SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20Relações entre atitudes frente ao dinheiro e ao materialismo na sociedade de consumo: estudo com pré-adolescentesALMEIDA, Dóris Bittencourt; CUNHA, Maria Teresa Santos (org.). Arquivos pessoais, patrimônio e educação: ego-documentos em cena. Curitiba: Appris, 2024. 222 p. índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Práxis Educativa

versão impressa ISSN 1809-4031versão On-line ISSN 1809-4309

Práxis Educativa vol.20  Ponta Grossa  2025  Epub 12-Mar-2026

https://doi.org/10.5212/praxeduc.v.20.26141.108 

Dossiê: Zygmunt Bauman e a educação

Apresentação

Anderson Luiz Tedesco* 
http://orcid.org/0000-0002-7425-1748

Sidinei Pithan da Silva** 
http://orcid.org/0000-0001-6400-4631

Maria Teresa Ceron Trevisol*** 
http://orcid.org/0000-0001-9289-4627

Maya Aguiluz-Ibargüen**** 
http://orcid.org/0000-0002-8622-320X

*Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (PPGEd/Unoesc)

**Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (PPGCE/Unijuí)

***Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (PPGEd/Unoesc)

****Professora da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM)


O presente dossiê reúne um conjunto consistente de produções acadêmicas que tomam o pensamento de Zygmunt Bauman como referência teórica e analítica para a compreensão dos desafios educacionais, culturais e sociais que atravessam a contemporaneidade, especialmente no contexto da denominada modernidade líquida, caracterizada pela fluidez das relações, pela instabilidade institucional e pelas ambivalências constitutivas do mundo social atual. O referido dossiê resulta de um esforço de reunir pesquisadores da educação que se ocupam em tematizar a obra e os conceitos sociológicos de Zygmunt Bauman na interface de problemas educacionais. Em linhas gerais, os objetivos de tal publicação consistem em: a) estudar, refletir e compreender as contribuições do pensamento de Zygmunt Bauman para a área e as pesquisas em educação; b) promover espaços de interlocução e de divulgação entre Programas de Pós-Graduação em Educação, bem como outras articulações em redes nacionais e internacionais, docentes e pesquisadores; c) oportunizar reflexões, provocações e socializações de estudos e pesquisas a respeito das contribuições do pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman para a área e as pesquisas em educação.

Em decorrência disso, as razões para a organização do dossiê orbitam em torno da ideia de que: a) estamos em um momento de transição social e histórica, presentificando-se, cada vez mais, a fragilização dos laços humanos, a precarização das condições de vida, o individualismo e a corrosão dos valores éticos; b) novos desafios urgentes se apresentam, em um cenário de crise, desafiando-nos a compreender os marcos centrais dessas mudanças e a pensar o nosso tempo e, nele, os desafios postos à educação; c) as obras de Zygmunt Bauman apresentam subsídios epistêmicos, políticos e éticos para situarmos o debate sobre modernidade, pós-modernidade e educação, abrindo novos caminhos para as pesquisas em educação no Brasil; por fim, d) o enfoque de Zygmunt Bauman sobre as Ciências Humanas e sua reformulação da Teoria Crítica constituem um modo alternativo de pensar e projetar, no adentrar do século XXI, uma educação democrática, crítica, reflexiva e emancipatória, tendo em vista a liberdade, a igualdade, a diferença, a solidariedade e a sustentabilidade global.

De forma bastante satisfatória, temos como resultado um documento plural, marcado por preocupações mais biográficas ou obtidas por entrevistas diretas com Zygmunt Bauman, passando por análises da cultura, da educação, da escola, da universidade e da sociedade, contemplando até mesmo enfoques filosóficos comparativos entre a abordagem de Zygmunt Bauman e a de outros autores, como, por exemplo, Theodor Adorno. As produções em questão resultam, em parte, de teses de Doutorado e dissertações de Mestrado produzidas em Programas de Pós-Graduação em Educação no Brasil, o que demonstra a fecundidade da obra de Zygmunt Bauman para iluminar e analisar novos objetos de estudo na educação. Em seu conjunto, o dossiê procura dar continuidade a uma tradição de pensamento ainda recente no Brasil, que, de certa forma, se vincula ao campo de busca por fundamentar uma teoria social crítica no campo da Educação, tendo em vista também a abordagem baumaniana.

