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Revista Diálogo Educacional

versão impressa ISSN 1518-3483versão On-line ISSN 1981-416X

Rev. Diálogo Educ. vol.25 no.85 Curitiba abr./jun. 2025  Epub 24-Jul-2025

https://doi.org/10.7213/1981-416x.25.085.ap00 

Apresentação

Crianças, interações e brincadeira na Educação Infantil

Niños, interacciones y juego en la Educación Infantil

Children, interactions and play in Early Childhood Education

Rodrigo Saballa de Carvalho[a] 

Doutor em Educação


http://orcid.org/0000-0002-8899-0998

André da Silva Mello[b] 

Doutor em Educação Física


http://orcid.org/0000-0003-3093-4149

Irene Moya Mata[c] 

Doutorado em Investigação e Desenvolvimento.


http://orcid.org/0000-0002-9428-5179

Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira[d] 

Doutora em Educação


http://orcid.org/0000-0003-3759-0377

[a]Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Faculdade de Educação, Departamento de Estudos Especializados. Porto Alegre RS, Brasil, e-mail: rsaballadecarvalho@gmail.com

[b]Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Centro de Educação Física e Desportos, Departamento de Ginástica. Vitória, ES, Brasil, e-mail: andremellovix@gmail.com

[c]Universidad de Valência (UV), Faculdade de Formação do Professorado, Departamento de Didáctica de la Educación Física, Artística y Música. Valência, Espanha

[d]Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Escola de Educação e Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Educação. Curitiba, PR, Brasil, e-mail: alboni@alboni.com


[...] brincar envolve tempo. Tempo de convívio, de escuta, de participação e de interação com os pares. Afinal, para as crianças, brincar é viver, e o desejo expresso pelos meninos e meninas [...] é o de viver a vida em toda a sua intensidade (Carvalho, 2023, p.17).

As interações e a brincadeira são indicadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil - DCNEI (Brasil, 2009) como eixos estruturantes das práticas pedagógicas. Em razão disso, consideramos oportuno destacar que as interações são “ [...] as maneiras como as pessoas se comunicam (no sentido mais abrangente) e agem umas com as outras, em relação a lugares e coisas, incluindo as estruturas sociais mais amplas das quais fazem parte” (Gunn e Hruska, 2017, p.2, tradução própria). Por sua vez, argumentamos que a brincadeira é a linguagem a partir da qual as crianças mediante interações sociais, constituem relações, experiências, aprendizagens e tem a possibilidade de estabelecer sentidos sobre o vivido a partir da produção de culturas de pares (Corsaro, 2011). Conforme argumenta Garvey (2015, p.22): “1) a brincadeira é prazerosa e divertida; 2) a brincadeira não tem metas extrínsecas; 3) a brincadeira é espontânea e voluntária; 4) a brincadeira contém algum envolvimento ativo por parte do brincante”. De fato, argumentamos que na Educação Infantil “a brincadeira proporciona que as crianças exerçam a autonomia, produzam narrativas, criem enredos simbólicos, tenham poder de decisão, convivam em grupo e efetivamente participem dos assuntos que lhes dizem respeito sem a tutela do adulto” (Carvalho, 2023, p.14).

Em tal direção, consideramos oportuno indagar: Quais tem sido os tempos e espaços do brincar na jornada cotidiana das crianças nas instituições de Educação Infantil? De que modo os(as) docentes que atuam na Educação Infantil têm garantido diariamente o direito das crianças ao brincar no âmbito institucional? Como os(as) docentes tem criado condições para o desenvolvimento das brincadeiras na Educação Infantil, mediante a observação e escuta das crianças, assim como da oferta de materiais e organização de espaços que mobilizem as interações entre os pares? Consideramos que os questionamentos compartilhados nos mobilizam a pensar sobre a brincadeira como aspecto constituinte do projeto educativo das instituições de Educação Infantil. Isso quer dizer, que o direito das crianças ao brincar, enquanto princípio veiculado nos documentos nacionais de orientação curricular da Educação Infantil, precisa ser mobilizado pelos(as) docentes por meio de ações efetivas no âmbito das creches e pré-escolas. Ora, nesse sentido, quanto mais os docentes se aproximarem das crianças “[...] das formas como interagem socialmente, dos modos como constituem seus ambientes na escola (não apenas quando falam, mas também quando se expressam mediante diferentes linguagens), mais potentes poderão se tornar [...]” (Machado; Carvalho, 2020, p.21) suas ações em relação a defesa e garantia da brincadeira no cotidiano da Educação Infantil.

