1 Introdução
O Brasil tem um traço cultural marcante, a religião, que se reflete na vida diária das pessoas e na capacidade de demonstração de múltiplas formas de fé religiosa, de modo que suas condutas e crenças religiosas constituem parte fundamental do ethos da cultura brasileira (Andrade, 2009). A religião leva à religiosidade do indivíduo e é entendida como a manifestação do sagrado, que é a presença de uma potência sobrenatural, que demonstra poder, por meio de algum símbolo, na forma de uma força sobrenatural (Chauí, 1995). Essa força, considerada superior, serve de alento às situações mais diferentes que possam acontecer no dia a dia.
A religiosidade refere-se à ligação com um sistema de adoração, com uma prática, e segue uma religião, uma doutrina compartilhada com um grupo (Panzini et al., 2007). Estudos pregressos passaram a mensurar a religiosidade do indivíduo, como é o caso das pesquisas desenvolvidas por: Lucchetti, Lucchetti e Avezum Júnior (2011), que avaliaram adultos de baixa renda da cidade de São Paulo; Taunay et al. (2012), que investigaram estudantes universitários da área da saúde e pacientes psiquiátricos; Martinez et al. (2014), que estudaram usuários de serviços públicos de saúde, em Ribeirão Preto, SP; Paula (2015), que utilizou uma plataforma virtual como meio de coleta de dados; e Strelhow e Sarriera (2018), que analisaram adolescentes de até 18 anos. Para mensuração da religiosidade, surgiram instrumentos já validados, como o Índice de Religiosidade da Universidade de Duke (King; Koenig, 2009) e o questionário P-Durel (Lucchetti; Lucchetti; Avezum Júnior, 2011).
Alguns momentos vivenciados podem contribuir para que o indivíduo se volte para a religiosidade em busca de auxílio e conforto. Levando em consideração o exposto por Moreira-Almeira, Lotufo Neto e Koening (2006), de que a vivência e a prática da religiosidade fortalecem os indivíduos na ocorrência de adversidades, bem como na manutenção e na melhora das condições de vida, provocando ainda emoções positivas e aumentando a autoestima, pode-se, por analogia, subentender que isso pode se refletir no desempenho acadêmico do estudante.
O desempenho acadêmico dos estudantes do Ensino Superior tem sido apontado como um fator essencial para a formação e o desenvolvimento de um mercado de trabalho qualificado e competitivo (Mallmann; Nasu; Domingues, 2021). Esse desempenho tem uma função central no processo de formação, pois é uma das principais maneiras de avaliar a aprendizagem do discente, se constituindo em parte do desafio das instituições de ensino, qual seja, a representação numérica de quanto do conhecimento explorado foi assimilado pelo acadêmico, o que se expressa na literatura, de um modo geral e prático, por meio das notas obtidas no decorrer do processo avaliativo (Meurer et al., 2018).
Além da nota, representação numérica mencionada, uma outra forma de mensurar o desempenho acadêmico é a autopercepção, que possibilita ao aluno realizar uma análise sobre sua trajetória acadêmica, permitindo a ele tomar consciência de suas aptidões em relação às matérias e dar mais atenção àquelas em que tem maior dificuldade (Souza, 2013; Alves et al., 2017). A identificação de outros fatores para a avaliação do desempenho discente é crucial para que se tenha uma compreensão apropriada do processo de ensino-aprendizagem (Nogueira, 2012; Ferreira, 2015), pois diversos aspectos que influenciam o ensino e a aprendizagem se relacionam com o desempenho acadêmico dos estudantes (Borges; Miranda; Freitas, 2017).
O desempenho acadêmico pode ser afetado por diversos motivos, inclusive por uma situação de pandemia. Em dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu um alerta sobre a disseminação de um vírus que viria a ser conhecido mundialmente como o novo coronavírus (Sars-Cov-2 e/ou vírus da Covid-19). O contágio da doença iniciou-se na China e, em poucas semanas, o vírus disseminou-se pelo mundo. Devido à sua alta capacidade de transmissão, em março de 2020 a OMS (Opas, 2020) reconheceu a doença como pandemia.
Os reflexos da pandemia para os estudantes envolveram, entre outros fatores: estresse, pelo medo de ser infectado; isolamento/tempo de quarentena; comprometimento dos semestres letivos; frustrações; solidão; negação; e propagação de mitos e fake news sobre a doença (Maia; Dias, 2020; Schmidt et al., 2020; Scalia et al., 2020; Zhai; Du, 2020). Aliás, em função da pandemia, o cronograma de pesquisas, planos e projetos foi adiado, afetando formaturas, pós-graduações e a entrada no mercado de trabalho.
