Introdução
Este artigo está ancorado na conjuntura da sociedade brasileira em contexto amazônico que nos levou a reverberar, junto aos estudantes indígenas, os apontamentos do componente curricular Sociologia da Educação no curso de Letras. Esse componente requer de o professor estabelecer os conteúdos com as histórias de vida dos estudantes, em comunidades aldeadas e demarcadas pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI. Nessa perspectiva, o planejamento das aulas se deu a partir das vivências dos indígenas, isto é, sua cosmovisão de mundo, divisão do trabalho, vivências sociais nas aldeias, leis, normas, crenças e aplicações em sala de aula.
Assim como os demais cursos de licenciatura, o curso de Letras faz parte do Programa de Formação de Professores (PARFOR) através de convênio da Capes e Universidade do Estado do Amazonas, em parceria com a prefeitura municipal de São Gabriel da Cachoeira (SGC). A seleção dos professores formadores ocorre por meio de edital, que atende às especificidades dos cursos.
Era um dia repleto de muito calor amazônico quando o grupo de professores de uma Universidade Pública saiu de Manaus, no dia 23 de janeiro de 2024, para ministrar a disciplina Sociologia da Educação para 90 estudantes indígenas. Para atuação de docente em salas de aula, formada por estudantes indígenas, foi necessário documentação que comprovasse doses das vacinas da Covid19.
Participaram da pesquisa 81 estudantes, falantes nativos da língua materna L11 e que também compreendem oralmente a L22, Língua Portuguesa, como Oficial do Brasil. A dupla de professores da Universidade já sabia que no município havia três idiomas cooficiais das línguas indígenas Tucano, Baniwa e Nheengatu, além de mais de 20 outras línguas e dialetos entre os falantes.
Cheios de entusiasmos, os professores desembarcaram no aeroporto de São Gabriel da Cachoeira, distante de Manaus em 998 Km. A viagem durou 1h30min em uma aeronave com capacidade para mais de 70 passageiros. No voo foi possível perceber muitos pesquisadores brasileiros e estrangeiros em buscas de desvendar o lugar. A seguir, está disponível uma ilustração da localização do município.

Fonte: Bing Mapas - Trajeto, planejamento de viagem, câmeras de tráfego e muito mais (2024).
Figura 1 Localização de São Gabriel da Cachoeira e Manaus - Amazonas
Conforme destaca o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), o município de São Gabriel da Cachoeira, pertencente ao Estado do Amazonas, possui uma área territorial de 109.192.562 Km². O município está localizado no extremo noroeste do Brasil, às margens da Bacia do Rio Negro, e é fronteiriço, fazendo divisa com dois países sul-americanos - limita-se ao norte com a Colômbia e a Venezuela, ao sul e ao leste com Santa Isabel do Rio Negro e ao sul com Japurá. Segundo dados de 2022 do IBGE, a população residente é de 51.795 habitantes e 0,47 habitantes por quilômetro quadrado. Grande parte do seu território é composto pelo Parque Nacional do Pico da Neblina, além das terras indígenas de Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, II e III e Rio Tea. O município é considerado um local estratégico pelo governo federal. Nove entre dez habitantes do município são indígenas, sendo o município com a maior concentração de indígenas no Brasil (IBGE, 2024).
Conforme destaca o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), o município de São Gabriel da Cachoeira, pertencente ao Estado do Amazonas, possui uma área territorial de 109.192.562 Km². O município está localizado no extremo noroeste do Brasil, às margens da Bacia do Rio Negro, e é fronteiriço, fazendo divisa com dois países sul-americanos - limita-se ao norte com a Colômbia e a Venezuela, ao sul e ao leste com Santa Isabel do Rio Negro e ao sul com Japurá. Segundo dados de 2022 do IBGE, a população residente é de 51.795 habitantes e 0,47 habitantes por quilômetro quadrado. Grande parte do seu território é composto pelo Parque Nacional do Pico da Neblina, além das terras indígenas de Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, II e III e Rio Tea. O município é considerado um local estratégico pelo governo federal. Nove entre dez habitantes do município são indígenas, sendo o município com a maior concentração de indígenas no Brasil (IBGE, 2024).
