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ETD Educação Temática Digital

versão On-line ISSN 1676-2592

ETD - Educ. Temat. Digit. vol.25  Campinas  2023

https://doi.org/10.20396/etd.v25i00.8667319 

ARTIGO

MAQUINAÇÕES COM ARQUIVOS: MODOS, MEIOS E RITMOS

MACHINATIONS WITH ARCHIVES: WHAYS, MEANS AND RHYTHMS

MAQUINACÍONS CON ARCHIVOS: MODOS, MEDIOS Y RITMOS

Róger Albernaz de Araujo1 

Tamires Guedes dos Santos2 

Guilherme Costa da Motta3 
http://orcid.org/0000-0002-1163-2893

1Pós-doutorando em Educação, Bolsista CAPES/PNPD - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS. Doutor em Educação - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS. Professor regular - Programa de Pós-graduação em Educação - Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul) Pelotas, RS - Brasil. E-mail: roger.albernaz@gmail.com

2Doutoranda e Mestre em Educação e Tecnologia - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio- Grandense (IFSul). Pelotas, RS - Brasil. E-mail: tamiresguedessantos@gmail.com

3Doutorando em Filosofia - Universidade Federal de Pelotas. Mestre em Educação e Tecnologia - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul). Pelotas, RS - Brasil. Professor de Educação Básica - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul). Pelotas, RS - Brasil. E-mail: guilhermecmotta@yahoo.com.br


RESUMO

O presente artigo articula o Método Maquinatório de Pesquisa, e os conceitos de Arquivo, de Michel Foucault e de Máquina Abstrata, de Deleuze e Guattari, no sentido de diagramar o conceito de Maquinatório. Assim, dispõe de duas pesquisas, que por seus deslocamentos produziram dois arquivos, mesmo que cada um já seja efeito da coleção de outros vários. No caso, o Método Maquinatório de Pesquisa tensiona uma política de invenção- criação – invencionamentos – de perspectivas imanentes-consistentes com os arquivos-texto-pesquisa. Uma dupla tensão e algo que passa: ora, uma crítica sintomatológica tensiona os índices dos arquivos, toca as matérias-sintomas e produz arquivamentos que atualizam os arquivos-texto-pesquisa; ora, uma clínica- maquinatória tensiona uma invenção-criação na relação com os índices de arquivamento, toca as matérias e gestualiza arquivizações; ora, reticências e QR Codes perseguem índices para invenção de pontos de comunicabilidade entre os caminhos traçados no arquivo-texto-pesquisa – atual – e os percursos de um escrileitor por vir – potencial. Um escrileitor tensiona um meio, inventa percursos e cria outros caminhos; entra em um ponto qualquer, traceja linhas, produz ordenadas, repetidamente, por entre maquinações fabulatórias, que segmentam e flexibilizam novos arquivos. O que passa? Uma máquina abstrata. Uma máquina de escrileitura que na relação matéria-função produz um ponto de maquinação, um traço fabulatório e uma linha que assina o conceito de Maquinatório, que percorre os meios, inventa percursos e cria novos caminhos pela necessidade rítmica de composição de um perspectivismo diagramático; deslocamentos que potencializam a atualização de conteúdos e expressões singulares, substanciados e formalizados em um novo arquivo.

PALAVRAS-CHAVE Método Maquinatório; Arquivo; Maquinação; Fabulatório; Maquinatório

ABSTRACT

The present article articulates the machinatory method of research and also the concepts of archive by Michel Foucault and from Abstract Machine by Deleuze and Guattari, to create a diagram of the machinatory concept. As such, it makes use of two researches that, through their paths have produced two files, even if one is made out of the collection of many others. In this case, the machinatory method of research tenses a policy of inventing-creation-inventions of perspectives that are consistent-immanent with the research text archives. A double tension and something that passes: Sometimes a symptomatologic critic tenses the archive indexes, touching the symptom- subjects and producing archiving that updates the research text archives; sometimes a machinatory clinic tenses an invention-creation in relation to the archiving indexes, touching on the subjects and gesturing archivings; sometimes suspension points and QR Codes chase indexes for the invention of points of communication between the paths laid-out in the research text archives, currently, and thecourses of a writer- reader to come, potentially. A writer-reader tenses a mean, inventing courses and creating other ways; Entering at any point, delineating lines, producing ordinate, repeatedly, in between fabulatory machinations, that segment and make new archives more flexible. What happens? An abstract machine. A writing-reading machine that, in the function-matter relation produces a point of machination, a fabulatory trace and a line that marks the machinatory concept, which goes through the means, inventing courses and creating new paths through the rhythmic need of the composition of a diagrammed perspectivism; Paths that potentialize the update of singular contents and expressions, substantiated and formalized in a new file.

KEYWORDS Machinatory method; Archive; Machination; Fabulatory; Machinatory

RESUMEN

El presente artículo articula el Método Maquinatorio de Investigación, y los conceptos de Archivo, de Michel Foucault y de Máquina Abstracta, de Deleuze y Guattari, en el sentido de diagramar el concepto de Maquinatorio. De este modo, dispone de dos investigaciones, que por sus desplazamientos produjeron dos archivos, aunque cada uno sea hecho de la colección de otros varios. En el caso, el Método Maquinatorio de Investigación tensiona una política de invención-creación – invencionamientos – de perspectivas imanentes- consistentes con los archivos-texto-investigación. Una doble tensión y algo que pasa: ora, una crítica sintomatológica tensiona los índices de los archivos, toca las materias-síntomas y produce archivamientos que actualizam los archivos-texto-investigación; ora, una clínica-maquinatoria tensiona una invención-creación en la relación con los índices de archivamiento, toca las materias y gesticula archivizaciones; ora, puntos suspensivos y códigos QR persiguen índices para invención de puntos de comunicabilidad entre los caminos trazados en el archivo-texto-investigación – actual – y los percursos de un escrilector por venir – potencial. Un escrilector tensiona un medio, inventa percursos y crea otros caminos; entra en un punto cualquier, dibuja líneas, produce ordenadas, repetidamente, por entre maquinaciones fabulatorias, que segmentan y flexibilizan nuevos archivos.

