1 INTRODUÇÃO: UM OLHAR PARA O PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO (PUC-SP)
A regulamentação da pós-graduação no Brasil data de meados dos anos de 19601 e ganha configuração nos anos de 1970, como resposta às demandas da sociedade brasileira no sentido de que fossem devidamente conceituados os cursos de pós-graduação, cuja definição legal encontrava-se “um tanto vaga, prestando-se a interpretações discordantes”. Ela emerge em um contexto de fechamento político, mas se consolida na transição do fechamento à abertura política e movimentação pelo processo de redemocratização do país.
O Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), inscreve-se nesse movimento. Criado na metade da década de 1970, ampliou o campo da educação na própria universidade. Inscrevia-se, assim, no movimento recente da pós-graduação stricto sensu brasileira, com o mestrado em Educação, abrindo-se a partir da região Sudeste, como um espaço de formação e de pesquisa a outras regiões deste país, em 1975.
Inicialmente denominado Educação: Supervisão e Currículo, trazia como finalidade “refletir sobre a realidade e captar seus elementos mais significativos, a partir dos quais será [tornar-se-ia] possível interferir na situação, mantendo ininterrupto o movimento dialético ação-reflexão-ação2”, aproximando-se dos interesses e das demandas do contexto. Explicitava a intenção de contribuir “com uma formação básica teórica (fosse ela científica ou filosófica) que abrisse perspectivas para a análise da problemática da educação brasileira, fornecendo condições para o desenvolvimento de pesquisa na área3”.
Desde sua criação, com área específica voltada para o desenvolvimento de estudos aprofundados de pesquisadoras(es), professoras(es) para o magistério superior e grupos de profissionais interessados na qualificação de alto nível, o Programa de Educação assumiu compromisso acadêmico-político-pedagógico, movendo esforços e caminhando ao longo das décadas, consolidando-se no cenário nacional e internacional.
A configuração didática esteve organizada em torno de temas. Entre eles encontravam-se: teorias de supervisão educacional, currículo escolar, relações entre supervisão e currículo, organização do trabalho pedagógico, avaliação educacional e formação de professores. Essa organização temática apresentava possibilidades de superação da tão conhecida como disciplinar, ocupando-se de questões cruciais da política educacional, da organização da educação e da escola.
O Programa, desde o início, tomou para si a problemática brasileira como contexto e objeto da pesquisa em educação, assumindo-a como compromisso histórico, princípio e postura coletiva que orientaram (orientam) os passos dessa relevante instância acadêmica da PUC-SP, conduzindo (re)formulações, ampliações, intercâmbios e relações sociais relevantes. O alcance da produção acadêmica, defesas de dissertações e teses, pode ser conferido em registros que adensam a sua trajetória de cinquenta anos ao lado do conjunto das atividades de articulação institucional, intercâmbios científicos, criação da Cátedra Paulo Freire em 1997, a primeira a conhecermos com esta denominação no Brasil, e a criação da Revista e-Curriculum.
As reformulações pelas quais passou o Programa de Educação: Supervisão e Currículo, assim nomeado na sua criação em 1975, hoje denominado “Educação: Currículo”, resultaram de reflexões e decisões coletivas, formação permanente dos corpos docente, discente e de funcionárias(os), constituindo-se em estudos e pesquisas, proposições curriculares e de políticas educacionais, gestão da educação, acesso e produção do conhecimento da realidade social e da política educacional.
É importante ressaltar que a experiência do Programa, enquanto corpo coletivo consciente que se debruça sobre si com vistas a compreender e intervir na própria realidade formadora e de atuação profissional, contribuiu para o aprimoramento e para o discernimento dos desafios e das possibilidades de superação. A primeira metade dos anos de 1980 se constituiu como importante fase no campo da avaliação no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP com a construção do paradigma da Avaliação Emancipatória, formulado pela professora Ana Maria Saul. No início dessa década, o Programa acolhia as ideias, seguida da presença física de Paulo Freire, quando da sua volta do exílio. Vejamos o extrato a seguir, constante em Breve história do PPG - Educação: Currículo4:
[...] em 1983, um ano após o seu credenciamento e oito anos após o seu início, já com a presença e as referências do pensamento de Paulo Freire, o Programa iniciou um processo de autoavaliação à luz do paradigma da Avaliação Emancipatória, tendo como referências teórico-metodológicas a avaliação democrática, a crítica institucional, a criação coletiva e a pesquisa participante, em uma matriz praxiológica visando a descrever, analisar e criticar uma dada realidade, para transformá-la.
