Introdução
No contexto da pandemia, o Ensino Remoto Emergencial (ERE) se apresentou como única alternativa possível para a consecução das atividades educativas formais em um período marcado pela necessidade do distanciamento social. Isso evidenciou a utilidade das plataformas digitais de educação online, legitimando-as em certa medida perante a opinião pública. As possibilidades oferecidas por essa tecnologia passaram ao primeiro plano da discussão pública, aparecendo como referência para a formulação de políticas e projetos pedagógicos.
Sob o impacto das Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC), a reconfiguração dos papéis na relação pedagógica foi, e, continua a ser, algo premente. E, nesse sentido, tornou-se imperativo repensar espaços, tempos e currículos chancelados pela tradição em diferentes áreas do conhecimento, modificando-os de modo substancial. Exige-se cada vez mais uma forma pedagógica alinhada a propostas abertas, colaborativas, flexíveis e adaptadas, nas quais a centralidade docente nos processos de aprendizagem desloca-se em direção aos discentes com a pretensão de torná-los protagonistas de seus próprios destinos.
Contudo, essa pretensão encontra um locus organizador e centralizador. Assistimos à abertura de um novo espaço para a chamada “diversificação de modelos” e de políticas de educação por meio da utilização crescente de plataformas de aprendizagem digitais. De um fenômeno excepcional, muito embora já largamente presentes em outros âmbitos da vida, as empresas-plataforma se expandiram, permeando as atividades cotidianas próprias à ambiência estritamente educacional.
Isto posto, coloca-se a questão sobre o significado pedagógico subjacente à utilização dessas plataformas. Apresentamos aqui uma análise da plataforma de aprendizagem digital Moodle através da reconstrução empírica de materiais que norteiam sua proposta pedagógica: um vídeo publicitário e dois documentos representativos das intenções pedagógicas da plataforma. A análise empírica foi realizada de acordo com os pressupostos metodológicos da Hermenêutica Objetiva, que consiste em operar uma reconstrução dos casos, depreendendo sua estrutura de sentido latente, de modo a construir uma interpretação sobre seu significado sociológico (Flick, 2009; Reichertz, 2008; Wernet, 2009; Wernet, 2021).
Essa análise procurou reconstruir o sentido que se atribui à utilização da plataforma, de acordo com as próprias declarações de princípios que lhe são constitutivas e fornecidas de modo oficial, tanto pelo vídeo publicitário, como nos documentos “Filosofia” e “Pedagogia Moodle”. Tais casos constituem sua estrutura de sentido manifesta, ao mesmo tempo em que demonstram suas contradições internas, decorrentes de sua estrutura de sentido latente (Wernet, 2021), tornando possível a interpretação de seu significado sociológico - e, neste caso, também pedagógico. Assim, o texto apresenta elementos decorrentes da análise efetuada, e, ao final, uma discussão de seus resultados, visando contribuir para o debate crítico sobre as condições, finalidades e impactos do emprego de tecnologias digitais de informação e comunicação, a exemplo da plataforma Moodle, no âmbito da educação formal.
Estratégia propagandista: a pretensão de melhoramento e suas contradições
Iniciamos pela análise de uma peça de propaganda do Moodle, a qual apresenta as potencialidades da plataforma de aprendizagem digital enquanto suporte para as práticas educacionais contemporâneas. Tal caso nos permite identificar as pretensões de “melhoramento” da aprendizagem, ao mesmo tempo em que ressignifica o papel docente e discente em relação ao processo formativo comunicacional, entendido aqui como mediação de interações sociais e educacionais através da conectividade, mobilidade e ubiquidade (Santaella, 2010).
Logotipo e slogan Moodle
O slogan da plataforma, localizado abaixo do logotipo, é significativo: Empowering educators to improve our world1. O verbo empoderar se refere à aquisição do poder de decisão por uma pessoa ou um grupo historicamente oprimido. Trata-se de uma ideia de conquista de autonomia: grupos empoderados são aqueles que superam uma situação de tutela e passam a participar de modo independente na vida pública. Empoderamento faz referência à autodeterminação, de modo que o verbo empoderar se refere ao ato de conquistar a autodeterminação, adquirindo o poder de falar por conta própria.
No entanto, o uso do verbo no enunciado na frase que compõe o slogan não indica um processo de conquista da autonomia por aqueles que pretendem se empoderar. Empowering educators mostra que os educadores são empoderados, mas o sujeito oculto da ação de empoderar é a plataforma Moodle. O slogan nos permite depreender que é a plataforma que empodera os educadores, de modo que, por consequência, os educadores dependem da plataforma para empoderar-se, adquirir autonomia no exercício de sua profissão.
O slogan parece partir do pressuposto de que os educadores precisam ser empoderados. Afirmar que a plataforma os empodera significa dizer que eles precisam de empoderamento, dando a entender que se encontram em uma situação desfavorável, na qual não conseguem exercer satisfatoriamente sua função profissional. Por isso, precisam se empoderar. E para isso dependem do uso de uma tecnologia digital.
O emprego da palavra empowering, no gerúndio, indica a continuidade da ação em processo, dando a entender que é o uso continuado da plataforma que permite aos educadores a conquista do “empoderamento”. Se empoderamento for entendido como autodeterminação no exercício da profissão de educador, tem-se uma contradição intrínseca: o slogan apresenta a promessa de empoderar os educadores, tornando-os mais autônomos, ao mesmo tempo em que insinua que só podem ser autônomos enquanto utilizarem a plataforma, ou seja, na medida em que se tornam dependentes dela.
O pretenso empoderamento promovido pela plataforma consiste em criar uma situação de dependência: a atividade dos educadores, na verdade, passa a depender do uso da plataforma. Nesse sentido, é significativa também a escolha de palavras: empoderar educadores, não professores. A palavra professor se refere a uma profissão, que, como tal, possui uma normatividade própria, geralmente regulamentada por lei, e que, em certa medida, ainda goza de prestígio social. O uso do termo educadores - mais genérico - não possui essa carga jurídica, valorativa e normativa. A opção por um termo menos formal, que não carrega o mesmo teor de autoridade que o termo professor, corrobora o pressuposto de que esses sujeitos carecem de empoderamento.