Atualmente, temos percebido uma redução do tempo de brincadeira das crianças na Educação Infantil, especialmente no caso da pré-escola, em função de um trabalho compulsório de alfabetização, efetivado por meio de sistemas de ensino, livros didáticos e apostilas, cujas lições devem ser realizadas diariamente tendo em vista o desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita. Para os defensores do uso do material didático, as interações e a brincadeira são contempladas nas propostas veiculadas nas obras endereçadas às crianças. No entanto, Barbosa, Gobbato e Boito (2018), ao realizarem uma pesquisa cujo foco analítico foi a presença das interações e da brincadeira em coleções de livros didáticos para Educação Infantil, concluíram que as brincadeiras figuravam somente em propostas de atividades dirigidas pelo docente cujo propósito era o ensino de conteúdos disciplinares para as crianças. Nesse contexto, crianças a partir dos 4 anos de idade tem sofrido a restrição de tempo para brincar na Educação Infantil, em razão de uma perspectiva propedêutica de educação para o Ensino Fundamental. Por outro lado, no caso da educação das crianças de 0-3 anos, embora o brincar ainda não esteja sendo substituído pelo uso de material didático, geralmente temos observado uma falta de investimento na seleção de materiais, assim como no planejamento de tempos e de espaços nos quais as crianças tenham mobilidade para brincar nos espaços (internos e externos) das instituições de Educação Infantil. Diante disso, defendemos que o brincar seja visto pelos(as) profissionais - docentes, monitores e gestores(as) que atuam na Educação Infantil não como uma concessão dos adultos às crianças, mas como um direito delas que deve ser reconhecido e viabilizado diariamente na jornada cotidiana. Nesse contexto, no presente dossiê temos como objetivo compartilhar um conjunto de 15 artigos decorrentes de investigações empíricas com crianças e docentes, realizadas no âmbito de instituições de Educação Infantil, cujo foco foram as interações e a brincadeira. Por essa via, mediante os artigos do dossiê, evidenciaremos os efeitos das interações e da brincadeira: 1) nos modos de socialização das crianças mediante a produção de culturas infantis; 2) nas aprendizagens das crianças na vida cotidiana institucional; 3) no convívio das crianças com as diferenças a partir de interações sociais inter e intra geracionais; 4) nos modos de expressão das crianças a partir de diferentes linguagens. Além disso, nos artigos que constituem o dossiê, também será discutida a importância de um(a) docente que esteja presente na vida das crianças na Educação Infantil, a partir de sua “[...] disposição e desprendimento para entrar em linguagem e fabular com [elas], destituindo-se de uma posição adultocêntrica (Carvalho, 2021, p.78)”, que recorrentemente limita a ação dos adultos. Ou seja, os artigos de um modo geral expressam um manifesto pela atuação de um(a) docente que tenha “[...] disponibilidade para ouvir, conversar, brincar, jogar, cantar e se divertir com as crianças na prática diária de [seu] ofício” (Carvalho, 2021, p.78). Afinal, “[...], esse é um desafio para os(as) professores(as), pois geralmente estão preocupados(as) com as demandas institucionais e se esquecem que é preciso estar com as crianças” (Carvalho, 2021, p.77).