Nesse contexto de pandemia e de tentativa de manutenção da saúde física e emocional das pessoas, bem como da saúde financeira, o desempenho dos acadêmicos pode ter sido afetado, e a religiosidade pode ter oferecido algum auxílio. Assim, este estudo delimita-se a esses três temas: (1) religiosidade e (2) desempenho acadêmico discente, em (3) tempos de pandemia.
A partir de estudos anteriores, como os de Strelhow e Sarriera (2018), Mallmann, Nasu e Domingues (2021) e Bridi, Bohler e Zanoni (2020), surgem algumas lacunas de pesquisa. Por exemplo: sobre o tema “religiosidade”, é oportuno destacar que não foram identificados estudos com análises direcionadas a amostras da região Sul do Brasil. Além disso, as pesquisas que têm relação com esse tema foram realizadas pela área de saúde. Sobre o tema “desempenho acadêmico”, são escassos os estudos que utilizam a autopercepção como forma de mensuração do desempenho discente, fato que instiga novos estudos com essa temática. Em relação ao tema “pandemia”, entende-se que as lacunas de pesquisas são diversas, pois trata-se de um fato novo no contexto mundial. Desse modo, compreender, mesmo que por apenas uma ótica, o desempenho discente em tempos de pandemia constitui uma lacuna de pesquisa latente.
A partir do exposto, surge o seguinte objetivo para esta pesquisa: analisar a relação entre o nível de religiosidade e o nível de desempenho de estudantes de graduação de uma universidade federal do sul do Brasil durante o primeiro ano de pandemia.
A justificativa para a realização deste estudo perpassa alguns argumentos descritos a seguir. A religião tem destaque na cultura brasileira, e há escassez de trabalhos que apresentem como eixo a dimensão religiosa, especialmente em relação aos jovens (Andrade, 2009), que formam um grupo vulnerável (Lima, 2020). Nos acadêmicos, a religiosidade aumenta o otimismo em momentos de conflito, e isso leva à melhora do apoio social e à diminuição do estresse e, por consequência, dos níveis de ansiedade (Mota, 2020).
É relevante compreender o desempenho do estudante antes que ele adentre o mercado de trabalho (Costa; Machado; Noeto, 2020). Entender a interação do desempenho acadêmico com seus antecedentes e consequentes, no contexto educacional e da pesquisa científica, é relevante, por se tratar de um fenômeno multideterminado (Sousa, 2013). A pandemia trouxe instabilidade econômica, social e psicológica aos alunos, depreendendo-se que ela pode ter impactado o desempenho discente, o qual, para Miranda et al. (2014), é complexo e abrange inúmeras variáveis.
As contribuições geradas por este estudo auxiliam a instituição escolar na reflexão sobre o fato de que o possível aumento da religiosidade na comunidade acadêmica pode colaborar positivamente para os relacionamentos, pois pode gerar pessoas mais empáticas, mais bondosas, mais disciplinadas e mais respeitosas, favorecendo a jornada estudantil na instituição (Valente, 2017).
Para os gestores das instituições de Ensino Superior (IESs), os resultados poderão servir de ajuda para o desenvolvimento de ações voltadas para a melhora do desempenho acadêmico dos discentes, proporcionando um aumento no índice de retenção dos alunos na universidade. Como contribuição teórica, este estudo pode fomentar a geração de hipóteses sobre o papel protetivo da religiosidade, com base em pesquisa empírica.
2 Referencial teórico
2.1 Religiosidade
No Brasil, a maioria das pessoas forma a base de suas crenças e valores espirituais por meio de escolhas religiosas, podendo haver nessa base, por vezes, uma composição de diferentes religiões e de práticas de autoconhecimento (Dezorzi; Raymundo; Goldim, 2016). Ou seja, a dimensão espiritual de cada sujeito assume manifestações singulares, que podem incluir uma ou mais religiões, ou nenhuma em particular (Ely; Calixto, 2018).
A religião leva à religiosidade do indivíduo e é vista como algo que exerce um papel excepcional na organização dos ambientes físico e social, além do ambiente interno (cognição e personalidade) do indivíduo, devendo ter um efeito sobre o desenvolvimento cognitivo em geral e sobre o acesso a formas mais robustas de bem-estar psicológico e satisfação com a vida, como a satisfação com a religião (Nascimento; Roazzi, 2014).
