1 INTRODUÇÃO
Os avanços tecnológicos ampliaram exponencialmente o acesso às telas eletrônicas, transformando significativamente a maneira como as crianças interagem com o mundo ao seu redor (Kang, 2021; Price, 2018). Nesse sentido, é importante destacarmos que a tecnologia ocupa um papel cada vez mais proeminente na infância, impulsionada pela expansão da internet, das redes sociais e pelo surgimento de dispositivos eletrônicos cada vez mais modernos e atrativos (Ponti, 2023).
Essas ferramentas, embora ofereçam oportunidades inovadoras de aprendizado, também apresentam desafios relevantes, sobretudo no que diz respeito à gestão do tempo de exposição às telas e ao risco de acesso a conteúdos inadequados para a faixa etária (Nobre et al., 2021; Papalia; Martorell, 2022; Peixoto; Cassel; Bredemeier, 2020). Além disso, o uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode impactar negativamente o desenvolvimento social e emocional das crianças, limitando a interação face a face e afetando habilidades essenciais, como empatia e resolução de conflitos (Kilbey, 2018).
As transformações na infância contemporânea também impactam as expectativas em relação à educação, exigindo uma abordagem pedagógica mais dinâmica, flexível e inovadora, capaz de se adaptar às necessidades evolutivas das novas gerações. O ensino tradicional vem sendo desafiado pela necessidade de preparar as crianças para um mundo em constante mudança, com ênfase no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, criativas e de pensamento crítico (Palfrey; Gasser, 2011; Sales, 2020).
Nesse contexto, as mudanças econômicas e sociais repercutem diretamente sobre a infância atual. Muitos pais enfrentam jornadas de trabalho extensas e dispõem de menos tempo para dedicar aos filhos, o que pode afetar a qualidade das interações familiares e a presença de modelos parentais (Kilbey, 2018; Nakshine et al., 2022). Ademais, a crescente urbanização e as alterações na dinâmica cotidiana também influenciam as formas de brincar e de interação das crianças com o ambiente (Girardello; Fantin; Pereira, 2021).
Diante disso, o tema “Tela para quê?” adquire relevância ao considerar a perspectiva de educadores e familiares sobre o uso de telas por crianças no contexto da Educação Infantil. A exposição precoce e intensa aos dispositivos digitais levanta questões sobre os limites saudáveis para o uso dessas tecnologias nos primeiros anos de vida, o que suscita a problemática: Como educadores e familiares percebem e lidam com o uso de telas por crianças na Educação Infantil? Quais preocupações e expectativas permeiam essa experiência digital? De que maneira essas concepções influenciam as práticas pedagógicas e familiares?
Assim, o objetivo desta investigação foi compreender a percepção de educadoras e familiares sobre o uso de telas digitais por crianças na Educação Infantil. A relevância deste estudo reside não apenas na identificação das preocupações associadas ao fenômeno, mas também na disseminação de informações que promovam uma gestão consciente e equilibrada do tempo de tela, alinhada às necessidades fundamentais do desenvolvimento infantil.
Nesse cenário em constante transformação, no qual as telas fazem parte do cotidiano de muitas crianças desde a primeira infância, compreender a percepção de educadores e familiares torna-se elemento-chave para orientar estratégias pedagógicas e práticas no âmbito familiar. A presente pesquisa transcende a questão do simples acesso à tecnologia: trata-se de um convite à reflexão sobre a organização do ambiente digital infantil, reconhecendo a responsabilidade coletiva em promover um desenvolvimento saudável e equilibrado no contexto contemporâneo.
2 MÉTODO
Esta investigação adotou uma abordagem quantiqualitativa exploratória em um estudo de campo. A pesquisa envolveu 134 participantes distribuídos em três grupos: (i) 14 professoras da Educação Infantil (idade entre 30 e 60 anos); (ii) 60 familiares de crianças na Educação Infantil (idade entre 19 e 57 anos); (iii) 60 crianças de 2 a 4 anos de idade. Foi conduzido em duas escolas públicas (Campo de pesquisa 1 e 2), incluindo uma creche e uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI).
