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Revista e-Curriculum

versão On-line ISSN 1809-3876

e-Curriculum vol.23  São Paulo  2025  Epub 11-Ago-2025

https://doi.org/10.23925/1809-3876.2025v23e72319 

Edição Temática ABdC 2025 “Subjetividades e subjetivações ..."

Subjetividades e Subjetivações que (se) (des/re)fazem (n)o Currículo: fantasias, afetos, identificações

Subjectivities and Subjectivations that (are) (un/re)made (in) the Curriculum: fantasies, affections, identifications

Subjetividades y subjetivaciones que se (des/re)hacen (en) el currículo: fantasías, afectos, identificaciones

Hugo Heleno Camilo Costai 
http://orcid.org/0000-0001-8833-976X

Gustavo Gilson Oliveiraii 
http://orcid.org/0000-0002-1974-7425

i Doutor em Educação (ProPEd/UERJ). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ). E-mail: hugo.costa@uerj.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-8833-976X.

ii Doutor em Sociologia (UFPE). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGEdu/UFPE). E-mail: gustavo.soliveira@ufpe.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-1974-7425.


Resumo

O texto aborda os artigos que integram o dossiê, cujo foco está na investigação sobre como as subjetivações se manifestam nos discursos e práticas curriculares contemporâneas, destacando a complexidade política que permeia a significação do currículo. Sinaliza que em um contexto marcado por disputas neoliberais e neoconservadoras, o currículo tende a ser visto como meio de transmissão de conhecimento, definidor de identidade e subjetividades via aumento do controle. Pondera que os artigos, embora possuam diversas orientações interpretativas, convergem na atenção às relações entre currículo, subjetividade, fantasia e afeto, enfatizando a resistência e a reinvenção nas práticas educacionais em distintos contextos. Conclui destacando que tal diversidade enriquece a compreensão das dinâmicas curriculares, reafirmando a urgência de uma educação plural e comprometida com a diferença.

Palavras-chave: currículo; subjetividade; fantasia; afeto; identidade

Abstract

The text discusses the articles that make up the dossier, which focus on the investigation of how subjectivities manifest themselves in contemporary curricular discourses and practices, highlighting the political complexity that permeates the meaning of the curriculum. It points out that in a context marked by neoliberal and neoconservative disputes, the curriculum tends to be seen as a means of transmitting knowledge, defining identity and subjectivities through increased control. It considers that the articles, although they have different interpretative orientations, converge in their attention to the relationships between curriculum, subjectivity, fantasy and affection, emphasizing resistance and reinvention in educational practices in different contexts. It concludes by highlighting that such diversity enriches the understanding of curricular dynamics, reaffirming the urgency of a plural education committed to difference.

Keywords: curriculum; subjectivity; fantasy; affection; identity

Resumen

El texto analiza los artículos que conforman el dossier, los cuales se centran en la investigación de cómo las subjetividades se manifiestan en los discursos y prácticas curriculares contemporáneas, destacando la complejidad política que permea el significado del currículo. Señala que en un contexto marcado por disputas neoliberales y neoconservadoras, el currículo tiende a ser visto como un medio para transmitir conocimiento, definiendo identidad y subjetividades a través de un mayor control. Considera que los artículos, si bien tienen diferentes orientaciones interpretativas, convergen en su atención a las relaciones entre currículo, subjetividad, fantasía y afecto, enfatizando la resistencia y la reinvención en las prácticas educativas en diferentes contextos. Concluye destacando que dicha diversidad enriquece la comprensión de las dinámicas curriculares, reafirmando la urgencia de una educación plural comprometida con la diferencia.

Palabras clave: currículo; subjetividad; fantasía; afecto; identidad

1 INTRODUÇÃO

Ao compor este Dossiê para a Revista e-Curriculum, assumimos a tarefa de problematizar as formas como as subjetividades e subjetivações (se) (des/re)fazem nos discursos e práticas curriculares contemporâneas. A proposta emerge no contexto de uma cena educacional profundamente marcada por disputas simbólicas e políticas em torno dos sentidos de currículo, de suas promessas de futuro e de seus efeitos sobre quem somos e podemos ser nas escolas, nas políticas e nas redes de relações pedagógicas. Trata-se, portanto, de um esforço de investigação e teorização que não busca fixar um conceito unitário de subjetividade ou de currículo, mas abrir espaço para pensar as múltiplas linhas de fuga, fissuras e contradições que atravessam o campo.

O Dossiê que ora apresentamos - “Subjetividades e Subjetivações que (se) (des/re)fazem (n)o Currículo: fantasias, afetos, identificações” - foi concebido a partir de uma aposta coletiva: a de que as articulações entre teorias pós-estruturalistas, estudos de discurso, investigações sobre fantasia e afetos, e abordagens (pós-)críticas no campo curricular, podem contribuir para renovar as formas como pensamos e praticamos a pesquisa em currículo. Essa aposta não se dá no vazio, mas emerge de uma fecunda interlocução entre os trabalhos que temos desenvolvido nos últimos anos - tanto individualmente quanto em colaboração com nossos grupos e redes de pesquisa - e nos diálogos intensos que mantemos com colegas no Brasil e em outros contextos.

