Introdução
A promulgação da Lei nº 13.415/2017 no Brasil, que estabeleceu novas diretrizes para o Ensino Médio (EM), tem sido tratada com polêmica, sendo alvo de críticas e resistências quanto à sua implementação. De acordo com a Lei n.º 13.415/2017, o currículo do EM deve ser composto a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabelece orientações quanto às áreas da formação geral e aos itinerários formativos (parte específica), conforme a relevância para o contexto local e as possibilidades dos sistemas de ensino (Brasil, 2018). As áreas da formação geral são: Linguagens e suas Tecnologias; Matemática e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias; Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e Formação Técnica e Profissional.
Entre os pontos de tensionamento, destacam-se o lugar que cada componente curricular ocupa no currículo, o questionamento acerca da atratividade dessa estrutura curricular para os jovens, o aumento da carga horária que desconsidera o fato de que a maioria dos jovens, especialmente da rede pública, já têm atribuições profissionais e, por fim, as condições de acesso às tecnologias digitais por parte dos alunos, uma vez que estas ocupam destaque nas áreas de formação. Ainda, há a preocupação quanto às opções de itinerários ofertadas aos alunos, pois, em virtude de limitações físicas e de recursos humanos, talvez não seja possível a todas as escolas garantir vários itinerários, sendo o aluno obrigado a cursar o que lhe for oferecido. Fiorese e Forneck (2023) ressaltam a importância de considerar a diversidade no debate sobre o Novo EM, analisando não só o passado e o presente, mas também antecipando tendências futuras. As autoras destacam a necessidade de promover a educação como um bem comum e social, enfatizando a importância de tratar as juventudes com a devida consideração.
Nesse processo de implantação do Novo EM, a constituição das áreas de formação tem desafiado escolas e professores a reverem a sua estrutura curricular. Se anteriormente cada componente era ensinado separadamente, com a constituição das áreas, os professores tiveram de repensar o lugar do seu componente na articulação com os demais. É o caso, por exemplo, da Educação Física (EF) - foco deste artigo - que está articulada à área de Linguagens. De acordo com a BNCC a área de Linguagens é composta pelos seguintes componentes curriculares: Língua Portuguesa, Artes, EF e Língua Inglesa (Brasil, 2017). O principal foco da área é oportunizar aos estudantes a participação e a integração em práticas de linguagem diversificadas, que lhes permitam ampliar suas capacidades expressivas em manifestações artísticas, corporais e linguísticas, bem como seus conhecimentos sobre essas linguagens.
No entanto, a organização do currículo a partir da BNCC resultou também na redução do número de disciplinas obrigatórias, mantendo-se um lugar de destaque para os componentes Língua Portuguesa e Matemática. Componentes Curriculares como EF, Artes, Filosofia e Sociologia perdem espaço enquanto componentes específicos, podendo seus objetos de ensino serem incluídos em outros componentes ou ofertados via área de conhecimento, como destacado por Beltrão, Teixeira e Taffarel (2020). Tal mudança aprimora ainda mais a hierarquização de algumas disciplinas e a supressão de alguns componentes, relegando ao segundo plano componentes como a Educação Física, que tem o corpo como lugar de aprendizagem.
Considerando esse complexo cenário, este artigo teve como objetivo investigar a inserção da EF na área de Linguagens, a partir da análise da produção científica relacionada ao tema. Esta pesquisa tem o intento de contribuir na discussão da compreensão da EF enquanto constituinte da área de Linguagens, apresentando pressupostos teóricos utilizados na tentativa de refletir sobre possibilidades de entendermos “o corpo como Linguagem”, assim como relatos de pesquisas que analisaram o ensino da EF em escolas a partir da desse novo lugar que ocupa no currículo.
Para fazermos essa discussão, amparamos na abordagem crítico-emancipatória de Kunz (2016), que defende que a EF deve ser um lugar para os alunos criarem, interagirem e construírem suas próprias experiências de movimento, ou seja, propiciar o “se-movimentar”. Essa abordagem dialoga com a fenomenologia (Merleau-Ponty, 1999) na medida em que compreende que é pelo corpo que nos fazemos presentes no mundo e construímos nossas experiências.
Procedimentos Metodológicos
A pesquisa em questão consiste em uma revisão de literatura sobre o tema da inserção da EF na área de Linguagens. Entende-se, como menciona Moreira (2004), que a revisão de literatura auxilia o pesquisador a conhecer os avanços do problema investigado, além de fornecer informações para contextualizar a extensão e a significância do problema, proporcionando espaço para que surjam novas ideias. De acordo com o autor, estruturar uma revisão de literatura “[...] significa olhar novamente, retomar os discursos de outros pesquisadores, mas não no sentido de visualizar somente, mas de criticar” (Moreira, 2004, p. 22).
Após a seleção do tema e a definição dos objetivos mencionados anteriormente, realizamos uma pesquisa bibliográfica nas bases de dados Google Acadêmico e no Portal de Periódicos da Capes, utilizando os descritores “Educação Física escolar” e “linguagens” entrecruzando os termos. Elencamos como critérios de inclusão: produções em português, pesquisas bibliográficas/documentais ou estudos de campo disponíveis de forma gratuita e com acesso livre, publicações a partir de 2008, estudos relacionados à temática da pesquisa. Os critérios de exclusão foram: artigos de outras línguas, não relacionados ao tema da pesquisa e que não atendessem ao gênero de divulgação científica, como os artigos de opinião. Os artigos que se repetiram nas duas plataformas consultadas foram considerados apenas uma vez.