Em nossa trajetória de investigação, podemos destacar alguns marcos que nos inspiraram a desenvolver tal campo de estudos. Podemos citar a entrevista que Maya Aguiluz-Ibargüen (2005) realizou com Zygmunt Bauman para a Revista Anthropos - Huellas del conocimiento, assim como a obra que coorganizou, intitulada Las contradicciones culturales de la modernidad (Beriain; Aguiluz-Ibargüen, 2007) e, em 2009, ela publicou El lejano próximo. Estudios sociológicos de la extrañeidad, em coedição Anthropos e Universidad Nacional Autónoma de México (Aguiluz-Ibargüen, 2009). Nessa primeira obra editada por Beriain e Aguiluz-Ibargüen, os vários artigos enfocavam a potência da escritura baumaniana, ao mesmo tempo que introduziam as obras do autor para o público espanhol. Vários intérpretes, inclusive o próprio Bauman, contribuem para evidenciar temas ligados à cultura, à ambivalência, à desigualdade, à pluralidade, à teoria social, ao holocausto e à política. Na segunda obra, o estudo de Zygmunt Bauman comparece como capítulo que aborda a modernidade, a ambivalência e a fluidez social. O livro, em seu conjunto, contém escritos de autores relevantes para o pensamento social contemporâneo, tais como Daniel Bell, Michael Walzer, Reinhart Koselleck, dentre outros; enquanto, no estudo de Aguiluz-Ibargüen sobre Bauman, são oferecidas várias perspectivas para ler o sociólogo como um formador no âmbito da sociologia, da ética e da formação humanista.

Na pesquisa em educação brasileira, as obras escritas por Bracht e Almeida (2006), intitulada Emancipação e diferença na educação: uma leitura com Bauman, e por Almeida, Gomes e Bracht (2009), denominada Bauman & a educação, nos permitiram constatar o quanto precisamos avançar na tematização e no estudo desse autor para melhor entender os desafios da educação, tendo em vista o tema (pós)modernidade e educação. Com a publicação do Dicionário crítico-hermenêutico Zygmunt Bauman, organizado por Cassol, Mânfio e Silva (2021), materializamos a possibilidade de ampliar a reflexão sobre a obra de Zygmunt Bauman e trouxemos o debate para novos conceitos, tais como educação, assimilação, civilidade, cognitivo, autonomia, consumismo, estado, espaço e tempo, estranhos, felicidade, gênero líquido, hermenêutica sociológica, incerteza, loucura, medo, modernidade sólida, ordem, políticas da vida, retrotopia, trabalho, dentre outros. Em suma, sob a forma de uma constelação, tematizamos 39 conceitos fundamentais para adentrar a obra baumaniana e reunimos uma comunidade de pesquisadores e investigadores (33 no total), de distintas áreas do conhecimento, para aprofundar noções e interpretar a contribuição de Zygmunt Bauman.

Na obra Docência e educação em tempos líquido-modernos, organizada por Silva et al. (2022), ampliou-se ainda mais a ambição do projeto, e já projetamos pensar e investigar não apenas a sociedade, a cultura e a teoria social crítica, mas também nos aproximar mais da educação, particularmente da docência. Os temas da emancipação e da diferença tornaram-se importantes para a pesquisa educacional e, em parte, dividem a comunidade de pesquisadores. O modo como Zygmunt Bauman tratou desses temas em sua obra nos permitiu evidenciar como seus estudos se aproximam de uma crítica da razão instrumental e, em particular, do enfoque homogeneizante que se tornou um dos produtos da modernidade, o qual não apenas silencia e exclui os diferentes, como também os aniquila.

