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Revista Diálogo Educacional

versão impressa ISSN 1518-3483versão On-line ISSN 1981-416X

Rev. Diálogo Educ. vol.24 no.83 Curitiba  2024  Epub 27-Fev-2025

https://doi.org/10.7213/1981-416x.24.083.ao01 

Artigo

O futuro do professor é online? Implicações políticas, sociais e pedagógicas

Is the teacher’s future online? political, social and pedagogical

¿El futuro del maestro está em línea? implicaciones políticas, sociales y pedagógicas

Elaine Conte1  [a] 
http://orcid.org/0000-0002-0204-0757

Patrícia Gusmão Maciel2  [b] 
http://orcid.org/0000-0002-8354-2774

Amarildo Luiz Trevisan3  [c] 
http://orcid.org/0000-0002-3575-4369

1Universidade La Salle (UNILASALLE), Canoas, RS, Brasil

2Universidade La Salle (UNILASALLE), Canoas, RS, Brasil

3Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil


Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar imagens da profissão de professor/a e os saberes que se renovam historicamente, buscando formas manifestas de (re)existência do ser professor no tempo presente, especialmente em tempos de crise do capitalismo. A pesquisa se propõe a analisar as mudanças históricas nas representações sociais do professor e identificar o papel das tecnologias educacionais, especialmente no período contemporâneo. Para isso, foram utilizadas fontes históricas, estudos literários e análises documentais de imagens de professor e as transformações na prática educacional ao longo do tempo. Os procedimentos metodológicos adotados compreenderam revisão bibliográfica, pesquisa documental e análise de tendências pedagógicas e tecnológicas nos diferentes experimentos vivenciados. A pergunta norteadora da proposta é: Quais imagens de professor repercutem nas pedagogias ao longo da história e da cultura, em especial no tempo presente? A abordagem é inspirada nas leituras de mundo e práticas de (re)conhecimento, buscando entender as demandas e analisar as perspectivas socioculturais depositadas na figura do profissional da educação. Os resultados revelaram que os condicionantes tecnológicos tiveram um papel significativo na construção das imagens do professor em cada época até a atualidade, produzindo estereótipos e moldando a imagem do professor - na pedagogia da mídia - como empreendedor, inovador tecnológico e competitivo. Em suma, o trabalho busca contribuir para a compreensão das imagens do professor ao longo da história e como as mudanças tecnológicas influenciaram sua representação, oferecendo insights para uma reflexão crítica sobre as demandas e desafios enfrentados pelo profissional da educação no contexto contemporâneo.

Palavras-chave: Pedagogias; Imagens de professor; Perspectivas históricas; Olhar contemporâneo.

Abstract

This work aims to analyze the images of the teaching profession and the stereotyped knowledge of these vestiges that are historically renewed, to manifest forms of (re)existence of being a teacher in the present time, expressing its transforming potential for the field of political and citizen formation. In times of capitalist crisis, the Brazilian teacher's journey is exhausting and undervalued, as well as training is disconnected from projects of struggle for the human and focused on joint work. The guiding question of the proposal is: What images of teachers resonate in pedagogies throughout history and culture? This research, with a hermeneutic attitude, is characterized by the permanent exercise of reviewing studies and proposes a dialogue with classical studies and contemporary research, having as its horizon the creation of a brief historical contextualization of the images of the profession in the face of the denial of the social conditions for training culturally meaningful. It is inspired by readings of the world and practices of (re)knowledge, to understand the political demands of education, seeking to analyze the sociocultural perspectives deposited in the figure of the education professional.

Keywords Pedagogies; Teacher images; Historical perspectives; Contemporary look.

Resumen

Este trabajo tiene como objetivo analizar las imágenes de la profesión docente y los saberes estereotipados de estos vestigios que históricamente se renuevan, para manifestar formas de (re)existencia del ser docente en la actualidad, expresando su potencial transformador para el campo de lo político y formación ciudadana. En tiempos de crisis capitalista, el camino del maestro brasileño es agotador y desvalorizado, así como la formación está desvinculada de proyectos de lucha por lo humano y centrada en el trabajo conjunto. La pregunta orientadora de la propuesta es: ¿Qué imágenes de docentes resuenan en las pedagogías a lo largo de la historia y la cultura? Esta investigación, con actitud hermenéutica, se caracteriza por el ejercicio permanente de revisión de estudios y propone un diálogo con los estudios clásicos y las investigaciones contemporáneas, teniendo como horizonte la creación de una breve contextualización histórica de las imágenes de la profesión frente a la negación de las condiciones sociales para una formación culturalmente significativa. Se inspira en lecturas del mundo y prácticas de (re)conocimiento, para comprender las demandas políticas de la educación, buscando analizar las perspectivas socioculturales depositadas en la figura del profesional de la educación.

Palabras clave Pedagogías; Imágenes de maestros; Perspectivas históricas; Aspecto contemporâneo.

Introdução

A história da educação tem testemunhado a evolução de milhares de anos de uma instituição que se apoia na figura do mestre e do aprendiz, do falar e ditar do mestre, da escrita manuscrita do estudante, e do uso moderado da impressão, chegando, nos dias atuais, ao mundo digital das telas e à plataforma das aulas. A escola é uma instituição antiga que passou por diferentes fases de desenvolvimento, desde o modelo mestre-aprendiz até a era digital. Nesse contexto, a profissão de professor tem enfrentado desafios surpreendentes, especialmente em tempos de crise no cenário do capitalismo, em que a jornada docente brasileira se torna exaustiva e desvalorizada, enquanto a formação parece desconectada da luta social pelo bem-estar humano e da coletividade.

No cerne dessa realidade complexa, o presente trabalho busca analisar as imagens culturais e pedagógicas que permeiam a figura do professor, reconhecendo que essas representações são fruto de relações sociais construídas com outros atores, refletindo dilemas e sentimentos de lutas presentes em nossa sociedade. O foco é compreender tanto as perspectivas históricas como as contemporâneas das imagens da profissão, examinando os reflexos das tecnologias educacionais em cada período. Ou seja, a pesquisa tem como foco entender as imagens culturais e pedagógicas relacionadas à profissão de professor, considerando situações históricas e contemporâneas. O objetivo é compreender como as mudanças tecnológicas afetaram a imagem de professor e as relações pedagógicas e, embora o foco do artigo não seja especificamente o debate de gênero, esse tema será mencionado em pontos relevantes por sua importância na construção das imagens e estereótipos da docência.

A emergência da pandemia acelerou processos de digitalização no campo educacional, trazendo consigo novas configurações e desafios para a imagem do professor. Diante dessa realidade, nos questionamos se a compreensão tecnológica está associada a uma possível distância do professor em relação aos alunos, considerando a solidão que permeia o século XXI e os reflexos desse distanciamento no contexto das relações educacionais. Além disso, preocupa o papel do professor, muitas vezes relegando-o a questões técnicas, burocráticas e metodológicas, afetando a sua atuação e sua própria identidade profissional. Afinal, há uma preocupação com a pedagogia midiática e com as imagens reificadas que podem afetar a formação e atuação dos professors, impingindo uma imagem de docência que desconsidera a sua subjetividade, experiências de vida e trabalho. Nesse contexto, há necessidade de uma reflexão crítica e reflexiva para evitar imagens distorcidas e desumanizadas da profissão de professor.

