Este dossiê materializa o esforço coletivo de reunir e divulgar discussões teóricas, proposições metodológicas e resultados de estudos e pesquisas sobre a autoavaliação realizada em Programas de Pós-Graduação (PPGs) em Educação. Na base deste dossiê, está o embrião de uma comunidade de aprendizagem que se consolidou como rede: a Rede de Avaliação e Autoavaliação da Pós-Graduação em Educação (RAAPE), articulando sujeitos, métodos e sentidos.
A RAAPE foi criada em 2023 e atualmente é composta por aproximadamente 35 PPGs em Educação, acadêmicos e profissionais, com abrangência nacional. A rede constitui-se como uma comunidade de aprendizagem que se consolidou em rede, articulando sujeitos, instituições, métodos e sentidos em torno da avaliação e autoavaliação na Pós-Graduação em Educação.
Entendemos “rede” como uma estrutura aberta, colaborativa e dinâmica, formada por pessoas e organizações que compartilham valores e objetivos comuns. A interação na RAAPE não é apenas técnica ou instrumental, mas constituída por vínculos significativos e intencionalidade formativa, sendo propulsora de inovação, reflexão crítica e produção coletiva de conhecimento. O principal pressuposto da atividade em rede é obter, em termos institucionais, soluções coletivas que seriam mais difíceis de atingir de forma isolada ou, em termos individuais, promover transformações (Masetto; Gaeta; Zukowsky-Tavares, 2023).
A proposta insere-se na agenda da RAAPE e tem como propósito organizar e sistematizar o diálogo entre docentes-pesquisadores e profissionais de PPGs em Educação. O foco da rede reside nos desafios inerentes à avaliação e à autoavaliação nas dimensões de ensino, pesquisa e extensão, bem como na atuação das comissões de autoavaliação. Representa um esforço colaborativo e estratégico para o estudo e a produção de conhecimento na área, congregando, no triênio de 2023 a 2025, um coletivo de PPGs em Educação (acadêmicos e profissionais) com abrangência em todas as regiões do Brasil.
Neste dossiê, os textos publicados exploram diferentes aspectos da autoavaliação: desde experiências institucionais conduzidas por comissões locais até proposições teórico-metodológicas que problematizam concepções e práticas desses processos. A partir de abordagens diversas, os autores e as autoras reunidos/as nesta edição compartilham reflexões que contribuem para a consolidação de uma cultura avaliativa crítica, situada e comprometida com a melhoria contínua da Pós-Graduação em Educação.
Considerando a atualidade do tema e entendendo que a produção científica sobre a autoavaliação de PPGs em Educação ainda é escassa, a RAAPE tomou a iniciativa de organizar este dossiê temático, o qual está sendo apresentado à comunidade científica com a intenção de contribuir de forma efetiva e propositiva para a visibilidade da produção do conhecimento na área.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em parceria com o Ministério da Educação (MEC), tem passado por diversas mudanças e aprimoramentos ao longo das últimas décadas, o que resultou no crescimento e na qualificação da pós-graduação. Nesse cenário, os processos de avaliação foram decisivos para avançar nos processos formativos dos programas, estabelecendo critérios de excelência à luz dos quais se tornou possível expandir o número de programas em diversas regiões do país.
O processo de avaliação tornou-se um importante indutor de políticas de consolidação da área, orientando a oferta, investindo na qualidade da produção dos programas e melhorando a formação pós-graduada (Brasil, 2019). Como responsável pela regulamentação, promoção e avaliação dos cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) no país, o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) desempenha um papel fundamental na formação de professores, pesquisadores e gestores educacionais. Nesse sentido, a avaliação de PPGs na área da Educação “[...] visa aferir e promover a qualidade dos programas no seu domínio e, de forma mais indireta, fornecer informação sobre o grau de sucesso das políticas no campo da educação implementadas ao longo dos anos” (Brasil, 2019, p. 3).
Transcorridos mais de 50 anos da pós-graduação no Brasil sob a regência da Capes, e diante do evidente crescimento exponencial do número de programas, cursos e titulados (mestres e doutores), tornou-se fundamental aperfeiçoar os processos de avaliação, avançando para processos de autoavaliação dos programas.