Nessa fase, o exercício da reflexão e decisão coletivas, como práticas formativas, levou à participação de estudantes em seu Colegiado, notadamente a partir dos anos de 1980. Reconhecidamente, um gesto político de valorização da diversidade de experiências e conhecimentos, na trilha do conhecimento crítico. Foram assim criadas as condições para que professoras(es) e estudantes participassem da construção e vivência do paradigma em construção, denotando coerência com os princípios institucionais abraçados.
A formulação do paradigma da Avaliação Emancipatória5, orientado pela reflexão teórica, bem como a produção acadêmica e a socialização do conhecimento crítico das Ciências Humanas e Sociais, lançou as bases teóricas e metodológicas crítico-emancipatórias para a superação dos fundamentos autoritário e tecnicista no campo educacional. Um movimento de tamanha envergadura reverberou na efetivação do compromisso com a educação e a avaliação dialógicas, tanto no âmbito do Programa como na formação crítica de professoras(es), pesquisadoras(res) e gestoras(es). Empenho acadêmico, social, político e pedagógico que ganhou materialidade como prática investigativa coletiva e reencaminhamento do modo de fazer a gestão do Programa, experienciando-se a paridade.
O trabalho de escuta, participação coletiva e gestão paritária mostrou a relevância acadêmica e social do paradigma da Avaliação Emancipatória, que orientou um olhar coletivo para os modos de fazer gestão, produzir conhecimento crítico, o exercício da pesquisa como processo de leitura e intervenção na realidade e praticar o ciclo do conhecimento6, conforme vivenciou e orientou o Patrono da Educação Brasileira.
Em síntese, a avaliação, cunhada nos anos de 1980 por Ana Saul como Avaliação Emancipatória, superadora das marcas das relações autoritárias, verticais e tecnicistas, foi e continua sendo uma relevante contribuição acadêmica da autora para a educação brasileira, particularmente para o campo do currículo, da avaliação educacional e no interior do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo.
2 A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E A FORMAÇÃO CRÍTICA, PERMANENTE: A CONTRIBUIÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO
O Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo nasce em um contexto em que a sociedade brasileira vivia o processo de redemocratização, repensava e reencaminhava seus processos de participação social e se voltava para as suas questões sociais. Contexto de discussões e avanços na área da educação e no campo do currículo, quando eclodia uma diversidade de significados (Forquin, 1993), assim como muitas e diferentes acepções (Pacheco, 1996). Entretanto, todas reivindicavam a relação entre educação e sociedade, mediada pelo conhecimento.
Em meio a esse movimento de reconceptualização, inscrevia-se o Programa como parte e chão das discussões, contribuindo para a formação crítica de profissionais no campo da educação e áreas afins, tendo como desdobramentos as reformas curriculares, os eventos produzidos, a criação da Cátedra Paulo Freire e da Revista e-Curriculum.
3 O SEMINÁRIO TENDÊNCIAS E PRIORIDADES DE CURRÍCULO NA REALIDADE BRASILEIRA
Em 1984, na esteira das reflexões críticas da educação e do currículo, foi proposto o Seminário Tendências e Prioridades de Currículo na Realidade Brasileira, evento nacional, realizado no contexto do movimento das Diretas Já, antecedendo a promulgação da Constituição Cidadã de 1988. A iniciativa materializou o compromisso acadêmico, social e político do Programa com a realidade da educação brasileira, abrindo o espaço de discussão para além das salas de aula.
Um evento aberto ao público, com o propósito de ampliar a “visão crítica das tendências do Currículo e suas origens, bem como do imbricado conjunto de fatores que determinam a identificação das prioridades e respectivas soluções encontradas”. (Seminário Tendências e Prioridades de Currículo na Realidade Brasileira, 1984, p. 5).
