INTRODUÇÃO
No contexto dos cuidados de saúde, a empatia é uma qualidade cognitiva que envolve a capacidade de compreender as experiências e perspectivas internas do paciente e a capacidade de comunicar esse entendimento1. Alguns estudos têm focado a empatia na educação médica. É uma das características centrais do profissionalismo médico numa visão holística da saúde. A empatia é, frequentemente, associada à qualidade do atendimento na prática clínica, bem como a melhores resultados de saúde2. Há alguma controvérsia sobre o declínio da empatia ao longo do treinamento médico. Uma revisão sistemática concluiu que não há evidências suficientes para entender completamente as causas desse possível declínio. Mesmo assim, o sofrimento psicológico (incluindo esgotamento, diminuição da qualidade de vida e depressão) parece ser uma causa importante3.
A religião e a espiritualidade influenciam a tomada de decisão médica em caso de doença grave, como na terminalidade. As principais religiões variam drasticamente em termos de seus pontos de vista sobre o término do tratamento, a eutanásia e o controle da dor. As perspectivas podem variar até mesmo dentro da mesma religião com base em seus subgrupos. As práticas culturais e as leis de uma nação têm uma influência significativa sobre as crenças e práticas religiosas4.
Existe uma possível relação entre sofrimento psíquico e espiritualidade. O efeito da espiritualidade aliviando o sofrimento psicológico já foi demonstrado entre estudantes de Medicina5. A espiritualidade pode aliviar o sofrimento psicológico dos estudantes e residentes e aumentar a empatia6.
As interações entre sofrimento psíquico e espiritualidade não têm sido amplamente exploradas no que diz respeito à empatia. Assim, o objetivo deste estudo é correlacionar tal visão com empatia e religiosidade/espiritualismo, por meio de questionário voluntário, entre estudantes e residentes de Medicina.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal exploratório. Não há um acompanhamento das informações durante um período de tempo. Um questionário de pesquisa foi desenvolvido para distribuição a todos os estudantes de Medicina de cada uma das faculdades de Medicina de Santos, no Brasil, bem como aos residentes que trabalham nos respectivos hospitais universitários, para preenchimento voluntário. O estudo utilizou uma pesquisa online com dados quantitativos para descobrir a relação entre religiosidade/espiritualismo e empatia entre estudantes de Medicina e residentes em atuação na cidade de Santos. Não foram pesquisados os acadêmicos com a matrícula trancada ou algum tipo de licença, ou seja, que não estavam frequentando o curso.
Assim, foram convidados para participar os alunos da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Metropolitana de Santos e da Faculdade de Ciências Médicas de Santos da Fundação Lusíada, e residentes da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Santos, do Hospital Ana Costa e do Hospital Guilherme Álvaro. O quadro amostral incluiu todos os estudantes e residentes de Medicina em todos os anos de estudo durante o ano letivo de 2021. O convite para participar do estudo foi distribuído por e-mail enviado pelo pesquisador principal a cada escola médica e pela comissão de residência médica dos hospitais selecionados. O questionário de pesquisa consistia em um questionário de empatia2 e um questionário semiestruturado sobre espiritualidade. Utilizamos a Escala de Jefferson de Empatia, um questionário validado de 20 itens. Trata-se de um instrumento desenvolvido especificamente para medir a empatia dentro do contexto da assistência ao paciente por estudantes e profissionais na área da Saúde. Foi desenvolvido em 2001 por um grupo de pesquisadores da Jefferson Medical College, na Filadélfia7, e adaptado e validado no Brasil2. Avalia três fatores principais: cuidado compassivo (compassionate care), capacidade de colocar-se no lugar do paciente (standing in the patient’s shoes) e tomada de perspectiva (perspective taking). As 20 perguntas utilizam uma escala cujos valores vão de um (“discordo totalmente”) a sete (“concordo totalmente”). As pontuações mínimas e máximas possíveis são, respectivamente, 20 e 140 para o escore global8.
O questionário considerou as seguintes categorias religiosas: 1. ateu; 2. agnóstico; 3. judaísmo; 4. catolicismo; 5. protestante; 6. ortodoxo; 7. islamismo; 8. espiritismo; 9. matriz africana; 10. budismo; e 11. outras.
Em conformidade com a Resolução nº 466/2012, antes da aplicação dos questionários, os participantes foram orientados em relação às questões éticas da pesquisa, garantindo-se o sigilo de identidade. A pesquisa foi registrada na Plataforma Brasil do Ministério da Saúde sob o Protocolo CAAE nº 52677621.0.0000.0139 e, após carta de anuência de todas as instituições participantes, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Santos sob o Parecer n° 5.055.668.
A comparação entre os grupos foi realizada por meio do teste de Kruskal-Wallis para amostras independentes, com nível de significância de p < 0,05.
