Introdução
Este artigo apresenta resultados de uma investigação de pós-doutoramento1, cujo objetivo foi analisar as contribuições epistemetodológicas de Pierre Bourdieu para a pesquisa no campo da Política Educacional2. A referida investigação envolveu um estudo epistemológico de obras de Bourdieu e de autores que pretenderam indicar as contribuições de Bourdieu para a pesquisa no campo da Política Educacional. Este texto apresenta os delineamentos analíticos empreendidos, especificamente tratando do modo como os conceitos de Bourdieu têm sido adaptados para os estudos no campo da Política Educacional.
O termo “epistemetodologia” foi apresentado por Tello (2012) e Tello e Mainardes (2015) para expressar a indissociabilidade e interdependência entre epistemologia e metodologia. Para os autores, a metodologia refere-se à maneira pela qual os componentes metodológicos são epistemologicamente concatenados. Na visão deles, para fins de ensino, a questão metodológica acabou sendo simplificada, separando-a do que é o seu suporte, a epistemologia. Conforme Mainardes e Tello (2016), o termo “epistemetodologia” objetiva exatamente expressar a articulação existente entre decisões epistemológicas e metodologia da pesquisa. Em uma pesquisa caracterizada pela consistência e pela coerência interna, a perspectiva epistemológica, o posicionamento epistemológico e o enfoque epistemetodológico mostram-se articulados e integrados. Nos relatórios de pesquisa e publicações, constata-se, por meio da metapesquisa, que nem sempre há coerência entre perspectiva epistemológica, posicionamento epistemológico e enfoque epistemetodológico. Isso ocorre por razões diversas, inclusive devido ao insuficiente nível de reflexividade e de vigilância epistemológica (Mainardes; Tello, 2016).
As questões epistemológicas e da investigação analítica de autores referentes da Política Educacional é um tema relativamente recente na literatura do campo e ainda são poucos os estudos que se dedicam a essa análise. Nos últimos 12 anos, pelo menos, a Red Latinoamericana de Estudios Epistemológicos en Política Educativa (ReLePe)3 vem se dedicando ao debate sobre os estudos epistemológicos em Política Educacional. Um dos seus núcleos de investigação destina-se a conhecer a profundidade teórica e epistemológica de autores referentes do campo. Este estudo integra os debates da referida rede de pesquisa que tem produzido discussões e subsídios teóricos para a pesquisa e a formação de pesquisadores no campo da Política Educacional.
Em termos metodológicos, de forma concisa, a pesquisa envolve: 1) estudo de contribuições de duas principais obras de Bourdieu que abordam mais especificamente questões epistemológicas e metodológicas: Ofício de Sociólogo (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010) e Convite à Sociologia Reflexiva (Bourdieu; Wacquant, 2022). Devido à característica relacional, entrelaçada e não linear do pensamento de Bourdieu, há um conjunto de outras obras que contribuem para ampliar a compreensão dessas questões4. Contudo, as duas obras selecionadas retratam mais concisamente aquilo que é o núcleo da epistemologia e da prática de investigação de Bourdieu; 2) levantamento e análise de contribuições de estudos que pretenderam indicar como os conceitos de Bourdieu podem ser estendidos à investigação em Política Educacional.
Com base neste estudo, argumentamos que Bourdieu desenvolveu uma ampla gama de recursos para a pesquisa científica, resultando em contribuições epistemetodológicas substanciais que podem ser estendidas aos debates teóricos e epistemológicos da pesquisa no campo da Política Educacional. De um lado, esses aportes auxiliam a aprimorar os processos que envolvem a condução da investigação no campo da Política Educacional. De outro, possibilitam ampliar a compreensão referente ao ciclo de políticas educacionais, que diz respeito aos processos de formulação e implementação das políticas.
Na organização deste artigo, na sequência, abordamos os elementos fundamentais da teoria de Bourdieu, necessárias ao entendimento de sua epistemologia e metodologia, bem como uma conceitualização de epistemologia na interface com a abordagem bourdieusiana. Posteriormente, apresentamos aportes epistemetodológicos de Bourdieu para a pesquisa no campo da Política Educacional. Ao final, trazemos algumas considerações finais.
A teoria de Pierre Bourdieu: elementos fundamentais
Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo francês, possui uma relevante contribuição teórica e metodológica, cujo impacto reverbera em diversos campos de conhecimento em virtude da natureza multitemática da sua obra. No campo educacional, seu legado e suas contribuições, bem como as apropriações das suas elaborações teóricas, têm sido observados por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros (por exemplo, Catani, 2022; Catani; Catani; Pereira, 2001, 2002; Gale; Lingard, 2015; Grenfell; James, 2004; Isola; Amar, 2013; Nogueira; Nogueira, 2002, 2009; Oliveira; Silva, 2021; Rawolle; Lingard, 2013, 2022, 2023; Reay, 2019; Silva, 1996; Stahl et al., 2024; Valle, 2007).
Uma das particularidades do pensamento de Bourdieu está relacionada à sua problemática teórica, que diz respeito a como contornar as oposições entre modos subjetivistas e objetivistas de teorização. A oposição entre subjetivismo e objetivismo era algo que dividia as Ciências Sociais. Bourdieu entendia que era necessário ir além do antagonismo desses modos de conhecimento; contudo, ao mesmo tempo, preservar aquilo que foi ganho com cada um deles. Ambos são primordiais, porém proporcionam apenas um lado de uma epistemologia para compreender o mundo social. Portanto, ambos os modos de conhecimento precisam ser utilizados para constituir uma teoria da prática autêntica (Grenfell, 2018).
Nessa perspectiva, Bourdieu desenvolveu seus estudos levando em conta as contribuições de um conjunto de tradições intelectuais (marxismo, fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, entre outras). Por essa razão, a característica principal da teoria de Bourdieu consiste no seu não pertencimento às correntes sociológicas tradicionais, mas a um contexto em que o pensamento científico se fundamenta em múltiplas abordagens (Valle, 2007).
O entendimento da teoria da prática de Bourdieu é fundamental para compreender a sua epistemologia, uma vez que se trata de uma abordagem essencialmente relacional em que subjetividade e objetividade, teoria e prática fazem parte de um quadro analítico integrado. Grenfell (2018) enfatiza que a epistemologia de Bourdieu exige um tipo de pensamento dialético e seus conceitos precisam ser considerados de forma integrada.
Uma expressão da epistemologia relacional adotada por Bourdieu são as suas três principais ferramentas de pensamento, os conceitos de campo, habitus e capital. Com o conceito de campo, Bourdieu pôde mapear relações estruturais objetivas. Contudo, ele precisava mostrar também que essa objetividade era construída por subjetividades individuais, o habitus (Grenfell, 2018). Assim, campo e habitus, separadamente, representam os aspectos objetivos e subjetivos dos fenômenos sociais. Todavia, ambos os conceitos devem ser considerados inseparáveis, constituídos mutuamente. Com esses conceitos, Bourdieu empenhou-se em demonstrar como a estrutura social e o indivíduo contribuem para constituir um ao outro.