PALAVRAS-CLAVE Método Maquinatorio; Archivo; Maquinación; Fabulatorio; Maquinatorio

1 INTRODUÇÃO

Nesta pesquisa, partimos de alguns rastros, resíduos e marcas que se imbricam à trajetória de pesquisas tensionadas por um conjunto de pesquisas produzidas ao longo dos últimos dez (10) anos, mas, também, de percursos outros, de afectos, de encontros, de parcerias e de cumplicidades. É muito maluca essa questão de como lidamos com o tempo e de como o tempo lida conosco. Assim, quaisquer perspectivas de um início ressoam como datas longínquas. Mas, a percepção soa contraditória e o tempo permanece hoje, ainda derramando suas potências por onde passa a vida. Ou seja, há um desejo de tensionar uma referência-organização dos fatos a qual estamos presos, no sentido de potencializar linhas envolvidas e implicadas em múltiplas torções. E, simultaneamente, há uma atualização de um tempo singular que aciona todas as linhas possíveis no tramado de um encontro-acontecimento de uma realidade agora.

“Potencial”, “virtual” não se opõem precisamente ao real; ao contrário, é a realidade do criativo, o colocar em variação contínua das variáveis, que se opõe somente à determinação atual de suas relações constantes. A cada vez que se traça uma linha de variação, tem-se variáveis [...] de diversas naturezas [...]

(DELEUZE; GUATTARI, 2015, p. 46)

Um agora tensiona perspectivas de datas-acontecimentos: datamentos escritos e inscritos em um intervalo de vários traçados do tempo. A noção de datamento acontece não como a marcação de uma data de um calendário cronológico, e sim como uma perspectiva de registro de marcação que atualiza uma posição em um meio. O datamento registra marcas de um percurso, instâncias de deslocamentos, momentos que separam “duas eternidades” (NIETZSCHE, 2011) em um continuum de movimentos.

O que estamos nos tornando enquanto professores-pesquisadores por entre as linhas que traçamos? Quais os espaços potenciais de pesquisa que tensionamos? Com que arquivos compomos nossos percursos de pesquisa? Com que heranças nos implicamos? Com que legado nos envolvemos? Problematizações necessárias para emaranhar as linhas que compõem os nossos arquivos de formação.

Três aspectos de um mesmo movimento: ora um arquivo, ora um texto, ora um datamento. Nossos arquivos de formação funcionam como textos de partida de todo um legado na esteira da filosofia da diferença, uma herança de certo modo roubada, com a qual continuamos a compor nossos arquivos, nossos textos, nossos datamentos, que funcionam como índices de sensações e de sentidos que preenchem os nossos arquivos.

Nossos arquivos não se escrevem sós, pelo contrário, já se encontram acompanhados de muitos, mesmo que não percebamos as companhias que temos. São muitas trocas, escritas, parcerias, encontros. Não são apenas memórias, mas matérias de arquivos de formação. Uma herança de sorriso aberto, que não pesa às costas e nem inclina os ombros. Um legado de possibilidades vividas que tensiona possibilidades ainda por viver; que potencializa a dúvida, a necessidade de se diferenciar continuamente, de buscar novos modos, novos meios, novos ritmos para o que fazemos enquanto professores-pesquisadores.

O trágico não está fundado numa relação entre o negativo e a vida, mas na relação essencial entre a alegria e o múltiplo, o positivo e o múltiplo, a afirmação e o múltiplo. “O herói alegre, eis o que escapou até agora aos autores de tragédias”. A tragédia, franca alegria dinâmica.

(DELEUZE, 2018, p. 29)

E, afinal, o que faz diferença? Talvez, nossos arquivos, o modo como os tocamos e quão próximos e envoltos a eles nos dispomos a estar. Não há como falar de maquinações de arquivo sem antes perceber quais arquivos nos acompanham; quais arquivos preenchem nossos planos de composição e de imanência-consistência (DELEUZE; GUATTARI, 2011); quais arquivos nos incitam e nos excitam a essa política de invenção-criação que nos diferencia.

Neste momento, nossos arquivos não são só nossos, porque os compartilhamos no movimento de pesquisa e de escrita com tantas outras linhas, quando vislumbramos vários rostos, alguns de visada mais próxima, outros nem tanto. Mas, temos a inevitável proximidade com um sentido e uma sensação inominada e inominável de pertencimento, de afeto, que suspende o tempo e o espaço em cenas de pesquisa, em cenas de aula, em cenas de vida.

Esta escrita procura dar voz a este arquivo-texto-datamento com o qual compomos nossas coisas, as relações com a vida e com suas esquinas em fuga; mas, também com a morte e suas longas vielas de esgotamento. Consideremos esse momento, um momento de alegria; alegria de poder reviver em pesquisa, um lugar que nunca deixou de se diferenciar em nós.

