1 INTRODUÇÃO
Na cultura contemporânea, as tecnologias digitais em rede abrem um leque de possibilidades para a convergência de mídias, estruturadas por múltiplas linguagens que alteram nossos modos de produção, comunicação e sociabilidade, fazendo emergir não apenas textos verbais, mas, também, imagens estáticas e em movimento, sons e cores, entre outros, que circulam livremente pelas redes. Nesse contexto, as pesquisas que realizamos são entendidas como criação, inventividade e descoberta, que valorizam a experiência e o vivido e levam em conta as condições locais, contextuais, socioculturais, sociotécnicas e existenciais.
Isso se constitui de fundamental importância, particularmente no momento marcado pela pandemia do novo coronavírus e suas variantes e pelo negacionismo de um governo sempre pronto a ameaçar as instituições democráticas, especialmente as universidades públicas mais populares, que sofrem com cortes orçamentários, com a precarização do ensino e com a ameaça de privatização.
Não estando sujeitos a processos de verificação usualmente empregados por editores, em geral, e por governos e autoridades educacionais, qualquer pessoa pode publicar uma página jornalística aparentemente crível, afirma Mark Pegrun, em entrevista à Janaína da Silva Cardoso, em junho de 2019 (Cardoso, 2019), alertando-nos quanto às mudanças ocorridas nos processos em curso.
Esses processos tinham suas próprias desvantagens, ao restringirem as vozes das minorias e amplificarem os pontos de vista da maioria ou perspectivas oficiais sobre a verdade, mas impediram a proliferação das versões concorrentes da realidade que estamos testemunhando atualmente. Infelizmente, o que uma vez foi imaginado por alguns pensadores pós-modernos, como uma futura utopia de pontos de vista alternativos, se transformou em nosso presente, distopia de "fatos alternativos" (Pegrun, apud Cardoso, 2019, p. 465) [Tradução nossa]1.
Lévy (1999) afirma que características positivas e negativas relacionadas às evoluções tecnológicas podem estar diretamente ligadas aos fenômenos que surgem e se popularizam na Internet, permanecendo, em maior ou menor grau, no imaginário coletivo, o que requer atenção redobrada, principalmente com as informações que contêm ‘verdades’ ou ‘falsidades’ parciais, e que, sequer temos tempo e experiência para verificar sua autenticidade. Em geral, acreditamos (ou não) numa determinada declaração sem que a analisemos ou a avaliemos, criticamente. “Nosso senso de realidade está se tornando cada vez menos consensual, e sempre mais tribal [...]” enfatiza Pegrun (apud Cardoso, 2019, p. 466). [Tradução nossa]2. Essa configuração, decorrente da organização multimodal dos textos contemporâneos, possibilitou o surgimento de novos gêneros discursivos, como o tweet, o gif e o meme, resultando mudanças nas práticas sociais.
Presente nas redes sociais, um meme é normalmente uma ideia. Uma espécie de tendência e forma que se dissemina entre sujeitos de uma mesma cultura. Um meme carrega significados que são difundidos de um sujeito a outro, mediante dinâmicas replicadas, mixadas e compiladas que adaptam novas perspectivas ao seu contexto original. É também uma expressão geralmente utilizada para descrever uma imagem, um vídeo e/ou gif relacionado ao humor, sátira ou crítica social, que se espalha via Internet.
É nesse contexto que, inspirados em pesquisa realizada numa turma de Pedagogia a distância de uma universidade pública do Rio de Janeiro, e nas discussões realizadas junto aos nossos grupos de pesquisa, objetivamos compreender como os memes podem propor autoria, interlocução e colaboração na educação online.
1.1 Aportes metodológicos
Dada a complexidade da realidade humana e social, optamos, em nossa pesquisa, por nos afastar dos modelos hegemônicos de construção do saber, próprios da ciência moderna e, inspirados em Macedo (2009), adotamos, como metodologia de pesquisa, a bricolagem científica, ou seja, reunimos, arranjamos, sobrepomos, alinhavamos e costuramos pequenos fragmentos de textos, narrativas, olhares e fenômenos, aos quais atribuímos sentido interpretativo, em busca de um rigor outro, mais flexível e plural, que nos permitisse lidar com o inacabado, a incompletude e a heterogeneidade.