A coleta de dados compreendeu três etapas: (i) entrevistas semiestruturadas com as professoras da Educação Infantil; (ii) aplicação de questionários aos familiares; e (iii) observações, acompanhadas da utilização do Inventário Portage Operacionalizado (IPO) para analisar as interações das crianças (Aiello; Williams, 2021). Neste texto, são apresentados exclusivamente os dados oriundos das entrevistas com as professoras e dos questionários aplicados aos familiares.
Os procedimentos metodológicos deste estudo foram iniciados após o parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins (HDT-UFT), Parecer nº 5.906.378, Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE): 64049522.0.0000.8102.
A coleta de dados, realizada por meio de entrevistas com as professoras, ocorreu entre 20 e 31 de março de 2023. As entrevistas foram gravadas com um celular e, posteriormente, transcritas no Microsoft Word. Os questionários com os familiares foram aplicados de 8 de abril a 24 de junho de 2023, tanto em cópias impressas, nas quais os familiares respondiam às perguntas e a pesquisadora transcrevia as respostas, quanto por meio de gravações realizadas com um celular. As transcrições de ambos foram categorizadas manualmente, e as perguntas e respostas selecionadas foram submetidas à Análise de Conteúdo de Bardin (1977).
A análise dos dados foi realizada por meio do software IRAMUTEQ (Camargo; Justo, 2013), que conduziu análises lexicográficas de frequência, formando nuvens de palavras, e análise de similitude dos conteúdos (Ratinaud; Marchand, 2012).
3 PERCEPÇÃO DOS FAMILIARES QUANTO AO USO DE TELAS NA INFÂNCIA
Participaram do questionário 60 familiares, sendo 22 (37%) do Campo de pesquisa 1 e 38 (63%) do Campo de pesquisa 2. Cada criança foi representada por um familiar, principalmente mães, 50 (83%), seguidas por pais, 7 (12%), e 3 (5%) avós. A faixa etária dos participantes variou entre 19 e 57 anos, com uma predominância significativa do sexo feminino, representando 52 (88%) da amostra.
Em relação à escolaridade, observou-se uma diversidade educacional na amostra. A maioria, 27 (45%), concluiu o Ensino Médio, enquanto 17 (28,33%) possuíam Ensino Superior completo. Havia cinco (8,33%) com Ensino Médio incompleto, e a mesma proporção, cinco (8,33%), concluiu o Ensino Fundamental. A parcela com Ensino Fundamental incompleto foi de 4 (6,67%), e apenas um (1,67%) dos familiares possuía pós-graduação. Essa variedade proporciona uma visão abrangente das percepções sobre a exposição de crianças às telas na Educação Infantil, levando em conta diferentes níveis de formação acadêmica.
Analisando as respostas sobre o tempo de exposição das crianças a essas ferramentas, verificamos que 15 (25%) crianças utilizavam dispositivos de duas horas e trinta minutos a três horas e trinta minutos diariamente, 27 (45%) ficavam expostas entre quatro e seis horas por dia, e 18 (30%) passavam de seis horas e trinta minutos a nove horas e trinta minutos diariamente. Quanto à idade inicial para o uso de telas, 41 (68%) foram expostas desde bebês, enquanto 19 (32%) começaram após completarem um ano de idade. É crucial observar que a qualidade do conteúdo exibido nas telas e o contexto de uso não foram avaliados nesta pesquisa.
Durante o questionário voltado aos familiares, surgiram preocupações sobre os limites do uso de telas, o tempo apropriado para as crianças usarem dispositivos móveis, o período adequado para assistir à TV e os potenciais efeitos negativos da exposição excessiva às telas. Com base nessas reflexões, a Sociedade Brasileira de Pediatria - SBP (2019) destaca as recomendações apresentadas na Figura 1 a seguir.

Fonte: Elaborada pelas pesquisadoras (2023), com base em SBP (2019).
