SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23Gestão democrática e garantia do direito à educação na Região Sul do Brasil: repercussões da pandemiaInternacionalização na Educação Básica no Brasil: marcos conceituais índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Revista e-Curriculum

versão On-line ISSN 1809-3876

e-Curriculum vol.23  São Paulo  2025  Epub 20-Maio-2025

https://doi.org/10.23925/1809-3876.2025v23e61180 

Artigos

A disciplina de História da Educação no curso de Pedagogia da UEL (2005-2018)

The discipline of History of Education in the Pedagogy course at UEL (2005-2018)

La asignatura de Historia de la Educación en el curso de Pedagogía de la UEL (2005-2018)

i Doutor em Educação/FCLAr-Unesp. Docente do PPEdu/UEL. PQ-2/CNPq. E-mail: tony@uel.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-3057-1157.

ii Licenciada em Pedagogia/UEL. Professora da Educação Básica. E-mail: gabryella.torres@uel.br - ORCID iD: https://orcid.org/0009-0005-1920-9036.

iii Doutor em Educação/PUC-SP. Docente do PPEdu/UEL. E-mail: celsoluizjr@uel.br ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-5227-6637.


Resumo

O objetivo deste artigo foi analisar a organização da disciplina de História da Educação no curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) no período de 2005 a 2018. Teve como aporte a pesquisa em história (Luca, 2021) e em história das disciplinas escolares (Chervel, 1990; Viñao Frago, 2008; Warde, 1998). Como fonte empírica, assumiram-se os projetos pedagógicos e os programas de ensino do curso de Pedagogia da UEL aprovados entre 2005 e 2018, os quais justificam a periodização histórica por ainda não terem sido analisados pela historiografia da educação. Por um lado, foi possível evidenciar a redução da carga horária da disciplina na organização curricular; por outro, houve o aumento da quantidade de saberes a serem ministrados. A disciplina tem avançado na proposição de seus conteúdos programáticos e de abordagens historiográficas que desafiam docentes e discentes a pensarem em um ensino com historicidade.

Palavras-chave: história da educação; disciplina escolar; projetos pedagógicos; formação de professores; universidade

Abstract

The objective of this article is to analyze the organization of the History of Education discipline in the Pedagogy course at the State University of Londrina (UEL) from 2005 to 2018. The study is based on research in history (Luca, 2021) and the history of school subjects (Chervel, 1990; Viñao Frago, 2008; Warde, 1998). As empirical sources, the pedagogical projects and teaching programs of the Pedagogy course at UEL, approved between 2005 and 2018, were examined, justifying the historical periodization as they had not yet been analyzed by the historiography of education. On the one hand, it was possible to observe a reduction in the discipline’s workload within the curricular organization; on the other hand, there was an increase in the amount of content to be taught. The discipline has advanced in the development of its syllabus and historiographical approaches, challenging both faculty and students to reflect on teaching with historicity.

Keywords: history of education; school subject; pedagogical projects; teacher training; university

Resumen

El objetivo de este artículo fue analizar la organización de la asignatura de Historia de la Educación en el curso de Pedagogía de la Universidad Estatal de Londrina (UEL) en el período de 2005 a 2018. Se basó en la investigación en historia (Luca, 2021) y en la historia de las disciplinas escolares (Chervel, 1990; Viñao Frago, 2008; Warde, 1998). Como fuente empírica, se examinaron los proyectos pedagógicos y los programas de enseñanza del curso de Pedagogía de la UEL aprobados entre 2005 y 2018, los cuales justifican la periodización histórica, ya que aún no habían sido analizados por la historiografía de la educación. Por un lado, fue posible observar la reducción de la carga horaria de la asignatura en la organización curricular; por otro, hubo un aumento en la cantidad de saberes a ser impartidos. La asignatura ha avanzado en la propuesta de sus contenidos programáticos y enfoques historiográficos, desafiando a docentes y estudiantes a reflexionar sobre la enseñanza con historicidad.

Palabras clave: historia de la educación; disciplina escolar; proyectos pedagógicos; formación de professores; universidad

1 INTRODUÇÃO1

A educação escolar no Brasil, ao longo de sua história, vivenciou muitas mudanças no contexto do ensino e das instituições ligadas às estruturas das escolas, aos saberes e práticas, aos currículos, às metodologias, ao papel docente, às políticas educacionais. Essas questões são conhecimentos históricos e são estudadas durante a formação de professores nos cursos de licenciaturas nas universidades, em particular nos cursos de Pedagogia.

Considerando que é pela história que nós nos formamos como homens; que é por ela que nós nos conhecemos e acendemos à plena consciência do que somos; que pelo estudo do que fomos no passado descobrimos ao mesmo tempo o que somos no presente e o que podemos vir a ser no futuro, o conhecimento histórico emerge como uma necessidade vital de todo ser humano. Tendo em vista que a realidade humana de cada indivíduo se constrói na relação com os outros e se desenvolve no tempo, a memória se configura como uma faculdade específica e essencialmente humana e atinge sua máxima expressão quando se manifesta como memória histórica (Saviani, 2008, p. 151).

Partindo do pressuposto que a história potencializa a formação humana para o indivíduo pensar crítica e historicamente, o estudo sobre a História da Educação e suas possibilidades de ensino na formação docente é fundamental. Esse debate torna-se ainda mais relevante ao considerar que, nos últimos tempos, os currículos formadores vêm sofrendo diversas alterações, principalmente acerca da natureza dos conteúdos ministrados, da carga horária, da creditação da extensão, da prática como componente curricular, entre outras. Nesse sentido, este artigo inscreve-se no debate sobre o problema do ensino de História da Educação na formação de professores pedagogos e na produção de conhecimento sobre tal disciplina, em diferentes instituições de Ensino Superior no Brasil, empreendida por muitos pesquisadores, entre eles Nunes (2006), Stephanou (2006), Tambara (2006), Monarcha (2007), Gatti Jr (2008), Carvalho e Gatti Jr (2011), Queiroz (2011), Borges e Gatti Jr (2012), Favaro (2015), Acosta (2017), Costa (2019) e Campos (2020).