Em uma formulação concisa, elaborada por Maton (2018), é possível perceber a natureza entrelaçada dos conceitos de Bourdieu: a nossa prática é resultado das relações entre nossas disposições (habitus) e nossa posição em um campo (capital), dentro de um espaço social (campo). Assim, as práticas não são simplesmente o resultado do nosso habitus, mas, sim, de relações entre nosso habitus e nossas circunstâncias atuais (a posição dentro de um espaço social). Habitus representa os modos de agir, pensar, sentir e ser. Campo corresponde aos espaços de relações sociais. Capital define-se pelas suas diferentes formas: econômico, cultural, social, simbólico, acadêmico etc.
A particular conexão entre teoria e prática também revela o traço relacional característico da abordagem de Bourdieu. Seus conceitos foram elaborados no decorrer de seus estudos empíricos, tendo, portanto, como ponto de partida fenômenos da prática social concreta. Por isso, conforme explica Grenfell (2018, p. 16), “[...] qualquer estudo a ser realizado num esquema bourdieusiano precisa começar com dados empíricos reais”. Foi assim que, ao longo do percurso de Bourdieu, a sua abordagem se tornou também uma metodologia. Uma “teoria da prática” que é ao mesmo tempo uma “prática da teoria” (Grenfell, 2018, p. 277).
É com base nessa compreensão, daquilo que caracteriza essencialmente a abordagem bourdieusiana, que empregamos, neste estudo, a expressão “contribuições epistemetodológicas” de Bourdieu. É porque se trata de uma epistemologia dinâmica que se constrói a partir da pesquisa empírica e que, portanto, é também uma “teoria da prática da pesquisa” (Grenfell, 2018, p. 276). Com o intuito de refinar o entendimento dessa apreensão, a seguir são mencionadas algumas considerações conceituais de epistemologia e sua intersecção com a Sociologia do Conhecimento de Bourdieu.
Epistemologia e Sociologia do Conhecimento de Bourdieu: algumas considerações conceituais
A epistemologia consiste no alicerce de qualquer fazer científico e abrange fundamentos teórico-metodológicos e correntes do pensamento científico. A compreensão da sua definição envolve considerar as diversas perspectivas a partir das quais ela foi sendo abordada na literatura científica. Embora a Filosofia5 seja a área em que, a princípio, a epistemologia emergiu, outras áreas como a Sociologia também passaram a ocupar-se desse assunto6. Não é objetivo aqui discorrermos sobre todo o debate da problemática da epistemologia, mas tão somente partir de uma acepção geral com o propósito de clarificar os aspectos abordados neste estudo.
Em uma definição abrangente, é possível elucidarmos o conceito de epistemologia a partir de considerações de Japiassu (1986), traçadas na obra Introdução ao pensamento epistemológico. O autor assim a define: “Por epistemologia, no sentido bem amplo do termo, podemos considerar o estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais” (Japiassu, 1986, p. 16). A epistemologia tem como papel “[...] estudar a gênese e a estrutura dos conhecimentos científicos” e, mais especificamente, “[...] pesquisar as leis reais de produção desses conhecimentos” (Japiassu, 1986, p. 38).
A partir dessa conceitualização, o autor aponta três tipos de epistemologia: 1) Epistemologia global ou geral, quando se trata do saber globalmente considerado; 2) Epistemologia particular, quando se trata de um campo particular do saber; 3) Epistemologia específica, quando se considera uma disciplina intelectualmente constituída em uma unidade bem definida do saber, de modo a estudá-la, demonstrando sua organização, seu funcionamento e as possíveis relações com outras disciplinas7. Com essa tipologia, por exemplo, podemos relacionar o seguinte: a) em termos de epistemologia geral, é possível situar, como uma de suas modalidades, a Filosofia das Ciências, como sugere Japiassu (1986, p. 33); b) em termos de epistemologia particular, é possível tratar da epistemologia das Ciências Humanas, assim como é feito por Domingues (2004); c) em termos de epistemologia específica, é possível falar em epistemologia da pesquisa em Educação, tal como é abordado por Sánchez Gamboa (1998), ou mesmo, estudar o campo da Política Educacional, tal como vem sendo desenvolvido por Tello e colaboradores quando tratam das epistemologias da Política Educacional (Tello, 2012, 2013; Tello; Mainardes, 2015).
Na sua constituição, a epistemologia situa-se na intersecção de diversos campos disciplinares que a abordam face às suas particularidades. Japiassu (1986) elenca pelo menos quatro disciplinas: 1) Filosofia das Ciências: envolve diversas teorias do conhecimento que propiciam reflexões sobre os princípios fundamentais para que a ciência se torne possível; 2) História das Ciências: aborda a história dos conhecimentos científicos, isto é, seu desenvolvimento e sua evolução situados no tempo e em um contexto. A historicidade é entendida como primordial à epistemologia, já que o ponto de partida para a ciência, no presente, é aquilo que cientificamente se produziu no passado; 3) Psicologia das Ciências: possui contribuições de Piaget e da Psicologia Genética, a qual trata da origem do conhecimento no ser humano a partir do estudo do desenvolvimento das funções cognitivas; e 4) Sociologia do Conhecimento: aborda o conhecimento como produto de uma construção social em determinado contexto sociocultural. Nessa perspectiva, pressupõe-se que o conhecimento científico contém um pano de fundo, que pode envolver um fator filosófico ou ideológico, religioso, econômico, político ou outro aspecto sociocultural. O papel da Sociologia do Conhecimento é estabelecer a ruptura entre os saberes comuns (conhecimentos espontâneos e ideológicos) e o saber científico.
É no âmbito da Sociologia do Conhecimento que se situam as contribuições epistemológicas de Bourdieu. Ele se formou em Epistemologia e História da Ciência durante os seus estudos de Filosofia, nomeadamente com Georges Canguilhem8 (Sapiro, 2020). Bourdieu, seguindo um de seus influenciadores, Gaston Bachelard9, acreditava no racionalismo científico e defendia um racionalismo aplicado (Sapiro, 2020). Dessa maneira, Bourdieu concebia a epistemologia como a “codificação de uma profissão” (de um ofício), a explicação constante dos “princípios práticos que alguém implementa na sua prática”, e que se tornam regras suscetíveis de serem adotadas por outros, “regras coletivas” (Bourdieu, 2012, p. 15210apud Sapiro, 2020, local. 11913, tradução nossa). Como o próprio Bourdieu e seus colaboradores afirmam, é “[...] na sociologia do conhecimento sociológico que o sociólogo pode encontrar o instrumento que permite dar sua força plena e sua forma específica à crítica epistemológica [...]” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010, p. 87). Tal crítica epistemológica pressupõe a análise sociológica das condições sociais dos diversos erros epistemológicos, isso significa a ruptura com as pré-noções do pesquisador na análise do objeto. Além disso, segundo os autores, “[...] o sociólogo pode encontrar um instrumento privilegiado da vigilância epistemológica na sociologia do conhecimento, meio de aumentar e dar maior precisão ao conhecimento do erro e das condições que o tornam possível e, por vezes, inevitável [...]” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010, p. 12).