Figura 1 Recomendações para o tempo de tela na infância
Na análise do questionário aos familiares, foi perguntado: “Quais são os tipos de telas que seu(ua) filho(a) utiliza no dia a dia?”. Os relatos verbais indicaram as seguintes respostas entre as opções disponíveis: TV (100%), celular (90%), tablet (1%) e notebook (2%). A distribuição percentual (100%, 90%, 1%, 2%) fornece uma visão clara e quantitativa das preferências de dispositivos, destacando a prevalência da TV e do celular.
Durante o questionamento, surgiram dúvidas dos familiares sobre quando é apropriado dar um celular para a criança. Sobre isso, Kilbey (2018) e Uebel (2022) enfatizam que crianças na primeira e na segunda infância não possuem capacidades cognitivas suficientes para lidar com recompensas e a noção de tempo. É fundamental, portanto, que os adultos avaliem com cuidado a decisão de permitir que seus filhos tenham um celular durante a infância, pois crianças em tenra idade estão desenvolvendo a autorregulação e, por isso, não conseguem lidar com o tempo de espera ou assumir responsabilidades temporais, o que pode representar um risco para a saúde e o bem-estar (Kilbey, 2018; Papalia; Martorell, 2022).
As questões selecionadas a partir dos questionários respondidos pelos familiares - Como seu(ua) filho(a) reage quando as telas são retiradas ou desligadas? Você tem consciência ou já ouviu falar sobre os malefícios do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil? Você observa algum atraso no desenvolvimento do seu filho? Caso sim, poderia especificar? - destacaram a frequência (f) das palavras: “meu filho(a)” (f = 110), “desligo as telas” (f = 55), “chorar” (f = 41), “uso excessivo de telas” (f = 39), “não sei os efeitos” (f = 36), “faz birra” (f = 35), “atraso na fala” (f = 30), “sem foco atenção” (f = 20), “zangado” (f = 20), “problemas na socialização” (f = 6), “faz mal” (f = 20) e “agressivo" (f = 15). Nesse sentido, foi gerada a nuvem de palavras exposta na Figura 2.

Fonte: Elaborada pelas pesquisadoras (2023).
Figura 2 Similitude de palavras sobre a mediação familiar do tempo de tela
Ao analisarmos as respostas dos familiares, notamos que os termos “meu filho”, “desligar as telas”, “chorar”, “fazer birra”, ‘zangado’ e “agressivo” foram frequentes nas falas. Esses termos indicam que, ao desligarem as telas, 38 crianças (63%) choram, fazem birras e, em algumas situações, ficam agressivas. Já 15 crianças (25%) às vezes choram e fazem birra, enquanto em outras ocasiões não o fazem; e sete crianças (12%) reagem tranquilamente, sem chorar, fazer birra ou demonstrar reações agressivas.
Destacamos um trecho que merece atenção: cerca de 63% dos familiares observaram que seus filhos “choram e fazem birra” ao retirar ou desligar as telas, o que indica a possibilidade de dependência desses dispositivos. Esse comportamento pode refletir a frustração da criança ao ser privada de uma fonte de entretenimento ou conforto. Assim sendo, salientamos a importância de estabelecer limites e criar uma rotina equilibrada para o uso de telas, evitando o desenvolvimento de comportamentos prejudiciais.
Essas observações ressaltam a necessidade de orientar os familiares sobre o uso adequado de telas na pré-escola (Sadeghi; Pouretemad; Shalani, 2023). Portanto, os familiares devem estar cientes dos possíveis riscos do consumo prolongado de telas, como a redução do tempo de sono, comportamentos desafiadores e a diminuição da interação social e das atividades físicas (Kilbey, 2018; Sadeghi; Pouretemad; Shalani, 2023). Destacamos que estabelecer limites claros, oferecer alternativas saudáveis de entretenimento e manter uma comunicação aberta com as crianças são estratégias importantes para lidar com as reações ao desligar as telas.