Não temos por prática, ainda menos por hábito, acariciar quem nos deu seu carinho, seja no sorriso franco; seja na sugestão cuidadosa; seja na crítica afiada e, também na partilha. Crivamos o ponto de entrada desta pesquisa nesse textamento em vida; nos arquivos que temos e dos que ainda desejamos poder vir a ter; “agenciamentos” (DELEUZE; GUATTARI, 2017a, 2015, 2017b) que se tornam partes, ao lado de outras partes, daquilo que só deste modo, arriscamos a compor em algo sempre parcial e inacabado. Aceitamos e agradecemos a herança; afirmamos um legado, mas não nos abstemos de poder roubar arquivos. Achamos que já o fizemos várias vezes e, toda vez, ainda percebemos o sorriso transverso daqueles que são roubados, ao tornarem-se cúmplices e parceiros de novos desafios do pensar.

2 MODOS, MEIOS E RITMOS

Há algum tempo, envolvemos nossos desejos no entorno da produção de modos possíveis de sustentar nossas pesquisas. Aliás, essa é uma questão recorrente em termos de modos de pesquisar com o pensamento da diferença. Nesse sentido, o “Método Maquinatório de Pesquisa” (ARAUJO; CORAZZA, 2018) é um modo de pesquisar que se articula pela composição de um código aberto, ou seja, tensiona maneiras de pesquisar que assumam, recorrentemente, a posição de uma aventura transcriadora do próprio método. O que se tem é um conceito, que procura não enrijecer o pesquisador e a pesquisa, como forma de produzir procedimentos adaptativos a cada acontecimento, em cada meio que se agenciam intensidades possíveis.

O que se pretende aqui é incorporar a “ideia de arquivo” (AZANHA, 1992) como um procedimento de pesquisa do Método Maquinatório, em que os conceitos de “arquivamento” e “arquivização” (AQUINO; DO VAL, 2018) podem funcionar como procedimentos articulados à “Crítica Sintomatológica” e à “Clínica Maquinatória” (ARAUJO; CORAZZA, 2018). Uma política crítico-clínica (DELEUZE; GUATTARI, 2013) de produção de percursos de pesquisa por entre os arquivos. Uma crítica: encontrar índices, tocar em matérias e gestualizar sintomas – arquivamentos; uma clínica: invencionar novas matérias – arquivizações. Os percursos de pesquisa implicam e envolvem uma saúde arquivística de deslocamentos entre modos, meios e ritmos:

  1. Os modos compreendem as perspectivas que a pesquisa e o pesquisador assumem, enquanto coordenadas de deslocamento em um meio;

  2. Os meios funcionam como territorialidades, onde as marcas se inscrevem em registros de matérias díspares e conjuntos de forças que preenchem os arquivos;

  3. Os ritmos são produtores das necessidades de deslocamento e encarnam a potência das estratégias de invenção dos modos, dos meios e dos ritmos;

  4. Os arquivos constituem uma geomaterialidade4 da pesquisa;

  5. As marcas, os traços e os gestos funcionam como legado constitutivo dos meios com os quais a pesquisa e o pesquisador tensionam;

  6. As heranças se constituem de arquivos que preenchem um plano que não se fecha em si mesmo, mas ao contrário oferta possibilidades de novas conexões, de novos deslocamentos, de outras trocas;

  7. Uma “didática da tradução” (CORAZZA, 2017) é necessária no processo de produção dos modos de acesso aos arquivos e compõe a codificação das “escrileituras” (CORAZZA, 2010) possíveis, das estratégias necessárias e funciona como diapasão da substancialização e formalização de conteúdos e de expressões.

Este texto deseja compor uma política de invenção-criação nas relações com a pesquisa; e, para tanto, dispõe de um conjunto de elementos de partida com os quais pretende jogar: maquinação, arquivo, modos, meios, ritmos, crítica, clínica, sintomas, tradução, escrileituras, legado, herança. Mais do que palavras-chaves, cada um desses conceitos já se inscreve como um índice de registro deste arquivo-texto-datamento que se deseja tocar, no sentido de produzir arquivamentos de matérias que ressoem em heranças de deslocamentos outros, com outros arquivos; e arquivizações de matérias traduzidas, transcriadas, invencionadas.

3 ARQUIVOS, HERANÇAS E LEGADOS

Para que possamos aproximar a produção de uma maquinação de arquivos é necessário que uma ideia de arquivo funcione como matéria de expressão, ou seja, necessitamos de uma noção de arquivo, que produza um pensamento de partida para os deslocamentos didático-tradutórios. No caso, optamos por uma teorização foucaultiana, conforme problematizada no texto de Aquino e Do Val, que “[...] propõe dois procedimentos investigativos complementares: o arquivamento e a arquivização” (2018, p. 42). O texto já está implicado entre procedimentos de arquivamento e de arquivização, em um movimento tradutório que envolve a leitura de um texto de partida e a escrita de um texto de chegada.

3.1 Ideia de arquivo

Na relação do pesquisador com o arquivo, o que está em jogo é o “manejo arquivístico na pesquisa acadêmica” (AQUINO; DO VAL, 2018, p. 45), visto que há uma necessidade de leitura dos acontecimentos pelo pesquisador, que funciona como o arquivista-tradutor, que tensiona transversalmente as fontes e opera bricolagens a partir de um desejo de pesquisa.

Por arquivo, entendo o conjunto de discursos efetivamente pronunciados: e esse conjunto é considerado não somente como um conjunto de acontecimentos que teriam ocorrido uma vez por todas e que permaneceriam em suspenso, nos limbos ou no purgatório da história, mas também como um conjunto que continua a funcionar, a se transformar através da história, possibilitando o surgimento de outros discursos.

(Foucault, 2008b, p. 145).

Aqui, a ideia de arquivo que nos interessa é a do arquivo escarafunchado, fulgurante, acidental, instável, que é a gana de Foucault e, uma possibilidade nossa, legada por herança. Um gesto simples de tensionar “pequenos fatos verdadeiros contra grandes ideias vagas; a poeira desafiando a nuvem” (FOUCAULT, 2006, p. 324). Ou seja, o arquivo funciona como uma possibilidade de leitura de uma realidade, de um datamento com o qual podemos compor outros arquivos, que é o arquivo em relação. Podemos perceber, ainda, arquivo como instância de visão daquilo que foi dito; estética de um determinado momento.