Nosso ponto de partida é o reconhecimento de que o currículo não é um mero instrumento técnico de transmissão de conhecimentos. Ele é, antes, um campo eminentemente político e simbólico, atravessado por disputas, investimentos afetivos e fantasias sociais. Como temos argumentado em nossos trabalhos (Costa, 2023; Costa; Lopes, 2022; Silva; Oliveira, 2023; Oliveira; Xavier, 2020; Oliveira; Oliveira; Mesquita, 2013), as políticas e práticas curriculares participam ativamente na produção e circulação de discursos sobre quem deve ser educado, com que saberes, em que valores e com quais futuros possíveis ou impossíveis.

Nesse processo, o currículo atua como um dispositivo de subjetivação: não é apenas uma definição de “conteúdos” a serem ensinados, mas é também uma prática que convoca sujeitos a se identificarem com certos modos de ser e a se distanciarem de outros. Ele envolve, portanto, investimentos fantasmáticos e dinâmicas de identificação que operam no nível afetivo e inconsciente. Conforme temos explorado, inspirados na Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (2015) e nos Estudos Críticos de Fantasia (Glynos, 2021; Glynos; Oliveira; Burity, 2019; Glynos; Howarth, 2007), as políticas curriculares contemporâneas frequentemente mobilizam promessas de plenitude que respondem a um fundo constitutivo de falta e contingência, tentando fixar sentidos e identidades num campo que, por definição, é sempre inacabado e aberto ao antagonismo.

O presente Dossiê nasce, portanto, do reconhecimento de que vivemos um momento em que as disputas por controle sobre os processos de subjetivação se intensificam no campo educacional. Os efeitos do neoliberalismo, das novas formas de governamentalidade, da ascensão do neoconservadorismo, das políticas de accountability e das narrativas populistas de direita tornam ainda mais urgente a tarefa de pensar o currículo como espaço de deslocamento e de negociação e embates por significação, por afetos e por identidades. É nesse cenário que as articulações entre estudos de subjetividade, fantasia e currículo ganham renovada pertinência.

A proposta que orientou a chamada para este Dossiê foi justamente a de reunir trabalhos que, a partir de diversas perspectivas teóricas e metodológicas, interrogassem os modos como os processos de subjetivação são disputados, tensionados e reconfigurados (ou não) nas práticas curriculares contemporâneas. Isso inclui tanto investigações sobre as formas de controle e regulação das subjetividades, quanto estudos sobre resistências, fissuras e reinvenções que abrem espaço para subjetivações outras.

Os artigos que compõem este número especial da Revista e-Curriculum refletem a pluralidade e a riqueza desse campo de debates. Eles mobilizam, em diferentes combinações, aportes da Teoria do Discurso, das filosofias da diferença, dos estudos de gênero e sexualidade, dos estudos pós-coloniais e decoloniais, dos estudos críticos da fantasia, da pedagogia cultural, da teoria queer e das teorias pós-críticas em suas apropriações no campo do currículo. Nessa diversidade, eles partilham uma compreensão comum: a de que o currículo é um terreno de (des)construções políticas, afetivas e simbólicas, que impactam profundamente os modos como subjetividades e identificações se constituem na educação.

Além disso, os trabalhos reunidos aqui oferecem importantes contribuições para o aprofundamento das reflexões sobre o papel da fantasia e dos afetos nos processos curriculares. Como temos discutido em outros textos (Lopes; Cunha; Costa, 2025; Oliveira; Oliveira, 2022; Oliveira, 2018), o reconhecimento da centralidade do investimento afetivo nos discursos curriculares permite uma compreensão mais complexa das dinâmicas de adesão, resistência e transformação que atravessam as políticas e práticas educacionais. Ele também nos ajuda a desnaturalizar certos discursos que se apresentam como neutros ou técnicos, mas que estão imersos em jogos de poder e em contextos de significação profundamente políticos.

A abordagem que anima este Dossiê dialoga, portanto, com uma tradição crítica no campo dos estudos de currículo, mas também busca ir além dela, abrindo-se a aportes que nos permitam pensar mais radicalmente a contingência, a indeterminação e as fissuras que marcam o campo. Nesse sentido, inspiramo-nos em autores como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, Judith Butler, Slavoj Žižek, Jacques Derrida, Michel Foucault, Deleuze e Guattari, bem como em contribuições mais recentes no campo dos Estudos Críticos de Fantasia e nas pesquisas curriculares que exploram as dimensões afetivas e inconscientes das políticas educacionais.