Os jovens, por sua vida universitária agitada, preferem uma religiosidade que não afete suas atividades e suas obrigações, e eles tentam adaptar-se. Devido à rotina de estudos, os estudantes podem expressar sua devoção de forma inconstante, sem hora marcada, instável, que não seja um compromisso – e, às vezes, suas demonstrações de fé ou rezas podem ser até esporádicas (Oliveira, 2017). Entre os jovens, a geração nascida entre 1985 e 1999 abraça menos a religião e/ou a religiosidade do que as gerações anteriores, isso devido a seus modos de vida, suas instruções ou ao exemplo dos próprios pais (Oliveira, 2017).
Em comparação com seus pais, os jovens demonstram uma sensível redução na adesão religiosa e uma menor aceitação da imagem de autoridade das igrejas (Kinnaman, 2021). Por outro lado, uma porcentagem expressiva dos universitários ainda acredita em um ser transcendente, e as religiões só são consideradas significativas se/quando contribuem para uma experiência pessoal de fé (Moreira-Almeida et al., 2008; Ribeiro, 2019).
Sobre os instrumentos de mensuração, tem-se o Índice de Religiosidade da Universidade de Duke – Durel (Koenig; Büssing, 2010), presente em centenas de publicações ao redor do mundo e disponível em vários idiomas (King; Koenig, 2009). Original da América do Norte, o instrumento analisa a religiosidade em três dimensões: religiosidade organizacional (RO), religiosidade não organizacional (RNO) e religiosidade intrínseca (RI). A RO refere-se à participação em encontros religiosos físicos, como cultos, missas e grupos de oração; a RNO refere-se à atividade religiosa privada, pessoal, que pode ser praticada individualmente, como orar/rezar, estudar as escrituras e assistir a programas religiosos na TV; e a RI relaciona-se ao grau de compromisso ou motivação religiosa pessoal (Koenig; Büssing, 2010).
A versão em português da P-Durel, elaborada por Koenig, Parkersion Júnior e Meador (1997), foi adaptada ao contexto brasileiro por Moreira-Almeida et al. (2008) e validada em alguns estudos, provando ter elevada consistência interna (Lucchetti; Luchetti; Avezum Júnior, 2011).
Foram realizados estudos pregressos sobre o tema, como o de Machado et al. (2018), que avaliaram associações entre bem-estar subjetivo, religiosidade, ansiedade e outros fatores em uma amostra de estudantes brasileiros de medicina de uma universidade pública da Região Nordeste. Os autores seguiram uma abordagem transversal, observacional e analítica, e os dados foram coletados por meio da aplicação de um questionário, com a escala de Duke (Durel), autoaplicável, que incluía questões focadas em dados sociodemográficos. Os achados demonstraram associação negativa entre bem-estar subjetivo (BES) e ansiedade, mas, contrariamente à literatura, eles também evidenciaram uma associação negativa entre BES e RI.
Fleury et al. (2018) verificaram, utilizando a escala de Duke (Durel) como instrumento de mensuração, a influência da religiosidade na satisfação com a vida e na adoção de estratégias para lidar com problemas. Os resultados indicam que a religiosidade é uma importante aliada no desenvolvimento, pode influir na satisfação com a vida e exerce influência na adoção da estratégia a ser utilizada para o enfrentamento de um problema.
Berkenbrock e Costa (2018) apresentaram, por meio de pesquisa qualitativa, um aspecto das trajetórias religiosas de universitários evangélicos no Brasil – a ressignificação da crença e da prática religiosa – e evidenciaram que o sentido religioso adquirido anteriormente à entrada na universidade se modifica de diferentes formas. Entre os universitários entrevistados, foram identificados movimentos de troca de religião – o trânsito religioso –, os quais podem ocorrer durante a trajetória religiosa do indivíduo e são comuns na condição moderna, pois há muita descoberta na vida acadêmica. Os autores também observaram percursos entre diferentes opções religiosas, adesões provisórias e a produção de sínteses pessoais para a crença, assim como negociações próprias em relação às práticas requeridas dos adeptos.
