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ETD Educação Temática Digital

versão On-line ISSN 1676-2592

ETD - Educ. Temat. Digit. vol.25  Campinas  2023

https://doi.org/10.20396/etd.v25i00.8664122 

ARTIGO

TENDÊNCIAS DO CAMPO DA BIOGRAFIA NO NORDESTE: UM OLHAR A PARTIR DAS PUBLICAÇÕES DE EDITORAS UNIVERSITÁRIAS

TRENDS IN THE FIELD OF BIOGRAPHY IN THE NORTHEAST: A LOOK FROM THE PUBLICATIONS OF UNIVERSITY PUBLISHERS

TENDENCIAS EN EL CAMPO DE LA BIOGRAFÍA EN EL NORDESTE: UNA MIRADA DESDE LAS PUBLICACIONES DE LAS EDITORIALES UNIVERSITARIAS

Francisco Felipe de Aguiar Pinheiro1 

José Albio Moreira de Sales2 

Tânia Maria de Sousa França3 

Jacqueline Rodrigues Peixoto4 

1Doutor em Educação - Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE - Brasil. Professor da Secretaria da Educação do Ceará (SEDUC-CE). Fortaleza, CE - Brasil. E-mail: felipe.pinheiro@aluno.uece.br

2Doutor em História - Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Recife, PE - Brasil. Professor Associado - Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE - Brasil. E-mail: albio.sales@uece.br

3Doutora em Educação - Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE - Brasil. Professora - Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE - Brasil. E-mail: tania.franca@uece.br

4Doutora em Educação - Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE - Brasil. Professora - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Fortaleza, CE - Brasil. E-mail: jacquelinerpeixoto@gmail.com


RESUMO

O objetivo do trabalho é investigar como o campo acadêmico biografia tem reagido ao fenômeno do recente crescimento da escrita biográfica no Brasil, lançando um olhar sobre as publicações realizadas por editoras universitárias do Nordeste e as relações que estabelecem com os programas de pós-graduação stricto sensu em história e educação da região. O estudo caracteriza-se como pesquisa qualitativa interdisciplinar com aportes teórico-metodológicos dos campos da História e da Educação na modalidade estudo de caso múltiplo. Os achados apontam a pluralidade de sujeitos biografados e temáticas abordadas em que ainda prevalece a tendência de biografias relacionadas ao gênero masculino. Predominam as abordagens do tipo cronológicas, a construção de narrativas lineares e o uso interdisciplinar de métodos oriundos da Sociologia e da História. Há uma significativa desproporção entre as publicações de teses e dissertações e as publicações de livros no gênero biografia pelas editoras universitárias no Nordeste. As fontes apontam para um campo da biografia ainda emergente no Nordeste, mas que apresenta ricas contribuições, fato esse que parece confirmar que se vive hoje um momento de democratização da biografia.

PALAVRAS-CHAVE Biografia; Tendência; Nordeste; História da Educação

ABSTRACT

The scope of this work is to investigate how the academic field has responded to the recent growth phenomenon of biographical writing in Brazil, casting a glance at the publications carried out by university presses the Northeast identifying its links with researchers, lines or research groups of postgraduate programs Postgraduate in history and education. The study is characterized as qualitative research with interdisciplinary theoretical and methodological contributions from the fields of history and education in the study of multiple case mode. The findings point to the plurality of biographical subjects and topics addressed in which the trend of biographies related to the male gender prevails. Chronological approaches and the construction of linear narratives predominate. The books point to a field of biography that is still emerging in the Northeast, but which presents rich contributions, a fact that seems to confirm that today is a moment of democratization of biography.

KEYWORDS Biography; Trend; Northeast; History of Education

RESUMEN

En este trabajo, indagamos cómo el campo académico se relaciona con el fenómeno del crecimiento reciente de la escritura biográfica en Brasil. Desde las publicaciones realizadas por editoriales universitarias de la región Nordeste del país, el estudio identifica los vínculos de estas publicaciones con los expertos, las líneas de investigación y los grupos de los programas de posgrado en Historia y Educación. Este trabajo aun se caracteriza como una investigación cualitativa con aportes teóricos y metodológicos de dos campos de la Historia y la Educación en la modalidad de estudo de casos múltiples. Los hallazgos apuntan a la pluralidad de temas biográficos y temas abordados en los que prevalece las tendencias relacionadas con el género masculino. Predominan los enfoques cronológicos y la construcción de narrativas lineales. Los libros apuntan la biografía aún emergente en el Noreste, pero con ricas contribuciones, hecho que confirma una democratización de la biografía.

PALABRAS CLAVE Biografía; Tendencia; Noreste; Historia de la educación

1 INTRODUÇÃO

Reabilitado a partir dos anos 1980 no cenário acadêmico, nas três últimas décadas, o gênero biográfico tem tido grande sucesso editorial, tanto no cenário internacional como nacional. Segundo explicam Dosse (2015), Loriga (2011) e Schmidt (2012), a biografia, não obstante a historicidade particular inerente a cada contexto, desde suas origens, tem sido um gênero muito bem acolhido por seus distintos públicos leitores. No caso específico do Brasil, ao lançarmos um olhar panorâmico, é possível afirmar que há uma quantidade significativa de jornalistas e escritores de diversas áreas que se dedicam desde os anos 1990 à escrita biográfica; ademais, também é recente e bastante significativo o interesse de importantes historiadores brasileiros pelo gênero.

Como sujeitos situados no meio acadêmico, inclinamo-nos a investigar como esse campo está reagindo a esse fenômeno, lançando um olhar sobre a natureza das publicações realizadas pelas editoras universitárias do Nordeste, buscando identificar suas vinculações com pesquisadores, linhas ou grupos de pesquisa dos programas de pós-graduação stricto sensu em história e educação, tendo como foco os livros completos que resultam de dissertações e teses, uma vez que as editoras universitárias foram criadas com financiamento governamental para fomentar a difusão das produções acadêmicas/científicas que necessitam ser colocadas ao alcance da sociedade, pois fazem parte das universidades que são lugares de produção/reprodução cultural, que, ao publicarem biografias acadêmicas, podem colaborar ativamente na disputa e no debate público acerca de diversos temas socialmente relevantes nelas contidos. Partindo de constatações acerca do contexto nacional do campo da biografia, no qual o fenômeno é apresentado como uma tendência, nós recortamos o problema no contexto regional, para que fosse possível o acesso e a análise de fontes primárias e dados empíricos, compatíveis com os recursos e o tempo disponíveis para a pesquisa.