Por fim, este Dossiê se propõe também como uma intervenção política no cenário atual das políticas de currículo no Brasil e no horizonte global. Ao reunir um conjunto de trabalhos que exploram, de maneira aguçada, as formas como subjetividades e subjetivações são produzidas, controladas, disputadas e reinventadas no currículo, esperamos contribuir para o fortalecimento de um campo de estudos comprometido com a defesa de uma educação inquieta e inconformada, mobilizada pela busca de um horizonte democrático, plural e aberto à diferença - uma educação capaz de subverter a captura do controle totalizante e que acolha a contingência e o inacabamento como condições constitutivas da vida social.

2 OS DEBATES CONTEMPORÂNEOS SOBRE CURRÍCULO E SUBJETIVIDADE

A relevância social e acadêmica do presente Dossiê deve ser compreendida no contexto das profundas transformações que vêm marcando as políticas de currículo tanto no Brasil quanto em escala global. Como temos argumentado em vários trabalhos recentes (Lopes; Cunha; Costa, 2025; Silva; Oliveira, 2023; Oliveira; Oliveira, 2022), vivemos um momento de recrudescimento de discursos neoliberais e neoconservadores que operam no campo educacional com extraordinária capacidade de reconfigurar não apenas conteúdos e métodos de ensino, mas também as próprias formas de subjetivação que as políticas curriculares tentam promover.

No cenário global, a ascensão de novas formas de governamentalidade neoliberal, articuladas com a expansão de redes de filantropia corporativa e de organizações intergovernamentais, tem consolidado um modelo de política educacional centrado na padronização curricular, na ênfase em habilidades e competências voltadas para o mercado de trabalho, no controle por meio de dispositivos de accountability e na busca de produção de sujeitos empreendedores, resilientes e autogerenciáveis. Como demonstram autores como Stephen Ball (2014), Wendy Brown (2019) e Dardot e Laval (2016), essas dinâmicas fazem da educação um espaço estratégico para a difusão das lógicas neoliberais de governo, moldando formas de subjetivação que privilegiam a atomização individual e a adaptação a um mundo regido pela competição e pela precariedade.

No Brasil, essas tendências se manifestam de maneira particularmente aguda, em um contexto marcado por fortes tensões políticas e culturais. As recentes reformas educacionais - incluindo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a BNC-Formação, o Novo Ensino Médio e a crescente ênfase nos componentes “Projeto de Vida” e “Empreendedorismo” - materializam um projeto de política curricular que, embora apresente uma retórica de inovação e modernização, está profundamente comprometido com a lógica da governamentalidade neoliberal (Lopes, 2024; Rodrigues; da Silva Rodrigues, 2024; Silva; Oliveira, 2023).

Tais reformas se articulam também com uma ofensiva neoconservadora que, a partir de alianças entre setores da nova direita, grupos religiosos e think tanks neoliberais, busca redefinir os sentidos do currículo e impor uma gramática moralista e autoritária às políticas educacionais. Como temos analisado (Lopes; Cunha; Costa, 2025; Oliveira; Oliveira, 2022), essa ofensiva se expressa na tentativa de silenciar debates sobre gênero, sexualidade, raça e pluralismo cultural; na promoção de dispositivos como o “Escola Sem Partido”; na defesa da militarização de escolas e no avanço de agendas como a da educação domiciliar (Cunha; Lopes, 2022; Macedo, 2019). Trata-se, em muitos casos, de um projeto que, ao mesmo tempo em que se alimenta das lógicas do neoliberalismo, também mobiliza fantasias conservadoras de pureza, ordem e controle, como temos demonstrado a partir do diálogo com os estudos da fantasia (Glynos; Burity; Oliveira, 2020; Glynos; Oliveira; Burity, 2019).

É nesse cenário que o presente Dossiê se inscreve como uma intervenção acadêmica e política. Os artigos aqui reunidos oferecem não apenas análises diretas das formas de controle e regulação das subjetividades promovidas por essas políticas, mas também explorações das resistências, fissuras e invenções que emergem no campo curricular. Em diálogo com uma tradição de estudos de currículo profundamente atenta às dimensões políticas e culturais da educação (Lopes; Macedo, 2021; Alves, 2017), os trabalhos aqui publicados contribuem para aprofundar as conversações que continuamente constituem e desafiam o currículo como campo teórico e vivencial.

Além disso, ao mobilizarem perspectivas teóricas que interrogam as dinâmicas de subjetivação no neoliberalismo e no neoconservadorismo, os artigos do Dossiê ajudam a complexificar a compreensão dos efeitos dessas políticas sobre os processos de formação subjetiva. Eles mostram como o discurso da autonomia individual, tão central nas retóricas neoliberais, coexiste com fantasias de controle e pureza típicas do neoconservadorismo, produzindo - mesmo que precária e contingentemente - formas de subjetividade que oscilam entre a hipermobilização atomizada e a normatividade autoritária.