Na referida obra, ampliamos a reflexão sobre o lugar da diferença e da emancipação no pensamento crítico e na educação. Aprofundamos, também, nossa leitura da modernidade, compreendendo o quanto Zygmunt Bauman interpreta a modernidade sólida de forma próxima aos críticos da modernidade, tais como Karl Marx, Max Weber, Sigmund Freud, Theodor Adorno e Michel Foucault, denunciando a alienação, a jaula de aço, a repressão, a sociedade administrada e o panóptico. No entanto, também vimos que a modernidade, em sua fase líquida, parece ter invertido ou mesmo modificado a situação, de tal forma que parece que estamos vivendo em um tempo distinto da sociedade capitalista, agora denominada por Bauman de sociedade de consumo e não apenas sociedade de produtores. Sob esse aspecto, os autores discutiram aproximações entre o debate da tradição crítica e marxista no Brasil e a obra de Bauman, mostrando relações entre liquidez e subproletarização na educação, por exemplo.

Rememora-se, ainda, o evento “Clássicos e a Educação”, realizado nos dias 17 e 18 de julho de 2023, no formato de encontros on-line.1 A organização e a mediação do evento foram promovidas pela Linha de Pesquisa em Processos Educativos, do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). O evento constituiu-se como um espaço de diálogo acadêmico, reunindo pesquisadores e estudantes não só do PPGEd/Unoesc, mas também do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (PPGEdu/UPF), do Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (PPGEC/Unijuí) e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (PPGEDU/URI). Das parcerias colaborativas e institucionais estabelecidas emergiram diálogos, reflexões, provocações e socializações em torno do pensamento de Zygmunt Bauman, especialmente no que se refere ao cenário da globalização e da modernidade líquida, bem como às suas contribuições para as pesquisas em educação.

No presente dossiê, essas questões retornam, e muitas pesquisas enfocam a cultura do presentismo entre os jovens. Outras retomam sentidos ampliados sobre a relação entre educação e sociedade. A exemplo de Fabis, Rosa e Wanderer (2025), que escreveram o artigo Vidas em consumo, sujeitos escolares e a rotina “agorista”: efeitos da implementação do Novo Ensino Médio. Nele, as autoras relatam as consequências da implementação da reforma do Ensino Médio e das experiências dos estudantes de um colégio da Região Centro-Oeste do Brasil. As pesquisadoras tematizam os conceitos de sociedade de consumo e cultura agorista de Zygmunt Bauman e, a partir deles, analisam os discursos de estudantes sobre a escolarização e o modo como vivem. Na percepção de Fabis, Rosa e Wanderer (2025), são novas enfermidades que, na velocidade dos tempos líquidos, causam marcas destrutivas em uma sociedade de consumo. Destaca-se, na pesquisa, a ideia de uma aceleração do tempo, que se presentifica na superficialidade das relações e da aprendizagem, bem como na exaltação do indivíduo.

No artigo Educação crítica e modernidade líquida: Bauman leitor de Adorno, Almeida e Vaz (2025) tematizam diálogos entre Bauman e Adorno. Os autores analisam, sobretudo, leituras sociológicas e filosóficas entre a hermenêutica social e a teoria crítica. Importa também destacarmos que os autores, profundamente conhecedores da obra de Theodor Adorno e de Zygmunt Bauman, aprofundam ainda mais o debate sobre as dívidas deste último para com a teoria crítica, mas também evidenciam suas diferenças. Em texto anterior, intitulado “Duas leituras críticas da modernidade: Zygmunt Bauman leitor de Theodor Adorno”, publicado no livro Docência e educação em tempos líquido-modernos, Almeida e Vaz (2022) já haviam sinalizado essa interface importante para o pensamento educacional e social; por isso, buscar ler os textos conjuntamente enriquece o grau de aprofundamento do estudo.

João Nicodemos Martins Mânfio, no texto No dia em que encontrei Zygmunt Bauman: lições sobre modernidade líquida, educação e humanidade (Bauman; Mânfio, 2025a), narra o seu encontro com o sociólogo Zygmunt Bauman, ocorrido em 2012, e o sentido da relação entre educação e sociedade fica bastante evidente. O referido artigo ressalta o testemunho de Mânfio, no qual Zygmunt Bauman é apresentado como um pensador vivo, que tinha o diálogo como forma de ir refazendo a teoria. Silva e Aguiluz-Ibargüen (2025), no artigo Ensino de Filosofia, conhecimento e educação na interface da modernidade líquida, tematizam alguns sentidos implicados em torno do ensino de Filosofia no cenário social, epistemológico e educacional da modernidade líquida.