A proposta consiste em analisar a organização da disciplina de História da Educação em uma realidade específica de formação de professores - o curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL, 2005-2018). O período histórico justifica-se em razão de no ano de 2005 ter sido aprovado um projeto pedagógico de curso ainda não analisado pela historiografia da educação (Favaro, 2015) e 2018 é o marco temporal de aprovação do último projeto pedagógico ainda em vigência no curso de Pedagogia da UEL, até o fechamento e publicação desta pesquisa.

Pressupõe que a História da Educação é chave para que o futuro docente possa atuar de forma significativa e efetiva na realidade escolar, utilizando os conhecimentos adquiridos no curso e, principalmente, para aguçar senso crítico e de historicidade sobre os fenômenos educativos em sociedades. Assim sendo, a análise recaiu sobre três elementos da organização da disciplina de História da Educação no currículo formador do curso de Pedagogia da UEL: 1) as denominações, carga horária e percentual de sua presença nos projetos pedagógicos de curso (PPCs); 2) as ementas e conteúdos programáticos; e 3) a relação entre o ensino de História da Educação e os objetivos do curso formador.

A pesquisa foi realizada considerando a perspectiva de documentos históricos (Luca, 2021). O documento histórico, conforme Le Goff (2003), é entendido como um monumento, um elemento do passado que proporciona aos sujeitos do presente fazerem análises e compreenderem a formação, não só da sociedade, mas da construção do conhecimento, isso sem neutralidade. O passado analisado está diretamente ligado à produção dos documentos e memórias disponíveis e, assim, as perguntas a serem feitas ao passado são fundamentais para a interação entre os documentos históricos e o historiador. Assim, a visão do pesquisador sobre o objeto histórico interfere diretamente no que será produzido e reproduzido, já que o documento é referência sobre os aspectos sociais, políticos, culturais, econômicos e educacionais da época que foi escrito. Desse modo, o lugar social do historiador interfere na heurística e o mesmo documento pode ser interpretado de diversas maneiras e sentidos.

[...] se o passado é reconstruído (e não revivido ou resgatado), compreende-se que os resultados dependem das perguntas que lhe forem dirigidas e que estas, por sua vez, relacionam-se com o momento vivido pelo historiador, os interesses de sua época e também com o instrumental analítico que ele tem a sua disposição (Luca, 2021, p. 21).

Para a prática da pesquisa, assumimos como fonte histórica os projetos pedagógicos do curso (PPCs) de Pedagogia da UEL aprovados entre os anos de 2005 e 2018 e também os programas de atividades acadêmicas de quatro disciplinas de História da Educação ofertadas no ano de 2022. A escolha se deu por entender que os PPCs e programas de ensino, seguindo as orientações de Chervel (1990), Warde (1998) e Viñao Frago (2008), podem revelar a presença, a organização e o funcionamento das disciplinas de História da Educação para a formação do pedagogo na UEL. Os documentos pesquisados estão disponíveis digitalmente no site da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade. Contudo, reconhecemos um limite, pois o curso de Pedagogia da UEL antecede o ano de 2005, iniciou suas atividades em 1962 na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Londrina e foi encampado pela UEL em 1971. A tese de doutorado de Favaro (2015), ao analisar o ensino de História da Educação nas universidades paranaenses, aborda boa parte do período histórico entre 1962 e 2000, no que diz respeito ao curso de Pedagogia da UEL. Então delimitamos a periodização histórica da pesquisa entre 2005 e 2018. Este último ano foi quando se aprovou o PPC de Pedagogia ainda vigente na instituição.

A seguir, este artigo se estrutura apresentando uma discussão sobre o passado do ensino de História da Educação no Brasil, particularmente nas universidades estaduais paranaenses, e, depois, aprofunda sobre a organização das disciplinas de História da Educação no curso de Pedagogia da UEL (2005-2018).

2 NOTAS SOBRE A HISTÓRIA DO ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: O CASO DO PARANÁ

Registros com algum nível de sistematização, em relação à História da Educação no Brasil, têm início no período marcado pela vinda dos jesuítas, na missão colonizadora portuguesa, para a divulgação da doutrina cristã por contato e convencimento. As aulas eram realizadas através de saudações lacrimosas, mímicas, discursos e presentes. Quando os indígenas apresentaram resistência a essa imposição, os jesuítas mudaram a abordagem, e, com isso, implementaram os aldeamentos de adultos e recolhimento das crianças. Mais tarde, a Companhia de Jesus instalou um colégio para os filhos dos colonos, patrocinado pelo redizima. Com o passar do tempo, durante as reformas pombalinas no século XVIII, Marquês de Pombal propôs uma escola com princípios iluministas que priorizavam a razão e a cisão do Estado com a Igreja. Nesses contextos, têm-se os primeiros registros da docência em escolas no Brasil. Naquela época, não existia um curso específico para preparação da docência. Logo, os primeiros professores eram, no geral, aqueles que se interessavam por ensinar e podiam comprovar seu letramento, para que assim, o Estado lhes concedesse a licenciatura (Hilsdorf, 2002).

No Brasil os cursos de formação de professores, sobretudo institucionalizados no modelo de escolas normais, foram fenômenos do século XIX. A primeira Escola Normal foi instalada em 1835, em Niterói, sob a égide das ideias liberais e das práticas conservadoras (Villela, 2008). Especificamente sobre a disciplina de História da Educação, Campos (2020) afirma que ela foi incluída como disciplina na formação dos docentes no século XIX na Europa, chegando no Brasil na década de 1920 (via escola normal) e, mais precisamente, em 1939 cuja presença obrigatória se reporta à legislação que estabeleceu o curso de Pedagogia.