Essa análise é particularmente importante no contexto da BNCC e do Novo Ensino Médio, em que a ênfase no “Projeto de Vida” e nas competências empreendedoras se combina com tentativas de excluir ou marginalizar saberes e identidades que desestabilizam o projeto hegemônico de sujeito desejado, como indicam os artigos de Adriege Rodrigues e Ana Claudia Rodrigues, Ana Gabriela Vieria et al e Divane Silva et al.. Como temos destacado, essas políticas operam por meio de investimentos afetivos e de fantasias que prometem superar a “crise educacional” e produzir sujeitos adequados às demandas hegemônicas nas versões atuais do capitalismo e do colonialismo, ao mesmo tempo em que reiteram exclusões e hierarquias, como demonstram Raphael Peixoto e Viviane Peixoto.

Por outro lado, os artigos do Dossiê também apontam para o caráter inelutavelmente contingente e inacabado desses processos. Eles mostram como, mesmo sob condições de forte controle e regulação, surgem espaços de resistência, invenção e dissidência. Sejam as “curricularizações errantes” e movimentos de reinvenção, como apontam Tamili Silva e Carlos Eduardo Ferraço ou Isabella Alves e Anna Luiza Oliveira, sejam as práticas pedagógicas que tensionam as normatividades de gênero e raça, como vemos nos textos de Iris Verena Oliveira, Katia Farias et al., Marcos Martins e Hiago Nascimento, Angela Rufino e Luiz Antônio Senna, ou ainda as intervenções que problematizam as fantasias de controle e plenitude, como também podemos salientar nos trabalhos de Thiago Ranniery e Nicolas Panotto.

Em suma, o Dossiê oferece uma contribuição relevante para o debate acadêmico ao articular, de maneira consistente, reflexões sobre currículo, subjetividade, fantasia e política em um cenário de intensas disputas. Ao fazê-lo, reafirma a centralidade dos estudos de currículo na provocação por uma educação democrática, plural e aberta às múltiplas formas de ser e de existir no mundo.

3 APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS SELECIONADOS

Os quatro primeiros artigos do Dossiê operam como uma entrada no debate sobre as relações entre currículo e subjetividade, com especial atenção à dimensão da experiência e, em especial, às experiências da infância, dissidências de gênero e sexualidade, pedagogias da diferença e à potência inventiva dos cotidianos escolares. Embora partam de contextos e focos distintos, esses textos compartilham uma crítica profunda aos dispositivos curriculares normativos e uma aposta na abertura a processos de subjetivação múltiplos, precários e em devir. O artigo de Sammy Lopes e Janete Carvalho, “Os currículos da educação infantil e o problema da experiência”, problematiza os limites das concepções de “campos de experiência” da BNCC na Educação Infantil, propondo uma visão da infância como acontecimento e devir, e do currículo como campo de escuta e invenção. Por sua vez, em “Pedagogia babélica para fazer o currículo falar outras línguas”, João Paulo Lorena e Marluce Paraíso exploram como práticas pedagógicas que emergem no encontro com infâncias dissidentes de gênero e sexualidade produzem o que denominam “pedagogia babélica”, que faz o currículo gaguejar e resistir às normatividades.

O artigo de Silva e Ferraço, “Currículos-andarilhos: cartografias cotidianas da solidão”, introduz o conceito de “currículos-andarilhos”, mapeando práticas cotidianas que se constroem na solidão e na errância, como modos de resistência às formas de controle do sujeito e do currículo. Já o texto de Diogo Bogéa e Marcio Oliveira, “Relacionalidade e afetividade na formação de professores: contribuições espinosistas para abalar o ideal moderno de subjetividade”, propõe uma crítica ao ideal moderno de subjetividade na formação docente, a partir da filosofia espinosista e de uma ontologia relacional e afetiva, abrindo caminho para práticas formativas mais abertas e potentes. Como conjunto, esses artigos inauguram o Dossiê afirmando uma perspectiva que recusa a redução do currículo a um dispositivo de conformação e que, ao contrário, reconhece sua condição de campo sob contínua disputa e invenção. Eles reforçam a centralidade das fantasias, afetos e identificações na constituição das subjetividades escolares e reiteram o compromisso do Dossiê com uma educação que acolha a diferença, a imprevisibilidade e o inacabamento como forças constitutivas do campo curricular.

O segundo bloco de artigos deste Dossiê aprofunda os debates sobre as dinâmicas de regulação e controle que atravessam as políticas e práticas curriculares contemporâneas no Brasil. Em diálogo com a Teoria do Discurso, os estudos críticos de fantasia e as teorias da governamentalidade, esses trabalhos evidenciam como discursos neoliberais e neoconservadores se imbricam nos atuais projetos de reforma educacional, produzindo efeitos potentes sobre os processos de subjetivação e sobre as configurações do currículo.