Através das entrâncias no município em 24 de janeiro de 2024, procuramos compreender suas características, a localização da sala de aula e o reconhecimento da realidade indígena, para adequar o plano de ensino, os textos e as atividades, conforme as necessidades de ensino e aprendizagem das comunidades indígenas e suas etnias. No dia 25 do mesmo mês participamos de uma atividade cultural, denominada de Atividade integradora (AI), no auditório da SEMED, onde ocorrem as aulas dos cursos de Letras, Pedagogia, Geografia e História. A abertura do evento contou com a palestra da doutoranda Elizangela da Silva Costa, da etnia Baré, conhecida por ter coordenado o Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) nos anos de 2017 a 2020. Na oportunidade, Costa enfatizou a trajetória enquanto acadêmica e os novos desafios no doutoramento. O diálogo foi motivado e gerou uma interlocução entre os participantes (Thiollent, 2011).
No dia 26, se iniciaram as aulas do módulo, durante as quais tivemos a responsabilidade de acolher e conhecer cada estudante por meio de um diagnóstico na apresentação oral. Durante a apresentação, foi possível conhecer a variedade linguística e cultural das etnias presentes em sala de aula do curso em Letras e estabelecer uma conexão da teoria com a prática dos estudantes em formação profissional.
Sociologia da Educação, enquanto campo variado, em movimento, com ideias e teorias conflituosas e resultante de lutas ideológicas, vem trazer para o debate as inclusões, negligências e exclusões, para pensar a educação nas comunidades indígenas. Isto foi percebido a partir de conversas com os participantes envolvidos no contexto. Dessa forma, é relevante entender o quadro da educação de São Gabriel da Cachoeira presente na pesquisa do IBGE (Apple, 2013).
Quadro 1 Educação em São Gabriel da Cachoeira
| Em 2010, a taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade era de 89,4%. Na comparação com outros municípios do estado, ficou na posição 35 de 62. Já na comparação com municípios de todo o país, ficava na posição 5479 de 5570. Em relação ao IDEB, no ano de 2021, o IDEB para os anos iniciais do ensino fundamental na rede pública era 4,6 e para os anos finais, de 4. Na comparação com outros municípios do estado, ficou nas posições 39 e 41 de 62. Já na comparação com municípios de todo o país, ficava nas posições 4347 e 4314 de 5570 (IBGE, 2024) | Educação em São Gabriel da Cachoeira |
| Taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade [2010] | 89,4% |
| IDEB - Anos iniciais do ensino fundamental (Rede pública) [2021] | 4,6 |
| IDEB - Anos finais do ensino fundamental (Rede pública) [2021] | 4,0 |
| Matrículas no ensino fundamental [2021] | 11.735 matrículas |
| Matrículas no ensino médio [2021] | 2.738 matrículas |
| Docentes no ensino fundamental [2021] | 896 docentes |
| Docentes no ensino médio [2021] | 280 docentes |
| Número de estabelecimentos de ensino fundamental [2021] | 220 escolas |
| Número de estabelecimentos de ensino médio [2021] | 15 escolas |
Fonte: IBGE (2024).
Ao estudar Sociologia da Educação, analisamos os interesses que estão em jogo. E a educação pautada na identidade dos povos indígenas representa uma posição de poder, de ideologia de compromisso com a história (Apple, 2013). Assim, o quadro 1 revela a necessidade de formação de professores e uma política pautada no contexto indígena e na valorização da cultura local. As taxas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - IDEB e taxa de escolarização demonstram como as agências multilaterais, a globalização da economia e o neoliberalismo revelam o caráter ideológico da modelagem da sociedade. Daí a necessidade de cultivar o pensamento crítico com as nações indígenas (Spring, 2018).
A partir do olhar de professores pesquisadores, nos inquietou saber de que maneira a Sociologia da Educação poderia contribuir na formação de professores indígenas. O quê? Como e por que falar das relações culturais, históricas e da memória indígenas nas aulas de Sociologia? As questões do indígena na sociedade brasileira sempre estiveram presentes nas pesquisas acadêmicas das Ciências Sociais. A ideia, durante as aulas, foi mostrar que todos os seres humanos estão organizados em sociedade, com respectiva cultura formada por valores.