Flexor, Rodrigues e Silva (2020) analisaram a importância da religião para as preferências políticas, sociais e econômicas entre jovens universitários da periferia do Rio de Janeiro. Por meio de uma survey, os autores buscaram dados nominais, como denominação religiosa, cor, idade, gênero e renda familiar. Os resultados evidenciaram que o perfil dos estudantes da periferia reflete o perfil religioso – sendo a força das igrejas evangélicas de um lado e, do outro, os jovens periféricos sem religião –, ou seja, foi verificada influência significativa das igrejas evangélicas em diversos assuntos de cunho moral. A pesquisa também identificou uma ampla e difusa demanda por políticas sociais e melhor provisão de serviços públicos como saúde e educação.
A partir dos estudos pregressos citados, percebe-se que a religiosidade pode ter muitas facetas, que ela é pesquisada tanto pelo viés quantitativo quanto pelo qualitativo e que o período universitário representa um divisor na vida dos acadêmicos, que podem demonstrar ações distintas antes e depois da graduação. O indivíduo reflete suas vontades, seus desejos e suas opções durante essa trajetória. Ele pode seguir na religião que teve origem em sua educação familiar, ou pode começar a viver/conhecer/praticar uma nova religião. Existem também os não adeptos ou sem religião, mas nessa fase da vida acadêmica eles já vivenciaram algumas religiões e preferem não ter compromisso com isso no período da graduação.
2.2 Desempenho discente
O desempenho acadêmico discente tem relação com diversos fatores (Souza, 2013, Miranda et al., 2015), sejam eles internos ou externos, como, por exemplo: questões familiares ou sociais e experiências escolares (Rivkin; Hanushek; Kain, 2005); formação do corpo docente; estrutura da instituição, como condições das bibliotecas e das salas de aula; atributos dos próprios estudantes, como a forma de utilizar seu tempo; e outras variáveis demográficas (Miranda et al., 2015).
De acordo com Camargos et al. (2013), o desempenho discente é composto por elementos referentes às seguintes dimensões: corpo docente, corpo discente e instituição de Ensino Superior. Santos (2012) e Souza (2013) destacam que o desempenho dos estudantes é afetado pela interação entre características próprias dos discentes, como aspectos pessoais, fatores socioeconômicos e recursos dos cursos e instituições de ensino.
Para Wang (2017), o desempenho acadêmico é a maneira como o discente responde a objetivos previamente definidos, sejam eles de curto ou de longo prazo, em busca de sua realização acadêmica. Entretanto, Sales e Castro (2021) enfatizam que não existe consenso sobre uma possível definição do que é desempenho acadêmico, embora os autores descrevam que ele é resultado da maneira como os alunos despendem tempo e energia para aprimorar seus conhecimentos.
Por meio das avaliações, de modo geral, é que ocorre a mensuração do desempenho acadêmico, mas torna-se necessário, para isso, estabelecer uma base para a análise. Essa base pode ser mais simples ou mais complexa, podendo ser a nota de uma avaliação, a nota de uma disciplina, a nota média do período ou a média geral acumulada (Miranda et al., 2015), entre outras possibilidades.
Algumas variáveis são mais incidentes em estudos que utilizaram medidas internas de mensuração do desempenho acadêmico, como gênero, idade e horas de estudo (Miranda et al., 2015; Borges et al., 2018). O coeficiente de rendimento acadêmico (CRA), uma forma bastante usual de avaliação do desempenho acadêmico, pela facilidade de acesso a esses dados junto às IESs (York; Gibson; Rankin, 2015, Miranda et al., 2015; Borges et al., 2018), é também o meio mais frequente de mensuração do desempenho acadêmico, conforme a literatura (Martins e Marinho, 2019).
Outra forma de mensuração do desempenho é a autoavaliação. Cornachione Júnior et al. (2010) apontam que essa é uma opção diferente, em que o aluno pode determinar qual foi o seu desempenho como discente. Para Cheng e Chan (2003), a autoavaliação é definida como a percepção e a avaliação que os universitários constroem a partir das experiências com as aulas, atividades e provas desenvolvidas, e essa avaliação permite ao jovem compreender sua própria visão sobre seu desempenho.
Souza, Cruz e Lyrio (2017) analisaram se há associação do índice de aprovação no exame de suficiência contábil com o desempenho discente e a qualidade dos cursos superiores no Brasil. Os resultados evidenciaram que há associação entre as três variáveis.
