Introdução
O enfoque teórico-metodológico das investigações que recorrem às histórias de vida permeia o olhar sobre si como potência epistêmica no campo educativo (Bragança; Abrahão; Ferreira, 2016), mediante a valorização da experiência e da subjetividade, considerando o que o sujeito pensa sobre si e sobre o mundo e/ou como dá sentido às suas ações e toma consciência de sua historicidade (Passeggi, 2010). Na área da Educação Química, esse modo de fazer pesquisa tem contribuído para romper com concepções positivistas de produção de conhecimento mediante a adoção de um viés autoral, dialógico e problematizador, que considera o sujeito professor, suas necessidades formativas e a realidade social que o cerca. São estudos que têm explorado diferentes categorias teóricas, tais como identidade profissional, saberes docentes, profissionalização etc., e, conforme apontado por Dornelles e Galiazzi (2016), possibilitam que esses professores-narradores se modifiquem a partir de suas histórias mediante o ato de viver, reviver e pesquisar os momentos de formação e/ou os caminhos que levam à experiência.
Isto posto, considerando que os autores deste escrito são pesquisadores da área de Educação Química enveredando-se pelos meandros das pesquisas com histórias de vida de professores, sentiu-se a necessidade de realizar um levantamento bibliográfico das produções existentes na área, acerca da referida temática, para conhecer as visões e abordagens teórico-metodológicas que permeiam as pesquisas de outros educadores químicos brasileiros. Assim, optou-se por realizar um levantamento do tipo Estado da Questão (EQ), orientado pelo seguinte questionamento: como as pesquisas do campo da Educação Química têm abordado as histórias de vida de professores de Química?
O EQ corresponde a um importante momento de mergulho epistemológico e científico para o pesquisador, constituído pelos registros de como se encontra o conhecimento científico atual ao seu dispor e “obedece a uma arqueologia subjetiva, própria do estudante/pesquisador quando escolhe ou define por onde, como e principalmente, com que começar” (Nóbrega-Therrien; Therrien, 2010, p. 39). No caso deste estudo, o lócus de interesse são as investigações que recorrem às narrativas e/ou histórias de vida no contexto da docência em Química, haja vista o crescimento desse campo de estudo nas pesquisas educacionais, de modo geral, e na formação de professores, de modo específico, tanto em nível nacional como internacional. Pretende-se, portanto, inventariar as tendências desses estudos no tocante aos professores de Química, bem como a pertinência e os contributos dessas produções para a ampliação e/ou fortalecimento da área de Educação Química.
Destaca-se que nas pesquisas de natureza qualitativa, da qual se vale a produção do conhecimento na Educação Química, as narrativas ganharam destaque por possibilitarem uma compreensão mais abrangente das experiências formativas vivenciadas pelos seres humanos ao longo de suas trajetórias pessoal, acadêmica e profissional, possibilitando a promoção de interseções entre as histórias individuais de cada sujeito e os elementos objetivos e estruturais da sociedade, em seus aspectos culturais, históricos, econômicos, geográficos, históricos, dentre outros (Souza, 2006). Isso permite a atribuição de novos sentidos ao vivido, visto que as recordações-referências atuam, no tempo presente, como motes para alargar o capital experiencial dos sujeitos e direcionar processos de ressignificação do vivido, seja no âmbito pessoal, no trabalho ou na formação (Josso, 2004).
Assim, no âmbito educacional, as pesquisas que recorrem às histórias de vida têm sido adotadas sob a égide investigativa, mas também formativa, e assumem diferentes variações terminológicas - (auto)biografia, biografia, história de vida, pesquisa narrativa, dentre outras - que, embora comunguem da mesma raiz epistemológica, guardam diferenças entre si, além de se constituírem como campos férteis para ampliar a compreensão do mundo escolar e de práticas culturais cotidianas dos sujeitos em processo de formação (Souza, 2006). Nesse sentido, as narrativas vêm se consolidando como opção metodológica profícua para se pensar a formação de professores sob um viés crítico, reflexivo e investigativo, permeada por trocas intersubjetivas e pelas perspectivas dialéticas e compreensivas das narrativas de formação (Leite et al., 2024).
Partindo do exposto, este artigo foi estruturado em duas seções que tratam, respectivamente, do percurso metodológico de construção do EQ e seus respectivos resultados, apresentados e discutidos em quatro seções secundárias, além desta introdução e das considerações finais.
A construção do Estado da Questão
Os mapeamentos de produções científicas mostram-se fundamentais para o reconhecimento do(s) modo(s) como determinada temática tem sido explorada na literatura nacional e internacional. Este trabalho descritivo e analítico permite evidenciar as tendências teórico-metodológicas que emergem desses estudos e as lacunas que carecem de investigações, constituindo-se como “passo indispensável para desencadear um processo de análise qualitativa dos estudos produzidos nas diferentes áreas do conhecimento” (Romanowski; Ens, 2006, p. 43).