No verbete da Enciclopédia de Pedagogia Universitária, autoavaliação é entendida como “[...] um processo de autoanálise realizado pela comunidade envolvida, destacando pontos fortes e pontos fracos de suas realizações com vistas à melhoria da qualidade do seu fazer institucional, com vistas à superação de fragilidades e dificuldades diagnosticadas” (Leite, 2006, p. 466). Destaca-se, nesse entendimento de autoavaliação, que a titularidade da avaliação bem como seus objetivos, “[...] são decididos pelos protagonistas”; a “[...] reflexão sobre os resultados obtidos é central ao processo [...]”; e a “[...] correção de trajetórias e de futuros projetados” (Leite et al., 2020, p. 342) torna-se central na condução dos processos formativos dos programas.
Ao mesmo tempo, o processo de autoavaliação não ocorre de forma intempestiva e não pode ser instaurado por decreto, pois se trata de “[...] uma forma de avaliação que exige tempo, recursos e dedicação” (Leite et al., 2020, p. 342). Assim sendo, é necessário tornar a autoavaliação objeto de estudos e pesquisas, a fim de produzir subsídios que possam auxiliar nos processos reflexivos constitutivos dos próprios programas.
Desse modo, ao reunir contribuições que tratam da autoavaliação em suas múltiplas dimensões - conceituais, metodológicas, políticas e institucionais -, o dossiê, acolhido pela Revista Práxis Educativa, tem a intencionalidade de publicizar e subsidiar docentes, pesquisadores, gestores, programas e todos os interessados nas reflexões teórico-práticas sobre processos de autoavaliação em suas possibilidades, tensionamentos e desafios.
A diversidade de enfoques neste dossiê expressa o esforço coletivo de pesquisadores e pesquisadoras para compreender criticamente os sentidos, os alcances e as limitações da autoavaliação como prática pedagógica, institucional, formativa e estratégica. Nesta apresentação, foram organizados os artigos publicados no dossiê em quatro agrupamentos temáticos, a partir de suas similaridades.
O primeiro agrupamento, de escopo mais amplo, reúne quatro artigos que apresentam uma visão abrangente dos processos de autoavaliação nos PPGs em Educação no Brasil. O artigo Autoavaliação na Pós-Graduação em Educação do Brasil: estado do conhecimento (2006-2024), de Brandalise e Borges (2025), apresenta uma análise do estado do conhecimento sobre autoavaliação na Pós-Graduação em Educação entre 2002 e 2024. Utilizando o protocolo de Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021) e técnicas de análise textual, os autores identificaram cinco eixos temáticos emergentes: políticas regulatórias, gestão da qualidade, impacto na formação de egressos, perspectivas descoloniais e práticas participativas. A pesquisa evidencia o crescimento recente da produção acadêmica sobre o tema, impulsionado pelas diretrizes da Capes, e aponta para a necessidade de modelos multidimensionais que articulem participação democrática, monitoramento de egressos e planejamento estratégico.
O panorama da autoavaliação nos PPGs em Educação, com base na Avaliação Quadrienal 2017-2020 da Capes, é apresentado no artigo A autoavaliação na Pós-Graduação em Educação no Brasil, de Souza, Real e Miranda (2025). A partir da análise de dados de 186 programas, o estudo revela avanços na incorporação da autoavaliação, mas também fragilidades estruturais persistentes. Os autores destacam que a maturidade institucional e a infraestrutura dos programas influenciam diretamente a qualidade da autoavaliação, além de apontarem desigualdades regionais e diferenças entre modalidades de curso como fatores relevantes.
A evasão discente, aspecto ainda pouco explorado nos projetos de autoavaliação dos PPGs em Educação, é abordada por Souza e Souza (2025) no artigo A evasão discente nos projetos de autoavaliação dos Programas de Pós-Graduação em Educação do Brasil. A partir da análise de documentos e literatura especializada, os autores identificam que, embora a Capes tenha sugerido a inclusão da evasão como elemento avaliativo, poucos programas efetivamente incorporaram essa dimensão. O estudo aponta a ausência de políticas específicas de enfrentamento à evasão como uma limitação importante na agenda da política educacional brasileira.