Os textos que compõem este bloco analisam de modo crítico tanto o modelo clássico do Ensino Médio, como no texto “O ciclo de políticas como perspectiva de análise para a juvenilização da EJA em Lajes/RN”, de Karina Maria da Silva Souza e Marcia Betania de Oliveira, quanto o chamado Novo Ensino Médio - em particular, a política curricular do “Projeto de Vida” - como discutido nos artigos “Subjetivação e Educação: uma análise do Projeto de Vida como estratégia de governamentalidade”, de Adriege Rodrigues e Ana Claudia Rodrigues, e “Vidas projetadas e currículos neoliberais: modos de subjetivação nos livros didáticos de Projeto de Vida”, de Ana Gabriela Vieira, Juliana Segat e Marcio Caetano.

Também problematizam a lógica de accountability e seus impactos sobre práticas e identidades escolares, como apresentado em “Crise e controle? A operação da accountability nas produções curriculares e nos processos de subjetivação”, de Divane Silva, Leandra Pianco da Silva, Viviane Silva e Kátia Cunha, e o avanço das políticas de militarização da Educação Básica, explorado em “Constituição de um discurso fantasmático em torno das escolas cívico-militares e a disputa por uma política curricular conservadora”, de Raphael Gualter Peixoto e Viviane Gualter Peixoto.

Tais investigações iluminam as fantasias de controle, eficiência e mérito que sustentam essas políticas e demonstram como elas produzem subjetividades autogerenciadas e hiperresposabilizáveis, fortemente alinhadas às lógicas do mercado e da moralização social. Como conjunto, este bloco de artigos contribui para uma compreensão aprofundada das formas como os dispositivos de controle curricular se articulam aos processos de subjetivação na contemporaneidade e como, mesmo em meio a tal cenário, persistem fissuras, resistências e práticas que tensionam as tentativas de normalização e homogeneização dos sujeitos.

O terceiro bloco do Dossiê adensa os debates sobre currículo e subjetividade ao explorar, de modo particularmente potente, os embates em torno das sexualidades, das relações de gênero, das fantasias democráticas e dos processos discursivos que atravessam a cultura e as práticas pedagógicas. Os artigos que compõem este bloco são marcados por uma atenção especial às formas como normas e fantasias de reconhecimento (ou de invisibilização) operam na constituição das subjetividades e das identidades nos currículos e nas práticas escolares e culturais.

O artigo “Mundo comum, mundo de ninguém: a aposta em um movimento desconstrutivo da democracia”, de Matheus Reis, Pedro Crespo e Gabriel Silva propõe uma reflexão teórico-conceitual sofisticada sobre as promessas democráticas que permeiam os discursos curriculares e educacionais, apontando para as aporias e limitações dessas fantasias e para a necessidade de uma política curricular aberta ao dissenso e à alteridade. Já “‘É o fim da picada, não é?’: Currículos da educação para as sexualidades em cursos de licenciatura em Ciências Biológicas”, de Cristiano Santos, Vera Machado e Constantina Xavier Filha, analisa os discursos que atravessam a formação docente em Ciências Biológicas no campo da sexualidade, revelando os embates entre forças conservadoras e práticas pedagógicas críticas e afirmativas.

O texto “‘Nem tudo são flores’: (des)construção e resistência de gênero no currículo do enredo de uma quadrilha junina”, de Marcilene Souza e Danilo Araújo de Oliveira, traz uma leitura instigante das pedagogias culturais, mostrando como narrativas encenadas em manifestações populares (como as quadrilhas juninas) constituem currículos não escolares que produzem e tensionam subjetividades e normas de gênero. Em “(Re)invenções curriculares e gingas de gênero e sexualidade em meio aos fantasmas do neoconservadorismo”, Isabella Alves e Anna Luiza Oliveira analisam práticas curriculares insurgentes que emergem na rede estadual de Pernambuco em meio à intensificação de discursos neoconservadores, evidenciando movimentos de reinvenção e resistência por parte de sujeitos e coletivos escolares.

Por fim, o ensaio “Notas de hesitação”, de Thiago Ranniery, propõe uma reflexão pós-crítica e poética sobre as fantasias que atravessam os discursos curriculares sobre sexualidade e diferença, argumentando por uma ética da hesitação, da incerteza e do inacabamento como força disruptiva para responder às lógicas de normalização e controle. Em conjunto, este bloco de artigos amplia e aprofunda as perspectivas do Dossiê ao explorar, com agudeza teórica e sensibilidade política, as tramas de poder, desejo e fantasia que constituem as subjetividades no currículo e nos processos educativos, reforçando o compromisso do Dossiê com uma educação aberta à diferença e atenta às forças que moldam (e desestabilizam) os modos de ser e de existir nos espaços pedagógicos.

O quarto e último bloco deste Dossiê amplia as fronteiras do campo curricular ao incorporar debates sobre branquitude, antirracismo, epistemologias indígenas e negras, e teologias pós/decoloniais, em estreita articulação com os processos de subjetivação e com as disputas simbólicas que atravessam o currículo contemporâneo. Estes artigos oferecem importantes deslocamentos teóricos e políticos, propondo novas maneiras de pensar e de fazer currículo a partir de epistemologias e práticas que contestam e tensionam os horizontes curriculares hegemônicos.