Esse compromisso estava evidenciado na proposta do Seminário, assim como nas condições criadas para efetivá-lo, ao reunir professoras(es)-pesquisadoras(es) do Brasil e mobilizar temas presentes, historicamente, no cenário da educação brasileira, que emergiam com o processo de abertura política. Desse modo, foi organizada uma agenda temática de discussão sobre Currículo e Democracia, Autoritarismo e Currículo, Planejamento Participativo, Problematizações Relativas ao Currículo, além de relatos de experiências que apontavam como resistência na cena educacional. Entre outras, foi abordada a educação popular, por meio de Uma Experiência na Periferia de São Paulo, apresentada por José Carlos Barreto, e a Ação Educacional em Minas Gerais. Esta última, uma das experiências significativas que o Brasil experimentava naquele período, foi desenvolvida na Secretaria de Educação do estado de Minas Gerais, sob a orientação de Neidson Rodrigues.
Sem perder de vista os temas específicos da teoria curricular, o Seminário abordou, entre outros temas: Tendências de currículo presentes na educação brasileira; As prioridades curriculares; Os problemas enfrentados por segmentos da sociedade civil.
Expositoras(es) externas(os) e internas(os) à PUC-SP trouxeram valiosas contribuições. Entre outros, estiveram presentes Moacir Gadotti com a reflexão sobre democracia, Paulo Freire com a Pedagogia Problematizadora, Ana Saul com a perspectiva da Avaliação Emancipatória, Antonio Chizzotti enfatizando as tendências curriculares. A política oficial de currículo para a educação brasileira e outras contribuições também se fizeram presentes no debate.
Segundo a Comissão Organizadora, “talvez o fato mais importante desta reunião de educadores tenha sido o confronto entre diferentes leituras da realidade educacional, possibilitando aos participantes uma reflexão mais profunda sobre a sua prática diária”. (Seminário Tendências e Prioridades de Currículo na Realidade Brasileira, 1984, p. 6).
Não restam dúvidas de que o Seminário trouxe uma importante contribuição para os processos formativos e as práticas curriculares, em diferentes espaços de atuação profissional, cumprindo assim a função anunciada.
4 A CÁTEDRA PAULO FREIRE DA PUC-SP: HOMENAGEM E ESPAÇO DE FORMAÇÃO
O tempo-espaço Paulo Freire no Brasil está situado no antes e no depois do exílio. Foi a cidade de São Paulo que, em sua volta para o Brasil, no pós-exílio, o acolheu como o lugar de residência, enquanto a PUC-São Paulo e a UNICAMP tornaram-se espaços da docência. A cidade de São Paulo oportunizou a Paulo Freire retomar o exercício da gestão pública da educação, ao assumir a Secretaria de Educação da cidade de São Paulo, no governo da Prefeita Luiza Erundina. O Partido dos Trabalhadores (PT), por sua vez, teve Paulo Freire como seu membro e partícipe da sua criação.
No Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, Paulo Freire foi professor por 17 anos, voltados para a formação crítica e permanente de professoras(es) e pesquisadoras(es) no exercício do ensino, da pesquisa e da orientação. Destaca-se, nessas quase duas décadas, a prática da codocência com a professora Ana Saul, na vivência da pedagogia dialógica. Contribuição epistemológica e metodológica que oportunizou discussão, reflexão e desenho de intervenções político-pedagógicas de questões da cultura, da sociedade, da educação brasileira, em contextos formativos gerados no diálogo mediado pelas experiências de professoras(es) e outras(os) profissionais vinculadas(os) ao Programa.
Essa contribuição acadêmica e social estendeu-se para espaços públicos e para o âmbito dos movimentos sociais, em diferentes campos do conhecimento. Marcou presença na gestão da educação pública na Secretaria de Educação da cidade de São Paulo e para o movimento de Educação de Adultos7.
O legado freireano foi cuidadosamente assumido pelo Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Ganhou corporeidade como ensino-pesquisa, memória-atualidade, ação-reflexão quando da passagem do professor Paulo Freire para o plano espiritual, em 02 de maio de 1997, com a criação da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP.
A Cátedra Paulo Freire da PUC-SP foi criada para homenagear o Mestre, hoje Patrono da Educação Brasileira8, constituindo-se em um espaço “voltado ao desenvolvimento de pesquisas e estudos em pós-graduação sobre a obra de Paulo Freire e suas repercussões teórico-práticas para a educação e áreas afins, dentro e fora do Brasil”9. Entre os compromissos que materializam a razão de ser da Cátedra do Programa em Educação: Currículo, estão a pesquisa como ação coletiva e a Rede Freireana de Pesquisadores, entre outras iniciativas acadêmicas.