Em que pese a constatação de que educadores careçam de um recurso externo para adquirir poder no exercício de sua função, o slogan admite sua importância social, como fica claro no objetivo declarado: os educadores são empoderados to improve our world2. Com isso, admite-se que os educadores são necessários para o melhoramento do mundo em que vivemos e compartilhamos. No entanto, para que sejam capazes de realizar o melhoramento desse mundo, é necessário que façam uso da plataforma, pois só assim estarão aptos a cumprir essa tarefa.
O slogan da plataforma sintetiza um diagnóstico a respeito da função social dos educadores: eles são necessários para a construção de um mundo melhor, pois deles depende a educação das novas gerações. É por meio da educação que as novas gerações são integradas à sociedade, e, dessa forma, tornam-se aptos a agir no mundo. Essa ação é concebida criticamente: não se trata apenas de reproduzir a sociedade, mas também de aperfeiçoá-la, melhorá-la.
No entanto, pressupõe-se que essa capacidade de educar as novas gerações enfrenta uma crise. Os educadores já não estariam suficientemente paramentados para o exercício de seu papel: necessitam do auxílio da tecnologia digital - no caso, da plataforma Moodle. Os educadores que não a utilizam correm o risco de tornar-se obsoletos. Já não estão aptos a enfrentar os desafios do nosso mundo - um mundo em transformação, em que cada vez mais a tecnologia desempenha um papel fundamental. Só podem cumprir essa tarefa se utilizarem as tecnologias digitais de informação e comunicação, as quais promovem conectividade, mobilidade e ubiquidade, valores tão fortemente presentes na sociedade contemporânea.
Essa conclusão revela a função propagandística do logotipo da plataforma: se o Moodle é capaz de conferir poder aos educadores no exercício de sua função, suprindo uma carência, e, dessa forma, tornando-os aptos a atuar para a melhoria do mundo, isso significa que o próprio Moodle, do qual dependem para empoderar-se, é uma ferramenta indispensável para a melhoria do mundo.
Relação professor-aluno e os processos de comunicação ubíqua e remota
O logotipo do Moodle revela a pretensão de aperfeiçoamento do ensino pelo uso contínuo da plataforma. Cabe investigar como a plataforma pretende realizar esse objetivo. A análise do vídeo publicitário nos permite reconstruir o modo como a plataforma concebe a atuação do educador e de sua relação com os educandos. Assim, é possível evidenciar a pretensão de potencial educativo promovido pela ferramenta e do auxílio que pretende fornecer ao educador.
A propaganda nos apresenta o Moodle como um software de aprendizagem online e de auxílio ao “empoderamento” do educador, representado pela figura de uma mulher - evocada no vídeo como “Maria” - que, em seus movimentos corporais, sugere estar apontando para algum objeto a ser observado pelos alunos, tal qual uma professora frente à lousa. Nesse sentido, a performance corporal simula um efeito pedagógico. Sua performance sugere que, com poucas ações, rápidas e fáceis de executar (no que diz respeito à utilização da plataforma), o acesso aos recursos (atividades e ferramentas), ocorre de maneira ágil, quase que intuitiva. Ressalte-se, porém, que o objeto de sua ação são os recursos da plataforma digital, não os conteúdos que devem ser aprendidos.
No vídeo, vemos a educadora utilizar gestos tradicionais da educação, como apontar para a tela como se fosse uma lousa (como se depreende da ilustração no quadro na figura 2), com o objetivo de mostrar que a aprendizagem por meio da plataforma pode ser fácil, ágil e rápida. A figura do educador é apresentada de modo semelhante à de um apresentador dos mecanismos da plataforma. Assim, sua função pedagógica aparece reduzida à função de operação do mecanismo digital.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=3ORsUGVNxGs.
Figura 2 Ações e expressões corporais da educadora “Maria” no Moodle
A sequência da propaganda (Figura 3) sugere o modo como o Moodle concebe a relação professor-aluno, em sua relação comunicativa entre os usuários da plataforma. A educadora está em casa e o aluno está em um espaço aberto e movimentado. Não é necessário que estejam juntos no mesmo espaço e ao mesmo tempo para que a relação educativa ocorra. Com isso, racionalidade tecnológica e online se apresenta também como fator de segurança e comodidade, denotando a praticidade que tal racionalidade expressa. A possibilidade de realizar a relação educativa sem depender da presença simultânea em um mesmo espaço físico adquire importância em um contexto de flexibilidade e aceleração, em que o tempo já não pode ser administrado de modo rígido e contínuo. Com as possibilidades oferecidas pela tecnologia, conforme apresentadas no vídeo publicitário, educadores e alunos podem se comunicar a qualquer tempo e local. A ubiquidade tecnológica se apresenta de maneira correspondente, já que a presença da tecnologia é obrigatória para que a relação pedagógica se concretize nessas condições.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=3ORsUGVNxGs.
Figura 3 Relação comunicativa entre usuários e o Moodle
Quando observamos a expressão corporal da educadora, conforme representada na figura 3, verificamos que Maria está sentada confortavelmente em uma poltrona, ao mesmo tempo em que aparenta um estado de concentração. Da mesma forma, seu aluno permanece de pé, em um espaço aberto, mas também concentrado na tela que manuseia. Que tipo de concentração vemos expressa no frame? O vídeo mostra os personagens/usuários imersos no aparato: o aluno em pé em meio a uma multidão e a educadora sentada no sofá, talvez em sua própria casa. É o aparato tecnológico digital que se torna objeto de concentração, na medida em que torna possível a relação educativa à distância.
Os aparatos tecnológicos digitais representados pelo celular e pelo tablet, conectados pela internet e pela plataforma, tornam-se um canal exclusivo de comunicação do qual passa a depender a relação pedagógica entre professora e aluno. Além disso, concentram uma grande parte das informações e conteúdos disponíveis. Isso indica o pretenso potencial de plataformas como o Moodle em emular os aspectos do processo tradicional de aprendizagem, ou mesmo de substituí-lo. Como expressão dessa mesma pretensão temos a velocidade da comunicação, e consequente economia de tempo e espaço na mensagem enviada à Maria solicitando o material trabalhado na sessão anterior “Oi Maria, você pode enviar para mim as anotações de ontem?”. Graças à tecnologia digital, e à plataforma Moodle em particular, o material solicitado pode ser enviado imediatamente, sem que o aluno precise esperar pela próxima aula ou se deslocar até o espaço físico da escola.