3.2 Arquivamento e arquivização

A partir de uma percepção da ideia de arquivo, temos a composição de dois procedimentos que funcionam em dupla tensão: arquivamento e arquivização. O arquivamento compõe um primeiro aspecto da relação com os arquivos no momento de coleta apurada das matérias, procedendo transversamentos em relação às fontes, subtraindo literalidades e investindo em um novo cenário a partir das problematizações que emergem no próprio arquivo. O arquivamento rearranja dados, produz junções, intersecções, projeções; há toda uma relação de conjuntos que funciona como uma possibilidade de encontrar novas perspectivas de leitura e de escrita do arquivo. Trata-se, como dizem Aquino e Do Val (2018, p. 48), de uma “obstinação documentária” que aposta em uma dispersão geográfica ao invés de uma hierarquização histórica, o que demanda uma relação arqueogenealógica que opera com tipologias de força com as quais o pesquisador-tradutor produz uma arquivística singular: composição de arquivos, montagens, quebra-cabeças, bricolagens, dispersões, clusterizações5.

O arquivamento cria perspectivas para que o pesquisador destaque entroncamentos, desvios, verticalidades, horizontalidades de conteúdos e de expressões; produz novos índices a partir de novos arranjos das relações, uma potencialização do traço de invenções que sucederá como o processo de arquivização. Arquivamento e arquivização produzem acontecimentos no percurso do pesquisar. O arquivamento, a partir de um “ponto no caos’’ (DELEUZE; GUATTARI, 2017c), possibilita olhar ao redor e recolher as matérias que encontrar; enquanto a arquivização dispõe das matérias recolhidas em um traço de invenção arquivística.

No processo de arquivização, que está duplamente articulado ao arquivamento, o toque apurado do processo de arquivamento transborda no gesto que acaricia as possíveis matérias de invenção-criação em encontros de produção de sentidos e de sensações de arquivos: conceptos, perceptos, afectos. Assim, o processo de arquivização gestualiza com as marcas, com os tecidos e os vestígios de um passado imaginado, ou seja, os ruídos do arquivo decifrados pelo pesquisador; as pedras recolhidas e rearranjadas do arquivamento tomam a boca, passam de uma mão a outra, de um bolso ao outro, assopradas, cuspidas, compõem uma arquivização.

4 DIDÁTICA DA TRADUÇÃO E ESCRILEITURAS

As perspectivas de arquivamento e de arquivização abrem possibilidades nas relações entre arquivos no território educacional. Contudo, há que se perceber que arquivamento e arquivização não são processos dicotômicos, visto que entre esses movimentos reside uma tensão que opera no sentido de fazer passar algo que o pesquisador necessita tocar, movimento afinado de percepção e de afecção que toca, que desloca, que aproxima e distancia; a “pedra de toque” (DELEUZE, 2018, p. 52-53) que desenha sem moldes novos agrupamentos, outros índices, novas relações.

E todas as vezes que Nietzsche é comparado a Pascal (ou Kierkegaard, ou Chestov), impõe-se a mesma conclusão: a comparação só vale até certo ponto, isto é, abstraindo-se o que é essencial para Nietzsche, abstraindo-se a maneira de pensar. Abstraindo-se o pequeno bacilo, o espírito de vingança que Nietzsche diagnostica no universo. Nietzsche dizia ‘A hybris é a pedra de toque de todo heraclitiano, é aí que ele pode mostrar se compreendeu ou não seu mestre’. O ressentimento, a má consciência, o ideal ascético, o niilismo são a pedra de toque de todo nietzschiano.

(DELEUZE, 2018, p. 53 - grifos do autor)

Há nesses movimentos uma política didático-tradutória que opera ora nos meios, entre os arquivos; ora nos modos como essas relações podem ser tensionadas; ora nos ritmos, nas velocidades, nas atenuações, nos desvios, nos sobressaltos e nos soluços, nas constrições e nas gargalhadas. Essas descrições são movimentos e posições de arquivo, todavia, adquirem corpo de arquivo quando são traduzidas no processo de escrileitura. Entre uma leitura e uma escrita acontece uma tradução que liga, de um lado o toque dos arquivos de partida, as arrumações e desarrumações necessárias conforme o arquivo se oferece à relação, arquivamento; de outro, um gesto de invenção que subtrai os índices de literalidade dos arquivamentos e aposta nas fabulações possíveis de outros arquivos e de outros índices. No caso, os índices também servem aos arquivos e funcionam como sintomas com os quais o pesquisador-tradutor-escrileitor opera suas maquinações inventivas.

5 MAQUINAÇÕES COM ARQUIVOS

A ideia de maquinação, aqui apresentada, provém dos conceitos de “maquínico” (DELEUZE; GUATTARI, 2011) e “máquina abstrata” (DELEUZE; GUATTARI, 2015), os quais funcionam como conceitos de partida, que experimentam um pensar/fazer pesquisa em educação, em que procedimentos de invenção-criação podem tensionar os planos de organização instituídos. Ou seja, o conceito de “tensor” (DELEUZE; GUATTARI, 2015) passa a funcionar como elemento estratégico na composição dessa máquina abstrata de invenção- criação que se deseja poder compor um plano imanente-consistente. Os arquivos funcionam como os elementos que possibilitam que essa composição aconteça. Não há possibilidade de invenção sem índices que precipitem a possibilidade do toque nas matérias imanentes; como não há criação sem a tensão do gesto que tensiona as matérias consistentes.