O Programa acumulava a experiência do trabalho coletivo com estudantes, marcadamente nos anos 198010, cujos projetos sistematizados e desenvolvidos no período deram origem à pesquisa coletiva, com destaque para aquela que estudou a escola pública para as camadas populares. Uma marca do compromisso do Programa, desde a sua criação, que se junta à concepção crítica dos estudos de currículo. Assim, é possível afirmar que um dos traços da natureza do Programa é o pensar, fazer e socializar coletivamente.
Nessa trilha, situa-se a pesquisa Paulo Freire na atualidade: legado e reinvenção - uma pesquisa a várias mãos, em decorrência da qual foi criada a Rede Freireana de Pesquisadores, que se constituiu em práticas inovadoras e consolidadas com o trabalho coletivo e a pesquisa formação que buscou “investigar a materialidade e a reinvenção do pensamento de Paulo Freire, em diferentes contextos da educação brasileira, na atualidade” (Saul, 2016, p. 11).
A abrangência dessa pesquisa atinge o Brasil no seu conjunto, mobilizando 14 programas de pós-graduação de universidades brasileiras, em 10 estados da federação, sediados nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do país, envolvendo pesquisadoras(es) brasileiras(os) e internacionais, que abraçaram a pesquisa-ação, dando origem à Rede Freireana de Pesquisadores, com os estudos em vários contextos da federação brasileira e assessoria de professores de universidades brasileiras e estrangeiras11.
Um movimento de articulação, intercâmbio e formação permanente, que possibilitou desdobramentos da pesquisa e envolvimento de um efetivo diverso de pesquisadoras(es), por si só, já constitui uma relevante contribuição. A ela se juntam os resultados empíricos, razão primeira do coletivo, que buscou conhecer e anunciar pesquisas realizadas com inspiração freireana, passíveis de inspiração e reinvenção, em distintas realidades locais e nacionais.
A busca por “apreender a práxis curricular por meio da análise de produções bibliográficas, dissertações, teses e produção de dados empíricos” (Saul, 2016, p. 15), indicou, entre muitos achados, que o “legado [freireano] e a reinvenção, necessariamente se interpenetram” (idem, p. 27), oferecendo subsídios para gestores públicos e práticas pedagógicas que mostram experiências construídas, reinventadas, em todo o Brasil, a partir da contribuição dos princípios de Paulo Freire.
Em síntese, é no espaço acadêmico e singular da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP que se desenvolveram estudos e pesquisas sobre e a partir da obra de Paulo Freire e onde se situa a coordenação da Rede Freireana de Pesquisadores, expressão vigorosa da pesquisa feita a muitas mãos com inspiração na práxis freireana, efetivando-se como criatividade, criticidade e reinvenção, sob a orientação da Professora Ana Saul.
A Rede se origina do desenho metodológico de uma pesquisa coletiva, a partir de núcleos formados por professoras(es) orientadoras(es), vinculadas(os) à pós-graduação brasileira, que em seus distintos contextos de trabalho desenvolviam pesquisas locais.
5 A REVISTA E-CURRICULUM: VEÍCULO DE MEDIAÇÃO E DE DIVULGAÇÃO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA
A Revista e-Curriculum nasce de um esforço coletivo de docentes e discentes do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, que denotavam possuir visão política e acadêmica relevante no campo da comunicação do conhecimento na atividade de pesquisa. A mobilização e a articulação tiveram início em 2004, resultando na criação do periódico em 200512, um instrumento de comunicação para a difusão do conhecimento científico, com vistas a estabelecer a relação entre a comunidade acadêmica e a sociedade, intercambiando saberes e experiências.
Em sua caminhada, a Revista e-Curriculum foi objeto de avaliação interna e externa, que levou a mudanças, como era de se esperar. É possível conferir em seus números publicados entre 2005 e 2025 alterações na diagramação, na seleção de imagens, cores e traços significativos de seu projeto de identidade visual, acompanhando a dinâmica das temáticas pronunciadas na atualidade em que foram editadas. Seguindo as normas científicas e editoriais nacionais e internacionais, a estrutura e agenda temática da Revista acompanham a dinâmica da sociedade e as demandas educacionais, como mostram os números publicados até o presente momento13.