Nessa perspectiva, afirmam Denzin e Lincoln (2006), esses diversos fragmentos configuram montagens que se deslocam
do pessoal para o político, do local para o histórico e para o cultural. São textos dialógicos. Presumem uma audiência ativa. Criam espaços para a Ltroca de idéias entre o leitor e o escritor. Fazem mais do que transformar o outro no objeto do olhar das ciências sociais (p. 19).
Para Kincheloe (2007), a bricolagem é uma forma de fazer ciência que analisa e interpreta os fenômenos a partir de diversos olhares existentes na sociedade atual, sem que as relações de poder presentes no cotidiano sejam desconsideradas. Nessa perspectiva, o conhecimento produzido é assumidamente provisório e processual, pois se reconhece a existência de diversas interpretações sobre o objeto, edificadas por meio de discursos e construções sociais. Isso exige que os pesquisadores (bricoleurs3) procurem métodos que melhor respondam as suas indagações, busquem novos procedimentos de pesquisa, inventem, e compreendam que múltiplos processos interagem no uso de diferentes métodos e estratégias interpretativas de pesquisa, na análise de aspectos distintos da situação, enfatizam Kincheloe e Berry (2007), indo, desse modo, ao encontro da noção de multirreferencialidade (Ardoino, 1998; Macedo, 2009).
Os bricoleurs entendem que a interação dos pesquisadores com os objetos de suas investigações é sempre complicada, volátil, imprevisível e, certamente, complexa. Essas condições descartam a prática de planejar antecipadamente as estratégias de pesquisa. Em lugar desse tipo de racionalização do processo, os bricoleurs ingressam no ato de pesquisa como negociadores metodológicos. Sempre respeitando as demandas da tarefa que têm pela frente [...] (Kincheloe, 2007, p. 17).
Libertar-se dessas amarras permite que os pesquisadores reflitam sobre seu objeto de pesquisa, estabelecendo as conexões necessárias para a compreensão deste em sua totalidade, associando-o ao conhecimento social, cultural, educacional e psicológico, entre outros. Sob esse olhar, amparados no paradigma da complexidade (Morin, 2015), bricolamos a ciberpesquisa-formação - que integra a docência à pesquisa e entende seus praticantes como coautores da investigação (Santos, E., 2019) com os princípios da multirreferencialidade (Ardoino, 1998; Macedo, 2009) - que estabelece o diálogo entre saberes científicos e saberes do homem comum, e com a abordagem da pesquisa com os cotidianos (Certeau, 2013; Alves, 2008) - que valoriza as práticas e as narrativas dos praticantes, o que nos possibilitou apreender, compreender e exercitar a reflexão e a crítica, com vistas à formação de sujeitos capazes de pensar de forma autônoma e coerente, compartilhando sentidos e significados.
1.2 Memes como manifestações culturais
“Comunicação” e “contemporaneidade” são termos recorrentes nas discussões e análises sobre práticas culturais, desenvolvidas no processo de ‘aprenderensinar’4 na cibercultura, na medida em que entrelaçamos as ramificações das mutações simbólicas, estéticas, subjetivas, produtivas e educativas. Para que a comunicação possa produzir ‘sentidossignificações’, é necessário que haja códigos compartilhados. Para Romeu (2013, p. 132),
[...] A comunicação é também partilha, espaço partilhado, intersubjetividade, pelo que o sentido também é construído tendo em conta convenções ou significados pré-existentes que, como um sistema de referências, servem de molde ou estrutura para gerar representações através das quais a percepção, o sentido e o conhecimento são organizados [Tradução nossa] 5.
Esses códigos comuns, assevera Maffesoli (1988), permitem-nos falar da existência de comunidades de sentido, nas quais são construídos referentes que operam como unidades culturais que possibilitam a articulação de um conjunto particular de ações comunicativas, facilitando o processo de construção de identidades.
Desse modo, o cenário contemporâneo requer nossa atenção para os fenômenos culturais, ou seja, para os processos que se inserem, de modo complexo, nas dinâmicas sociais e temporais que emergem na cibercultura.Maffesoli (2012) enfatiza que a análise desses fenômenos demanda recorrer a duas atitudes que se complementam: a razão, com base na crítica, e a imaginação, que considera a natureza, o sentimento, e o orgânico. Entre esses fenômenos, os memes expressam, ao mesmo tempo, a singularidade de quem os cria, e o sentido de conectividade de cada pessoa à sociedade atual, caracterizada pelo consumismo, o individualismo e o imediatismo exacerbados.