Aquino e Do Val (2018, p. 51) percebem o arquivo enquanto “murmúrio perpétuo” que acompanha a pesquisa todo o tempo, o que pode ser compreendido, também como “rumor de vozes” e “glossolalia” (DELEUZE; GUATTARI, 2015). Os processos de arquivamento e arquivização funcionam como procedimentos do Método Maquinatório, que articulam a Crítica Sintomatológica e a Clínica Maquinatória. Durante o arquivamento, recolhe-se matérias já dadas de um plano de organização para possibilitar encontros; um plano de invenção se pressupõe a partir das relações com esses arquivos em um processo de arquivização.

Duas questões sobressaem: (1) Qual a tese desse arquivo-texto-datamento? (2) Como produzir uma maquinação com arquivos, a partir de deslocamentos didático-tradutórios de escrileitura, entre os modos, meios e ritmos que compõem o território da educação?

O processo de arquivização acontece quando as matérias se conectam, produzindo elas próprias uma forma de expressão que se desencadeia em escrileitura, em “uma atitude didático-tradutória de escriler a vida” (ARAUJO; CORAZZA, 2017, p. 233). Com isso, podemos perceber aproximações com muitas coisas com as quais nos envolvemos nos territórios da diferença, com as suas vielas, seus desvios, mas também com as suas avenidas e com as suas sinalizações. O que nos interessa disso tudo? Interessa o arquivo, as maquinações possíveis com arquivos, no tensionamento com a educação, com a filosofia, com a literatura.

Os arquivos têm um datamento e não podem ser simplesmente acessados, lidos de forma literal; necessitam ser traduzidos; necessitam de uma didática da tradução e de potências escrileitoras; novos arquivamentos e novas arquivizações. Permanece a tensão e a redundância entre partes, o que é necessário para a manutenção do continuum de diferenciação. Os ritmos são tensão e redundância que mantêm as relações em funcionamento. Não há modo sem ritmo. Não há maquinações sem modos. Não há meios sem ritmos.

Os processos de maquinação com arquivos acontecem o tempo todo em meios diferentes, de diferentes modos, com vários ritmos. O Método Maquinatório de Pesquisa se aproxima das produções de arquivo no momento em que passa a adotar processos de arquivamento e de arquivização no “programa de procedimentos de pesquisa” (ARAUJO; CORAZZA, 2017, 2018); o arquivamento como procedimento crítico-sintomatológico e a arquivização como clínica-maquinatória. Desse modo, o que acontece é a tensão entre um plano de referência-organização e um plano de invenção-criação que compõem os registros- arquivos. De um lado, o movimento crítico de percepção de sintomas, com os quais podemos compor outras montagens de arquivo – arquivamento. E, de outro lado, um movimento clínico de maquinações de invenções-criações, que pelo gesto de arquivização registra marcas, desvios, percursos, na composição de um cenário de invencionamentos.

De algum modo, o conceito de arquivo fornece ao Método Maquinatório uma possibilidade mais formal nos registros dos deslocamentos da pesquisa, dos signos dispostos nesses trajetos e das coordenadas cartográficas envolvidas. O gesto e o traço na relação com o arquivo preenchem algumas lacunas do Método Maquinatório, registram alguns encontros que passariam imperceptíveis, leem e escrevem com outros arquivos, trocam os seus com outros. O Método funciona como mais um modo para tensionar a pesquisa e as escritas em educação, afinal, essa parece ser uma linha desejante do pensamento da diferença. Os modos são necessários e precisamos nomeá-los, mas que sejam códigos abertos, afeitos às experimentações e às novas aventuras.

6 MÉTODO MAQUINATÓRIO DE PESQUISA: MODOS DE USAR

Como forma de produzir uma visibilidade acerca do funcionamento do Método Maquinatório, discorreremos sobre duas pesquisas de Dissertação realizadas entre os anos de 2018 e 2020 no curso de Mestrado Profissional em Educação e Tecnologia do Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto Federal Sul-rio-grandense: Máquinas e cordas de escrileitura (MOTTA, 2020) e Sem título & com muitos nomes (SANTOS, 2020). A figura 1 procura diagramar o funcionamento do Método Maquinatório de Pesquisa.

Fonte: Pesquisadores, 2021.

Figura 1 Conceito de Maquinatório. 

6.1 Cordas e máquinas de escrileitura

Uma escrileitura que funciona com cordas (MOTTA, 2020), “figuras estéticas” (DELEUZE; GUATTARI, 2010), que podem amarrar corpos e impedir um deslocamento e uma mudança de olhar; reprimem e prendem na cadeia da culpa (DELEUZE, 2018) podendo, também, ser arrebentadas e se conectar a outras cordas, inclusive com cordas-sons, com cordas-cores, cordas-palavras; possibilitam uma invenção (ARAUJO; CORAZZA, 2018), entre as cordas que amarram e as cordas que arrebentam, atualizando o conceito de maquinação em funcionamento, com o conceito de “ritornelo” (DELEUZE; GUATTARI, 2017c ), de Método Maquinatório, de arquivamento e de arquivização, entre outros. Entrelaçamento entre modos, meios e ritmos.

Uma gota que não cai e que ameaça cair. Um desejo que cutuca corpos. Um desejo de fazer corpos gotejarem, gotamentos; momentos em gotas que não deixam saber, previamente, qual a gota irá gotejar. Um desejo de uma aventura em gotas. Uma gota que não cai, que provoca deslocamentos para um pensamento de partida e um ponto no caos de um ritornelo. Uma gota que não cai funciona como índice de deslocamento para acessar arquivos. Um ponto fincado, ainda com a necessidade de um olhar em volta, para uma recolha de sintomas – crítica sintomatológica. Uma gota que não cai; índice para acessar arquivos em um processo de arquivamento: um toque de “singularidade” (DELEUZE; GUATTARI, 2017b) no acesso aos arquivos e a obtenção de matérias como possibilidade de produção de algo; uma fabulação e uma arquivização que possibilitam a diferenciação – clínica maquinatória.