Neste estudo, optou-se pela produção de um EQ, caracterizado como um tipo de levantamento bibliográfico, cujos estudos mapeados devem referenciar especificamente o que existe em publicações acerca de um tema de interesse na área de investigação do pesquisador, seja a nível local, nacional ou internacional. O EQ ilustra, com base em evidências científicas disponíveis, as condições atuais de um objeto de investigação e permite que seja traçado um panorama do conhecimento científico já produzido sobre o referido tema, auxiliando na identificação de lacunas existentes e/ou na originalidade de uma pesquisa (Nóbrega-Therrien; Therrien, 2010).
Assim posto, a construção deste EQ foi realizada em três etapas e envolveu um conjunto de decisões, conforme exposto no Quadro 1.
Quadro 1 Etapas de construção do estado da questão
| Etapa | Elemento | Descrição |
|---|---|---|
| 1ª | Delimitação da temática | As histórias de vida nas pesquisas sobre professores de Química |
| 2ª | Fontes de consulta | Artigos: i) Scientific Electronic Library Online (SciELO) Brasil; ii) Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Teses e dissertações: i) Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD); ii) Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. |
| Abrangência geográfica | Nacional. | |
| Descritores de buscas | “História de vida” AND “Química”. | |
| Recorte temporal | Sem delimitação temporal. | |
| Critérios de inclusão | i) Discute as histórias de vida de professores de Química em qualquer nível, etapa ou modalidade educacional; ii) Disponível gratuitamente e em português para acesso e leitura na íntegra; iii) Concebe as histórias de vida como abordagem teórico-metodológica na pesquisa. |
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| Critérios de exclusão | i) Discute as histórias de vida de professores de Química e de professores de outras áreas; ii) Indisponível gratuitamente e em português para acesso e leitura na íntegra; iii) Não utiliza as histórias de vida como abordagem teórico-metodológica na pesquisa; iv) Aparece duplicado/repetido nas fontes de consulta. |
|
| 3ª | Seleção e análise das produções encontradas | Construção de categorias a priori. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
As fontes de consulta apresentadas no Quadro 1 foram selecionadas por permitirem mapear uma gama de produções de todo o território nacional, figurando como importantes repositórios científicos digitais gratuitos. Nelas, foi utilizada a combinação dos descritores “história de vida” AND “Química” para resultar um maior rastreamento de estudos em comparação com a combinação “histórias de vida” (no plural) AND “professores de Química”.
As buscas pelos artigos foram realizadas em 30 de agosto de 2024, enquanto pelas teses e dissertações ocorreram no dia seguinte. Optou-se por não delimitar um recorte temporal, pois isso limitaria os resultados e não permitiria identificar, nas fontes consultadas, a origem temporal desses estudos. Conforme ilustrado na Tabela 1, foram identificados 1.296 resultados iniciais que continham pelo menos um desses descritores no título, no resumo ou nas palavras-chave, mas a partir dos critérios de inclusão e exclusão apresentados no Quadro 1, apenas 31 foram selecionados para leitura.
Tabela 1 Quantidade de estudos selecionados
| Fonte de busca | Resultados iniciais | Selecionados para leitura | Excluídos após a leitura | Selecionados para o EQ |
|---|---|---|---|---|
| SciELO BR | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Portal de Periódicos da CAPES | 135 | 5 | 3 | 2 |
| BDTD | 917 | 12 | 4 | 7 |
| Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES | 244 | 14 | 12 | 2 |
| Total | 1.296 | 31 | 19 | 11 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Na sequência, foi realizada a leitura dos resumos dos 31 estudos, seguida pela leitura flutuante de todo o texto para identificar alguns elementos que não estavam evidenciados em seus resumos, seja em relação à metodologia, aos resultados ou à conclusão. Esse processo resultou na exclusão de 19 estudos que não tinham como objeto de investigação exclusivamente as histórias de vida de professores de Química, não concebiam as histórias de vida sob uma ótica teórico-metodológica ou apareciam duplicados/repetidos. Ao final, apenas 11 estudos foram selecionados para compor este EQ (Quadro 2).