Feitas essas colocações, esclarecemos que nossa investigação partiu da seguinte questão norteadora: quais as tendências teórico-metodológicas que têm se destacado no Campo Biográfico no Nordeste entre os anos de 2015 a 2020? Como explicado anteriormente, a escolha pelo meio acadêmico e em especial pelos trabalhos vinculados a programas de pós-graduação stricto sensu em História e Educação se justifica, dentre outras razões, pelo alcance pretendido para a coleta de dados e pelas nossas vinculações com ele, fato que nos permite uma reflexão que parte de dentro do próprio campo.

Assim, surgiram as seguintes questões correlatas: quais tendências da escrita biográficas têm sido publicadas pelas editoras universitárias? Quais as relações entre a pesquisa acadêmica no campo biográfico e as publicações das editoras universitárias? A partir da análise das obras elencadas, é possível estabelecer um perfil parcial dos autores e dos sujeitos biografados (gênero, origem/classe social etc.)? As produções no campo biográfico contemporâneo (mercado editorial e pesquisa universitária) têm reverberado nas publicações das editoras universitárias no Nordeste?

Na fase inicial da pesquisa, trabalhamos com uma proposta de categorização/tipificação das biografias pautadas nas tipologias apontadas por Dosse (2015) e Levi (2006), através das quais imaginávamos ser possível tecer uma compreensão parcial e certamente limitada das tendências do campo da biografia no Nordeste brasileiro. Somaram-se a esses procedimentos as entrevistas temáticas com os autores que versam sobre questões específicas relacionadas com suas produções biográficas. A entrevista, constituída por quatro (4) questões abertas, foi realizada e respondida eletronicamente via e-mail pessoal ou institucional dos pesquisadores colaboradores. A análise das obras nos revelou a inadequação do procedimento e passamos a trabalhar com uma abordagem que nos permitisse estabelecer categorias elaboradas no confronto entre empiria e teoria como sugere Thompson (1981).

E.P Thompson (1981) propõe que o historiador promova uma constante confrontação entre material empírico e teoria, realizando um movimento dialético que deve ser fomentado por hipóteses sucessivas de um lado e pesquisa empírica de outro. Corroboramos que esse tipo de lógica histórica nada mais é do que um discurso histórico disciplinado produzido por um método adequado ao nosso campo. Ela consiste na valorização de um modelo empírico (mas não ingênuo) de prática intelectual, constituindo-se como o “tribunal” de recursos final da disciplina (THOMPSON, 1981).

Desse modo, foi no decorrer das análises que buscamos identificar e tipificar as classificações nas quais enquadramos os textos selecionados, consoante o nosso olhar sobre eles, pois esse se mostrou ser o método mais adequado para a compreensão do objeto investigado. Nesse sentido, compreendemos que há, no processo de investigação, uma dimensão pedagógica, na qual aprendemos com as reflexões sobre as escolhas erradas ou infrutíferas. Como nos ensina Bourdieu et al. (2004, p.11), “é necessário submeter as operações da prática sociológica à polêmica da razão epistemológica para definir e, se possível, inculcar uma atitude de vigilância que encontre, no conhecimento adequado do erro e dos mecanismos de engendrá-lo, um dos meios de superá-lo”.

Pensamos ser importante esclarecer que a escolha desse objeto de estudo e a forma como elaboramos o olhar para as fontes/dados da pesquisa trazem implícitos aspectos específicos das trajetórias dos autores, relacionados com suas formações em campos “interdisciplinares”, como Educação e História. Essa base interdisciplinar nos ajudou a delimitar o universo de nossa pesquisa, com recorte para as publicações das editoras de universidades do Nordeste que possuem programas de pós-graduação stricto sensu em História e Educação e significativa produção no campo, recaindo sobre as instituições da Bahia e do Rio Grande do Norte. Portanto, reafirmamos que, a partir desse recorte, que toma esses estados como referência, o objetivo desta investigação é compreender as tendências do campo biográfico no Nordeste através das publicações e das relações dessas com a pesquisa e os programas de pós-graduação da região.

O artigo está dividido em cinco seções. Inicialmente, contextualizamos brevemente a história do gênero biográfico. Em seguida, apresentamos o percurso metodológico e os referenciais teóricos da pesquisa e explicamos como foram realizadas as buscas nos catálogos virtuais das editoras universitárias, destacando os critérios de escolha e as formas de análise do material levantado. Na terceira seção, desenvolvemos as análises das obras selecionadas, identificando e descrevendo os aspectos teórico-metodológicos que as fundamentam. A seguir, apresentamos e analisamos as entrevistas realizadas com os autores, que são relacionadas aos aspectos apontados pelas fontes escritas. As análises foram apresentadas em forma de síntese, que estão ordenadas por estado, seguindo a ordem alfabética. Por fim, seguem as considerações finais e as referências.

2 PERCURSO TEÓRICO-METODOLÓGICO, FONTES E INSTRUMENTOS

Essa pesquisa se enquadra dentro do campo da biografia, por isso iniciamos dizendo o que entendemos por campo e, para tanto, reportamo-nos às ideias de Pierre Bourdieu (1989, 1996), que o define como um espaço plural e historicamente construído, formado por esferas das relações sociais relativamente autônomas, por uma lógica e produção próprias, por conflitos de interesse e por lutas concorrenciais e disputas hierárquicas particulares. Admitindo ser um conceito complexo, assim nos adverte:

[...] compreender a gênese social de um campo e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas

(BOURDIEU, 1989, p. 69).