O período de realização da pesquisa compreendeu de 18/07/2023 a 31/08/2023, tendo como período os últimos 15 anos (2008 a 2023). Optamos por esse intervalo pois buscamos saber se a compreensão da EF enquanto linguagem antecede a homologação da BNCC, em 2017. Na plataforma de pesquisa do Portal de Periódicos da Capes, encontramos 125 artigos, dentre os quais selecionamos 6 a partir da leitura do título e dos resumos que correspondiam à temática da presente pesquisa. Posteriormente, no Google Acadêmico, os resultados iniciais trouxeram um número maior de trabalhos, um total de 8.380 produções, e entre estes, selecionamos 8 artigos. Assim como na escolha dos artigos disponibilizados pelo Portal de Periódicos da Capes, realizamos a leitura dos títulos e resumos das produções que correspondiam até a 4.ª página de pesquisa, sendo que cada página apresentava 10 produções (Figura 1). A partir da 5.ª página, as temáticas das produções científicas não se relacionavam mais com o tema da presente pesquisa.
Uma vez definidos os artigos que compuseram o corpus do estudo, os textos foram lidos na íntegra e foi conduzida a análise a partir da metodologia da análise textual discursiva proposta por Moraes e Galiazzi (2016). Dessa análise emergiram três categorias: 1.ª - BNCC e a EF na área de linguagens: entre avanços e retrocessos; 2.ª - A busca por pressupostos para sustentar a EF enquanto linguagem; e 3.ª - A EF na área de linguagens: práticas pedagógicas escolares e relatos de professores.
Dessa forma, para essa revisão de literatura, analisamos um total de 14 artigos científicos, conforme os Quadros 1 e 2. Cabe destacar ainda que 7 são artigos de pesquisa bibliográfica ou que fazem análise documental, e os outros 7 são artigos oriundos de pesquisa de campo que investigaram a realidade escolar e como está se dando a implementação das novas diretrizes do EM. Do total de textos selecionados, apenas 4 foram publicados antes da homologação da BNCC. No Quadro 1, apresentamos o número de artigos selecionados em cada base de busca, e no Quadro 2, os artigos são apresentados com indicação dos respectivos autores e do periódico em que foram publicados, distribuídos nas categorias de análise que emergiram.
Quadro 1 Número de artigos selecionados a partir dos critérios de inclusão e exclusão.
| Artigos Capes | Artigos Google Acadêmico | Total de artigos analisados |
| 6 | 8 | 14 |
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Quadro 2 Relação dos artigos selecionados de acordo com as categorias emergentes.
| Plataforma de pesquisa | Autores/Ano | Título do artigo | Revista |
| 1ª categoria | |||
| Capes | Santos e Fuzii (2019) | A EF na área da linguagem: o impacto da BNCC no currículo escolar | Comunicações |
| Capes | Gomes e Souza (2020) | A secundarização da EF na reforma do EM | Germinal |
| Google Acadêmico | Martineli et al. (2016) | A EF na BNCC: concepções e fundamentos políticos e pedagógicos | Motrivivência |
| 2ª categoria | |||
| Google Acadêmico | Araújo e Oliveira (2022) | As linguagens na Base Nacional Comum Curricular do EM: diálogos com a EF | Educação em questão |
| Capes | Almeida e Fensterseifer (2019) | EF e linguagem: aproximações com a hermenêutica gadameriana | Contrapontos |
| Google Acadêmico | Duarte (2010) | EF como linguagem | Motriz. Revista de EF |
| Google Acadêmico | Betti (2021) | As três semióticas a EF como linguagem | Conexões |
| 3ª categoria | |||
| Google Acadêmico | Brasileiro e Marcassa (2008) | Linguagens do corpo: dimensões expressivas e possibilidades educativas da ginástica e da dança | Pro-Posições |
| Google Acadêmico | Santos, Marcon e Trentin (2012) | Inserção da EF na Área de Linguagens, códigos e suas tecnologias | Motriz: Revista de EF |
| Google Acadêmico | Arruda et al. (2020) | Desafios da EF a partir da sua inserção na área das linguagens: percepções docentes | Humanidades e Inovação |
| Google Acadêmico | Bielavski et al. (2021) | A EF na área das linguagens e as relações com a BNCC em tempos de distanciamento social | Conexões |
| Capes | Pacheco e Silveira (2021) | O currículo de EF no EM do Estado de São Paulo na voz dos professores: uma avaliação pré-reforma | Olhar de professor |
| Capes | Fonseca et al. (2017) | Matizes da linguagem e ressonâncias da EF no EM | Movimento |
| Capes | Oliveira et al. (2023) | Currículo do EM no Estado De Sergipe (Brasil): noções de linguagem e implicações para EF | Educación Física Y Ciencia |
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Nota: Capes: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
A apresentação dos resultados em categorias não implica uma busca por similaridade e uniformidade do pensamento dos autores. Essa metodologia de análise, no entanto, reflete uma estratégia de estruturação da leitura, proporcionando uma disposição sistemática dos posicionamentos e conceitos abordados pelos distintos autores no âmbito deste estudo de revisão. A categorização visa facilitar a compreensão e análise das diversas perspectivas e contribuições presentes na literatura revisada, sem sugerir uma convergência de pensamentos, mas sim um agrupamento com base em afinidades temáticas ou abordagens metodológicas.
BNCC e a EF na Área de Linguagens: entre avanços e retrocessos
Preliminarmente, para situarmos a EF escolar no contexto atual, precisamos compreender seu relacionamento histórico e social. Santos e Fuzii (2019) destacam que a EF escolar no Brasil começou no final do século XIX e início do século XX, com um enfoque biológico e higienista militar para formar corpos saudáveis. Esse movimento foi influenciado pela Revolução Industrial e métodos de trabalho como taylorismo e fordismo, que exigiam corpos fortes e capazes de realizar tarefas repetitivas. A partir disso, a EF apresentou métodos de ensino sustentados em aportes biológicos, tendo a inserção de atividades mecânicas por meio da ginástica e de esportes competitivos como formas de intervenção e disciplinaridade dos corpos.
No Brasil, só na década de 1980 a função social da EF foi questionada, apoiando-se nas Ciências Humanas e na Pedagogia. De acordo com Caparroz e Bracht (2007), denuncia-se o ensino centrado no tecnicismo, mecanismo de reprodução das relações sociais capitalistas e a preocupação desloca-se para as discussões pedagógicas da EF, a função social da educação, influenciada por análises sociológicas de orientação marxista. A caminhada para uma Educação Física Escolar com identidade própria, baseada em referenciais teóricos críticos e emancipatórios, resultou no Movimento Renovador e em abordagens de ensino críticas. Essa nova perspectiva pedagógica influenciou os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1997 (Brasil, 1997) e a BNCC (Brasil, 2017), aproximando a EF da área de Linguagens ao reconhecer o corpo como ente biológico e social.