Mediante o exposto, “Mãos ao alto madame, isso é um assalto!”: a reprodução interpretativa em uma brincadeira sociodramática na pré-escola é o artigo de abertura do dossiê. Nesse artigo, o pesquisador Rodrigo Saballa de Carvalho, a partir das contribuições dos Estudos Sociais da Infância, discute o processo de reprodução interpretativa emergente de uma rotina cultural de brincadeira sociodramática vivenciada por um grupo de crianças de pré-escola em uma Escola Municipal de Educação Infantil. Trata-se de uma pesquisa etnográfica com crianças, na qual visibiliza-se detalhadamente os modos como as crianças a partir da brincadeira de “assalto ao salão” mobilizam conhecimentos, acionam estratégias e produzem culturas de pares a partir de um processo de reprodução interpretativa. Nesse sentido, as interações e a brincadeira são discutidas a partir da observação e da escuta das crianças participantes da investigação, evidenciando os modos como elas atribuem sentido à vida cotidiana e as relações sociais constituídas no âmbito institucional. Focalizando a discussão sobre a experiência cultural do brincar dos bebês no encontro com suas educadoras, as pesquisadoras Viviane dos Reis Silva e Tacyana Karla Gomes Ramos, apresentam o segundo artigo do dossiê, cujo título é: Brincadeiras e interações na creche: a potência dos encontros entre bebês e suas educadoras. A partir de um estudo de caso desenvolvido em uma creche, as pesquisadoras evidenciam os modos como os bebês iniciam e partilham experiências brincantes com seus pares de idade e educadoras no espaço da creche. Em tal direção, no artigo são descritos e discutidos os modos como os bebês a partir de seus olhares, sorrisos, gestos e movimentos brincam com os seus pares de idade e suas educadoras. Na esteira da discussão sobre a brincadeira como atividade principal das crianças, Leidiane Aparecida dos Santos e Aliandra Cristina Mesomo Lira, apresentam o terceiro artigo do dossiê, cujo título é: O brincar na Educação Infantil: estar com amigos, interagir e apropriar-se do mundo. A partir de uma pesquisa com crianças de 3 e 4 anos de idade em um Centro Municipal de Educação Infantil, a pesquisadoras discutem os modos como os participantes da investigação vivenciam o brincar no espaço-tempo do contexto institucional. As análises apresentadas no artigo indicam que o brincar na Educação Infantil, encontra-se relacionado as interações entre as crianças e as suas experiências nos espaços da instituição. Compondo a discussão sobre o lugar que o brincar ocupa na Educação Infantil, a pesquisadora Fernanda Ferreira de Oliveira, apresenta o quarto artigo do dossiê, nomeado como: “E não é que acabei gostando desse lugar!” - os impactos das interações e brincadeiras na Educação Infantil. A investigação da qual decorre o artigo foi desenvolvida a partir de uma pesquisa narrativa com crianças, na qual se evidencia a Educação Infantil como um espaço de negociação entre as demandas dos adultos e os modos como as crianças atribuem sentido ao cotidiano institucional. Nessa direção, o artigo visibiliza os impactos das interações e brincadeiras no contexto da Educação Infantil, ressaltando a importância de articulação das intencionalidades pedagógicas docentes com as demandas das crianças, tendo em vista a efetivação de uma educação democrática.