Tal como ocorre nas redes sociais virtuais, a comunicação se faz de modo instantâneo. Ao demonstrar esse aspecto, a propaganda não ressalta necessariamente o conteúdo, mas a agilidade da própria comunicação. O relevante é o modo flexível e adaptável que a arquitetura de comunicação estabelece entre software e usuário.
De modo análogo ao Google - o qual é compreendido como uma espécie de oráculo moderno apto a concentrar a busca por respostas a todos os assuntos -, o Moodle se apresenta como o caminho “mais eficiente” para disponibilizar e organizar as informações encontradas na internet. Como podemos notar, até os nomes - Google e Moodle - se parecem. Dessa forma, o Moodle apenas auxilia a navegação, seleção, comunicação e organização do material a ser estudado. Uma função que fica muito aquém do pretendido empoderamento propagandeado pelo slogan do produto.
O suposto empoderamento que o Moodle oferece aos educadores é o de permitir que eles possam ser os facilitadores, organizadores e “performadores” (performers) das informações que estão dispersas na internet e que, por meio da plataforma e seus recursos, possam vir a ser selecionados e apresentados aos alunos. O educador agora sabe o que fazer: ir ao Google, selecionar, organizar as informações e o passo a passo para que os alunos possam acessá-los dentro do Moodle, sempre por meio das atividades e recursos disponíveis. A principal função do Moodle é de permitir que o educador online organize o material e torne-o disponível ao educando.
Nas imagens finais da propaganda, vemos a expressão mais bem-acabada do Moodle como ferramenta comunicativa: a representação do mundo girando, transformando-se no logotipo da empresa, e, posteriormente, em um aparelho de celular.
Quando temos o Moodle representado como se fosse o mundo e Maria o segurando com suas mãos para o alto, não vemos uma tarefa colossal como a que Atlas enfrentou após ser condenado por Zeus a sustentar sobre os ombros a abóboda celeste. A educadora online o sustenta com facilidade e alegria, denotando a leveza e facilidade que a tarefa docente adquire graças ao emprego da plataforma. E, nesse sentido, a propaganda nos informa que, no mais recente processo de aprendizagem mediado tecnologicamente, o qual é realizado com leveza, e sem maiores esforços por parte dos educadores, sua relevância se expressa na capacidade de comunicação e gestão de dados que ele pode concentrar justamente por estar alinhado às determinações que o uso da tecnologia impõe sobre as nossas relações.
Deste modo, o vídeo acaba com o Moodle/Mundo plasmado em uma tela na palma da mão da emancipada educadora Maria, que, com um grande sorriso, compreende seu trabalho reduzido e instrumentalizado à gestão da aprendizagem através da plataforma.
A reconstrução analítica da vídeo-propaganda nos permitiu expor a atuação do educador como um “performador” e gestor de dados. Este, ao ser pretensamente “empoderado” pela plataforma, evidencia a contradição interna entre a onipotência de sua atuação em melhorar o mundo e aquilo que ela demonstra ser na prática: ferramenta comunicativa.
Fundamentos educacionais do Moodle
Se a pretensão representada no vídeo publicitário é de melhoria do mundo e do empoderamento do educador através do Moodle, nada mais significativo do que compreender o modo como a plataforma pretende alcançar essa finalidade. Para isso, serão analisados os documentos que expõem os fundamentos educacionais da plataforma.
Filosofia Moodle: o caminho para a aprendizagem
Iniciamos pelo documento que expressa a “Filosofia” Moodle. A palavra filosofia advém da língua grega e significa “amor à sabedoria” (Abbagnano, 2007), utilizada para se referir à prática da reflexão e da procura por conhecimentos sobre o mundo. A existência de uma Filosofia Moodle indica que a plataforma aspira a uma postura reflexiva, de proceder em um pensamento rigoroso sobre sua proposta. Assim, o material evoca a autoridade que a filosofia comporta na tradição cultural, possivelmente procurando se legitimar através dela.
Na linguagem cotidiana, a palavra “Filosofia” também costuma ser utilizada para se referir a conjunto de ideias, concepções ou obras de determinados pensadores que podem culminar em teorias, sistemas, doutrinas. Nesse sentido, como compilação conceitual e conhecimento estabelecido, a palavra “Filosofia” pode se referir a uma “verdade que deve levar do saber à ação, que expõe o caráter mais pragmático que relaciona o ‘fazer e o ‘saber utilizar’ em benefício do homem” (Abbagnano, 2007, p.514).
Ao abordarmos o início do documento, temos a afirmação: “The design and development of Moodle is guided by a ‘social constructionist pedagogy3’". A palavra “design” diz respeito a uma variedade de ideias, tais como: planejar, modelar, desenhar, propor arranjos e ações que estão ligadas à decisão de como algo parece, trabalha ou deve ser usado. Em conjunto, “design e desenvolvimento” designam o modo como a plataforma é conduzida e como deve operar. A frase analisada indica que, apesar de existirem muitas possibilidades “filosóficas”, o Moodle é orientado, já a partir de sua concepção, por um modelo de conhecimento específico: a teoria pedagógica “construcionista social”. Portanto, há uma concepção específica da aprendizagem no Moodle. E, se há essa concepção específica, temos a “Filosofia” reduzida a uma forma, um modo único de saber e agir que se expressa pela “pedagogia construcionista social”. Uma forma que representa o “guia” para a verdadeira aprendizagem, ou ao menos daquela considerada mais adequada pelos desenvolvedores da plataforma.
O significado dessa opção pela pedagogia construcionista social se manifesta no modo como o documento concebe a comunicação contemporânea, e as atitudes que lhe são subjacentes, em um subtítulo posterior, denominado “Connected and separate4”.