Quadro 2 Identificação dos estudos selecionados para o EQ
| Autoria (Ano) | Título | Tipo de produção |
|---|---|---|
| Ribeiro (2007) | Histórias de vida e formação de professores de Química | Dissertação |
| Bonardo (2010) | Desenvolvimento profissional e relatos de vida de professores de Química: um estudo de caso múltiplo | Dissertação |
| Brito (2013) | Identidade e formação docente: memórias e narrativas de egressos/as da 1ª turma de Licenciatura em Química de uma universidade pública do agreste sergipano | Dissertação |
| Brito, Lima e Lopes (2014) | Reflexões sobre a formação inicial docente em Química a partir de memórias de professores/as | Artigo |
| Brito, Lopes e Lima (2017) | Identidade docente: reflexões de professores de Química sobre a trajetória acadêmica e profissional | Artigo |
| Quimentão (2020) | Entre narrativas e histórias de vida: a docência em Química | Dissertação |
| Machado (2020) | Aspectos formativos de um subprojeto do PIBID-UFES: um olhar na formação inicial de professores de Química | Dissertação |
| Leite (2022) | Metamorfoses do ser-professor de Química: entre a vida, a formação e o trabalho | Tese |
| Silva (2022) | Identidades encruzilhadas: o cruzo entre as identidades raciais e docentes de professores e professoras de Química da cidade de Salvador-Bahia | Dissertação |
| Santana (2023) | Narrativas que transformam: a influência da abordagem metodológica de história de vida de professores na construção da identidade de licenciandos em Química | Dissertação |
| Silva (2023) | Histórias de vida e desenvolvimento profissional docente de formadores na Licenciatura em Química: feitos, lutas e perspectivas no contexto das reformas educacionais | Tese |
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Os 11 estudos foram analisados e agrupados a partir de categorias a priori, delimitadas previamente “baseado em semelhanças empíricas entre estas que o leva à generalização e ao estabelecimento de uma categoria” (Sousa; Galiazzi, 2017, p. 521). Para tal, foram consideradas as semelhanças do objetivo geral de cada estudo, resultando em três categorias: i) formação acadêmica-profissional de professores de Química; ii) construção da identidade profissional docente na Química; e iii) reflexões sobre os impactos das histórias de vida na prática docente em Química, apresentadas e discutidas a seguir.
As histórias de vida na docência em Química: uma análise dos estudos
A produção de um EQ constitui-se como um processo de artesania intelectual que requer, segundo Nóbrega-Therrien e Therrien (2010, p. 40), inteligência, sensibilidade, criatividade, planejamento e buscas concretas, além do domínio conceitual e da literatura, competência e habilidade na elaboração de texto. Esses atributos são a base para a elaboração da argumentação que molda o desenvolvimento do EQ e trazem para esse artefato científico um caráter subjetivo próprio de cada pesquisador, visto que esses mesmos indicadores entregues nas mãos de outras pessoas, possivelmente, teriam outra forma de organização, com narrativas diferentes (Nóbrega-Therrien; Therrien, 2010).
Considerando o exposto, a catalogação e análise dos estudos mapeados foi minuciosamente planejada, no intento de contribuir para a tecitura de uma compreensão global acerca das pesquisas que recorrem às histórias de vida de professores de Química. Nesse ínterim, apresenta-se, inicialmente, um panorama geral desses estudos para, na sequência, desenvolver uma análise pormenorizada das categorias que resultaram do processo de análise dos dados.
Aspectos gerais dos estudos mapeados
O conjunto de estudos mapeados indica que as histórias de vida de professores de Química têm sido tomadas como objeto de investigação científica, com maior ênfase, na última década, visto que se identifica um salto nessas produções a partir do ano de 2020. Representa, pois, uma incipiência no campo da Educação Química, posto que tanto este campo científico quanto o uso das histórias de vida em suas pesquisas também são recentes no Brasil, embora já venham, desde as décadas de 1970 e 1980 (Silva, 2024), questionando e tensionando os saberesfazeres que perpassam a docência em Química, especialmente porque as histórias de vida, ainda que narradas individualmente, são relatos de práticas sociais de um determinado grupo (Spindola; Santos, 2003) - neste caso, os professores.
Apesar de a Figura 1 revelar que o primeiro estudo sobre a temática remonta o ano de 2007, há lacunas temporais, pois em nove anos específicos - 2008, 2009, 2011, 2012, 2015, 2016, 2018, 2019 e 2021 -, não foram registrados estudos relacionados ao tema, o que revela uma produção científica marcada por descontinuidades e uma necessidade de ampliação e sistematização desses estudos. A ausência de estudos em períodos consecutivos ou espaçados pode comprometer a consolidação da produção deste conhecimento na/para/com a Educação Química.
As histórias de vida de professores de Química têm sido mais exploradas em dissertações de mestrado, pois foram mapeados apenas duas teses e dois artigos científicos - e estes dois últimos são recortes de uma mesma dissertação (Brito, 2013), que também compõe este EQ (Quadro 2). Esse cenário evidencia uma concentração significativa dessa abordagem em dissertações de mestrado, com poucas incursões em teses de doutorado, sugerindo que o tema ainda é explorado predominantemente em níveis iniciais da pós-graduação stricto sensu. Por outro lado, o baixo número de teses indica um subaproveitamento do potencial das histórias de vida como recurso para investigações mais complexas e abrangentes que poderiam ser realizadas em nível doutoral na Educação Química.
A ausência de maior produção científica derivada dessas dissertações - considerando que os dois únicos artigos identificados são desdobramentos de uma mesma dissertação - aponta para uma lacuna na difusão dos resultados de pesquisas nos periódicos científicos. Logo, observa-se a necessidade de um maior incentivo para que as investigações sobre as histórias de vida de professores de Química ultrapasse os limites do mestrado e se torne objeto de pesquisa mais sistemática e robusta no doutorado, bem como para que seus resultados sejam mais amplamente publicados e debatidos em artigos científicos, pois entende-se e defende-se que através das histórias de vida “as experiências vividas são narradas e, portanto, as narrativas produzidas trazem não apenas os sentidos que cada um atribuiu ao vivido, mas também a história de uma comunidade, as ideias de uma coletividade - neste caso, do coletivo dos atores educativos, em especial dos professores” (Nacarato; Passeggi, 2013, p. 290).