Shifman (2014) afirma que os memes da Internet podem ser vistos como lendas urbanas ou como uma espécie de folclore (pós)moderno, no qual normas e valores são constituídos e compartilhados por meio de artefatos culturais “reembalados” com base no mecanismo de imitação e do remix, no qual novas características são a ele adicionadas, como uma trilha sonora ou uma edição no Photoshop.
Para Santos, E., Colacique e Carvalho. (2016), essas imagens trazem, de modo humorado, elementos para a imaginação que recriam e interpretam a realidade por eles representada. Essa forma de “brincar” com conceitos e estados da nossa realidade possibilita o surgimento de produções interessantes que podem nos ajudar a revisitar o estabelecido para emitir um novo olhar, contagiar-nos com uma nova interpretação e nos levar a perceber novas intenções, a partir do que observamos.
Seguindo esse movimento, uma página6 da Internet (Figura 1, com QR Code) transformou memes em capas de livros clássicos. Uma professora, por exemplo, utilizou memes produzidos nas redes sociais que se valiam de contos de fadas para criticar e discutir estereótipos sobre o feminino e os papeis preestabelecidos para as mulheres na sociedade7, e um aluno de licenciatura em História, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ensina fatos sobre acontecimentos históricos, produzindo memes8. Desse modo, os memes também podem ser usados em sala de aula para sintetizar a ideia de um conceito, um momento histórico ou experiência, desenvolver a criatividade e a colaboração, e promover a autoria docente e discente.
O termo ‘meme’ foi cunhado por Richard Dawkins, em 1976, no livro The Selfish Gene (O Gene Egoísta) e, por ele definido como uma unidade de replicação cultural, que funciona para a cultura de forma análoga à que genes funcionam para características biológicas.
Recuero (2009) se utiliza desse referencial, em particular, para transpor o conceito darwiniano de meme para o ambiente digital, propondo alguns elementos que devem ser observados quando de sua análise, quanto à (ao): (a) fidelidade da cópia: memesreplicadores, com alta fidelidade à ideia original (como links e talvez hashtags);metamórficos, que são modificados e reinterpretados ao serem compartilhados; miméticos facilmente reconhecíveis como imitações, mesmo que alterados, dado que suas estruturas são a mesma do original; (b) longevidade: distinção entre memes persistentes, cuja replicação perdura por longo tempo; evoláteis, com curto tempo de vida, e que, após algumas replicações são modificados, ou esquecidos; (c) fecundidade: categorizados em epidêmicos, que se espalham amplamente, efecundos, que se espalham por grupos menores, sem se alterar; e (d) alcance: os memesglobaisalcançam nós distantes, entre si, numa rede social, o que não implica dizer que são fecundos, dado que por serem locais, ficam restritos a uma ‘vizinhança’ de plataformas e sites.
Sob esse olhar, concebemos, como fenômenos da cibercultura, práticas cotidianas inovadoras, realizadas com apoio, ou não, de ciberdispositivos10, cuja principal característica é a viralização (Amaral, Rossini; Santos, 2021). Ressaltamos que, ainda que o termo viral passe a ideia de contaminação, sua origem é marcada a partir de lançamentos de clips bem construídos e postados no YouTube, que alcançaram milhões de acesso global, em nível mundial, tornando-se um “viral”, dada a sua contagiante influência e reconhecimento pela mídia para seu autor (Amaral, 2024, no prelo). A viralização, que surgiu com o crescimento do número de usuários nas redes sociais e nos blogs, atingiu sua plenitude na cultura digital.
Para Carrión (2020, p. 67), a viralização consiste num sistema de seleção de informações artificiais - muitas vezes algoritmicos relevantes em um ecossistema supersaturado de dados, textos, narrativas e artefatos artísticos e OCVI11. A relevância, é claro, nem sempre tem a ver com critérios de verdade, interesse geral ou excelência; frequentemente responde aos ritmos atuais, tópicos de tendência, pós-verdades, palavras-chave ou correlações de Big Data. [Tradução nossa]12.
Utilizado para designar os conteúdos que ganham repercussão na Web, a viralização, fomenta a velocidade e a superficialidade informacionais criticadas por Paul Virilio13, que acredita que vivemos a era da “dromologia” (dromos = corrida), na qual a pressa impõe o ritmo e a medida de todas as coisas”, negando a reflexão, como acentua Marco Silva (Pimentel, 2019, p. 232).