Tauchen et al. (2025), no artigo Planejamento estratégico e autoavaliação da pós-graduação: autorregulação e/ou re-regulações performativas?, discutem as relações entre planejamento estratégico e autoavaliação nos PPGs em Educação, com foco nas reconfigurações provocadas pela cultura da performatividade. A análise de documentos institucionais revela que, embora a autoavaliação seja concebida como um processo coletivo e reflexivo, ela pode ser induzida por políticas externas e correr o risco de se tornar uma prática meramente burocrática, voltada à reprodução de lógicas performativas.
O segundo agrupamento, neste dossiê, reúne experiências institucionais concretas, com seis estudos sobre a autoavaliação na Pós-Graduação em Educação em diferentes contextos brasileiros. Os estudos destacam a relevância da autoavaliação como instrumento de governança, instituindo uma cultura de avaliação capaz de envolver gestores, docentes, discentes, egressos e demais interlocutores no acolhimento de dados, sua disseminação e seu aproveitamento na tomada de decisões a favor da melhoria de suas ações. O detalhamento metodológico de nossas ações em autoavaliação ainda é escasso, o que desencadeia o isolamento das instituições em práticas distantes de seus pares. Apresentam-se como desafios maiores o engajamento da comunidade educativa em espaços de escuta e reflexão conjunta, a construção de uma identidade acadêmica, a forte conexão da autoavaliação com o planejamento estratégico e a constituição de uma verdadeira cultura de avaliação na pós-graduação que vá além da prestação de contas institucional. Trata-se da constituição de uma governança acadêmica participativa e comprometida com a melhoria contínua (Nunes et al., 2025; Prata-Linhares et al., 2025; Ferreira et al., 2025; Wandercil et al., 2025; Sousa, 2025; Sobral; Ferronato; Chagas, 2025).
Nesse contexto, o artigo Autoavaliação em Programas de Pós-Graduação em Educação: (auto)aprendizado das experiências de Santa Catarina e Bahia, de Nunes et al. (2025), a partir das experiências do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), identifica aprendizados para fortalecer a cultura de autoavaliação. Dessa forma, questões acadêmicas e administrativas são trabalhadas na direção da autonomia institucional e da promoção de ações transformadoras, orientadas pela corresponsabilidade dos participantes.
O estudo Autoavaliação nos Programas de Pós-Graduação em Educação do Triângulo Mineiro: uma análise a partir das avaliações da Capes (2017-2020), de autoria de Prata-Linhares et al. (2025), discute como seis PPGs em Educação situados no Triângulo Mineiro têm implementado a autoavaliação, tomando como referência as fichas de avaliação da Capes na quadrienal 2017-2020. Embora haja esforços para consolidar a autoavaliação como prática institucional, ainda existem desafios relacionados à participação efetiva de todos os atores institucionais e ao seu alinhamento com o planejamento estratégico.
Continuando nesse agrupamento de estudos, Ferreira et al. (2025), no artigo Autoavaliação na Pós-Graduação em Educação: um modelo replicável a partir da experiência em uma instituição pública municipal, analisam criticamente a autoavaliação do Programa de Pós-Graduação Profissional em Educação (2021-2024) de uma universidade pública municipal de São Paulo, buscando transformá-la em rotina estratégica orientada por evidências para uma melhor governança. A metodologia triangulou análise documental, survey com egressos, entrevistas e dissertações, além de síntese SWOT operacionalizada via 5W2H. Para além das métricas de transferência e internacionalização, os resultados da pesquisa alinham metas voltadas à equidade, ao impacto social e à Agenda 2030.