Para tentar responder tais inquietações, tecemos os seguintes objetivos: 1) refletir a importância dos estudos indígenas no ensino de sociologia no curso de graduação em Letras, em contextos multilíngues; 2) desvelar sobre a cultura indígena no exercício do acadêmico indígena, em curso superior, além de quebrar barreira que os estudantes indígenas enfrentam ao lidar com conceitos abstratos.
A busca por definições do que é ser “indígena” retrata um exercício constante no pensamento social brasileiro no que tange o resgate à memória coletiva, tornando-se uma discussão importante para a descoberta da alteridade. No século XXI, ainda é perceptível o uso do termo “índio” como termo pejorativo e ainda usado por pessoas, como no caso no Programa denominado de BBB24, de uma emissora de televisão aberta, que gerou discussões por diferentes participantes do reality e entre os estudantes em sala de aula. Diante desses desafios, buscamos mostrar que o conceito de sociedade está na organização de cada etnia indígena, na forma de conduzir os saberes ancestrais, os conflitos sociais e no fortalecimento do patrimônio cultural de um povo, como pilares norteadores para a inserção do ensino da disciplina Sociologia da Educação, para estudantes indígenas, em uma universidade pública, no estado do Amazonas.
Metodologia
Essa pesquisa possui abordagem qualitativa e aplica estratégias de etnográficas, que se voltam “para o estudo de um fenômeno situado no local em que ocorre, e enfim, procurando tanto encontrar o sentido desse fenômeno, quanto interpretar os significados que as pessoas dão a eles” (Chizzotti, 2003, p. 43). A estratégia etnográfica “é todo conhecimento, crença, costumes, hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade” Castro (2009). Quanto à finalidade, a investigação é do tipo descritiva e exploratória (Gil, 2008), tendo como abordagem metodológica a pesquisa-ação (Thiollent, 2011). A pesquisa-ação foi adotada por se tratar de uma investigação com foco em experiências de aprendizagens, em duas turmas, no curso de Licenciatura em Letras. Participaram da pesquisa 81 acadêmicos indígenas falantes das respectivas línguas no chão da universidade, coadunando, assim, com o viés do estudo.
Os procedimentos técnicos adotados para coleta de dados foram pesquisa bibliográfica e de campo. A pesquisa bibliográfica se assenta em material já elaborado, agrupado proeminentemente de livros e artigos científicos (Gil, 2008). Por sua vez, a pesquisa de campo se deu no ambiente escolar universitário. Nessa etapa, o objetivo foi adquirir as informações junto aos 81 participantes, e assim, reunir o conjunto necessário de dados a serem documentados e analisados (Gil, 2008). Foi aplicado um diagnóstico com questões quanto à etnia, a comunidade, profissão e o gênero dos acadêmicos. Foram incluídos os participantes maiores de 18 anos de idade, com disponibilidade em fornecer as informações necessárias e com 100% de frequência. Por questões éticas, foram excluídos os estudantes que não se dispuseram a participar.
Outra estratégia metodológica empregada na pesquisa foi a roda de conversa. A roda de conversa traz um número significativo de conhecimentos, subjetividades, necessidades atreladas ao contexto social local, nacional e global.
A conversa enquanto metodologia da pesquisa permite saber quem são as pessoas, uma vez que são muito diversas e em cada manifestação oral há horizontes que se cruzam e ao mesmo tempo se opõem. A conversa em sala de aula foi, portanto, um exercício do pensamento. Com a conversa, percebemos as redes de sentidos (Deleuze, 2000). Durante o processo de apresentação, conversação e escuta, os alunos e professorandos indígenas foram narrando suas práticas escolares em suas comunidades. A conversa, nesse caso, significou partilhar sentidos e significados e pensar criativamente sobre as problemáticas do espaço, criando coletivamente propostas e transformações da realidade, respeitando as culturas que vêm sendo colonizada pelo capitalismo (Reis; Oliveira, 2018).
Ao tratar de reflexões sociológicas e práticas pedagógicas mediadas pela universidade junto aos estudantes indígenas bilíngues, pensada sobre a escola indígena, permitiu compreender cada narrativa e cada diálogo posto. As narrativas podem interferir nas redes de conhecimento das mais de 16 etnias em formação no curso de Letras Língua Portuguesa. O ato de narrar cria reflexões muitas vezes não levadas em consideração quando não são postas no pensar coletivo e nas socializações de experiências (Reis; Oliveira, 2018).