O termo “conectado”, nos tempos atuais, nos remete a estar “ligado”, conectado à plataforma de aprendizagem, um estar junto, em comunidade. Separado, por sua vez, remete a estar isolado, off-line, desconectado. No texto apresentado, o documento atribui a busca pelo conhecimento objetivo e factual à atitude de quem está “separado” (“separate”), procurando sustentar suas ideias de modo independente de outros indivíduos, ou mesmo contrário a eles. Já “conectado” (“connected”) corresponde a um comportamento “empático” às motivações subjetivas da argumentação que expressa o ponto de vista de um outro e a partir do qual, em um processo dialógico, seria possível construir uma compreensão comum, tal como indicado no documento analisado (vide figura 7).
Aqui, o documento apresenta a atitude conectada como mais empática e aberta à divergência que caracteriza as experiências intersubjetivas, apresentando um senso de comunidade (de estar junto) que é entendido como um estimulante para o aprendizado. Como se verifica na sequência, além de aproximar as pessoas, essa atitude também promove “uma reflexão mais profunda e um reexame de suas crenças”. Nesse sentido, estar “conectado” (online) na plataforma Moodle representa uma motivação e uma possibilidade maior de comunicação coletiva, que permite uma revisão de pensamentos e ideias, do que estar “separado” (off-line), sozinho, com um pensamento conceitual, “objetivo e factual”.
Essa caracterização de apego ao conhecimento objetivo como uma atitude refratária ao outro é significativa, pois revela uma concepção segundo a qual a construção e a avaliação do conhecimento são apresentadas como dependentes de uma relação intersubjetiva. Isso justifica o uso da plataforma, pois seu potencial se estabelece justamente por corresponder ao ideal de estar conectado, em comunidade online, e com comunicação instantânea e independente de um espaço físico comum, compartilhando motivações subjetivas, refletindo criticamente por intermédio do grupo e assim atualizando suas posições. Assim se realizaria uma forma mais eficiente de aprender, caracterizada por uma atitude “construtiva” que é capaz de discernir entre os momentos em que o indivíduo deve se apegar ao conhecimento objetivo e aqueles em que ele deve se abrir ao diálogo para repensar criticamente sua posição por meio do contato com outros indivíduos, tal como descrito no documento.
Assim, o Moodle promove um ideal comunicativo de educação, pois seu design é concebido de acordo com a finalidade de promover uma “construção e avaliação coletiva do conhecimento”, dependente de uma capacidade comunicativa de compartilhamento de motivações subjetivas. Essa construção coletiva, por sua vez, se realiza por meio da conexão com a plataforma, caminho que a “Filosofia” Moodle indica para que a aprendizagem se efetive. Ela se realizaria de modo mais eficiente através da promoção de comunicação constante entre seus usuários, de acordo com o modelo de seu design e a concepção “filosófica” que lhe é subjacente. E, se é assim, podemos compreender que o aparato tecnológico do Moodle deve promover uma aprendizagem comunicacional didaticamente colaborativa, justificando-se como ferramenta pedagógica e reafirmando seu potencial de empoderar os educadores.
Pedagogia Moodle: o modo de condução da aprendizagem
Se a “Filosofia” Moodle se apresentou como guia no caminho para a aprendizagem, sendo a pedagogia construcionista social a baliza desse percurso, o que esperar, então, de sua “Pedagogia”?
A palavra “Pedagogy” (pedagogia) advém da junção de duas palavras de origem grega: “paidos”, que significa criança, e “agogé”, que significa condução. Temos, então, que “Pedagogia” é o modo de conduzir a criança. Condução no sentido de mostrar o caminho, não apenas indicando o percurso, mas estando junto ao longo do processo. Em seguida, a partir da imagem 8, temos a seguinte frase: “Let’s sit back and really reflect on the pedagogy that is at the core of what we, as online educators, are trying to do5”. Apesar de simular uma conversa informal a fim de se aproximar retoricamente do leitor, esse trecho inicial apresenta a pretensão de realizar uma reflexão sobre o que seria o núcleo/centro da atividade dos educadores online. O que se encontra em seguida, porém, não se dirige diretamente a essa finalidade.
O documento opta por seguir apresentando uma definição de “Pedagogia” extraída de um verbete de uma plataforma de código aberto, de construção coletiva e online, chamada “Wikcionário”. Esse é um procedimento prototípico dos recursos da plataforma: localizar e expor um conteúdo já disponível na internet. O procedimento se repete com a referência à Wikipedia, que apresenta uma definição expandida, incluindo a etimologia da palavra. Porém, ainda que a Wikipedia apresente uma variedade de concepções, o documento opta por selecionar as ideias que são apresentadas para a definição de Pedagogia, engendrando uma lógica própria, na qual se destacam as estratégias e estilos de instrução como modo de conduzir a aprendizagem.
O que temos em seguida é uma apresentação do modo como a plataforma concebe a si mesma, através de uma definição pré-estabelecida e conclusiva, limitada, que encerra a reflexão e o debate anteriormente anunciado. Nela, o Moodle caracteriza a prática dos intitulados “educadores online”, apresentada como definidora da própria plataforma, sob o título “Moodle in three short paragraphs6”.
Esse tópico anuncia que “The heart of Moodle is courses that contain activities and resources7”, ou seja, as atividades e recursos seriam o núcleo do funcionamento da plataforma. Temos a simbologia do uso da palavra “coração”, um órgão vital, que pulsa e é bombeado pelas veias, neste caso, pelas “atividades” e “recursos” contidos na plataforma, havendo uma interrelação entre eles para que o Moodle tenha “vida”, i.e., funcione. Aqui, a palavra “cursos” não se refere a seu significado tradicional, mas a uma operacionalidade do software. O “coração” é equiparado à funcionalidade inerente à plataforma de aprendizagem, que se desdobra através de uma série de atividades distintas, que podem ser escolhidas e customizadas, conforme indicado na sequência do texto.