Quanto à BNCC, até termos o documento final, passou-se por três diferentes versões, todas influenciadas pelo momento político vivido no Brasil, ora mais alinhadas às ideologias de perspectiva social, ora às de perspectiva neoliberal. Para Santos e Fuzii (2019), a última versão publicada e vigente significou um retrocesso aos avanços democráticos que a segunda versão trouxe. Na visão dos autores, a versão anterior era positiva no sentido de que “[...] revelava ser dever da educação formar sujeitos para uma sociedade menos injusta, menos desigual, mais inclusiva e que reconhece as diferenças” (Santos; Fuzii, 2019, p. 13). Já a versão final significou um objeto de interesse empresarial, de enfoque cognitivista e instrumental, ao contrário do que a inserção da EF na Área de Linguagens se propõe, ressaltam os autores.
Para Gomes e Souza (2020), a reforma da BNCC sob influência neoliberal resultou na precarização da aprendizagem e afastamento dos estudantes do Ensino Superior. A falta de acesso a saberes essenciais e a hierarquização de componentes curriculares, imprimindo-lhes maior ou menor relevância para a empregabilidade do cidadão no mercado de trabalho, dificultam a socialização dos indivíduos como seres historicamente instruídos e naturalizam a lógica de precariedade de trabalho. Isso reserva os melhores postos de trabalho para aqueles com acesso ao Ensino Superior, deixando a mão de obra básica sujeita a baixos salários e intensas cargas horárias.
Diferentemente do entendimento curricular da BNCC, de que o objeto de estudo da EF se aloca na dimensão da linguagem corporal e do desenvolvimento da gestualidade e de práticas corporais, Gomes e Souza (2020) compreendem que o objeto de estudo da Educação Física é a cultura corporal, que reconhece o trabalho como atividade essencial para a vida humana e em sociedade. É por meio do trabalho que o homem constrói/transforma o mundo. É por meio dele que se desenvolvem questões filosóficas, epistemológicas, sociais, culturais e, com isso, os esportes, os folclores e toda mudança histórica da sociedade, sendo a própria linguagem resultado do trabalho.
Os autores destacam que focar na linguagem corporal como objeto de ensino limita a EF à produção e reprodução de expressões corporais, desconectadas de suas construções históricas e sociais. A inclusão da EF na área de linguagens, junto com Artes, Língua Estrangeira, Literatura e Língua Portuguesa, suprimiu conteúdos essenciais, não atendendo às especificidades de cada disciplina. A influência do mercado de trabalho na educação brasileira relega a EF a um status não essencial, semelhante a Artes, Sociologia e Filosofia, por não desenvolver competências alinhadas às exigências do mercado de trabalho (Gomes; Souza, 2020).
Por outro lado, na perspectiva de Martineli et al. (2016), as décadas de 1960 e 1970 foram fundamentais para a construção da Base Curricular que conhecemos hoje. Nessa época, a UNESCO criou políticas públicas educacionais com o interesse de produzir mecanismos de fomento de uma “Cultura de paz”. A partir disso, no Brasil, a EF e os esportes passaram a ter maior protagonismo por meio de políticas públicas criadas com base nos objetivos da UNESCO.
Os autores também destacam que o foco da EF até 1980 foi a concepção de aptidão física vinculada à saúde e ao esporte e que na década de 1990, com o início da redemocratização do país, a área buscou correntes teórico-filosóficas que disseminaram a concepção da EF e a sua base de ensino conhecida atualmente. A BNCC, na primeira versão, de acordo com Martineli et al. (2016), trazia uma concepção preliminar de EF como linguagem, tendo como objetivo o ensino nas práticas corporais com foco no indivíduo e não na coletividade. Tal abordagem enfatiza que o aluno seja protagonista do seu próprio processo educacional, mas dificulta a socialização e o ensino de alunos da rede pública, assim como secundariza o trabalho do professor.
Como forma de incentivo, Martineli et al. (2016, p. 20), sugerem que o ensino deva ser “pautado na valorização da história, da cultura e técnica da cultura corporal, na importância da mediação do professor para a aprendizagem do aluno e na formação da consciência crítica frente à realidade social”. Sendo assim, os alunos da rede pública poderão acessar de forma mais constante a educação por meio da mediação de professores capacitados que irão promover suas potencialidades e poderão incentivar seus estudos. Com a presença de um ensino mais rico na realidade histórica e o objetivo de formação crítica dos indivíduos, a EF poderá possibilitar uma formação integral do aprendizado.
Diante da presença da EF como integrante da área de Linguagens na BNCC, é evidente que o percurso histórico desse componente curricular reflete não apenas as transformações sociais, mas também as oscilações políticas que permeiam a educação brasileira. Inicialmente atrelada a concepções higienistas e militares, a EF evoluiu ao longo do tempo, incorporando perspectivas humanistas e pedagógicas a partir do Movimento Renovador nas décadas de 1980. Contudo, as versões da BNCC, marcadas por influências políticas, revelam um retrocesso na busca por uma educação mais inclusiva e voltada para a formação cidadã. A última versão, impregnada de interesses empresariais e uma abordagem cognitivista, desvirtua o propósito inicial de integrar a EF à área de Linguagens. O estudo de Gomes e Souza (2020), mencionado anteriormente, destacou os impactos negativos dessa instrumentalização, sendo a precarização da aprendizagem, a hierarquização de disciplinas voltadas exclusivamente para a empregabilidade e o afastamento dos alunos da escola, como métodos neoliberais de instrumentalização da educação e submissão de uma sociedade à lógica empregatícia e ao mercado de trabalho.