Corpo-narrativa: brincadeiras e interações de bebês com os livros na creche, de autoria das pesquisadoras Fernanda Gonçalves, Márcia Buss-Simão e Eliane Santana é o quinto artigo do dossiê. A partir de uma pesquisa etnográfica realizada no contexto de uma creche da rede municipal de ensino, as pesquisadoras evidenciam os modos como os bebês a partir de suas interações se apropriam corporalmente dos livros enquanto brinquedo. Em tal direção, a partir da leitura do artigo é possível depreender que nas mãos dos bebês, os livros se tornam suporte de brincadeira. Por sua vez, a pesquisadora Rafaely Karolynne do Nascimento Campos, no sexto artigo do dossiê, cujo título é: Entre disputas e descobertas: situações de conflitos nas brincadeiras de crianças pequenas na Educação Infantil - apresenta uma discussão profícua sobre as disputas entre as crianças durante o desenvolvimento das brincadeiras. No artigo decorrente de uma pesquisa etnográfica, são visibilizadas as interações entre as crianças e os conflitos ocorridos durante as brincadeiras. As conclusões apresentadas no artigo, indicam que as crianças através das brincadeiras aprendem a gerenciar disputas e desentendimentos pautadas em acordos constituídos e partilhados coletivamente por elas, adensando desse modo as relações sociais vivenciadas no cotidiano da Educação Infantil. Por conseguinte, o sétimo artigo do dossiê, de autoria da pesquisadora Raquel Firmino Magalhães Barbosa, intitula-se: Brincadeiras lúdico-agressivas na Educação Infantil: lógicas infantis e adultas em disputa. O artigo é decorrente de uma pesquisa etnográfica na qual foram analisadas as representações de adultos e crianças sobre as brincadeiras lúdico-agressivas na Educação Infantil. As conclusões do artigo apontam que as brincadeiras lúdico-agressivas entre as crianças favorecem o desenvolvimento de competências socioemocionais, a convivência com as diferenças e a expressão de múltiplas linguagens. A importância do favorecimento da brincadeira na Educação Infantil, assim como na sua garantia na transição das crianças para o 1º ano do Ensino Fundamental, configura-se como a temática apresentada no oitavo artigo do dossiê, cujo título é: “Bateu o sinal. Tá na hora de brincar!” As percepções produzidas pelas crianças na transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Nesse artigo, as pesquisadoras Caroline Caciano e Denise Madeira de Castro e Silva a partir de uma pesquisa etnográfica que acompanhou um grupo de crianças na Educação Infantil e no 1º ano do Ensino Fundamental, discutem o lugar que a brincadeira ocupa na escolarização inicial na Escola de Ensino Fundamental. As análises da pesquisa, demonstram que as crianças no 1º ano percebem uma drástica redução do tempo de brincadeira, bem como da ocupação dos espaços e acesso a brinquedos e equipamentos que tinham acesso na Educação Infantil. Pautadas na observação e na escuta das crianças, as pesquisadoras defendem que a oferta de tempos e espaços de brincadeira às crianças no 1º ano, pode garantir a efetivação de transições bem-sucedidas entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental.

Narrativas de crianças sobre o jogo em contexto de transição da Educação Infantil para o 1º ano do Ensino Fundamental é o título do nono artigo do dossiê, cuja autoria é das pesquisadoras Letícia Joia de Nois-Martini, Aline Sommerhlader e Luana Zanoto. A partir de uma pesquisa metodologicamente desenvolvida a partir de entrevistas narrativas com crianças, as pesquisadoras compartilham os pontos de vista das crianças sobre o lugar da brincadeira na vida escolar das crianças. A partir das entrevistas, as pesquisadoras evidenciam as memórias das crianças sobre as suas brincadeiras preferidas na Educação Infantil, assim como alertam sobre a ausência de tempo, espaços e materiais para que as crianças possam brincar no Ensino Fundamental. Diante disso, as pesquisadoras alertam para que seja pensada a continuidade da ludicidade na transição entre os ciclos educativos da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, tendo em vista a garantia do direito das crianças a brincadeira. Por sua vez, no décimo artigo do dossiê, denominado: Interações brincantes nos terreiros de escolas da Educação Infantil do e no campo: confluências e proposições em pesquisas - tematiza a importância dos espaços destinados as brincadeiras nas áreas campesinas. Em tal direção as pesquisadoras Fernanda de Lourdes Almeida Leal, Wanessa Maciel Ferreira e o pesquisador Rayffi Gumercindo Pereira de Souza, apresentam a relevância dos terreiros situados em áreas campesinas como constituidores de espaços e tempos para o desenvolvimento de interações brincantes pelas crianças da Educação Infantil do campo. O artigo é decorrente dos resultados de duas pesquisas etnográficas desenvolvidas no Cariri Paraibano, que focalizam os terreiros como lugares de interação social, nos quais se manifestam as crianças através de suas brincadeiras. Por conseguinte, no décimo primeiro artigo do dossiê intitulado: A participação das crianças na produção curricular da Educação Infantil por meio das brincadeiras e interações, de autoria dos pesquisadores Vanessa Guimarães e André da Silva Mello, tematizam a importância da observação e da escuta das demandas das crianças no processo de discussão do currículo. A investigação da qual e origina o artigo foi metodologicamente desenvolvida a partir de uma pesquisa-ação, cujas estratégias de geração dos dados foram os registros em diário de campo, as entrevistas narrativas com crianças e adultos e registros fotográficos. O propósito dos pesquisadores foi o de discutir o processo de revitalização de uma brinquedoteca de uma Centro Municipal de Educação Infantil da cidade de Vitória - ES, a partir do levantamento dos interesses e das necessidades das crianças, bem como dos profissionais que atuavam na instituição. As conclusões do artigo, apresentam o argumento de que as crianças podem se tornar coprodutoras de currículos, sempre que o seu direito de participação e suas demandas são assegurados no âmbito institucional.