Silva e Aguiluz-Ibargüen (2025), assim como Bauman e Mânfio (2025a) e Almeida e Vaz (2022), procuram mostrar o sentido ampliado do conceito de educação em Bauman e, nesse sentido, só podemos compreender o ensino articulado com uma ideia de educação. A hipótese gira em torno da ideia de que há uma transição social de um cenário de modernidade sólida para uma modernidade líquida, o que produz uma crise no contexto educacional, modificando o modo como se pensa o sentido do ensino de Filosofia na escola. Há, assim, uma nova condição social, na qual emergem novos significados e sentidos sobre a arte de educar e de ser educador. Essas dimensões remetem à problemática do conhecimento e da intervenção docente, no que diz respeito às relações com a subjetividade, aos paradigmas do conhecimento e às mudanças histórico-sociais.

Guilherme e Mandalozzo (2025), por sua vez, no texto O mundo do trabalho sob a perspectiva dos nascidos em tempos líquidos: uma sequência didática com estudantes do Ensino Médio, tematizam, de forma ousada, o desafio de uma intervenção didática e pedagógica que aborda o mundo do trabalho. Um cenário de precarização nos aparece como forma de vida na modernidade líquida, a qual parece atingir e ruir os sonhos da juventude de encontrar um mundo estável e com a promessa do pleno emprego.

Santos e Molina (2025) parecem permitir que avancemos ainda mais na análise do mundo do trabalho quando escreveram o texto A educação para o século XXI e as novas demandas do capital moderno: reflexões sob a óptica de Zygmunt Bauman. Nesse estudo, os autores analisam, no relatório Educação: um tesouro a descobrir (Delors, 1999), o conceito de educação imaginado para o século XXI, a partir da lente sociológica de Zygmunt Bauman.

Akkari, Fávero e Consaltér (2025), em sentido semelhante, mas enfocando o universo do mundo público, apresentam, no artigo The liquid modernity of Bauman and its implications in a proposal for citizenship education [A modernidade líquida de Bauman e suas implicações em uma proposta de educação para a cidadania], um texto que se estrutura em duas partes: na primeira, aborda o conceito de modernidade líquida de Bauman e, na segunda, trata dos desafios atuais para a promoção de uma educação para a cidadania no contexto da modernidade líquida - tema muito importante para a educação. Zygmunt Bauman tem nos permitido pensar o lugar da educação como forma de ampliar o potencial de escolha dos sujeitos. Sem retirar os sujeitos da condição de sujeito moral, o autor tem nos desafiado a tematizar a condição de uma esfera pública ampliada, o que significa um lugar para a política. Em um mundo que parece ter separado o poder da política, cumpre o desafio de analisar como é possível formar tendo em vista uma cidadania cosmopolita, mas com capacidade crítica de analisar os lugares.

Farinon (2025), por sua vez, no texto A educação sob os princípios da identidade e condição de agente: um diálogo com Bauman e Sen, trata de um sentido de “[...] formação como constituição da identidade e da condição de agente, sob a responsabilidade das instituições de ensino em seus processos e projetos” (Farinon, 2025, p. 1). O autor utiliza método dialógico e “[...] estabelece inter-relação com Zygmunt Bauman e Amartya Sen, em perspectiva teórico-educacional [...]”, para localizar “[...] o sentido de identidade nas duas matrizes teóricas [...]” e ver a inter-relação “[...] entre os conceitos de identidade e agente [...]”, defendendo a educação “[...] com olhar atento aos desafios de construir um mundo comum” (Farinon, 2025, p. 1). Essa aproximação desse importante pensador liberal com Zygmunt Bauman resulta em uma forma de pensar como Bauman nos trouxe, para o pensamento social, uma possibilidade de dialogar com autores tão diferentes. Talvez o campo da ética seja o elemento em comum entre ambos. O enfoque do multiculturalismo e o modo como tratam o tema talvez sejam também uma forma de continuarmos a investigar as condições de constituição da identidade e dos agentes em um mundo uno e, ao mesmo tempo, múltiplo.