Meurer et al. (2018) verificaram a relação do desempenho acadêmico com as características observáveis e as experiências estudantis dos alunos de Contabilidade de uma instituição pública de Ensino Superior na região Sul. Quatro variáveis apresentaram relação significativa: reprovação em disciplina, horas de estudo extraclasse, disciplina de conteúdo profissional e nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). As características observáveis dos alunos da instituição de Ensino Superior e as experiências estudantis influenciaram o desempenho.
Martins e Marinho (2019) analisaram a relação entre as variáveis concernentes às dimensões “corpo docente”, “corpo discente” e “IES” e a variável “desempenho acadêmico”. As variáveis referentes a estratégia ou método de ensino (dimensão “corpo docente”), status socioeconômico, absenteísmo, desempenho escolar anterior, horas de estudo e motivação (dimensão “corpo discente”) e ambiente de estudo e forma de ingresso (dimensão “IES”) apresentaram relação com a variável “desempenho acadêmico”.
Santos et al. (2020) analisaram os fatores socioeconômicos, demográficos, comportamentais e psicológicos que diferenciam o desempenho acadêmico de estudantes portugueses da área de negócios. Conforme os achados, o desempenho acadêmico difere de acordo com: nota de ingresso no Ensino Superior; idade; frequência; facilidade para cálculos matemáticos, interpretação de texto e raciocínio lógico; horas de sono e de estudo; formação do professor; e tabagismo.
Os estudos citados mostraram diferentes elementos que compõem o desempenho discente alcançado no Ensino Superior. Um destaque foi obtido no estudo de Meurer et al. (2018), que mostra que o desempenho do aluno durante o ensino médio (medido pelo Enem) tende a se refletir na sua carreira acadêmica subsequente.
Além disso, o desempenho no Ensino Superior sofre influência, ainda, de aspectos relacionados ao discente, ao docente e à IES. Martins e Marinho (2019) salientam que as variáveis ligadas aos docentes e à IES decorrem de demandas estruturais e metodológicas. No caso dos discentes, porém, o que influencia é o esforço empreendido e fatores socioeconômicos. Aspectos citados por Martins e Marinho (2019) são reafirmados na pesquisa de Santos et al. (2020).
Apesar de a literatura apresentar fatores relacionados ao desempenho, pouco se sabe sobre o desenvolvimento dos alunos no período pandêmico, momento em que foram abertas diversas exceções em relação à presença (mesmo em aulas remotas) e à troca de avaliações descritivas por trabalhos, havendo uma adaptação forçada tanto por parte dos estudantes quanto das IESs e dos corpos docentes.
3 Procedimentos metodológicos
Tendo em vista o objetivo geral deste trabalho, foi realizada uma pesquisa quantitativa e descritiva por meio de um estudo do tipo survey, tendo como instrumento de coleta de dados um questionário com perguntas fechadas de múltipla escolha, do tipo Likert.
O estudo teve como objeto uma universidade pública, localizada na Região Sul do Brasil, que possui 64 cursos de graduação, 14 de residência, 24 de especialização, 33 de mestrado, 13 de doutorado e que, em números totais, congrega 11.800 discentes, cerca de 900 docentes e 1.200 técnicos administrativos em educação. A população do estudo, no entanto, foi constituída pelos alunos de graduação dos cursos de Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comércio Exterior e Gestão de Cooperativas, da modalidade presencial, abrangendo 1.463 alunos no total.
Para estimar o número de alunos que compõem a amostra da pesquisa, foi calculada a amostra representativa do estudo, tendo como parâmetros erro amostral de 8% e nível de confiança de 90%, chegando-se ao total de 99 alunos considerados representativos da população de alunos dos cursos em análise. Por meio da aplicação do instrumento de coleta de dados, chegou-se ao total de 116 respostas. Todos foram contatados previamente por meio das redes sociais Instagram e WhatsApp.
No momento que antecedeu a aplicação dos instrumentos de coleta de dados, foi realizado um pré-teste, entre os dias 10 e 20 de outubro de 2022, junto a três especialistas docentes, com o objetivo de verificar os itens quanto à sua redação, sua compreensão e sua adequação. Foram identificadas algumas melhorias necessárias, como a adequação da questão relacionada ao estado civil dos respondentes e o aprimoramento na promoção do foco da pesquisa. Foi constatado pelos especialistas que, para responder o questionário, seriam necessários entre cinco e sete minutos. Concluída a etapa de pré-teste, foram realizadas as adequações e foi iniciada a coleta de dados, que ocorreu em novembro de 2022.
