente) (Carmo, 2023). Um de seus principais apoiadores nas redes afirma que os mesmos são “soldados” que compõem as “forças celestes” do atual presidente. Segundo uma matéria do jornal BBC, “a maioria dos que votaram em Milei nas primárias e no primeiro turno das eleições é de homens entre os 16 e os 29 anos, embora quatro em cada dez eleitores fossem mulheres”, fartos dos “políticos de sempre”, a chamada “casta” por Milei. Assim, seu biógrafo resume o fenômeno: “ele deu esperança aos jovens que haviam perdido” (Smink, 2023, online).

Fonte: Portal do jornal @pagina12, no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/pagina12/p/C3bDXK3K61K/.

Figura 2 Jovens “libertários”. 

Neste contexto, não podemos deixar de considerar as forças adultistas e ultraliberais que, dentre outros aspectos, defendem a “liberdade” do mercado de órgãos (Barruti, 2023) e os “princípios éticos” da venda de crianças, como sustentado por Rothbard (2010), em quem Milei se inspirou fortemente, dentre outros “libertários”. Essas forças capturam e agenciam, via de regra, as subjetividades políticas e os interesses dos mais jovens, à medida em que negam o acesso à história, à memória coletiva também política (principalmente, através dos ataques a uma educação democrática, laica e pluralista, justamente palco central da batalha cultural e das disputas de sentido, que vêm se arrastando há vários anos em muitos países). Ao mesmo tempo em que negam tais possibilidades de formação, contorcem fatos da realidade e, consequentemente, alteram de forma incisiva as perspectivas e projeções desses jovens quanto ao presente e futuro.

As estratégias de marketing nesse processo são abertamente voltadas ao público que também consideram “menos favorecido” simbolicamente, em termos de formação ou experiência política, como informou o coordenador de campanha de Javier Milei, Pablo Nobel, e também consultor do atual governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em entrevista recente a um programa jornalístico da TV brasileira (Estúdio I, 2023, online). Nobel resume assim o trabalho e o apoio dos jovens (a quem considerada “colaboradores” de campanha, “menos politizados” e que “não gostam de ler textos longos”): “Memes engajam eleitor menos politizado” (dito na mesma entrevista). Defendeu que esses recursos foram “a ponta de lança” na campanha, assim como assume a busca por “identificar a raiva da população”. Nesse diálogo, Nobel se esquiva de uma responsabilização ética quanto ao projeto de poder das direitas radicais, por exemplo sobre as fake news e desinformação, declarando: “Agora a questão é com eles, não é comigo” (Estúdio I, 2023, online), ainda que o profissional reconheça um “descontrole” da situação dessa comunicação não centralizada, em termos dos impactos sociais (Estúdio l, 2023).

Fonte: Mosaico elaborado pela autora (2024). Imagens do Estúdio i, Globo News. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/12129306/

Figura 3 Estratégia de campanha para os jovens “menos politizados”. 

Assim como Milei, Nayib Bukele, atual presidente salvadorenho, recebe forte apoio dos grupos mais jovens da sociedade para um “antissistema” segundo algumas análises (Segura 2019), impulsionados pelo desejo de mudança na forma como se conduz o país, como apontado na Figura 4. Nesse ritmo favorável, Bukele intensifica as ações que violam os direitos humanos no país, como tem sido largamente reportado pela imprensa e organismos de defesa (El Salvador [...], 2024; Pérez, 2023) e, nesse ínterim, cumpre as agendas da chamada guerra cultural (Lage; Saraiva, 2021; Laje, 2023), através do pânico moral, por exemplo, da eliminação da perspectiva de gênero (Laje; Marquez, 2016) - no caso de Bukele, na educação pública, e no caso de Milei, em toda a administração pública - e tantas outras ações que hipersensibilizam e, assim, fidelizam a audiência eleitoral (Bukele eliminó [...], 2024).

Fonte: Portal do jornal Página 12. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/172780-jovenes-seducidos-por-un-antisistema.

Figura 4 Bukele seduz jovens por um antissistema. 

Nessa mesma direção “antissistema”, “anti-casta” ou “anti-direitos”, o ex-presidente Jair Bolsonaro continua arregimentando um expressivo número de jovens para suas bases. No estudo de López (2023, p. 827), o autor aponta um levantamento em que há um nicho estável apoiando as candidaturas da direita radical, ao longo do tempo: “homens jovens, brancos, com maior educação formal e renda”. O artigo de Lopes informa a discussão sobre a existência de um “núcleo duro” da direita radical no Brasil, a partir de um recorte desde a candidatura de Enéas Carneiro, “considerando possíveis mecanismos relativos à frustração e à raiva de homens brancos jovens após a redemocratização” (López, 2023, p. 827).