Na mesma direção, o artigo de Wandercil et al. (2025), A autoavaliação como prática de governança na pós-graduação: percepções discentes e referências comparadas, discute o processo de autoavaliação e governança na Pós-Graduação em Educação sob a óptica discente em uma universidade municipal do estado de São Paulo, comparando as percepções discentes com modelos de autoavaliação aplicados em outras instituições nacionais e internacionais. Foram utilizados questionários com questões objetivas e abertas, cujos dados foram tratados por meio de estatísticas descritivas e análise de conteúdo. Os resultados indicam a necessidade de incorporar práticas mais participativas e qualitativas na autoavaliação da Pós-Graduação em Educação, fortalecendo a governança acadêmica com foco no protagonismo discente e na autoavaliação como ferramenta contínua de inovação e desenvolvimento institucional.
Ainda nesse escopo, o artigo Autoavaliação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília: desafios e oportunidades para a produção do conhecimento na área, de Sousa (2025), analisa resultados da autoavaliação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília (UnB) no quadriênio 2021-2024, buscando compreender os sentidos e os alcances das ações realizadas. Por meio da análise documental relativa à avaliação da Capes e ao programa, reuniões com as linhas de pesquisa e oficina temática presencial, apresenta resultados que evidenciam a necessidade de refletir e articular linhas de pesquisa, projetos e produções decorrentes, além de investir no fortalecimento da identidade educacional do programa, promovendo a melhoria dos programas pelo incremento de processos de autoconhecimento institucional. Faz-se necessário um olhar coletivo e crítico do programa sobre si mesmo, capaz de resultar em transformações sociais.
Por sua vez, o estudo As pesquisas do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes na perspectiva da autoavaliação: um estudo das teses e dissertações (2011-2023), de Sobral, Ferronato e Chagas (2025), faz o mapeamento de teses e dissertações produzidas no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Tiradentes (Unit), vinculadas a duas linhas de pesquisa - “Educação e Comunicação” e “Educação e Formação Docente” -, no período de 2011 a 2023. O estudo adotou como corpus de investigação o conjunto de 219 dissertações e 52 teses produzidas nas referidas linhas. As pesquisas demonstram, em sua maioria, boa aderência ao escopo investigativo das linhas, fortalecendo discussões pertinentes à área de concentração do programa e às ementas das linhas, além de subsidiarem novas discussões com as respectivas Comissões de Autoavaliação.
Ao ampliar o olhar para além das fronteiras nacionais, o terceiro agrupamento de textos do dossiê convida à reflexão sobre experiências internacionais e análises comparadas, que podem inspirar caminhos e provocar deslocamentos importantes na forma como concebemos a avaliação e a autoavaliação na Pós-Graduação em Educação.
Trevisol (2025), no artigo Autoavaliação da pós-graduação: o que a experiência internacional nos ensina?, oferece uma análise dos modelos de avaliação da pós-graduação no Brasil e nos Países Baixos. Em sua investigação, o autor destaca como o modelo brasileiro historicamente privilegia dispositivos externos e verticais de regulação, com ênfase em indicadores de desempenho. Nesse cenário, a autoavaliação aparece como prática ainda periférica, incorporada apenas recentemente à agenda institucional da Capes e enfrentando desafios significativos para sua consolidação. Em contraste, o modelo holandês baseia-se em princípios participativos (bottom-up), nos quais a autoavaliação está integrada ao planejamento estratégico das instituições, sendo conduzida com autonomia metodológica, foco formativo e articulação entre avaliação interna e externa. De acordo com o autor, os protocolos estáveis, as visitas in loco e os comitês externos independentes reforçam uma cultura de confiança e corresponsabilidade. O estudo mostra que, mais do que prestar contas, a autoavaliação pode ser um instrumento poderoso de autogestão, fortalecimento da identidade institucional e promoção da melhoria contínua - perspectivas que dialogam diretamente com os anseios da pós-graduação brasileira por maior autonomia e comprometimento com sua realidade contextual.