Trevisol, Trevisol e Trevisol (2025), no artigo Os jovens universitários na sociedade líquida: análises a partir da perspectiva de Zygmunt Bauman, buscaram “[...] conhecer o perfil dos estudantes e compreender como a realidade vivida por eles tem incidido sobre a continuidade ou a desistência dos estudos” (Trevisol; Trevisol; Trevisol, 2025, p. 1). O estudo evidencia, entre outros resultados, que a trajetória acadêmica dos jovens não é linear. A permanência na universidade está constantemente ameaçada pela instabilidade e pelas incertezas da vida cotidiana. Trata-se de uma análise muito pertinente para compreender os potenciais de inclusão e exclusão que se apresentam na escola e sua relação com a vida em uma sociedade de consumidores. Aos consumidores falhos, não há reconhecimento. Talvez a angústia do trabalho e/ou do não trabalho se situe no medo e na incerteza que esse tipo de sociedade causa nos jovens estudantes.

Contudo, as marcas identitárias e os potenciais de escolha não se resumem ao obstáculo do mundo do consumo e do trabalho; prolongam-se para o mundo público. Arenhart et al. (2025), no artigo Aporias sociopolíticas e pedagógicas em tempos líquidos: tematizando a educação republicana e democrática por instigação de Zygmunt Bauman, refletem “[...] sobre o enfrentamento das aporias sociopolíticas e pedagógicas em tempos líquidos como possibilidade e defesa de uma educação republicana e democrática” (Arenhart et al., 2025, p. 1). Trata-se de pensar como “[...] a explicitação das aporias sociopolíticas e pedagógicas contribui para a tomada de decisões lúcidas no campo prático-social” (Arenhart et al., 2025, p. 1). Entende-se que enfrentar a questão permite agir em defesa de uma escola pública, republicana e democrática - projeto que talvez signifique o desafio de criar uma cultura da política, conjuntamente com uma política cultural. Isso se refere a um modo de pensar a busca por emancipação e igualdade associada à busca por reconhecimento das diferenças. O termo “solidariedade”, em Bauman, estaria articulado aos termos “igualdade”, “liberdade”, “diferença” e “sustentabilidade”. Esses termos, assim nos parece, precisam ser compreendidos dentro da dinâmica global do capital, a qual limita e restringe a ampliação e a realização de seus resultados.

Cassol (2025), no artigo Sobre Zygmunt Bauman: filósofo social do diálogo como acontecimento entre diferentes e da educação para a solidariedade, objetivou “[...] apresentar tematizações possíveis a partir da construção teórica do filósofo social Zygmunt Bauman, desde a amplitude de possibilidades de análises, pensamentos e compreensões” (Cassol 2025, p. 1). Segundo o autor, “[...] a construção teórica de Bauman parece indicar a diversidade e a pluralidade como propriedades da condição humana e apontar a atitude dialógica como possibilidade instituinte do mundo compartilhado” (Cassol 2025, p. 1). Pereira e Silva (2025), no artigo Bauman, Freire e a ambivalência da educação na (pós)modernidade, buscaram, por sua vez, estabelecer um “[...] diálogo entre a Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman e a posição política e epistemológica de Paulo Freire” (Pereira; Silva 2025, p. 1). Os pesquisadores desenvolveram “[...] uma reflexão teórica sobre o pensamento dos dois autores em relação ao contexto social da modernidade e aos seus desdobramentos no cenário educacional ao final do século XX, oferecendo pistas sobre os desafios do limiar do século XXI” (Pereira; Silva 2025, p. 1).

