1 INTRODUÇÃO
O sono é considerado um fenômeno vital, pois, enquanto ele dura, são executados os processos de recuperação e compensação de gastos energéticos (SHUKLA; BASHEER, 2016). Portanto, é indispensável para o bom desempenho das funções biológicas, incluindo a saúde física e mental, o desenvolvimento cognitivo e a consolidação da memória, sendo importante especialmente entre os universitários. Assim, pode-se dizer que são inúmeros os benefícios proporcionados por um bom descanso durante o sono para a qualidade de vida das pessoas (BECKER; GREGORY, 2020).
Diante da pandemia causada pelo novo Coronavírus, o mundo vem construindo ações emergenciais para atender as mais variadas demandas sociais e individuais que ocorreram desde seu início em 2019. O distanciamento social fechou as universidades e passou a exigir um novo modelo educacional, a partir de uma maior utilização da tecnologia para seguir com os conteúdos programados para o semestre em curso (TORRES; ALVES; da COSTA, 2020). Essas mudanças impactaram a vida dos universitários, que tiveram que se adaptar aos desafios de aulas on-line, resultando em um aumento exponencial no consumo da internet diariamente (KING et al., 2020). Segundo estudos, o uso excessivo de ferramentas tecnológicas durante a pandemia de COVID-19 multiplicou por duas ou mais vezes a probabilidade de ser um fator de risco para dependência de internet (KIRÁLY et al., 2020; WINTHER; BYRNE, 2020).
O uso das mídias digitais é cada vez mais comum em todo o mundo, principalmente entre os jovens, sendo os dispositivos móveis o principal meio de acesso, com uma penetração de 58,7% da população global (IWS, 2022). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2019 mostram que 82,7% dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet, um aumento de 3,6 pontos percentuais em relação a 2018. Os jovens adultos entre 20 e 29 anos foram os que mais acessaram, e o uso é maior entre estudantes (88,1%) do que entre não estudantes (75,8%) (IBGE, 2019).
Assim, torna-se importante avaliar a dependência de internet em universitários por serem mais vulneráveis a desenvolver essa dependência (BECKER, 2019). A literatura mostra que a prevalência de estudantes que apresentam algum grau de dependência de internet varia entre países, demonstrando uma prevalência de 7,7% na China (SHEN et al., 2020); de 19,9% na Índia (JOSEPH et al., 2021); de 51,7% no Egito (SHEHATA; ABDELDAIM, 2021). No Brasil, a prevalência também se mostra variada: 7,3% (MARIN et al., 2016); 17% (ANDRADE et al., 2021), 19,1% (TERROSO et al., 2022).
A dependência de internet caracteriza-se pela incapacidade de controle pelos indivíduos gerando angústia, comprometimento das atividades costumeiras e negação do comportamento considerado refutável (PATRÃO et al., 2016). Assim, Young e Abreu (2011) sugeriram critérios diagnósticos para dependência de internet nos quais a abstinência, a falta de planejamento, a ansiedade, as alterações psicológicas e o excesso de tempo on-line foram definidos como sintomas centrais para o possível diagnóstico. Um aumento na prevalência de problemas emocionais, principalmente a depressão e a ansiedade (MACHADO et al., 2018; ANDRADE et al., 2020; KUMAR et al., 2021) e as alterações na qualidade do sono (MOHAMMADBEIGI et al., 2016; BANERJEE, 2020; CITÓ et al., 2022; SANTIAGO et al., 2022; de SÁ SILVA et al., 2022).
Neste estudo, a hipótese foi de que há associação entre variáveis demográfica e a dependência de internet com a presença de distúrbio do sono em universitários. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de autorrelato de distúrbio do sono e fatores associados, incluindo o perfil de dependência de internet em universitários do Centro Universitário Adventista do município de Engenheiro Coelho – SP.
2 MÉTODO
2.1 Aspectos éticos da pesquisa
Este estudo epidemiológico transversal quantitativo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade São Leopoldo Mandic, em cumprimento à Resolução nº 466/12 do Ministério da Saúde, sob o número de Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 26342119.1.0000.537. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi disponibilizado de forma digital juntamente com o questionário eletrônico de modo que, antes de responder ao questionário, os universitários deveriam aceitar o termo proposto.