Esclarecemos que, nessa investigação, o uso do conceito de campo foi a forma que melhor encontramos para nomear e delimitar o espaço social e político do contexto da publicação e produção do gênero biografia. Nesse sentido, advertimos que o conceito de campo aqui utilizado, mesmo estando dentro da perspectiva teórica da Sociologia, foi mobilizado para explicitar aspectos dos campos da História e da Educação que trabalham com o gênero biográfico no nordeste brasileiro.

Quanto à breve historicização do gênero biográfico, diversos estudos apontam que ele surgiu na Grécia, entre os séculos V e IV a.C, dentro do regime de historicidade magistra vitae. Contudo, o gênero sofre diversas transformações ao longo do tempo, e, assim, a escrita da biografia se consolida em diferentes tradições, como um importante registro para atestar a curiosidade humana pelo privado, revelando um ímpeto por aspectos da intimidade do outro e a ânsia quase compulsiva pelos “segredos de alcova”, o que a faz beirar o voyeurismo. Não obstante as diferentes formas e concepções que o gênero assume ao longo da História, em linhas gerais, entende-se que a biografia tem revelado um gosto peculiar que tem acompanhado diferentes gerações, fato que parece persistir na contemporaneidade, o que tem lhe garantido hoje em dia um sólido sucesso editorial (DOSSE, 2015; LORIGA, 2011).

A expressão biografia, segundo Loriga (2011, p. 17), apenas “aparece ao longo do século XVII, para designar uma obra verídica, fundada numa descrição realista, por oposição a outras formas antigas de escritura de si que idealizavam o personagem e as circunstâncias de sua vida (tais como o panegírico, o elogio, a oração fúnebre e a hagiografia)”. Desse modo, a biografia tradicional é aquela que narra a história de um indivíduo redigida por outro, que busca reproduzir, da forma mais fidedigna possível, os acontecimentos. Nesse caso, o biógrafo deve assumir um compromisso ético com seu leitor, pondo desde o início as “cartas sobre a mesa”, assumindo assim um pacto biográfico a fim de distinguir um trabalho de pesquisa validado pela verificação dos métodos e critérios de cientificidade, da ficção (DOSSE, 2015).

Ao longo do tempo, a escrita biográfica sofreu significativas mudanças e, por isso mesmo, suas fronteiras nunca foram bem delimitadas. Seu “movimento pendular”, próximo ora da ficção, ora da ambição realista/objetivista da ciência, fez dela um gênero híbrido e compósito, contudo sua recente reabilitação no campo acadêmico já pode ser pensada, pelo menos no que concerne aos debates sobre as possibilidades, as ambiguidades e as tensões que orbitam ao redor do gênero como algo consolidado/superado (DOSSE, 2015; LORIGA, 1998).

Reitera-se que aqueles que se dedicam aos estudos biográficos precisam estar atentos para evitar os perigos do que Pierre Bourdieu (2006) chama de ilusão biográfica, ou seja, não podemos crer na existência de uma vida linearmente organizada, coerente e estável, sem tropeços, incertezas ou incongruências. O exercício de narrar uma vida exige, entre outras coisas, o cuidado de não ignorar o contexto histórico, pois tratamos de sujeitos situados e que não são, sob nenhum aspecto, sujeitos plenamente livres. Entretanto, isso deve ser feito com o devido cuidado de não reduzir o indivíduo à condição de epifenômeno das estruturas sociais ou econômicas.

Quanto aos procedimentos e métodos, esta investigação caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa interdisciplinar com aportes teórico-metodológicos dos campos da História, da Sociologia e da Educação na modalidade estudo de caso múltiplo. Em acordo com Yin (2010, p. 39), entendemos o estudo de caso como “[...]uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo em profundidade e em seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes”. Portanto, trabalhamos com a ideia de “caso” e “estudo de caso” como um recorte da realidade, como um aspecto específico, conjunto de características apresentadas pelo fenômeno a investigar. Nesse mesmo conduto, realizamos um estudo de caso múltiplo, amparando-nos em referenciais teóricos do campo da História que se situam dentro das tradições da História Social e da Nova História Cultural, através do diálogo com autores como Thompson (1981), Dosse (2015, 2019), Loriga (2011, 1998), Schmidt (2012, 2018), Avelar (2012, 2018), e da Sociologia, através do diálogo fundamental com o pensamento de Pierre Bourdieu (1996, 2005, 2006).

Iniciamos nossas buscas de dados por meio da análise das publicações e sites5 das seguintes editoras: editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB); editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA); edições Universidade Federal do Ceará (UFC); editora da Universidade Estadual do Ceará (EDUECE); editora da Universidade Estadual e editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EDUFRN). Nosso recorte abarcou os anos de 2015 a 2020 e as buscas foram realizadas no primeiro semestre de 2020. Das instituições selecionadas pelos critérios de inclusão, a única em que não conseguimos acesso ao catálogo virtual foi a editora da Universidade Federal do Piauí (EDUFPI). As buscas foram realizadas on-line, centradas na identificação de livro que resultasse de teses e/ou dissertações defendidas junto aos programas de pós-graduação em História e Educação das referidas universidades.

3 O QUE AS PUBLICAÇÕES NOS DIZEM SOBRE O CAMPO

Julgamos que o desafio maior dessa investigação foi elaborar uma apresentação sucinta das fontes. Talvez esse seja um dos desafios da abordagem interdisciplinar: conciliar métodos e instrumentos diversos. Nesse sentido, buscamos superar essa dificuldade inicial, intercalando uma apresentação e a discussão de dados com aspectos da categorização em cruzamento com uma distribuição geográfica da presença do campo biografia e suas produções.