Para a análise dos dados coletados, utilizamos procedimentos pautados na análise de conteúdo por Bardin (2016), para quem as palavras não têm apenas o valor na literalidade, mas além de “metáforas as composições lexicográficas as instâncias implícitas trazem valores sociais, culturais, ideológicos e históricos” (Bardin, 2016, p.55). Isto é, cada expressão emitida pelo participante é um fenômeno linguístico que pode ser interpretado.
A Sociologia na Educação em contexto Universitário Indígena
A Sociologia da Educação é uma disciplina que possibilita aos acadêmicos em formação uma leitura crítica dos fatores sociais no entorno. Dessa forma, é fundamental nos cursos de graduação e, sobretudo, na formação dos professores indígenas no curso de Letras possibilitar a criticidade e a participação efetiva nas ações da sociedade. Assim, o papel e a função da sociologia na práxis pedagógica, na formação do profissional em educação possibilita uma compreensão crítica das relações sociais, culturais, políticas e históricas que envolvem a educação dos povos indígenas.
Para Silva (1990, p. 20), a Sociologia da Educação “é hoje um campo tão fluido e tão indeterminado que qualquer tentativa de lhe aprender as principais perspectivas de análise e temas de pesquisa torna-se difícil”. Ao pensar a Sociologia da Educação em contexto universitário indígena a partir de rodas de conversa em classe, trazemos para o debate as tensões presentes na educação, bem como as disputas de poder, as variadas correntes ideológicas e políticas, e variantes econômicas e culturais que influenciam a vida da população e das Comunidades Indígenas em São Gabriel da Cachoeira. Neste sentido, a disciplina contribui para a construção de uma educação intercultural crítica, que respeita e dialoga com os conhecimentos indígenas, promovendo a autonomia pedagógica das comunidades (Castro, 2023).
Trabalhar sociologia da educação é um processo que nunca está terminado, porque é complexo entender a sociedade que está atrelada ao liberalismo, neoliberalismo, globalização. Para a luta contra hegemônica, é necessário dialogar com as realidades, porque há dimensões de poderes desiguais. Há uma grande confusão na educação em circular com práticas pedagógicas que parecem democráticas, mas que se revelam formas de conservadorismo econômico e manutenção da propriedade privada.
Dos 81 acadêmicos indígenas em sala de aula, 75 possuem celular smartphones e as suas comunidades indígenas, atualmente, já estão conectadas à internet. No Amazonas, a Starlink 3- Internet de Alta Velocidade promete um mundo integrado, conectado em qualquer lugar e isto tem afetado a vida e a educação das comunidades. Nos debates em classe, observa-se que a chegada da internet e o uso dos smartphones trazem mudanças positivas e negativas para as nações indígenas. A preocupação tem aumentado por conta do uso da tecnologia e substituição de horas relacionadas aos costumes indígenas, que vivem em processo de esquecimento e transformação. As transformações ocasionadas pelas revoluções digitais influenciam a linguagem e modo de pensar e agir das populações.
A logística das comunidades até o município de SGC, onde ocorre as aulas presenciais, ocorre via fluvial de pequeno porte, com duração em cada viagem, em média de dois (2) até sete (7) dias, ou mais de viagem, custeada por cada estudante. Então, no período de recesso das aulas, a internet é uma ferramenta que possibilita a inclusão social entre estudantes e professores da Universidade.
A transformação dessas realidades com valores, costumes e consumos exige novas aprendizagens e reflexões dos sentidos e suas consequências para os povos indígenas. Aqui, nos posicionamos usando as palavras de Hall (2015) sobre as identidades modernas, seus deslocamentos e ou fragmentações. Estas “ações estão promovendo uma mudança estrutural de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade e aparelhando o coletivo em indivíduos sociais?” (Hall, 2015, p. 10). Nas narrativas dos participantes, identificamos identidades provisórias, variáveis e problemáticas. As exigências da pós-modernidade criaram um ser sem identidade fixa, que está em constante transformação, visto que há um mundo exterior e variadas identidades que estes mundos, até então desconhecidos, oferecem (Hall, 2015).