Na mesma direção, o estudo Articulación universitaria para la equidad: evaluación de un programa de maestría en educación con enfoque intercultural, de Ortega-Chasi et al. (2025), apresenta uma experiência latino-americana marcada pelo compromisso com a justiça social. Os autores analisam um programa de Mestrado em Educação com enfoque intercultural, desenvolvido por quatro universidades equatorianas, voltado a ampliar o acesso à pós-graduação para populações historicamente marginalizadas, sobretudo docentes de zonas rurais. Com base em metodologia mista, a pesquisa evidencia resultados em permanência e titulação, associando esses dados à articulação interinstitucional, à incorporação de tecnologias digitais e a práticas pedagógicas contextualizadas. Ainda que reconheça os desafios logísticos e curriculares do processo, a experiência equatoriana mostra que é possível construir políticas formativas mais inclusivas e territorializadas, sintonizadas com as necessidades reais de seus sujeitos e territórios.
O último agrupamento do dossiê apresenta reflexões éticas, axiológicas, epistemológicas e ontológicas sobre a autoavaliação e é composto pela entrevista de Almerindo Janela Afonso (Afonso; Zukowsky-Tavares; Brandalise, 2025) e pelos artigos de Mendonça e Rios (2025), de Brito, Escott e Santos (2025) e de Zanith e Lopes (2025).
Na entrevista, intitulada Reflexões inacabadas sobre o campo da avaliação em educação: entrevista com o Professor Almerindo Janela Afonso, o pesquisador português compreende a avaliação como um campo plural e disputado, no qual coexistem distintas concepções de conhecimento, valores e visões de ser humano. Ele critica a hegemonia neoliberal e neoconservadora, de base neopositivista e tecnocrática, que reduz o sujeito a desempenho mensurável e a educação à lógica de mercado. Em contraponto, o Professor Almerindo Janela Afonso propõe uma avaliação emancipatória e solidária, sustentada por princípios éticos, democráticos e de justiça cognitiva, na qual o sujeito é reconhecido em sua historicidade e complexidade humana.
Para a construção de uma política de avaliação contra-hegemônica aos organismos internacionais - como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Banco Mundial -, o entrevistado defende a valorização de modelos alternativos, ancorados em epistemologias críticas e plurais: avaliação democrática, dialógica, culturalmente responsiva, de empoderamento e sensível ao gênero. Tais abordagens articulam avaliação e democracia, rompendo com a colonialidade do saber e com o comparativismo eurocêntrico que naturaliza desigualdades. Para ele, uma política contra-hegemônica deve ser capaz de produzir justiça epistêmica e contribuir para o fortalecimento da democracia.
Quanto à interferência dos mecanismos internacionais de avaliação na agenda de formação na pós-graduação, o Professor Almerindo Janela Afonso observa que organismos como o Banco Mundial, a Associação Europeia para a Garantia da Qualidade no Ensino Superior (ENQA) e a Capes impõem indicadores e padrões de qualidade que condicionam a autonomia das instituições, reforçando hierarquias entre o Norte e o Sul global. A internacionalização, embora valorizada, tende a reproduzir assimetrias e dependências, a menos que seja ressignificada por meio de colaborações horizontais e solidárias entre universidades do Sul e do Norte.
Por fim, Afonso compreende a autoavaliação como ato de resistência e de autonomia coletiva, que deve se concretizar como processo formativo e emancipatório. A autoavaliação não pode ser mero instrumento burocrático ou de heteronomia, mas espaço de reflexividade crítica, de diálogo intersubjetivo e de autorreconhecimento institucional. Quando conduzida democraticamente, a autoavaliação pode promover aprendizagens institucionais, fortalecer a liberdade acadêmica e evidenciar a dimensão pedagógica e humana da pós-graduação.
No mesmo campo crítico da entrevista, Mendonça e Rios (2025), no artigo Autoavaliação e autossuperação na pós-graduação: fundamentos para uma prática ética e transformadora, discutem a autoavaliação institucional na pós-graduação brasileira à luz da Portaria Capes nº 149/2018, que a estabelece como componente obrigatório dos processos avaliativos, e propõem uma perspectiva fundamentada em princípios ético-políticos e formativos. Os autores se propuseram a construir processos de autoavaliação na pós-graduação que superem a lógica classificatória e se tornem práticas críticas, participativas e emancipatórias.