Partindo do entendimento de que a ação pedagógica é movida por uma expressão de amorosidade e responsabilidade, buscamos refletir sobre as diferentes imagens de professor que são perpetuadas na cultura e sociedade, muitas vezes mais voltadas para a desumanização e reificação da profissão. Nesse contexto, urge a necessidade de repensar e reconstruir pedagogias mais humanizadas e dialógicas, que valorizem a troca mútua e a corresponsabilidade na construção do conhecimento (CONTE; TREVISAN; SANTOS, 2023).

Com base em uma análise crítica e reflexiva, este trabalho busca compreender as imagens culturais que cercam a profissão de professor no mundo contemporâneo e seus impactos na formação, nas relações pedagógicas e na construção do conhecimento. Além disso, refletir sobre a forma como a docência é reduzida a uma função meramente operacional, focada na execução de tarefas e no cumprimento de metas impostas por uma pressão constante em resultados mensuráveis. Esse processo desumaniza o trabalho docente, comprometendo a autonomia profissional e gerando impactos negativos profundos na saúde emocional dos professores, além de fragilizar sua identidade como educadores. Através dessa pesquisa, almejamos contribuir para uma atuação docente mais comprometida e ressignificada, capaz de enfrentar os desafios apresentados e potencializar o papel transformador do professor no processo educacional.

Em síntese, a história da educação é marcada pela evolução de modelos pedagógicos e pela transformação da imagem do professor ao longo dos séculos. Hoje, diante de uma crise global no capitalismo e da intensificação do uso de tecnologias digitais, a profissão enfrenta novos desafios que afetam tanto a prática pedagógica quanto a percepção pública do papel docente. O presente trabalho busca analisar essas mudanças, focando nas imagens culturais do professor e no impacto das tecnologias digitais, sobretudo, no período contemporâneo. O objetivo é compreender como essas representações influenciam a desumanização, reificação e desvalorização da profissão no contexto atual.

Assim, a forma de tratar o assunto se divide em três (3) etapas. Em um primeiro momento pretendemos realizar um levantamento histórico das representações sociais da profissão de professor ao longo dos tempos, identificando as principais imagens culturais e pedagógicas associadas a essa figura. Isso inclui a compreensão dos modelos de relação mestre-discípulo e sua evolução até a era digital. A seguir, investigar como a pandemia e o avanço das tecnologias digitais influenciaram a imagem do professor e as relações pedagógicas, o que inclui analisar as mudanças na atuação docente, a adoção de metodologias online e os reflexos nas dificuldades sobre a profissão. Por fim, discutir a importância de uma atuação pedagógica comprometida com a humanização das relações educacionais. Busca-se analisar como as imagens reificadas e a especialização técnica podem limitar o potencial do professor como ator social e catalisador de mudanças, enfraquecendo seu papel fundamental na construção de uma educação transformadora e na promoção de uma sociedade mais justa e crítica. E propor, enfim, reflexões e ações para superar desafios e promover uma imagem mais digna e reconhecida da profissão no contexto contemporâneo.

Breve histórico das imagens de professor

As perspectivas históricas e contemporâneas das imagens da docência refletem dilemas e lutas enraizadas na sociedade1, que exigem uma abordagem dialógica e reconstrutiva. Nesse cenário, é essencial adotar um olhar sensível e empático em relação à complexa realidade do professor contemporâneo, que se vê cada vez mais envolto em um ambiente midiático dominado pela imagem, em detrimento da palavra. As pressões sociais, as demandas tecnológicas e as transformações educacionais reconfiguraram o papel do professor, perpetuando estereótipos e imagens estigmatizadas que influenciam a percepção pública da profissão. A suposta precisão trazida pelos processos de digitalização na educação, ao invés de facilitar o trabalho docente, introduz novos desafios, uma vez que reduz o ensino a métricas quantificáveis e obscurece as dimensões humanas e reflexivas que são centrais à prática pedagógica.

Diante dessa realidade complexa, é crucial repensar as imagens e representações culturais associadas à docência, buscando desconstruir estereótipos e valorizar a importância do professor como agente de transformação e enriquecimento das vidas dos estudantes. A formação de uma educação mais humanizada e dialógica é essencial para criar ambientes educacionais mais saudáveis, onde professores se sintam apoiados e reconhecidos em sua missão de educar, e onde o conhecimento seja construído de forma colaborativa e significativa para todos os envolvidos.

Ao compreender os três tipos de relações mestres-discípulos, George Steiner (2005) traz profundas reflexões sobre as dinâmicas das relações entre mestres e discípulos. Ele destaca três categorias distintas de interação entre esses atores: os mestres destrutivos, os discípulos traidores e a terceira categoria, caracterizada pela troca, eros de confiança recíproca e amor. Os mestres destrutivos são aqueles que, ao exercerem sua autoridade, acabam por causar danos psicológicos e emocionais aos seus discípulos. Esses mestres podem subjugá-los, minar suas esperanças e explorar sua dependência e individualidade para fins próprios. Esse tipo de relação de poder é nociva e pode deixar marcas duradouras nos discípulos, afetando o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Por outro lado, temos os discípulos traidores, pupilos que, em alguns casos, podem agir contra o próprio mestre, derrubando sua autoridade e causando danos à relação. Essas situações podem surgir por diversos motivos, como desacordos ou sentimentos profundos. No entanto, é importante destacar que essas relações não são necessariamente simétricas em poder, uma vez que os discípulos, geralmente, têm menos poder e influência que os mestres.

A terceira categoria, caracterizada pela troca, confiança recíproca e amor, é o ideal a ser buscado nas relações mestre-discípulo. Nessa dinâmica, mestre e aprendiz aprendem um com o outro em um processo de interação enriquecedor e transformador. O mestre não apenas ensina, mas também aprende com seu discípulo, em uma espécie de osmose de conhecimentos e experiências. Essa troca intensa gera uma amizade profunda e significativa, baseada na confiança mútua e na dedicação ao desenvolvimento pessoal e intelectual do discípulo. Relações autoritárias e destrutivas não têm lugar em uma educação comprometida com o crescimento e bem-estar dos estudantes. Por meio do diálogo aberto, da empatia e da valorização do potencial de cada pessoa, os professores podem desempenhar um papel de mestre transformador na vida de seus discípulos, cultivando uma aprendizagem significativa e estimulante. Afinal, a educação é, por sua natureza, uma via de mão dupla, na qual mestre e discípulo podem crescer juntos.

Porém, estas relações e experiências estão deixando de ser dialéticas e comunicáveis na pressa da educação online? Nessa análise identificamos, por um lado, a palavra do professor, aquele que tem autoridade e direito de falar, explicar monologicamente aos alunos e, por outro, uma possibilidade de trabalho coletivo de aprendizagens horizontais do jogo cultural dialógico, que são próprios das relações intersubjetivas que servem ao desenvolvimento de aprendizagens evolutivas e recíprocas. A ação pedagógica constitui-se na expressão de amorosidade que move o ofício, pois é no acolhimento e na partilha sensível com o outro que afirmamos nossa responsabilidade, educabilidade e profissionalidade no mundo. Conforme Rancière (2010), podemos dizer que na incompletude do processo de aprender e ensinar, o discípulo que faz o mestre e vice-versa numa perspectiva metamorfoseante, conforme a imagem abaixo.