Conforme o documento indica, as atividades são a força motriz da plataforma, pois ela opera por meio de um “modelo baseado em atividades”. Como se lê: “The main power of this activity-based model comes in combining activities into sequences and groups, which can help you guide participants through learning paths. Thus, each activity can build on the outcomes of previous ones8”. Daí se depreende a lógica de funcionamento da plataforma: organizar atividades de acordo com “trilhas de aprendizagem” (“learning paths”) previamente planejadas. É a dimensão de planejamento - e a requerida organização e disposição dos elementos do plano - que determinam o funcionamento da plataforma. Ao “educador online”, cabe a tarefa de guiar (“guide”) os participantes (“participants”) através das trilhas planejadas. A pedagogia do Moodle consiste em conduzir os participantes através das atividades, seguindo a trilha programada, de acordo com a lógica de funcionamento da plataforma.
Sabendo que Moodle é uma plataforma de aprendizagem online, temos, portanto, o modo de condução da aprendizagem que se pretende realizar. Esse aspecto nos permite perceber a articulação entre a pretensão de legitimação através uso de conceitos já amplamente reconhecidos, como “Filosofia” e “Pedagogia”, porém ressignificando tais noções em favor de sua própria concepção construcionista social. Esta concepção pressupõe a comunicação intersubjetiva como aspecto fundamental da construção do conhecimento, justificando a utilização da plataforma como ferramenta pedagógica, pois opera um mecanismo através do qual a comunicação se concretiza. Em outras palavras, ao possibilitar a comunicação, a plataforma torna possível a comunicação e, com ela, a construção conjunta do conhecimento almejado pela concepção construcionista social.
Atividades e Recursos: uma combinação prescritiva
O leque de diferentes tipos de atividades e recursos que podem ser customizados, de modo a compor o curso, não deixa de expressar a limitação destes pelo próprio sistema, conformados à lógica pragmática do software. Não só os recursos são limitados, mas também toda a atividade pedagógica, que se torna dependente destes recursos e do próprio sistema. As “atividades” ocorrem de modo qualitativamente distinto no Moodle e na prática didática em sala de aula, pois no ambiente presencial elas não possuem as mesmas limitações técnicas, o que fornece uma ampla gama de possibilidades ao professor. No Moodle, as possibilidades didáticas e pedagógicas ficam restritas em função das limitações técnicas da plataforma, o que restringe a autonomia pedagógica do professor que se quer empoderar, contradizendo a pretensão propagandística de empoderamento.
De maneira geral, as “atividades e recursos” correspondem a uma otimização das ferramentas, que conduzem o processo de escolha do professor por determinada atividade pedagógica de acordo com o design do Moodle, que procura promover uma comunicação eficiente, em sintonia com o vocabulário e recursos utilizados no campo tecnológico digital. Contudo, tais ferramentas não representam, de modo evidente, uma proposição de atividade para aprendizagem, no sentido pedagógico, e sim ajustamento às tecnologias presentes em âmbitos externos ao educativo e que se pretende incorporar à linguagem educacional.
Dito de outro modo, “atividades e recursos” são ferramentas comunicativas que reforçam o aprendizado da gestão de informações que devem constantemente perpassar a plataforma para que ela opere e que a pretendida construção coletiva de conhecimento ocorra. Correspondem aproximadamente a uma sofisticação tecnológica de um desenvolvimento iniciado com a ideia de uma “máquina de aprendizagem” de Skinner (1972). Através dela, a aprendizagem almejada seria conduzida pela interação dos usuários com as atividades e ferramentas disponibilizadas pela plataforma, conforme as orientações do educador online. Os conteúdos são acessados através desses recursos e a interação com eles se torna dependente da mediação tecnológica e de seu design subjacente.
Apesar de o Moodle afirmar que as atividades podem ser customizadas, o modo de condução da aprendizagem manifesta a combinação entre uma pedagogia específica e o próprio software com suas ferramentas e modo específico de organização. Se é assim, existe uma prescrição, um modo de uso o qual o educador online deve estar familiarizado para poder “conduzir os participantes no caminho da aprendizagem”. Existe uma distinção nesta ideia de condução: há uma dupla atuação, com o professor conduzindo o processo de aprendizagem enquanto, simultaneamente, a plataforma o conduz. Porém, a condução do professor é dependente do design da plataforma, mesmo em momentos em que ele parece adquirir protagonismo.
É necessária a realização de um pacto pedagógico na utilização do Moodle, no qual os usuários, em seus variados papéis (como educadores ou alunos) devem constantemente alimentar o sistema para que ele possa continuar sendo útil em sua função, uma vez que somente com a integração total ao sistema é que a atuação enquanto “educador online” pode ser realizada nesta plataforma. O educador sofre impactos em sua autonomia no processo de condução da aprendizagem devido ao próprio modelo pedagógico ao qual está submetido, que o compreende apenas como uma espécie de guia. A plataforma, constituída como uma tecnologia de gestão e de comunicação, limita a autonomia do educador porque restringe as escolhas didáticas e pedagógicas às ferramentas e ao modelo oferecidos. Assim, é o Moodle que detém a autoridade no processo pedagógico. Uma autoridade tecnológica, que se expressa pela lógica que constitui o software da plataforma de aprendizagem e que é a real condutora da aprendizagem.
Nesse sentido, é possível compreender a condução pedagógica da plataforma como uma prática da aprendizagem que só pode ocorrer por meio do uso das atividades e recursos que a constituem. A aprendizagem que assim se realiza é uma interação constante, intensa e veloz. A atuação do “educador online” se limita à comunicação e gestão do fluxo de dados e informações que são fornecidas pela interação entre usuário e plataforma. Ou seja, o aspecto comunicativo se sobrepõe ao aspecto propriamente pedagógico e condiciona, portanto, a atuação do educador. Com isso, a própria atividade pedagógica vê-se limitada pelos aspectos comunicativos que constituem as plataformas da qual depende. Isso é coerente com a noção social construcionista que considera o aspecto comunicativo, intersubjetivo, mais importante do que o entendimento propriamente objetivo.