Da mesma forma, Gonçalves, Weller e Caseira Araújo (2021, p. 1) identificaram um perfil de direita ou extrema direita no Brasil, tendo, majoritariamente, os seguintes marcadores sociais: “masculino, branco, presente sobretudo em escolas privadas e que professam a religião católica ou evangélica”. Os autores também consideraram o conservadorismo como um estilo de pensamento não estático, ou seja, que apresenta novas apropriações e características em cada geração e que se expressa por uma cultura política específica.

Esse público, portanto, acompanha e evidencia performances de ódio, em diferentes circunstâncias e esferas, quando a violência já é considerada alarmante e epidêmica entre (e sobre) adolescentes no Brasil (Colares; Nascimento; Kelly, 2020). Apenas como um exemplo (Figura 5), um estudante de 16 anos, com o perfil acima mencionado - do sexo masculino, branco, elitizado - faz e compartilha um vídeo em que amassa e urina numa bandeira de partido político de esquerda, colocando-a num mictório de escola particular, enquanto colegas riem e gritam pelo ex-presidente Bolsonaro.

Fonte: Portal do jornal Folha de S. Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2022/10/aluno-urina-em-bandeira-do-pt-em-escola-particular-de-curitiba-veja-video.shtml.

Figura 5 Jovens estudantes gravam performance de ódio. 

Como podemos observar, formas de violência também simbólicas são um poderoso artifício político de desafecção e desnarrativização desses grupos “libertários” (para seu sustento, permanência e ampliação como poder hegemônico). Esses dispositivos buscam, deliberadamente, engajar os mais jovens, com as consequências mais preocupantes possíveis, considerando um projeto de fortalecimento do Estado democrático de direito e também de saúde individual e coletiva (não apenas mental, certamente). Nessa direção, Colares, Nascimento e Kelly (2020) avaliam que, no Brasil, se observa uma rede de violência alarmante entre/contra crianças, adolescentes e jovens - a partir dessa exposição “[...] seja como vítima, agressor ou testemunha” - e que “requer estratégias de enfrentamento, além de medidas preventivas” (Colares; Nascimento; Kelly, 2023, p. 123).

Aqui busquei expor, como as novas direitas vêm exercendo uma influência gravíssima sobre os modos de vida de crianças, adolescentes e jovens, sobre todo o desenvolvimento desses sujeitos de direito, cujos marcadores sociais/ interseccionais “idade e geração”, principalmente, têm sido utilizados como brechas (também digitais) para mais e novas formas de acinte, vulneração e colonialismos.

Recalculando a rota

Concebendo as próprias direitas radicais como projetos neocoloniais, uma vez que buscam engajar digital e politicamente pelo ódio, cansaço, medo e violência, dentre outras afecções negativas, aqui busquei explicitar como as discursividades desses grupos remetem a mudanças estruturais no campo narrativo e cultural (“linguagens do ódio”) e como tais giros impactam na fragilização dos pactos civilizatórios, isto é, no enfraquecimento do Estado democrático de direito, em diferentes países, mas aqui com particular interesse na América Latina e no Brasil.

Neste sentido, as novas direitas desenvolveram estratégias comunicacionais e propagandísticas que - através das plataformas digitais que geram elevadas cifras às suas corporações, as big techs, bases do capitalismo digital - criam uma nova espécie de caos social - através de organizações “presentistas”/ imediatistas e, em grande parte dos casos, distorcidas do sentido - intentando capturar, interessadamente, os imaginários de crianças, adolescentes e jovens. Este aspecto, além de caracterizar graves violações a esses grupos e indivíduos, pavimenta a continuidade desses projetos de poder-saber e, portanto, da agudização das injustiças sociais, em nome, de fato, da “liberdade econômica” e da lógica do capitalismo tardio.

Mais especificamente, esse arranjo sustenta novas formas do ultraliberalismo ou do liberalismo antidemocrático/libertarianismo. Nas palavras do próprio Jair Milei - apenas como uma perspectiva compartilhada desses líderes autocratas - a justiça social seria “uma aberração” e que também seria uma “atrocidade” o fato de que “onde há uma necessidade, nasce um direito” (Após afagos [...], 2024). Assim, o projeto privatista impera, mesmo quando a maior parte da população não pode pagar ou precisa vender parte de seu próprio corpo, de sua família ou apenas cogitar a questão, como querem fazer acreditar alguns “libertários” para amenizar possíveis tabus com tais temas, ou seja, normalizá-los.