2.2 Local e período do estudo
O presente estudo foi desenvolvido no município de Engenheiro Coelho – SP, situado na região metropolitana de Campinas – SP. A localidade possui apenas o Centro Universitário Adventista de São Paulo, que oferta ensino superior desde 1984 na área de biológicas, humanas e exatas. A instituição tem um modelo de internato em que aproximadamente 30% dos alunos matriculados residem no campus e usufruem das instalações da universidade, cuja filosofia educacional consiste em melhorar a qualidade de vida dos seus estudantes no aspecto físico, mental e espiritual.
A pesquisa foi realizada entre junho e julho de 2020, quando o ensino estava sendo ofertado 100% de forma remota devido ao decreto municipal em virtude do contágio da COVID-19. Por esse motivo, a coleta de dados foi realizada de forma on-line por meio das redes de WhatsApp.
2.3 População e amostra
A população-alvo da presente pesquisa foi composta por universitários maiores de 18 anos matriculados no 1º Semestre de 2020, em cursos de graduação do Centro Universitário Adventista de São Paulo no município de Engenheiro Coelho – SP. Nesse semestre letivo, estavam matriculados 3.671 alunos, sendo 2.025 (55,1%) em cursos da área de humanas; 374 (10,3%), da área de biológicas; e 1.272 (34,6%), da área de exatas.
Foram convidados a participar do estudo todos os 3.671 alunos matriculados, não havendo cálculo amostral.
2.4 Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos na pesquisa todos os alunos maiores de 18 anos matriculados no 1° semestre de 2020 no Centro Universitário Adventista de São Paulo no Município de Engenheiro Coelho – SP que aceitaram participar da pesquisa pela resposta ao formulário. Como todas as perguntas do formulário eram obrigatórias, não houve critério de exclusão da amostra.
2.5 Coleta de dados e recrutamento dos voluntários
A coleta de dados foi realizada por meio de um instrumento anônimo e autoaplicável utilizando a Plataforma do Google. Inicialmente, foi realizado contato com o Diretório de Apoio Acadêmico da universidade, que, após entender os objetivos do estudo, responsabilizou-se pelo envio do link do questionário a todos os representantes de sala, os quais o encaminharam aos grupos de WhatsApp da sua respectiva turma. Após 20 dias, o link foi reenviado a todas as turmas com a finalidade de aumentar o número de participantes no estudo.
2.6 Instrumentos da pesquisa
A dependência de internet foi avaliada pelo Instrumento Internet Addiction Test (IAT), que foi traduzido e adaptado para o português, apresentando consistência interna satisfatória (CONTI et al., 2012). O IAT foi elaborado para avaliar quais áreas da vida de um indivíduo podem ser afetadas por seu uso excessivo da internet. Possui 20 itens de autopreenchimento, divididos em 6 domínios, sendo eles: Saliência, Uso excessivo da Internet, Abandono do trabalho, Antecipação, Falta de controle e Abandono da vida social e quais áreas da vida de um indivíduo podem ser afetadas por seu uso excessivo da internet (WIDYANTO; MCMURRAN, 2004). As respostas consideram a escala Likert de pontos, variando de 1 (raramente) a 5 (sempre); e os escores dos seis domínios são somados para conferir uma pontuação global, a qual varia de 0 a 100 pontos. Neste estudo, os participantes foram classificados em dois grupos com base na pontuação proposta por Machado et al. (2018): aqueles com até 50 pontos foram considerados Usuários Não Problemáticos da Internet, e aqueles com mais de 50 pontos foram considerados Usuários Problemáticos da Internet.
Ressalta-se que a questão “Com que frequência você verifica o correio eletrônico antes de qualquer coisa que precise fazer?” foi modificada para “Com que frequência você acessa seu WhatsApp/redes sociais antes de qualquer outra coisa que precise fazer?” no intuito de trazer para a realidade do contexto em que vivemos.