A autoridade da tecnologia, que se materializa no caso Moodle, é estabelecida pelo reconhecimento do contrato entre usuários (educadores e educandos) e a plataforma. A valorização desta relação é que garante a aprendizagem. Ao menos essa é a sua pretensão, conforme anunciado por seus princípios pedagógicos socioconstrucionistas. Mediante a arquitetura do software, a atuação do “educador online” é muito mais voltada ao estímulo (como performer) do fluxo comunicativo de dados e acessos às atividades e recursos para que os usuários continuem interagindo com a plataforma. Com isso, a função do educador se restringe à organização das ferramentas (conteúdos, recursos e atividades) na plataforma e à supervisão do uso que os alunos fazem dela. Ou seja, tem-se um deslocamento da função pedagógica tradicional do professor, de mediador do conhecimento, para uma função, atribuída pela plataforma ao educador, de gestão do curso no sistema da plataforma e de mediação da comunicação online.
Com o intuito de ilustrar tal argumento, as análises que se seguirão objetivam reforçar nossa compreensão de que não se trata apenas de uma questão propagandística ou discursiva, e sim de uma prática em relação às pretensões da plataforma. Evidenciamos que é também na prática, no uso da plataforma, que a autonomia e a autoridade pedagógica do educador são restringidas.
Deste modo, ao acessarmos uma versão demonstrativa da plataforma - Mount Orange School/Moodle 4.5 -, temos disponível de modo fácil e rápido o entendimento acerca do funcionamento do Moodle. O objetivo dessa versão é “dar ao usuário uma noção de como funciona uma escola real que se serve do Moodle”, tal como indicado em seu site9.
Adicionar uma “atividade ou recurso” na construção de um curso na plataforma de aprendizagem online Moodle é característica precípua do papel docente. Saber manusear e acessar os caminhos indicados de modo intuitivo, como pode ser observado, é uma das estratégias da plataforma para que o usuário (seja ele professor ou aluno) possa realizar as ações que lhe cabem de maneira eficiente, e supostamente autônoma. Na imagem abaixo vemos um quadro que lista as “atividades e recursos” que são disponibilizadas pelo Moodle.

Fonte: https://school.demo.moodle.net/.
Figura 11 Lista em ordem alfabética das atividades disponíveis
As “atividades e recursos”, listadas em ordem alfabética em uma caixa de ferramentas constituem apenas um catálogo, que não apresenta uma intencionalidade pedagógica evidente. Trata-se de uma sequência instrumental que se adequa às determinações da plataforma, seguindo um modelo comum nesse tipo de tecnologia, como a disposição de ícones no interior de janelas do sistema Windows. Portanto, “atividades” são ferramentas que operam de acordo com a arquitetura comunicativa própria ao software. Por sua vez, “recursos” nada mais são do que estratégias de armazenamento de fontes para serem hospedadas na plataforma; elas não exigem o esforço de busca e investigação em outros locais (físicos e/ou virtuais).
O Moodle serve-se de mera tautologia para expressar a real função das “atividades e recursos” disponíveis em sua plataforma. A fim de analisar com mais detalhes tais aspectos apontaremos a seguir, a título de ilustração, uma das atividades disponíveis e que aparece tanto na propaganda do Moodle quanto na versão “demo” da plataforma.
Atividade Choice/Escolha
No vídeo-propaganda somos apresentados a um tipo específico de atividade. Observamos Maria, nossa educadora, lançando mão da estereotipia gestual própria a alguém que serve algo a ser consumido a bordo de uma aeronave. Ela se move trazendo a aprendizagem até o aluno e promovendo, através de perguntas de múltipla escolha, seu objetivo maior: o aprendizado.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=3ORsUGVNxGs.
Figura 12 Maria servindo a questão de aprendizagem (atividade “Choice”)
Maria prossegue, na qualidade de uma performadora, orientada ao entretenimento do seu público. Uma vez que a atividade em questão se apresenta no formato de uma escolha entre possíveis respostas a uma pergunta, o resultado, em termos de processo de ensino-aprendizagem, é apenas uma maneira de observar, verificar e avaliar se o aluno se lembra da resposta objetiva à pergunta direta: “Quando o feudalismo floresceu?”
No entanto, cabe formularmos a questão: Por que essa atividade específica constitui um bom exemplo a ser utilizado na propaganda da plataforma para representar uma atividade de aprendizagem? Por que não uma pergunta mais relevante e substantiva, tal como: “O que foi?” ou “O que significou o feudalismo?”, não foi exibida? A demonstração desse tipo específico de atividade é produto de uma escolha feita durante a produção do vídeo publicitário. Escolheu-se propor uma pergunta marcadamente simples, que reduz o conhecimento acerca do que se deve saber sobre o referido período histórico à memorização de datas que o demarcam historicamente. Com isso, a avaliação pedagógica se restringe à constatação daquilo que foi, ou não, memorizado pelo aluno, não contemplando a sua compreensão do fenômeno enquanto tal. A avaliação da memorização pode fazer parte do processo pedagógico, contanto que ele não se restrinja a esse aspecto. No entanto, a escolha por demonstrar esse tipo de atividade é em si significativa, assim como o modo como ela é apresentada na propaganda, pois faz com que este aspecto adquira maior relevância na constituição da narrativa, em detrimento de outras formas de avaliação. A escolha é significativa na medida em que demonstra a opção feita pelos autores da propaganda a respeito do tipo de avaliação a ser apresentada como publicidade da plataforma.
Esse exemplo, em realidade, revela um modo pragmático e superficial de lidar com o conhecimento. Centra-se em questões divertidas que, ao final, tal qual um programa de entretenimento, servem apenas para que os alunos saibam responder a um Quiz, de modo ágil e no tempo esperado. Não está em questão o fato de estarem aptos, ou não, para refletir por si mesmos sobre um conteúdo supostamente interiorizado. No caso das aprendizagens via plataforma os alunos se assemelham aos jogadores treinados com a finalidade de responderem aos desafios, no menor tempo, para ganhar um prêmio qualquer, tal qual um programa de auditório.
Não há nada para se fazer com esse tipo de habilidade a não ser crer que, ao escolher assertivamente uma resposta, o conhecimento se estabeleceu. Nesse sentido, constata-se que não foi acidental o destaque dessa atividade como exemplo dos processos de aprendizagem via Moodle, pois, atividades de múltipla escolha tendem a limitar a avaliação da apreensão do conhecimento pelo aluno, de modo condizente com as limitações técnicas que a plataforma impõe ao processo pedagógico.