Enfrentamentos das crianças aos scripts de gênero no cotidiano da Educação Infantil é o décimo segundo artigo do dossiê, escrito pelas pesquisadoras Jéssica Tairane de Moraes e Jane Felipe de Souza. A partir de uma investigação etnográfica na Educação Infantil, as autoras discutem os modos como as crianças mobilizam estratégias para lidar com os scripts de gênero no contexto de suas interações sociais e no desenvolvimento das brincadeiras com seus pares na jornada cotidiana institucional. As análises da pesquisa compartilhadas no artigo, demonstram que as crianças utilizam estratégias para resistir e transgredir aos scripts de gênero, que de modo recorrente procuram posicioná-las em papeis sociais generificados. Nas conclusões do artigo, as pesquisadoras ressaltam a necessidade do investimento em instituições de Educação Infantil inclusivas e participativas, nas quais as crianças possam expressar os seus pontos de vista, transgredindo as perspectivas tradicionais de gênero. Prosseguindo os tensionamentos, as pesquisadoras Lucineide Ribas Leite Lima e Rosiléia Oliveira de Almeida, no décimo terceiro artigo do dossiê, intitulado: Processos (de)coloniais relacionados às infâncias: o brincar ao ar livre na Educação Infantil , propõem ao leitor a defesa do brincar ao ar livre em um Centro Municipal de Educação Infantil do campo como modo de enfrentamento ao adultocentrismo. A partir da observação participante, as autoras visibilizam os modos como as crianças se apropriam dos espaços e desenvolvem interações sociais densas durante as brincadeiras nos espaços externos da instituição de Educação Infantil em que foi desenvolvida a pesquisa. Nas conclusões do artigo, as pesquisadoras argumentam sobre importância da promoção de processos (de)coloniais de discussão do lugar do brincar na instituição de Educação Infantil, garantindo a escuta, as interações e a participação das crianças nos espaços ao ar livre. Compondo a discussão do dossiê, no décimo quarto artigo, denominado: Ambiente educador e imaginação material: relações que que se tecem no brincar, as pesquisadoras Julia Marianno Marque Rezende e Eliane Ayoub, discutem os modos como o ambiente afeta e qualifica o brincar na infância. A pessquisa apresentada no artigo é emergente de uma investigação narrativa, cujo propósito foi o de discutir os efeitos do ambiente no brincar das crianças. Para tanto, metodologicamente as pesquisadoras ouviram as crianças, observaram as suas gestualidades e narrativas lúdicas em situações de brincadeira. Os resultados da pequisa compartilhados no artigo, ressaltam que o ambiente educador tem afeta o brincar das crianças e, portanto, deve ser sempre qualificado. Por fim, no último artigo do dossiê, cujo título é: “Meu quintal é maior que o mundo ...”: o brincar vivenciado por professoras da Educação Infantil, as pesquisadoras Elisa Carneiro Santos de Almeida e Lúcia Gracia Ferreira, discutem a importância de evocar as memórias brincantes das professoras de Educação Infantil, como forma de mobilizar a brincadeira no contexto de suas práticas docentes. A partir do desenvolvimento de entrevistas narrativas com professoras de Educação Infantil, as pesquisadoras compartilham os repertórios de brincadeiras das profissionais, assim como a potência do brincar enquanto mobilizador do desenvolvimento profissional das participantes da investigação.

Mediante a apresentação dos artigos que compõem o dossiê, desejamos que a leitura do conjunto de textos, possa mobilizar as práticas investigativas com crianças e docente sobre as interações e a brincadeira na Educação Infantil, bem como novas investigações sobre o tema, cujo intuito seja o de qualificar o trabalho docente e o atendimento das crianças em creches e pré-escolas de nosso país.