No cômpito geral, conseguimos identificar um total de vinte 20 livros catalogados como biografias. No estado da Bahia, identificamos um total de oito (8) títulos publicados pelas editoras da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB) e da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA); no estado do Ceará, encontramos cinco (5) títulos publicados pelas edições UFC - Universidade Federal do Ceará e editora da Universidade Estadual do Ceará (EDUECE); e, no Rio Grande do Norte, identificamos sete (7) títulos publicados pela EDUFRN - editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

De posse dos dados da distribuição da produção por categorias, instituições de ensino superior (IES) e estados, passamos para uma busca sobre o perfil dos autores, etapa que realizamos através do exame à Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com o objetivo de detectar produções acadêmicas dos autores, mais especificamente suas teses e/ou dissertações, buscando identificar as relações dessas com as publicações em análise. Ao final da consulta, observamos que, dos títulos analisados, um (1) resulta de teses de doutorado e três (3), de dissertações de mestrado. Desse material, os livros resultantes de tese e de duas (2) dissertações foram publicados no estado da Bahia, enquanto um livro, resultado de dissertação, foi publicado no Rio Grande do Norte.

No quadro, a seguir, apresentamos o total de títulos divididos respectivamente por teses, dissertações e programas.

QUADRO 1 Teses e Dissertações 

ESTADO TOTAL TESES DISSERTAÇÕES PROGRAMAS
BAHIA 8 1 2 (PPGH/UFBA)
(PPGHIS/UNEB)
CEARÁ 5 Nenhuma Nenhuma Nenhum
RIO GRANDE DO NORTE 7 Nenhuma 1 (PPGH/UFRN)

Fonte: Elaborado pelos autores.

Do ponto de vista quantitativo, os achados sobre publicações em livros indicam uma produção modesta, que ainda se encontra em processo de consolidação. Contudo, como se adotou uma abordagem qualitativa do fenômeno, foi possível analisar as tendências que, por ora, prevalecem dentro do campo e discutir a relação entre as pesquisas universitárias e as produções analisadas, o que parece apontar para uma interlocução em crescimento, em especial nos estados da Bahia e do Rio Grande do Norte. Um dado instigante que identificamos e que pensamos que merece uma pesquisa em particular para uma compreensão mais precisa é a ausência de publicações por editoras universitárias de livros do gênero biográfico oriundos de teses e dissertações dos programas de pós-graduação em Educação aqui investigados. Como não era nosso objetivo a análise completa dos textos, mas as suas tendências como gênero, focamos nossas leituras na identificação e compreensão das tendências teórico-metodológicas que os fundamentavam. Desse modo, tomamos para análise os livros completos quando disponíveis para downloads pelas editoras ou, quando isso não foi possível, analisamos as suas sinopses e as teses e dissertações completas, buscando, assim, construir uma síntese que fosse, ao mesmo tempo, abrangente e consistente. A seguir, apresentamos o resultado de nossas interpretações.

O livro oriundo de tese é o seguinte: 1) Gurgalha um coronel e seus dependentes no sertão baiano, que resulta de pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O autor narra a trajetória do casal Soares da Rocha e de alguns de seus dependentes (escravizados, libertos e ex-agregados) para, através dessa, desnudar as relações de dependência pessoal entre senhores e dependentes (escravizados, libertos etc.) no sertão baiano oitocentista. O autor narra a trajetória de três personagens que foram ex-escravos do casal com o objetivo de falar sobre escravidão e as formas de alcançar a alforria e de conseguir vantagens através das relações pessoais com senhores e patronos. Nas palavras do autor, “Segui suas trajetórias para mostrar como, no mundo rural baiano no século XIX, os subalternos se aproveitavam das relações de dependência com grandes senhores e assim obtinham algumas vantagens para si e suas famílias” (FERREIRA, 2018, p.15). Desse modo, as trajetórias dos biografados se justificam na medida que revelam um contexto histórico e as relações sociais que o esclarecem. Portanto, o objetivo do autor é compreender esse contexto sócio-histórico e não a peculiaridade das vidas. Quanto aos recursos metodológicos, o autor afirma que se valeu de procedimentos “da micro-história, dos estudos biográficos e, principalmente, das trajetórias individuais e coletivas” (FERREIRA, 2018, p. 28). Destarte, o autor reconstrói as trajetórias de vida de múltiplos sujeitos, valendo-se de biografias históricas e de elementos confessadamente ficcionais, com o objetivo de compreender a natureza das relações escravistas no sertão baiano do século XIX.

Por meio dos documentos pesquisados, pude usar tanto dados quantitativos quanto o método da ligação nominativa. Lancei mão de algumas séries documentais, com as quais montei bancos de dados para chegar ao perfil da população morrense, às características de determinados grupos, em especial de proprietários, dependentes livres e escravos, a parâmetros de fortuna e pobreza, entre outros aspectos. Ao seguir nomes (e sobrenomes de famílias), conheci histórias de indivíduos, suas estratégias de sobrevivência pessoal e familiar, relações horizontais e verticais, suas experiências dentro da sociedade morrense. Para alguns personagens, obtive informações do nascimento até a morte. Mas, em todos, havia lacunas. Preenchi-as com informações retiradas da bibliografia, do contexto em que estavam inseridos e por meio dos perfis coletivos, enfim, fiz aproximações. Em algumas oportunidades, apropriei-me de trajetórias de indivíduos ou grupos com experiências semelhantes em Morro do Chapéu, outros espaços sertanejos e mesmo dos já estudados pelos historiadores. Descrevi cenários, narrei histórias, imaginei situações (sempre tendo cuidado em fazê-lo através de indícios), procurei interpretar as escolhas dos personagens

(FERREIRA, 2018, p. 29).

A citação é longa, contudo necessária por demonstrar que o trabalho não pode ser enquadrado dentro dos limites de um purismo disciplinar, caracterizando-o como uma pesquisa interdisciplinar que utiliza distintos recursos teórico-metodológicos. Enquadra-se na metodologia das trajetórias de vida que se mesclam ao rigor da biografia histórica e mesmo aos elementos próximos ao ficcional. Por mais que pareça um truísmo, como bem explica Schimidt (2002), é preciso destacar que a biografia histórica é, antes de tudo, história e por isso está pautada nos procedimentos de pesquisa e pelas formas narrativas próprias dessa disciplina. Logo, uma pesquisa que se pretende histórica deve necessariamente se submeter aos cânones do métier historiográfico ou, como prefere Thompson (1981), deve se submeter aos vigilantes procedimentos da lógica histórica.