Considerando os pontos discutidos anteriormente, há ainda outras palavras que são repetidas nas falas dos familiares:
Quando desligo as telas, meu filho fica zangado, chora, fica agressivo, ele se bate, bate a cabeça na parede e, também, quer me bater, bater no pai dele (Familiar 19, Campo de pesquisa 1, grifos nossos).
Quando desligo as telas, meu filho é agressivo, desafiador e não obedece aos comandos (Familiar 46, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
Quando desligo as telas, meu filho tem crises de fúria e é agressivo (Familiar 20, Campo de pesquisa 1, grifos nossos).
Quando desligo as telas, meu filho chora, fica zangado, faz birra e se joga no chão (Familiar 42, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
Quando desligo as telas, meu filho chora, faz birra, fica zangado e bate os pés com raiva (Familiar 55, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
Notavelmente, várias respostas mencionam comportamentos agressivos, como zangar-se, chorar, fazer birra, bater a cabeça na parede e, até mesmo, tentar agredir os pais. Essas reações extremas à frustração e ao desligamento das telas levantam preocupações sobre a repercussão do uso de dispositivos eletrônicos no desenvolvimento emocional e comportamental das crianças.
A agressão e a violência não são típicas em crianças pré-escolares, e sua manifestação pode ser alarmante para os familiares, indicando que o consumo exacerbado de telas pode desempenhar um papel crucial no aumento da intensidade e da frequência das birras, tornando-as mais difíceis de gerenciar. Em apoio a essa compreensão, as pesquisas de Lissak (2018) e Radesky e Christakis (2016) indicam que a superexposição de crianças às telas pode acarretar prejuízos sérios ao desenvolvimento, contribuindo para comportamentos como agressividade, irritabilidade, sono desregulado, apatia e atraso na alfabetização.
Nesse sentido, Nakshine et al. (2022) e Uebel (2022) reforçam que as mídias digitais podem se tornar altamente viciantes, especialmente para crianças nos anos iniciais de vida, que são mais suscetíveis ao vício em telas devido ao seu sistema de controle de impulsos em desenvolvimento. Isso pode resultar em dificuldades para controlar impulsos e gerenciar comportamentos, com a perda da noção de tempo diante dos atrativos virtuais levando a uma anestesia dos estímulos ao redor, prejudicando o foco e a atenção da criança. Crises de birra, choro, agressividade, alterações no sono e a preferência por telas em detrimento de brincadeiras em grupo são sinais claros de alerta para o vício em telas (Kilbey, 2018; Peixoto; Cassel; Bredemeier, 2020; Uebel, 2022).
Nos relatos sobre a pergunta “Como seu(ua) filho(a) reage quando as telas são retiradas?”, os familiares observaram alterações comportamentais nas crianças. As reações verbalizadas, como “meu filho não para quieto”, “ele é agitado”, “não se concentra”, “atraso na fala”, “bate nos coleguinhas” e ‘não sabe compartilhar”, fornecem informações relevantes, indicando possíveis impactos negativos do uso das telas no comportamento e desenvolvimento das crianças na Educação Infantil.
Consoante a isso, a agitação, a falta de concentração, os atrasos na fala e comportamentos agressivos podem ser sinais de que o tempo excessivo nas telas está influenciando negativamente a saúde emocional e social das crianças. Nessa conjuntura, Heuvel et al. (2019), Liu et al. (2020) e Numata-Uematsul et al. (2018) destacam que o uso prolongado de telas pode ocasionar comportamento hiperativo e atraso no desenvolvimento da linguagem. No entanto, esses sinais podem melhorar significativamente após a interrupção total do uso de telas por um período determinado, desde que esse tempo seja substituído por atividades interativas (Becker, 2017; Borelli, 2022).
As pesquisas de Dieu-Osika, Bossière e Osika (2020), Dong et al. (2021), Harlé (2019) e Hill et al. (2020), por sua vez, evidenciam que a exposição excessiva pode resultar em sinais semelhantes ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No entanto, é possível reverter ou melhorar esses sintomas por meio da interrupção do uso desses dispositivos e da introdução de estímulos familiares e terapêuticos, como atividades lúdicas que promovam a exploração e o brincar em grupo.