Conforme Monarcha (2007, p. 125), “a prática de interpretar e reinterpretar o passado, visando a conferir um sentido à formação social, intensificou-se nos anos de 1930, aprofundando-se com isso a institucionalização”. Entre os anos de 1930 e 1950, exerceu-se um esforço relativamente denso para instituir conteúdos de História da Educação Geral e do Brasil nos currículos acadêmicos de formação de professores nas escolas normais, institutos de educação e faculdades de filosofia. Ascendiam os estudos históricos e sociológicos no campo da Educação, favorecendo sobremaneira o surgimento de uma consciência histórica do passado cultural e educacional brasileiro.

Com relação às características desse ensino, Favaro (2015) explica que, em geral, os cursos de formação de professores seguiram a ordem cronológica dos acontecimentos educacionais, de forma linear, desde a Antiguidade até a Contemporaneidade, observando aspectos da história brasileira e da história geral. Deve-se indagar como se encontra mais recentemente o ensino de História da Educação nos cursos de formação de professores em Pedagogia.

A pesquisa de Ana Luiza Jesus da Costa (2019), intitulada Porque vocês não sabem do lixo ocidental. Ensino de História da Educação e a questão do outro, analisou as ementas vigentes em 2017 dos cursos de História da Educação para a formação em Pedagogia da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A autora constatou que no caso da Unesp, instituição multicampi, em Araraquara a disciplina é dividida em três cursos:

[...] o primeiro dedicado à História da infância, da família e da escola; o segundo aborda as instituições educativas stricto sensu - universidades, colégios e escolas elementares e o terceiro é mais voltado ao estímulo à pesquisa em História da Educação, focalizando os séculos XIX e XX no Brasil (Costa, 2019, p. 313).

Já a Unesp de Bauru divide a disciplina em dois cursos: História da Educação e História da Educação Brasileira. A de Presidente Prudente também divide em duas disciplinas. A primeira delas, intitulada “História da Educação I”, aborda características gerais da disciplina, como o conceito de educação e como se deu a produção do conhecimento. A segunda aborda a mesma proposta, como um aprofundamento, reforço ou revisão dos saberes. A Unesp de Rio Claro separa o curso em duas ofertas: História da Educação Antiga e Medieval e História da Educação Moderna e Contemporânea. O curso de Pedagogia da Unicamp possui três disciplinas obrigatórias de História da Educação que cruzam os eixos cronológicos e espaciais. E, na Feusp há duas disciplinas obrigatórias em História da Educação I (geral) e História da Educação II (brasileira).

Costa (2019) considera que o ensino da disciplina de História da Educação na maioria das universidades estaduais paulistas faz a divisão entre a História da Educação Brasileira e a História da Educação Geral, focando principalmente no que descende da Europa Ocidental. Esse fator é resultado do predomínio de autores europeus e norte-americanos como referências teóricas que têm como consequência o silenciamento de outras narrativas históricas possíveis de serem utilizadas em sala de aula. Para a autora, ao romper com esse olhar europeizado e garantir que outras culturas e perspectivas históricas sejam trabalhadas em sala de aula, se torna possível expandir o pensamento histórico educacional.

No que diz respeito à realidade das universidades paranaenses, Favaro (2015) analisou os programas da disciplina História da Educação do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no período de 1960 a 1990. A autora também apresentou alguns dados sobre a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).

Na UERJ, por meio dos documentos analisados a partir de 1970, a disciplina foi dividida em três denominações: História da Educação I, que acolhe desde a educação primitiva até o final da Idade Média, incluindo também o conteúdo de historiografia; História da Educação II, que retrata a educação clássica e a história da educação até o século XIX; e a disciplina História da Educação III, que contempla a educação no Brasil, da Colônia à República das primeiras décadas do século XX. Já na UFPEL, que também tem uma divisão em três denominações, a disciplina de História da Educação e Cultura I abrange o trabalho da educação primitiva até o século XVI, focando na organização escolar e nas ideias pedagógicas. A segunda, denominada História da Educação e Cultura II, faz um recorte temporal do século XVII ao século XX, tratando dos movimentos sociais e políticos. E a disciplina de História da Educação e da Cultura III aborda a educação no Rio Grande do Sul e do Brasil, da Colônia ao século XX.

No que diz respeito às universidades paranaenses, foi constatado (Favaro, 2015) que na UEM, desde a criação do curso em 1973, a disciplina de História da Educação já estava incluída no currículo, sendo dividida em três: História da Educação I, que trata de conteúdos desde a Antiguidade até a Idade Média; a segunda oferta aborda como as relações materiais e sociais interferiram na educação moderna; e a terceira disciplina propõe reflexões sobre o modo de produção capitalista e a História da Educação no Brasil. A UEPG dividiu os conteúdos em quatro disciplinas: História da Educação I, História da Educação II, História da Educação III e História da Educação IV. Não foi especificado exatamente quais conteúdos foram trabalhados na História da Educação I e III. A História da Educação II discute a atuação dos jesuítas no Brasil, a educação brasileira na Colônia, Império e República. Já em História da Educação IV, os conteúdos trabalhados eram: educação nos países de terceiro mundo, sem menção ao Brasil e já considerando o contexto do século XX. Ainda sobre a História da Educação na UEPG, Campos (2020) afirma que ela alterou as suas nomenclaturas e cargas horárias entre os anos de 1963 e 2012, haja vista o debate e confronto em torno das concepções de formação geral e profissional envolvendo cursos formadores para docência.

Em relação à UEL, Favaro (2015) evidenciou que o curso de licenciatura em Pedagogia foi criado em 1960, com início das atividades em 1962. A autora narra que existem três principais fases do curso: na primeira, no período de 1962 a 1972, o curso de Pedagogia apresentou uma formação única, com duração de quatro anos. Nesse período, a disciplina de História da Educação aparecia na 2° e 3° séries, apresentando variação na carga horária de 50 horas a 125 horas, a depender do ano. Os conteúdos ministrados iam desde a educação primitiva ou educação clássica até o final da Idade Média, incluindo questões sobre a História da Educação Brasileira, da Colônia ao século XX. Foi dada maior atenção à História da Educação Geral da Antiguidade Clássica à Modernidade, mas, até mesmo saberes referentes à educação paranaense foram contemplados.