Trata-se de criar um corpo sem órgãos ali onde as intensidades passem e façam com que não haja mais nem eu nem o outro, isto não em nome de uma generalidade mais alta, de uma maior extensão, mas em virtude de singularidades que não podem mais ser consideradas pessoais, intensidades que não se pode mais chamar de extensivas. O campo de imanência não é interior ao eu, mas também não vem de um eu exterior ou de um não-eu. Ele é antes como o Fora absoluto que não conhece mais os Eu, porque o interior e o exterior fazem igualmente parte da imanência na qual eles se fundiram.

(DELEUZE; GUATTARI, 2017b, p. 21)

Uma gota persiste em não cair em meio a corpos em relação; um outro gotamento: agenciamentos entre uma gota que não cai e o som de um trem e as gotas de água de um chuveiro que prendem um corpo em um banho; repetem o que aparenta não ter fim. Mais índices para acessar mais arquivos. Um turbilhão de arquivos. O trem que se repete ao repetir o mesmo som nos mesmos trilhos. As gotas do chuveiro, capazes de aprisionar um corpo que se banha compulsivamente. Uma gota que não cai, mas repetidamente ameaça cair. O som do trem. O som das gotas. Um som ameaçador da gota que não cai. Índices para um arquivo onomatopeico e para a repetição de onomatopeias. Os sons podem se repetir muitas vezes como o som de um trem. Um obsessivo compulsivo que repete sem parar e faz sons. Acontece (DELEUZE; GUATTARI, 2011, 2017a, 2017c; ZOURABICHVILI, 2016) um gotamento, um arquivamento, pelos índices que se agenciam em um plano de referência: o TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo6 – como uma doença que clama por uma cura. A doença TOC com o arquivamento do lamento, da culpa e da má consciência funciona como um pensamento de partida; a saúde TOC em processo de arquivização funciona como procedimento que não deseja a cura; um TOC que se “transcria” (CORAZZA, 2013) em uma Tradução Obstinada Criativa que se repete para se diferenciar.

Um diagrama onomatopeico se compõe pelos sons do toque, onde inúmeras peças de madeira emergem como índices de um arquivo de onomatopeias; cada peça, com uma letra do alfabeto em uma das faces e com um som onomatopeico na outra face. As letras ficam dispostas com a face para cima, de modo que os sons onomatopeicos permaneçam ocultos: toc, toc, toc; tic, tic, tic; tac, tac, tac; tec, tec, tec; chuá e muitos outros sons.

Uma mão, aleatoriamente vira uma peça. Um ponto no caos, em um movimento de ritornelo. Acontece risc, risc, risc. Um índice para acessar inúmeros arquivos ainda indefinidos. Um olhar em volta, em um processo de arquivamento. Recolha de sintomas. Um corpo pensa: risc, risc, risc como um ato de escrita; possibilidade de produzir alguma diferença, em um processo de arquivização. Um corpo pensa e uma mulher escreve um livro. Mais uma peça. Aleatoriamente virada. Mais um ponto. Acontece scableft. Um corpo pensa scableft. Um tapa. Uma clínica maquinatória. Um corpo agencia scableft com risc, risc, risc e pensa em uma mulher que escreve cenas de violência. Mais uma peça virada, mais um arquivo para ser acessado pelo índice de um deslocamento. Acontece blém, blém, blém. Recolha de sintomas: o som de um sino. Um corpo agencia blém, blém, blém e scableft e risc, risc, risc e pensa em Joana D’acorda, que escreve um livro na Idade Média. Idade Média pode ser em qualquer tempo e em qualquer lugar. Joana D’acorda escreve um livro de violência na Idade Média. Idade Média pode ser em qualquer tempo e em qualquer lugar. Escreve com cordas que aarram e não permitem o deslocamento. Uma corda entrelaçada em fios de má consciência e de ressentimento. A tensão entre os fios possibilita que a corda possa vir a arrebentar e se conectar com outros fios em outras cordas. Idade Média pode ser em qualquer tempo e em qualquer lugar. Acontece Chapeuzinho vermelho, verde, marrom, que não quer ir para casa da vovó e sim poder conversar com o lobo e tomar uma xícara de chá. Idade Média pode ser em qualquer tempo e em qualquer lugar.

Movimentos de desterritorializações e de desterritorializações. Chapeuzinho, vermelho, verde, marrom: uma diferença em relação a Joana D´acorda. “Linhas de recursividade” (ARAUJO; CORAZZA, 2018), um “eterno retorno” (DELEUZE, 2018, p. 93). Repetições que se diferenciam em movimentos que vão e voltam como possibilidade de diferenciação. Um desejo alimentado a cada retorno. A cada repetição, uma nova ameaça de gota. Outra gota que deseja cair. Outra tensão. Mais uma vez. Um corpo que se relaciona com outros corpos. Dança mais uma vez (NIETZSCHE, 2011). Vai e volta. Mais uma vez. Entre o TOC doença e o TOC saúde algo passa: singularidade. O que se passou? Cordas e máquinas de escrileitura.