É crucial destacarmos que muitos familiares hesitam em reduzir ou retirar as telas devido às crises de birra e agressividade das crianças. Para alguns participantes desta pesquisa, lidar com a gestão das telas na rotina das crianças é percebido como algo assustador ou trabalhoso. No entanto, Kilbey (2018) e Uebel (2022) fortalecem que é fundamental que os familiares se mantenham firmes no controle do tempo desses dispositivos na rotina da criança.
Para além dessas reflexões, percebemos a repetição das expressões “uso excessivo de telas” e “não sei os efeitos” nas respostas dos familiares à questão “Você tem consciência ou já ouviu falar sobre os malefícios do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil?”, conforme apontam os trechos que seguem:
Eu já li que o uso excessivo de telas faz mal ao desenvolvimento da criança e que atrasa o desenvolvimento (Familiar 12, Campo de pesquisa 1, grifo nosso).
Eu nunca ouvi falar sobre os malefícios do uso excessivo de telas, não sei os efeitos (Familiar 14, Campo de pesquisa 1, grifo nosso).
Nunca ouvi falar sobre os efeitos do uso excessivo de telas e não sei os efeitos, meu filho não tem nada, não sei por que fui chamada (Familiar 31, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
Eu nunca ouvi falar e não sei os efeitos do uso excessivo de telas (Familiar 29, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
As análises revelam que 43 (71,6%) dos familiares reconhecem os malefícios do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil. Entretanto, 17 (28,3%) nunca ouviram falar desse fenômeno. Essa disparidade indica uma variedade significativa de conscientização entre os participantes. Dentre os familiares cientes dos danos, apenas 12 (20%) conseguiram descrever com precisão os sintomas relacionados à superexposição de telas no desenvolvimento infantil. Esses resultados sugerem que, mesmo entre os informados, há uma falta de compreensão detalhada sobre os efeitos específicos do tempo de tela no desenvolvimento infantil.
As respostas dos familiares abordam diferentes níveis de conhecimento sobre os impactos do tempo de tela no desenvolvimento infantil. Desde preocupações expressas até a completa falta de informação, a variedade de respostas destaca a necessidade de uma abordagem personalizada ao fornecer informações sobre o tema.
Em última análise, os dados revelam lacunas no conhecimento e na conscientização sobre os malefícios do uso de tela entre os familiares. A falta de compreensão em algumas respostas destaca a urgência de estratégias educativas claras e acessíveis para promover uma compreensão mais abrangente e informada entre os pais. Isso poderia incluir campanhas educativas, workshops e materiais informativos adaptados às necessidades específicas dos diferentes grupos demográficos.
Embora alguns familiares possam não ter um entendimento preciso dos efeitos específicos da superexposição às telas, é evidente que reconhecem o reflexo prejudicial no desenvolvimento infantil, como ilustram as seguintes declarações:
Eu sei que o uso excessivo de telas faz mal, mas não sei os efeitos (Familiar 4, Campo de pesquisa 1, grifo nosso).
Eu compreendo que faz mal e atrapalha no desenvolvimento da criança (Familiar 30, Campo de pesquisa 2, grifo nosso).
Sim, sei que faz mal, mas não sei os efeitos do uso excessivo de telas. Quais são? (Familiar 34, Campo de pesquisa 2, grifo nosso).
Depois que fui ao médico com ela, o médico me disse que faz mal para o desenvolvimento da criança (Familiar 48, Campo de pesquisa 2, grifo nosso).
Eu li que o uso excessivo de telas faz mal ao desenvolvimento da criança e que atrasa o desenvolvimento (Familiar 13, Campo de pesquisa 1, grifo nosso).