A segunda fase corresponde ao período entre 1973 e 1991, quando ocorreu uma mudança para o sistema de matrícula por disciplina. Nesse caso, era possível concluir a formação com habilitações isoladas. Dessa forma, o curso disponibilizou uma formação em áreas específicas. De acordo com Favaro (2015, p. 113), “a partir de 1973, foram iniciadas as habilitações de magistério para o 2º grau, orientação educacional e supervisão escolar, no formato de habilitações isoladas”. Os conteúdos de História da Educação foram organizados em três ofertas obrigatórias: História da Educação I, que trabalhava temas da Antiguidade Clássica aos movimentos das reformas religiosas dos quinhentos; História da Educação II, que envolvia saberes sobre as experiências educativas do século XVII ao século XX; e, por fim, História da Educação III, na qual se concentraram as ideias pedagógicas no contexto geral com abrangência dos séculos XVII ao XX, e a organização da educação no Brasil do século XVI ao XX. Salienta que de 1982 a 1989, o ensino de História da Educação Brasileira focava nos períodos do século XVI ao XX. A partir da década de 1990, os conteúdos de História da Educação foram divididos em duas disciplinas: História da Educação I, que ensinava saberes envolvendo a temporalidade desde a Antiguidade ao século XX, tratando de conteúdos da História da Educação Geral e da Educação Brasileira da Colônia ao “Estado Independente”; e História da Educação II, que retratava a realidade brasileira, desde a educação na 1ª República até a década de 1990, discutindo sobre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB de 1996.

Sobre as disciplinas constituintes do currículo do curso de Pedagogia da UEL, pode-se afirmar que elas seguiram a formatação dos cursos de Pedagogia no Brasil, proposta em 1939, que inclui as disciplinas de História da Educação, Filosofia da Educação, Sociologia da Educação, Psicologia Educacional, Biologia, Administração Escolar, Matemática e Estatística, Educação Comparada. Para Favaro (2015, p. 116), “a aproximação teórico-metodológica entre História e a História da Educação se deu mais recentemente, com a ampliação das pesquisas em História da Educação” a considerar os aportes da nova história, sobretudo após a década de 1980 e início do século XX.

3 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NOS PPC`S DE PEDAGOGIA DA UEL (2005-2018)

Ao pesquisar sobre a disciplina de História da Educação nos projetos pedagógicos do curso (PPCs) de Pedagogia da UEL (2005-2018), foi possível observar quais mudanças ocorreram no currículo ao longo dos anos. As mudanças dizem respeito à carga horária, seriação, ementas e quantidade de disciplinas ofertadas.

Em termos de carga horária didática, observou-se que as disciplinas de História de Educação têm perdido espaço a cada atualização dos projetos pedagógicos do curso. Para calcular a presença da disciplina no curso, foi feita a somatória de todas as disciplinas da área de História da Educação. Depois de saber essa carga horária, foi feita a comparação com a carga horária total do currículo do curso, para, assim, chegar ao gráfico apresentado a seguir:

Fonte: UEL (2005; 2006; 2009; 2018). Elaborado pelos autores (2023).

Gráfico 1 Percentual da presença da disciplina de História da Educação nos PPCs de Pedagogia da UEL (2005-2018) 

O currículo que ofereceu uma disciplina optativa na área de História da Educação foi o de 2006. De acordo com os parâmetros gerais do curso, percebeu-se que a tendência é a diminuição percentual da carga horária das disciplinas de História da Educação nos PPCs. A consequência disso para a formação do pedagogo é a proposta de um ensino cada vez mais fragmentado, focado principalmente na formação prática e no exercício da docência, deixando de priorizar a leitura de mundo e da realidade do ensino no Brasil com relação aos aspectos históricos e, mais do que isso, deixa de priorizar as áreas de pesquisa e extensão da área específica em discussão. Ainda, entende-se que a disciplina de História da Educação é capaz de não só desenvolver o senso crítico do sujeito que a estuda, mas fornece subsídios para analisar os conteúdos estudados no curso e as práticas docentes observadas em sala de aula considerando a historicidade dos fenômenos.

A descrição do acontecimento histórico e sua interpretação permitiria ao profissional da educação um olhar mais elaborado sobre o acontecimento educativo, sobre a escola, sobre sua profissão, desnaturalizando as explicações simples e apressadas. Tal condição pode se constituir em um dos elementos necessários para provocar uma alteração no trabalho pedagógico. Considerando as características da História da Educação, pode-se afirmar que sua prática educativa poderia mobilizar um rigoroso trabalho de conhecimento histórico e um apurado senso crítico para análise da realidade educativa, indispensáveis à ação do professor / pedagogo (Favaro, 2015, p. 230).

Os métodos utilizados pelos docentes, a concepção da relação de professor-aluno e as estruturas escolares são dimensões que podem ser analisadas pelo estudante em formação de professor. O conhecimento histórico e o pensar historicamente são bases valiosas para essa formação. Por essa razão, a diminuição da carga horária da disciplina no curso é prejudicial.

Quadro 1 Carga horária total de História da Educação no Curso de Pedagogia da UEL (2005-2018) 

Projetos pedagógicos Três disciplinas Quatro disciplinas Disciplina optativa Carga horária total do curso Carga horária total das disciplinas de HE
2005 X 3.430 horas 340 horas
2006 X X 3.364 horas 204 horas sem a disciplina optativa.
272 horas com a disciplina optativa.
2009 X 3.244 horas 240 horas
2018 X 3.275 horas 225 horas

Fonte: UEL (2005; 2006; 2009; 2018). Elaborado pelos autores (2023)

No ano de 2005, a História da Educação foi dividida em três disciplinas, denominadas: História da Educação, História da Educação Brasileira e História da Formação de Professores. As duas primeiras disciplinas foram distribuídas respectivamente na primeira e na segunda séries do currículo. A disciplina História da Formação de Professores estava presente na quarta série do curso. A carga horária total da soma dessas disciplinas era de 340 horas.