A viralização pode ser direcionada, mas nunca decidida, dado que o centro de gravidade não se encontra na mídia, mas no cérebro de cada indivíduo, para onde histórias e informações convergem, circulando e se infiltrando nas conversas, que podem ser socializadas, na medida em que seus leitores acreditam que compartilhá-las é uma contribuição ou um presente para seus círculos de interlocutores, como afirma para Jenkins (2009). Com efeito, as redes sociais constituem o cenário propício para a proliferação de memes no cenário digital. Assim eles surgem, e ganham relevância, principalmente devido ao seu potencial viral e replicativo. É, portanto, nesse contexto, que os memes passam a representar o conceito, a forma e a estética que conhecemos, hoje, nas redes sociais. Retirados de imagens, desenhos, filmes e propagandas, eles recriam e reproduzem situações e elementos da cultura popular em tom cômico, satírico, quebrando tabus e abrindo espaços de discussão e reflexão.
Essas imagens são expressões particulares, comunicam intencionalidade, são testemunhas de mudanças ocorridas, indicam compreensão e visões de mundo, registram momentos que ficam na memória como os antigos álbuns de família. Elas circulam contando e recontando histórias. São, portanto, também narrativas do cotidiano (Santos, E..; Colacique; Carvalho, 2016, p. 136).
Precisar quando surgiu o primeiro meme é praticamente impossível, tendo em vista que o meme pode representar uma ideia, comportamento ou estilo que se espalha de pessoa para pessoa numa cultura. Desse modo, entender seu sentido e sua lógica depende muito do contexto de sua produção. Alguns pesquisadores da pós-graduação em Comunicação (PPGCOM-UFF), da graduação em Estudos de Mídia/UFF, e, também, de outras áreas e instituições dedicam-se ao estudo, catalogação e preservação de memes, buscando reunir histórias que os inspiraram, explicando a sua origem e fazendo uma pequena análise do contexto que os viralizou. Esse material, catalogado, passa a fazer parte do acervo do projeto Museu de Memes14, o que nos permite voltar no tempo para redescobrir e destacar alguns dos principais memes que contribuíram para a popularização e definição do movimento, principalmente no cenário brasileiro.
De certa forma, podemos dizer que o fenômeno dos memes tem início com as primeiras Rage Comics (ou ‘quadrinhos’ de raiva). As Rage Comics, por sua vez, surgem de uma série de quadrinhos na Web com desenhos de rostos de personagens que demonstram expressões faciais fundamentais da natureza humana. Criados com software de desenho simples, como o Paint da Microsoft, os quadrinhos são tipicamente usados para contar histórias sobre experiências da vida real, com viés humorístico (Figura 2, com QR Code).

Fonte: Imagem adaptada pelo autor.
Figura 2 Algumas das rage faces mais conhecidas no universo dos memes
Uma das primeiras adaptações dos Rage Comics em um contexto educativo pode ser encontrada, no Reddit, quando Scott Stillar15, em outubro de 2011, relata sua experiência ao trabalhar as Rage Comics, com estudantes japoneses da Universidade de Tsukuba, como referência gráfica de estados das emoções. Desse modo, as Rage Comics, antes vistas como um passatempo, transformam-se num valioso dispositivo de aprendizagem. É importante ressaltar que, na época, Rage Comic não chegou a se popularizar no Brasil. O termo meme, no cenário nacional, foi apropriado para caracterizar esse novo universo de imagens que passou a inundar os blogs de conteúdo humorístico, disseminados diariamente. Com efeito, de forma gradual, outros elementos visuais típicos da cultura brasileira, tais como fotos de celebridades, personagens de novelas, conteúdos de propagandas e, principalmente, personalidades e contextos políticos, foram sendo incorporados.
1.3 Autorias Criativas em Redes de Aprendizagem Online
Os memes, assim como as charges, nascem a partir de uma conotação simbólica que permeia seu estado de produção, transportam esses significados em sua própria constituição e entregam um propósito significativo de conclusão. Desse modo, é preciso que o leitor faça uma relação lógico-interpretativa entre o contexto associativo que o meme deseja representar e o conteúdo narrativo da mensagem que deseja transmitir: uma ação, à primeira vista, complexa e penosa, mas que se desenvolve com naturalidade nos ambientes sociais contemporâneos.