Esses dados revelam que alguns familiares têm consciência de que esse consumo sem gerenciamento pode ser prejudicial, mesmo que o grau de compreensão sobre os efeitos específicos possa variar. Além disso, observamos que as informações foram obtidas por meio de fontes diversas, incluindo a internet e consultas médicas com fonoaudióloga e psicóloga. No entanto, é importante destacarmos a omissão dos profissionais da educação nessas fontes, sugerindo uma lacuna potencial.
Compreendemos que os educadores desempenham um papel importante para promover esclarecimentos e diálogos com os familiares sobre a gestão do tempo de tela e seus efeitos em crianças na Educação Infantil. Essa lacuna pode ser parcialmente atribuída ao suporte inadequado oferecido aos educadores em relação a esses temas. É imperativo que haja, portanto, um esforço coordenado para incluir programas de capacitação e atualização profissional, facilitando o acesso dos professores a informações atualizadas e práticas baseadas em evidências. Além disso, a colaboração com o poder público é essencial para garantir que essas iniciativas sejam inovadoras de maneira eficaz, promovendo um ambiente educacional mais informado e preparado para lidar com os desafios associados ao uso da tecnologia.
Ainda nesse escopo da análise, as expressões “atraso na fala”, “falta de foco” e “dificuldades na socialização” são recorrentes nos relatos familiares, apontando desafios significativos no desenvolvimento infantil. Esses desafios abrangem áreas cruciais, como fala, atenção e socialização, conforme evidenciado a seguir:
Meu filho apresenta atraso na fala, sem foco atenção e possui problemas na socialização e não obedece aos comandos (Familiar 1, Campo de pesquisa 1, grifos nossos).
Meu filho tem atraso na fala, não constrói frases, não tem noção de perigo, nem atenção (Familiar 60, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
Meu neto tem atraso na fala, não constrói frases, é muito agitado e elétrico, não possui foco e atenção (Familiar 11, Campo de pesquisa 1, grifos nossos).
Esses desafios foram corroborados por estudos como o de Liu et al. (2020), que destacam a associação entre exposição precoce a telas e problemas de atenção. Gueron-Sela e Gordon-Hacker (2020) acrescentam que a exposição à mídia na primeira infância pode diminuir as habilidades de atenção concentrada. O comportamento agitado, possivelmente relacionado ao uso excessivo de telas, também foi abordado, com Cai et al. (2023) associando a exposição precoce às telas a comportamentos hiperativos em crianças pré-escolares.
Estudos adicionais, incluindo Heffler et al. (2020), Karani, Sher e Mophosho (2022) e Sundqvist et al. (2021), indicam que o excesso de exposição às telas pode prejudicar a comunicação e resultar em pontuações mais baixas no desenvolvimento da fala. Relatos de familiares destacam o atraso na linguagem como um sintoma proeminente, enquanto a expressão de agressividade e comportamentos desafiadores também é abordada. Raman et al. (2017) sugerem que esses comportamentos podem ser consequência de frustração ou dificuldade em lidar com emoções durante longos períodos diante das telas.
Concordando com Borelli (2022), a relação pais-filhos é crucial para o desenvolvimento infantil. A presença dos familiares na vida dos filhos é vital, demandando organização das rotinas para priorizar tempo de qualidade, livre de dispositivos digitais (Desmurget, 2021; Kilbey, 2018). Além disso, a firmeza na aplicação das regras familiares é essencial, limitando o tempo de tela e garantindo que as telas não sejam a única opção de entretenimento para as crianças.
3.1 Perspectivas de professoras da Educação Infantil sobre o tempo de tela na infância
Durante entrevistas com professoras, a nona questão, “Qual a sua compreensão sobre os efeitos das telas em crianças na Educação Infantil?”, revelou que as palavras ‘criança” (f = 42), “tela’ (f = 17) e “pai” (f = 13) foram repetidamente mencionadas, conforme evidencia a Figura 3.

Fonte: Elaborada pelas pesquisadoras (2023).