A qualidade do sono foi avaliada pelo “Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh” (PSQI) elaborado por Buysse et al. em 1989 (BUYSSE et al., 1989), validado para o português por Bertolazi et al. em 2011 (BERTOLAZI et al., 2011). Essa escala avalia a qualidade do sono em relação ao último mês. O instrumento é constituído por 19 questões categorizadas em 7 domínios, graduados em escores de 0 (nenhuma dificuldade) a 3 (dificuldade grave). Os domínios são, nesta ordem: Qualidade subjetiva do sono; Latência do sono; Duração do sono; Eficiência habitual do sono; Distúrbio do sono; Uso de medicação para dormir; e Disfunção diurna. Os escores dos domínios são somados para conferir uma pontuação global do PSQI, a qual varia de 0 a 21. Pontuações de 0-4 indicam boa qualidade do sono, de 5-10 indicam qualidade ruim e acima de 10 indicam distúrbio do sono (FONSECA et al., 2010).
2.7 Análise Estatística
Os dados foram organizados e descritos por meio de frequências absolutas e relativas. Foi então calculada a prevalência de distúrbio do sono na amostra, com o respectivo intervalo de 95% de confiança. Para analisar as associações com a presença de distúrbio do sono, foram utilizados modelos de regressão logística simples e múltiplos. Para cada variável (sexo, faixa de idade, estado civil, escore total e dos domínios de dependência de internet pelo Instrumento IAT), foram estimados os odds ratios brutos e o ajustados com os respectivos intervalos de 95% de confiança. No modelo múltiplo, foram testadas as variáveis com p<0,20 nas análises brutas. O ajuste dos modelos foi avaliado pelo Critério de Informação de Akaike (AIC). Todas as análises estatísticas foram efetuadas com auxílio do programa R.
A partir do resultado do instrumento de qualidade de sono de Pittsburgh, foi feita a dicotomização em “sem distúrbio” (pontuação global≤10) e “com distúrbio” (pontuação global>10). Com base nos resultados dos escores do instrumento IAT, foi realizada a dicotomização em baixa dependência (IAT<50) e alta dependência (IAT≥50).
A presença de distúrbio do sono foi a variável desfecho, e as variáveis independentes foram: sexo, faixa de idade, estado civil, escore total e dos domínios de dependência de internet pelo Instrumento IAT.
3 RESULTADOS
Do total de 3.671 universitários convidados, participaram do estudo 710 alunos, correspondendo a 19,5% da população total, sendo a maioria do sexo feminino (57,5%), com idade entre 18 e 27 anos (84,8%) e casada (84,8%), matriculada em cursos das áreas de biológicas, exatas e humanas.
Na Tabela 1, pode-se observar os resultados considerando o escore total do instrumento de dependência de internet. A porcentagem de estudantes que se autoavaliaram com dependência de internet foi de 16,9%; e 24,5% apresentaram distúrbio do sono. A prevalência de distúrbio do sono entre as mulheres foi de 26,7%; e entre os homens, foi de 21,5%. A prevalência de distúrbio do sono entre os universitários com menos dependência foi de 21,2%; e entre os com maior dependência, foi de 40,8%. Os universitários do sexo feminino têm 1,46 (IC95%: 1,02-2,10) mais chance de apresentar distúrbio (p<0,05). Nota-se ainda que os universitários mais velhos (acima de 27 anos) têm 1,66 vez (IC95%: 1,04-2,65) mais possibilidade de apresentar distúrbio (p<0,05). Além disso, pode-se observar que universitários com maior dependência de internet têm 2,72 (IC95%: 1,79-4,14) vezes mais probabilidades de manifestar distúrbio do sono (p<0,05).