No artigo Zygmunt Bauman e a Educação Física: um caminho para novas análises e possibilidades, Montalvão e Lazzarotti Filho (2025) analisaram as potencialidades do referencial baumaniano para o campo da Educação Física, evidenciando possibilidades interpretativas que contribuem para a compreensão das práticas corporais e dos processos formativos em contextos marcados pela transitoriedade e pela incerteza. Em diálogo com a tradição crítica, Benini e Santos (2025), em Bauman e a Teoria Crítica: fundamentos para repensar a educação na modernidade líquida, discutem os fundamentos epistemológicos e teóricos do pensamento de Bauman, destacando suas aproximações com a Teoria Crítica e sua relevância para a problematização dos processos educativos contemporâneos.

As condições de trabalho docente e seus desdobramentos subjetivos são analisadas por Glatz e Yaegashi (2025), no artigo Entre a liquidez e a instrumentalização das relações de trabalho: a (re)produção do sofrimento psíquico docente na pós-graduação, que evidencia os efeitos da racionalidade instrumental, da intensificação do trabalho e da precarização institucional na produção do sofrimento psíquico no âmbito da pós-graduação. No campo das políticas educacionais e das práticas institucionais, Pegoraro e González (2025), em A extensão na Educação Superior brasileira no contexto da modernidade líquida: uma análise da Resolução CNE/CES nº 7/2018 a partir dos aportes teóricos de Zygmunt Bauman, examinaram criticamente os marcos normativos da extensão universitária à luz das categorias analíticas propostas por Bauman.

O aprofundamento teórico é realizado por Abreu (2025), em Entre otimismo e pessimismo: uma análise materialista-dialética do pensamento de Bauman, no qual o autor tensiona leituras simplificadoras da obra baumaniana, situando-a no interior de contradições próprias da modernidade capitalista. De modo complementar, Rabelo (2025), em A sociologia de Zygmunt Bauman como fundamento para pesquisas sobre Educação Superior, destaca a contribuição epistemológica da sociologia de Bauman para a constituição de referenciais analíticos voltados às investigações no campo da Educação Superior.

As articulações entre educação, cultura e tradição são problematizadas por Pilz e Skolaude (2025), em Educação, tradição e modernidade líquida: ambivalências do Movimento Tradicionalista Gaúcho, evidenciando as tensões entre permanência e transformação cultural no interior de práticas educativas situadas. Em perspectiva internacional e comparada, Lemus Maestre et al. (2025), no artigo Tensiones entre Mixofobia y Mixofilia para el esperanzar: desafíos urgentes en la docencia en tiempos líquidos, analisaram os desafios contemporâneos da docência a partir das categorias baumanianas de mixofobia e mixofilia, destacando implicações éticas e pedagógicas para o ato educativo.

O dossiê amplia, ainda, o escopo analítico ao abordar processos formativos e dinâmicas sociais em outros campos. Rosso e Rosso (2025), em Identidade profissional e formação jornalística em contexto pós-moderno, discutem os impactos da fluidez pós-moderna na constituição das identidades profissionais. Já Bessa e Castro (2025), no artigo Relações entre atitudes frente ao dinheiro e ao materialismo na sociedade de consumo: estudo com pré-adolescentes, analisaram a internalização de valores materialistas em contextos formativos iniciais, evidenciando a incidência da lógica do consumo nos processos de socialização contemporâneos.

Por fim, a entrevista Sobre cultura, educação e as transformações atuais: uma entrevista com Zygmunt Bauman, conduzida por João Nicodemos Martins Mânfio (Bauman; Mânfio 2025b), apresenta reflexões acerca das transformações socioculturais em curso, constituindo um registro singular que articula educação, cultura e crítica social a partir da perspectiva de um dos principais intérpretes da modernidade contemporânea. Em suma, os textos que compõem este dossiê reafirmam a atualidade, a densidade teórica e a potência crítica do pensamento de Zygmunt Bauman (1925-2017), consolidando-o como um referencial incontornável para a análise crítica dos dilemas éticos, políticos e educacionais que atravessam a educação em tempos de liquidez, instabilidade e reconfiguração permanente das formas de vida social.