Para a coleta, foi aplicado um questionário utilizando a plataforma Google Forms, tendo os alunos concordado com o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) para participação neste estudo. O instrumento de pesquisa foi constituído de três blocos, sendo eles: levantamento do perfil sociodemográfico do estudante (bloco 1); questões relacionadas à religiosidade dos respondentes, utilizando-se a Escala de Religiosidade de Duke (Durel) (bloco 2); e, por fim, os respondentes foram questionados quanto à sua percepção sobre o próprio desempenho acadêmico (bloco 3) – para tanto, foi usada a Escala de Autoavaliação de Desempenho Acadêmico (Eada).
Especificamente, a escala Durel, desenvolvida por Koenig, Parkerson Júnior e Meador (1997), traduzida e validada por Moreira-Almeida et al. (2008), tem o objetivo de mensurar a religiosidade de determinado indivíduo. A escala Durel possui cinco questões, sendo que as duas primeiras avaliam as religiosidades organizacional e não organizacional e as três finais, a religiosidade intrínseca. Cabe ressaltar que os itens foram avaliados separadamente dentro de suas dimensões – dessa forma, os escores das dimensões não foram somados como um escore total (Koenig; Parkerson Júnior; Meador, 1997; Moreira-Almeida et al., 2008) –, sendo, então, calculada uma escala para a religiosidade.
Já a escala Eada, formada por 18 questões de autopercepção, foi desenvolvida por Souza (2013) para verificar o desempenho dos estudantes, representando de forma numérica o quanto de conhecimento foi explorado e assimilado pelo acadêmico, o que é expresso, em geral, por meio das notas obtidas no decorrer do processo avaliativo (Meurer et al., 2018). Caso o estudante tenha pontuações elevadas, isso indica avaliação positiva, notas satisfatórias, compreensão dos conteúdos e atenção às tarefas, entre outros aspectos. Uma pontuação baixa indica uma avaliação negativa do estudante sobre seu rendimento e seu comportamento escolar por meio da ferramenta de autopercepção.
Cabe mencionar que este estudo seguiu os preceitos da Resolução nº 510 do Conselho Nacional de Saúde, de 7 de abril de 2016, que dispõe sobre as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais cujos procedimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente obtidos junto aos participantes do estudo, e obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, vinculado ao Conselho Nacional de Saúde (CNS), conforme o parecer consubstanciado nº 5.589.762.
Os dados coletados por meio do questionário foram posteriormente tabulados em planilha eletrônica, utilizando-se o software Statistical Package for the Social Sciences (SPPS) para a estimação dos resultados, a qual se inicia com o cálculo de estatísticas descritivas. Após a estimação da estatística descritiva, foi realizada a etapa de estatística multivariada, por meio da estimação dos testes de análise da variância (Anova) de uma via e do teste T de Student, com o objetivo de conhecer melhor a amostra de respondentes. Posteriormente, foi calculada a correlação de Pearson e, por fim, foi feita a análise de regressão linear múltipla, de acordo com as prescrições de Field (2009), Silva (2016), Fávero e Belfiore (2017) e Hair Junior et al. (2019). Foram estimados, ainda, os testes de pressupostos para o modelo, entre eles o teste de Kruskal-Wallis, o teste de Levene e o teste de Shapiro-Wilk, e foi observado o teorema central do limite para auxiliar a análise dos resultados.
4 Resultados
Esta seção apresenta os resultados da pesquisa, organizados em cinco etapas. Inicialmente, é apresentado o perfil sociodemográfico dos respondentes, seguido da mensuração do nível de religiosidade e do nível de desempenho acadêmico dos estudantes. A quarta etapa contempla a relação entre o nível de religiosidade e o nível de desempenho. Na quinta e última etapa, é debatida a influência das características do perfil sociodemográfico no nível de religiosidade e no nível de desempenho dos estudantes.
Após a aplicação dos 116 questionários, foi possível conhecer o perfil demográfico da amostra, constituída prioritariamente de pessoas do gênero feminino (67,2%) e, em sua maioria, de pessoas com idade entre 19 e 24 anos (35,34%) e entre 25 e 28 nos (25,87%). No que tange à etnia, os respondentes, em maioria, se declararam brancos (79,3%) ou negros (10,7%). Quanto ao estado civil, a maior parte se declarou solteira (58,6%) ou casada (38%). Entre os estudantes, 30,2% moram com os pais e 26,7%, com familiares, e 71,6% se mantêm financeiramente exercendo atividade remunerada. O curso com maior participação na pesquisa foi o de Administração (42,25%), seguido dos cursos de Ciências Contábeis (25,87%) e Ciências Econômicas (21,55%).