Um dos maiores pontos fortes da sociologia de Bourdieu é que ele nunca perdeu de vista a praticidade das questões epistemológicas e a sua importância no fazer científico (Jenkins, 1992). Na perspectiva de Bourdieu, epistemologia pode ser definida como “[...] o discurso sobre a natureza e o status do conhecimento” (Bourdieu, 1991 apud Jenkins, 1992, p. 26, tradução nossa). Algumas questões-chave apresentadas por Jenkins (1992, p. 26, tradução nossa) auxiliam a compreender melhor os aspectos envolvidos nessa definição: “Como posso conhecer x? Como é possível dizer que conheço x? Qual é o status ou autoridade do meu conhecimento de x?”, ou “O que devo fazer para conhecer x? Como devo fazer isso? Quais são as implicações para o meu conhecimento de x ao adotar um procedimento de pesquisa em vez de outro?”. As respostas a essas questões envolverão tanto aspectos práticos que correspondem ao método, como filosóficos ou teóricos, que integram a base metodológica e formam o discurso sobre o método (Jenkins, 1992). Com isso, é possível percebermos mais claramente em que medida o teórico/filosófico e o prático/empírico se constituem vinculados no fazer científico. Essa é, por certo, uma das questões epistemológicas nevrálgicas dos aportes de Bourdieu. Na seção a seguir, abordamos desdobramentos dessas contribuições e como eles podem ser estendidos à pesquisa no campo da Política Educacional.
Bourdieu e a pesquisa em Política Educacional: contribuições epistemetodológicas
O conjunto teórico de Pierre Bourdieu proporciona aos pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento, e neste estudo em particular, do campo da Política Educacional, um valioso aparato epistemetodológico para a prática de investigação científica. A sua abordagem oferece princípios que são significativos em sentido amplo e que aludem à própria condução da investigação. Dessa forma, apresentamos, a seguir, uma apreciação de contribuições de Bourdieu para a pesquisa em Política Educacional a partir de duas de suas obras (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010; Bourdieu; Wacquant, 2022) e de estudos que pretenderam indicar como os conceitos de Bourdieu podem ser adaptados para a pesquisa em Política Educacional.
Questões epistemetodológicas a partir de obras de Bourdieu
Do conjunto de obras de Bourdieu, Ofício de Sociólogo (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010) e Convite à Sociologia Reflexiva (Bourdieu; Wacquant, 2022) apresentam elementos que consubstanciam a essência da sua epistemologia e prática de investigação. Por isso, são referenciais para os propósitos do presente estudo. Além dessas, outras obras, tais como O poder simbólico (Bourdieu, 1989), abordam aspectos que auxiliam a complementar a compreensão desse assunto.
Em Ofício de Sociólogo, os autores sistematizam uma “pedagogia da pesquisa” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010, p. 12), expondo princípios de uma prática profissional e atitudes em relação a essa prática. O livro contém três seções principais: 1ª) A ruptura; 2ª) A construção do objeto; e 3ª) O racionalismo aplicado. Além dessas três partes, a obra possui introdução, conclusão, uma seção com um conjunto de textos selecionados11 e outra seção com uma lista de leituras complementares. Cada uma das partes possibilita apreendermos elementos indispensáveis à pesquisa. Sumariamente, o Quadro 1 permite uma visualização geral de algumas contribuições das três principais partes.
Parte do livro | Ideia central | Elementos epistemetodológicos |
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1ª) A ruptura | O fato é conquistado: ruptura com pré-noções e contestação de noções do senso comum. | Vigilância epistemológica: submeter a prática de investigação a uma interrogação sistemática e reflexão em relação ao método no decorrer de toda a atividade científica. |
2ª) A construção do objeto | O fato é construído: construção do objeto considerando a constituição de um modelo teórico que possibilite analisá-lo em um sistema de relações. | Toda prática científica implica pressupostos teóricos: utilização consciente da teoria (teoria do conhecimento do objeto e teoria do objeto); todo objeto propriamente científico é consciente e metodicamente construído. |
3ª) O racionalismo aplicado | O fato é conquistado, construído, constatado: constatação dos fatos construídos pelas hipóteses teóricas que devem ser validadas. | Dialética entre teoria e experimentação: implicação mútua entre teoria e operações de pesquisa. |
Fonte: Elaborado pela autora com base em Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010).
A obra contém uma exposição densa de princípios essenciais do racionalismo aplicado nas Ciências Sociais, bem como uma seleção de um conjunto de textos extraídos de obras de historiadores e filósofos da ciência, que ilustram os argumentos-chave da teorização elaborada por Bourdieu e colaboradores. Na seleção, são apresentados um total de 45 textos dos seguintes intelectuais:
Preâmbulo: Georges Canguilhem e Gaston Bachelard.
Introdução (intitulada Epistemologia e metodologia): Abraham Kaplan.
Parte 1 (A ruptura): Émile Durkheim, Mareei Mauss, John H. Goldthorpe e David Lockwood, Ludwig Wittgenstein, François Simiand, Karl Marx, Max Weber, Maxime Chastaing, Georges Canguilhem, Bennet M. Berger, Gaston Bachelard.
Parte 2 (A construção do objeto): Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim, Gaston Bachelard, Elihu Katz, François Simiand, Leonard Schatzman e Anselme Strauss, John H. Goldthorpe e David Lockwood, Claude Lévi-Strauss, Marcel Mauss, Bronislaw Malinowski, Erwin Panofsky, Pierre Duhem, Norman R. Campbell.
Parte 3 (O racionalismo aplicado): Georges Canguilhem, Charles W. Mills, Louis Hjelmslev, Edgar Wind, Charles Darwin, Gaston Bachelard, Émile Durkheim.
Conclusão (intitulada Sociologia do conhecimento e epistemologia): Gaston Bachelard, Mareei Maget, Michael Polanyi.
Com essa diversidade de intelectuais, ficam evidenciadas as múltiplas abordagens e tradições teóricas nas quais Bourdieu se baseou para construir sua epistemologia. Dentre aqueles que, com maior frequência, são referenciados em cada uma das partes, observa-se: Gaston Bachelard (Racionalismo aplicado), Émile Durkheim (Positivismo), Georges Canguilhem (História das Ciências), Max Weber (Sociologia Compreensiva) e Karl Marx (Materialismo histórico-dialético).
Em cada uma das três partes da obra, é desenvolvida teorização sobre as três etapas que Bourdieu, seguindo as ideias de Gaston Bachelard, considera como primordiais na construção do conhecimento sociológico. Tal teorização é sintetizada no seguinte preceito: “[...] o fato científico é conquistado, construído, constatado [...]” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010, p. 22). Nessa teorização, Bourdieu ressalta a hierarquia epistemológica dos atos científicos: a constatação ou a comprovação deve ser resultante de uma construção do objeto que pressupõe antes de tudo uma ruptura com pré-noções ou noções do senso comum.