Essas mudanças qualificaram a Revista, ampliaram a parceria interinstitucional, incluindo entidades acadêmicas, como a Associação Brasileira de Currículo (ABdC), reafirmando, assim, a finalidade para a qual foi criada, conforme objetivo exposto a seguir:
[...] estimular a publicação, difundir estudos e pesquisas e elevar a qualidade da produção científica na área da educação, nos âmbitos nacional e internacional, com uma perspectiva crítica e emancipatória, comprometida com a superação de todo tipo de desigualdade e opressão, com particular interesse na subárea de Currículo14.
O tripé estímulo à publicação, difusão de estudos e pesquisas e elevação da produção acadêmica em educação dá sustentação à Revista e-Curriculum, instituindo-a como um conceituado e consolidado instrumento de comunicação científica.
No que se refere aos temas, as questões veiculadas pela e-Curriculum evidenciam os compromissos que gravitam em torno da política do conhecimento que a orienta. Isto é, o Currículo em sua complexidade e (re)significação, objeto de reflexão e intervenção na realidade. Desse modo, esse veículo de comunicação proporciona o pensar-fazer-socializar perspectivas e experiências de currículo para o âmbito escolar e dos movimentos sociais como princípio e compromisso com a pesquisa em educação e com as políticas curriculares.
Daí, a diversidade dos construtos temáticos e dossiês que compõem os números que circulam para o grande público e a afirmação da relevância social e acadêmica da Revista, também observada no elevado número de acessos registrados.
O primeiro número da Revista e-Curriculum circulou em 2005, marcando um novo tempo do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP. Ele registrava a mobilização, o processo de criação e já anunciava os eixos temáticos que orientariam sua caminhada, conforme o propósito temático a seguir:
[...] publicar trabalhos originais em torno de temas sobre o currículo, o estado e a sociedade, e temas sobre o currículo e a formação de professores. Esses temas cobririam linhas de pesquisa que analisam a relação do currículo com as políticas públicas, a avaliação e a cultura, e os vínculos do currículo com a formação de professores, as tecnologias da informação e comunicação e a interdisciplinaridade, além de outros campos novos de investigação abertos pelas pesquisas em educação (Chizzotti, 2005, p. 2).
O anúncio foi concretizando-se ao longo das duas décadas, com um campo temático diversificado, assim como a sua organização e abordagens. Alguns desses temas serão destacados com a intenção de trazer elementos que ressaltem a importância social do conteúdo da Revista para o debate acadêmico e para as práticas curriculares.
Na escolha de trabalhos publicados, sublinhamos a edição temática referente à Educação de Jovens e Adultos, publicada em 2009, sob o tema “A pesquisa sobre educação não escolar de jovens e adultos” (v. 5, n.1), que ofereceu contribuições para o debate da temática curricular no campo da EJA. Destacamos a publicação que circulou em 2010 (v. 5, n.2), reunindo um conjunto de “artigos relativos às questões curriculares trazidas pela alfabetização e temas suscitados pela avaliação, a reforma educacional, as novas tecnologias nos processos educacionais” (Chizzotti, 2010, p. 1), difundindo temas cruciais para os processos formativos, a atuação profissional e a pesquisa em educação.
Em edição especial, a atenção voltou-se para dois números que circularam em 2011, um referente às Tecnologias na Educação (v. 7, n.1), com foco no Web Currículo, que teve como resposta à chamada pública um “amplo e diversificado conjunto de artigos submetidos para publicação” (Almeida; Silva, 2011, p. 1); e outro, uma edição comemorativa dedicada ao Aniversário de Paulo Freire, homenageando os 90 anos de nascimento do andarilho da utopia (v. 7, n.3).
No que se refere aos Dossiês, veio a público em 2018, o número referente aos 50 anos do lançamento do livro Pedagogia do Oprimido, obra de Paulo Freire mais difundida no mundo, cunhado como 50 anos da pedagogia do oprimido: ler a realidade e construir a esperança (v. 16, n. 4, 2018). Essa edição reuniu 17 artigos, entre os quais dois internacionais e uma valiosa entrevista com Carlos Rodrigues Brandão.