TABELA 1 Análises (brutas e ajustadas) das associações com a presença de distúrbio do sono (Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh), n=710
| Variável | Categoria | n(%) | Distúrbio do sono | OR bruto (IC95%) |
p-valor | OR ajustado (IC95%) |
p-valor | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Não | *Sim | |||||||
| n(%) | n(%) | |||||||
| Sexo | Feminino | 408 | 299 | 109 | 1,33 (0,94- | 0,1123 | 1,46 (1,02- | 0,0414 |
| Masculin | 302 | 237 | 65(21,5%) | Ref | Ref | |||
| o | (42,5%) | (78,5%) | ||||||
| Faixa de idade (anos) |
18 a 27 | 602 (84,8%) |
461 (76,6%) |
141 (23,4%) |
Ref | Ref | ||
| 28 a 37 | 108 (15,2%) |
75 (69,4%) | 33 (30,6%) | 1,44 (0,92- 2,26) |
0,1137 | 1,66 (1,04- 2,65) |
0,0327 | |
| Estado civil | Solteiro | 108 | 85 (78,7%) | 23 (21,3%) | Ref | - | - | |
| 602 | 451 | 151 | 1,24 (0,75- | |||||
| Casado | 0,4002 | |||||||
| (84,8%) | (74,9%) | (25,1%) | 2,03) | |||||
| <50 | 590 | 465 | 125 | Ref | Ref | |||
| 1Dependência | 120 | 2,57 (1,70- | <0,000 | 2,72 (1,79- | <0,000 | |||
| de internet | ≥50 | (16,9%) | 3,88) | 1 | 4,14) | 1 | ||
1Escore total do Instrumento Internet Addiction Test (IAT).
*Presença de distúrbio do sono foi considerado evento para o desfecho.
Ref: categoria de referência das variáveis independentes. OR bruto: Odds ratio das análises individuais. OR ajustado: OR do modelo múltiplo final. IC: Intervalo de confiança. AIC (modelo vazio)=792,73. AIC (modelo final)=772,05.
Na Tabela 2, pode-se observar que a prevalência de distúrbio foi de 23,4% nas idades entre 18 e 27 anos, e de 30,6% na faixa acima de 27 anos. Os universitários do sexo feminino e com maior dependência de internet no domínio abandono da vida social têm mais possibilidades de apresentar distúrbio do sono (OR=1,55; IC95%: 1,08-2,24 e OR=2,03 IC95%: 1,42-2,89), p<0,05. Observa-se ainda que os universitários da faixa etária acima de 27 anos têm 1,67 (IC95%: 1,05-2,66) mais chance de manifestar distúrbio do sono (p<0,05).
Tabela 2 Análises (brutas e ajustadas) das associações com a presença de distúrbio do sono (Índice de Qualidade de Sono de Pittsburgh), n=710
| Distúrbio do sono | ||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Variável | Categoria | n (%) | Não | *Sim | OR bruto (IC95%) |
p-valor | OR ajustado (IC95%) |
p-valor |
| n (%) | n (%) | |||||||
| Sexo | Feminino | 408 | 299 | 109 | 1,33 (0,94-1,89) | 0,1123 | 1,55 (1,08- | 0,0182 |
| 302 | 237 | |||||||
| Masculino | (42,5%) | (78,5%) | 65 (21,5%) | Ref | Ref | |||
| Faixa de idade (anos) |
18 a 27 | 602 | 461 | 141 | Ref | Ref | ||
| 28 ou | 108 | 75 (69,4%) | 33 (30,6%) | 1,44 (0,92-2,26) | 0,1137 | 1,67 (1,05- | 0,0308 | |
| Estado civil | Solteiro | 108 | 85 (78,7%) | 23 (21,3%) | Ref | - | - | |
| 602 | 451 | 151 | ||||||
| Casado | (84,8%) | (74,9%) | (25,1%) | 1,24 (0,75-2,03) | 0,4002 | |||
| 1Saliência | 2≤ 7 | 415 | 332 | 83 (20,0%) | Ref | - | - | |
| 295 | 204 | |||||||
| >7 | (41,5%) | (69,2%) | 91 (30,8%) | 1,78 (1,26-2,52) | 0,0010 | |||
|
1Uso excessivo |
2≤10,5 | 355 | 289 | 66 (18,6%) | Ref | - | - | |
| >10,5 | 355 (50,0%) |
247 (69,6%) |
108 (30,4%) |
1,92 (1,35-2,72) | 0,0003 | |||
|
1Abandono do trabalho |
2≤4 |
424 | 338 | 86 (20,3%) | Ref | - | - | |
| >4 | 286 | 198 | 88 (30,8%) | 1,75 (1,24-2,47) | 0,0015 | |||
| 1Antecipação | 2≤5 | 427 | 328 | 99 (23,2%) | Ref | - | - | |
| 283 | 208 | |||||||
| >5 | (39,9%) | (73,5%) | 75 (26,5%) | 1,20 (0,84-1,69) | 0,3147 | |||
|
1Falta de controle |
2≤6 |
385 325 |
308 228 |
77 (20,0%) | Ref | - | - | |
| >6 | (45,8%) | (70,2%) | 97 (29,8%) | 1,70 (1,21-2,40) | 0,0025 | |||
|
1Abandono da vida social |
2≤ 2 |
408 302 |
328 208 |
80 (19,6%) | Ref | Ref 2,03 (1,42- |
<0,000 | |
| >2 | (42,5%) | (68,9%) | 94 (31,1%) | 1,85 (1,31-2,62) | 0,0005 | 2,89) | 1 | |
1Domínios do Instrumento Internet Addiction Test (IAT).