De maneira geral, as “atividades” correspondem a uma otimização das ferramentas que conduzem à escolha de um melhor caminho, aquele que o Moodle promete traçar, com um design que promove uma comunicação eficiente, em sintonia com o vocabulário e recursos utilizados no campo tecnológico digital. Mas, que não representam, de modo evidente, uma proposição de atividades para aprendizagem, no sentido pedagógico propriamente dito de promover o entendimento de um determinado objeto, e sim o ajustamento às tecnologias já presentes em âmbitos externos ao educativo e que se pretende incorporar ao processo pedagógico em termos de linguagem e dinâmica.
Nesse sentido, “atividades” são ferramentas comunicativas que reforçam o aprendizado da gestão de informações que devem constantemente perpassar a plataforma. Correspondem, em linhas gerais, à concepção de uma “máquina de aprendizagem”, cujas orientações são construídas e reforçadas na interação dos usuários com as atividades e recursos disponibilizados pela plataforma, de modo a conduzirem a aprendizagem almejada.
A autoridade da tecnologia algorítmica se expressa pelo design da plataforma, bem como a sua manifestação nas “atividades e recursos”. A autoridade pedagógica docente é deslocada para ações de gestão e manuseio desses recursos. Trata-se, portanto, da compreensão de que a lógica algorítmica do software da plataforma Moodle manifesta uma espécie de organização de tarefas, como uma rotina que é estabelecida por meio desse dispositivo de comunicação e gestão. O que implica uma espécie de adestramento para o uso da plataforma. Por essa via, a aprendizagem reduz-se a uma função meramente adaptativa de seus usuários, professores e alunos.
Considerações finais
A análise do material empírico fornecido pelo Moodle revela a pretensão de melhoramento dos processos educativos por meio da utilização da plataforma, ao mesmo tempo em que indica o falseamento dessa promessa em função das contradições que lhe são subjacentes. A aspiração ao empoderamento dos educadores, anunciada propagandisticamente, não se sustenta, na medida em que eles se tornam dependentes da utilização da plataforma para realizar suas as atividades. Assim, a plataforma os torna reféns de sua racionalidade tecnológica constitutiva, determinando de antemão a sua conduta. A atividade do professor é reduzida à de um gestor de informações disponibilizadas na plataforma e de condução dos alunos em sua utilização, de acordo com a lógica de funcionamento do sistema. O próprio processo pedagógico é reduzido a seu aspecto comunicativo, redução que se tenta justificar por meio de uma concepção pedagógica construcionista social que aspira à construção conjunta do conhecimento, hipertrofiando a importância da relação intersubjetiva entre os alunos e dirimindo a importância do entendimento objetivo, que aparece como momento subordinado. A própria prática pedagógica é restringida em função da redução das possibilidades de atuação docente aos recursos fornecidos pela plataforma.
As concepções apresentadas pelos materiais fornecidos pela plataforma e suas contradições imanentes, depreendidas através da análsie de sua estrutura de sentido latente (Wernet, 2021), são significativas de uma perspectiva sociológica. As tecnologias modernas estão imbuídas da racionalidade social própria à sociedade em que são produzidas. Ou seja: a racionalidade social é constitutiva dessas tecnologias, orientando seu desenvolvimento, sua lógica interna e seu modo de funcionamento (Marcuse, 1941). Na sociedade contemporânea, a lógica econômica tem se imposto às diversas esferas da vida em sociedade, constituindo uma nova racionalidade social. O imperativo dessa racionalidade se expressa pela máxima eficiência comunicativa em sua expressão veloz, flexível e adaptável, aliada à lógica da competência e do desempenho técnico como modelos a serem desenvolvidos e alcançados (Dardot & Laval, 2016).
É possível afirmar que a educação formal, em fina sintonia com o desenvolvimento atual da sociedade, tem procurado se adequar a essa racionalidade econômica (Radtke, 2009). Esse processo de adequação da educação à racionalidade econômica é acompanhado por uma alteração substancial do processo pedagógico, que passa a operar de acordo com padrões exógenos que são incorporados ao campo educativo, especialmente pela via da didática, constituindo uma mediação instrutiva que se sobrepõe ao entendimento dos objetos que deveriam ser aprendidos (Gruschka, 2002; Gruschka, 2008, Gruschka, 2009). Ao privilegiarmos suportes didáticos (inclusive tecnológicos, como no caso em análise) em detrimento de processos de compreensão reflexivos e analíticos, contribuímos apenas para moldar os estudantes a pensarem e agirem a partir de um formato determinado - como ocorre, por exemplo, na prática pedagógica orientada à realização de testes (Dammer, 2015), semelhantes àquele presente na atividade escolhida para ilustrar o funcionamento do Moodle no vídeo publicitário.
Por essa via, os novos procedimentos adotados, sob influência da racionalidade de mercado, desviam as práticas educativas de sua finalidade original de promover a formação de um sujeito autônomo, tanto do ponto de vista moral, quanto do intelectual, finalidade que se atribui historicamente à educação desde a época do iluminismo (Blankertz, 1982; Gruschka, 1988). A intermediação didática, cada vez mais padronizada e restritiva, obstruiu a formação para o pensamento efetivamente autônomo, que só pode ser alcançado a partir da experiência com os objetos do conhecimento visando a sua compreensão, mediada por uma relação pedagógica viva e provocativa. Assim, a adequação à racionalidade econômica enfraquece a racionalidade constitutiva da pedagogia moderna, privando os alunos de um ensino voltado ao entendimento autônomo do mundo (Gruschka, 2015; Gruschka, 2019). Por outro lado, e complementarmente, os professores sofrem uma oclusão, na medida em que sua atividade se torna cada vez mais condicionada por mecanismos exógenos, vendo suas possibilidades de atuação reduzidas e perdendo autonomia para realizar sua tarefa de educar as novas gerações (Türcke, 2016).