Partindo da função prática dos memes na cibercultura, criamos, na plataforma Moodle, da disciplina. “Aula 2 - Autoria em rede: memes!”, uma ambiência formacional, que teve o meme como dispositivo disparador de autorias criativas, Para Santos, R. (2015), essas ambiências consistem em situações de aprendizagem cocriadas em diferentes ‘espaçostempos’, nos quais diversas possibilidades de produção intelectual, de invenção, de constituição de rastros são dinamizadas por um coletivo que assume, explicita e reinventa seu processo de formação.
Mas, o que é ser autor, em tempos de cibercultura móvel e ubíqua?
Corroboramos o pensamento de Amaral (2014), quando define autoria como toda expressão do pensamento, manifesto numa obra sob diferentes formatos, em que o sujeito, ancorado em suas memórias e em vozes que lhe antecederam, atualiza-as, criando seu próprio espaço do dizer, de forma responsiva e responsável. Nessa perspectiva, propusemos aos praticantes que vivenciassem a experiência de produção coletiva de um meme, por meio do aplicativo Meme Generator, dispositivo de geração de memes que possibilita que seus usuários acessem um banco de imagens com os principais memes, organizados por categoria, além de criarem um meme a partir de uma imagem original, que pode ser capturada pela câmera do smartphone, ou escolhida numa biblioteca de imagens do aparelho, tendo em vista transmitirem uma mensagem educativa, como visualizado na Figura 3.

Fonte: Print de tela da Aula 2, disponibilizado no Moodle, da disciplina.
Figura 3 Aula 2 - Autoria em rede: memes!
Essa atividade se daria na culminância da proposta concebida, intencionando, primeiramente, trabalhar e situar o contexto social do surgimento do fenômeno, suas facetas, implicações e, principalmente, seu potencial de ação em tempos de cibercultura.
Produzimos, então, um desenho didático que tinha como premissa que a prática do meme é popular e já pertence ao cotidiano dos praticantes, concentrando nossos esforços no aprofundamento prático-teórico da autoria visual do meme na cibercultura. Desse modo, elaboramos uma aula, que deveria ocorrer, simultaneamente, na cidade e no ciberespaço, articulando ‘práticateoria’; contemplar o desenvolvimento didático de cada praticante e atender aos recursos acionados no desenho didático, disposto na Figura 4, a seguir:
Nesse contexto, e na expectativa de reconfigurar o caráter de futilidade, que geralmente é atribuído aos movimentos que surgem na Internet, trouxemos uma nova concepção, estruturada em implicação, intencionalidade e, entendendo que o uso dos memes se torna relevante na medida em que percebemos que sua linguagem é efetivamente capaz de transmitir sentidos, de forma singular e prática. Da mesma forma que os primeiros pictogramas registrados nas paredes das cavernas supriam o desejo do homem primitivo de manifestar os seus sentimentos, anseios, crenças e mitos para a sua comunidade temporal, registrando ali suas técnicas de caça, sistemas de agricultura e pecuária, somos, também, capazes de demarcar e registrar as situações intrigantes e instigantes do nosso cotidiano escolar, profissional e social, em multiplicidade de linguagens (Figura 5).

Fonte: Montagem feita pelos autores.
Figura 5 Pictogramas encontrados na caverna de Lascaux, um complexo de cavernas ao sudoeste da França e um meme utilizando os mesmos conceitos representados na imagem original.
Isso demanda um olhar ecológico para a realidade; ou seja, um modo de fazer educação integrada às tecnologias disponíveis - Internet, texto impresso, mídias, em geral, construindo relações, interagindo e produzindo sentidos, para atender às demandas contemporâneas, como nos ensinam Cope e Kalantzis (2006), redesenhando caminhos que possibilitem lidar com a diversidade cultural, respeitar as diferenças e desigualdades, e interagir nas redes, como protagonistas de suas histórias. Sob esse olhar, a formação docente, deve privilegiar os multiletramentos, nos processos de ‘aprenderensinar’, associando diferentes modos semióticos - linguístico, imagético, sonoro, gestual, espacial, com vistas ao desenvolvimento da reflexão, da crítica, da autonomia e da capacidade criadora como enfatizam Amaral, Santos, R. e Santos, E. (2019). E, é nesse ponto, que as mídias digitais possibilitam que os memes de Internet adentrem ‘espaçostempos’ diversos.