Ao serem questionados sobre aspectos pandêmicos, 89,7% dos alunos (104) afirmaram ter mantido sua residência habitual, e 63,79% (74) realizaram alguma atividade presencial no primeiro ano de pandemia, entre os quais 78,4% afirmaram ter tentado manter, ainda que parcialmente, o isolamento. Ao serem inquiridos sobre a privação do convívio familiar, 43,1% afirmaram ter se privado de ver os familiares, enquanto 56,9% não tomaram esse cuidado. A maioria dos alunos afirmou achar que havia contraído, em algum momento, Covid-19 (67,2%), tendo 65,5% apresentado algum tipo de sintoma. Especificamente sobre a testagem, 37,1% relataram não ter feito o teste, enquanto 36,2% obtiveram resultado negativo para a doença ao realizá-lo. Em termos de suporte psicológico/psiquiátrico durante a pandemia, 85,3% afirmam que o tiveram. Uma parcela de 81,9% da amostra estava fora dos grupos de risco para a Covid-19. Ao serem indagados acerca da prática de algum exercício físico, 62,1% afirmaram ter ficado sedentários durante o período. Quanto aos estudos sobre alguma disciplina de interesse, 90,52% não os realizaram.
Para verificar o nível de religiosidade, foram realizados dez questionamentos aos estudantes, dos quais cinco foram feitos para verificar o perfil religioso e os outros cinco foram referentes à escala Durel. No que tange ao constructo, 87,1% dos discentes afirmaram acreditar em Deus (101) – 83,17%, desde sempre –, com 36,4% sem religião, porém espiritualizados, seguidos de 17,3% de católicos e 16,5% de evangélicos. A maioria se declarou moderadamente ou pouco religiosa – 36,2% e 27,6%, respectivamente. Além disso, 73,3% não se perceberam mais religiosos no primeiro ano de pandemia.
Buscando aprofundar a análise, foi aplicada a escala Durel, cuja estatística descritiva é apresentada na Tabela 1.
Tabela 1 Estatística descritiva do nível de religiosidade.
| Religiosidade | Obs. | Mín. | Máx. | Média | Mediana | Moda | Desvio padrão |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Organizacional | 116 | 0 | 5 | 0,86 | 0 | 0 | 1,491 |
| Não organizacional | 116 | 0 | 5 | 1,73 | 1 | 0 | 1,766 |
| Intrínseca | 116 | 0 | 4 | 2,37 | 2,67 | 4 | 1,350 |
Fonte: Dados da pesquisa.
Conforme exposto, a partir das classificações de Moreira-Almeida et al. (2008), as médias apresentadas para religiosidade podem ser consideradas baixas. Especificamente para a religiosidade organizacional, conforme os pressupostos de Koenig e Büssing (2010), a média de 0,86 indica que grande parte dos alunos não participou de encontros religiosos físicos, como cultos, missas ou grupos de oração. A mediana que indica o ponto médio das respostas foi zero, assim como a moda, que é o valor das respostas que mais se repete. Tendo em vista que o desvio padrão foi de 1,491, entende-se que, mesmo que a maior parte dos alunos não pratique a religiosidade organizacional, ainda existem alunos que participam ativamente e que alavancam o índice.
A religiosidade não organizacional apresentou média de 1,73, o que indica uma fraca religiosidade não organizacional, de acordo com a classificação de Moreira-Almeida et al. (2008). Ao mesmo tempo, o desvio padrão foi novamente elevado (1,766), indicando que existem alunos que praticam a religiosidade não organizacional e outros que não a praticam.
Por fim, a religiosidade intrínseca mostrou a maior média (2,37) entre as três dimensões, tendo-se em vista que a escala variava entre 0 e 4 e percebendo-se uma tendência positiva em relação às respostas dos alunos. Para reforçar, a religiosidade intrínseca dos estudantes apresentou uma mediana de 2,67, indicando que o ponto médio das respostas foi superior à média encontrada. O desvio padrão nessa questão foi de 1,350, menor que o das duas dimensões anteriores, indicando que as respostas mostraram menos variação entre os estudantes.