RESULTADOS
No total, enviaram-se 1.550 convites, aos quais responderam 273 (17,6%) participantes voluntários. A amostra foi composta por 180 mulheres (65,9%), distribuídas de forma semelhante entre os diferentes períodos de treinamento. Quanto às crenças religiosas, a maioria era católica (103 - 37,7%), seguida de agnósticos (84 - 30,8%), protestantes e kardecistas (27 - 9,9% cada). A maioria não frequentava serviços religiosos (140 - 51,3%) (Tabela 1).
Tabela 1 Dados demográficos.
| Variável | n = 273 | n (%) |
|---|---|---|
| Gênero | Masculino | 93 (34,1) |
| Feminino | 180 (65,9) | |
| Ano no estudo médico | 1o e 2o anos | 59 (21,6) |
| 3o e 4o anos | 60 (22) | |
| Residência | 50 (18,3) | |
| R1/R2 | 51 (18,7) | |
| R3 a R5 | 53 (19,4) | |
| Religião | Ateísmo | 22 (8,1) |
| Agnóstica | 84 (30,8) | |
| Católica | 103 (37,7) | |
| Protestante | 27 (9,9) | |
| Kardecista | 27 (9,9) | |
| Outra | 10 (3,7) | |
| Frequência a serviços religiosos | Não frequenta | 140 (51,3) |
| Anualmente | 21 (7,7) | |
| Semestralmente | 23 (8,4) | |
| Uma vez a cada 1 a 6 meses | 45 (16,6) | |
| Quinzenalmente | 12 (4,4) | |
| Semanalmente | 32 (11,7) |
Fonte: Elaborada pelos autores.
A Escala de Empatia de Jefferson2, que varia de 70 a 140, apresentou pontuação média de 120,4, variando de 90 a 140. Quanto maior a pontuação, maior o grau de empatia. Pode-se considerar essa média como elevada.
As crenças religiosas e a assiduidade com que os participantes frequentaram os serviços religiosos não apresentaram diferença estatisticamente significativa ao longo do período da educação médica. Da mesma forma, o grau de empatia avaliado pela Escala de Jefferson2 não indicou diferença significativa ao longo desses períodos.
A empatia foi avaliada entre as diferentes crenças religiosas e também comparada com ateus e agnósticos, e não houve diferença significativa (Gráfico 1). A frequência com que os entrevistados participam de atos religiosos não apresentou diferença significativa ao ser relacionada ao grau de empatia (Gráfico 2). Não houve diferença significativa do grau de empatia ao longo do período da formação médica (Gráfico 3).

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 1 Distribuição de empatia entre crenças religiosas (1. ateu; 2. agnóstico; 3. judaísmo; 4. catolicismo; 5. protestante; 6. ortodoxo; 7. islamismo; 8. espiritismo; 9. matriz africana; 10. budismo) - teste de amostras independentes de Kruskal-Wallis.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 2 Distribuição de empatia em relação à frequência a serviços religiosos (1. não frequente; 2. anualmente; 3. semestralmente; 4. uma vez entre um e seis meses; 5. quinzenal; 6. semanal) -teste de amostras independentes de Kruskal-Wallis.
DISCUSSÃO
A empatia apresenta dois componentes distintos: cognitivo e afetivo9. De fato, alguns autores acreditam que a empatia é um atributo cognitivo, enquanto outros afirmam que é uma característica emocional ou uma combinação de cognitiva e funções emocionais10. A vertente cognitiva refere-se a que se assuma intelectualmente o papel ou a perspectiva da outra pessoa, enquanto o componente afetivo consiste em que se responda a emoção de outra pessoa com a mesma emoção11. No contexto dos cuidados de saúde e da educação médica, é a capacidade de compreender a situação do paciente: as experiências internas, os sentimentos, as preocupações e as perspectivas. Esse conceito também inclui a capacidade de comunicar esse entendimento9. Considerando a empatia sob o ponto de vista afetivo, existe alguma confusão entre os conceitos de empatia e compaixão. A compaixão é uma virtude moral que gera e disciplina o comportamento, enquanto a empatia é uma virtude intelectual. O julgamento é guiado pela empatia12.
A empatia é importante na relação médico-paciente, pois promove a comunicação centrada no paciente e afeta positivamente a satisfação dele e os resultados terapêuticos1. A abordagem empática dos pacientes é enfatizada nos currículos de educação das faculdades de Medicina. A relevância de desenvolver níveis de empatia em estudantes de Medicina é demonstrada pela empatia clínica, que é um componente crucial da comunicação entre médico e paciente, pois melhora a satisfação deste, reduz a ansiedade e aprimora os resultados clínicos13.