Figura 3 Perspectiva de professoras sobre os efeitos das telas em crianças
As falas das professoras referem-se à relação entre famílias, crianças e telas, destacando os impactos negativos que o uso inadequado pode ter nas crianças. Vejamos, a título de exemplo, as seguintes respostas:
Observo algumas crianças muito obcecadas pelas telas, eu acho que isso é um costume que vem da família (Professora I, Campo de pesquisa 1, grifo nosso).
Na maioria das vezes, essa exposição excessiva é porque os pais têm outras coisas para se envolver e terminam que passa para criança o celular para que ela possa ficar quieta, comportada, para que os pais possam fazer outras atividades no dia a dia (Professora F, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
A criança acaba perdendo esse momento de interação com irmão, com primos, com crianças próximas e até mesmo com adultos. Os pais estão tão viciados em telas e acabam transferindo isso para as crianças, porque a criança fica lá quietinha, sentadinha, não está dando trabalho e os pais estão em uma tela, e a criança está em outra tela (Professora K, Campo de pesquisa 1, grifos nossos).
Eu observo de forma geral que hoje em dia o tempo corrido faz com que os pais deixem a criança na tela, os pais tiram a responsabilidade e jogam na tela, porque a criança fica quietinha (Professora C, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
As professoras expressaram preocupações ao notar que algumas crianças mostram obsessão por telas, possivelmente influenciada por práticas familiares, como dar o celular para manter a criança quieta enquanto os pais se ocupam com outras atividades. As educadoras compartilham a mesma perspectiva identificada por Kabali et al. (2015), cuja pesquisa revelou que muitas famílias entregam dispositivos eletrônicos às crianças durante tarefas domésticas e na hora de colocá-las para dormir, a fim de mantê-las tranquilas.
É fundamental reconhecer que as facilidades proporcionadas pelos meios tecnológicos têm levado muitas famílias a usarem mídias digitais como “tranquilizantes” para acalmar as crianças (Kilbey, 2018; Uebel, 2022). Desse modo, as telas estão substituindo o contato humano por interações virtuais, comprometendo momentos valiosos, como a hora de colocar a criança para dormir, em que a presença e a interação dos pais são fundamentais (Desmurget, 2021; Kilbey, 2018; Uebel, 2022).
Em vista disso, um estudo conduzido por Hermawati et al. (2018) salienta que a visualização ilimitada de telas em crianças está associada à redução dos níveis de melatonina, resultando em instabilidade no sono. Adjacente a isso, uma pesquisa realizada na Itália por Bozzola et al. (2018) destaca que o tempo desmedido de telas eletrônicas na infância pode causar efeitos negativos na qualidade do sono.
A esse cenário soma-se um estudo realizado por Radesky et al. (2022) com 160 pais de crianças de três a cinco anos, cujos resultados demonstraram que a utilização de dispositivos eletrônicos, como smartphones e tablets Android ou iOS, para acalmar as crianças durante crises, birras, choros, irritações ou tédio é uma prática arriscada. Logo, a falta de controle sobre o tempo de tela pode prejudicar o desenvolvimento da autorregulação emocional nas crianças; portanto, usar telas para acalmá-las oferece apenas um alívio temporário, sem promover uma solução duradoura e saudável.
Por conseguinte, as respostas destacaram a diminuição das interações familiares devido à superexposição a dispositivos digitais, ressaltando também os possíveis efeitos adversos no desenvolvimento infantil. Essa visão é apoiada por uma variedade de pesquisas, incluindo estudos de Cai et al. (2023), Chonchaiya (2020), Dieu-Osika, Bossière e Osika (2020), Heffler, Frome e Gullo (2022), Heuvel et al. (2019), Kushima et al. (2022), Liu et al. (2020), Numata-Uematsul et al. (2018) e Sadeghi, Pouretemad e Shalani (2023). Essas pesquisas indicam, de forma consistente, potenciais repercussões negativas do uso prolongado de telas no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, alinhando-se às preocupações expressas pelas professoras.