Os movimentos de vai e volta produzem mudanças na forma e na substância de conteúdo e de expressão (DELEUZE; GUATTARI, 2015, 2017d). As cordas da má consciência arrebentadas permitem um mar de reticências entre as palavras do texto. Reticências que funcionam como um portal para quaisquer lugares da escrileitura. As reticências arrebentam as cordas e possibilitam a conexão com outras cordas em outros lugares do texto e fora dele. Cordas de fora se conectam às cordas de texto, como poemas de Drummond e de Quintana.

Uma escrileitura substancializada e formalizada. Entre reticências. Entre cordas e máquinas. Entre sons. Entre Joana e Chapeuzinho. Entre Idades Médias. Idade Média pode ser em qualquer tempo e em qualquer lugar. Um processo de desterritorialização e de reterritorialização. Entre gotamentos. Entre um TOC cura e um TOC saúde. Matérias para um escrileitor por vir. Potência para deslocamentos e mudanças de perspectivas. Possibilidades de invenções-criações.

6.2 Sem título & com muitos nomes

Ainda ruminamos o arquivo com relação ao Método Maquinatório e um modo possível de problematizar o arquivamento e a arquivização é tensionar arquivos com a crítica sintomatológica e com a clínica maquinatória. Isso é um processo de “redundância” (DELEUZE; GUATTARI, 2015, p. 17): não se trata de posições inertes, cada uma como uma coordenada definida, e sim de relações entre coordenadas. Algo passa entre os arquivos: uma instância de maquinação.

Debruçamo-nos sobre o texto escrito, principalmente o literário (SANTOS, 2020). Há uma multiplicidade de pensamentos de partidas, os quais vêm à superfície na forma de questionamentos acerca da língua e da linguagem literária. A problematização como potência para mover um corpo-pesquisa e um corpo-pesquisador, tendo como arquivos a serem explorados: uma “literatura menor”, uma “agramaticalidade” e uma experimentação de escrita e de leitura. (DELEUZE; GUATTARI, 1997)

Para que uma crítica sintomatológica aconteça é necessário um pré-instante: o “perspectivismo” (DELEUZE, 2018) que provoca posições entre deslocamentos, pontos sucessivos no caos, índices que funcionam na produção de buracos que podem arear a pesquisa. Quais são as formas possíveis de perceber a língua e a linguagem literária? Vozes respondem: gramática; crítica literária; mercado; linguística.

Há uma recolha de matérias. Um arquivamento de sintomas. Um olhar em volta. Uma crítica sintomatológica. Um perspectivismo. Os índices apontam para arquivos da formação em Letras, para arquivos de uma leitora voraz, para arquivos de aula, mas também para arquivos de conversas no bar com colegas.

Encontramos arquivos no meio do caminho, como somos provocados por Drummond (2002), acerca de que “tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra”. Em um percurso de aula, de pesquisa, de vida (ARAUJO, 2020), tropeçamos em algumas pedras; percebamos ou não. Tropeçamos em arquivos. Assim funciona a “pedra de toque”: um índice, um traço, um gesto – um momento. Há neste deslocamento, um processo de arquivamento de sintomas, uma possibilidade de invenção-criação, de diferenciação. Outras pedras, outros arquivos. Acontece uma clínica maquinatória como processo e ato de invenção-criação. Acontece uma arquivização – invencionamentos. Novos arquivos, novos textos – singularidades.

Produzimos tensões maquinatórias com modos de lidar com o texto, em um gesto de escriler que acaricia insistentemente a escrita; um procedimento de tensionar um Como dizer? (BECKETT, 2013). As pedras passam pelos bolsos e pela boca7. A pedra na boca é imanente a um momento de invenção; e um sabor, consistente a um momento de criação de sentidos e de sensações; e os bolsos, ainda sugerem uma outra pedra, uma outra boca - recursividades. Ora, palavras são apagadas; ora, o texto desafia a ordem; ora, palavras prontas são desnudadas.

Há um desejo de experimentar a escrita e de implicar e envolver um escrileitor. Ora, um desejo que se renova no percurso de escrita; ora, um leitor e um percurso de escrita por vir; ora, um gaguejar agramatical que joga com as palavras e com quem escreve e lê; ora, um fabulatório. Acontece Alfa: uma coletânea de fragmentos, textos poéticos, intensidades. Acontece Ômega: texto fluído que busca recolher matérias do processo de pesquisa e de escrita; deixar marcas na composição de uma linha possível. Acontecem Alfa e Ômega escrileitores.

No ato de escriler há uma necessidade e uma prudência implicadas em um desejo de aventura. Desejo de prover um legado no arquivamento de um campo maquinatório. Traços e pontos; pontilhados e tracejados – ordenadas. Um mapa de QR Codes. Uma linha, um ponto; pontos que fazem linhas. Um escrileitor é provocado a subverter as margens, romper com a ordem, “sobrecodificar” (DELEUZE; GUATTARI, 2011) o próprio processo de codificação do texto. Entradas e saídas indefinidas. O escrileitor entra e sai em uma sucessão de momentos. O QR Code tensiona índices de percursos de invenção na relação com arquivos; o escrileitor persegue percursos indeterminados; a necessidade do toque tensiona as matérias; o gesto tensiona a criação de outros índices, de outros toques e de outros gestos – percurso que de um ponto inventa traços na composição da linha de um gesto. Ora um Índice; ora um toque; ora um gesto; outros arquivos.

Só a categoria de multiplicidade, empregada como substantivo e superando tanto o múltiplo quanto o Uno, superando a relação predicativa do Uno e do múltiplo, é capaz de dar conta da produção desejante: a produção desejante é multiplicidade pura, isto é, afirmação irredutível à unidade. Estamos na idade dos objetos parciais, dos tijolos e dos restos. Já não acreditamos nesses falsos fragmentos que, como os pedaços de uma estátua antiga, esperam ser completados e reagrupados para comporem uma unidade que é, também, a unidade de origem. Já não acreditamos numa totalidade original nem sequer numa totalidade de destinação. Já não acreditamos na grisalha de uma insípida dialética evolutiva, que pretende pacificar os pedaços arredondando suas arestas. Só acreditamos em totalidades ao lado. E se encontramos uma totalidade ao lado das partes, ela é um todo dessas partes, mas que não as totaliza, uma unidade de todas essas partes, mas que não as unifica, e que se junta a elas como uma nova parte composta à parte.