Os apontamentos dos professorandos indígenas indicam que sua cultura não é aceita pela cultura dos brancos, já que estes exigem o domínio de outro idioma e a adoção de outros costumes para a aceitação dos indígenas na “nova” sociedade. A interação com essa “nova” sociedade, portanto, não segue a lógica indígena, mas sim a lógica dos brancos. Assim, os indígenas se apresentam diante de mundos contraditórios que podem gerar um colapso no processo de identificação de suas etnias (Hall, 2015).
Nosso diálogo com os professores em formação caminha para a discussão do pós-colonialismo. Essa discussão se relaciona ao subalterno, tratando de grupos que muitas vezes são despossuídos de suas terras, culturas e identidades e afastados para a periferia, sendo ofertados conhecimentos que reforçam as estruturas de poder do ocidente (Young, 2015).
Um dos destaques de nossas aulas foram as memórias, histórias, coletividade e o resgate destes processos étnicos. Quando perguntados sobre seus deuses e processos religiosos, os 90 alunos apontaram a religião evangélica e católica e o Deus do Ocidente como suas representações. Nenhum deles fez referência ao seu legado cultural e religioso próprio, o que revela o poder do ocidente e sua imbricação nas culturas indígenas.
Assim, podemos compreender o papel da Universidade enquanto imprescindível na formação crítica dos professores indígenas e da sociologia da educação como promotora dos debates, dúvidas e diálogos a respeito de uma educação condizente com as necessidades da comunidade e dos povos originários.
Análise e Discussões
O exercício de aprimorar as habilidades de ouvir, pensar e registrar foi uma tarefa árdua que teve como objetivo restaurar memórias, recursos e elucidar a beleza da simplicidade dos sentidos, dado a vida e sua relação harmoniosa com a natureza. Este exercício visava a preparação para posicionamentos diante das estruturas de poder, o reconhecimento das limitações, o reconhecimento da diversidade e a preservação das tradições indígenas com responsabilidade e autonomia.
Dos participantes, 100% são indígenas, residentes nas cabeceiras dos rios Negro, Alto Rio Negro, Pari-cachoeira, Médio Içana, Warupes, Tiquiê, Iauaretê e Maturacá, no estado do Amazonas, na fronteira da Colômbia e Venezuela. No quadro 2, mostramos um resumo das etnias que fazem parte do curso de formação de professores indígenas/UEA.
Os rios, no estado do Amazonas, são as estradas sinuosas que apresentam as enigmáticas marcas das terras caídas. Porém, em SGC, município banhado pelo rio Negro de águas escuras, um mosaico diferente se faz visível. No local, a geografia tem uma formação rochosa, que difere de outros rios do estado do Amazonas. Para os indígenas, os rios e as rochas são sagrados e nelas habitam deuses. A seguir, o quadro 2 revelam, dados da pesquisa, quanto à etnia, línguas e origem de cada povo.
Quadro 2 Etnias, Língua de origem na Turma de Letras - Língua Portuguesa SGC
| Nº | Etnia | Mulheres | Homens | L1- Falante da língua | L2- português |
|---|---|---|---|---|---|
| 01 | Baniwa | 4 | 12 | Baniwa,Haavi,kadaakawali,molito, ,Dzaawi-Poidza,, Wanambí | Compreende e escreve pouco. |
| 02 | Tucano | 8 | 15 | Tukano, Yepá Siré,Wehsemi, Pirõ Duhigó. | Compreende e escreve pouco. |
| 03 | Baré | 2 | 9 | Baré, Apigá, Tipa, Putira. | Compreende e escreve pouco. |
| 04 | Koripako | 3 | Koripako, Tikowa. | Compreende e escreve pouco. | |
| 05 | Tuyuka | 2 | 3 | Tuyuka, Pao, YuhKuro. | Compreende e escreve pouco. |
| 06 | Yanomami | 1 | 3 | Apiawi, Tarâkâma. | Compreende e escreve pouco. |
| 07 | Dessano | 5 | Dessano, Daikuru, Miripu, Wadzolli. | Compreende e escreve pouco. | |
| 08 | Tariano | 1 | 4 | Tariano, Comati Ti ari, Kui. | Compreende e escreve pouco. |
| 09 | Werekema | 1 | Kawichi. | Compreende e escreve pouco. | |
| 10 | Daꞻpo | 1 | Daꞻpo | Compreende e escreve pouco. | |
| 11 | Kotiria | 2 | Kotiria | Compreende e escreve bem | |
| 12 | Karapãna | 1 | Tukano | Compreende e escreve pouco. | |
| 13 | Yuhupdeh | 1 | Yuhupdeh | Compreende e escreve pouco. | |
| 14 | Upda | 1 | Upda | Compreende e escreve pouco. | |
| 15 | Kubeo | 1 | Kubeo | Compreende e escreve pouco. | |
| 16 | Dâw | 1 | Dâw | Compreende e escreve bem. | |
| Total: 16 Etnias | 20 Mulheres | 61 Homens | 40 línguas e dialetos | ||
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
O sistema de organização política é do tipo patriarcal e dentro das comunidades há divisão de trabalho. No entanto, cada etnia gerência a melhor forma de conduzir sociologicamente o trabalho, dentro e fora da comunidade, de acordo com seus valores. O questionário social, mostrou que a participação dos acadêmicos no curso de Licenciatura em Letras é dos homens, que predominam como matriculados. Fato que sinaliza um universo patriarcal dentro das comunidades.