Um outro Dossiê Temático a ser destacado, foi produzido em 2021, acompanhando o momento desafiador pelo qual passou a sociedade brasileira no plano político e sanitário, organizado sob a indagação: De que currículo precisamos em tempos de democracia fraturada, subtração de direitos sociais e crise sanitária de profunda gravidade? (v. 19, n. 4). A intenção dessa edição foi oportunizar a reflexão em torno de experiências democráticas e humanizadoras veiculadas pela Revista.
Seguindo o princípio freireano segundo o qual “a melhor maneira que nós temos de pensar mais ou menos certo é pensar a prática e saber que esta prática não é individual, mas que é social” (Freire, 1982, p. 92), a Equipe Editorial lançou um olhar avaliativo sobre o caminhar da Revista e-Curriculum, em uma edição datada de 2023 (v. 21). Essa exitosa caminhada possibilitou a sua manutenção entre os periódicos mais bem conceituados, segundo a Avaliação Qualis CAPES (A2). Possibilitou ainda a consolidação do periódico, anunciou, naquele mesmo ano, o desafio de adotar “publicação em fluxo contínuo”, como registrado no extrato a seguir:
Desde a sua fundação, no ano de 2005, a Revista adotava a publicação em números, começando com um ao ano. De 2006 a 2010 passou a publicar dois números, de 2011 a 2014 ampliou-se para três anuais, e, desde 2015 com a publicação trimestral, passou a contemplar quatro números por ano (Chizzotti; Almeida; Uchôa, 2023, p. 1).
A partir da mencionada decisão, 2023/2024 torna-se marcador de um novo tempo para a Revista e-Curriculum, no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Dessa fase, data o Dossiê “A BCN - Formação no cenário de reabertura do debate político no Brasil” (v.22, 2024), número temático com o qual se evidencia a complexidade do campo da formação, e que, no olhar da Equipe Editorial do Dossiê, expressa:
[...] diversidade de estudos acerca de diferentes contextos, analisados mediante perspectivas teóricas e metodológicas diferenciadas, suscitando uma visão ampliada do conhecimento sobre a educação e o currículo e novos problemas de investigação (Almeida; Uchôa, 2024, p. 2).
Os artigos trazem uma leitura teórico-prática de autoras(es), que atuam em universidades nacionais e internacionais, em diferentes espaços acadêmicos e sociais e evidenciam a atualidade e o vigor do pensamento freireano, confirmando a e-Curriculum como um periódico que oferece valiosa contribuição na difusão do conhecimento crítico, produzido e articulado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo.
O olhar para a sociedade em seu conjunto, a análise da situação educacional brasileira e o compromisso político-pedagógico mobilizam as ações do Programa, da Cátedra Paulo Freire e da Revista e-Curriculum nas suas décadas de formação, produção e difusão do conhecimento.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de cinco décadas, o Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo vem acompanhando a dinâmica da sociedade brasileira, buscando atender às demandas de formação no campo da educação, firmando parcerias interinstitucionais, de modo a contribuir, efetivamente, com políticas curriculares municipais, estaduais e nacionais. Trabalho coletivo, participação interinstitucional e aproximação da universidade com os problemas da sociedade são características que movem historicamente o Programa e orientam a formação permanente.
Uma pluralidade de ações move o Programa, a exemplo do Seminário Internacional Web Currículo e o Encontro de Pesquisadores, eventos científicos com realização em anos alternados, parcerias com universidades nacionais e internacionais, projetos de cooperação e convênios que oportunizam intercâmbios e Estágios de Pesquisa Internacionais.
Uma política de acompanhamento dos egressos estabelece a relação temporal-acadêmica-afetiva do Programa, oportunizando intercâmbios, cooperação e produções conjuntas. Nessa relação, a Cátedra Paulo Freire, a Rede Freireana de Pesquisadores e a Revista e-Curriculum assumem funções estratégicas e cumprem o papel de ampliar os raios do Programa Cinquentenário, fortemente delineado pela efervescência gerada com a Avaliação Emancipatória, em termos da formação permanente, da pesquisa engajada, da produção de conhecimento crítico e da socialização de saberes e fazeres esteados no pensamento de Paulo Freire.