O artigo “‘Entrando com os pés na porta’: branquitude e processos de subjetivação no currículo/ensino de História”, de Marcus Martins e Hiago Nascimento, investiga como a branquitude se mantém invisibilizada no ensino de História e como a crítica explícita a essa formação discursiva é fundamental para processos de subjetivação comprometidos com a equidade racial e com o horizonte democrático. Em “Literatura infantojuvenil e educação antirracista: é (im)possível um currículo contracolonial?”, Kátia Farias, Ivanil Magalhães da Silva e Neuzi Herculina Souza exploram o potencial da literatura infantojuvenil como ferramenta para práticas pedagógicas antirracistas, capazes de tensionar os discursos e práticas coloniais ainda presentes no currículo escolar brasileiro.

O artigo “Identidades indígenas no livro didático: representações e subjetividades”, de Angela Rufino e Luiz Antônio Senna, por sua vez, analisa as representações das identidades indígenas em livros didáticos de Geografia, problematizando os limites e avanços dessas representações e reivindicando um currículo comprometido com a pluralidade cultural e com a superação das fantasias coloniais que ainda operam nos materiais educativos. Em “Ebó onto-epistêmico: modos de aprontar escrevivências na pesquisa em educação”, Iris Verena Oliveira propõe uma epistemologia negra e feminista baseada na escrevivência, que desafia os modelos eurocêntricos de pesquisa e de currículo, e inscreve no campo educacional modos de saber e de existir ancorados na ancestralidade e na experiência encarnada.

Por fim, “Sobre os desafios da educação teológica na América Latina: perspectivas pós/de-coloniais”, de Nicolás Panotto, traz um tema pouco abordado nos debates acadêmicos nos campos da educação e do currículo, mas que ganha uma relevância cada vez maior diante da crescente incidência de debates teológico-políticos e da atuação de lideranças religiosas - sobretudo cristãs - no cenário educacional e nas políticas curriculares. O artigo propõe uma crítica pós/decolonial à educação teológica latino-americana, evidenciando como seus currículos ainda reproduzem epistemologias coloniais e sinalizando caminhos para uma teologia plural, situada e comprometida com as lutas sociais e as demandas por justiça que se constituem na região. Como conjunto, estes artigos expandem de maneira significativa o campo das investigações sobre currículo e subjetividade, abrindo espaço para epistemologias outras, práticas renovadoras e propostas de reinvenção permanente dos modos de ensinar, aprender e pesquisar. Eles reafirmam o compromisso do Dossiê com um currículo que se faça campo de subversão, de invenção e de abertura ao indizível e ao porvir.

4 ACHADOS E NOVAS QUESTÕES LEVANTADAS PELO DOSSIÊ

A diversidade regional, teórica e temática do Dossiê é uma de suas marcas mais expressivas. Os artigos aqui reunidos foram produzidos em diálogo com realidades educacionais das diferentes regiões brasileiras - Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul - e mobilizam uma ampla gama de perspectivas teóricas, incluindo Teoria do Discurso, Psicanálise, filosofias da diferença, estudos de gênero e sexualidade, estudos decoloniais, pedagogias culturais e teorias queer e pós-críticas de currículo. Tal diversidade é também temática: os textos exploram desde as políticas de subjetivação no Novo Ensino Médio até pedagogias culturais em festas juninas, passando pelo ensino de História, Geografia e Biologia, pela literatura infantojuvenil, a formação docente, os currículos de Educação Infantil, a educação teológica e a presença da branquitude e das identidades indígenas nos materiais didáticos, entre outros.

Essa pluralidade contribui para ampliar e aprofundar os debates sobre as relações entre currículo e subjetividade, abrindo espaço para novas questões e perspectivas que atravessam o campo curricular contemporâneo. Nos três subtópicos a seguir, sintetizamos algumas das principais contribuições e provocações que emergem do conjunto de artigos que compõem o Dossiê.

4.1 Confluências e divergências entre as concepções de subjetividade e currículo

Os artigos do Dossiê compartilham, de modo geral, uma visão do currículo como campo discursivo marcado por disputas políticas, afetivas e simbólicas, em que se negociam a (des/re)articulação de identidades e se produzem processos de subjetivação. Em sua maioria, recusam frontalmente concepções essencialistas ou deterministas tanto de currículo quanto de sujeito, optando por abordagens que enfatizam a contingência, a historicidade e a abertura constitutiva dos processos sociais e subjetivos.

Há, contudo, nuances e inflexões distintas entre os textos. Em alguns artigos, como os de Silva e Paraíso, como também Lopes e Carvalho, Silva e Ferraço, predomina uma inspiração na filosofia da diferença de Deleuze e Guattari em diálogo com os estudos do cotidiano (Alves, 2017; Ferraço; Alves, 2015), que privilegia concepções de currículo como processo rizomático, errante e aberto à invenção. Já em outros, como Peixoto e Peixoto, Rodrigues e Rodrigues, Vieira et al., o foco é dirigido para as estratégias de governamentalidade e os modos como discursos neoliberais e neoconservadores buscam controlar os processos de subjetivação, em alguns casos, em consonância com as contribuições da Teoria do Discurso, em diálogo com a Psicanálise e os estudos da Fantasia (Glynos; Oliveira; Burity, 2019; Clarke, 2012; Glynos; Stavrakakis, 2008; Glynos; Howarth, 2007).