Na ruptura, argumenta-se sobre o obstáculo epistemológico por excelência. Tal obstáculo refere-se à sociologia espontânea, às pré-noções, ao senso comum. Esse conhecimento espontâneo, formado a partir das condições sociais da prática, produz continuamente concepções ou sistematizações infundadas. Por isso, o olhar científico sobre o real pressupõe sempre uma ruptura com ele e com as configurações que ele propõe à percepção (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010). Nesse ponto, trata-se de realizar uma análise das condições sociais nas quais a construção científica é produzida. Para isso, a epistemologia tem na Sociologia do Conhecimento um instrumento privilegiado de vigilância epistemológica. Ressaltamos, aqui, uma questão importante a ser compreendida: o princípio da reflexividade epistêmica de Bourdieu não se limita a identificar e a romper com pré-conceitos do investigador individual, mas, sim, do inconsciente científico coletivo incorporado nas práticas intelectuais pelas relações objetivantes12 dentro do campo (Maton, 2003).
Em relação à construção do objeto, a proposta epistemológica é de renúncia ao empirismo radical. Com base no racionalismo aplicado, Bourdieu defende que o vetor epistemológico vai do racional ao real. Isso implica considerar que a construção do objeto pressupõe a constituição de um modelo teórico que possibilite analisá-lo em um sistema de relações. O primado das relações é um princípio epistemológico marcante nas contribuições sociológicas de Bourdieu. A abordagem relacional trata tanto do sistema de relações que determina o objeto, como das relações entre os elementos constitutivos da pesquisa (epistemologia/metodologia, teoria/prática), bem como da relação objetivante entre sujeito (pesquisador) e objeto.
Na constatação ou comprovação, enfatiza-se a necessidade de trabalhar dialeticamente a teoria e os dados empíricos. A partir do racionalismo aplicado, argumenta-se sobre o primado epistemológico da razão sobre a experiência, afirmando-se que a teoria é a condição fundamental da ruptura, da construção e da experimentação devido à sistematicidade que a define (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010). No entanto, embora reconheça o valor da teoria, Bourdieu rejeitava tanto o teoricismo como o metodologismo13 (Bourdieu; Wacquant, 2022), entendendo que a operação mais importante se refere à construção do objeto, em que as opções teóricas caminham juntas às opções técnicas/empíricas (Bourdieu, 1989).
A obra Convite à Sociologia Reflexiva (Bourdieu; Wacquant, 2022)14 foi publicada originalmente em inglês, em 1992, e representa o propósito de ampliar e dar continuidade à experiência da pedagogia da pesquisa inicialmente estabelecida em Ofício de Sociólogo (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010). A pretensão dos autores foi apresentar uma visão geral e esclarecer os princípios epistemológicos e metodológicos da teoria da prática e dos mundos sociais elaborada por Bourdieu ao longo de 30 anos de investigação. É composta por três partes centrais: 1ª) Para uma praxeologia social. Estrutura e lógica da sociologia de Bourdieu, por Loïc Wacquant15; 2ª) Os fins da sociologia reflexiva (O Seminário de Chicago), por Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant; e 3ª) Os meios da sociologia reflexiva (O Seminário de Paris), por Pierre Bourdieu. Além dessas três partes, a obra apresenta uma seção sobre como ler Bourdieu, por Loïc Wacquant, e outra seção com a bibliografia dos trabalhos do sociólogo. De forma concisa, o Quadro 2 apresenta contribuições epistemetodológicas relevantes da obra.
Parte do livro | Ideia central | Elementos epistemetodológicos |
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1ª) Para uma praxeologia social | Aborda os princípios da teoria do conhecimento, da prática e do mundo social de Bourdieu. | Superação da oposição entre objetivismo e subjetivismo; relacionalismo metodológico; relação teoria e metodologia; reflexividade epistêmica. |
2ª) Os fins da sociologia reflexiva | No formato de diálogo com Loïc Wacquant, Bourdieu explica conceitos, princípios e questões epistemológicas de seu trabalho. | Sociologia da sociologia como dimensão fundamental da epistemologia sociológica; a lógica dos campos e o modo de pensar relacional; a objetivação do sujeito objetivante. |
3ª) Os meios da sociologia reflexiva | Transcrição de seminário de investigação em que Bourdieu aborda questões epistemológicas que orientam a construção do objeto sociológico em uma perspectiva de inseparabilidade das operações teóricas e empíricas. | Ensino de um ofício; Habitus científico; pensar relacionalmente; rigor da construção do objeto; ruptura epistemológica; objetivação participante. |
Fonte: Elaborado pela autora com base em Bourdieu e Wacquant (2022).
A partir do quadro de sistematização, é possível observarmos novamente princípios epistemológicos centrais do trabalho de Bourdieu, retomados e discutidos nessa obra. Dentre as contribuições epistemetodológicas que se constituem expressivamente profícuas para os debates teóricos e epistemológicos na pesquisa em Política Educacional, notabilizam-se duas no seio daquilo que se verificou como nevrálgico em seu trabalho sociológico: pensamento relacional e reflexividade epistêmica.
Pensamento relacional e pesquisa em Política Educacional
Em suas contribuições epistemológicas, Bourdieu argumenta sobre a primazia das relações entre as coisas: “o real é relacional” (Bourdieu; Wacquant, 2022, p. 154). Para ele, o que existe no mundo social são relações que se caracterizam por serem objetivas, dado que existem a despeito das consciências e vontades individuais. A abordagem relacional fornece três cenários para pesquisa em Política Educacional:
1) Analisar as políticas educacionais a partir do sistema de relações que as determinam, o que implica considerar os diversos determinantes: históricos, sociais, políticos, educacionais, econômicos, culturais etc., bem como uma compreensão do processo de formulação e implementação de políticas que capture a natureza complexa, controversa e não linear das relações entre os aspectos e as fases desse processo. As abordagens de análise de políticas são diversas, de um lado, há as etapistas e sequenciais e, de outro, abordagens que envolvem uma análise mais complexa e relacional, dentre elas: a sociologia das políticas, a arqueologia das políticas, a historiografia das políticas, a antropologia das políticas, bem como abordagens interdisciplinares de estudos de Política Educacional (Stremel, 2016).
2) Considerar a construção do objeto de pesquisa em Política Educacional tendo em vista as questões epistemetodológicas, isto é, a cumplicidade ontológica entre teoria e metodologia/empírico (Rawolle; Lingard, 2013). Uma visão abrangente e complexa da integração dos elementos estruturantes da pesquisa no campo da Política Educacional vem sendo recentemente discutida por Mainardes (2022) com base na perspectiva ético-ontoepistemológica. Com o argumento de que a ética é também um dos elementos constitutivos da pesquisa científica e um dos elementos estruturantes das pesquisas, o autor indica que a perspectiva ético-ontoepistemológica pode contribuir para o desenvolvimento de pesquisas mais integradas e coerentes, desafiando os pesquisadores na reflexão sobre a finalidade social da ciência e da pesquisa (Mainardes, 2022). Ele aborda ainda a expressão “perspectiva ético-ontoepistemetodológica”, com o intuito de realçar que os procedimentos metodológicos não são neutros16 e estão articulados às dimensões da ética, da ontologia e da epistemologia.