2Mediana da amostra.
*Presença do distúrbio de sono foi considerado evento para o desfecho.
Ref: categoria de referência das variáveis independentes. OR bruto: Odds ratio das análises individuais. OR ajustado: OR do modelo múltiplo final. IC: Intervalo de confiança. AIC (modelo vazio)=792,73. AIC (modelo final)=777,44.
Adiante, discutimos esses dados.
4 DISCUSSÃO
O estudo permitiu observar que fatores como sexo, idade, dependência de internet e abandono da vida social influenciaram a qualidade do sono. As demais variáveis analisadas não apresentaram associação do distúrbio do sono.
A porcentagem de distúrbio do sono observado entre os universitários avaliados foi menor do que a observada em estudos anteriores: 37,5% e 35,3% (JNIENE et al., 2019; SANTIAGO et al., 2022); 57,6% (FONSECA et al., 2016); 86,4% (SANTOS et al., 2020). A universidade estudada tem como filosofia educacional a formação integral para melhorar a qualidade de vida dos seus estudantes tanto no aspecto físico como no mental e espiritual. Para que isso aconteça, ela estabeleceu algumas diretrizes, entre as quais, a relacionada com o horário de dormir. A instituição permite as luzes acessas e a internet até às 22h para os alunos do Ensino Médio, e até às 24h para os alunos da Educação Superior. Essas diretrizes institucionais são uma hipótese para um resultado menor do nosso estudo comparado aos outros estudos. No entanto, para confirmar essa hipótese, mais estudos precisam ser realizados no local.
No presente estudo, foi demonstrado também que universitários do sexo feminino e idade superior a 27 anos apresentaram mais chance de desenvolver distúrbio do sono. A literatura comprova essa diferença entre sexos reforçando a maior porcentagem entre mulheres em vários estudos (CHENG et al., 2012; EBARHIM et al., 2013; SURANI et al., 2015; SAYGIN et al., 2016; GALLAND, et al., 2017; SANTOS et al., 2020; SHEN et al., 2021; PACHECO; REHMAN, 2022). Uma possível hipótese para essa diferença apresentada é que os hormônios sexuais e as flutuações dos hormônios sexuais femininos podem ter efeitos mais significativos no ciclo do sono (ORFF et al., 2014; SHAIB; ATTARIAN, 2017). Outro ponto a ser discutido é que o sono e o humor podem compartilhar redes regulatórias genéticas / moleculares comuns (LAGUS, 2013), e as mulheres são mais inclinadas a ter transtornos de humor (por exemplo, depressão e ansiedade), deixando-as mais vulneráveis a problemas de sono (SENEY et al., 2014).
A popularidade crescente do uso diário de produtos eletrônicos também tem um papel importante no comprometimento da qualidade do sono em mulheres (HYSING et al., 2015). Nesse sentido, as mulheres tendem a usar mais as redes sociais do que os homens (YANG et al., 2018; SCOTT et al., 2019). Além disso, elas voltam-se a usar a internet para a escola e o trabalho, mas os homens são mais inclinados a usar a internet para entretenimento; a finalidade do uso da internet pode ter influência no nível do uso problemático dela (KARACIC et al., 2017).