Em textos como os de Farias et al., Rufino e Senna e Iris Verena Oliveira, o currículo aparece como espaço de enfrentamento do epistemicídio e do racismo estrutural, enfatizando a necessidade de abordagens antirracistas e/ou decoloniais que desestabilizem os paradigmas eurocêntricos. Já no artigo de Nicolás Panotto, a discussão se desloca para o campo teológico, propondo uma reflexão crítica sobre as heranças coloniais e os desafios de uma educação teológica cristã pós/de-colonial (Pui-lan, 2021; Panotto, 2020).

Essas confluências e divergências enriquecem o campo, mostrando que não há uma única concepção de subjetividade ou de currículo que domine os estudos contemporâneos. Ao contrário, o que se delineia é um campo plural, em que diferentes perspectivas teóricas dialogam, tensionam-se e se transformam na tarefa de responder aos processos de subjetivação nas práticas curriculares.

4.2 Tensões, complementaridades e possíveis articulações

Um eixo central que atravessa o Dossiê diz respeito às tentativas de controle e regulação das subjetividades operadas pelas políticas curriculares contemporâneas. Diversos artigos analisam como discursos neoliberais e neoconservadores, articulados a dispositivos como accountability (Silva et al.), militarização (Peixoto e Peixoto), BNCC e Novo Ensino Médio (Souza e Oliveira; Rodrigues e Rodrigues; Vieira et al.), atuam na produção de subjetividades adaptáveis, atomizadas e moralmente normatizadas. Por outro lado, um conjunto significativo de artigos explora dinâmicas de resistência, fissura e reinvenção. É o caso, por exemplo, das práticas curriculares insurgentes mapeadas por Alves e Oliveira, das experiências de reinvenção cultural em festas juninas analisadas por Souza e Oliveira, ou ainda das práticas pedagógicas antirracistas e contracoloniais, discutidas em Farias et al. e Iris Verena Oliveira.

As tensões entre esses dois conjuntos de textos são produtivas e apontam para a complexidade das dinâmicas curriculares. É possível indicar que, mesmo em contextos marcados por tentativas de controle, o currículo permanece um campo em encontro e jogo simbólico e performático, em que resistências e invenções continuam a emergir. Essa percepção convida a uma abordagem não reducionista das políticas curriculares, atenta tanto aos seus efeitos de controle quanto às suas fissuras e possibilidades de subversão.

4.3 Estudos da fantasia, afeto e dinâmicas de identificação

Ganha destaque no conjunto de artigos reunidos neste Dossiê a incorporação, em diversos textos, das contribuições dos estudos da fantasia, a partir do diálogo entre Teoria do Discurso e Psicanálise Lacaniana, e das discussões sobre afetos e identificações no campo curricular. Esses trabalhos demonstram como as fantasias sociais e os investimentos afetivos desempenham um papel central na fixação - sempre parcial e precária - dos sentidos curriculares e na constituição das subjetividades. Ao trazer para o primeiro plano as dimensões inconscientes e afetivas das políticas curriculares, esses estudos oferecem novas ferramentas investigativas e performáticas para compreender tanto as adesões quanto as resistências que emergem no campo.

Além disso, como sugerem os textos de Panotto, Iris Verena Oliveira e Thiago Ranniery, a articulação entre fantasia, afetos, imaginação e dinâmicas de identificação abre caminhos para pensar também os debates teológico-políticos e as questões meta-teóricas que atravessam o campo curricular contemporâneo. Tais abordagens tensionam os limites das epistemologias tradicionais e convidam a imaginar novas formas de pesquisar, ensinar e fazer currículo (Ranniery; Medeiros, 2021).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Dossiê “Subjetividades e subjetivações que (se) (des/re)fazem (n)o currículo: fantasias, afetos, identificações”, que ora apresentamos, constitui uma intervenção teórica e política no cenário contemporâneo das políticas e práticas curriculares no Brasil e na América Latina. Os dezenove artigos que o compõem foram produzidos em diálogo com realidades educacionais diversas, articulando aportes teóricos consistentes com práticas de pesquisa e intervenção situadas, e oferecendo uma cartografia rica e plural das relações entre currículo e subjetividade no contexto das disputas políticas que marcam o campo educacional brasileiro.

Em um momento de avanço das lógicas neoliberais e neoconservadoras sobre as políticas públicas de educação - cujos efeitos se manifestam de modo incisivo em reformas como o Novo Ensino Médio, nas estratégias de responsabilização docente (accountability), na militarização de escolas, na ênfase no empreendedorismo e na promoção de discursos moralizantes sobre família e sexualidade - este Dossiê oferece contribuições valiosas para os debates atuais ao reafirmar o currículo como um terreno de disputa, aberto e agonístico, onde se produzem e se tensionam subjetividades e identificações.