3) Analisar a relação objetivante entre pesquisador e objeto de estudo da Política Educacional. Nesse aspecto, Bourdieu sugere três tipos de enviesamentos que podem obstaculizar a visão do pesquisador: a) origem e coordenadas sociais do investigador; b) posição que o investigador ocupa no campo acadêmico; c) enviesamento intelectualista (Bourdieu; Wacquant, 2022). Por enviesamento intelectualista, Bourdieu entende ser aquilo que “[…] nos leva a conceber o mundo como um espetáculo, um jogo de significações suscetível de ser interpretado à maneira de um texto, e não como uma tela de problemas concretos que exigem soluções práticas […]” (Bourdieu; Wacquant, 2022, p. 90). Em outras palavras, é colocar a “lógica da teoria” sobre a “lógica da prática” (Bourdieu; Wacquant, 2022, p. 90). Como forma de ruptura com esses enviesamentos, Bourdieu propõe a reflexividade como análise sociológica contínua e controle da prática sociológica. Nesse aspecto, Bourdieu trata da reflexividade como “[...] pré-requisito e modalidade de trabalho sociológico [...]”, como um “[...] programa epistemológico em ação para a ciência social [...]” (Bourdieu; Wacquant, 2022, p. 88). O desafio que se interpreta para o campo da Política Educacional é o de “[…] institucionalizar a reflexividade nos procedimentos de formação, de diálogo e de avaliação crítica” (Bourdieu; Wacquant, 2022, p. 91).
Reflexividade epistêmica e pesquisa em Política Educacional
A ideia de vigilância epistemológica tem sido utilizada por pesquisadores do campo, os quais têm enfatizado a necessidade do emprego consciente da teoria e a dimensão da inseparabilidade entre teoria e metodologia nas pesquisas no campo da Política Educacional (Tello, 2012; Tello; Mainardes, 2015). Com base nessa perspectiva, Tello (2012) e Tello e Mainardes (2015), por exemplo, desenvolveram o Enfoque das Epistemologias da Política Educacional. Trata-se de uma ferramenta com potencialidade analítica tendo em vista a vigilância epistemológica da investigação no referido campo e o fortalecimento da coerência e da consistência das pesquisas em Política Educacional (integração entre os elementos epistemológicos e metodológicos).
A compreensão sobre reflexividade epistêmica ou vigilância epistemológica possui consideráveis possibilidades de ser estendida para pensar não somente os elementos constitutivos da pesquisa, mas também a especificidade desse campo, uma vez que, muitas vezes, a posição do agente que pesquisa possui vinculações imanentes com o objeto da Política Educacional. Nesse sentido, a ruptura, como obstáculo epistemológico por excelência (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 2010), torna-se um desafio tangível. Assim como nas Ciências Sociais, no campo da Política Educacional, as rupturas epistemológicas podem ser, frequentemente, rupturas sociais, como é a ruptura com crenças fundamentais partilhadas entre um grupo ou corpo de profissionais (Bourdieu; Wacquant, 2022). O campo da Política Educacional abrange uma agenda acadêmica (ensino e pesquisa) e uma agenda política (atuação e articulação política) que se desenvolvem concomitantemente às atividades dos agentes do campo (Stremel, 2016). Os agentes que pesquisam, muitas vezes, atuam em funções no âmbito do poder público, em entidades científicas ou sindicais, entre outros espaços relacionados à definição e/ou execução de políticas educacionais, ou mesmo, de mobilização e articulação política. Assim, é preciso reconhecer que há interesses sociais dos pesquisadores e, como argumentou o próprio Bourdieu, não existe um ponto de vista absoluto fora dos campos de luta (Maton, 2003). Nas palavras de Bourdieu (2020, p. 72), “[…] é preciso pesquisar o princípio da relação entre a maneira de fazer ciência e a posição no espaço social”.
À reflexividade epistêmica relaciona-se a compreensão de objetivação do sujeito objetivante, que se remete ao fato de aplicar ao sujeito que pesquisa as proposições da própria ciência social, isto é, tomar a ciência social como objeto de estudo. Assim, a objetivação do sujeito objetivante e a reflexividade epistêmica não se limitam ao pesquisador singular17, mas se estende ao campo intelectual, ao coletivo (Maton, 2003). Conforme Bourdieu e Wacquant (2022, p. 91), “[…] o verdadeiro tema da reflexividade só pode, em fim de análise, ser o campo científico in toto”. Em vista disso, o trabalho de objetivação do sujeito objetivante é realizado não por um pesquisador singular, mas pelos ocupantes das diversas posições do campo científico. A partir dessa perspectiva, infere-se que as condições para o desenvolvimento da reflexividade do próprio campo da Política Educacional podem ser aproximadas, por exemplo, por meio da metapesquisa (pesquisa sobre pesquisas). Alguns pesquisadores, como Mainardes (2018, 2021), têm definido elementos conceituais e metodológicos para a metapesquisa no campo da Política Educacional e argumentado sobre as possibilidades dessa ferramenta metodológica para a compreensão da situação da pesquisa do campo em termos teóricos, epistemológicos e metodológicos. A análise reflexiva dessas questões pode oferecer elementos úteis para a melhoria do processo de construção da pesquisa e da própria formação de pesquisadores.
Os conceitos de Bourdieu e sua utilização na pesquisa em Política Educacional: contribuições de estudos brasileiros e estrangeiros
De modo a evidenciar as formas como o campo da Política Educacional vêm interpretando as contribuições epistemetodológicas de Bourdieu para a pesquisa, realizamos um levantamento e uma análise de estudos que pretenderam indicar como os conceitos de Bourdieu podem ser adaptados à pesquisa em Política Educacional. O levantamento reuniu publicações em língua portuguesa, inglesa e espanhola. A pesquisa pelas publicações foi realizada em plataformas digitais de busca de literatura científica: Google Scholar; Scopus; Scientific Electronic Library Online (SciELO); Educ@, da Fundação Carlos Chagas (FCC), e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Periódicos CAPES). Utilizamos as seguintes palavras-chave associadas, que foram utilizadas nos três idiomas: Política Educacional e Bourdieu; políticas educacionais e Bourdieu. Os resultados das buscas foram analisados pelo título, resumo e conteúdo do texto completo. Foram selecionados apenas textos que abordassem objetivamente como a teoria de Bourdieu pode ser aplicada à pesquisa em Política Educacional. Como resultado da seleção, obtivemos 24 textos18, sendo 13 estudos em inglês, dez estudos em português, e um estudo em espanhol, conforme é apresentado na Tabela 1.