Portanto, a trajetória da EF escolar no Brasil, desde suas raízes higienistas e militaristas até as abordagens críticas, reflete as transformações sociais e políticas que o país enfrentou. A análise histórica revela um movimento constante entre avanços e retrocessos, particularmente evidentes nas diversas versões da BNCC. Enquanto a EF busca uma identidade própria e o reconhecimento enquanto componente curricular, a influência de interesses políticos e econômicos distorce seus objetivos pedagógicos. A reflexão sobre o impacto das reformas educacionais, como destacam Gomes e Souza (2020), evidencia a necessidade de uma abordagem mais equilibrada e inclusiva, que reconheça a importância da cultura corporal e a formação crítica dos alunos. É essencial que a EF continue a evoluir, mantendo-se fiel ao seu propósito de contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes, promovendo não apenas a aptidão física, mas também a consciência social e cidadã.
Além disso, ao compreendermos a EF como constituinte da área de linguagens não podemos esquecer que somos corpo. Em relação ao corpo, Merleau-Ponty refere-se ao corpo fenomenal, contrapondo o pensamento científico clássico, que o vê como objeto. Para ele, o corpo é o modo próprio de ser-no-mundo. Esta posição de Merleau-Ponty, conforme Reis (2011, p. 38), leva a “repensar a subjetividade em sua corporeidade, através de argumentos que sustentam a ideia de que não tenho um corpo, o corpo não é a morada do sujeito, não é algo de que posso me despir, me desvencilhar, mas sou meu corpo”.
A busca por pressupostos para sustentar a EF enquanto Linguagem
Nessa categoria analisamos os artigos selecionados visando conhecer quais são os referenciais teóricos que são utilizados para dar suporte à compreensão da EF enquanto linguagem. Entendemos que esse é um esforço teórico necessário e que precisa ser mantido vivo para conseguirmos compreendermos a inserção da EF na área de Linguagens.
Ao integrar conceitos teóricos, pedagógicos e científicos à prática pedagógica, é possível compreender melhor a linguagem corporal e sua relação com os contextos socioculturais. De acordo com Araújo e Oliveira (2022), as teorias desempenham um papel fundamental nesse campo educacional, oferecendo uma visão mais ampla e interdisciplinar do ensino de EF. A integração entre teoria e prática não só enriquece as abordagens técnicas, mas também proporciona uma compreensão mais profunda do significado e do papel da atividade física na vida dos alunos, considerando aspectos culturais, sociais e psicológicos. Essa abordagem integrada é essencial para a formação dos estudantes e para o desenvolvimento de uma EF significativa e relevante.
Ainda sobre o estudo de Araújo e Oliveira (2022), foi examinada a noção de linguagem presente na Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (BNCC-EM) e sua relação com a EF. Uma das categorias identificadas foi a abordagem semiótica da linguagem, conforme analisada por Betti (2021), embora com elementos diferentes que ressaltam a importância de considerar a complexidade e a diversidade de significados atribuídos à linguagem corporal na EF. Enquanto a BNCC-EM destaca a linguagem como central para compreender as práticas corporais como “textos culturais” que refletem pertencimentos sociais, as análises de Betti (2021) enfatizam outros aspectos da linguagem corporal, como expressão individual, subjetividade e experiência vivida dos alunos durante as aulas.
Essa diferença de pontos de vista pode enriquecer a discussão sobre como a linguagem corporal, a cultura e o ensino de EF se relacionam, possibilitando uma abordagem mais abrangente e inclusiva que leve em conta não apenas os aspectos coletivos e culturais, mas também as particularidades e experiências individuais dos alunos. Ao incorporar essas perspectivas diversas, os professores de EF podem desenvolver uma prática pedagógica mais enriquecedora, que reconheça a importância da expressão pessoal, da diversidade cultural e da construção de significados individuais no contexto das atividades físicas e esportivas. Essa integração entre a teoria semiótica e a prática pedagógica pode ter um impacto significativo na construção de uma EF mais significativa, pertinente e inclusiva para todos os estudantes.
Essa análise é fundamental para verificar como a linguagem é entendida na esfera educacional e como essa compreensão pode afetar o ensino de EF. Araújo e Oliveira (2022) ressaltam a falta de clareza conceitual sobre linguagem na política educacional, o que motiva uma reflexão sobre a necessidade de uma abordagem mais precisa e aprofundada da linguagem no contexto educacional. Os autores observam que a busca por fundamentos que sustentem a EF como linguagem é essencial para melhorar o processo educacional.
Segundo Brasileiro e Marcassa (2008), as práticas culturais têm um papel essencial na EF, pois é através delas que os alunos têm seu primeiro contato com elementos da cultura corporal de movimento, como dança, jogos, luta, ginástica e esporte. Esse envolvimento, quando guiado por uma abordagem pedagógica criativa e crítica, pode enriquecer significativamente a formação integral dos alunos. Os autores ressaltam a importância de entender as narrativas corporais presentes na ginástica e na dança e oferece valiosas orientações pedagógicas para apoiar a prática da EF, como a exploração e reconstrução dessas histórias corporais, a valorização do corpo e uma abordagem crítica e criativa da ginástica e da dança.
A partir dessa abordagem, a EF desempenha o papel de intermediária na disseminação de tradições culturais, que são fundamentais na constituição de identidades individuais e coletivas, além de definir padrões sociais dentro da sociedade. Portanto, é crucial que a EF incorpore a ginástica e a dança como manifestações da cultura corporal de movimento, permitindo que os alunos experimentem e explorem diversas formas de expressão corporal, utilizando materiais alternativos, técnicas e tecnologias.
Para fundamentar essa reflexão e as propostas pedagógicas, os autores utilizam importantes referenciais teóricos, tais como: O Ensino das artes: construindo caminhos (Ferreira, 2001) , Sentir, pensar, agir: corporeidade e educação (Gonçalves, 1994), Concepções abertas no ensino da Educação Física (Hildebrandt, 1986), Marx e a pedagogia moderna (Manacorda, 1991), Metodologia do ensino da ginástica: novos olhares, novas perspectivas (Marcassa, 2004) e Ensino de dança hoje: textos e contextos (Marques, 1999). Essas fontes contribuem para esclarecer sobre as linguagens do corpo na ginástica e na dança, além de inspirar ideias para propostas pedagógicas que valorizam a diversidade cultural e a expressão corporal dos alunos.