Entre as principais características do conjunto de trabalhos aqui reunidos, destaca-se, em primeiro lugar, a centralidade atribuída aos processos de subjetivação na análise das políticas e práticas curriculares. Os artigos não reduzem o currículo a um mero artefato técnico, mas o tratam como um espaço de produção de sentidos, de mobilização de afetos e de negociação e dinamização de identidades. Essa abordagem é fundamental para compreender como, por meio do currículo, operam-se hoje processos complexos de regulação, resistência e invenção de subjetividades.

Em segundo lugar, o Dossiê evidencia como as políticas educacionais contemporâneas no Brasil vêm sendo atravessadas por novas e velhas formas de controle, disciplinamento e normatização das subjetividades. As análises aqui reunidas mostram como discursos neoliberais e neoconservadores vêm sendo articulados nas reformas curriculares, nos dispositivos de avaliação e nos materiais didáticos, promovendo modelos de sujeito autogerenciado, resiliente, moralmente normativo e produtivamente adequado às demandas do capitalismo contemporâneo. A responsabilização individual, a culpabilização das juventudes populares, a marginalização de diferenças étnico-raciais e de gênero, e a tentativa de fixação de identidades normalizadas emergem como elementos centrais nesse quadro.

Contudo, o Dossiê também demonstra, com grande riqueza, que tais processos de controle estão longe de ser totalizantes. Os artigos revelam as traições, fissuras, resistências e reconfigurações que se produzem nos cotidianos das práticas curriculares e pedagógicas. Narrativas de reinvenção curricular, pedagogias culturais insurgentes, práticas antirracistas e decoloniais, e experiências de subversão e contestação das normatividades revelam a vitalidade das resistências que emergem nas escolas, nos materiais didáticos, nas práticas docentes e nos próprios corpos e afetos que habitam os espaços educativos. Assim, o Dossiê contribui para uma visão não determinista do campo educacional, reafirmando o currículo como um espaço contingente, onde o antagonismo e o dissenso são constitutivos e geradores de novas possibilidades.

Outra contribuição importante reside na ampliação dos horizontes teóricos dos estudos de currículo no Brasil. Os artigos mobilizam, de modo criativo e consistente, aportes da Teoria do Discurso, dos Estudos Críticos de Fantasia, das filosofias da diferença, dos estudos decoloniais, das pedagogias culturais e das teorias queer e pós-críticas de currículo. Em particular, destaca-se a crescente incorporação das reflexões sobre fantasia, investimento afetivo e identificação como recursos analíticos fundamentais para rastrear e interpelar a eficácia simbólica das políticas curriculares. Ao colocar em primeiro plano as dimensões afetivas e inconscientes dos discursos educacionais, o Dossiê ajuda a renovar o campo, oferecendo novos instrumentos para analisar as adesões e resistências que configuram as práticas curriculares no presente.

No cenário brasileiro atual, marcado por um recrudescimento das lógicas de governamentalidade neoliberal e por uma forte ofensiva neoconservadora, que busca controlar os conteúdos curriculares e excluir saberes e identidades dissidentes, as reflexões reunidas neste Dossiê adquirem especial relevância. Elas oferecem elementos para a crítica das promessas vazias de um currículo redentor, para o enfrentamento das fantasias de controle e pureza que alimentam os projetos neoconservadores e para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a pluralidade, a democracia e o reconhecimento das diferenças.

Em um momento em que reformas como a BNCC, a BNC-Formação e o Novo Ensino Médio promovem um esvaziamento das possibilidades formativas do currículo e acentuam a marginalização de sujeitos e saberes historicamente subalternizados, o Dossiê afirma a urgência de uma abordagem crítico-agonística e afetivamente engajada com os processos de (des)subjetivação que se (des/re)fazem nas escolas. Ao fazê-lo, contribui não apenas para o avanço do campo acadêmico dos estudos de currículo, mas também para fortalecer o compromisso ético-político com uma educação capaz de resistir às forças de normalização e de abrir-se a subjetividades e futuros ainda não imaginados.

Mais do que nunca, é necessário afirmar que o currículo é um campo de disputas discursivas sempre abertas, que envolve práticas que não se encerram na materialidade dos documentos oficiais ou dos livros didáticos, mas atravessam os corpos, os afetos e os modos de ser que se produzem na realidade escolar. Ao reunir um conjunto de investigações que assumem essa perspectiva, o Dossiê oferece ao campo e ao debate público brasileiro uma contribuição vigorosa e atual, reafirmando que resistir, inventar e reinventar o currículo é, hoje, uma tarefa imprescindível.

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Recebido: 01 de Julho de 2025; Aceito: 04 de Julho de 2025; Publicado: 08 de Julho de 2025

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