Há controvérsias sobre o fato de a empatia diminuir ao longo do curso médico. Semelhantemente aos nossos achados, alguns autores encontraram falta de declínio da empatia durante a formação médica2),(8),(14. No que concerne ainda a esse achado, no Brasil uma pesquisa com estudantes de Medicina de uma universidade federal não identificou resultados significativos em relação a aumento ou diminuição dos níveis de empatia com os pacientes do primeiro ano ao quarto ano do ensino médico15. Contudo, a empatia diminuiu ao longo da formação médica em outras séries3),(9),(16)-(18, enquanto outros trabalhos mostraram um aumento surpreendente na empatia durante os estudos médicos19),(20. Uma diminuição na empatia pode ser atribuída ao sofrimento psicológico, aos comportamentos de saúde ou bem-estar dos próprios alunos e à abertura às perspectivas dos outros. Tal declínio na empatia durante os estudos médicos pode ser uma neutralização emocional (cinismo)21.
É importante incentivar a empatia entre alunos de Medicina e examinar como ela varia ao longo do curso da educação médica. Isso pode permitir a compreensão dos fatores que poderiam mitigar a expressão de empatia. Embora o sofrimento psíquico possa levar a uma diminuição na empatia, outros fatores podem modular o sofrimento psicológico dos alunos. Tais fatores provavelmente incluem comportamentos de saúde dos próprios alunos e abertura para as perspectivas dos outros. Os comportamentos dos alunos incluem atividade física, oração, busca de apoio social, contato com a natureza e sono reparador6.
A motivação altruísta para estudar ao entrar na faculdade de Medicina está associada a uma maior empatia. Foi encontrada correlação positiva entre empatia e fatores como amor pelos animais, interesse pela ética médica, crença em Deus e ter uma pessoa doente na família9. A espiritualidade pode ter um papel importante na empatia do médico. O médico pode estar aberto ao respeitar a espiritualidade do paciente e a compreensão deste sobre o significado da vida6. O sofrimento psicológico diminui a empatia e os comportamentos de bem-estar, e a abertura à espiritualidade reduz esse sofrimento. Assim, o bem-estar e a abertura à espiritualidade podem atenuar, por meio da empatia, os efeitos do sofrimento psicológico6.
Este estudo desenvolveu-se durante um período de pico pandemia de Covid-19, considerada o fator mais recente de sofrimento psicológico e problemas psicossociais. A prevalência de preocupações psicológicas entre os indivíduos que trabalham na área da saúde aumentou significativamente durante a pandemia. Em estudo desenvolvido no Brasil, os discentes de Medicina em período de estágio que atuaram na linha de frente durante a pandemia de Covid-19 tiveram mais preocupações psicológicas e níveis mais elevados de empatia e síndrome de burnout em comparação com aqueles que não trabalharam na linha de frente22. Isso pode ter influenciado nossos achados entre alunos de internato e na residência médica.
Um estudo transversal incluindo 106 estudantes de Medicina de uma escola pública norte-americana descobriu que a escolha da especialidade, o esgotamento, os comportamentos de bem-estar, a religiosidade e a abertura à espiritualidade foram preditores importantes e significativos de empatia. A abertura à espiritualidade foi um importante moderador do estresse psicológico, da ansiedade e da depressão, levando a níveis mais elevados de empatia por alunos não angustiados6. No entanto, a correlação entre religiosidade e empatia ainda não está clara. A empatia pode ter um papel mediador entre a inteligência emocional e a religiosidade23.
A religiosidade corresponde ao quanto um indivíduo acredita em uma religião, segue-a e a pratica, enquanto a espiritualidade é uma busca pessoal para entender questões relacionadas ao propósito da vida, ao seu significado e às relações com o sagrado ou transcendente. Pode levar ao desenvolvimento de práticas religiosas. A medicina é uma profissão de serviço compassivo e altruísta. Há uma necessidade crescente de integrar o treinamento em espiritualidade no atendimento ao paciente como parte da educação médica24.
As crenças religiosas e as práticas espirituais estão fortemente associadas à capacidade de lidar com a morte do paciente, à redução do estresse relacionado ao trabalho, à empatia, à comunicação com os pacientes ou às habilidades de dar más notícias. A importância da espiritualidade ou religiosidade na prática clínica em ambientes oncológicos tem sido destacada. A espiritualidade, em termos gerais, é frequentemente abordada como a busca por um “sentido superior” referindo-se à religião ou à crença em Deus25.
Demonstraram-se relações inversas significativas entre espiritualidade e sofrimento psíquico e esgotamento. Os alunos com alta espiritualidade tendem a descrever-se como mais satisfeitos com sua vida em geral, enquanto os estudantes com pontuações baixas em escalas de espiritualidade-padrão tendem a ter níveis mais altos de sofrimento psíquico e esgotamento, e menor empatia26.
A espiritualidade pode aliviar o sofrimento psicológico dos alunos e aumentar a empatia. Alunos empáticos trabalham melhor com colegas de trabalho e pacientes27. Em nossa amostra, o nível médio de empatia foi elevado (120,4), em uma escala variando de 70 a 140. Entretanto, não se verificou diferença significativa ao longo do período de formação médica, tampouco em função da religiosidade e da frequência a cultos religiosos.