As análises realizadas ao longo deste artigo buscaram evidenciar que a plataforma de aprendizagem online Moodle comporta as interações sociais subjacentes às determinações do contemporâneo. O caso analisado, composto por materiais publicitários do Moodle, desvela em seu sentido latente a contradição entre pretender ser uma plataforma de aprendizagem inovadora, criativa e distinta, mas, em realidade, constituir-se como uma eficiente ferramenta comunicativa que reafirma a lógica à qual está submetida, qual seja: a de uma racionalidade tecnológica instrumental, comunicacional e performática, que se tornou ubíqua.
Tais aspectos são mais bem evidenciados quando identificamos que o potencial creditado ao software Moodle no ato pedagógico se revela, sobretudo, na promessa de uma interação dialógica propiciada pelo compartilhamento de práticas, atos, sons e imagens nas quais o aluno, percebido como sujeito, atua de forma supostamente autônoma em relação às informações disponibilizadas por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem. Já o papel do educador restringe-se ao de gerir essas situações facilitadoras da aprendizagem, articular diferentes atividades e recursos de modo a estimular o diálogo entre os alunos e a produção conjunta, bem como a busca de informações para a resolução de tarefas e para a objetivação de seu pensamento. Orienta-os em suas produções, recuperação e análise dos registros e em suas respectivas reformulações. O educador é concebido como um acompanhante/gestor do movimento dos alunos no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e de seus respectivos engajamentos em atividades programáveis.
Tanto alunos quanto educadores são compreendidos, respectivamente, como agentes ativos em seus processos de aprendizagem e como auxiliares, facilitadores desses processos já previamente concebido. Nesse sentido, a tarefa do aluno é a de saber lançar mão, de modo competente, do que lhe é disponibilizado de modo prático, rápido e eficiente; e a tarefa do educador (online) é a de gerir a plataforma, na medida em que o ambiente de aprendizagem conjuga em si mesmo todas as atividades e recursos com que os alunos devem ter contato para alcançar os objetivos propostos nos limites de um design de instrução programada.
Em outras palavras, o gerenciamento do processo de aprendizagem através de uma perspectiva pedagógica de conexão entre alunos e educadores, realizada por uma série de recursos de comunicação e interação, via software, termina por engendrar um ideal que, em uma perspectiva tecnofílica, acredita que as plataformas de aprendizagem digitais são capazes de compreender e de dispor todos os recursos necessários para o efetivo processo educativo. E que tanto alunos como educadores, ao lançarem mão dessas ferramentas, conseguirão alcançar os objetivos de aprendizagem esperados para melhorarem a si mesmos e ao mundo.
As plataformas digitais de aprendizagem são divulgadas como os meios mais adequados para conduzir uma formação à altura das exigências do nosso tempo. A velha pretensão de Comenius, de ensinar tudo a todos de modo eficiente e rápido, acabou por desembocar na criação de sistemas tecnológicos altamente sofisticados de limitação do conhecimento e da compreensão reflexiva. São as velhas pretensões anunciadas na Didática Magna (2006), que ainda ecoam subliminarmente nas atuais propagandas em favor de um ensino tecnológico: a promessa de assumir o papel de condução do processo de aprendizagem, interpondo-se na relação direta entre sujeito e objeto de conhecimento, ignorando um aspecto decisivo: que essa interposição, não refletida criticamente, se torna cada vez mais obstrutiva da interação do educando com o mundo (Gruschka, 2009).
Em síntese, em nossas checagens empíricas, reconstruímos os casos “Filosofia”, “Pedagogia” e a vídeo-propaganda do Moodle a fim de depreender como as suas próprias promessas e finalidades expressam as contradições inerentes ao espírito do nosso tempo. Estas, nas considerações que fizemos acerca do slogan do Moodle, fornece uma compreensão precisa de como a plataforma avalia os educadores online, os quais necessitam de sua intervenção para continuarem a ser úteis. A plataforma se apresenta enquanto aquela capaz de prover aos educadores todos os meios necessários para que permaneçam atualizados frente às necessidades em recorrente transformação no campo da educação, que são as mesmas exigidas pelo mercado em todos os demais campos da vida.
De modo igualmente convergente, quando analisamos as expressões corporais da educadora supostamente emancipada no e pelo Moodle, obtivemos a explicitação de que, com o uso dos recursos tecnológicos presentes na plataforma como mediação direta do processo de aprendizagem, a educadora apenas apresenta e oferece o que a plataforma já dispõe, expressando assim a percepção de que o papel efetivo do educador se limita à mera gestão e comunicação de atividades e recursos que podem ser acessados pelo aluno de modo rápido e fácil.
A indiscriminação estabelecida entre os papéis mediante os quais a própria relação pedagógica se estrutura é o retrato fiel da conexão entre pedagogia e software. A “Filosofia” do Moodle expressou sua finalidade na condução para a “verdadeira aprendizagem” a partir do modelo de uso e desenvolvimento de sua arquitetura comunicativa. Por sua vez, a concepção pedagógica apresentada pela plataforma se baseia em uma concepção de aprendizagem de construção intersubjetiva do conhecimento, não de entendimento dos conteúdos. Por fim, o design da plataforma impõe limitações às possibilidades didáticas disponíveis ao educador, dirimindo e reconfigurando sua autoridade pedagógica.
O educador, tal qual retratado, seduzido pela possibilidade de integração que a plataforma promete, apenas exacerba o uso do instrumento ao corresponder à sua lógica. A mesma lógica expressa no celular presente na mão da educadora, que pode ser acessado a qualquer momento a fim de obter qualquer resposta. O que observamos, no entanto, é apenas ajustamento de gerações de pessoas que, ao lançarem mão dos aparatos tecnodigitais, são conformadas e integradas na esperança de que possam ingressar no mercado de trabalho. Nesses termos, somos instados a perceber que aqueles que não se adaptam e não se integram estão correndo o risco de serem simplesmente descartados, pois a necessidade maior do sistema é a de que as pessoas sejam treinadas para a sua reprodução, não importando em que medida tal processo nos conduza à estultificação das consciências. O que vale é a sua constante capacidade de comunicação e reprodução. Estamos diante do risco de que esse se torne o “novo normal” no campo educacional.





