Ao evocarmos aquele que nasceu em 19 de novembro de 1925 e faleceu em 9 de janeiro de 2017, esta edição, publicada no ano em que se celebra o centenário de seu nascimento, ultrapassa o gesto comemorativo ao assumir uma condição de testemunho crítico de sua permanência intelectual. Zygmunt Bauman permanece entre nós não como memória cristalizada, mas como pensamento em movimento: inquieto, dialógico e eticamente comprometido. Sua obra continua a nos convocar a enfrentar as fragilidades do mundo comum, a problematizar as promessas e os paradoxos da modernidade líquida e a ressignificar o lugar da educação como espaço de formação, responsabilidade e esperança.

Que este dossiê, ao reunir diferentes perspectivas e campos de investigação, constitua-se não apenas como homenagem, mas como horizonte aberto. Que suas reflexões sirvam de subsídio consistente para novas pesquisas em educação, alimentando agendas investigativas, tensionando conceitos e inspirando outros diálogos. Se há liquidez em nosso tempo, que haja também densidade crítica na pesquisa e que o legado de Bauman continue vivo, com lucidez e sensibilidade, nos caminhos ainda por desbravar na pesquisa em educação.

1Informações a respeito do evento estão disponibilizadas no site da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc): https://www.unoesc.edu.br/blog/ppged-promove-seminario-classicos-e-a-educacao-zygmunt-bauman/. Acesso em: 27 fev. 2026.

Referências

ABREU, L. L. de. Entre otimismo e pessimismo: uma análise materialista-dialética do pensamento de Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-16, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24649.101Links ]

AGUILUZ-IBARGÜEN, M. Del futuro como mistério a la cultura del desperdício. Pasaje con Zygmunt Bauman. [Entrevista concedida a] Maya Aguiluz-Ibargüen. Revista Anthropos Huellas del conocimiento, Rubí, n. 206, p. 27-30, 2005. [ Links ]

AGUILUZ-IBARGÜEN, M. El lejano próximo. Estudios sociológicos de la extrañeidad. [S. l.]: Anthropos e Universidad Nacional Autónoma de México, 2009. [ Links ]

AKKARI, A.; FÁVERO, A. A.; CONSALTÉR, E. The liquid modernity of Bauman and its implications in a proposal for citizenship education. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-10, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24531.056Links ]

ALMEIDA, F. Q. de; GOMES, I. M. G.; BRACHT, V. Bauman & a educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. [ Links ]

ALMEIDA, F. Q. de; VAZ, A. F. Duas leituras críticas da modernidade: Zygmunt Bauman, Leitor de Theodor W. Adorno. In: SILVA, S. P. da; PRESTES, F. da S.; CABELEIRA, M. D. S.; MARCELINO, P. C. (org.). Docência e educação em tempos líquido-modernos. Ijuí: Editora Unijuí, 2022. p. 31-47. [ Links ]

ALMEIDA, F. Q. de; VAZ, A. F. Educação crítica e modernidade líquida: Bauman leitor de Adorno. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-17, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24664.027Links ]

ARENHART, L. O.; KUHN, M.; BEATRIZ, A.; HAHN, N. B. Aporias sociopolíticas e pedagógicas em tempos líquidos: tematizando a educação republicana e democrática por instigação de Zygmunt Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-21, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24538.065Links ]

BAUMAN, Z.; MÂNFIO, J. N. M. No dia em que encontrei Zygmunt Bauman: lições sobre modernidade líquida, educação e humanidade. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-9, 2025a. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24574.028Links ]

BAUMAN, Z.; MÂNFIO, J. N. M. Sobre cultura, educação e as transformações atuais: uma entrevista com Zygmunt Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-9, 2025b. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24575.095Links ]

BENINI, S. M.; SANTOS, R. M. dos. Bauman e a teoria crítica: fundamentos para repensar a educação na modernidade líquida. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-11, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24583.094Links ]

BERIAIN, J.; AGUILUZ-IBARGÜEN, M. (coord.). Las contradicciones culturales de la modernidad. Rubi: Anthropos, 2007. [ Links ]

BESSA, S.; CASTRO, E. A. S. de. Relações entre atitudes frente ao dinheiro e ao materialismo na sociedade de consumo: estudo com pré-adolescentes. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-23, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24581.106Links ]