Sejam os memes de natureza cômica ou repletos de crítica da nossa sociedade, produzindo e reproduzindo a cultura, influenciando e sendo influenciados por ela, vivemos em movimento cíclico que varia apenas de suporte: o que antes era demarcado nas paredes, agora é vivido nas telas de nossos smartphones, tendo em vista atender à agenda de seus proprietários, ainda mais quando tratamos de meios de comunicação já estabelecidos, a saber: o jornal, o rádio e a televisão. Mesmo em tempos modernos, já com a efetiva presença da Internet em nosso meio, é certo afirmar que os meios de criação, publicação e compartilhamento de conteúdo não eram acessíveis à grande maioria daqueles que se aventuravam a desbravar os primórdios da Web; o que só é possível com o surgimento da Web 2.0. Mesmo assim, é importante notar que a conectividade só se torna, particularmente efetiva, com o advento da mobilidade, dos smartphones e principalmente das lojas de aplicativos. Nesse contexto, o Instagram chama nossa atenção, não somente por ser um software social de compartilhamento, mas por ter como foco a partilha de imagens.
Reduto de celebridades, modelos e atletas, funcionando como galeria do ‘padrão’ de vida imposto pela elite da sociedade, esse aplicativo abriga também contribuições e movimentos de artistas, ativistas, políticos e pessoas comuns que retratam e divulgam suas experiências cotidianas, de forma muito singular e transformadora. Espaços da cidade, que muitas vezes se perdem na vida agitada dos grandes centros urbanos, tornam-se experiências transformadoras ao serem remixados em novos contextos. em publicações implicadas: imagens que revelam, retratam, comovem, ensinam, corrigem e resolvem, finalmente, denunciar a injustiça, o ódio e a miséria que assola as vidas das massas que se espremem nos casebres das comunidades, e daqueles que, um dia, ousaram se interpor entre esses e o frio toque da realidade (Figura 6).

Fonte: Montagem de capturas elaborada pelos autores no contexto da pesquisa.
Figura 6 Imagens significativas postadas no Instagram
Optamos, portanto, por reconhecer e valorizar todas essas experiências visuais que podem ser concebidas pelas imagens obtidas nos espaços da cidade e do ciberespaço, em diversos contextos sociais, buscando delas inferir uma reflexão inspiradora, capaz de modificar nossa prática docente.
Didi-Huberman (2011) afirma que as imagens não constituem um recorte do real. São fios condutores que estabelecem o vínculo entre o real e o imaginário, convocando nossos sentidos e a nossa imaginação. Para aqueles que as captam, ardem em significados e intencionalidades. Mas, ao tocarem o real, convertem-se em cinzas, a serem reacesas, mediante memórias e narrativas dos sujeitos que as tocam.
Valendo-nos do potencial marcante das imagens, produzimos conceitos para serem publicados nos fóruns da disciplina, criando um espaço de memória para a posteridade, por meio do aplicativo Meme Generator (Figura 7).
Ressaltamos a importância de utilizarmos imagens de nossa autoria para melhor contextualização dos memes que produzimos, por constituir um suporte revelador de nossas próprias ideias; o que permite a captura de lugares, contextos e situações diversos em nosso movimento cotidiano na imbricação cidade/ciberespaço. Amaral (2014) enfatiza que, para além dos aspectos linguísticos, a materialização desses momentos torna-se relevante para o entendimento da autoria não apenas em textos escritos, mas também em produções marcadas por outras culturas midiáticas, que interferem no sentido do discurso.
Com efeito, nossa proposta era a criação de um ou mais memes por grupo de alunos, buscando revelar neles alguma realidade, contexto ou discurso que fosse interessante problematizar com o coletivo de praticantes, expondo seus questionamentos, interagindo e mediando as discussões emergentes. Para isso, pedimos que suas produções fossem postadas no grupo da turma no Facebook, mais uma ambiência formacional, a fim de compartilhá-las com familiares e amigos, ampliando o alcance da discussão. Posteriormente, criamos também um perfil no Instagram para a postagem dessas memórias.
Na medida em que os praticantes iam se apropriando do aplicativo para inserir narrativas e imagens, revelando a percepção não somente de sua realidade vivenciada no cotidiano, na cidade e no ciberespaço, como também a crítica do “microverso”16 em que eles mesmos estavam inseridos, como estudantes de uma graduação online em pedagogia, verificávamos o surgimento de uma “autoria criadora” (Backes, 2012), na qual a autorização acontece, de forma criativa, num deslocar-se - uma espécie de inversão e modificação das representações, abrindo passagem ao novo, o que promove a diferença na rede de relações estabelecida com o grupo (Amaral, 2014).