Idioma | Estudos | Natureza | Quantidade |
---|---|---|---|
Inglês |
Grenfell (2009) Ladwig (1994) Lingard e Rawolle (2004) Lingard, Rawolle e Taylor (2005) Lingard, Taylor e Rawolle (2005) Maton (2005) Rawolle (2005) Rawolle e Lingard (2008) Rawolle e Lingard (2015) Taylor e Singh (2005) Thomson (2005) Van Zanten (2005) Yoon (2020) |
Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Capítulo de livro Artigo Artigo Artigo Artigo |
13 |
Português |
Gasparelo, Jeffrey e Schneckenberg (2018) Gomes (2022) Melo, Silva e Lima (2021) Najjar, Mocarzel e Santos (2019) Neitzel e Pelegrini (2022) Pires (2022) Schneckenberg, Amar e Gorostiaga (2024) Sossai (2017) Stremel (2017) Vaz (2020) |
Artigo Capítulo de livro Trabalho em anais de evento Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo Artigo |
10 |
Espanhol | Amar (2018) | Artigo | 1 |
Total | 24 |
Fonte: Elaborado pela autora.
Em relação à natureza, trata-se de estudos publicados no formato de artigo científico, capítulos de livro e trabalho em anais de evento. Em língua inglesa, consideramos integralmente uma edição especial do Journal of Education Policy organizada por Bob Lingard, Sandra Taylor e Shaun Rawolle, especificamente sobre Bourdieu e o estudo da Política Educacional. Os artigos abrangem toda a obra de Bourdieu, do mais antigo ao mais tardio, do teórico ao político, do empírico ao metodológico, retratando o estudo da Política Educacional a partir do conceito de campo social (Lingard; Taylor; Rawolle, 2005).
A análise dos textos do levantamento envolveu: a) leitura integral do conteúdo dos textos selecionados; e b) sistematização das informações em uma planilha de dados contendo cinco colunas: idioma, referência do texto, conceitos de Bourdieu apresentados, como os conceitos auxiliam na pesquisa em Política Educacional, observações epistemetodológicas.
Na análise dos textos do levantamento, verificamos que as ferramentas de pensamento de Bourdieu: campo, habitus, capital e prática, são os conceitos mais expressivamente recorridos como contributo na investigação em Política Educacional. Outros conceitos mencionados são: autonomia, poder simbólico, discurso político, conhecimento praxiológico, conceitos socioespaciais, reflexividade e Estado. Alguns autores como Maton (2005) observam que, na educação, o conceito de campo tem sido relativamente pouco discutido em comparação a conceitos como habitus e capital. A despeito do que é observado em geral na área da Educação, na investigação em Política Educacional, o conceito de campo aparece como um fundamento substancial, geralmente associado aos conceitos de habitus, capital e prática. O Quadro 3 apresenta a relação de conceitos de Bourdieu mencionados nos estudos analisados.
Idioma | Estudos | Conceitos de Bourdieu |
---|---|---|
Inglês | Grenfell (2009) | Capital social |
Ladwig (1994) | Campo social | |
Lingard e Rawolle (2004) | Campo, lógica da prática, habitus | |
Lingard, Rawolle e Taylor (2005) | Campo social | |
Lingard, Taylor e Rawolle (2005) | * | |
Maton (2005) | Campo, autonomia | |
Rawolle (2005) | Teoria dos campos | |
Rawolle e Lingard (2008) | Prática, habitus, capital, campo | |
Rawolle e Lingard (2015) | Teorias sociais da prática e campos | |
Taylor e Singh (2005) | Campo, lógica da prática, discurso político, habitus, capital e lutas pelo poder simbólico | |
Thomson (2005) | Campo | |
Van Zanten (2005) | Autonomia relativa | |
Yoon (2020) | Habitus (distinção e gosto), capital (cultural, linguístico, social e econômico), campo e conceitos socioespaciais (local e localização) | |
Português | Gasparelo, Jeffrey e Schneckenberg (2018) | Poder simbólico, habitus, campo |
Gomes (2022) | Campo científico | |
Melo, Silva e Lima (2021) | Conhecimento praxiológico, habitus, campo | |
Najjar, Mocarzel e Santos (2019) | Habitus, campo | |
Neitzel e Pelegrini (2022) | Campo, habitus, capital social | |
Pires (2022) | Campo científico, habitus científico, capital científico | |
Schneckenberg, Amar e Gorostiaga (2024) | Reflexividade | |
Sossai (2017) | Campo | |
Stremel (2017) | Campo | |
Vaz (2020) | Estado | |
Espanhol | Amar (2018) | Estado |
Fonte: Elaborado pela autora.
Nota: (*) Não aborda um conceito em específico. Trata-se da introdução da edição especial Bourdieu and the study of educational policy publicada pelo Journal of Education Policy.
Observa-se que a maioria dos estudos em português (nove textos), cujos autores são do Brasil (sete textos), do Brasil e Argentina (um texto), e de Portugal (um texto), tem como fundamentos os debates promovidos por pesquisadores da ReLePe, quanto aos estudos teóricos e epistemológicos em Política Educacional e à Política Educacional como campo de pesquisa, sobretudo os escritos de César Tello e Jefferson Mainardes19. O texto em língua espanhola, que trata do conceito de Estado em Bourdieu (Amar, 2018), é de autoria de um pesquisador da Argentina, atualmente diretor da referida rede de pesquisa. Evidencia-se, assim, o papel e a contribuição que a ReLePe tem tido no desenvolvimento de estudos que tratam de aspectos teóricos e epistemológicos da pesquisa em Política Educacional.
Do total de dez textos em português, nove abordam as contribuições de Bourdieu para a Política Educacional como campo teórico ou de pesquisa, discutindo aspectos tais quais: a) contribuições teóricas e analíticas (Gomes, 2022; Najjar; Mocarzel; Santos, 2019; Vaz, 2020); b) metapesquisa no campo da Política Educacional (Melo; Silva; Lima, 2021); c) apropriação do referencial teórico-metodológico de Bourdieu (Schneckenberg; Amar; Gorostiaga, 2024); d) estrutura do campo e posicionamento dos agentes (Neitzel; Pelegrini, 2022); e) formação de pesquisadores para o campo (Pires, 2022); f) modos de entendimento da Política Educacional como campo pela literatura (Sossai, 2017); g) constituição do campo acadêmico da Política Educacional (Stremel, 2017). Um texto aborda as contribuições conceituais de Bourdieu para explicar aspectos do processo de formulação e implementação de políticas educacionais, em especial a abordagem do ciclo de políticas elaborada por Stephen Ball e colaboradores (Gasparelo; Jeffrey; Schneckenberg, 2018).
Em relação aos textos em inglês, dos 13 estudos, nove são de autores da Austrália. Outros quatro estudos são de pesquisadores da Irlanda, Inglaterra, França e Canadá. Em relação aos estudos de autores da Austrália, observamos uma significativa contribuição de Bob Lingard (University of Queensland) e Shaun Rawolle (Deakin University). Na edição especial do Journal of Education Policy, sobre Bourdieu e o estudo da Política Educacional, organizada por eles juntamente com Sandra Taylor (Queensland University of Technology), os pesquisadores argumentam sobre o quão útil pode ser a teoria de Bourdieu para os estudos de Política Educacional. Eles afirmam que há uma falta de aplicação do quadro teórico e da abordagem metodológica de Bourdieu à Política Educacional, dada a difusão do seu trabalho em outras áreas (Lingard; Taylor; Rawolle, 2005).