Conforme a Figura 2, a região Nordeste é responsável pela maioria da produção científica que compõe este EQ, enquanto a outra parte está situada na região Sudeste. Não foram identificados estudos vinculados às demais regiões do país. Para a análise dessa distribuição geográfica considerou-se, para tese ou dissertação, a Instituição de Educação Superior (IES) de vínculo do Programa de Pós-Graduação, e para os artigos a IES de vínculo da primeira autoria do texto. Esse dado sugere que, embora as investigações sobre as histórias de vida sejam amplamente difundidas no país, o interesse específico nos professores de Química está restrito a certas localidades, seja pelas prioridades regionais de pesquisa ou pela falta de incentivo para abordar o tema em outros contextos. A ampliação desses estudos permitirá compreender o sujeito professor de Química em todas as suas dimensões constitutivas, pois as histórias de vida elegem “como objeto de estudo as experiências humanas, buscando dar sentido ao que foi vivenciado e produzir significados contextuais mais abrangentes, já que essas experiências acontecem em contextos socialmente situados e não no vazio” (Silva, 2024, p. 10).
Outra característica relevante observada diz respeito à área de concentração dos estudos analisados. Para essa classificação, foram consideradas as áreas de concentração vinculadas a cada tese, dissertação e periódico científico, cujos resultados apontam uma predominância de estudos relacionados à área de Ensino de Ciências, seguida pela área de Educação, além da identificação de um artigo publicado em um periódico da área Interdisciplinar (Figura 3). Esse cenário reflete o contexto histórico da formação de professores de Química no Brasil, onde os campos de Ensino e Educação têm desempenhado papel central na formação de educadores químicos em nível de pós-graduação, diferentemente dos programas de pós-graduação em Química, que tradicionalmente focam em pesquisa científica na área sem preocupações com os problemas do seu ensino ou da sua aprendizagem (Silva; Carneiro, 2022).
Em geral, os 11 estudos abordaram as histórias de vida de professores de Química em consonância com o exposto por Passeggi, Souza e Vicentini (2011, p. 370), entendendo que elas permitem:
Identificar, nas trajetórias de professores, questões de interesse para a pesquisa educacional, entre as quais: as razões da escolha profissional, as especificidades das diferentes fases da carreira docente, as relações de gênero no exercício do magistério, a construção da identidade docente, as relações entre a ação educativa e as políticas educacionais.
Os dados em questão demonstram que, apesar de avanços na última década, estudos sobre histórias de vida de professores de Química ainda enfrentam descontinuidade e concentração em pesquisas de mestrado, havendo a necessidade de maior sistematização, expansão geográfica e publicações mais amplas, especialmente em nível doutoral, para consolidar sua contribuição à Educação Química no Brasil, em particular.
As histórias de vida e a formação acadêmica-profissional de professores de Química
A primeira categoria reuniu quatro estudos (Ribeiro, 2007; Machado, 2020; Quimentão, 2020; Leite, 2022), cujo escopo consistiu em discutir as histórias de vida a partir das constituições pessoal, acadêmica e profissional de professores de Química da Educação Básica ou da Educação Superior. Essa discussão possui um potencial investigativo porque dificilmente poderemos interferir na formação dos outros sem antes tentarmos compreender o nosso próprio processo de formação, conforme refletem Finger e Nóvoa (2014). Logo, investigar como os professores se constituíram profissionalmente é importante para conhecer as experiências que vivenciaram ao longo de suas trajetórias e como refletem sobre elas no tempo presente. Para Nóvoa (1988, p. 128), essas experiências desvelam a formação da pessoa adulta, todavia, “mais importante do que pensar em formar esse adulto é refletir sobre o modo como ele se forma, isto é, o modo como ele se apropria do seu patrimônio vivencial através de uma dinâmica de compreensão retrospectiva”.
Nesse sentido, o objetivo da dissertação de Ribeiro (2007) foi reconstituir a história pessoal e profissional de três professores de Química que cursaram a Licenciatura Especial em Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para identificar as experiências formadoras, deformadoras e transformadoras que permearam esse processo formativo e como esses sujeitos integraram os seus saberesfazeres docentes. Os participantes já trabalhavam como professores da Educação Básica, mas ingressaram no referido curso para obter domínio de conteúdo em suas aulas. Valendo-se do método (auto)biográfico, a pesquisadora utilizou entrevistas abertas e a produção de relatos escritos para a geração dos dados. As histórias de vida foram tecidas em ordem cronológica, a partir de temáticas abordadas pela pesquisadora. O material foi analisado a partir do processo de categorização, mediante quatro categorias que permeiam temas relacionados ao tornar-se professor de Química: “1. As primeiras experiências com a vida escolar e o caminho para a profissão.; 2. A trajetória profissional e o local de trabalho.; 3. A Licenciatura Especial; 4. O trabalho com a história de sua vida” (Ribeiro, 2007, p. 43).