Essa postura de investigar diversas trajetórias revela algo que o autor omite por razões as quais não nos é possível identificar; ele recorre ao uso das técnicas de prosopografia. Segundo Levi (2006, p.174), a prosopografia,

[...] não se trata de biografias verídicas, porém mais precisamente da utilização de dados biográficos para fins prosopográficos. Os elementos biográficos que constam das prosopografias só são considerados historicamente reveladores quando têm alcance geral. Não é por acaso que os historiadores das mentalidades praticavam a prosopografia mostrando pouco interesse pela biografia individual. [...] a relação entre habitus de grupo e habitus individual estabelecido por Pierre Bourdieu remete à seleção entre o que é comum e mensurável, “o estilo próprio de uma época ou de uma classe”, e o que diz respeito à singularidade das trajetórias sociais.

O sentido das trajetórias assumido no texto aproxima-se da perspectiva teórica de Pierre Bourdieu (1996). Segundo o sociólogo francês,

Toda trajetória social deve ser compreendida como uma maneira singular de percorrer o espaço social, onde se exprimem as disposições do habitus; cada deslocamento para uma nova posição, enquanto implica a exclusão de um conjunto mais ou menos vasto de posições substituíveis e, com isso, um fechamento irreversível do leque dos possíveis inicialmente compatíveis marca uma etapa de envelhecimento social que se poderia medir pelo número dessas alternativas decisivas, bifurcações da árvore com incontáveis galhos mortos que representa a história de uma vida

(BOURDIEU, 1996, p. 292).

Em outras palavras, as trajetórias de vida constituem modos singulares de transcurso dos indivíduos no espaço social, onde se revelam as imposições de um habitus que nos permite reconstituir, de forma inteligível, a série das posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente ou por um mesmo grupo de agentes em espaços sucessivos. Essas posturas permitem uma postura de fuga da ilusão da existência, ao mesmo tempo, de sujeitos plenamente livres e de sujeitos submetidos a uma teleologia irresistível que os torna meros vetores das estruturas sociais.

Os livros que foram identificados como resultantes de pesquisas de dissertações são: 1) “Francisco Dias Coelho: O coronel negro da Chapada Diamantina”, resultado de uma dissertação defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local (PPGHIS) da UNEB. Trata-se de uma pesquisa que, por meio da análise da trajetória de vida do Coronel Francisco Dias Coelho, busca revelar o contexto sócio-político da parte setentrional da Chapada Diamantina em fins do século XIX e início do XX. Trata-se de narrar a vida de um tipo nada comum, um “coronel negro”; desse modo, o autor, de forma original, analisa aspectos incomuns ao coronelismo baiano que, no geral, se caracteriza por possuir uma natureza rural, conservadora, elitista branca, permeado por relações de força e violência, típicas do mandonismo clientelista (SAMPAIO, 2009, 2017).

Mais uma vez notou-se que a trajetória do biografado se justifica na medida que desvela um contexto histórico mais amplo. Nas palavras do autor,

através da história de vida deste Coronel, pretendemos analisar o contexto sócio– político da parte setentrional da Chapada Diamantina em fins do século XIX e início do XX, tendo como personagem principal um indivíduo política e economicamente, nas suas origens, alheio ao modelo que foi construído de chefe político nesta região

(SAMPAIO, 2009, p.11).

O livro se revela um desdobramento dos estudos sobre o fenômeno do coronelismo na Bahia e a estrutura narrativa do texto segue uma dinâmica linear, que se desenrola da infância à morte do coronel. Nesse sentido o autor busca construir uma biografia tradicional (DOSSE, 2015; LORIGA, 2011) em que a trama está enquadrada numa narrativa linear, quando ele se valeu do cruzamento e da crítica de diversas fontes documentais (eclesiásticas, judiciais, do legislativo, jornais, fotografias etc.) como parte do esforço para compreender o contexto vivido pelo personagem enredado. Desse modo, o texto revela-se, também, como uma biografia histórica (SCHIMIDT, 2002).

2) Vai, Carlos, ser Marighella na vida: outro olhar sobre os caminhos de Carlos Marighella na Bahia” é resultado de uma dissertação defendida em 2017 junto à Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (PPGH/UFBA). Recorrendo a outras biografias6 já escritas e ao cruzamento de diversas fontes, tais como “a legislação educacional existente à época; a documentação produzida por órgãos policiais e pelo Ginásio da Bahia; além de jornais e Censos Demográficos” (SIZILIO, 2017, p. 42), o autor analisa a trajetória do comunista baiano Carlos Marighella entre os anos de 1911 e 1945 com o objetivo de encontrar “o homem histórico por trás do mito”. A investigação sobre a vida do destacado líder político se justifica na medida que lança luz a um contexto histórico-social que a esclarece.

Entrelaçando sujeito e contexto, investigaremos, ainda que brevemente, parte da estrutura educacional na Bahia, principalmente, nas décadas de 1920 e 1930, afinal, Marighella estudou na única instituição pública de ensino secundário do estado e em uma das três faculdades existente à época, sendo esta privada. Em alguma medida, a história do PCB e de Marighella se iluminam reciprocamente, por isso, abordaremos, ainda, a estrutura partidária do PCB durante as décadas de 1930 e 1940 na Bahia. Por fim, entendemos que seja possível, também, fornecer novas informações a respeito da vida de Marighella nos anos em que viveu no estado, colaborando, desta forma, com a biografia do comunista

(SIZILIO, 2017, p. 41).