No ano de 2006, a divisão da carga horária foi feita em quatro disciplinas, sendo uma delas optativa: História da Educação I, História da Educação II, História da Educação III e Tópicos Especiais em História da Educação (optativa). As matérias obrigatórias se dividiram em uma para cada ano do curso. Nesse projeto pedagógico, a carga horária total foi de 272 horas, incluindo a disciplina optativa, e 204 horas sem a optativa.

Em 2009, a História da Educação foi dividida em quatro disciplinas. A primeira série era composta pela disciplina História da Educação: surgimento da escola moderna, a segunda série contemplava a disciplina História da Educação Brasileira: séculos XVIII e XIX, a terceira série abordava a História da Educação Brasileira: século XX, e a quinta série contemplava a disciplina de Tópicos Especiais em História da Educação-A. A soma das disciplinas resultou na carga horária de 240 horas.

Já em 2018, a História da Educação foi dividida em quatro disciplinas: História da Educação e a Produção da Escola Moderna (no primeiro semestre do curso); História da Educação Brasileira da Colônia ao Império (no quinto semestre); História da Educação Brasileira da Segunda Metade do Século XIX ao Final da 1ª República (no sexto semestre); e História da Educação Brasileira da Era Vargas à Contemporaneidade (no sétimo semestre). A carga horária total de História da Educação no currículo foi de 225 horas.

Percebe-se que na maioria dos projetos pedagógicos a disciplina esteve distribuída de forma que sua presença é constatada em pelo menos três anos do curso. Já no projeto pedagógico de 2018 tem-se espaços entre as disciplinas de História da Educação, pois a primeira delas é ministrada no semestre de ingresso dos estudantes no curso e as próximas ofertas estão previstas para o quinto e o sexto semestres. A distância entre elas é preocupante, porque as disciplinas de História da Educação possibilitam na formação do professor pedagogo uma dimensão processual, indicando continuidades e mudanças dos fenômenos educativos. Assim, seria prejudicial ao ensino-aprendizagem discente ter um intervalo de três semestres para depois voltar a ter aulas de História da Educação.

Quando se faz propostas educacionais, é necessário que se conheça toda a História percorrida até nossos dias, para que se crie a partir dos resultados dos trabalhos que foram desenvolvidos até o presente, para que os erros cometidos não se repitam, e os aceitos de outrora sirvam de base para que se amadureçam as propostas educacionais. Não se pode ignorar a bagagem educacional que o tempo nos legou, pois, se assim o fizermos, estaremos regredindo historicamente (Ribeiro, 1993, p. 28).

É pertinente considerar as disciplinas de História da Educação do curso de Pedagogia da UEL com presenças mais contínuas no currículo, pois elas são bases e fundamentos para a produção de outros saberes formativos a serem pensados historicamente durante a formação de professores.

Com relação à divisão do conteúdo didático das disciplinas:

[...] a História da Educação programada para os cursos de formação de professores assumiu características que privilegiaram a organização cronológica dos acontecimentos educacionais e/ou escolares, em certa medida numa apresentação linear, considerando um arco temporal amplo, da antiguidade à contemporaneidade (século XX), trabalhando tanto a História da Educação Geral, quanto a História da Educação Brasileira (Favaro, 2015, p. 45).

No curso de Pedagogia da UEL, os saberes de História da Educação, segundo as ementas das disciplinas, estão distribuídos em grandes blocos temporais. O currículo mais recente contempla essencialmente a Modernidade e a Contemporaneidade, conforme apresentado abaixo.

Quadro 2 Código, nome, ementa e carga horária das disciplinas (UEL-2018) 

1EDU036 - História da Educação e a Produção da Escola Moderna: o processo histórico de sistematização da educação e da escola no ocidente do século XV ao XIX, com ênfase no processo de institucionalização da educação. Reorganização da sociedade, escola e Direitos Humanos. 75 horas (60h teóricas + 15h PCC2).
1EDU055 - História da Educação Brasileira da Colônia ao Império: processo de constituição histórica da Educação e da escolarização de brancos, negros e indígenas no Brasil da Colônia ao Império. 30 horas teóricas.
1EDU064 - História da Educação Brasileira da Segunda Metade do Século XIX ao final da 1ª República: processo de constituição histórica da Educação e da escolarização no Brasil na segunda metade do século XIX ao final da 1ª. República. 45h (30h teóricas + 15h PCC).
1EDU066 - História da Educação Brasileira da Era Vargas à Contemporaneidade: processo de constituição da Educação e da escola no Brasil da Era Vargas à Contemporaneidade nos seus diferentes níveis e modalidades. 75 horas (60h teóricas + 15h PCC).

Fonte: UEL (2018). Elaborado pelos autores.

As ementas indicam que essencialmente dois contextos educacionais, sobretudo após os séculos XV e XVI, devem ser abordados: o ocidental e o brasileiro. Elas preveem o estudo dos diferentes processos educativos, escolarizadores e pedagógicos que estiveram presentes na formação de professores, dos alunos, das escolas, das políticas públicas e das sociedades. Contudo, as ementas, mesmo que abrangentes em termos de fenômenos e de sujeitos históricos, ainda apresentam tendências eurocêntricas, deixando de abordar outras experiências educativas como, por exemplo, as do Oriente Médio e Distante, as Pré-Colombianas, entre outras. Ao passo que o ensino de História da Educação Geral foca na hegemonia europeia como sinônimo de civilização e, concordando com Costa (2019), deixa na sombra muitas outras histórias que poderiam ser discutidas na perspectiva do multiculturalismo e do decolonial.

Os programas acadêmicos das disciplinas listadas no quadro 2 permitem maior entendimento em relação aos conteúdos programáticos levados para o interior da sala de aula do curso de Pedagogia da UEL. Ao consultar o programa da disciplina 1EDU036 (UEL, 2022a), notou-se a previsão de conteúdos, além dos estabelecidos pela ementa, envolvendo saberes referentes à historiografia da educação, às experiências educativas nas sociedades ocidentais antigas (hidráulicas e clássicas) e medievais antecessoras à Modernidade, às reformas religiosas protestantes e católicas do século XVI, às inovações científicas e seus objetos de ensino, aos movimentos humanistas, revolucionários (burgueses, industriais) e ilustrados, às reformas estatais de ensino de diferentes países (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Portugal) e à escolarização de massa.