Na literatura em inglês, os estudos teorizam sobre processos das políticas educacionais operando com a abordagem de Bourdieu, considerando os seguintes aspectos: a) utilidade da teoria de campo para entender o ciclo de políticas educacionais em face ao contexto da globalização, bem como as mudanças nas políticas (Lingard; Rawolle; Taylor, 2005; Rawolle; Lingard, 2008; Thomson, 2005); b) utilidade da teoria de Bourdieu para examinar os efeitos de campo cruzado que resultam das inter-relações entre diferentes campos (Lingard; Rawolle, 2004; Rawolle, 2005); c) utilidade dos conceitos de Bourdieu para a teorização dos processos de implementação de políticas (Taylor; Singh, 2005); d) utilidade da teoria e metodologia de Bourdieu para a análise de Política Educacional e para a sociologia das políticas educacionais (Rawolle; Lingard, 2015); e) compreensão da Política Educacional como campo social (Ladwig, 1994); f) a autonomia como elemento chave para a compreensão das estruturas dos campos (Maton, 2005); g) usos que têm sido feitos do conceito de capital social na Política Educacional e na pesquisa (Grenfell, 2009); h) utilidade da sociologia da educação de Bourdieu para explicar a invisibilidade da política (Van Zanten, 2005); i) contribuições da teoria sociológica de Bourdieu para os estudos sobre a liberdade de escolha da escola (school choice) (Yoon, 2020).
Tendo em vista a aplicação dos aportes de Bourdieu à Política Educacional, é possível identificar pelo menos duas dimensões das contribuições epistemetodológicas de Bourdieu para a pesquisa nesse campo, conforme argumentamos a seguir:
a) Aprimorar os processos que envolvem a condução da investigação no campo da Política Educacional: nessa dimensão, verifica-se que os aportes de Bourdieu são evidenciados para abordar questões relacionadas ao campo de estudo ou à pesquisa em Política Educacional. Nesse tópico, constata-se a utilidade da abordagem de Bourdieu para tratar:
1) Da formação e do funcionamento do campo da Política Educacional: com base no conceito de campo, a Política Educacional pode ser definida como campo teórico (Neitzel; Pelegrini, 2022) ou campo acadêmico, haja vista a existência de aspectos específicos de sua institucionalização e estruturação, tais como: associações científicas, disciplinas, periódicos, grupos e linhas de pesquisa, redes de pesquisa, eventos científicos, grupos de trabalho em entidades científicas, eventos acadêmicos, entre outros (Stremel, 2017). Nessa mesma perspectiva, serve à investigação em políticas educacionais o conceito de campo científico e campo intelectual para subsidiar a elaboração de análises sobre as disputas simbólicas e lutas que perpassam os estudos de políticas educacionais (Sossai, 2017).
2) Dos aspectos teóricos, epistemológicos e metodológicos da pesquisa em Política Educacional: trata-se da utilidade da abordagem de Bourdieu em estudos de metapesquisa no campo da Política Educacional, com a finalidade de analisar as tendências epistemológicas das pesquisas (Melo; Silva; Lima, 2021), bem como a consistência da apropriação da teoria e do método de Bourdieu (Schneckenberg; Amar; Gorostiaga, 2024). Nesse aspecto, os contributos de Bourdieu são também discutidos como subsídio ao Enfoque das Epistemologias da Política Educativa elaborada por César Tello e Jefferson Mainardes (Gomes, 2022) e a um modelo analítico multidimensional de políticas públicas estruturado com base nos conceitos de campo e habitus (Najjar; Mocarzel; Santos, 2019). Em termos teóricos, chama-se atenção a respeito da linguagem bourdieusiana e da necessidade de levar em conta a sua posição epistemológica. Observa-se, por exemplo, as formas pelas quais o conceito de capital social é empregado e as implicações dessas diferentes interpretações (Grenfell, 2009).
3) Da formação de pesquisadores em Política Educacional: demonstra-se a proficuidade dos conceitos de campo científico, habitus científico e capital científico para a análise da formação de pesquisadores para o campo da Política Educacional. Com base nesses conceitos, é possível compreender, dentre outras questões, a constituição do habitus científico no campo da Política Educacional, os aspectos que orientam o comportamento dos agentes nas práticas investigativas no campo da Política Educacional, as dinâmicas que ocorrem no interior do campo e que determinam a formação de pesquisadores (Pires, 2022).
4) Das implicações epistemológicas da abordagem de Bourdieu na pesquisa em Política Educacional: a teoria e a disposição de investigação de Bourdieu exigem uma atenção especial (vigilância) em considerar continuamente a reflexividade como indispensável a uma ciência social crítica. Um pesquisador reflexivamente consciente dos determinantes estruturais da sua prática é uma disposição necessária para o habitus de pesquisa no campo da Política Educacional. Tal implicação é vigorosamente observada na menção à reflexividade em estudos em inglês (Grenfell, 2009; Ladwig, 1994; Lingard; Rawolle; Taylor, 2005; Rawolle; Lingard, 2008, 2015) e em português (Gomes, 2022; Melo; Silva; Lima, 2021; Najjar; Mocarzel; Santos, 2019; Schneckenberg; Amar; Gorostiaga, 2024). Outra implicação notadamente substancial refere-se à abordagem relacional que se remete às imbricações entre teórico e empírico, à compreensão da sociedade em campos relativamente autônomos com as suas próprias lógicas de prática e habitus, ao fato de que o objeto de estudo não está isolado de um conjunto de relações (Lingard; Rawolle; Taylor, 2005; Lingard; Taylor; Rawolle; 2005; Maton; 2005; Najjar; Mocarzel; Santos, 2019; Neitzel; Pelegrini, 2022; Schneckenberg; Amar; Gorostiaga, 2024; Stremel, 2017).