Quanto às questões linguísticas e suas variações em sala de aula, elaboramos uma metodologia para as explicações dos conteúdos. Primeiro, houve a apresentação individual dos estudantes, nome, etnia, língua, lugar de origem e a intenção no curso. O segundo momento abarcou o processo de escuta e partilha dos saberes. Usamos a etnografia, pelo viés da observação participante. Por fim, o terceiro momento possibilitou a conexão das vivências, saberes e crenças culturais com o conteúdo da disciplina Sociologia da Educação.
Em todas as etapas foi possível verificar a inquietação de cada estudantes. Para eles fazerem o curso superior em Letras é uma oportunidade de primar pelo fortalecimento linguístico de cada etnia. Porém, para um dos estudantes da etnia Yuhupdeh “os jovens não querem mais falar a língua do seu povo” (narrativa coletada na roda de conversa, 2024).
Como estratégia para facilitar a compreensão das aulas, usamos ilustrações, imagens e relatos para sair do abstrato e concretizar o conteúdo por meio das imagens das aulas. Cada acadêmico pode contribuir nas discussões. As ilustrações foram meios de comunicação não verbal, geradoras de sentidos pertinentes ao cotidiano de cada participante, que não dominavam a L2, Língua Portuguesa.
O resultado da pesquisa sinalizou que, o perfil dos acadêmicos, quanto à atuação no magistério indígena, revelou que 90% já atuam ou atuaram como professor da educação básica na área rural em TI - Terras indígenas, a partir de contratação pela Secretaria municipal ou estadual. Sendo assim, a formação do professor indígena é macado por um processo contínuo e de muitas lutas que se tece diariamente. A seguir está o quadro 3, com dados dos professores, que atuam na rede pública de ensino no município.
Quadro 3 Professores e etapas da Educação Básica em ação
| Etapas da Educação Básica Salas Multisseriadas | Homens | Mulheres | Total de Professores |
|---|---|---|---|
| Educação Infantil | 10 | 3 | 13 |
| Anos Iniciais do Ensino Fundamental | 8 | 2 | 10 |
| Anos finais do Ensino Fundamental | 12 | - | 12 |
| Ensino Médio | 4 | - | 4 |
| Educação de Jovens e Adultos | 2 | 1 | 3 |
| 36 | 6 | 42 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Os participantes desconheciam o componente curricular de Sociologia da Educação e apresentaram dificuldades em compreender determinados termos. Assim, ao falar dos clássicos teóricos da Sociologia, foram necessárias muitas pausas na fala do professor, de modo a explicar cada acontecimento e traduzir as palavras científicas.
Dialogando com Candau (1997), em seu texto sobre “pluralismo multicultural, cotidiano escolar e formação de professores”, argumenta que as questões culturais precisam ser asseguradas na sociedade. As vivências trazidas pelos estudantes indígenas, são reais e contribuem para uma aprendizagem significativa, geradoras de simbolismo, que possibilitam reflexões sobre a identidade e da própria cultura.