A título de exemplo, Rothbard (2010), no capítulo intitulado As crianças e seus direitos, simplifica o processo a que busca legitimar como um “livre mercado de crianças”, ancorado numa “ética da liberdade”, como inclusive nomeia sua obra, desconsiderando, propositalmente, muitos abismos interseccionais como os de classe, raça/etnia, dentre outras dimensões, a favor do mercado: “Em resumo, temos que nos defrontar com o fato de que a sociedade genuinamente livre terá um próspero livre mercado de crianças. Superficialmente isto parece monstruoso e desumano. Mas uma reflexão mais apurada irá revelar o humanismo superior de tal mercado” (Rothbard, 2010, p. 167, grifo próprio).

Essa coisificação em forma de política se ensina de muitas maneiras, com vistas aos lucros e privatizações extremas. “Vender até a mãe”, como se conhece nos ditos populares, torna-se mais tangível do que se imaginava... Enquanto tais possibilidades se aproximam, cada vez mais, faz-se da desumanização o cerne de um projeto cultural outro. Lamentavelmente, certas juventudes - em sua maioria branca e masculina, como aqui apontado - já expressam uma fatia de eleitores de líderes com tais pensamentos reacionários. No caso dos adolescentes, há indícios de impactos importantes em seus processos de socialização e subjetivação políticas que se voltam à violência, como também argumentei e, especificamente no caso das crianças, ainda não temos muitos estudos para avaliar as proporções desses atravessamentos (de) formativos (Lins, 2024).

Ao que tudo indica, como possibilidade contra hegemônica, nos cabe um sério e urgente investimento coletivo, em termos da efetivação de educação midiática desde as infâncias, em princípio, alicerçada em concepções pluralistas de mundo (a exemplo dos pressupostos da Educação em Direitos Humanos, sob bases não universalistas), ou seja, avançar sobre todos os temas interditados ou até mesmo censurados pelas novas direitas (não por acaso, todos afeitos ao campo da educação da infância, a exemplo das investidas da Frente parlamentar contra a doutrinação nas escolas) (Feitosa, 2023).

Novas formas de agenciamentos colonialistas nos impõem a ousadia da criação e enfrentamento histórico, científico, ético e político (também virtuais), através de pedagogias “teimosas” e ancestrais, já quase apagadas pelo projeto da modernidade capitalista: não antropocêntricas, não extrativistas, não mercadológicas, não racistas, não sexistas, por exemplo; isto é, modos de ensinar, aprender e viver alicerçados nas sensibilidades e nas diferenças. Modos de convivência sustentados nas relações ontológicas da alteridade, nos bons afetos desses encontros, na narrativização de presentes, futuros e subjetividades contracoloniais (Bispo dos Santos, 2023), isto é, que insistam na justiça social e ambiental, dentro e fora das escolas. Tais reposicionamentos, que passam por formas alternativas à atual realidade tecnológica, talvez possam nos indicar orientações para outros começos que desmilitarizem a vida que, insistentemente, ameaçam crianças e jovens, assim como boa parte do planeta.

Referências

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1 Han (2015, p. 24) analisa o fenômeno relativo à sociedade moderna do desempenho: “A desnarrativização (Entnarrativisierung) geral do mundo reforça o sentimento de transitoriedade. Desnuda a vida [...]”. O autor aponta a necessidade de um horizonte de sentido que se eleve a esse tipo de vida “de mortos-vivos”, à “sociedade do cansaço” como concebe. Da forma como aqui analiso, as novas direitas aproveitam-se desse cenário em curso para intensificar o processo de desnarrativização a seu favor.

2Como analisa Morozov (2018, p. 2280), “o problema não são as fake news, e sim a velocidade e a facilidade de sua disseminação”, considerando os interesses do capitalismo digital por cliques, como o autor denomina, que hoje faz com que seja altamente rentável produzir e compartilhar essas desinformações.

3Ver por exemplo essa estratégia em Nayib Bukele, em El Salvador, considerado “um modelo tentador” segundo analistas. Disponível em: https://www.france24.com/es/programas/en-primera-plana/20240130-el-modelo-bukele-represi%C3%B3n-popular-que-seduce-a-otros-dirigentes . Acesso em: 1 fev. 2024.

Recebido: 09 de Março de 2024; Aceito: 27 de Maio de 2024

Editor

Artur José Renda Vitorino

Conflito de interesse

Não há conflito de interesses.

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