Fonte: Wikipedia (online2).

Figura 1 Imagem estética da formação - devir dialético 

As imagens sociais da profissão de professor na práxis, ou ainda, em uma visão semiótica, os signos que a traduzem, estão vinculadas a algumas roupagens/figuras das principais tendências pedagógicas, que iniciam pela batina preta jesuítica, passando para um jaleco verde oliva dos positivistas (militarização do ensino a partir da disciplina, ordem e progresso). Depois vem o jaleco branco dos professores autoritários dos anos 30, em seguida, é perpassado por uma roupa proletária dos anos 80, especialmente pelas lutas sociais por melhores condições de ensino (DRESCH, 1994). Até a reviravolta da situação de precarização das relações de trabalho de hoje ou, ainda, de um empreendedor (de si, inovador tecnológico da produtividade, concorrencial e competitivo) voltado para a empregabilidade (SAVIANI, 2009; CHARLOT, 2020).

As imagens históricas da docência, como a do mestre autoritário ou do professor como missionário, continuam a influenciar a maneira como os educadores são percebidos hoje. No entanto, o advento das tecnologias digitais e das reformas gerenciais transformaram essas representações, introduzindo novas exigências que reforçam a reificação da profissão. A ausência de reconhecimento se manifesta por meio de diversas medidas implementadas politicamente, como a contenção salarial, a supervalorização e simplificação dos livros didáticos, e a privatização de espaços e recursos. Esse fenômeno também se reflete na falta de reconhecimento do próprio professor como sujeito e na desvalorização de sua profissão, que é frequentemente vista como dispensável pela sociedade globalizada. Honneth (2008, p. 70) afirma que “a reificação pressupõe que nós nem percebamos mais nas outras pessoas as características que as tornam propriamente exemplares do gênero humano”.

Embora este artigo não tenha como objetivo central debater questões de gênero, reconhecemos a importância desse aspecto na análise da imagem docente. A linguagem patriarcalista, que também perpetua estereótipos na docência, precisa ser considerada em qualquer reflexão sobre o reconhecimento profissional. Nesse sentido, faz-se necessário, ao menos, mencionar como as questões de gênero impactam a construção sociocultural da imagem do professorado, situadas em contextos históricos que reforçam tabus e discursos superficiais.

As imagens sociais da profissão de professor na práxis e suas performatividades imaginadas são mostradas nas figuras abaixo.

Fonte: Mídia (online3).

Figura 2 Aula de datilografia nos anos 1960 

Fonte: CPERS (1985, online4).

Figura 3 Professores histórico-críticos 

Fonte: @arteemtemposdepandemia (online5).

Figura 4 Professores inovadores tecnológicos 

À medida que a categoria docente se expande quantitativamente, tornando-se assalariada, vinculada ao Estado e com sua profissão regulamentada, observa-se uma redução progressiva de seu prestígio social, autonomia e controle sobre o próprio trabalho, como aponta Hypolito (2012). Esse fenômeno é especialmente evidente em momentos de mobilização da classe, como a greve de 1985, representada na figura 3, onde professoras e professores foram às ruas em busca de melhores salários e condições de trabalho. Esse período de transição política foi marcado por intensos conflitos, com o governo tentando manipular a opinião pública e desmoralizar os grevistas, desvalorizando assim suas reivindicações e o próprio papel social da docência. A greve foi um marco para o movimento educacional, e a sineta, que originalmente marcava o início e o fim das aulas nas escolas públicas estaduais, tornou-se um símbolo de luta por dignidade e respeito. A sineta passou a acompanhar as manifestações, representando a resistência e o clamor por justiça dos(as) trabalhadores(as) em educação no Rio Grande do Sul, ressignificando seu uso no cotidiano escolar para reforçar a importância da valorização profissional.

Outro exemplo dessa questão é ilustrativo na figura 4, que mostra o computador como centro do trabalho, em vista da falta dos limites do lastro gerador das informações. Embora a máquina seja capaz de gerar texto a partir de caracteres, ela não possui compreensão intrínseca do significado. A complexidade da interação humana transcende consideravelmente as capacidades atuais da inteligência artificial (IA). Embora a IA tenha apresentado resultados satisfatórios ao apoiar o ensino personalizado, adaptar esse sistema para atender a grupos que necessitam dialogar e colaborar representa um desafio substancial para a IA, dada a necessidade de avaliar (con)textos que fogem da objetividade e se pautam em uma diversificação de temas, relações e conteúdos vitais (VICARI, 2021).

A difícil tarefa do professor nos dias atuais é acentuada pela influência de imagens sociais estereotipadas que permeiam a profissão ao longo da história. Essas imagens se manifestam por meio de experiências experimentadas a diferentes tendências pedagógicas, desde as vestes dos jesuítas até a figura atual do professor empreendedor e competitivo. Charlot (2020) enfatiza que a educação é um processo de humanização, socialização e subjetivação, e, nesse contexto, as imagens da profissão de professor exercem um papel importante na reflexão sobre como agir na prática educacional. Reconhecer a trajetória formativa pelo meio das pedagogias é fundamental para enfrentar a complexidade da profissão e sustentar a autoconfiança, autorrespeito e autoestima em meio às lutas cotidianas, relacionamentos com outros colegas, condições de trabalho e políticas culturais.

Infelizmente, a ausência de reconhecimento da importância do trabalho docente se manifesta em diversas medidas políticas, como a contenção salarial, a supervalorização de livros didáticos simplificados e a privatização de espaços e recursos. Essa falta de reconhecimento reflete-se também na percepção da sociedade, que muitas vezes desacredita, desvaloriza e trata o educador como dispensável. O conceito de reconhecimento, amplamente discutido por Axel Honneth, possui uma história de desenvolvimento teórico que remonta às discussões sobre justiça e dignidade humana. Ao recuperar a categoria de reconhecimento a partir de Hegel, Honneth explora a ideia de que a autorrealização plena do sujeito ocorre quando este é reconhecido em três esferas fundamentais: pessoal, jurídica e social. No reconhecimento pessoal, presente nas relações de amor e cuidado, como as vividas no âmbito familiar e em amizades íntimas, o indivíduo desenvolve a confiança básica necessária para o seu crescimento emocional, sendo valorizado por sua singularidade e autenticidade. No plano jurídico, o reconhecimento ocorre por meio da igualdade de direitos e garantias legais, o que promove a liberdade e a autonomia do indivíduo na sociedade, permitindo-lhe tomar decisões de forma responsável e participativa. Finalmente, o reconhecimento social, fundamentado na contribuição que o sujeito oferece à comunidade, valoriza suas habilidades e conquistas, proporcionando o desenvolvimento de sua autoestima e o sentimento de pertencimento. Para Honneth, a falta de reconhecimento em qualquer uma dessas esferas - especialmente no campo profissional, como é o caso dos professores - contribui para a desvalorização e reificação do indivíduo, negando-lhe a plena realização de suas capacidades e seu papel transformador na sociedade.