Realizada a apresentação do dossiê, passamos à demanda contínua da Revista Diálogo Educacional, que recebe artigos sobre temas diversos, de interesse para a educação, tais como formação inicial e continuada de professores, inclusão, processo de ensino e aprendizagem, histórias de vida de professores, metodologias ativas. Destaque-se que, a partir deste número, para dar maior visibilidade aos artigos publicados, acompanhará a versão em português uma versão em língua estrangeira, facultativa aos autores.

Iniciamos a apresentação dos artigos que compõem este número com Un taller de mimo y expresión corporal en la formación inicial del profesorado de Educación Infantil, no qual os pesquisadores Victor Manuel López Pastor, Carla Fernández-Garcimartín e Teresa Fuentes Nieto analisam uma experiência de formação inicial de professores de Educação Infantil, em que alunos de magistério atuam como se fossem crianças. O objetivo do estudo é auxiliar os estudantes na tomada de consciência do processo de aprendizagem e melhorar os aspectos técnicos dessa prática. Sendo assim, vivenciam práticas de expressão corporal, melhorando sua competência expressiva e obtêm recursos didáticos que lhes permitem trabalhar esses conteúdos com as crianças na Educação Infantil.

Em seguida, Fabrício de Paula Santos e Marco Antônio Melo Franco, no artigo Professores com Deficiência Física no Cenário Educacional Brasileiro: Uma revisão sistemática, objetivam elucidar como pesquisas têm tratado a realidade dos professores com deficiência física no Brasil, por meio de estudos publicados entre 2011 e 2021. A revisão sistemática foi realizada de acordo com as diretrizes descritas na declaração PRISMA, incluindo os critérios: a) estudos com método qualitativo, focados em professores com deficiência física atuantes na educação básica no Brasil; b) publicações entre os anos de 2011 e 2021; c) trabalhos acadêmicos (artigos, dissertações e teses) disponíveis nas bases de dados selecionadas (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD e SciELO); e d) estudos que abordam a experiência dos professores na trajetória de formação e/ou exercício da profissão por professores com deficiência física. Dentre essas publicações foram identificados e avaliados dois estudos que exploram as complexidades associadas à participação profissional de professores com deficiência física.

Gilberto Ferreira da Silva, em Artesanias, afetos e sabedorias: avaliação de um programa de formação continuada de professores de educação básica, avalia uma experiência de formação continuada com professores de educação básica desenvolvida em uma Rede Municipal de Ensino, durante os anos de 2017 a 2020. O estudo ampara-se em registros produzidos durante a experiência formativa e produz a análise inspirado em seis posturas pesquisantes: a) Acessar, b) Sensibilizar(-se), c) Contemplar/Escutar, d) Conversar/Dialogar, e) Reflexionar/Refletir, f) Registrar/Documentar/Sistematizar.

Adiante, Adonis da Silva Tomé e Ida Carneiro Martins, em Educação inclusiva e nona arte: possível mediação na relação escola-família, propõem o uso de histórias em quadrinhos (HQs) autobiográficas como sistema mediador na relação escola-família. Utilizam o método fenomenológico e as obras de Merleau-Ponty e de Groensteen para realizar uma leitura fenômeno-estrutural, o que possibilitou identificar as seguintes unidades significativas: diagnóstico, luto, rotina de acompanhamento, comparações, preconceito, estar e ser-na-escola.

Na sequência, Geilson de Arruda Reis e Suzana Feldens Schwertner, em Ensino e aprendizagem de Educação Ambiental: reflexões sobre criação de jogos no contexto da formação de professores, no contexto da Educação Ambiental (EA) e de diálogos sobre sociedades sustentáveis, entendem necessário promover um processo educativo em favor das pautas coletivas e da preservação da vida. O artigo é oriundo de uma pesquisa de doutorado que teve como objetivo analisar as contribuições da participação em um itinerário de formação continuada e na criação de jogos didáticos em EA com um grupo de docentes. O estudo, com abordagem qualitativa, foi realizado em 2023, em uma escola municipal de Imperatriz/MA, com 17 voluntários. Os participantes responderam a um questionário diagnóstico sobre EA e participaram de cinco encontros formativos. Foram realizadas, também, entrevistas semiestruturadas com os professores, cujos dados foram analisados com emprego da Análise Textual Discursiva.