O autor investiga também a estrutura política do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no qual Marighella militou, pois, segundo ele, suas histórias estão imbricadas e iluminam-se mutuamente. Nesse sentido, o autor reafirma que “É necessário, ainda, como afirma Pierre Bourdieu, que as biografias busquem reconstruir o contexto e a ‘superfície social’ em que age o indivíduo” (SIZILIO, 2017, p. 27). Destarte, o autor reconstrói a trajetória política do biografado, mesclando diversas fontes documentais, como explica a passagem a seguir: “além das biografias, utilizaremos como fontes principais: a legislação educacional existente à época; a documentação produzida por órgãos policiais e pelo Ginásio da Bahia; além de jornais e Censos Demográficos” (SIZILIO, 2017, p. 41). Assim a trajetória de Marighella é o “pretexto para a abordagem histórica da sociedade na qual estava inserido o comunista. Registre-se, portanto, que Carlos Marighella é o tema principal deste trabalho. Assim sendo, optamos por escrever alguns fragmentos da vida do comunista baiano” (SIZILIO, 2017, p. 23).

3) “Desventuras de Hypolita: luta contra a escravidão ilegal no sertão (Crato e Exu, século XIX)” resulta de uma dissertação defendida em 2013 junto ao Programa de Pós-Graduação em História da UFRN. O livro narra a trajetória de vida e a luta pela liberdade de uma mulher negra nascida e batizada livre nos sertões do Ceará e Pernambuco, que, mesmo filha de pai livre e mãe liberta, foi escravizada ilegalmente por dezessete (17) anos por familiares de sua madrinha. Nesse livro, mais uma vez, a narrativa da trajetória de Hypolita se justifica na medida que é um recorte capaz de iluminar o contexto, ou seja, o intuito da autora ao investigar a vida de Hypolita é compreender aspectos sociais, culturais e jurídicos do Brasil imperial da segunda metade do século XIX. Nas palavras da autora,

Aparentemente banal, o caso de Hypolita está atravessado por uma infinidade de condutas sociais, jurídicas, econômicas e políticas. Como tal, embora em pequena escala, a história dessa personagem pode iluminar a compreensão da onipresença da escravidão, inclusive no mundo da liberdade. Sendo assim, propomo-nos a realizar aqui um trabalho que está inserido no campo da história social da escravidão. Nesse âmbito, procuraremos considerar os espaços diferenciados em que ocorreram as tensões, os conflitos, as tramas familiares, lutas pela liberdade e alianças sociais em jurisdições como Crato e Exu, no século XIX

(PEDROSA, 2018, p. 22).

O que mais nos chama atenção é que, mesmo estando catalogado como biografia, a própria autora assume abertamente que não teve a intenção de fazer uma biografia, afirmando que o estudo é uma narrativa de vida e não necessariamente um estudo biográfico. Como supracitado, desde o princípio do livro, a autora esclarece que seu objetivo é compreender o fenômeno da escravidão, colaborando para o campo da história social da escravidão. Portanto, estamos diante de um estudo fundamentalmente histórico que se valeu de elementos/ fragmentos de uma biografia, não sendo essa última seu objetivo fundamental. Diante do contraste entre o constatado em nossas análises e a catalogação dos livros elencados como biografias, veio-nos a seguinte indagação: quais são os critérios de catalogação utilizados pelas editoras? Através dos levantamentos, constatamos, também, que a quantidade de publicações do gênero biografia, oriundas da Pós-Graduação em Educação e História em editoras universitárias, fica muito aquém das produções desses programas em dissertações e teses. Isso nos levou a questionar as razões que levam os pesquisadores a optarem pela não publicação de livros.

No intuito de respondermos a contento essas questões, buscamos ouvir os pesquisadores que compõem o campo por meio de entrevistas. Através do Currículo Lattes, identificamos o contato de cinco (5) pesquisadores, que foram contactados por e-mail ao longo do mês de novembro do 2020, para que respondessem às nossas perguntas. Todos os pesquisadores possuem produção no campo e foram ou estão vinculados institucionalmente a programas de pós-graduação stricto sensu em História ou Educação. Aos entrevistados, foi informado que seria garantido o anonimato da autoria das respostas. Dos cinco inicialmente contatados, apenas dois pesquisadores responderam aos nossos questionamentos da entrevista e foram identificados como P1 (pesquisador 1) e P2 (pesquisador 2).

Segundo o P1, o autor é o único responsável pela indicação do gênero na catalogação de um livro. Quanto ao procedimento de indicação do gênero na ficha bibliográfica da publicação, o autor trabalha com a ênfase no personagem biografado. Quanto à constatação de que a quantidade de publicações do gênero biografia, oriundos da Pós-Graduação em Educação e História em editoras universitárias, fica muito aquém das produções desses programas em dissertações e teses, o P1 dá a seguinte explicação:

Ainda existe pouco interesse em publicações de pesquisas biográficas que tenham viés acadêmico. Principalmente das pesquisas que lançam luzes sobre sujeitos silenciados da história; Por outro lado, as publicações em livros estão em acelerada desvalorização na pós-graduação, algo que impacta no interesse editorial de publicação de estudos desse gênero em editoras universitárias. A outra questão, é a falta de apoio material para efetivar publicações de livros (P1).

Quanto à indicação do gênero na catalogação de um livro, o P2 afirma que não sabe quem é o responsável por esse procedimento, alegando que apenas entrega o texto para os editores responsáveis e, na editora, fazem a indicação do gênero na ficha catalográfica. Quanto à baixa quantidade de publicações de livros em comparação à produção de teses e dissertações, ele explica que

Quanto às publicações ficarem aquém da produção dos programas de pós-graduação, creio que seja (I) por causa do custo da publicação de livros e (II) pela pontuação relativamente baixa dada aos livros na avaliação da produção dos programas de pós-graduação e (III) nos currículos, melhor dizendo, era assim quando eu me aposentei, não sei se ainda é. Creio que a publicação de teses e dissertações não seja tão atrativa, porque, depois do trabalho de produzi-las, deixar de publicá-las deve ter algum desestímulo, a começar pelo custo, somado à falta de divulgação (a minha universidade não distribui nem com as bibliotecas dela mesma e as universidades públicas não fazem intercâmbio dos trabalhos que produzem), sendo o peso na avaliação do programa da instituição e do currículo do pesquisador, suponho, expliquem a defasagem entre o que se produz e o que se publica (P2).