Desse modo, desafios que surgiram durante a realização da atividade da Aula 1- Autoria criativa, foram problematizados com uma série de memes que surgiam em quantidade e atraíam um volume de comentários muito maior que aquele que costumávamos encontrar em qualquer outra postagem disponibilizada no grupo. Nessas postagens, os praticantes sentiam-se livres para expor suas dificuldades acerca da proposta do aplicativo e suas frustrações ao tentar manuseá-lo, os problemas que encontravam ao trabalhar em grupo, suas percepções acerca de como os aplicativos poderiam ter um fim educativo e, até mesmo, algumas discussões a respeito do uso de smartphones em sala de aula.
Assim, nessa ambiência formacional, sustentada na colaboração interativa, a tessitura do conhecimento constitui uma dinâmica de coprodução e de coautoria, por meio da mediação partilhada, na qual não há lideranças, e sim emergências (Bruno, 2011) e diferentes narrativas vão dando sentido a nossa própria prática docente, ao apreendermos, em cada fala, os anseios de quem narra, e a percepção de nosso fazer docente, sem esquecermos de que a essência daquilo que foi partilhado é também reflexo de nossa implicação, não somente com a pesquisa, mas também com todos os demais praticantes.
A Figura 8, adiante, apresenta uma dessas narrativas que emergiram da experiência relacionada à utilização do aplicativo Aurasma17, tendo em vista mostrar como a criação de memes contribui para a formação docente e discente, no processo de ‘aprenderensinar’, como nos alerta Santos, E. (2014).

Fonte: Print de tela da praticante no grupo do Facebook da disciplina.
Figura 8 Meme de Bruna sobre o Aurasma
Em seu relato, Bruna revela que a inspiração do grupo para a concepção dos memes parte da ideia de criar um clima de descontração sobre o assunto, aliviando a tensão proporcionada pelo desafio de trabalhar com o aplicativo. Ao partilhar sua produção, ela encontra conforto nas respostas dos demais praticantes que, assim como ela, estavam passando pela mesma situação.
Analisando, individualmente, o meme que acompanha a postagem, podemos perceber o surgimento de uma série de relatos interessantes que vêm corroborar nossa proposta. Mesmo utilizando sua própria imagem para produzir seu meme, ela consegue retratar sua realidade, de forma original e criativa, sintetizando, em sua expressão facial e gestual, todo um contexto de desafios e dificuldades vivenciados por grande parte dos estudantes daquela disciplina.
Percebendo que a postagem havia chamado a atenção dos praticantes, questionamos: o que vocês acharam de trabalhar com os memes, como parte da avaliação? A primeira resposta veio da própria Bruna quando disse que, em sua opinião, foi a melhor parte, “tendo em vista que foram tantas pequenas, grandes e trabalhosas etapas para compor apenas a nota da AD 1... Os memes vieram pra aliviar a tensão…”. Solange confirma: “foi um momento para relaxar, perto do que passamos com o aurasma!!”
Na reprodução de uma postagem do grupo do Facebook, na Figura 9, que segue, um meme, bem-humorado, a praticante Caroline Brandão revela sua visão acerca da utilização prática do aplicativo Aurasma, ilustrando sua opinião sobre o que deveria ser feito com o aplicativo, ao desejar sua completa destruição.

Fonte: Print de postagens no grupo do Facebook da disciplina.
Figura 9 Meme de Caroline Brandão sobre o Aurasma
Em sua resposta, à proibição do uso de celulares em sala de aula, Kelly se posiciona: “Se for como um aliado no processo ensino-aprendizagem é válido. Mas, as crianças, no geral usam o celular para jogar e conversar, pelo menos vejo isso nos meus alunos de 7 e 8 anos. Se fizermos um pedido formal aos alunos para trazerem o celular para a escola a responsabilidade passa a ser da instituição, e o índice de assalto onde trabalho é alto. Em alguns aspectos concordo com a proibição”. Logo a seguir, complementa: “Minha filha tem 10 anos e não leva o celular para a escola, mas faz uso dele quando precisa fazer pesquisa”.
O mais interessante é que a mesma praticante que postou o meme desejando a destruição do Aurasma, que até então acompanhava o debate sem se pronunciar, admite após a leitura dos comentários que “se conseguirmos focar o lado do aparelho celular + Internet direcionados na educação teremos ótimos resultados!” e conclui com a noção que buscávamos transmitir: “Até os memes podem ser educativos!”
Essa descoberta feita por Caroline não teria acontecido se apenas nos preocupássemos em garantir a interação emissor-receptor, a exemplo de grande parte dos modelos de EaD aplicados, atualmente.
O que importa nessa complexa rede de relações é a garantia da produção de sentidos, da autoria dos sujeitos/coletivos. O conhecimento deve ser concebido como fios que vão sendo puxados e tecidos criando novas significações, onde alguns irão conectar-se a novos, outros serão refutados ou serão ignorados pelos sujeitos, “nós”, até que outros fios sejam tecidos a qualquer tempo/espaço na grande rede que é o próprio mundo (Santos, E., 2002, p. 118 - grifo nosso).
Com efeito, os memes constituem dispositivos promotores de autorias criadoras, quando sustentados por um desenho didático que garanta a livre expressão dos praticantes, o diálogo, a negociação de sentidos, a interatividade e a colaboração, possibilitando-lhes relatar, emitir opiniões, criar, e até mesmo questionar aquilo que vivenciam em individualidade, pois é da partilha dessas incertezas e frustrações que eles podem, finalmente, conceber a sua forma de ser e estar no mundo; uma experiência baseada em redes de relações, na qual buscamos demonstrar, de forma prática, como podemos trabalhar diferentes aspectos da vida cotidiana, a partir de um contexto de informalidade. Entendemos que esse aspecto pode ser uma forma efetiva de estabelecer uma conexão presencial ativa entre docentes e discentes, na perspectiva da educação online.
Essa forma de atuar torna-se ainda mais interessante, quando levamos em conta os desafios e obstáculos encontrados pelo educador brasileiro, um fato relevante que não passou despercebido pelos docentes, ou mesmo pelos estudantes na tessitura de suas críticas. E isso se amplifica, no cenário atual, em que enfrentamos a pandemia do novo coronavírus, no qual o distanciamento físico e o fechamento das escolas nos chamam a reinventar nossas práticas, de forma resiliente, porque re(existir) é preciso.
2 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como vimos neste artigo, no digital em rede, a obra intelectual e artística, perdeu, praticamente seu caráter individual, para tornar-se coletiva, com o entrelaçamento mais estreito entre autor e leitor, ampliando, desse modo, a colaboração intelectual, seja pela possibilidade de dialogar e interagir em rede, ou mesmo pela complexidade híbrida da linguagem hipermídia, presente não apenas nas redes sociais, mas, cada vez mais, no ambiente acadêmico. Num contexto educativo, no qual os estudantes são incentivados a interpretar textos, charges, ou mesmo criar histórias em quadrinhos (HQ), a exploração de memes, por sua versatilidade, pode constituir uma proposta inovadora, bem-humorada e prazerosa, como parte do processo de ‘aprendizagemensino’, tendo em vista que toda atividade pedagógica constitui uma situação concreta de comunicação, que contempla a produção de discursos, ou seja, um terreno fértil para o surgimento de autorias.
Nessa perspectiva, procuramos discutir, neste texto, o uso de memes como disparadores de autorias criadoras, fundamentadas em processos dialógicos, interativos e colaborativos, em sala de aula presencial e online.
As experiências aqui apresentadas nos permitem compreender como o empoderamento dos sujeitos pelos meios de produção e compartilhamento, potencializado pelo recurso discursivo dos memes, pode proporcionar experiências autorais ‘docentesdiscentes’. A autoria, portanto, concretizou-se em função da operatividade reflexiva que ocorreu num certo domínio coletivo de ações, sendo um diferencial nas diversas redes constituídas. Nessa relação, produtos científicos e culturais, memes e tantos outros disponíbilizados, “dentrofora” dos ‘espaçostempos’ escolares, constituíram dispositivos explorados ao longo da pesquisa.
Com efeito, na medida em que os praticantes se descobriam divulgando, denunciando e revelando atores e cenários, por meio de suas próprias narrativas e imagens produzidas em contexto de mobilidade, exercitávamos o papel de docentes formadores online, ao mesmo tempo em que nos formávamos no movimento de ‘aprenderensinar’.