As perspectivas das professoras estão em consonância com estudos que destacam as consequências prejudiciais da utilização desproporcional de dispositivos eletrônicos no progresso cognitivo, emocional e social das crianças (Baptista; Jerusalinsky, 2021; Lissak, 2018; Peixoto; Cassel; Bredemeier, 2020; Ponti, 2023). Contudo, reconhecem que as tecnologias digitais possuem um papel essencial na aprendizagem, nos ambientes escolares e no entretenimento familiar quando gerenciadas adequadamente. Nesse sentido, uma das professoras aduz:
Algumas vezes, também os levo para a sala de vídeo e coloco vídeos musicais educativos na TV. Eles aprendem as músicas e o que elas ensinam, acho que tudo é questão de limite e quando a tela é usada com responsabilidade ela ajuda no aprendizado e progresso da criança (Professora F, Campo de pesquisa 2, grifos nossos).
A fala da professora reconhece os benefícios das tecnologias digitais para o aprendizado e desenvolvimento das crianças, alinhada às pesquisas de Guedes et al. (2019), Kilbey (2018) e Nobre et al. (2021). A docente destaca que, quando os dispositivos digitais são utilizados de forma responsável e com limites, como é o caso dos vídeos musicais educativos, podem ser benéficos para o aprendizado das crianças. Colaborando com esse posicionamento, acredita-se que a tecnologia, quando bem aplicada, pode ser uma aliada no processo de aprendizagem, contribuindo de forma eficaz para o desenvolvimento infantil.
4 CONCLUSÃO
Os resultados desta pesquisa oferecem uma compreensão abrangente dos impactos do tempo prolongado de exposição às telas durante os anos iniciais da infância, a partir das percepções tanto de familiares quanto de professoras da Educação Infantil. Evidencia-se, de forma contundente, a urgência de ações voltadas à conscientização e à formação contínua de educadores, ao passo que se revelam lacunas significativas no entendimento dos familiares sobre os efeitos adversos do uso excessivo de dispositivos digitais. A constatação de que aproximadamente 63% dos familiares identificaram comportamentos indicativos de dependência de telas - manifestados por reações intensamente negativas diante da retirada dos dispositivos - reforça a necessidade de intervenções educativas mais estruturadas e acessíveis.
Ademais, as perspectivas docentes revelam uma postura crítica e, ao mesmo tempo, ponderada, ao reconhecerem tanto os benefícios quanto os desafios trazidos pelas tecnologias digitais no contexto escolar. As preocupações quanto à redução das interações familiares e à substituição de vínculos humanos por interações mediadas por telas reforçam o alerta sobre os riscos do uso desregulado desses dispositivos, destacando seus impactos no desenvolvimento emocional e social das crianças.
O estudo chama a atenção para a complexidade do fenômeno, ao destacar que as telas, por si só, não são prejudiciais, mas que a ausência de critérios, limites e acompanhamento qualificado pode comprometer seriamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças. Nesse sentido, a pesquisa oferece subsídios importantes para a formulação de estratégias pedagógicas e práticas familiares mais conscientes, ressaltando o papel essencial da escola como parceira das famílias na construção de uma cultura de uso responsável das tecnologias desde a primeira infância.
As análises realizadas evidenciam desafios concretos: desde comportamentos de irritabilidade e atraso na linguagem até a dificuldade em estabelecer limites e lidar com as reações infantis frente à frustração. Tais aspectos demandam uma abordagem mais cuidadosa e integrada, capaz de articular escola, família e políticas públicas na promoção de práticas educativas alinhadas às necessidades do desenvolvimento infantil em uma era cada vez mais digitalizada.
Em síntese, embora esta pesquisa represente um avanço relevante na compreensão das percepções sobre o tempo de tela na infância, reforça-se a necessidade de investigações futuras que aprofundem aspectos ainda pouco explorados, como o conteúdo consumido, o contexto de uso e as estratégias de mediação familiar. A colaboração ativa entre educadores, familiares e gestores públicos, aliada a ações de sensibilização contínua, constitui-se como um caminho promissor para a construção de ambientes mais saudáveis e estimulantes ao desenvolvimento integral das crianças.