O conteúdo programático da 1EDU055 (UEL, 2022b), que abrange o período histórico brasileiro do século XVI ao XIX, propõe o estudo da relação entre educação, estado e religião, da Pedagogia “Jesuíta - Ratio Studiorum”, da Reforma “Pombalina”, da constituição da escola pública (primária, secundária, superior), do pensamento ilustrado no Brasil e das diferenças das condições de acesso ao processo de escolarização para os diferentes grupos sociais e étnicos. Por sua vez, a disciplina código 1EDU064 (UEL, 2022c) propõe como conteúdo programático um percurso que vai dos projetos pedagógicos no século XIX ocidental (liberalismo, socialismo, positivismo, laicização, exposições universais, métodos de ensino - mútuo e intuitivo, mestre-escola, grupos escolares), às reformas de ensino na Primeira República brasileira, fechando com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova nos anos de 1930. E, por fim, o programa da 1EDU066 (UEL, 2022d), que envolve os acontecimentos educacionais entre anos de 1930 e aproximadamente os de 1990, desenvolve estudos sobre o escolanovismo, os diferentes projetos da Era Vargas (1930-1945), os embates entre os educadores e as inovações educacionais no contexto da 1ª LDB-1961, os avanços e retrocessos na construção de um Sistema Nacional de Educação (1945-1964), a educação escolar (reformas, tecnicismo e Teoria do Capital Humano) na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), os projetos educacionais da redemocratização de 1985 à LDB de 1996 e as histórias dos diferentes níveis e modalidades de ensino.

Os conteúdos programáticos das disciplinas de História da Educação do curso de Pedagogia da UEL (UEL, 2018) evidenciam preocupações como a história quadripartite de visão europeia (Antiga, Medieva, Moderna e Contemporânea) e as divisões políticas brasileiras (Colônia, Império, República, Era Vargas, Ditadura Civil Militar, Redemocratização), com novos problemas e novas abordagens fomentados pela renovação historiográfica (nova história cultural, história social, micro história, história dos costumes) e pela diversidade de fontes históricas como possibilidades no ensino voltado à formação de professores. Os programas revelam que estão presentes na formação de professores as perspectivas analíticas das culturas escolares, das culturas materiais, dos saberes/práticas, das instituições educativas, das transnacionalidades, da inclusão da diversidade de sujeitos sociais (negros, indígenas, mulheres, crianças, pobres) na cena educacional, dos movimentos políticos de educadores, da luta pela democracia e das diferentes formas de educar no interior e no exterior da escola. A história da educação está cada vez conectada ao campo da História e suas interlocuções interdisciplinares.

Por outro lado, os conteúdos programáticos das disciplinas analisadas apontam para mesma tendência, identificada por Rodrigues (2011, p. 154), de que quanto “mais a carga horária se apresenta reduzida, mais o conteúdo estabelecido pelo ementário parece ampliar-se, alargando-se nos espaços e tempos abordados” pelo ensino de História da Educação. Ainda, merece destaque a semelhança com a tendência indicada pela pesquisa de Campos (2020), que demonstrou que comumente os conteúdos da disciplina História da Educação na UEPG do ano posterior expressam continuidades dos conteúdos do ano (ou semestre) anterior.

No que diz respeito à relação entre as disciplinas de História da Educação e os objetivos do curso formador, identificou-se:

Quadro 3 Objetivos do curso de Pedagogia e a História da Educação 

Projetos pedagógicos Objetivos específicos do curso que contemplam a história da educação
2005, 2006, 2009 Conceituar o currículo escolar como processo de seleção dos conhecimentos historicamente construídos, de transformação desses saberes em conteúdos escolares e de definição de metodologias e formas de avaliação;
2018 Proporcionar a compreensão dos processos pedagógicos escolares e não escolares da sociedade atual a partir dos pressupostos históricos, filosóficos, psicológicos, sociológicos, culturais e político-legais da educação.

Fonte: UEL (2005; 2006; 2009; 2018). Grifos nossos. Elaborado pelos autores (2023).

Os projetos de curso propõem formação de professores ancorada nos pressupostos históricos para compreensão dos processos pedagógicos escolares e não escolares para questionar o passado, interpretar o presente e perspectivar o futuro. Entende-se que os conhecimentos selecionados para o processo de ensino-aprendizagem, viabilizados por meio do currículo escolar e da relação professor-aluno, foram e são historicamente construídos. Os objetivos descritos nos PPCs indicam o quão fundamentais são os conhecimentos históricos para a formação de professores para a leitura crítica da dimensão pedagógica nos processos de produção, apropriação, disseminação, circulação e revisão de conhecimentos sistematizados e a serem inovados. Tem-se a História da Educação como subsídio de compartilhamento e de transformação da teoria e da prática pedagógica prevista para formação e ação docente.

Com tais objetivos, as disciplinas de História da Educação integrariam a formação profissional/perfil dos egressos do curso de Pedagogia da UEL, a saber:

Quadro 4 Perfil do egresso formado em Pedagogia na UEL (2005-2018) 

Ano do projeto pedagógico Perfil do egresso do curso de Pedagogia
2005/2006 O Curso de Pedagogia formará um profissional cuja base de atuação é a docência, pautada pela unidade teoria-prática, tendo a totalidade e a interdisciplinaridade como categorias privilegiadas.
2009 O Curso de Pedagogia formará um profissional cuja base de atuação é Magistério para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental; Magistério para a Educação Infantil; Gestão Pedagógica na Educação Formal e Não Formal e Magistério das Matérias Pedagógicas.
2018 O perfil acadêmico e o profissional do egresso são o exercício do Magistério para a Educação Infantil; do Magistério para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental; da Gestão Pedagógica da Educação Escolar e não Escolar e do Magistério das Matérias Pedagógicas.

Fonte: UEL (2005; 2006; 2009; 2018). Elaborado pelos autores (2023).