Ozana Luzia Galvão Baldotto, Charles Moreto e Erineu Foerste, em O fechamento de escolas multisseriadas em território campesino: o que apontam as pesquisas (2005 a 2022), trazem os resultados de uma pesquisa com abordagem qualitativa do tipo estado do conhecimento, sobre o fechamento de escolas multisseriadas em território campesino. Para sua realização, foram utilizadas as plataformas do Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), no período de 2005 a 2022. O corpus de análise se configurou em 10 dissertações, com a leitura dos trabalhos e auxílio do software IRaMuTeQ. As pesquisas foram analisadas e categorizadas com aproximação máxima à temática “fechamento da escola multisseriada na Educação do Campo”.

Em Desigualdade social e possíveis impactos na oferta do Ensino Médio em Belém-PA, Keline do Socorro Rodrigues de Souza e João Paulo da Conceição Alves analisam as possíveis causas da fragilização da oferta do Ensino Médio Público paraense, com destaque para os resultados do Indicador de Vulnerabilidade Social (IVS) do município de Belém-PA, considerando suas implicações educacionais. A pesquisa teve caráter documental, com abordagem qualitativa.

Em Uma revisão da literatura internacional sobre desigualdades educacionais e gestão escolar de Iasmin da Costa Marinho, Sofia Lerche Vieira e Eloisa Maia Vidal, é apresentado um levantamento dos estudos e pesquisas internacionais produzidos entre 1949 e 2021, sobre a relação entre desigualdades educacionais e gestão escolar. O artigo é fruto de uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará e consistiu no levantamento de produções junto à base de dados internacional Education Resources Information Center (ERIC). Além dessas produções, foram analisados documentos e relatórios de pesquisas produzidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), por meio das publicações do Laboratorio Latino-Americano por la Calidad de La Educación (LLECE) e estudos e pesquisas publicados tendo como base de dados resultados obtidos no Programme for International Student Assessment (PISA) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dentre outras avaliações.

Adiante, em Contribuições das produções científicas de Heloisa Borges para formação de professores(as) do campo no Amazonas, Francisauro Fernandes da Costa, Érica de Souza e Souza e Heloisa da Silva Borges analisam as contribuições das produções científicas da pesquisadora Heloisa Borges para a formação de professores(as) no campo amazônico. Trata-se de um estudo de natureza descritiva, com utilização de análise da produção científica da pesquisadora a partir das informações coletadas na integração de bases de dados contidas na plataforma Lattes/CNPq.

O artigo Reflexões Sociológicas para quê? Com Acadêmicos Indígenas, em contexto Universitário, Amazonense, de Joelma Monteiro de Carvalho e Emerson Sandro Silva Saraiva encerra os textos que integram este número da revista Diálogo Educacional. Esse artigo tem como objetivo refletir sobre a importância do componente curricular sociologia da educação, com acadêmicos indígenas multilíngues no curso de Licenciatura em Letras, executado por uma universidade pública, pelo Programa de Formação de Professores (Parfor), em 2024, no município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Participaram do estudo 81 acadêmicos indígenas falantes das resppectivas línguas, professores em formação de várias etnias. A metodologia desta investigação possui abordagem qualitativa, do tipo descritiva, desenvolvida à luz da pesquisa-ação (Thiollent, 2003), com estratégias etnográficas (Chizzotti, 2003).

Ao disponibilizarmos mais um número da Diálogo Educacional ao público, agradecemos às autoras e aos autores que submeteram os artigos aqui publicados, externando nossa gratidão a avaliadoras e avaliadores que contribuíram para que a qualidade dos textos atendesse às expectativas da comunidade acadêmica e aos requisitos propostos pela revista Diálogo Educacional.

Desejamos boa leitura e excelentes reflexões a estudantes e pesquisadores(as)!

Referências

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Como citar: CARVALHO, R. S. de; MELLO, A. da S.; MATA, I. M.; VIEIRA, A. D. P. Crianças, interações e brincadeira na Educação Infantil. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, PUCPRESS, v. 25, n. 85, p. 372-379, 2025. https://doi.org/10.7213/1981-416X.25.085.AP00

Recebido: 29 de Janeiro de 2025; Aceito: 02 de Maio de 2025

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