O escopo do artigo foi problematizar os limites da avaliação burocrática e defender a autoavaliação como prática pedagógica transformadora, inspirada na pedagogia freireana e em elementos filosóficos de Friedrich Nietzsche. Os autores optaram por uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter teórico-reflexivo, baseada em análise documental e em sua própria participação em iniciativas coletivas de autoavaliação em PPGs nos quais estão vinculados. Os resultados indicam que, embora a normativa represente um avanço, sua efetividade depende da ressignificação da autoavaliação como processo dialógico, crítico e situado. Conclui-se que uma autoavaliação ética e transformadora exige escuta ativa, participação democrática e compromisso com a autossuperação institucional, abrindo caminhos para a reinvenção da avaliação no contexto da pós-graduação brasileira.
Brito, Escott e Santos (2025), no artigo Autoavaliação da pós-graduação stricto sensu em redes associativas: crítica à performatividade na cultura da avaliação, aprofundam a crítica à cultura da avaliação, analisando a autoavaliação como processo formativo e crítico na pós-graduação stricto sensu em redes de cooperação entre instituições. O estudo apoiou-se na análise de três importantes documentos: a) o Plano Nacional de Pós-Graduação (2024-2028); b) o Sistema de Autoavaliação; e c) o Relatório Técnico de Autoavaliação do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT), referente ao período de 2017 a 2020.
A análise dos pressupostos epistemológicos, ontológicos e axiológicos da autoavaliação da pós-graduação, bem como das concepções de gestão democrática, participação e emancipação, contou com as contribuições teóricas de Saul (2001, 2003, 2007), Leite (2005, 2008, 2010), Leite et al. (2023), Verhine (2010, 2012) e Rowe e Frewer (2005). Os resultados da pesquisa evidenciam as contradições da cultura de avaliação baseada em indicadores e métricas de produtividade - perspectiva fundada em racionalidade competitiva e reducionista, que pouco dialoga com a produção crítica e emancipatória do conhecimento científico.
Por fim, Zanith e Lopes (2025), no artigo Formação para a docência no Ensino Superior durante a pós-graduação stricto sensu: um olhar a partir do Estágio de Docência instituído pela Capes, a partir de uma pesquisa documental, investigaram como está ocorrendo a formação para a docência no Ensino Superior das(os) pós-graduandas(os), considerando o alcance do Estágio de Docência em conjunto com outras ações formativas, como o oferecimento de disciplinas em PPGs nas áreas de Educação e de Química. Verificando diferentes cenários de desenvolvimento do Estágio de Docência, com poucos exemplos de normatização institucional, os autores indicam que tal realidade demonstra a necessidade de outros estudos a respeito do alcance da institucionalização do estágio, bem como sobre o papel da Capes como responsável pela regulação e avaliação de desempenho dos PPGs.
Ao longo deste dossiê, a partir da articulação promovida pela RAAPE, evidencia-se o esforço coletivo de pesquisadores e pesquisadoras e PPGs em Educação para compreender, sistematizar e fortalecer os processos de autoavaliação como prática formativa, crítica e estratégica. Dos artigos que o compõem emergem reflexões que vão além da dimensão técnica da avaliação, incorporando sentidos éticos, políticos e epistemológicos que reafirmam a autoavaliação como espaço de diálogo, corresponsabilidade e transformação institucional.
Os artigos reunidos abordam múltiplas dimensões da autoavaliação, desde experiências institucionais concretas até análises comparadas internacionais, passando por discussões conceituais e metodológicas. Destacam-se os desafios relacionados à consolidação de uma cultura avaliativa participativa, à integração com o planejamento estratégico e à superação da lógica performativa. A diversidade de contextos e enfoques revela que a autoavaliação pode fortalecer a identidade dos programas, promover o autoconhecimento institucional e ampliar o impacto social da pós-graduação.
Considera-se que este dossiê não apenas sistematiza conhecimentos e práticas já consolidadas, mas também abre caminhos para novas investigações e experiências. As abordagens aqui apresentadas contribuem significativamente para o aprofundamento teórico e metodológico da autoavaliação, estimulando a produção de conhecimento crítico e comprometido com a melhoria contínua da Pós-Graduação em Educação no Brasil.