Portanto, destacar a análise das narrativas presentes nas práticas corporais é essencial para se compreender a dramaturgia, a escrita e a imagem que constituem a cultura corporal de movimento. Essa abordagem não apenas possibilita compreender as expressões culturais na ginástica e na dança, mas também valoriza a diversidade de linguagens do corpo e promove a expressão individual dos alunos. Ao incorporar referências teóricas relevantes e propostas pedagógicas inovadoras, a EF pode desempenhar um papel mediador na disseminação de tradições culturais, contribuindo para a formação integral dos alunos e para a construção de identidades individuais e coletivas na sociedade.
Além disso, Brasileiro e Marcassa (2008) defendem a exploração de materiais alternativos na ginástica, como bastões, cordas, jornais, elásticos, sombrinhas, bambus, toalhas, lençóis, caixas, travesseiros, paredes, fitas e objetos de arte. Essa abordagem crítica e criativa da ginástica e da dança na escola é vista como um meio de facilitar o diálogo com a cultura corporal, permitindo que os alunos experimentem uma ampla variedade de expressões e explorem diversos materiais, técnicas e tecnologias. Essa concepção dialoga com a abordagem crítico-emancipatória proposta por Kunz (2016) na medida que se defende que a aula de EF é espaço de criação, de construção de novas experimentações corporais, sendo que o uso de materiais diversos é fundamental para ampliar os horizontes dos alunos quantos as possibilidades de criação e a ampliação dos limites do corpo.
No estudo conduzido por Araújo e Oliveira (2022) sobre a concepção de linguagem na BNCC-EM e sua relação com a EF, os autores identificam a abordagem semiótica de linguagem, embora com interpretações diferentes. No entanto, não fica claro quais autores específicos são mencionados na abordagem semiótica. Essa análise é crucial para compreender como a linguagem é percebida no contexto educacional e como essa percepção pode afetar o ensino de EF. A fragilidade conceitual da linguagem na política educacional ressalta a importância de uma análise mais profunda e precisa da linguagem no contexto educativo. Seria benéfico investigar mais detalhadamente a questão da fragilidade conceitual da linguagem, examinando como essa conclusão foi alcançada e como isso pode impactar as práticas educativas em EF.
A Semiótica, também abordada por Betti (2021), oferece uma perspectiva interessante, baseada em Bakhtin (2011), ao ressaltar a importância de considerar a EF como uma prática de linguagem e de comunicação. Destaca-se a necessidade de analisar não apenas as relações internas da estrutura textual, mas também as relações paradigmáticas e extratextuais, que têm origem na história e na sociedade. Ao adotar essa abordagem, é possível promover uma compreensão mais aprofundada da EF como linguagem e sua interação com outros domínios de conhecimento.
Outro artigo que se valeu de Bakhtin como pressuposto teórico foi o estudo de Brasileiro e Marcassa (2008), no qual enfatiza-se a importância de compreender as dimensões expressivas do corpo na ginástica e na dança. Essa compreensão é primordial para uma formação integral dos alunos, pois a EF não se limita apenas ao corpo como uma entidade biológica, mas também abrange a expressividade e a cultura corporal. A integração de materiais alternativos nas práticas de ginástica e dança proporciona uma abordagem mais criativa e diversificada, permitindo explorar várias expressões culturais, reforçando o conceito de “intertextualidade” de Bakhtin (2011).
Outra base teórica utilizada para discutir a compreensão de EF enquanto linguagem vem dos estudos realizados por Almeida e Fensterseifer (2019) que buscam suporte na filosofia, mais especificamente na hermenêutica a partir da obra Verdade e Método, de Gadamer (2008). Essa perspectiva hermenêutica gadameriana amplia a compreensão do movimento como um fenômeno da linguagem, permitindo uma visão abrangente das dimensões do conhecimento no contexto da EF. A hermenêutica, ao considerar a interpretação como um diálogo entre o intérprete e a obra, facilita uma relação mais profunda com as práticas corporais, integrando aspectos estéticos, éticos e históricos.
Portanto, a EF pode ser considerada uma forma de linguagem, estando intimamente ligada à cultura corporal. Como ressaltado por Brito (2013), é crucial perceber o corpo humano não apenas como uma entidade biológica, mas como um ser biológico e social, sujeito a diversos simbolismos e significados. Essa compreensão mais abrangente possibilita uma abordagem mais enriquecedora da EF, integrando-a a uma teoria social materialista dialética, o que possibilita o entendimento de que desenvolvimento e aprendizado são processos construídos, histórica e culturalmente. Isso suscita reconhecer a EF como uma linguagem que constrói e representa significados sociais, considerando suas contradições histórico-culturais, conforme proposto por Vygotsky (2000), autor que Brito (2013) utiliza-se como fundamentação teórica.
Duarte (2010), por sua vez, destaca a importância de se considerar a EF como uma linguagem expressa através do corpo em movimento. Enfatiza a necessidade de adotar uma perspectiva qualitativa e interpretativa, inspirada nas Ciências Humanas, para compreender a cultura corporal de movimento. Reconhecer a EF como linguagem permite explorar os gestos como símbolos e considerar a formação de um corpus para analisar manifestações em busca de significados relevantes para determinados contextos sociais e culturais. Além disso, destaca-se a importância de transcender a abordagem positivista na EF, reconhecendo a subjetividade e a razão cognitiva do ser humano presentes no corpo e nas linguagens corporais. Por fim, ressalta-se a importância de considerar a EF como uma linguagem que se expressa não apenas pelo movimento do corpo, mas também por gestos, tonalidades e expressões faciais, refletindo as fontes de pensamento e a essência do ser humano. A interação entre linguagem e gesto é vista como um meio de contato com o mundo, a cultura e o outro, ampliando a compreensão e as possibilidades de ensino e pesquisa nessa área.