Ao adotar as histórias de vida sob o viés da pesquisa-formação, em diálogo com os escritos de Marie-Christine Josso e Antônio Nóvoa, o estudo concluiu que este trabalho reflexivo de construção de narrativas de vida e formação possibilitou uma tomada de consciência sobre as experiências formativas de cada professor, permitindo-lhes compreender “o que fizeram com as experiências que a vida lhes proporcionou, como se constituíram como professores a partir dessas experiências e também identificar as várias fases de desenvolvimento da carreira de cada um através dos sentimentos e concepções expressos nas narrativas” (Ribeiro, 2007, p. 98).
A dissertação de Machado (2020) analisou vivências formativas de quatro estudantes de um curso de Licenciatura em Química da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), participantes do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Orientada pelos estudos de Gaston Pineau, Marie-Christine Josso, Christine Delory-Momberger, Maria Izabel Cunha, Elizeu Clementino Souza, dentre outros, a autora adotou a abordagem biográfica e as histórias de vida dos estudantes na perspectiva da pesquisa-formação, tendo em vista que “quando o sujeito organiza suas ideias para compor o relato, oral ou escrito, reconstitui sua experiência de forma reflexiva” (Machado, 2020, p. 85).
Os dados foram gerados por meio de entrevistas narrativas com os estudantes e analisados a partir da análise de conteúdo, revelando que os processos formativos no PIBID foram permeados por aspectos positivos, como a existência de bolsa para a manutenção da permanência dos estudantes no curso de Licenciatura em Química, e negativos, como as tensões no planejamento das ações dentro do subprojeto. Embora a vivência dos estudantes no referido Programa tenha oportunizado trabalhar a formação inicial a partir da própria profissão, ou seja, na relação teoria-prática, alguns estudantes ainda visualizaram a profissão docente como ato vocacional. No entanto, concluiu-se que o Programa “valoriza os profissionais que nela estão inseridos e os sujeitos que estão ingressando nas licenciaturas possibilitando mudanças nas posturas e concepções dos participantes” (Machado, 2020, p. 175).
Quimentão (2020) produziu a sua dissertação no intuito de compreender como as histórias de vida de professores de Química influenciaram as suas escolhas pela profissão docente nessa área do conhecimento. Inspirada nos estudos de Ivor Goodson sobre as histórias de vida, a autora realizou entrevistas abertas com três professores experientes de Química e quatro estudantes de um curso de Licenciatura em Química participantes do PIBID, denominados pela autora como professores iniciantes. Os dados das entrevistas foram analisados em forma de mônadas, baseado nos estudos do filósofo Walter Benjamin, que compreende as mônadas como fragmentos narrativos que vão ganhando (novo) significado à medida que são rememorados.
A autora constatou que “os retratos narrativos dos participantes [...] evidenciam como as histórias de vida mobilizam a escolha da carreira docente em Química estabelecendo relações com as experiências familiares, escolares, de empregabilidade e justiça social” (Quimentão, 2020, p. 89). Não obstante, as histórias de vida dos professores de Química apontam a indissociabilidade do professor na qualidade de sujeito e profissional, emergindo uma aprendizagem narrativa que se opõe às prescrições curriculares e induz uma prática docente socialmente situada.
Por sua vez, a tese de Leite (2022) teve como objetivo principal compreender as relações dialéticas de aproximação/distanciamento entre formação, vida e trabalho de quatro professores de Química da Educação Básica do Ceará mediante suas narrativas autobiográficas. Assim como nos estudos anteriores, a autora recorreu ao viés jossoniano da pesquisa-formação, no intento de promover um espaço de formação contínua de professores de Química, fundamentado na perspectiva do caminhar para si. Os dados foram gerados por meio de narrativas individuais e coletivas, utilizando a escrita de cartas pedagógicas (narrativas escritas) e encontros de um Grupo Reflexivo de Mediação Biográfica (narrativas orais), respectivamente.
A mediação biográfica foi efetivada mediante a construção de uma relação horizontal entre pesquisadora e professores, a partir da produção e discussão de narrativas que permearam passagens de vida, formação e profissionalização dos docentes. A base teórica desse estudo foi composta por autores francófonos, portugueses e brasileiros, a exemplo de Marie Christine-Josso, António Nóvoa, Mathias Finger, Maria da Conceição Passeggi, Elizeu Clementino de Souza, dentre outros, e os dados obtidos reforçam a compreensão de que as propostas formativas que recorrem às histórias de vida mostram-se promissoras para inserir o sujeito-professor no centro do processo formativo, “munindo-o de autonomia para refletir sobre si, sua prática e o meio em que está inserido” (Leite, 2022, p. 192). A autora concluiu, também, que “[...] formação, vida e trabalho estão intrinsecamente relacionados, no contexto de cada um dos professores em questão, ratificando a compreensão de que é impossível separar pessoalidade e profissionalidade docente” (Leite, 2022, p. 191-192).