Os projetos pedagógicos de 2005 e de 2006 estabelecem como base a formação e atuação do pedagogo para a docência. Já os projetos de 2009 e 2018, além da docência, propõem a gestão da educação escolar e não escolar/formal como campos do exercício profissional do pedagogo egresso da UEL. Isso implicaria à História da Educação compreender outros fenômenos educativos e formativos que extrapolam as instituições escolares formais e as ações docentes no contexto da sala de aula. Quanto mais ampliada e complexa for a formação do professor e suas múltiplas possibilidades de exercício profissional, maiores e complexos deverão ser os desafios do ensino de História da Educação na formação de professores. Nesse sentido, há a combinação de pelo menos três exigências na formação de professores: conhecer a história do campo que atua; pensar historicamente a ação docente e seus lócus de intervenção considerando continuidades e mudanças; e articular os saberes e práticas históricas a outros saberes necessários para a ação profissional do pedagogo.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As disciplinas de História da Educação têm perdido cada vez mais espaço nos projetos pedagógicos dos cursos (PPCs) de formação de professores. Na UEL (2005-2018), ao analisar a organização curricular, paradoxalmente, há diminuição da carga horária da disciplina acompanhada do aumento dos conteúdos programáticos (objetos, temporalidades, fenômenos e diferentes sujeitos da história) no curso de Pedagogia. A busca por maior presença e renovação historiográfica das disciplinas de História da Educação, nos currículos de formação inicial para docência, deve ser uma estratégia que deve continuar sendo percorrida pelos agentes envolvidos, o que nem sempre ocorre sem tensionamentos. Para tanto, alguns desafios podem ser mais encampados.

A organização dos conteúdos programáticos das disciplinas de História da Educação na UEL evidenciou o quão complexos são os saberes a serem ensinados em termos temporais, espaciais, sociais, políticos e societários. Entretanto, é desafiador mobilizar no ensino perspectivas de experiências educativas para além da visão europeizante ocidental, para assim ampliar a complexidade do ensino destacando a perspectiva do multiculturalismo, dando ênfase a grupos e povos marginalizados na história dos processos escolarizadores e civilizadores.

Também é necessário refletir sobre como esse ensino de História da Educação afeta a formação dos discentes de licenciatura. Um caminho é dimensionar a didática da história para o processo de aprendizagem e compreensão histórica. Para isso, é fundamental considerar a consciência histórica dos indivíduos, a historiografia da educação e as diversas possibilidades de ensino da história da educação.

Na formação de professores, cabe ao ensino de História da Educação investigar os detalhes da cultura escolar histórica na vida em sociedade, bem como assumir que o tempo presente é constituído de dimensões do passado. Com isso, se analisa o presente com os fatos do passado, indagando quais fenômenos desencadearam os fatores hodiernos na realidade educacional. É fundamental realizarmos perguntas, tais como: qual o processo histórico desse acontecimento educacional? Quais fatores contribuíram para ele? Como pode-se resolver ou minimizar os problemas gerados? Quais aprendizados podemos tirar dele? Esses questionamentos devem acompanhar a vida do professor pedagogo em formação e em atuação docente. Nesse sentido, a História da Educação, tal como outras disciplinas, também não está livre da visão pragmática presente nos currículos de formação de professores, pois a docência é campo de ação. Todavia não se deve descuidar que a ação docente deve-se ancorar nos consistentes fundamentos das humanidades.

Um outro desafio é reconhecer que a História da Educação não é mais um saber enciclopédico e seriado evolutivo, com conteúdo denso e que não se relaciona com a realidade. Diante do exposto, pensa-se então: como os docentes podem contribuir para tornar a disciplina de História da Educação um saber ainda mais imprescindível para a formação de professores? Um passo seria compreender que sem a História da Educação não é possível transformar a consciência do sujeito educador constituído e porta-voz de memórias, tradições, inovações, ensinamentos e mudanças. Torna-se necessária uma ação educativa pela via do conhecimento histórico que deve provocar um olhar crítico e transformador da realidade educacional expressando a sua historicidade.

Por fim, o ensino de História da Educação na formação do professor pedagogo, e por extensão nas licenciaturas, tem como papel fazer com que os discentes se capacitem a produzir análises de natureza histórica acerca de si, do campo educacional e do mundo que o rodeia. Pensar historicamente está além de apenas inventariar os fatos passados, por isso, é significativo o processo de formação de conhecimento, de senso crítico e de historicidade para problematizar a sociedade em que se vive, para daí em diante, com a potência da consciência histórica, transformar a realidade em que se encontra.

REFERÊNCIAS

ACOSTAS, Felicitas. Ensinar história da educação: reflexões em torno de uma proposta. História da Educação, Porto Alegre, v. 21, n. 52, p. 295-311, mai./ago., 2017. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/68696 . Acesso em: 31 mar. 2023. [ Links ]

BORGES, Bruno Gonçalves; Gatti Júnior, Décio. O ensino de história da educação na formação de professores no Brasil atual. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, v. 10, n. 40, p. 24-48, dez., 2012. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.20396/rho.v10i40.8639804 . Acesso em: 28 mar. 2023. [ Links ]

CAMPOS, Névio. Notas sobre o ensino de História da Educação no curso de Pedagogia da UEPG (1963-2012). História & Ensino, Londrina, v. 26, n.2, p. 401-430, jul./dez., 2020. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.5433/2238-3018.2020v26n2p401 . Acesso em: 01 abr. 2023. [ Links ]

CARVALHO, Marta Maria Chagas de; GATTI JÚNIOR, Décio (org.). O ensino de história da educação. Vitória: EDUFES, 2011. [ Links ]

CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria & educação, v. 2, n. 2, p. 177-229, 1990. [ Links ]

COSTA, Ana Luiza Jesus. “Porque vocês não sabem do lixo ocidental”. Ensino de História da Educação e a “questão do outro”. História & Ensino, Londrina, v. 25, n. 1, p. 305- 332, jan./jun., 2019. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.5433/2238-3018.2019v25n1p305 . Acesso em: 31 mar. 2023. [ Links ]