Os artigos analisados destacam que a EF não deve ser considerada isoladamente, mas sim como parte de um diálogo interdisciplinar complexo. Nesse sentido, constata-se que os autores utilizados são oriundos de diferentes áreas de conhecimento, tais como a semiótica, a sócio-interacionista, a fenomenologia, o materialismo-dialético e da própria EF. Portanto, hoje, tem-se um mosaico teórico, o que reflete o momento que a EF vive, de discussão e compreensão do que representa fazer parte da área de Linguagens.
Por outro lado, os artigos convergem no sentido de ressaltar a importância de uma abordagem crítica e interdisciplinar, na qual teorias da linguagem e da compreensão da cultura corporal se complementam para fornecer uma base sólida para a prática educacional nessa área. Ao ser compreendida como linguagem e cultura corporal de movimento, a EF amplia suas possibilidades pedagógicas, contribuindo para uma formação integral dos alunos que vai além do corpo biológico e abraça a expressividade e as diversas manifestações culturais que enriquecem nossa sociedade. Portanto, há aproximações com o “se-movimentar”, conceito constituinte da abordagem crítico-emancipatória (Kunz, 2016) que reconhece o aluno como sujeito no mundo, que busca fazer do ensino um espaço para que os alunos possam criar, interagir e construir suas próprias experiências de movimento.
A EF na área de Linguagens: práticas pedagógicas escolares e relatos de professores
Esta categoria tem como objetivo apresentar o movimento da EF no contexto escolar ao ser inserida na área de Linguagens a partir de pesquisas que investigaram a prática pedagógica. Autores como Brasileiro e Marcassa (2008) têm contribuído para enriquecer essa discussão, a partir da qual se entende que a EF vai além da simples prática de atividades físicas e serve como ponto de partida para os alunos se familiarizarem com elementos da cultura corporal de movimento.
Santos, Marcon e Trentin (2012) conduziram uma pesquisa aprofundada que explora a complexa relação entre a EF e a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, sob a perspectiva dos educadores. Neste estudo qualitativo, os pesquisadores envolveram 16 professores de três escolas públicas estaduais e mais de 1.500 alunos. Os resultados destacam os desafios enfrentados pelos docentes no contexto da interdisciplinaridade e na aceitação da EF como um elemento intrínseco à área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Essas descobertas são cruciais para a efetiva implementação das políticas educacionais na Educação Básica, uma vez que a EF desempenha um papel fundamental na formação dos estudantes. Nesse artigo, esse componente curricular é apresentado como o ponto de partida em que os alunos têm seu primeiro contato com a produção e interpretação de diferentes linguagens corporais. Durante as aulas de EF, eles começam a desenvolver suas habilidades de interpretação em relação à dança, ao jogo, à luta, à ginástica e ao esporte, compreendendo-os como elementos essenciais da cultura corporal de movimento.
Explorar as complexidades da integração da EF com os componentes curriculares da área de Linguagens na Base Nacional Comum Curricular é uma necessidade evidente. Arruda et al. (2020) destacam a importância da interdisciplinaridade e do trabalho colaborativo entre os professores como elementos fundamentais na construção de uma prática pedagógica mais enriquecedora e holística. Além disso, o artigo ressalta os desafios enfrentados pelos docentes na busca por uma educação mais integrada, abordando questões como a carga horária e as condições de trabalho, e oferece estratégias para aproximar a EF dos demais componentes curriculares da área de Linguagens.
Arruda et al. (2020) conduziram um estudo de caso exploratório com abordagem qualitativa, envolvendo professoras da área de Linguagens em uma escola da rede pública de Ensino Básico estadual. Quatro professoras, uma de cada componente curricular, foram escolhidas intencionalmente por apresentarem mais de 20 anos de docência na Educação Básica e, portanto, terem acompanhado debates relacionados aos documentos legais educacionais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990, os Parâmetros Curriculares Nacionais (Introdução) de 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais (Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental) de 1998, os Parâmetros Curriculares Nacionais (EM) de 2000, as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica de 2013, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de 2018 e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de 2018.
A pesquisa teve como objetivo compreender as possibilidades de articulação entre os componentes curriculares da área de Linguagens e a atuação da escola nesse contexto. De acordo com as professoras entrevistadas, os principais desafios na integração da EF com os componentes curriculares da área de Linguagens estão relacionados à falta de tempo e espaço para reuniões pedagógicas, bem como à jornada de trabalho dos professores em diferentes escolas. Como estratégia para promover a prática interdisciplinar, a escola pode incentivar a realização de momentos de formação e reflexão conjunta entre os docentes, além de estimular a elaboração de projetos pedagógicos integrados.
Em outro estudo, Bielavski et al. (2021) enfatiza a importância crucial da EF na formação dos alunos, especialmente diante do desafio do ensino remoto, tornando-se essencial devido à pandemia de COVID-19. O estudo teve como objetivo compreender a organização das aulas de EF de forma interdisciplinar, em conjunto com os outros componentes da Área de Linguagens, e explorar as relações estabelecidas em conformidade com a BNCC no contexto educacional do Rio Grande do Sul. Utilizando uma abordagem qualitativa, a investigação destaca a imersão em situações em que os sentidos e significados do que se busca conhecer são produzidos. Sob essa perspectiva, a pesquisa se configura como exploratória, buscando compreender o momento educacional e o papel da EF nesse contexto.
Os participantes representaram diversas esferas educacionais, incluindo 11 professores da rede estadual, 12 de escolas privadas e 20 de redes municipais, abrangendo a capital Porto Alegre e outras 14 cidades gaúchas. Esses profissionais atuam em diferentes níveis de ensino, incluindo Ensino Fundamental, Médio e Educação Infantil. A pesquisa está fundamentada em um sólido referencial teórico, que inclui a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/1996 e o PCN + EM, fornecendo orientações educacionais adicionais aos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Os resultados destacam o papel crucial da EF na formação integral dos alunos, promovendo o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e social. Além disso, ressaltam a importância da integração entre a EF e os demais componentes da área de Linguagens, enriquecendo os processos de ensino e de aprendizagem. Em relação à BNCC, o artigo evidencia sua utilidade como um guia para o planejamento das aulas pelos professores de EF. Destaca-se que a BNCC deve ser considerada como um documento flexível, adaptável às necessidades e realidades específicas de cada escola e de cada aluno.