Para facilitar a aprendizagem dos acadêmicos que não conheciam algum vocabulário, aqueles que possuíam facilidade na compreensão do conteúdo auxiliavam seus colegas através de tradução simultânea. Por meio de roda de conversa, os diálogos se constituíam entre as etnias do mesmo idioma. Dentro de cada grupo, havia um líder que socializava o entendimento dos conteúdos aprendidos. A prática das habilidades do ouvir e falar reforçavam epstemologia da Sociologia de Educação. Para o estudante da etnia Tukano “há vocábulos que na nossa língua não tem relação com o L2 - Língua Portuguesa, e procuramos estabelecer relação com algum objeto indígena, da mesma forma ocorre nos conteúdos estudados, há termos que desconhecemos” (narrativa extraída na roda de conversa, 2024).
Nas aldeias, os indígenas vivem da produção da agricultura familiar através dos vieses da sustentabilidade. Sendo assim, reforça os pilares da cultura, de economia e do meio ambiente. Dentre as tarefas executadas estão a produção de farinha, bebidas ancestrais, produção de artesanato e ainda a preservação da tradição cultural, seus saberes e fazeres, conforme mosaico abaixo.
O mosaico, na figura 2, evidencia a variedade dos saberes narrados, dentre os quais podemos citar o ritual, mito, teçume dos artesanatos, gastronomia indígena e outros, que dialogam com os conhecimentos ancestrais e sagrados e que refletem no ambiente das aprendizagens na universidade (Carvalho, 2022). A sala de aula se transforma em momentos de socialização dos conhecimentos articulados, geradores de conexão intercultural. Neste sentido, o conhecimento acontece em via de mão dupla.
A prática pedagógica diferenciada utilizada pelos docentes possibilitou aos acadêmicos engajamento e melhor rendimento no coeficiente. Assim, quanto ao coeficiente da performance, dos 81 acadêmicos que concluíram o componente curricular Sociologia da Educação, pontuamos os seguintes dados: n=5 acadêmicos obtiveram como média a nota 6,5, n=3 acadêmicos obtiveram a nota 9,7, e n=73 acadêmicos obtiveram a nota de 9,8. A média geral das duas turmas foi uma performance de 8,6, considerado satisfatório para as turmas bilíngues, conforme descrito no gráfico a seguir.
Acerca disso, os dados do gráfico 1 revelam que a metodologia diferenciada, com foco no protagonismo do acadêmico, traz resultados satisfatórios. Para Carvalho (2015), a política educativa nacional em sua lei máxima - a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB/9394) -, estabelece a educação escolar indígena como um direito a ser assegurado às populações. Assim, a Lei acena para a recuperação da memória e a valorização da identidade e das línguas indígenas. Além disso, versa sobre a responsabilidade dos municípios e estados em traçar políticas públicas e garantir as diferenças étnicas.
Conclusão
O estudo nos permitiu desvelar que a sociologia da educação possibilita inquietações e reflexões sobre a sociedade e sobre quem nela reside e, sobretudo, sobre as questões que envolvem a educação. A contribuição da sociologia na formação de professores indígenas já é uma realidade, pois dentro das organizações indígenas, nos locais onde residem há uma hierarquia de tarefas e divisão do trabalho.
Neste sentido, o estudo possibilitou refletir a importância da sociologia da educação junto aos acadêmicos em formação de professores indígenas, no curso de graduação em Letras, em contextos multilíngues. Além de desvelar sobre a cultura indígena enquanto exercício de valorização em curso superior, com aportes pedagógicos diferenciados. Ao tecer as relações da parte teórica com a prática no ambiente escolar, exercitamos o direito do cidadão. As relações culturais, históricas e da memória indígenas nas aulas de Sociologia foram resgatadas a partir das rodas de conversas e das práticas pedagógicas.
Durante as rodas de conversas e exercícios das atividades, as turmas apresentaram limitações quanto ao emprego da língua portuguesa, pois foram alfabetizados em línguas indígenas. A dinâmica em grupo foi dividida por etnia, com a finalidade em facilitar a compreensão e romper a barreira linguística. Em cada grupo havia tradutor voluntário, simultâneo entre os acadêmicos falantes, de modo a facilitar o entendimento das aulas.
Posto isso, compreendemos que, para desenvolver a práxis docente com estudantes indígenas bilíngues, se faz necessário interligar as vivências e os saberes ancestrais com a teoria do componente curricular.









texto em 