FAVARO, Marta Regina Gimenez. Ensino de história da educação nas universidades estaduais do Paraná: institucionalização, saberes e agentes (1962-1998). 2015. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015. [ Links ]

GATTI JÚNIOR, Décio. A história do ensino de história da educação no Brasil: aspectos teórico-metodológicos de uma pesquisa (1930-2000). História da Educação, Pelotas, v. 12, n. 26, p. 219-246, set./dez., 2008. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/29219 . Acesso em: 20 mar. 2023. [ Links ]

HILSDORF, Maria Lúcia Spedo. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. [ Links ]

LE GOFF, Jean Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 2003. [ Links ]

LUCA, Tania Regina de. Práticas de pesquisa em história. São Paulo: Contexto, 2021. [ Links ]

MONARCHA, Carlos. História da educação brasileira (esboço da formação do campo). In: NASCIMENTO, Maria Isabel Moura; SANDANO, Wilson; LOMBARDI, José Claudinei; SAVIANI, Dermeval (orgs.). Instituições escolares no Brasil: conceito e reconstrução histórica. Campinas: Autores Associados, 2007, p. 125-150. [ Links ]

NUNES, Clarice. A disciplina história da educação na formação de professores: desafios contemporâneos. História da Educação, Pelotas, n. 19, p. 173-180, jan./jun., 2006. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/asphe/article/view/29411 . Acesso em: 31 mar. 2023. [ Links ]

QUEIROZ, Zuleide Fernandes de. Ensinando história da educação, formando professores- pesquisadores: o ensino da história da educação no curso de pedagogia da Universidade Regional do Cariri. In: Carvalho, Marta Maria Chagas de; Gatti Júnior, Décio (org.). O ensino de história da educação. Vitória: EDUFES, 2011. p. 389-405. [ Links ]

RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paidéia, Ribeirão Preto, n. 4, p. 15-30, fev./jul., 1993. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/paideia/a/DDbsxvBrtzm66hjvnLDdfDb/?lang=pt&format=pdf . Acesso em: 2 abr. 2023. [ Links ]

RODRIGUES, José Roberto. O ensino de história da educação: um olhar reflexivo a partir da análise de planos e programas curriculares. In: Carvalho, Marta Maria Chagas de; Gatti Júnior, Décio (org.). O ensino de história da educação. Vitória: EDUFES, 2011. p. 145-174. [ Links ]

SAVIANI, Dermeval. A pedagogia no Brasil: história e teoria. Campinas: Autores Associados, 2008. [ Links ]

STEPHANOU, Maria. O ensino de história da educação na história da Faculdade de Educação da UFRGS: primeiras aproximações. História da Educação, Pelotas, v. 10, n. 19, p. 293-300, jan./jun., 2006. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/asphe/article/view/29419 . Acesso em: 02 abr. 2023. [ Links ]

TAMBARA, Elomar. História da educação no curso de pedagogia da Universidade Federal de Pelotas. História da Educação, Pelotas, v. 10, n. 19, p. 301-310, jan./jun., 2006. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/29421 . Acesso em: 2 abr. 2023. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Projeto Pedagógico do curso de Pedagogia. Londrina, 2005. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Projeto Pedagógico do curso de Pedagogia. Londrina, 2006. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Projeto Pedagógico do curso de Pedagogia. Londrina, 2009. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Projeto Pedagógico do curso de Pedagogia. Londrina, 2018. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Programa de Atividade Acadêmica - 1EDU036 História da Educação e Produção da Escola Moderna. 2022a. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Programa de Atividade Acadêmica - 1EDU055 História da Educação Brasileira da Colônia ao Império. 2022b. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Programa de Atividade Acadêmica - 1EDU064 História da Educação Brasileira da Segunda Metade do Século XIX ao final da 1ª República. 2022c. [ Links ]

UEL. Universidade Estadual de Londrina. Programa de Atividade Acadêmica - 1EDU066 História da Educação Brasileira da Era Vargas à Contemporaneidade. 2022d. [ Links ]

VILLELA, Heloisa de Oliveira Santos. A primeira escola normal do Brasil: concepções sobre a institucionalização da formação docente no século XIX. In: Araujo, José Carlos Souza; Freitas, Anamaria Gonçalves Bueno de; Lopes, Antônio de Pádua Carvalho. As escolas normais no Brasil: do Império à República. Campinas: Alínea, 2008, p. 29.46. [ Links ]

VIÑAO FRAGO, Antonio. História das disciplinas escolares. Revista Brasileira de História da Educação, n. 18, p.174-216, set./dez., 2008. Disponível em: Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/rbhe/article/view/40818 . Acesso em: 2 abr. 2023. [ Links ]

WARDE, Mirian Jorge. Questões teóricas e de método: a história da educação nos marcos de uma história das disciplinas. In: Saviani, Dermeval; Lombardi, José Claudinei; Sanfelice, José Luiz (org.). História e história da educação: o debate teórico metodológico atual. Campinas: Autores Associados, 1998. p. 88-99. [ Links ]

NOTAS:

1 Agradecimentos ao CNPq (Processo n. 305940/2022-8) pelo auxílio financeiro.

2 A PCC - Prática como Componente Curricular, conforme a definição no PPC de 2015, são espaços que possibilitarão ao estudante, futuro profissional da educação básica, vivenciar a rotina, as dificuldades, os obstáculos, as conquistas, as metodologias, enfim, tudo que seu futuro ambiente de trabalho possa oferecer como experiência para sua formação e atuação. As práticas como componente curricular são entendidas a partir da relação intrínseca entre a teoria e prática, destacando o diálogo constante sobre as problematizações do campo profissional, elaboração de planos e estratégias teóricas e metodológicas para a construção dos saberes profissionais do futuro pedagogo, destaque e aprendizagem da vivência direta com a realidade em que atuará.

Recebido: 10 de Março de 2023; Aceito: 31 de Janeiro de 2024; Publicado: 31 de Março de 2025

Creative Commons License Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional que permite o uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que a obra original seja devidamente citada.