Pacheco e Silveira (2021), por sua vez, conduziram uma pesquisa que envolveu 53 professores de Educação Física Escolar da rede estadual de São Paulo. Esses professores eram exclusivamente dedicados ao EM nas escolas do Programa de Ensino Integral. A seleção dos participantes ocorreu em 2018, em colaboração com a Secretaria de Educação do Estado. Foi enviado um questionário via Google Docs pela Escola de Formação de Professores, responsável pela formação continuada dos docentes.
A partir dessa pesquisa, foi realizada uma análise das percepções dos professores de EF no EM do Estado de São Paulo. Essas percepções abrangeram diversos aspectos do currículo, as implicações da reforma do EM e a identidade da EF em um cenário em constante mudança. O estudo revela que os professores de EF no EM de São Paulo observaram uma prevalência de conteúdos que enfatizam atividades físicas, com um viés predominantemente biológico e um foco no estilo de vida ativo. Essa ênfase pode ser considerada inadequada para satisfazer completamente a visão de EF como um componente curricular inserido na área de Linguagens, conforme sugerido pelo próprio currículo. Além das questões curriculares, os professores indicaram a necessidade de revisar outros elementos do currículo, como nomenclaturas, situações de aprendizagem e materiais de apoio. No entanto, as mudanças propostas não se limitam apenas ao currículo, mas também abrangem questões estruturais, psicológicas e sociais que impactam o campo da educação como um todo.
Essa pesquisa contribui de forma significativa para o debate sobre a revisão curricular na EF no EM. Além disso, salienta a importância de considerar os contextos que moldam a prática dos professores. O estudo identifica desafios significativos que o componente curricular enfrenta na busca por uma identidade mais completa e eficaz, evidenciando as complexidades inerentes à EF na contemporaneidade.
Fonseca et al. (2017) realizaram uma pesquisa detalhada sobre a percepção de professores e supervisores escolares em relação à inclusão da EF na área de Linguagens no EM de Porto Alegre. O estudo foi conduzido em escolas públicas estaduais, seguindo diretrizes legislativas e pedagógicas que foram extensivamente debatidas por profissionais da educação. Fundamentado em uma perspectiva pós-estruturalista, o trabalho adota uma abordagem que questiona e discute questões educacionais contemporâneas. O cerne da discussão, que embasa a integração da EF na área de Linguagens, fundamenta-se em uma concepção de linguagem que ultrapassa as fronteiras específicas de cada disciplina, revelando sua natureza intrinsecamente transdisciplinar.
Nesse contexto, o artigo discute um dos novos desafios enfrentados pelos professores de EF na elaboração de experiências pedagógicas, considerando uma nova abordagem curricular que parece perder algumas referências tradicionais, particularmente nos documentos legais. A pesquisa revela que os professores entrevistados têm percepções diversas sobre o papel da EF neste novo paradigma curricular. A maioria dos entrevistados concebe a linguagem principalmente como comunicação e expressão, o que sugere a necessidade de ampliar o debate na formação inicial e continuada de professores.
Oliveira et al. (2023) conduziram uma pesquisa exploratória-documental que analisou o currículo para o EM de Sergipe (CES-EM). Optando pela abordagem qualitativa, a pesquisa se concentrou na análise de fontes primárias, utilizando o texto introdutório do documento e várias seções, como Linguagens e suas Tecnologias, Artes, Educação Física, Língua Espanhola, Língua Inglesa e Língua Portuguesa Brasileira.
O método de construção de segmentos de texto, combinado com a Classificação Hierárquica Descendente, foi utilizado para analisar 509 segmentos de texto, dos quais 80,16% foram retidos para a identificação das classes. O estudo proporciona uma análise detalhada da reestruturação do currículo do EM em Sergipe e seu impacto na EF. O autor enfatiza a importância de uma compreensão crítica e reflexiva desse contexto, destacando a necessidade de explorar profundamente a linguagem e seus limites teóricos para evitar uma apropriação acrítica de conceitos.
O artigo se apoia na perspectiva de Betti (2021), que discute a compreensão semiótica da linguagem, oferecendo uma base consistente para a análise. Além disso, examina a BNCC, buscando identificar as seções relevantes para os propósitos da pesquisa. Como conclusão, destaca-se que a reestruturação curricular em Sergipe leva em consideração o contexto histórico e social da concepção de linguagem na EF no Brasil. Também se ressalta a urgência de aprofundar o debate sobre esse tema crucial. A reformulação do currículo deve ser orientada por uma compreensão sólida da linguagem e uma abordagem crítica, a fim de incorporar eficazmente os princípios da EF nesse contexto. Em síntese, o artigo traz uma contribuição significativa ao campo da EF, ao destacar a relevância da linguagem e as implicações da reestruturação curricular em Sergipe. Isso gera reflexões importantes que merecem uma análise mais aprofundada no contexto educacional.
Com base nas análises e conclusões apresentadas, é evidente a importância da interdisciplinaridade na concepção da EF como parte integrante da área de Linguagens. O estudo conduzido por Santos, Marcon e Trentin (2012) fornece um maior discernimento sobre os desafios enfrentados pelos professores na integração da EF como componente intrínseco às Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, destacando a necessidade de superar obstáculos e promover uma integração mais efetiva entre os componentes curriculares.