Honneth (2008) propõe que a reificação, ou seja, o esquecimento do reconhecimento com a redução dos seres humanos a meros objetos funcionais, contribui diretamente para a desvalorização do professor ao negar sua humanidade e sua relevância como elemento essencial na formação das novas gerações. Essa reificação leva à perpetuação de discursos interrompidos e à construção de imagens estereotipadas do professor, formadas a partir de contextos socioculturais e históricos. Tais estereótipos, carregados de tabus e preconceitos, ainda percorrem a profissão docente, restringindo sua valorização e reconhecimento social.

E essa reificação, entendida como a redução de seres humanos a meros instrumentos funcionais, não é um fenômeno recente. Cambi (1999) nos lembra que, já na Paideia Grega do século V a.C., havia uma divisão social profunda entre os formadores de conhecimento, admirados por sua eloquência e sabedoria, e seus alunos, muitas vezes tratados como escravos, sem direitos ou reconhecimento. Esses estudantes, considerados heranças de famílias ricas, eram instruídos sem receber o devido respeito por sua condição humana. Essa imagem pejorativa do professor como uma figura exploradora e do estudante como um ser subjugado foi perpetuada ao longo da história, desde a Idade Média até o Renascimento, e ainda influencia a visão contemporânea da profissão docente.

A reificação do professor, hoje, ocorre quando a prática educativa é tratada como uma função puramente técnica, desprovida de sua dimensão humana e ética, resultando em uma desvalorização de seu papel transformador. Assim, no campo educacional, essa reificação se reflete na maneira como o professor é visto como um técnico ou um empreendedor, especialmente no contexto das pedagogias digitais. A imagem do professor como um empreendedor de si, competitivo e inovador, não só desumaniza a prática docente, mas também aliena os profissionais de seu papel como agentes transformadores na educação.

Romper com esses estereótipos é essencial para garantir uma educação de qualidade, que não se restrinja ao cumprimento de metas e à transmissão mecânica de conteúdos, mas que promova o desenvolvimento integral dos estudantes, capacitando-os a agir de forma crítica, participativa e (co)responsável na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A educação almejada é aquela que valoriza o diálogo, a reflexão crítica e a formação cidadã, e que reconhece o professor como um agente essencial de transformação social.

O poder da imagem na constituição do professor - que performatividade digital a contemporaneidade exige?

O trabalho do professor sofre mutilações pela quantidade de aulas e tarefas administrativas que se acumulam, tornando quase inviável um tempo qualificado para as atividades da vida democrática, de pesquisa, de leituras sobre políticas e gestão educacional, em termos de formação autocrítica e resistência (reexistência) permanente. Uma das saídas propostas pela pedagogia da mídia consta na notícia “Fora de sala de aula, professores chegam a ficar milionários vivendo de educação”, que narra alguns casos de professores empreendedores, que fizeram sucesso fora das salas de aula, como se fosse a regra e vendem essa imagem do professor. Ao tomar esses casos de exceção - de professores que supostamente ficaram milionários ao se tornarem empreendedores de conteúdo educacional na internet - é, no mínimo, enganosa e problemática.

Primeiramente, é importante ressaltar que esses casos são extremamente esporádicos e não representam a realidade da maioria dos professores. A grande maioria dos profissionais da educação enfrenta condições precárias de trabalho e falta de reconhecimento. A ideia de que qualquer professor pode se tornar um milionário simplesmente produzindo vídeos na internet é irreal e desconsidera as dificuldades e desafios reais enfrentados pelos profissionais da educação. Além disso, essa narrativa de professor empreendedor pode criar uma pressão adicional sobre os docentes, levando-os a se sentirem deficientes ou fracassados caso não consigam obter sucesso financeiro fora da sala de aula. A educação é uma profissão essencial e de grande impacto social, e medir o valor de um professor apenas por seu sucesso financeiro na internet é reducionista e superficial.

Outro problema é a glamourização da vida do influenciador digital e a busca por "curtidas" e visualizações. Isso pode incentivar os professores a priorizar a produção de conteúdo voltado para a viralização em detrimento da qualidade pedagógica e do compromisso com a formação dos estudantes. Em vez de promover uma imagem distorcida do professor empreendedor, a mídia deveria dar mais visibilidade às questões reais enfrentadas pelos educadores, como a falta de investimento na educação pública, a desvalorização da profissão e a falta de recursos e condições adequadas para o ensino.

A educação é uma área fundamental para o desenvolvimento da sociedade e deve ser tratada com seriedade e respeito. Ao romantizar a ideia de que qualquer professor pode se tornar um milionário na internet, a mídia desvaloriza a importância da educação e contribui para uma visão superficial e equivocada sobre o papel dos educadores na formação das futuras gerações. É necessário um olhar mais sensível e realista sobre a profissão docente, reconhecendo suas dificuldades e importância, e trabalhando para promover e dignificar a atuação desses profissionais tão essenciais para o nosso futuro.

A experiência formativa, cujas raízes se encontram na Paideia grega, passando pela contribuição da humanitas latina, chega na modernidade (Bildung) expressa pelo tema da subjetividade, a partir do princípio de autonomia ou autodeterminação. Essa ideia permanece no horizonte de expectativas, mas com muitas dificuldades de se efetivar, pois a estruturação predominantemente racionalista da educação pressupõe imunidade às circunstâncias imponderáveis que permeiam a situação moral e desconsidera a condição humana, o papel das emoções, dos desejos e da sensibilidade, laborando em favor de uma ética desencarnada. (HERMANN, 2023, p. 466)6.

A citação de Hermann aborda a evolução da experiência formativa, desde suas origens na Paideia grega, passando pela contribuição da humanitas latina, chegar até à modernidade, representada pelo conceito de Bildung. Essa trajetória enfatiza a importância da subjetividade na educação, marcada pelo princípio da autonomia e autodeterminação. A ideia de formação como um processo de desenvolvimento da subjetividade permanece presente no horizonte de expectativas educacionais, porém, segundo Hermann (2023), sua efetivação tem sido cercada de dificuldades. A predominância de uma estrutura educacional racionalista pode levar à imunidade às circunstâncias imponderáveis que passaram por uma situação moral e, por vezes, desconsiderar a complexidade da condição humana, incluindo as emoções, os desejos e a sensibilidade.

A ética desencarnada mencionada na citação se refere a uma perspectiva que prioriza a racionalidade e a objetividade, relegando a um segundo plano as condições subjetivas e emocionais da experiência humana. Essa abordagem pode criar um distanciamento entre o processo formativo e a realidade dos indivíduos envolvidos na educação, negligenciando a importância das dimensões afetivas e emocionais na formação integral dos estudantes.

Essa abordagem mais abrangente permitiria uma formação mais integral, capaz de lidar com as complexidades da vida e promover uma ética que valorize a empatia, a solidariedade e a compreensão mútua. Nesse sentido, a educação deve considerar não apenas o desenvolvimento intelectual, mas também o emocional e o social, buscando uma formação que empodere os indivíduos para enfrentar os desafios da vida de forma mais humana e resiliente. A abordagem da Bildung, que enfatiza a formação integral do ser humano, torna-se ainda mais relevante no mundo atual, marcada por rápidas transformações interativas, onde a construção de uma ética encarnada, sensível e compassiva é essencial para uma sociedade mais justa e equitativa.

O crítico da sociedade capitalista e do sistema burocrático, Theodor Adorno (2003), dizia que a crise da formação é a expressão mais desenvolvida da crise social e cultural dos processos educacionais que vagam à mercê das marés econômicas. Para desenvolver os genuínos interesses formativos em discursos e imagens, em relação às capacidades intelectuais (da razão, percepção, memória, comportamentos e emoção), é fundamental transpor o descrédito dos meios tradicionais, sem ceder à profissionalização ligeira e empobrecida seguindo interesses do mercado, num aceno de emprego. Esta tendência a manipulações reporta-se há pelo menos três séculos e interfere diretamente na relação de reconhecimento que construímos em atuação sociopolítica e educacional (ARENDT, 2007, p. 247). A partir da expressão de um olhar de revisão das leituras de mundo, Miguel Nicolelis (2023) tece críticas à ferramenta ChatGPT, revelando que é absurdo dizer que modelos desta linguagem são dez vezes mais inteligentes que um ser humano.

Nicolelis (2023, online) aborda um ponto fundamental para compreender a natureza da inteligência artificial (IA) e suas limitações. Ele argumenta que a inteligência artificial não é nem inteligente no sentido humano, nem artificial no sentido de ser algo completamente independente e externo à natureza. Em vez disso, ele destaca que a inteligência artificial é uma criação humana, e como tal, é um produto natural do processo evolutivo e de felicidade entre seres vivos e o ambiente.

Ao afirmar que a inteligência artificial não é artificial, Nicolelis enfatiza que a IA é desenvolvida por seres humanos usando algoritmos e técnicas computacionais. Portanto, a IA é uma extensão da capacidade humana de criar ferramentas e sistemas para resolver problemas e realizar tarefas complexas. A inteligência artificial, portanto, faz parte do ambiente humano, incorporando-se à sociedade e à cultura.

Os tempos são outros, assim, ao dizer que a inteligência artificial não é inteligente, Nicolelis enfoca a diferença fundamental entre a inteligência humana e a IA. A inteligência humana é uma propriedade emergente que surge dos processos complexos do cérebro e da interação com o ambiente e outros seres vivos ao longo do tempo evolutivo. A IA, por sua vez, é criada para realizar tarefas específicas com base em algoritmos e aprendizado de máquina, mas não possui consciência, emoções ou compreensão como os seres humanos.

Essa distinção é essencial para não superestimar os recursos da inteligência artificial, nutrindo a irrelevância da vida. Embora a IA possa ser incrivelmente eficiente em realizar tarefas específicas, ela carece da capacidade holística da inteligência humana, que é resultado de milhões de anos de evolução biológica. O entendimento claro dessas distinções é crucial para desenvolver e utilizar uma IA de maneira ética e responsável, considerando suas potencialidades, limitações e impactos na sociedade e no futuro da humanidade.

Walter Benjamin (2013) vê o capitalismo como religião em máscaras imediatistas e agenciamentos da ideologia do progresso como a grande narrativa. Dessa forma, a barbárie é um ato de violência, por retirar do sujeito as condições de possibilidade ao desenvolvimento da autonomia e da liberdade que abriga a pluralidade do humano, tornando o professor alienado de seu próprio trabalho e visto como mercadoria. Por tudo isso, Nóvoa (1998) destaca a importância dos professores na sociedade contemporânea e ressalta que eles enfrentam um enorme desafio em seu papel educacional.

A partir dessa perspectiva, Nóvoa (2022) chama a atenção para o fato de que grande parte do potencial cultural, técnico e científico das sociedades está concentrada nas escolas, o que reflete a centralidade da educação na formação de cidadãos capazes de contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento e progresso da sociedade. O alerta sobre a necessidade de não desprezar nem menosprezar os professores é fundamental. Infelizmente, muitas vezes, a sociedade e até mesmo os sistemas educacionais próprios podem subvalorizar a importância do trabalho do professor e negligenciar suas necessidades e demandas. Isso pode resultar em condições precárias de trabalho, atendimentos inadequados e falta de reconhecimento, o que, por sua vez, pode impactar na qualidade da educação oferecida.

Investir na valorização dos professores é investir no futuro da sociedade. Professores bem capacitados, motivados e valorizados são fundamentais para promover um ensino de qualidade, estimular o interesse dos alunos pelo aprendizado e desenvolver habilidades e competências essenciais para a formação de cidadãos conscientes, críticos e preparados para os desafios do mundo contemporâneo. Os meios de produção e controle estão impostando a imagem de um professor Atlas, como nos diz Trevisan (2020), pois Zeus condena Atlas a carregar em seus ombros o peso dos céus (relacionado com a prática pedagógica e os excessos de responsabilidades no mundo), algo que continua a suportar até hoje. Alguns profissionais também se comportam como se estivessem condenados a carregar esse peso, com excessiva subordinação e sobrecarga de trabalho, tendo a vida resumida ao excesso de trabalho que vai contra a moral de experiência prazerosa e sensível do humano.

Professores de séculos anteriores enfrentavam maiores dificuldades de acesso aos recursos e informações, como livros, manuscritos e outros materiais pedagógicos, que hoje são amplamente disponíveis. No entanto, tinham a vantagem de trabalhar com uma riqueza de esquemas interpretativos, baseados em uma formação humanística mais aprofundada e dispunham de mais tempo para a (re)elaboração de suas propostas pedagógicas e investigações. Além disso, a tradição cultural associou o magistério a uma imagem de domesticidade, especialmente no que se refere à docência infantil, visto como uma profissão adequada às mulheres devido ao cuidado amoroso com as crianças, reforçando a ideia de que o ensino era uma extensão da maternidade, baseada na vocação e na doação.

Podemos fazer analogias entre Atlas e a imagem do professor na pandemia, o qual teve que adaptar o local de trabalho a condições online despreparadas. Muitas charges foram criadas para retratar as formas de se manter presente e trabalhando em meio a ausências e questões restritivas de isolamento físico. Da pandemia surgiram imagens distorcidas de que os professores não estavam trabalhando, simplesmente por estarem em casa, bem como se idealizou a imagem de professor-youtuber, uma concepção romantizada de planejamento de trabalho e postagem de atividades, de grande investimento pessoal (para além da carga horária contratada), mas sem reconhecimento em face às demandas do momento pandêmico. Essa prática com discursos estereotipados e reificados, como se os educadores fossem os únicos responsáveis pela formação escolar, “torna plausível, e até mesmo normal, a ideia do trabalho sem pausa, da produtividade sem limites e de uma disponibilidade quase absoluta às demandas do tempo presente, sejam elas vinculadas a trabalho profissional ou ao trabalho doméstico” (SARAIVA; TRAVERSINI; LOCKMANN, 2020, p. 13). Os professores foram emocionalmente impactados pelas condições precárias de trabalho, exaustão e múltiplas exigências relacionadas ao uso das tecnologias digitais, conforme detalhado no próximo tópico.

Problematizando imagens da profissão - reificação na roupagem performática contemporânea?

O que se pode dizer sobre as imagens do professor nas condições atuais? O que é possível propor como princípio orientador para a atuação pedagógica, num país em que a palavra se vê aprisionada aos limites dos mundos digitais que ela produz? Hoje, experiências insurgentes acerca das pedagogias, imagens, espaços, tempos, trabalho docente, relações com as famílias e comunidades, bem como relações de gestão deveriam significar uma crítica à reificação e não permanecerem periféricas a projetos colaborativos.

Fonte: Jaime Guimarães (2021)7.

Figura 5 Professor-herói nas redes 

A figura do professor-herói sempre disponível, superficial e agente de mudança sobre-humano, é um exemplo de competência salvacionista, que desponta nas redes sociais, principalmente em datas alusivas ao dia do professor. A deformação profissional começa de forma imposta e autoritária, o que impede as relações de reconhecimento, com a desarmonia na forma como se relaciona com o outro no mundo do sistema, se estendendo a um nível de saúde mental e comportamental, dada a disponibilidade integral para enfrentar todos os problemas do mundo. Os principais sinais de deformação profissional na docência envolvem formalismo nas atividades de inovação, anseio de tarefas complexas via tecnologias digitais, julgamentos, atitudes agressivas com relação a pessoas e atividades.

Em linhas gerais, pensadores do campo da educação vêm insistindo na importância da valorização do trabalho colaborativo, em rede, na parceria entre universidade e educação básica. São muitas as experiências que se têm notícias, algumas inclusive no escopo das difundidas práticas inovadoras para responder às novas demandas externas, entretanto, experiências estas ainda carentes de estudos e sistematizações por parte da pesquisa nessa linha de atuação, indo ao encontro da crítica de Ball (2005, p. 548), ao afirmar que as remodelagens do mundo gerencial e performativo atingem “[...] profundamente a prática do ensino e a alma do professor - a vida na sala de aula e o mundo da imaginação do professor [...] aspectos específicos e díspares da conduta são reformulados e se muda o local de controle da seleção de pedagogias e currículos”. A citação de Ball aborda o impacto das reformas gerencial e performativa na prática do ensino e na vida dos professores. O autor destaca como essas reformas têm um efeito profundo tanto na dinâmica da sala de aula quanto na concepção do papel do professor. As reformas gerenciais enfatizam uma abordagem mais corporativa e eficiente na gestão educacional, buscando aplicar os princípios do setor privado no sistema público de ensino. Isso pode levar a uma maior padronização e controle externo das práticas pedagógicas e currículos.

O resultado dessas reformas é a mudança na forma como os professores são concebidos e caracterizados, dando ênfase aos resultados e prestando contas em termos de desempenho dos alunos. Eles são cada vez mais vistos como técnicos em pedagogia, cuja função principal é aplicar métodos, testes e estratégias de ensino, em vez de serem vistos como profissionais criativos e reflexivos que adaptam suas práticas às necessidades e contextos específicos de seus estudantes.

Essa abordagem reducionista e tecnicista do papel do professor pode comprometer a qualidade da educação e desmotivar os educadores, que se veem presos em uma lógica burocrática e desprovida de sentido na sala de aula holística e abrangente. É importante lembrar que a educação é uma atividade complexa e multifacetada, e que os professores desempenham um papel fundamental na formação integral dos sujeitos, influenciando suas vidas de maneira profunda e duradoura.

Portanto, é essencial que as políticas educacionais levem em consideração a voz dos professores e valorizem sua expertise profissional, oferecendo espaço para a autonomia e a reflexão pedagógica, bem como reconhecendo a importância do engajamento e do cuidado emocional na relação entre educadores e educandos (OLIVEIRA, 2021). A educação deve ser tratada como um processo dinâmico e humano, sendo os professores agentes essenciais na construção de um sistema educacional de qualidade e inclusivo.

Corrobora com essa discussão, o controle do trabalho escolar, que reduz o professor a mero fator de produção, de razão técnica ou de pedagogias invisíveis de gerenciamento não sustentam a cidadania participativa, dialógica e crítica, tornando os professores reféns de decretos externos, sendo vitimados pela cultura do imediatismo, vinculados à culpa e ao tormento de querer ser um bom professor desvinculado da prática ético-cultural (BALL, 2005). De acordo com esse diagnóstico, é justamente a cultura da gestão e do desempenho fortemente padronizada, racionalizada e policiada que tem influenciado a autonomia autorizada dos professores, de exercer o trabalho conforme a economia de mercado. A educação sinaliza urgência de mudança estrutural desde que esta esteja, de fato, voltada para a formação de cidadãos comprometidos com a sociedade, tanto local quanto globalmente.

Como resultado nefasto dessas reformas, surgem os desafios de ritmos alucinantes e as violências contra a autoridade profissional dos professores, visibilizadas por contradições do contexto social e cultural. Nas palavras de Bernard Charlot (2014, p. 01), “estamos vivendo, na sociedade contemporânea, profundas mudanças na relação com o desejo e na relação com o saber. Além disso, essa sociedade está pedindo ao Professor cada vez mais coisas, muitas vezes vagas e até contraditórias”.

As reformas educacionais recentes, particularmente aquelas orientadas pelo gerencialismo, enfatizam a performatividade técnica e a eficiência, como discutido por Ball (2005). Essas reformas moldam a prática docente, impondo métricas de desempenho e controle externo que limitam a autonomia dos professores. O impacto disso é a redução do professor a um técnico, comprometendo a qualidade da educação e desmotivando os docentes. Charlot (2020) argumenta que essa tecnificação da profissão desumaniza o processo educacional, obscurecendo a função crítica e transformadora do professor.

Os sujeitos da educação são, muitas vezes, perseguidos, ameaçados, punidos inclusive pelo excesso de trabalho, sendo cerceados de relações interpares e do trabalho cooperativo, expostos e tratados como traficantes, numa comunidade que corrói o caráter e as diferentes formas de conveniência pela convenção de absurdos. Ora, do ponto de vista humano, a imagem de professor/a é violentada pela privatização de recursos e de direitos, sem investimento em livros literários que despertam para a autonomia e as interações criadoras e imaginativas com o outro, materializado o esquecimento da condição humana, em termos de reconhecimento, que é entendido por Honneth (2008) como reificação profissional. Ou seja, está cada vez mais deslocada de sua função social que exige a presença do outro em termos de questionamento crítico da realidade, do (re)conhecimento, da sabedoria e da emancipação de todos. O reconhecimento ocorre sobre os três padrões de autorrealização dos sujeitos da educação: sociabilidade, intersubjetividade e moral, que explicam sobre a necessidade do respeito e da estima profissional, que perpassam pela necessária valorização da autonomia e dos direitos profissionais. “Por isso mesmo somos sempre uma ameaça: onde a lei e a política são representadas pela ignorância, violência, banalização da morte e autoritarismo, a educação passa a ser considerada um perigo” (FILORDI, 2023, online).

Se o professor não é reconhecido em sua imagem de sujeito histórico ou por suas contribuições ao desenvolvimento e luta pelo humano, ou ainda, se há um silencioso ódio em relação ao magistério, tal desvalorização provoca a perda da autoestima, barbarização, alienação e a ausência de autorrealização profissional. Para superar os antigos padrões que procuram, mesmo na atualidade, se manterem firmes em discursos e imagens ultrapassadas, sejam por pressões impostas por programas legais de estado norteados por valores empresariais imediatistas impostos pelo mercado de trabalho, necessitamos tomar decisões coletivas que resistam a essas pressões que nutrem a irrelevância da vida.

Ao acompanhar os vinte últimos anos de história do magistério, Arroyo (2002, p. 23) diz: “vejo mais do que luta por salários e carreira, estabilidade e condições de trabalho. Vejo a defesa e afirmação de um ofício que foi vulgarizado e precisa ser recuperado sem arrependermo-nos do que fomos outrora, porque ainda o somos”. O reconhecimento coletivo precisa ser a força motriz e o poder da imagem professoral em sentido educativo para despertar a humanidade de seus retrocessos e neuroses paralisantes.

Nesse contexto, os sentimentos de injustiça, frieza, barbarização, alienação, burocracias e desrespeito denigrem e rebaixam os sujeitos da educação para o exercício profissional autônomo, problematizador, crítico e capaz de enfrentar as problemáticas escolares do trabalho de pedagogos no Brasil. Os professores precisam reconhecer e se indignar frente às relações de opressão e de abuso de autoridade para lutar com os demais sujeitos por novas atitudes que resultem em transformações e mudanças. Por tudo isso, as pedagogias e imagens da cultura mostram que atuar e ser professor/a hoje é uma tarefa de tensões, dilemas, contradições e resistências porque somos trabalhadores e constituídos de estudos, pesquisas, experiências, histórias, trajetórias formativas, direitos humanos, famílias, sonhos e desejos que precisam ser respeitados e reconhecidos por toda a sociedade.

A menção à solidão do XXI ressalta o possível isolamento e distanciamento do professor em meio à intensificação das demandas tecnológicas e da pressão para se adequar a novas formas de ensino e aprendizagem online8. A imagem do professor como um indivíduo solitário, lidando com as exigências da profissão sem o devido suporte e reconhecimento, pode ser um reflexo de como a sociedade pode estereotipar o papel do educador. A preocupação com o potencial das pedagogias na partilha de corresponsabilidade pela construção do conhecimento também é fundamental. Isso implica em entender a educação como um processo colaborativo, onde estudantes e professores têm um papel ativo na construção do saber. Essa abordagem promove a quebra de estereótipos e a valorização do papel do professor como intelectual crítico e transformador através das provocações ao aprendizado, em vez de apenas um mero detentor de conhecimento.

A reflexão sobre as imagens do professor nas condições atuais e a proposição de formas de atuação em um contexto em que a palavra parece aprisionada em sentidos limitados é uma tarefa desafiadora, exigindo uma abordagem crítica e multifacetada do contexto das imagens culturais do professor. Dada a complexidade da sociedade em que vivemos, marcada por rápidas mudanças tecnológicas e diversidade cultural. As imagens do professor refletem, muitas vezes, essas dinâmicas, mas também podem ser influenciadas por estereótipos e preconceitos. Este contexto pode apresentar limitações à comunicação e restrições à diversidade de ideias, à liberdade de expressão do professor, tudo isso pode abreviar a riqueza da troca de ideias no ambiente educacional e impactar sua imagem.

Trabalhos históricos sobre imagens de professor desvelam transformações ao longo do tempo. As representações do professor mudaram historicamente, refletindo os valores e as expectativas de cada época. De autoridade (autoritária) a facilitador dos processos de aprendizagem, as imagens do professor têm se transformado e sofrendo impactos da mídia e cultura. A mídia e a cultura popular desempenham um papel significativo na formação das imagens sociais do professor, passando por filmes, programas de TV e literatura que moldam percepções e podem ou não refletir a complexidade do papel profissional.

A proposição da atuação pedagógica centrada na educação das humanidades implica reconhecer a complexidade das experiências humanas, promovendo o reconhecimento, a empatia, o pensamento crítico e a compreensão intercultural. A linguagem, entendida não apenas como comunicação verbal, mas também como expressão artística, simbólica e cultural, deve ser colocada no centro da cena educativa transformadora. O professor pode utilizar diferentes formas de linguagem para enriquecer o processo educacional, visando a promoção da diversidade e a inclusão educacional. Uma atuação pedagógica transformadora precisa tensionar e desafiar os estereótipos, promover a diversidade de perspectivas e criar um ambiente inclusivo, onde todas as vozes possam ser ouvidas.

Enfrentar as restrições à liberdade de expressão associados ao papel do professor é crucial para criar uma imagem mais autêntica e inclusiva, bem como é fundamental para permitir uma educação aberta, crítica e reconstrutiva para desafiar os estereótipos vigentes. A atuação pedagógica no campo das humanidades, centrada na linguagem e na promoção da diversidade, oferece uma abordagem robusta para enfrentar os desafios contemporâneos. Essa abordagem deve ser flexível às mudanças sociais e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa e transformadora das condições atuais.

Hoje só vinga o ensino capaz de valorizar o outro, de provocar a troca na diversidade, pela abertura à pergunta, à curiosidade, mas com enraizamento na cultura, que renova os sonhos possíveis e a vontade de pesquisar, ou seja, talvez seja necessário repensar a experiência educativa a partir de ações que incorporem as tensões em relação às críticas das tecnologias digitais. Numa cultura marcada pelo excesso de controle, burocracia e individualismo, é preciso voltar os olhos para a figura do mestre, do aprendiz e do ato de ensinar com liberdade de expressão, de criação e de participação.

Considerações finais

Ao aprofundar a reflexão sobre as imagens da educação no Brasil e suas complexas interfaces com a ação cultural, ao longo de trajetórias existenciais e profissionais dos educadores, o estudo buscou, em duas etapas: primeiramente, analisar o sentido das pedagogias e as representações históricas e emergentes da docência, e, em segundo lugar, identificar tanto os avanços quanto os retrocessos na cultura contemporânea em relação a essas imagens. Particularmente, lançou-se um olhar crítico sobre a cultura digital, cujas implicações, muitas vezes, contribuem para a superficialidade e a desvalorização da figura do professor.

É inegável que o futuro da docência inclui uma dimensão online. No entanto, há uma necessidade urgente de resistir à formação superficial e descontextualizada que muitas vezes acompanha essa transição digital. O trabalho pedagógico corre o risco de perder sua função social e sentido quando se torna uma prática alienada, voltada apenas para o cumprimento de demandas de um sistema educacional conformista e tecnocrático, que valoriza a performance técnica em detrimento do conteúdo formativo, expressivo e crítico. As imagens que são projetadas sobre o professor no espaço midiático e digital não podem ser tratadas como meras abstrações; elas moldam, em grande parte, as percepções e expectativas sociais em relação ao papel docente. Portanto, elas devem ser abordadas de maneira consciente e crítica, evitando que se tornem terras incógnitas dentro do trabalho intelectual, como argumenta Nóvoa (2022).

A imagem do professor empreendedor, amplamente promovida pela pedagogia da mídia, reflete um modelo idealizado que ignora as condições reais e o cotidiano do trabalho docente. Embora haja casos de sucesso entre professores que conseguem se destacar nas plataformas digitais, esses são exceções, e o foco excessivo nessa narrativa corre o risco de criar expectativas irreais e frustrantes para os demais educadores. Ao enfatizar apenas o sucesso individual e o empreendedorismo, corre-se o perigo de desviar a atenção das reais necessidades da classe docente, como melhores condições de trabalho, formação permanente, autonomia pedagógica e suporte institucional adequado.

Na análise das imagens estereotipadas da docência, é impossível ignorar as profundas intersecções com as questões de gênero, que moldam percepções limitadas e desvalorizadas da profissão. Historicamente, o magistério, especialmente na educação infantil e fundamental, foi associado à ideia de vocação feminina, caracterizada pelo cuidado e pela doação, reforçando estereótipos patriarcais que enxergam a docência como uma extensão das responsabilidades domésticas e maternas. Embora este artigo não tenha como objetivo central o debate de gênero, reconhece-se que essas construções simbólicas influenciam diretamente a imagem do professor, ao reforçar a ideia de que o ensino é uma profissão naturalizada para mulheres, mas subvalorizada social e economicamente. Esses estereótipos continuam a impactar a maneira como a docência é percebida e recompensada. Portanto, é fundamental integrar essa reflexão para desconstruir imagens estigmatizadas e avançar em direção a uma valorização e incentivo da profissão, reconhecendo as dinâmicas de gênero envolvidas e enfrentando as desigualdades persistentes que afetam as mulheres na educação.

O debate sobre a valorização da docência deve, portanto, ir além das promessas tecnológicas e da mídia digital. A qualidade da educação que almejamos precisa estar fundamentada em princípios que respeitem a diversidade de perfis docentes e as múltiplas realidades que compõem o sistema educacional. Políticas públicas efetivas precisam considerar essas diferenças e promover ambientes de trabalho saudáveis, que permitam o crescimento profissional, o fortalecimento da autonomia docente e a melhoria da qualidade do ensino. Ao reconhecer as complexidades da docência, é possível avançar para um modelo educacional que valorize verdadeiramente o papel transformador dos professores, tanto no espaço presencial quanto no digital.

A conclusão desta análise sugere que, para enfrentar a crise de desvalorização e reificação da profissão docente, é necessário investir em políticas públicas que promovam a valorização do trabalho colaborativo e do reconhecimento social dos professores, levando em consideração suas especificidades de gênero, classe, raça e contexto socioeconômico. Essas políticas devem reconhecer as desigualdades estruturais que afetam diferentes grupos de professores, garantindo um ambiente de trabalho mais inclusivo e equitativo. Isso inclui a promoção da igualdade de oportunidades, a eliminação dos estereótipos que vinculam a docência a uma vocação feminina e a criação de condições que respeitem as realidades e desafios vivenciados por educadores de diferentes origens. Além disso, a adoção de pedagogias humanizadas, que priorizem o diálogo e a empatia, pode contribuir para a reconstrução de uma imagem mais digna e transformadora da docência. Em um contexto de crescente tecnificação, é fundamental resistir à mercantilização da educação e promover práticas pedagógicas que reconheçam o valor intrínseco do professor como agente de transformação social.

Em suma, a imagem do professor como mero empreendedor ou influenciador digital deve ser vista criticamente, pois não representa a realidade da maioria dos profissionais da educação. Para além das simplificações promovidas pela pedagogia da mídia, o professor deve ser reconhecido como um agente fundamental na construção de uma educação que forme cidadãos críticos, participativos e socialmente engajados. Apenas por meio de um reconhecimento pleno e profundo do papel docente será possível reverter a tendência de reificação e desvalorização da profissão, garantindo assim uma educação que responda aos desafios contemporâneos e que esteja à altura das necessidades de uma sociedade democrática e justa.

Como citar: CONTE, E.; MACIEL, P. G.; TREVISAN, A. L. O futuro do professor é online? Implicações políticas, sociais e pedagógicas. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, PUCPRESS, v. 24, n. 83, p. 1513-1532, 2024. https://doi.org/10.7213/1981-416X.24.083.AO01

1Os professores enfrentam desafios nas dimensões: científico-pedagógica, com gestão do ensino, indisciplina, ritmos de aprendizagem, currículo e avaliação; burocrática, com legislação, regulamentos, falta de tempo em tarefas e diversidade de funções; emocional, com autoconhecimento, autoestima, isolamento e equilíbrio pessoal/profissional; e social, com identidade profissional, relacionamentos interpessoais e desconhecimento de regras.

2Disponível em: https://hmn.wiki/es/Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel Acesso em: 17 dez. 2023.

4Disponível em: https://cpers.com.br/historia/ Acesso em: 17 dez. 2023.

5Disponível em: https://www.instagram.com/arteemtemposdepandemia/?hl=pt-br Acesso em: 25 dez. 2023.

6Resúmenes de ponencias y talleres del VI Congreso Latinoamericano de Filosofía de la Educación. Publicación interna solo para participantes. Asociación Latinoamericana de Filosofía de la Educación, 2023.

7Charges - No Brasil da idiocracia, professores são transformados em vilões. Há nesta charge a imagem da normalização de um professor esgotado e repetindo tecnicamente agenciamentos externos. Disponível em: http://grooeland.blogspot.com/2021/04/no-brasil-da-idiocracia-professores-sao.html Acesso em: 17 dez. 2023.

8O filme A Baleia (2022), dirigido por Darren Aronofsky, retrata a intensa jornada de um professor de inglês contemporâneo, que leciona redação online, exemplificando a realidade de muitos educadores na era digital. Trabalhando incansavelmente, ele busca atender às demandas de sua profissão, que frequentemente atravessam e misturam sua vida pessoal e profissional, graças ao alcance constante proporcionado pelas tecnologias. Em isolamento físico, enquanto enfrenta problemas de obesidade, solidão e luto, ele tenta se reconectar com seus alunos e com sua filha, revelando os desafios emocionais e sociais da docência atual. A obra aprofunda-se na dimensão humana da profissão, expondo as tensões entre fragilidades individuais e resistências exigidas pelo contexto sociocultural, especialmente na interseção entre o trabalho remoto e as novas configurações da existência humana.

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Recebido: 23 de Março de 2024; Aceito: 25 de Maio de 2024

[a] Doutora em Educação, e-mail: elaineconte@yahoo.com.br

[b] Doutora em Educação, e-mail: patricia04maciel@gmail.com

[c] Doutor em Educação, e-mail: trevisanamarildo@gmail.com

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