As falas supracitadas nos apontam quatro situações que, somadas, parecem justificar, pelo menos em parte, a baixa quantidade de publicações de livros do gênero biografia por editoras universitárias nordestinas em comparação com a produção de teses e dissertações nos programas de pós-graduação stricto sensu no Nordeste. As dificuldades apontadas são: o alto custo de produção dos livros; a falta de apoio ou incentivo para as publicações que, além de muito caras, são, muitas vezes, custeadas pelos próprios autores; o grande tempo demandado para a produção dos livros que costumam demorar mais tempo para serem publicados do que, por exemplo, os artigos que são enviados para periódicos eletrônicos. Um outro fator apontado diz respeito à obrigatoriedade de adequação às exigências da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) nas avaliações dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu no Brasil, que, em linhas gerais, incentivam as publicações em periódicos eletrônicos e limitam/restringem a produção de livros.

Uma outra questão incontornável no campo da biografia, a qual não nos propomos a responder, uma vez que ela foge aos limites dessa pesquisa, é: como transpor a dificuldade de se publicar, em formato de artigos, pesquisas biográficas produzidas como teses e dissertações? Como sintetizar esses conteúdos em textos que, em geral, devem se limitar a 15 ou 20 páginas?

4 REFLETINDO SOBRE O CAMPO BIOGRAFIA NO NORDESTE A PARTIR DOS ACHADOS

Nossas pretensões de pesquisa, como já explicado anteriormente, consistiam basicamente em lançar um olhar sobre o campo da biografia no Nordeste. De posse das fontes e das possibilidades de análise, identificamos algumas tendências teórico- metodológicas que, no momento, são hegemônicas dentro do campo. Muito embora as produções do campo ainda sejam numericamente pouco significativas, já demonstram uma relação bastante incipiente entre as pesquisas acadêmicas (teses e dissertações) com as publicações em livros das editoras universitárias. Entendemos que esse não é o problema central desta pesquisa, mas se trata um aspecto significativo das condições atuais do campo que foi revelado, ou seja, é uma condição do próprio objeto que se manifesta. Embora o nosso recorte privilegiasse apenas os programas de pós-graduação stricto sensu em História e Educação e o enfoque tenha sido qualitativo, julgamos problemática a quantidade de publicações das editoras e suas vinculações a apenas uma (1) tese e três (3) dissertações. Esses dados nos levaram a questionamentos sobre o porquê das pesquisas acadêmicas dos programas de pós-graduação em História e Educação no Nordeste aparecerem nas publicações das editoras universitárias por nós identificadas. E as respostas que encontramos, como retrocitado, foram o alto custo de produção dos livros; a falta de apoio ou incentivo financeiro para as publicações; o grande tempo demandado para a produção dos livros, especialmente quando comparado ao tempo de publicação de artigos que são enviados para periódicos eletrônicos, e, por fim, a necessária adequação das produções acadêmicas às exigências da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) nas avaliações dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu no Brasil, que, geralmente, priorizam as publicações em periódicos eletrônicos e limitam/restringem a produção de livros.

No que concerne à síntese das análises teórico-metodológicas dos textos, foi possível identificar a predominância de pesquisas historiográficas que, por meio da metodologia das trajetórias de vida, investigam essas vidas com o intuito de desvelar a complexidade dos contextos históricos por meio dos quais as biografias se justificam. Notou-se também que as tramas foram construídas valorizando especialmente uma temporalidade sincrônica, quando as trajetórias recortadas justificam e dão sentido às ações e escolhas que não se dão aleatoriamente de modo descontextualizado. Mesmo quando o autor assume uma cronologia tradicional, que vai do nascimento à morte, a linearidade não é apresentada como uma “camisa de forças” teleológica. Muito mais do que uma filiação a uma tradição biológica que venha a explicar uma vida em toda sua completude, o que se busca é exatamente o oposto, ou seja, valorizam-se as incoerências, as ambiguidades e as lacunas. Nesse sentido, tem-se diante de si um sujeito que pode ser racionalmente compreendido, mas jamais plenamente rotulado (DOSSE, 2015).

Quanto ao perfil dos biografados, destacam-se por serem atores sociais diversos e, em certa medida “comuns”, distantes, portanto, das figuras de “grandes líderes”, “heróis” ou personalidades ilustres que marcam o perfil das biografias tradicionais mais conservadoras, que geralmente possuem fins apologéticos ou pragmáticos, fato esse que, em certa medida, parece confirmar, como sugere Schimidt (2018), que, em termos gerais, vive-se hoje um momento de democratização da biografia. No estado da Bahia, vimos a predominância do gênero masculino, como no caso de Francisco Dias Coelho, o coronel negro, que, mesmo vivendo em um contexto de hegemonia social dos homens brancos, consegue destaque como importante líder aristocrata na Chapada Diamantina, e, no caso do casal Soares da Rocha e de alguns de seus agregados, cujas trajetórias iluminam o contexto histórico do coronelismo baiano e a natureza das relações sociais que o caracterizam. Temos ainda a investigação das trajetórias do líder comunista Carlos Marighella, figura polêmica que permeia o imaginário das esquerdas brasileiras, em razão da sua firme atuação na luta contra a Ditatura Militar instalada no país após o golpe civil militar que destituiu arbitrariamente do poder o então presidente João Goulart. No caso único do Rio Grande do Norte, deparamo-nos com uma pesquisa extremamente peculiar: a investigação das trajetórias de vida de uma mulher negra, nascida liberta, mas vitimada pelas práticas e heranças de uma sociedade machista e escravista em que as questões legais estão condicionadas pelas condições de cor e classe social.