A abordagem da EF como ponto de partida para a compreensão e produção de diversas linguagens corporais oferece oportunidades para promover a interdisciplinaridade. O estudo de Fonseca et al. (2017) adota uma perspectiva pós-estruturalista, destacando a transdisciplinaridade presente na concepção de linguagem. Essa abordagem desafia os professores de EF a reconsiderar suas práticas pedagógicas diante das mudanças no cenário educacional e da perda de referências tradicionais. A análise da reforma do EM em Sergipe, realizada por Oliveira et al. (2023), complementa essa discussão. O estudo revela que a reestruturação curricular na região não ignora o contexto histórico e social da concepção de linguagem na EF no Brasil. No entanto, destaca a necessidade urgente de um debate mais aprofundado sobre esse tema, enfatizando a importância de uma compreensão sólida da linguagem e de uma abordagem crítica para a efetiva incorporação dos princípios da EF nesse novo contexto.
A análise das pesquisas revela que promover a interdisciplinaridade, revisar os currículos e reconhecer adequadamente a EF como parte das Linguagens são etapas essenciais para garantir uma educação de qualidade. A interação complexa entre prática e discurso na EF emerge como um elemento crucial para aprimorar o processo educacional. Refletir continuamente sobre esses aspectos, com base nos estudos apresentados, contribui para uma compreensão mais aprofundada e uma prática mais eficaz na EF, enriquecendo a formação integral dos alunos no EM.
Nesse contexto, a interdisciplinaridade entre a EF e outros componentes da área de Linguagens é primordial para a formação crítica dos estudantes. Em relação ao currículo do EM, é importante revisá-lo, levando em consideração as percepções dos professores desse componente curricular, a fim de encontrar formas de incorporar a EF na área de Linguagens, com base em uma compreensão sólida da linguagem e uma abordagem crítica. No centro dessas discussões, a comunicação entre práticas escolares e percepções dos docentes é essencial para aprimorar o processo educativo. Isso promove uma compreensão abrangente da linguagem e sua conexão com a cultura corporal, o que consequentemente contribui para a formação dos estudantes.
Nesse sentido, entendemos que a fenomenologia nos auxilia a compreender o lugar da Educação Física na área de Linguagens, principalmente na relação entre sujeito e movimento, como nos apresenta Reis (2011, p. 37):
Como ser-no-mundo, o homem é um ser-em-movimento e o que o possibilita mover-se, dirigir-se a alguma coisa, seja caminhando até ela ou simplesmente voltando-lhe o olhar, é o corpo. [...] O movimento, portanto, é uma maneira de nos relacionarmos com as coisas e uma forma legítima de conhecê-las: uma cognição sensível. E, porque estamos implicados como um todo neste ato cognitivo mediado pelo sentir, ele reflete nosso movimento existencial, ele está carregado com nossos valores, afetos, desejos, de modo que o sentido emergente nesta relação é um sentido vital.
Considerações Finais
As considerações finais desta pesquisa ressaltam a transformação trazida pela Lei nº 13.415/2017, que redefiniu o papel da EF como integrante da área de Linguagens no EM. A análise histórica da EF no contexto educacional brasileiro e as percepções dos professores sobre essa categorização revelaram a necessidade de compreender a EF para além de uma simples classificação linguística. Verificamos que, mesmo antes da homologação da BNCC, já havia estudos que tematizam a Educação Física enquanto linguagem.
É fundamental que a inserção da EF nas Linguagens seja acompanhada de sustentação teórica, pois isso irá contribuir para melhorar o processo educacional. Nos estudos evidenciamos um movimento na busca por pressupostos teóricos em diferentes áreas, tais como a Semiótica, a Filosofia e as Artes, além de autores da própria Educação Física. Isso traz perspectivas diferentes. Enquanto Betti (2021) destaca a expressão individual e a subjetividade dos alunos durante as aulas, Almeida e Fensterseifer (2019) propõem a integração da EF com a hermenêutica gadameriana, ampliando a compreensão do movimento como fenômeno da linguagem. Por sua vez, Brito (2013) ressalta a importância de considerar o corpo humano como uma entidade biológica e social, integrando-a a uma teoria social materialista dialética e reconhecendo-a como uma linguagem que constrói e representa significados sociais.
Entendemos que o momento vivido pela EF requer esforços da área para avançar na compreensão da Educação Física enquanto linguagem. A questão vai muito além da inserção na área de Linguagens, exigem esforços para que esse entendimento conceitual reflita-se na prática pedagógica dos professores de EF. Além disso, também se faz necessário que se dê condições para que os diferentes componentes curriculares que compõem a área possam construir uma caminhada coletivamente.
No que diz respeito à presença da EF na área de Linguagens nos estudos realizados em escolas, há dificuldades enfrentadas pelos professores, como a falta de tempo e espaços para colaboração, juntamente com a pressão para priorizar componentes curriculares com base na empregabilidade dos alunos, o que dificulta a efetiva implementação da EF como parte das Linguagens. É crucial aprofundar a compreensão da interação entre a EF e os componentes curriculares de Linguagens, valorizando a diversidade cultural e as expressões corporais dos alunos. Nesse sentido, há necessidade de se reconhecer a relevância de todos os componentes curriculares para a formação dos alunos, e dar condições para que os professores consigam planejar coletivamente e, por que não sonharmos, com uma docência compartilhada.
Para tanto, os estudos de Betti (2021), Almeida e Fensterseifer (2019) e Oliveira et al. (2023) oferecem uma base sólida para discutir a linguagem no contexto da EF. Ao reconhecer a importância social, filosófica e cultural da EF, podem consolidar uma compreensão de linguagem que não negue ou desmereça os avanços da área da Educação Física escolar a partir da compreensão de seu objeto de ensino como sendo a cultura corporal de movimento, presente na própria BNCC. No entanto, é necessário enfrentar os desafios intrínsecos, buscando uma abordagem interdisciplinar que reconheça a complexidade da EF no contexto educacional contemporâneo.
Este estudo destaca a importância de continuarmos investigando e discutindo a integração da EF na área de Linguagens. Considerando que já encontramos pesquisas que tratam das percepções dos professores de EF, destacamos a necessidade de olhar para os alunos do Ensino Médio, para conhecermos também as suas percepções sobre o tema.