BRACHT, V.; ALMEIDA, F. Q. Emancipação e diferença na educação: uma leitura com Bauman. Campinas: Autores Associados, 2006. [ Links ]

CASSOL, C. V. Sobre Zygmunt Bauman: filósofo social do diálogo como acontecimento entre diferentes e da educação para a solidariedade. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-18, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24522.067Links ]

CASSOL, C. V.; MÂNFIO, J. N. M.; SILVA, S. P. da (org.). Dicionário crítico-hermenêutico Zygmunt Bauman. Ijuí: Editora Unijuí; Frederico Westphalen: Editora URI, 2021. [ Links ]

DELORS, J. (org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da comissão internacional sobre educação para o século XXI. São Paulo: UNESCO, MEC, Cortez, 1999. [ Links ]

FABIS, C. da S.; ROSA, B. F. da; WANDERER, F. Vidas em consumo, sujeitos escolares e a rotina “agorista”: efeitos da implementação do Novo Ensino Médio. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-19, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24638.023Links ]

FARINON, M. J. A educação sob os princípios da identidade e condição de agente: um diálogo com Bauman e Sen. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-15, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.25164.062Links ]

GLATZ, E. T. M. de M.; YAEGASHI, S. F. R. Entre a liquidez e a instrumentalização das relações de trabalho: a (re)produção do sofrimento psíquico docente na pós-graduação. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-16, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24666.096Links ]

GUILHERME, R. A. M.; MANDALOZZO, S. S. N. O mundo do trabalho sob a perspectiva dos nascidos em tempos líquidos: uma sequência didática com estudantes do Ensino Médio. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-18, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24663.051Links ]

LEMUS MAESTRE, J. G.; YÁÑEZ VELAZCO, J. C.; FORTUNATO, I.; TEDESCO, A. L. Tensiones entre mixofobia y mixofilia para el esperanzar: desafíos urgentes en la docencia en tiempos líquidos. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-18, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.25835.104Links ]

MONTALVÃO, T. R.; LAZZAROTTI FILHO, A. Zygmunt Bauman e a educação física: um caminho para novas análises e possibilidades. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-20, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24668.081Links ]

PEGORARO, S. de O. M.; GONZÁLEZ, F. J. A extensão na educação superior brasileira no contexto da modernidade líquida: uma análise da Resolução CNE/CES nº 7/2018 a partir dos aportes teóricos de Zygmunt Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-15, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24671.099Links ]

PEREIRA, T. I.; SILVA, L. F. S. C. da. Bauman, Freire e a ambivalência da educação na (pós)modernidade. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-12, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24972.073Links ]

PILZ, T. E.; SKOLAUDE, M. S. Educação, tradição e modernidade líquida: ambivalências do movimento tradicionalista gaúcho. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-20, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24613.103Links ]

RABELO, R. A. da S. V. A sociologia de Zygmunt Bauman como fundamento para pesquisas sobre educação superior. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-18, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24551.102Links ]

ROSSO, A. L. D.; ROSSO, A. J. Identidade profissional e formação jornalística em contexto pós-moderno. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-20, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.25700.105Links ]

SANTOS, Q. P. V.; MOLINA, A. A. A educação para o século XXI e as novas demandas do capital moderno: reflexões sob a óptica de Zygmunt Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-17, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24599.058Links ]

SILVA, S. P. da; AGUILUZ-IBARGÜEN, M. Ensino de filosofia, conhecimento e educação na interface da modernidade líquida. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-20, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24672.029Links ]

SILVA, S. P.; PRESTES, F. S.; CABELEIRA, M. D. S.; MARCELINO, P. C. (org.). Docência e educação em tempos líquido-modernos. Ijuí: Editora Unijuí, 2022. [ Links ]

TREVISOL, J. V.; TREVISOL, M. T. C.; TREVISOL, M. G. Os jovens universitários na sociedade líquida: análises a partir da perspectiva de Zygmunt Bauman. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 20, p. 1-20, 2025. DOI: https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.20.24641.064Links ]

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons.