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Revista Diálogo Educacional

versão impressa ISSN 1518-3483versão On-line ISSN 1981-416X

Rev. Diálogo Educ. vol.25 no.84 Curitiba  2025  Epub 19-Maio-2025

https://doi.org/10.7213/1981-416x.25.084.aa01 

Apresentação

Ensino Médio e Projeto de Vida pelas Representações Sociais

High School and Life Project through Social Representations

La escuela secundaria y el proyecto de vida a través de las representaciones sociales

Clarilza Prado de Sousa

[a] [b] Pós-doutora em Estudos da Ciência Social pela Ecole des hautes e pela Maison des Sciences de LHomme, e-mail: clarilza.prado@gmail.com

[a]  [b] 
http://orcid.org/0000-0001-6417-7030

Romilda Teodora Ens

[c] Pós-doutora em Educação pela Universidade do Porto, e-mail: romilda.ens@gmail.com

[c] 
http://orcid.org/0000-0003-3316-1014

Dorra Ben Alaya

[d] Doutora em Psicologia da Educação pela Université de Provence UFR de Psychologie Sciences de l'Education, e-mail: d.benalaya@gmail.com

[d] 
http://orcid.org/0000-0002-8277-707X

Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira

[e] Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, e-mail: alboni@alboni.com

[e] 
http://orcid.org/0000-0003-3759-0377

aPontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, SP, Brasil

bFundação Carlos Chagas (FCC), São Paulo, SP, Brasil

cPontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR, Brasil

dUniversidade El Manar de Tunis - Tunísia, Tunis, Tunisia

ePontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR, Brasil


Pretendemos com esse dossiê discutir a temática do Projeto de Vida enquanto componente curricular obrigatório previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio. Trata-se de uma iniciativa da Rede Projeto de Vida como parte dos estudos de seu Projeto intitulado “Educação e Projeto de Vida”. A Rede Projeto de Vida teve início em 2023 e é composta por pesquisadores de cinco diferentes estados brasileiros (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Pará) que no Projeto mencionado investigam as representações sociais de jovens do Ensino Médio em situação de vulnerabilidade quanto aos seus Projetos de Vida, bem como de seus professores sobre tais projetos.

Por considerarmos o contexto das disputas circunscritas à educação básica brasileira, em especial ao ensino médio, e o crescente número de debates e pesquisas que procuram compreender a contextualização do componente curricular Projeto de Vida, seus sentidos e desdobramentos no currículo escolar e na vida dos jovens do Ensino Médio, os 14 artigos desse dossiê evidenciam a necessidade de pesquisas que reflitam sobre o contexto escolar com configurador de subjetividades. Pautar esta discussão em um dossiê é assim uma oportunidade de ampliar e aprofundar o debate sobre políticas para o Ensino Médio, as oportunidades do jovem na sociedade atual, compreender suas representações e os processos de construção de sua subjetividade.

Para iniciar os artigos do dossiê, temos A governamentalidade neoliberal em discursos sobre o Projeto de Vida do novo ensino médio, de Patrícia Diógenes de Melo e Francisco Vieira da Silva. Nesse artigo os autores analisam o funcionamento da governamentalidade neoliberal nos discursos relacionados ao Projeto de Vida, uma vez que, o ensino médio brasileiro tem sido debatido nos últimos anos, especialmente após a aprovação da Lei n.º 13.415/2017, que instituiu o Novo Ensino Médio (NEM).Nessa proposta, a reforma se propõe a preparar os jovens tanto para o mercado de trabalho quanto para a vida, permitindo-lhes a escolha de áreas de interesse para aprofundamento de seus conhecimentos. O Projeto de Vida se apresenta para as escolas para que os estudantes possam refletir e agir sobre vários aspectos de suas vidas por meio de diferentes atividades e experiências. Para essa análise, fizeram uso de metodologia qualitativa e documental, com base no método arqueogenealógico de Michel Foucault. O referencial teórico embasa-se em Foucault (de 1995 a 2010) e autores como Dardot e Laval (2016), Damon (2009), dentre outros. A pesquisa foi realizada em documentos legais e pedagógicos, além de discursos em mídias digitais relacionados ao Projeto de Vida. Os resultados revelaram a influência da racionalidade neoliberal que molda o campo educacional para atender às demandas do mercado.

Os autores José Luís de Oliveira, Clarilza Prado Sousa e Romilda Teodora Ens para refletirem em Posso escolher meu futuro? A reforma do Ensino Médio e o componente curricular Projeto de Vida, ao resgatarem as justificativas indicadas para a nova reforma do ensino médio destacam que a proposta da reforma se apoiou na maneira como estava organizado o Ensino Médio, pois o apontou ser este de baixa qualidade e que não dialogava com a juventude, com o setor produtivo, tampouco com as demandas do século XXI e isso provocava altos índices de abandono e de reprovação. As propostas centrais da nova legislação giram em torno da ampliação da carga horária de estudos, redução do número de disciplinas, organização de um currículo mais flexível e a separação da formação entre uma parte comum a todos os estudantes e outra diversificada, a fim de contemplar os Itinerários Formativos. Este artigo ao discutir o componente curricular de “Projeto de Vida”, no contexto destas considerações, analisa os princípios norteadores da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como estratégia para instrumentalizar os(as) estudantes a definirem objetivos e propósitos futuros, sem, no entanto, propor discussões mais consistentes sobre condições de futuro, dos proponentes. Partindo de uma base de dados considerável da Rede de Projeto de Vida, discutem a necessidade de oferecer ao aluno possibilidades de analisar e fortalecer seu desenvolvimento, isto é possibilitar que ele analisa, conheça e desenvolva trajetórias que os permita ir definindo seu projeto de vida no contexto de suas possibilidades, com sonhos, mas sem ilusões acríticas, que constroem representações sociais de alunos sobre projeto de vida sem respaldo psicossocial da realidade.

Na sequência, em Cartografias do Projeto de Vida: subjetividades, controles e resistências no Novo Ensino Médio, os autores Franklin Kaic Dutra-Pereira e Saimonton Tinôco apresentam os resultados do projeto “MAPAS: cartografia inventiva do Projeto de vida no Ensino Médio”, que se propôs a investigar a inclusão do projeto de vida como componente curricular do Novo Ensino Médio. Para essa pesquisa fazem uso da cartografia inventiva como metodologia, o estudo envolveu docentes, estudantes e pesquisadores/as na reflexão sobre os impactos dessa disciplina escolar, analisam suas implicações na formação de subjetividades alinhadas à lógica neoliberal e ao protagonismo individual. Os resultados possibilitaram aos autores, afirmarem que o projeto de vida opera como um dispositivo de controle, promovem a adaptação de estudantes às exigências do mercado e reforçam um modelo de subjetivação cis-heteronormativo e patriarcal que exclui corpos dissidentes. Nesse movimento foram indicadas seis conexões rizomáticas, que apontam para a necessidade de um Ensino Médio mais inclusivo e emancipatório, que valorize a diversidade e resista às imposições da racionalidade neoliberal. Encerram o artigo com um convite à reflexão: como podemos imaginar e construir uma educação que seja verdadeiramente uma prática de liberdade e criação coletiva? São as apostas cartográficas para o devir.

Adiante Pedro Paulo Baruffi e Maria Lourdes Gisi, em Revista Nova Escola e o Projeto de Vida: ajustamento ao capital e a construção da hegemonia sobre as juventudes, examinam criticamente como a Fundação Lemann, por meio da revista e plataforma digital Nova Escola, influencia e operacionaliza a implementação do Projeto de Vida nas escolas brasileiras. Esta é uma revista que desde sua criação chega às escolas e professores do Brasil. Os autores adotam a metodologia de caráter descritivo-interpretativo, com o objetivo de compreender como a linguagem hegemônica neoliberal se manifesta em veículos de comunicação voltados à educação. Trata-se de uma pesquisa documental de abordagem qualitativa. O corpus da pesquisa consiste em cinco reportagens publicadas no site Nova Escola, selecionadas com base no descritor “Projeto de Vida” e com foco específico no Ensino Médio, no período de 2019 a 2022. Com o apoio em autores como Laval (2019), Dardot e Laval (2016), Shiroma, Campos e Garcia (2005), entre outros. A investigação revelou que a Revista Nova Escola promove o Projeto de Vida como parte de um movimento mais amplo vinculado à BNCC e às agendas de reforma do Ensino Médio e reforça uma hegemonia neoliberal. Além de apresentar conteúdos de modo simplificado e acrítico, a plataforma contribui para moldar professores e estudantes às demandas do mercado, alinhando-se à lógica de interesses empresariais e mercadológicos.

Emanoela Thereza Marques de Mendonça Glatz, Solange Franci Raimundo Yaegashi e Luciane Guimarães Batistella Bianchini, em Empreender para (sobre) viver: o estado da arte do novo ensino médio e a legitimação de um Projeto de Vida, objetivam investigar o impacto do componente curricular "Projeto de Vida" no Novo Ensino Médio brasileiro, para isso analisam como esse reflete e reforça ideologias neoliberais na educação. Por meio de pesquisa bibliográfica do tipo "estado da arte” realizaram a análise de teses, dissertações e artigos científicos de acesso aberto publicados entre 2019 e 2024 nas bases de dados CAPES, SciELO e Google Scholar. Os estudos selecionados foram subdivididos, pelos autores, em duas categorias de análise: 1) Projeto de Vida e o trabalho: a formação do “empreendedor de si”; e 2) Projeto de Vida e a lógica meritocrática: entre o desejo e a (im)possibilidade. Os resultados indicaram, segundo as autoras, que o Projeto de Vida tende a promover o conceito de “empreendedor de si”, ao adaptarem os estudantes a uma visão de mercado que privilegia a competitividade e a autossuficiência, e desconsiderar desigualdades estruturais. Para as autoras, esse direcionamento reflete uma lacuna no desenvolvimento crítico e social dos alunos. Destacam as autoras que o acesso a apenas três bases de dados, limitam e restringem a generalização dos resultados, embora forneça insights importantes sobre as tendências neoliberais nas políticas educacionais atuais.

Em Educação sob a égide do neoliberalismo: projeto de vida e a fragilização da formação integral, as autoras Adriege Matias Rodrigues, Regina Alice Rodrigues Araújo Costa e Ana Cláudia da Silva Rodrigues analisam criticamente como os valores neoliberais influenciam o componente curricular Projeto de Vida, inserido na Reforma do Ensino Médio. A partir de uma abordagem teórico-metodológica fundamentada em Foucault e na análise de políticas educacionais de Stephen Ball, conforme as autoras, o estudo investiga como o discurso neoliberal molda a proposta pedagógica do Projeto de Vida, destacam a ênfase na responsabilização individual e na preparação dos estudantes para o mercado de trabalho. Os resultados destacam a tensão entre a formação integral preconizada pelas diretrizes educacionais e a prática que prioriza competências relacionadas à produtividade e ao empreendedorismo de si. Essa orientação, concluem as autoras, enfraquece a dimensão crítica e humanista da educação e transforma o espaço escolar em um meio de reprodução das lógicas do capital.

Segue-se o artigo de Sandra Lúcia Ferreira e Simone Oliveira Andrade Silva, O Ensino Médio e suas incertezas: Representações Sociais e a construção de Projetos de Vida, em que as autoras relatam uma investigação com 113 estudantes do Ensino Médio de cinco escolas paulistas, buscando analisar as Representações Sociais (RS) relacionadas ao componente obrigatório de Projetos de Vida. A investigação buscou conhecer como esses jovens se veem no presente e projetam suas expectativas para um futuro demarcado em 5 e 10 anos. Com o aporte teórico da Teoria das Representações Sociais (TRS) com estudos sobre Imagem, as autoras utilizaram a metodologia de triangulação de Apostolidis (2006) adotada, utilizaram o desenho (método Panofsky), as palavras (TALP) e os textos (IRAMUTEC) como técnicas de análise e coleta de dados. Os resultados revelaram referências simbólicas em que o “Dinheiro” representa estabilidade e conforto; “Trabalho” é associado à autonomia e à independência; o “Sucesso” simboliza o equilíbrio entre várias áreas da vida; e “Faculdade” é percebida como um investimento para um futuro promissor. Entretanto, depreendem as autoras, que os dados também revelam que essas aspirações carecem de reflexões contínuas e propostas de ações intencionais para sua concretização, criando uma falsa ilusão de um salto direto entre o presente e o futuro, como se os próximos 5 ou 10 anos pudessem ser projetados sem uma formação que possibilite a conscientização dos processos necessários para alcançar o que se deseja.

No artigo Representações sociais de professores da Amazônia paraense sobre a perspectiva de Projeto de Vida para jovens do ensino médio, os autores Maria do Socorro Vasconcelos Pereira, Emina Márcia Nery dos Santos e Francisco Willams Campos Lima, buscaram na representação social de professores Amazônia paraense em relação às suas competências específicas da docência e a perspectiva de projeto de vida de jovens do ensino médio. Fizeram uso da pesquisa bibliográfica e do aporte teórico da Teoria das Representações Sociais (TRS), além de um grupo focal com professores de três escolas localizadas no estado do Pará sendo uma pública, uma da rede particular e outra pública vinculada à rede federal. Os resultados relevaram que as representações sociais dos professores, manifestas a partir de distintos problemas realçados pelo grupo focal, revelam que estes, independente do conhecimento do contexto e da habilidade para o planejamento das ações de ensino, se sentem responsáveis pelas escolhas dos alunos, referendam o princípio de que todos são capazes de aprender, além de que se sentem coautores dos projetos de vida dos estudantes.

Em Projetos de vida e representações sociais de ensino médio para estudantes: uma articulação com a abordagem dialógica, as autoras Leonor M. Santana, Edna Maria Querido de Oliveira Chamon e Gladis Camarini, com o pressuposto de que estudos na área da Educação, e em especial sobre o Ensino Médio, voltam-se para as especificidades do estudante dessa etapa da Educação Básica, e para a relação que se estabelece com o trabalho, com o emprego e o crescimento econômico, bem como seus projetos de vida. Consideram, nesse estudo, projetos de vida (no plural) como expressões das possibilidades de escolha do sujeito diante das circunstâncias que se apresentam ao longo de sua vida, e relacionados ao desejo de realizações, de transformações, nas diferentes dimensões da vida (intelectual, física, emocional, social e cultural), tanto no passado e no presente, como na perspectiva de futuro. Com objetivo de analisar as representações sociais de Ensino Médio e curso profissionalizante, e como se relacionam com projetos de vida, realizaram pesquisa com 218 estudantes do Ensino Médio, de escolas públicas, utilizando questionários e entrevista semiestruturada como instrumentos de coleta de dados. Na análise dos dados, articularam as abordagens sociogenética e dialógica, da Teoria das representações sociais. Os resultados revelaram que os desejos e expectativas dos estudantes frente ao futuro estão intimamente relacionados com conquistar uma profissão valorizada, ser reconhecido (socialmente) e obter estabilidade financeira e familiar.

Carina Tonieto, Altair Alberto Fávero, Caroline Simon Bellenzier e Junior Bufon Centenaro, O penduricalho do projeto de vida no novo Ensino Médio Gaúcho: o proposto pelo Referencial Curricular Gaúcho e o vivido pelos estudantes, com o objetivo de identificar as consonâncias e discrepâncias entre o que é proposto pela política e o que é vivido no cotidiano escolar, confrontando o que é anunciado no projeto de vida, como eixo articulador do RCGEM, e a visão dos estudantes do ensino médio. O estudo buscou responder a seguinte pergunta: qual a percepção dos estudantes gaúchos a respeito do componente curricular do projeto de vida? Trata-se de uma pesquisa básica, exploratória e de abordagem qualitativa-quantitativa, delineada em um estudo de caso com dez escolas que fizeram parte do projeto piloto de implementação do novo ensino médio no Rio Grande do Sul. Dentre as conclusões do estudo, para os autores, é possível afirmar que o reconhecimento do projeto de vida enquanto princípio educativo ainda precisa ser aperfeiçoado, pois se torna uma espécie de adorno para chamar atenção e que ainda precisa mostrar o seu potencial inovador e sua factibilidade.

Na sequência, em Projetos e vida: narrativas de egressos do Ensino Médio Integral do estado de São Paulo, das autoras Renata Helena Pin Pucci, Flávia Shirakashi Seimandi e Luciana Haddad Ferreira ao tomarem como ponto de partida que as recentes reformas do Ensino Médio mudaram a configuração da oferta dessa etapa da Educação Básica. Com o objetivo compreender como as experiências e relações estabelecidas no Ensino Médio de tempo integral participam na formação cidadã de alunos egressos do Ensino Médio. As autoras analisaram as narrativas de egressos do Ensino Médio de uma escola estadual, localizada no interior de São Paulo, que aderiu ao Programa Ensino Integral (PEI), produzidas no ano de 2023. Apresentam um contexto do Programa Ensino Integral (PEI) de São Paulo e do Projeto de vida (considerado fio condutor de perspectivas e ações do PEI). O diálogo com egressos apontou que as experiências que promovem reflexão, autonomia e emancipação têm mais possibilidades de acontecerem dentro de um modelo que inclua o aluno mais tempo na escola, que o permita construir um projeto de/para a sua vida, considerando o olhar responsável e coletivo. Ainda, as oportunidades de exercício da cidadania não foram méritos de um Programa, mas possibilitadas por um contexto escolar que reunia condições para tal.

Adiante, em O Projeto de Vida na educação básica: educação sensível e humanidades em perspectiva à obra de Lise Bourbeau, os autores Arminda Almeida da Rosa e Arnaldo Nogaro , no qual os autores buscam práticas que vão além da simples transmissão de conhecimentos técnicos, que se debruce em explorar a utopia e propondo pedagogias sensíveis que considerem não apenas o intelecto, mas também as emoções, valores e experiências de vida, por considerarem prioridade nas escolas. Afirmam que o Projeto de Vida é fundamental para integrar essas dimensões e, promover educação mais humana e sensível. Com o objetivo de discutir a prática pedagógica sensível e sua contribuição para uma formação mais humana, a qual equilibra razão e emoção na Educação Básica. Os desafios sociais, ambientais e tecnológicos do século XXI demandam uma reformulação dos modelos educacionais e reforçam a necessidade de uma educação que valorize o ser integral. Utilizam a abordagem fenomenológica de Merleau-Ponty (2018) e dialogam com autores sobre a formação humana, para analisar uma prática pedagógica em uma escola pública no noroeste do Rio Grande do Sul. A análise de conteúdo de Bardin (2011) orienta a pesquisa. Os resultados indicam que o desenvolvimento de práticas sensíveis, como o Projeto de Vida, pode transformar a escola em um espaço de verdadeira formação humana, apesar dos desafios que educadores e instituições enfrentam ao implementar essa perspectiva transformadora.

Gildete Cecilia Neri Santos Teles e Thadeu Teles, em As identidades do professor de inglês no ensino médio integral: entre a língua estrangeira e o projeto de vida, ao analisarem as identidades dos professores de inglês no Ensino Médio Integral do estado de Sergipe, destacam os impactos da disciplina Projeto de Vida quando esta é parte da carga horária docente. Consideram que a tensão gerada pela sobrecarga do professor, que precisa ensinar uma língua estrangeira e, ao mesmo tempo, guiar os alunos na construção de seus projetos de vida, ainda que esta disciplina não tenha sido parte da sua formação inicial. A pesquisa metodologia qualitativa, com análise de documentos (Sergipe, 2016) e entrevistas com professores de inglês a fim de compreender como essas exigências moldam as subjetividades docentes dentro de um contexto de racionalidade neoliberal (Laval, 2020). Os resultados indicam que o Projeto de Vida reforça práticas de controle e subjetivação neoliberal, mas também pode ser ressignificado como um espaço de resistência pedagógica (Gallo, 2008). De acordo com os autores, os professores enfrentam um dilema entre seu papel tradicional e as novas demandas emocionais e formativas, com oportunidades para práticas pedagógicas críticas.

Para finalizar o dossiê, em O Novo Ensino Médio e a doutrinação ultraliberal nas escolas públicas paranaenses, dos autores Sílvio Borges da Silva Júnior e Paulino José Orso, relatam que nas últimas décadas, os professores, principalmente das escolas e universidades públicas, têm sido desrespeitados e perseguidos, acusados de fazerem doutrinação político-ideológica em sala de aula. Um dos movimentos que se destacou nessa cruzada, na defesa da neutralidade na educação, foi o Escola sem Partido. Diante dessa problemática, os autores tiveram como objetivo demonstrar que a alegada neutralidade na educação não é possível, uma vez que se trata de um processo intencional e que a escola historicamente tem sido um dos principais meios de disseminação das ideias dominantes, com o objetivo de manter a dominação de classe. Para esse fim, os autores analisam os conteúdos de algumas aulas do componente curricular denominado Projeto de Vida, do 3º ano do Novo Ensino Médio, produzidas pela Seed/PR, com o objetivo de explicitar o conteúdo ideológico dessas aulas, que visam conformar a juventude às novas exigências do mercado de trabalho e ao ideário ultraliberal do individualismo exacerbado, da competição e do empreendedorismo de si mesmo.

Esperamos que todos os artigos do dossiê possibilitem uma boa leitura e muitas reflexões sobre o componente curricular definido para as escolas brasileiras e que possamos alterar “Projeto de Vida” para refletir e discutir “Trajetórias de Vida”, com nossos estudantes, e tragam aprofundadas reflexões aos nossos leitores. Entendemos que esta mudança não significaria apenas uma troca de nomes, mas a proposição de uma oportunidade de os alunos refletirem sobre suas trajetórias, as condições de vivê-las no contexto que habitam e as possibilidades da escola para ajudá-los a superar suas dificuldades e equacionar os esforços em direção ao futuro.

Além do dossiê, este número da Revista Diálogo Educacional traz artigos de demanda contínua, abrangendo tópicos relevantes e atuais na esfera educacional, tais como a formação de professores e o ensino da Geociências na Educação Básica; as concepções e influências da Base Nacional Comum Curricular em relação à formação de professores de música; a dialogicidade na docência como ferramenta para o protagonismo do sujeito na educação; a desconstrução de narrativas hegemônicas no que se refere ao currículo de Matemática; um estudo por amostragem sobre a disciplina de Didática em Licenciaturas em Pedagogia no Brasil; um trabalho histórico sobre a feminização do magistério no Paraná nos anos finais do século XIX; e, por último, uma análise a aprendizagem social e o desenvolvimento profissional em comunidades de prática de trabalhadores da educação

O primeiro dos trabalhos, de Pedro Henrique Bonini da Silva e Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho, intitulado Reflexões sobre a formação de professores e o ensino de temas de Geociências na Educação Básica, tem por objetivo analisar aspectos da identidade epistemológica das Geociências e das particularidades de seu ensino, considerando que constituem elementos relevantes para os debates sobre a formação e a prática docente. Para embasar suas reflexões, descrevem os resultados de um processo de revisão narrativa de parte da produção voltada à temática, realizada nos últimos vinte anos. Os resultados obtidos tratam da identidade das Geociências, do ensino das Geociências, e da formação específica de professores da educação básica para atuação no ensino de Geociências.

Na sequência, Tadeu Aparecido Malaquias e Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira apresentam A Base Nacional Comum Curricular e a formação de professores de música no Brasil: concepções e influências, de cuja análise emergem as concepções educacionais presentes nas legislações brasileiras, para a educação musical. A problemática tratada é, portanto, desvelar quais as principais concepções presentes na BNCC que influenciam a formação de professores de música para a atuação no contexto escolar. Além disso, o estudo considera outros aspectos técnicos apresentados pela normativa para a formação de professores em geral, levando em conta legislações complementares, como a Resolução nº 2 de 20 de dezembro de 2019, responsável por definir as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e instituir a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação). A metodologia que fundamenta o artigo está baseada na Hermenêutica crítica de Ricoeur, a qual possibilita a percepção da significativa influência de conceitos como o de pedagogia por competências no contexto educacional e como isso impacta na formação de professores de música e em sua prática docente.

Adiante, os autores Ângelo Vandiney Cordeiro e Celso Kraemer, em Dialogicidade na docência: uma ferramenta para o protagonismo do sujeito na educação, discutem o ensino de Filosofia tendo por base a dialogicidade. A discussão envolveu a participação de estudantes do Ensino Médio, em resposta a um questionário sobre o tema, bem como conversas travadas em dois grupos focais, com estudantes e professores, na disciplina de “Paulo Freire e a Teoria Crítica”, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Blumenau - FURB. Como fundamentação teórica, além de autores consagrados da filosofia e pesquisadores sobre o tema, foram utilizadas as contribuições de Paulo Freire.

O artigo A disciplina de Didática em Licenciaturas em Pedagogia no Brasil: um estudo por amostragem, de Osmar Hélio Araújo, Ivan Fortunato e Emerson Augusto de Medeiros, tem por objetivo compreender a Didática como disciplina nos cursos de Pedagogia. Para a realização do estudo, foram selecionados cinco cursos de Pedagogia, um de cada região do país, com base na Classificação de Curso registrada no e-Mec. Partindo-se da hipótese de que não existe uma Didática Geral na licenciatura em Pedagogia, foram analisados os ementários, os conteúdos curriculares e as referências contidas nos programas que sustentam o ensino da disciplina. Nessa análise, foram identificadas semelhanças e diferenças na concepção da Didática como disciplina na formação de professores, possibilitando a constatação da existência de uma multiplicidade de propostas formativas.

O autor Raimundo Santos de Castro, em Decolonialidade na educação matemática: transformações no currículo, na formação docente e nas práticas avaliativas, propõe uma análise crítica do currículo de Matemática sob a ótica da decolonialidade, desafiando a percepção dominante dessa disciplina como um campo neutro e universal. Argumenta que o currículo de Matemática, ao privilegiar epistemologias eurocêntricas, exclui saberes de povos indígenas, africanos e outras culturas não ocidentais, o que contribui para perpetuar as desigualdades sociais. Considera que a decolonialidade pode contribuir para a desconstrução das narrativas hegemônicas no ensino de Matemática, abrindo espaço para a justiça social e a igualdade educacional. Nesse sentido, destaca a importância da formação de professores para reconhecer e integrar epistemologias diversas, bem como a necessidade de repensar as avaliações padronizadas, que reforçam as exclusões e desigualdades no sistema educacional.

Na sequência, em A feminização do magistério no Paraná: anos finais do século XIX, Alexandra Ferreira Martins Ribeiro analisa como se deu a educação de mulheres no período do Brasil Colônia e Imperial, destacando os primórdios da legislação sobre a instrução pública e discutindo algumas representações que promoveram a feminização do magistério, em especial no Paraná. A pesquisa, de caráter bibliográfico e documental, abrangeu aspectos históricos no âmbito social, cultural, econômico e político que permitiram a inserção das mulheres na sala de aula, o que ficou demonstrado, também, pela pesquisa documental utilizada, que compreendeu decretos, quadros demonstrativos de professores, relatórios e regulamentos da instrução pública do estado do Paraná.

Encerrando os artigos deste número, as autoras Nathália Masson Bastos e Luciana Mourão Cerqueira e Silva, em Aprendizagem social e desenvolvimento profissional: as comunidades de prática de trabalhadores da educação, objetivam compreender os impactos da aprendizagem social promovida em Comunidades de Prática (CoP), no desenvolvimento profissional de trabalhadores da educação. A discussão teórica baseou-se principalmente na Teoria da Aprendizagem Social, sob a perspectiva da Teoria Social Cognitiva, de Albert Bandura. A pesquisa de campo, por sua vez, constou de entrevistas semiestruturadas com dez coordenadores(as) de CoP com ênfase em processos educacionais. Os dados dessas entrevistas foram analisados de acordo com a proposta de Bardin, deles tendo resultado cinco categorias: (i) lugar da CoP, (ii) desafios internos, (iii) desafios externos, (iv) impactos e (v) resultados das CoP. Essas categorias foram subdivididas em 16 subcategorias, cujos resultados corroboram a literatura nacional e internacional a respeito.

Agradecemos aos autores e autoras, aos avaliadores e avaliadoras, bem como à equipe de revisão e editoração, que possibilitaram que este número fosse produzido com a melhor qualidade possível, desejando que sua leitura provoque questionamentos e discussões sobre temas relevantes para a educação brasileira, colabore para a revisão de políticas públicas educacionais e divulgue a produção científica recente na área.

Como citar: SOUSA, C.. P.; ENS, R. T.; BEN-ALAYA, D.; VIEIRA, A. M. D. P. Ensino Médio e Projeto de Vida pelas Representações Sociais. Revista Diálogo Educacional, Curitiba: PUCPRESS, v. 25, n. 84, p. 01-08, 2025. https://doi.org/10.7213/1981-416X.25.084.AA01

Recebido: 13 de Fevereiro de 2025; Aceito: 13 de Fevereiro de 2025; Publicado: 18 de Março de 2025

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