Embora a população estudada seja prevalentemente jovem (18 a 27 anos), a maior idade se associou à pior qualidade do sono. Um estudo de base populacional realizado em Campinas – SP mostrou associação da má qualidade do sono e a idade maior de 40 anos (BARROS et al., 2019). No presente estudo, não foram investigados quais fatores relacionados com a idade poderiam interferir na qualidade do sono, mas a literatura mostra fatores como o aumento da responsabilidade social, principalmente em mulheres (BAKER et al., 2009), a presença de múltiplas doenças (LO et al., 2018) e a inatividade física (BARROS et al., 2019).
Em nosso estudo, foi demonstrado que os universitários com maior dependência de internet têm 2,72 vezes mais chances de apresentar interferência na qualidade e duração do sono, o que também foi verificado em outros estudos (LAM, 2014; YOUNES et al., 2016; MOHAMMADBEIGI et al., 2016; BHANDARI et al., 2017; YANG et al., 2018; SHEN et al., 2020;
CITÓ et al., 2022; SANTIAGO et al., 2022). Um mecanismo psicofísico que pode ajudar a explicar o impacto negativo do uso problemático da internet nos hábitos de sono pode ser o uso noturno do computador, que leva a um estado de alta excitação, interferindo, assim, nos processos calmantes necessários para o sono (TAN et al., 2016). Wang et al. (2019) mostraram em seu estudo que mais de 90% dos participantes que usam as telas imediatamente antes de dormir, expondo-se à luz azul, diminuíram a eficiência do sono e aumentaram a latência do início do sono.
Por causa desse efeito, o uso excessivo das telas antes de dormir pode prejudicar o processo normal de sono e degradar a qualidade do sono (CHRISTENSEN et al., 2016). Ressalta-se que os dispositivos eletrônicos, como computadores e smartphones, podem emitir luz, principalmente azul, suprimindo os níveis de melatonina do indivíduo, atuando como um verdadeiro ritmo circadiano dessincronizador externo, resultando em uma síndrome de abstinência ou retardo da fase do sono, síndrome quando o estresse do despertar social é suprimido (PETIT et al., 2016).
A dependência de internet observada neste estudo foi próxima à notada nos estudos de Andrade et al. (2021) e Terroso et al. (2022) e superior à percebida por Marin et al. (2016). Ademais, os diferentes instrumentos de avaliação utilizados nos estudos brasileiros dificultam uma comparação direta dos valores encontrados com outros estudos nacionais e internacionais, sendo a prevalência observada bem variada entre universitários.
Ao analisar a dependência de internet, observou-se que a maioria dos estudos nessa temática avaliou a dependência de internet de forma geral, sem considerar os domínios separadamente. Neste estudo, para melhor entendimento dos fatores que poderiam interferir na qualidade do sono, foi avaliado cada domínio separadamente. Percebeu-se que a dependência de internet e o abandono da vida social aumentaram a chance de apresentar distúrbio do sono. De acordo com o estudo de Stafford et al. (2017), a negligência da vida social tem maior impacto na qualidade do sono das pessoas, pois estas passam a não se beneficiar das relações sociais e apoio social, interferindo, assim, na sua qualidade do sono. Além disso, quando se priva da vida social para ficar mais tempo nos dispositivos eletrônicos, pode ocorrer uma inibição dos padrões de sono, fazendo com que os indivíduos demandem de mais tempo para adormecer, além de terem uma duração do sono mais curta, contribuindo para aumento do risco de distúrbio do sono (STAFFORD et al., 2017).
No entanto, é possível melhorar a qualidade do sono dos jovens realizando intervenções eficazes para reduzir o mau uso da internet com a oferta de atividades extracurriculares ao longo dos anos de graduação que possibilitem maior interação a atividades fora das telas do computador e do ambiente de salas de aulas (LEPROULT; VAN CAUTER, 2010). Vale a pena ressaltar que este estudo foi realizado em meio à pandemia, em que as aulas presenciais foram suspensas e ministradas de forma remota. Contudo, os universitários estudados possuem particularidades que podem diferenciá-los dos outros acadêmicos. A universidade tem um modelo de internato no qual os alunos moram no campus. A instituição possui um programa de atividades extraclasses que inclui esporte, academia, diversidade de lazer, além de aulas de instrumentos musicais, canto coral, orquestra, entretenimentos variados e momentos para meditações espirituais. Essas atividades, associadas à vida social dentro do campus, promovem o envolvimento dos alunos fora da internet, diminuindo seu tempo de conexão ao mundo virtual.