Os estudos analisados nesta categoria compartilham a valorização das histórias de vida como dispositivo metodológico e formativo essencial para compreender e aprimorar a formação de professores de Química, tendo como ponto comum a ênfase na reflexão sobre as trajetórias pessoal e profissional como caminho para ressignificar práticas docentes, destacando a indissociabilidade entre vida (o eu pessoal) e trabalho (o eu profissional). Apesar dessa convergência, os enfoques variam, pois Ribeiro (2007) explora a integração de saberes docentes em professores já atuantes, enquanto Machado (2020) investiga a formação inicial e os desafios do PIBID, enfatizando a relação entre teoria e prática. Quimentão (2020) foca na influência das experiências vividas na escolha pela docência, associando-as à justiça social e à construção identitária, enquanto Leite (2022) aprofunda-se na mediação biográfica como espaço contínuo de formação e autonomia reflexiva. Essas abordagens indicam que a narrativa autobiográfica coloca o professor no centro do processo formativo, promovendo autoconhecimento, consciência crítica e práticas contextualizadas, cujos estudos revelam que compreender e valorizar as histórias de vida potencializa a formação docente e fortalece a conexão entre os saberes pessoais e profissionais da docência em Química em diferentes contextos.
As histórias de vida e a construção da identidade profissional docente na Química
A segunda categoria reuniu cinco estudos (Brito, 2013; Brito; Lima; Lopes, 2014; Brito; Lopes; Lima, 2017; Silva, 2022; Santana, 2023), que tratam da identidade profissional docente de professores de Química à luz das suas histórias de vida. Conforme Goodson (2015), as experiências que o sujeito vivencia ao longo de sua vida influenciam diretamente a construção da sua identidade, seja ela profissional ou não, e as histórias de vida possibilitam investigar como ele responde às mudanças sócio-históricas as quais foi submetido ao longo de sua vida, daí o interesse pela construção da identidade nas histórias de vida.
Nesse sentido, a dissertação de Brito (2013) buscou compreender o processo de (re)construção da identidade profissional de professores de Química egressos da primeira turma do curso de Licenciatura em Química de uma universidade pública do agreste sergipano. Para isso, a autora elegeu as histórias de vida de sete professores como objeto de estudo, cujos dados foram gerados mediante a realização de entrevistas guiadas por um roteiro e analisados por intermédio da análise de conteúdo.
Teoricamente, a dissertação mantém pouco diálogo com a literatura sobre histórias de vida, com destaque para António Nóvoa, enquanto predominam os autores sobre identidade profissional docente, sobretudo na Química. Os resultados apontaram que a identidade profissional dos professores que participaram do estudo foi marcada pela forte atuação em atividades de ensino, pesquisa e extensão no campo da Química, lhes permitindo refletir sobre diferentes questões que perpassam a profissão docente. Assim, Brito (2013) concluiu que as diferentes experiências vivenciadas pelos professores foram igualmente importantes para moldar suas identidades profissionais, estabelecendo uma relação positiva com elas no que se refere à afirmação na profissão docente.
Os artigos de Brito, Lima e Lopes (2014) e Brito, Lopes e Lima (2017) são recortes da dissertação de Brito (2013), publicados com as orientadoras do mestrado, e buscaram compreender os processos de construção da identidade profissional de professores de Química. Em virtude de os dados desses dois artigos terem sido gerados e analisados do mesmo modo que consta na dissertação referenciada no parágrafo anterior, optou-se por apresentar seus principais resultados de forma conjunta. Dessa forma, esses artigos fundamentam-se em teóricos da identidade profissional docente e do Ensino de Química, e os resultados de ambos apontam que os eventos científicos e as atividades de ensino, pesquisa e extensão que os professores vivenciaram durante a graduação foram os principais indutores da construção de suas identidades profissionais na docência em Química.
Por sua vez, a dissertação de Silva (2022) buscou compreender os cruzamentos existentes entre as identidades raciais e docentes de quatro professores de Química, vinculados às escolas de Educação Básica de Salvador, sendo dois autodeclarados negros e dois brancos. Foi utilizado um roteiro semiestruturado para a realização de entrevistas virtuais com os professores, cujos dados foram submetidos à análise temática dedutiva com o apoio do software Atlas.ti. Ressalta-se que este foi o único estudo que utilizou software para otimizar as análises, embora o seu uso não seja incomum nas pesquisas narrativas.