b) Ampliar a compreensão referente ao ciclo de políticas educacionais, que diz respeito aos processos de formulação e implementação das políticas: nessa dimensão, a Política Educacional é vista em termos de campo social. Desse modo, os estudos tratam das dinâmicas e das relações de espaços sociais nos quais as políticas educacionais são definidas e implementadas. Nesse entendimento, as contribuições de Bourdieu auxiliam em análises tais como:
1) As relações entre a educação, o Estado e os diferentes campos sociais: o conceito de campo na abordagem relacional de Bourdieu possibilita compreender a sociedade em campos relativamente autônomos com suas próprias lógicas de prática e habitus, sendo aplicável a considerações do ciclo de políticas educacionais, ou seja, ao processo de formulação e implementação de políticas. Nessa perspectiva, a noção de campo pode oferecer elementos para a compreensão da complexa interação entre educação e os diferentes campos (social, político, econômico, midiático etc.) e como as estruturas sociais mais amplas e as dinâmicas de poder influenciam e determinam os processos educacionais e as mudanças das políticas educacionais (Gasparelo; Jeffrey; Schneckenberg, 2018; Lingard; Rawolle, 2004; Lingard; Rawolle; Taylor, 2005; Rawolle, 2005; Rawolle; Lingard, 2008, 2015; Thomson, 2005). Nessa relação entre a educação e os diferentes campos sociais, o conceito de autonomia relativa é uma compreensão chave (Maton, 2005; Van Zanten, 2005). Além disso, como aplicação do conceito de campo à Política Educacional, Bourdieu escreveu a respeito do campo burocrático (Taylor; Singh, 2005), que é um espaço de produção de textos políticos em educação, bem como sobre o campo de poder (o qual abrange todos os outros campos), como um espaço de jogo dentro do qual os detentores de capital lutam particularmente pelo poder sobre o Estado (Lingard; Taylor; Rawolle, 2005). A partir da abordagem bourdieusiana, por exemplo, é possível compreender como o Estado, por meio do sistema educacional e das políticas educacionais, contribui para reforçar a legitimidade do seu monopólio da violência simbólica (Amar, 2018; Vaz, 2020). Embora a implementação da Política Educacional esteja interligada a estruturas burocráticas, o local de produção da Política Educacional atravessa múltiplas estruturas, o que implica análises que permitam retratar as complexidades das políticas educacionais (Ladwig, 1994).
2) Os amplos processos de mudança social, relacionados à globalização, à mediatização e à mudança contínua da Política Educacional: aplica-se a teoria e a metodologia de Bourdieu para compreender a emergência de um campo da Política Educacional global ou campo global da Política Educacional, bem como os efeitos da globalização nos processos das políticas educacionais (Lingard; Rawolle, 2004; Lingard; Rawolle; Taylor, 2005; Rawolle; Lingard, 2008, 2015) e os efeitos da mediatização das políticas educacionais (Lingard; Rawolle, 2004; Rawolle, 2005).
3) As políticas educacionais e os processos de reprodução de estruturas sociais desiguais: a teoria e os conceitos de Bourdieu (campo, capital, habitus, gosto e distinção) são tomados como elementos básicos na teorização sobre comportamentos de escolha da escola (school choice) como estratégias de reprodução social e tem tido um impacto considerável em desvelar os mitos da racionalidade e da meritocracia na forma como a liberdade de escolha da escola funciona (Yoon, 2020). Nesse aspecto ainda, ressaltamos que a sociologia da educação de Bourdieu é uma sociologia das relações de poder centrada nas formas simbólicas de como a educação contribui para o funcionamento e a naturalização dessas relações (Van Zanten, 2005). Há a invisibilidade da política, uma vez que a influência do Estado e das classes dominantes na educação está incorporada nas classificações cognitivas e na atividade cotidiana das instituições escolares (Van Zanten, 2005). Embora essa abordagem de Bourdieu possa ser interpretada como fortemente determinista, o estudo de Van Zanten (2005) argumenta que, em um exame mais detalhado dos escritos de Bourdieu, é possível apresentar esses processos considerando um espaço para a autonomia e, portanto, para a ação política e pedagógica.
Considerações finais
Analisar a contribuição de Bourdieu no campo da Política Educacional parece, em princípio, uma tarefa intrigante, visto que, embora estivesse interessado no papel das escolas nas sociedades capitalistas avançadas, Bourdieu pouco escreveu sobre o que, em geral, é considerado política (Van Zanten, 2005). No entanto, neste estudo, evidenciamos que as contribuições desse sociólogo podem ser estendidas à pesquisa em Política Educacional.
A partir da análise das obras de Bourdieu, verificamos que, dentre as contribuições epistemetodológicas primordiais aos debates teóricos e epistemológicos da pesquisa no campo da Política Educacional, destacam-se: o pensamento relacional e a reflexividade epistêmica. Na epistemologia de Bourdieu, a reflexividade é entendida como uma disposição constitutiva do habitus do pesquisador (Grenfell, 2009). As contribuições epistemológicas do fazer científico de Bourdieu ao rejeitar a inocência epistemológica, ao enfatizar a reflexividade e a objetivação de si mesmo como pesquisador (Rawolle; Lingard, 2015), requerem que o pesquisador de Política Educacional lide com o seu posicionamento seja nos processos de condução da pesquisa, seja no campo teórico, no campo acadêmico ou no campo de atuação política.
Com base na análise de estudos que pretenderam indicar como os conceitos de Bourdieu podem ser adaptados à pesquisa em Política Educacional, constatamos que os conceitos mais expressivamente observados como contributo para a investigação em Política Educacional são as ferramentas de pensamento: campo, habitus, capital e prática. Destaca-se que as ferramentas de pensamento de Bourdieu não são meramente conceitos analíticos que podem ser aplicados a um tema específico. Trata-se de “[…] matrizes epistemológicas que se encontram na raiz geradora da ação da própria formação do conhecimento” (Grenfell, 2009, p. 32, tradução nossa). Também evidenciamos que a aplicação dos contributos bourdieusianos tem possibilitado desenvolvimentos teóricos no campo da Política Educacional em pelo menos duas dimensões: a) para aprimorar os processos que envolvem a condução da investigação no campo da Política Educacional; e b) para ampliar a compreensão referente ao ciclo de políticas educacionais, que são os processos de formulação e implementação das políticas.
Na primeira dimensão, observamos as questões relativas à Política Educacional como campo de estudo e pesquisa, demonstrando a utilidade da teoria de Bourdieu para tratar de: 1) formação e funcionamento do campo da Política Educacional; 2) aspectos teóricos, epistemológicos e metodológicos da pesquisa em Política Educacional; 3) formação de pesquisadores em Política Educacional; e 4) implicações epistemológicas da abordagem de Bourdieu na pesquisa em Política Educacional.
Na segunda dimensão, a Política Educacional é tratada como campo social e sublinham-se os espaços, as dinâmicas, os processos que determinam a definição e a implementação de políticas educacionais, empregando as ferramentas de pensamento de Bourdieu em análises como: 1) as relações entre a educação, o Estado e os diferentes campos sociais; 2) os amplos processos de mudança social, relacionados à globalização, à mediatização e à mudança contínua da Política Educacional; 3) as políticas educacionais e os processos de reprodução de estruturas sociais desiguais.
Os estudos analisados apresentam um considerável potencial de apreciação por investigadores em Política Educacional, especialmente interessados nos aportes epistemetodológicos de Bourdieu e em sua abordagem relacional, imprescindíveis para uma compreensão alargada da natureza complexa dos processos das políticas educacionais. Contudo, concordamos com Rawolle e Lingard (2015) de que há ainda necessidade de mais pesquisas empíricas que operem com os conceitos de Bourdieu a fim de desenvolver a utilidade dos seus recursos para a pesquisa no campo da Política Educacional.