A escolha por um estilo de vida saudável é individual, todavia, embora sempre se acredite que esse conjunto de comportamentos tem um efeito benéfico na manutenção ou melhoria da saúde, os estudantes universitários, muitas vezes, têm estilos de vida pouco saudáveis e com poucas horas de sono (ALMUTAIRI et al., 2018), sem atividade física, hábitos alimentares pouco saudáveis e problemas de abuso de álcool (ACEIJAS et al., 2017).
Ainda assim, manter um estilo de vida saudável pode ajudar os indivíduos a alcançar e a manter uma boa saúde física e psicológica. Por exemplo, exercícios regulares podem colaborar para reduzir a sensação de fadiga, diminuir a ansiedade e a depressão e, assim, melhorar a qualidade do sono (QUINTANA et al., 2018).
A adoção de hábitos de higiene do sono, como bloquear a luz e o ruído no local de dormir, evitar a cafeína várias horas antes de dormir, relaxar, tomar banho quente ou ler, pode contribuir para um melhor aproveitamento do período disponível para o sono e colaborar para o melhor desempenho acadêmico, assim como para uma melhor qualidade de vida (LEPROULT; VAN CAUTER, 2010; CARVALHO, 2016).
A taxa de retorno dos questionários do presente estudo foi em torno de 20% do universo da amostra. Essa porcentagem, considerando o delineamento proposto, pode ser considerada satisfatória, pois a literatura apresenta taxas de respostas que variam de 19,1% (COSTA et al., 2012) a 25,4% (PARANHOS et al., 2009).
Embora as escalas usadas neste estudo tenham uniformemente confiabilidade e validade excelentes, pode ocorrer uma exacerbação ou minimização dos resultados, visto que as informações são relatos subjetivos da percepção de cada indivíduo sobre sua situação diante da proposta apresentada. Pelo fato de toda a amostra ser de uma mesma universidade, os dados apresentados podem não refletir a realidade de outros locais, principalmente, porque a instituição estudada possui uma filosofia educacional diferenciada em que o aluno reside no campus, em um programa de coeducação com seus pares em atividades acadêmicas, mas também culturais, espirituais e sociais diariamente.
Novos estudos que aprofundem a inter-relação dos fatores apresentados com o distúrbio do sono devem ser realizados no futuro. Ainda que este estudo tenha algumas limitações, nossos resultados fornecem evidências empíricas da relação entre o distúrbio do sono e fatores associados, incluindo o perfil de dependência de internet.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo, diante da metodologia proposta, mostrou que existem fatores que se associaram a maior chance de ter distúrbio do sono. Os universitários do sexo feminino, com idade maior que 27 anos, apontaram mais possibilidades de apresentar distúrbio. Além disso, os resultados sugerem que universitários com maior dependência de internet e abandono da sua vida social têm mais probabilidades de apresentar distúrbio do sono. No contexto da pandemia de COVID-19 em que este trabalho foi desenvolvido, poderia se esperar esses resultados, pois os universitários estavam expostos mais tempo às telas, podendo provocar distúrbio do sono.
Faz-se necessária uma maior atenção à possibilidade de dependência de internet durante e consequente privação de sono no intuito de que isso seja evitado ou minimizado. Assim, considera-se fundamental uma discussão multiprofissional na abordagem desses problemas dentro da universidade, promovendo debates com os acadêmicos sobre esse fenômeno, estimulando a prática de exercícios físicos e outras atividades para retirar o estudante, no seu tempo livre, das telas do computador.
Ressaltamos que, mais do que intervir, é preciso prevenir, ou seja, investir na formação moral dos universitários (TUMELEIRO et al., 2018) e promover a adoção de hábitos de higiene do sono, contribuindo para o melhor desempenho acadêmico, assim como para uma melhor qualidade de vida (LEPROULT; VAN CAUTER, 2010; CARVALHO, 2016).