A abordagem metodológica das histórias de vida foi trabalhada por Silva (2022) com base em Belmira Oliveira Bueno, Franco Ferratorri e Elizeu Clementino de Souza, além de o autor recorrer à Conceição Evaristo para discutir as escrevivências. Foi constatado que o cruzamento entre as identidades profissionais e raciais dos professores de Química só tomou forma após o término da graduação, pois até então não existiam discussões sobre temáticas raciais. Além disso, enquanto os professores negros mobilizam suas identidades raciais espelhadas na abebelidade, reconhecendo suas negritudes, especialmente quando as turmas são compostas por uma maioria de estudantes negros, os professores brancos mobilizam suas identidades raciais à luz da branquitude crítica, ao mesmo tempo que silenciam o reconhecimento dos privilégios brancos.
Já Santana (2023) desenvolveu uma dissertação com o objetivo de investigar a influência das histórias de vida de professores de Química na percepção e na construção da identidade docente de estudantes de um curso de Licenciatura em Química. Apesar de a autora citar António Nóvoa e Marie-Christine Josso na discussão sobre histórias de vida, este estudo também tece poucos diálogos sobre os seus fundamentos teórico-metodológicos, priorizando autores que discutem a identidade profissional docente e a Educação Química.
Os dados da dissertação foram gerados a partir da gravação de 20 aulas de uma disciplina que tinha como foco a docência no curso de Licenciatura em Química da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), resultando em 60 horas de material audiovisual, que foi textualizado e analisado com base na estratégia de quadros de análises. Foi constatado que “as histórias de vida dos professores se tornaram uma ponte entre o passado e o futuro, moldando a identidade dos licenciandos, inspirando-os a serem não apenas educadores competentes, mas também defensores apaixonados dos valores que abraçaram” (Santana, 2023, p. 62). A autora também apresentou um produto educacional com relatos de histórias de vida de professores de Química para inspirar outros professores a permanecerem na docência.
Os estudos analisados apresentam contribuições relevantes para a compreensão da relação entre as histórias de vida e a construção da identidade profissional docente de professores de Química, ao mesmo tempo que revelam diferenças metodológicas e teóricas que merecem atenção. De modo geral, todos reconhecem a importância das experiências pessoais e profissionais na formação docente, destacando como essas vivências moldam trajetórias e identidades de professores de Química. Contudo, as abordagens teórico-metodológicas variam, o que afeta o grau de aprofundamento no uso das histórias de vida. Brito (2013) e os artigos derivados (Brito et al., 2014, 2017) enfatizam a influência de atividades acadêmicas, como eventos científicos e extensão, na construção da identidade profissional. Apesar de relevantes, esses estudos limitam-se no diálogo com os fundamentos teóricos das histórias de vida, priorizando autores da identidade docente e da Educação Química. Santana (2023) segue uma linha semelhante, com pouco aprofundamento nos aspectos teórico-metodológicos das histórias de vida, embora destaque como essas narrativas inspiram novos docentes.
Por outro lado, Silva (2022) integra as histórias de vida de forma mais robusta, associando-as a questões como raça, e utilizando referencial diversificado, incluindo escrevivências e a análise temática com suporte digital, o que evidencia o potencial transformador das histórias de vida quando bem fundamentadas. Assim, os estudos mostram que, embora as histórias de vida sejam reconhecidas como valiosas para investigar a identidade docente, há lacunas em algumas pesquisas que poderiam ser preenchidas por um maior rigor teórico-metodológico. Um diálogo mais profundo entre os fundamentos das histórias de vida e os estudos sobre identidade docente ampliaria as possibilidades reflexivas e interpretativas, fortalecendo ainda mais este campo investigativo.
Reflexões sobre os impactos das histórias de vida na prática docente em Química
A última categoria reuniu dois estudos (Bonardo, 2010; Silva, 2023) que tratam dos impactos das histórias de vida de professores de Química em suas práticas docentes, isto é, no processo de desenvolvimento profissional, referindo-se ao “percurso contínuo e duradouro pelo qual o professor constrói-se profissionalmente, realizando mudanças em seu trabalho à medida que entende a docência como uma atividade crítica, política, transformadora e reflexiva” (Silva, 2023, p. 129). Nesse sentido, os dois estudos apontam que as histórias de vida têm sido utilizadas para investigar como o desenvolvimento profissional desses professores de Química têm se materializado, especialmente porque elas permitem que o sujeito se conheça melhor e reflita sobre os seus processos de (auto)formação (Couceiro, 2022).
A dissertação de Bonardo (2010) discutiu o desenvolvimento profissional docente junto a cinco professores de Química em um contexto de formação contínua, cujos dados foram gerados mediante a gravação de aulas de uma disciplina de pós-graduação e a realização de entrevistas com os professores. Foi utilizada a análise textual discursiva para a análise dos dados, apoiando-se nos estudos de António Nóvoa, Gaston Pineau e Pierre Dominicé, dentre outros, para discutir as histórias de vida. Configurando-se como um estudo de casos múltiplos, a autora verificou que as diferentes experiências educacionais e profissionais que cada professor vivenciou são responsáveis por marcarem os seus saberes e os seus fazeres na docência, reverberando em seus processos de desenvolvimento profissional, ao mesmo tempo que os imprimem a característica de serem bons professores.