Nota-se, portanto, uma tendência a se investigarem as trajetórias de vida de homens e mulheres negras, pessoas comuns, pois, mesmo no caso em que sujeitos poderosos, como os coronéis, são biografados, suas vidas por si mesmas não justificam a investigação que, partindo de um recorte de escala micro, busca desvendar os complexos sociais num sentido próximo a uma compreensão “global” ou “de totalidade”. Pessoas comuns, negros, mulheres, comunistas, tantas vezes excluídos da história oficial, como lembra Michel Perrout (2017), reaparecem em uma perspectiva viva e “em cores” quando suas ações ganham sentido sob o olhar do que a história social inglesa convencionou chamar de história “vista de baixo”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não é de hoje que o gênero biografia desponta como um espaço privilegiado de experiências de escrita que suscitam a paixão de jornalistas, historiadores e pesquisadores em ciências humanas. Sua produção acadêmica também tem crescido especialmente nos campos da História e da Educação. Até mesmo a historiografia que, por longo período, o enxergou com destacada desconfiança, rende-se ao seu grande potencial de pesquisa (LEVI, 2006; LORIGA, 2011; DOSSE, 2015).

Nesse sentido, os achados dessa investigação apontam para uma proximidade ainda incipiente entre a pesquisa acadêmica e os livros publicados como biografia pelas editoras universitárias no Nordeste. Do ponto de vista quantitativo, os achados indicam uma produção modesta, que ainda se encontra em processo de consolidação. Identificamos a ausência de publicações por editoras universitárias de livros do gênero biográfico oriundos de teses e dissertações dos programas de pós-graduação em Educação aqui investigados, dado instigante que julgamos merecer uma pesquisa específica para sua melhor compreensão. No que concerne às tendências teórico-metodológicas identificadas nos textos, destacou-se a predominância de pesquisas historiográficas que, de modo interdisciplinar, se valeram da metodologia das trajetórias de vida oriundas das ciências sociais. Por meio desse recurso metodológico, a maior parte dos autores investigou essas vidas com o intuito de desvelar a complexidade dos contextos históricos por meio dos quais as biografias se justificam. Quanto à elaboração das tramas, identificou-se que elas foram construídas valorizando especialmente uma temporalidade sincrônica pois, desse modo, as trajetórias recortadas justificam e dão sentido às ações e escolhas que não se dão aleatoriamente, mas de modo contextualizado. Nesse sentido, mesmo quando os autores adotam uma cronologia tradicional, que vai do nascimento à morte, a linearidade não é apresentada como uma “camisa de forças” metodológica. Os autores não têm a pretensão de explicar uma vida em toda sua completude, o que eles buscam defender é exatamente o oposto, ou seja, valorizam as incoerências, as ambiguidades e as lacunas.

Quanto às tendências identificadas no campo biográfico, notou-se, também, a pluralidade de sujeitos biografados como coronéis, escravos, comunistas e uma mulher negra. As temáticas abordadas focam principalmente nos fenômenos sociais da escravidão e do coronelismo, além da organização política dos comunistas no Brasil e suas lutas contra a Ditadura Militar. Por outro lado, prevalece ainda a tendência de produzir biografias identificadas com o gênero masculino. A única biografia do gênero feminino destaca-se pela busca por trazer à tona o papel social e histórico das mulheres negras e trata do tema da escravidão. Desse modo, o perfil dos biografados está identificado com a diversidade e privilegia as pessoas “comuns”, contrastando com as biografias que valorizam as figuras de “grandes líderes”, “heróis” ou personalidades ilustres, fato que parece confirmar que vivemos hoje um momento de democratização da biografia.

No que concerne à constatação de que ainda é baixa a quantidade de publicações de livros do gênero biografia por editoras universitárias nordestinas, quando comparadas com a produção de teses e dissertações nos programas de pós-graduação stricto sensu no Nordeste, por meio das entrevistas com pesquisadores que compõem o campo, foi possível identificar quatro fatores que, somados, parecem justificar, pelo menos em parte, esse fenômeno. As razões apontadas foram as seguintes: 1 - o alto custo de produção dos livros; 2 - a falta de apoio ou incentivo para as publicações que, além de muito caras, muitas vezes são custeadas pelos próprios autores; 3 - o grande tempo demandado para a produção dos livros, que costumam demorar mais tempo para serem publicados do que, por exemplo, os artigos que são enviados para periódicos eletrônicos; 4 - a obrigatoriedade de adequação às exigências da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) nas avaliações dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu no Brasil, que, em linhas gerais, incentivam as publicações em periódicos eletrônicos e limitam/restringem a produção de livros.

Por fim, podemos afirmar que os livros analisados apontam para um campo da biografia ainda emergente no Nordeste, trata-se de um construto ainda em seu nascedouro, mas que já apresenta ricas contribuições. Nesse sentido, percebe-se que ele vive um processo de amadurecimento das discussões teórico-metodológicas, mesmo que no momento elas ainda sejam insuficientes e lacunares. Ademais, percebe-se uma democratização das abordagens ou modos de fazer biografias e dos personagens biografados. Logo, infere-se que o campo biografia tem grande potencial de amadurecimento, crescimento e fortalecimento e que as pesquisas acadêmicas podem colaborar diretamente para a qualificação das produções.

6O autor analisa quatro (4) biografias, a saber: Carlos Marighella: o inimigo número um da Ditadura Militar, escrita pelo jornalista Emiliano José, em 1997; Carlos Marighella: o homem por trás do mito, organizada por Cristiane Nova e Jorge Nóvoa, em 1999; Carlos: a face oculta de Marighella, dissertação de Edson Teixeira da Silva Júnior em 1999; e Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, escrita pelo jornalista Mário Magalhães em 2012.

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Recebido: 23 de Janeiro de 2021; Aceito: 20 de Junho de 2022; Publicado: 31 de Março de 2023

Revisão gramatical realizada por Nayanna Pinheiro da Frota

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