(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 62)

O QR Code potencializa marcas de diferenciação e de proliferação de modos possíveis de “transcriação” do texto, que “transversam” (DELEUZE; GUATTARI, 2017a) a língua, a linguagem e o código, fazendo do texto tessitura (BARTHES, 1996). O QR Code possibilita a quebra da circularidade do texto, porquanto tensiona fissuras no plano de referência- organização textual. Todavia, isso necessita do deslocamento do escrileitor em meio ao texto, o que possibilita outros modos de ler e de escrever com o QR Code, ao ritmo imanente- consistente de um QR Code Escrileitor. Um corpo escrileitor que subverte a relação entre “o todo e as partes” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 61) e que se aventura pelas vielas das parcialidades fugidias que afirmam de um QR Code parcial.

O corpo sem órgãos é produzido como um todo, mas no seu próprio lugar, no processo de produção, ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. E quando se aplica a elas, se assenta sobre elas, ele induz comunicações transversais, somas transfinitas, inscrições plurívocas e transcursivas sobre a sua própria superfície, na qual os cortes funcionais dos objetos parciais são sempre recortados pelos cortes das cadeias significantes e os de um sujeito que aí se situa. O todo não só co-existe com as partes, como também é contíguo a elas, produzido à parte [...]

(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 63-64)

Há uma tensionalidade entre as partes: texto, pesquisa e pesquisador que insistem em renovar as arquivizações, quando o leitor toca o texto e com ele decide dançar. Uma coreografia escrileitora que joga com o texto de uma parte à outra, entre pontos, traços e linhas: “Preâmbulo de escrileituras para lugar nenhum” (SANTOS, 2020, p.13). Um texto convida o escrileitor a jogar e a dançar; incita arquivamentos e excita arquivizações. O que pode vir a passar por um corpo-escrileitor? O que se passou?

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, podemos evidenciar a diagramação do conceito de Maquinatório a partir de uma recolha de matérias de duas pesquisas, que por seus deslocamentos produziram dois arquivos, duas dissertações, mesmo que cada arquivo já seja efeito da coleção de outros vários arquivos. Ou seja, este texto na relação com os arquivos-pesquisa produziu o arquivamento de matérias-sintomas potencializadas pelo desejo de produzir uma perspectiva de relação. No caso, o Método Maquinatório de Pesquisa tensionou possibilidades de invenção-criação de novas perspectivas de relação com os arquivos-pesquisa. Uma crítica sintomatológica tensionou novos índices de arquivos, produziu novos arquivamentos, o que nos arquivos-pesquisa tomou corpo enquanto matéria de arquivização, matéria de invenção- criação, atualizada pelo toque e pelo gesto de uma clínica maquinatória.

Tanto as reticências presentes em Cordas e máquinas de escrileitura (MOTTA) quanto os QR Codes em Sem título & com muitos nomes (SANTOS, 2020) funcionam como pontos de comunicabilidade por onde um escrileitor pode passar. Como um aventureiro que inventa seus próprios caminhos, o escrileitor entra por um buraco e sai por outro, repetidamente, fazendo conexões aleatórias pelas partes dos textos, em um processo de desmontagem e remontagem. Ambos, arquivo e pesquisa, implicam que um escrileitor toque o texto e o envolva em um devir-toupeira (DELEUZE; GUATTARI, 2017c), possibilitando a invenção de um modo de ler. Os textos se atualizam no instante em que um escrileitor se experimenta no percurso dos próprios labirintos movediços da leitura, na prudência dos pontos de parada e nos atos de escritura.

Nesse ínterim, uma máquina abstrata passou. “O que se passou?” (DELEUZE; GUATTARI, 2017b). Uma máquina de escrileitura que na relação matéria-função tensionou uma maquinação que por efeito tensionou um fabulatório, que por efeito substancializou e formalizou o conceito de Maquinatório, com seus conteúdos e expressões singulares.

4A relação entre os arquivos cria a possibilidade da materialização de coordenadas e percursos que suscitam uma geomaterialidade.

5Clusterização é um termo da informática, o cluster é justamente o agrupamento de arquivos que se produz por determinada finalidade e por determinada proximidade de relação.

6O transtorno obsessivo-compulsivo (CID 10 - F42), conhecido popularmente pela sigla TOC, é um distúrbio psiquiátrico de ansiedade caracterizado por pensamentos obsessivos e intrusivos. A condição também causa comportamentos compulsivos e repetitivos, que comumente estão relacionados à limpeza e organização. Analogicamente falando, uma pessoa com TOC repete sempre o mesmo ponto daquilo que está gravado. Pacientes com este transtorno sofrem com imagens e pensamentos que os invadem insistentemente e, muitas vezes, sem que consiga controlá-los ou bloqueá-los.

7Conforme excerto da série das pedras de chupar de “Molloy” que Tomaz Tadeu e Sérgio Lulkin encenaram no dia 31 de outubro de 2004, disponível em Santos (2020).

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Recebido: 30 de Novembro de 2021; Aceito: 28 de Dezembro de 2022; Publicado: 20 de Outubro de 2023

Revisão gramatical realizada por: Tamires Guedes dos Santos

E-mail: tamiresguedessantos@gmail.com

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