Por fim, a tese de Silva (2023) investigou a trajetória acadêmica-profissional de quatro professores universitários de destaque da área de Educação Química para compreender como eles têm atuado nos movimentos em defesa da qualidade dos cursos de Licenciatura em Química e como suas histórias de vida refletiram em seus processos de desenvolvimento profissional. Os dados foram gerados por estudo documental e pela realização de entrevistas narrativas com quatro professores de universidades federais das diferentes regiões do país, analisadas a partir da análise textual discursiva.
Orientado pelos estudos de António Nóvoa, Marie-Christine Josso, Ivor Goodson, Christine Delory-Momberger, Maria da Conceição Passeggi, dentre outros, Silva (2023, p. 8) aponta que “as narrativas das histórias de vida permitiram que os formadores refletissem sobre as suas trajetórias acadêmicas-profissionais até se constituírem como notáveis educadores químicos brasileiros”. Ainda, verificou que eles se desenvolveram profissionalmente “mediante estratégias de subversão para se oporem ao habitus bacharelizante da Química, firmando-se como educadores químicos que entendem as recentes reformas educacionais [...] como danosas ao ensino de Química e à profissionalização docente” (Silva, 2023, p. 8).
Os estudos de Bonardo (2010) e Silva (2023) destacam a relevância das histórias de vida para compreender os impactos das trajetórias individuais no desenvolvimento profissional e nas práticas docentes de professores de Química. Ambos convergem ao evidenciar que a reflexão sobre experiências pessoais e profissionais promove uma autoformação contínua, permitindo que os professores desenvolvam práticas mais críticas, políticas e transformadoras, reforçando a ideia de que “ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro horas da tarde. Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, na prática e na reflexão sobre a prática” (Freire, 1991, p. 58).
Apesar dessa convergência, os dois estudos apresentam abordagens distintas. Bonardo (2010) foca na formação continuada, mostrando como as experiências educacionais e profissionais dos professores moldam seus saberesfazeres, destacando o papel das histórias de vida na constituição de professores reconhecidos por sua excelência pedagógica. Por outro lado, Silva (2023) amplia o foco para o contexto universitário e examina como notáveis educadores químicos brasileiros enfrentam desafios estruturais, utilizando suas trajetórias para resistir a modelos bacharelizantes e defender reformas educacionais alinhadas à profissionalização docente. Essas diferenças metodológicas e de contexto enriquecem o campo de estudos ao demonstrar que, embora as histórias de vida sejam uma base comum para reflexão e desenvolvimento, seus impactos variam conforme os objetivos e cenários educacionais, reafirmando a importância de seu uso em pesquisas sobre prática docente.
Considerações finais
A construção deste EQ permitiu identificar estudos que têm discutido as histórias de vida de professores de Química em importantes bases de publicações científicas do Brasil, revelando, inicialmente, uma adesão dessa temática, sobretudo em pesquisas de mestrado na área de Ensino de Ciências. Apesar de o primeiro estudo selecionado ser de 2007, o período de 2020 a 2023 responde pelo maior número de publicações. Destaca-se, ainda, a predominância dessa discussão no Nordeste do país. Esses estudos demonstram como as histórias de vida têm sido exploradas na construção da identidade profissional, na formação e na prática docente de professores de Química, revelando a indissociabilidade entre as dimensões pessoal e profissional, evidenciando que as trajetórias de vida influenciam significativamente a atuação dos professores.
O foco desses estudos são os professores de Química da Educação Básica e os estudantes dos cursos de Licenciatura em Química, sendo incipientes as discussões sobre os professores universitários. Importante destacar que cinco estudos, além de citarem poucos autores das histórias de vida, não promoveram um diálogo dessas obras com os seus resultados. Há uma ênfase nos estudos sobre identidade docente e em seus processos de formações acadêmicas e profissionais, cujos resultados convergem quanto às potencialidades do estudo das histórias de vida para uma compreensão de si e do outro, na qual as dimensões pessoal e profissional são indissociáveis.
Diante do exposto, ressalta-se que este levantamento apresenta um retrato da produção científica nacional sobre a temática das histórias de vida na docência em Química. Destaca-se, no entanto, que não se teve o objetivo de esgotar a análise dos estudos sobre a temática em tela, por isso foram selecionadas apenas quatro fontes de consulta. Daí revela-se um dos limites deste EQ.
A guisa de síntese, considera-se que este recorte permitiu um olhar inicial sobre a temática e tende a contribuir para o florescer de outros estudos, posto que a categorização dos dados evidenciou que na construção da identidade profissional as experiências pessoais e profissionais moldam as perspectivas e práticas docentes; na formação docente as histórias de vida permitem uma compreensão mais ampla do processo formativo, seja na formação inicial, como no caso do PIBID, ou na formação continuada, como observado em contextos de autoformação e mediação biográfica; e na prática docente as histórias de vida se mostram férteis para integrar experiências passadas e demandas atuais em contextos de reformas educacionais.










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