A etapa seguinte consistiu na verificação do desempenho discente, realizada por meio da aplicação da Eada, que foi respondida a partir da autopercepção dos estudantes que compunham a amostra. Desses, 37,9% concordaram que tiram boas notas e não têm dificuldades de aprendizagem, seguidos de 15,5% e 14,7% que estão, respectivamente, em discordância ou em concordância total com tal afirmação. Ao serem indagados se tinham aprendido o conteúdo e obtido as notas desejadas, 36,2% dos respondentes concordaram, assim como também concordaram (44%) que se consideram estudantes com bom comportamento, esforçando-se em seus estudos (33,6%). Em relação à afirmação “Todos me admiram pelo meu excelente desempenho”, 37,9% concordaram com ela, e 34,5% foram neutros quanto ao seu bom desempenho e à boa atuação dos professores. Além disso, em relação à afirmação “Procuro aprender mais sobre assuntos que estudo”, 33,6% concordaram, seguidos de 30,2% que se mostraram neutros. A estatística descritiva desse constructo é apresentada na Tabela 2.
Tabela 2 Estatística descritiva do desempenho dos estudantes.
| Obs. | Mín. | Máx. | Média | Mediana | Moda | Desvio padrão | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Desempenho dos estudantes | 116 | 1 | 4,833 | 3,1389 | 3,1778 | 3,33 | 0,78 |
Fonte: Dados da pesquisa.
Na EADA, de acordo com a indicação da Souza (2013), a média do constructo varia de 1 a 5, em que 1 representa péssimo desempenho e 5, ótimo desempenho. Ao se observar os resultados apresentados, percebe-se que a média referente ao nível de desempenho dos estudantes, de 3,1389, indica desempenho médio com tendência positiva, independentemente de eles terem vivenciado um momento delicado, devido à pandemia. Conforme Meurer et al. (2018), os estudantes, apesar da pandemia, ainda mostram indícios de que obtiveram notas regulares, mantendo coesão na compreensão dos conteúdos e atenção às tarefas, entre outros aspectos que seriam exigidos em sala de aula no formato presencial.
Ao se observar as demais informações estatísticas, é possível ter uma visão mais ampla, pois pela mediana obtém-se a confirmação de que o ponto médio da amostra foi de 3,1778, um pouco superior à média encontrada, sendo que isso mostra que mais alunos tiveram notas superiores à média apresentada e que a média pode ter sido influenciada por menos alunos com notas muito ruins. A moda apresentada foi de 3,33, indicando também uma tendência mais positiva que as outras informações estatísticas. Nessa variável, o desvio padrão foi de 0,78, indicando harmonia entre respostas e respondentes.
Após se conhecer a percepção sobre religiosidade e desempenho dos alunos, conforme a Tabela 3, procedeu-se à análise da correlação desses dados, com o objetivo de entender o comportamento dessas variáveis conjuntamente, tendo como base os pressupostos de Fávero e Belfiore (2017) e Field (2009).
Tabela 3 Correlação de Pearson entre nível de religiosidade e desempenho dos estudantes.
| Religiosidade organizacional | Religiosidade não organizacional | Religiosidade intrínseca | Desempenho acadêmico | ||
|---|---|---|---|---|---|
| Religiosidade organizacional | Correlação de Pearson | 1 | 0,413 | 0,407 | - 0,036 |
| Sig. (2-tailed) | 0 | 0 | 0,702 | ||
| N | 116 | 116 | 116 | 116 | |
| Religiosidade não organizacional | Correlação de Pearson | 0,413 | 1 | 0,564 | - 0,052 |
| Sig. (2-tailed) | 0 | 0 | 0,579 | ||
| N | 116 | 116 | 116 | 116 | |
| Religiosidade intrínseca | Correlação de Pearson | 0,407 | 0,564 | 1 | 0,054 |
| Sig. (2-tailed) | 0 | 0 | 0,565 | ||
| N | 116 | 116 | 116 | 116 | |
| Desempenho acadêmico | Correlação de Pearson | - 0,036 | - 0,052 | 0,054 | 1 |
| Sig. (2-tailed) | 0,702 | 0,579 | 0,565 | ||
| N | 116 | 116 | 116 | 116 | |
Fonte: Dados da pesquisa.
Como pode ser observado na Tabela 3, sendo o N a amostra obtida durante a pesquisa, as dimensões da religiosidade apresentaram relações médias – a relação entre a religiosidade organizacional e a religiosidade não organizacional com um índice de 0,413 e relação entre a religiosidade organizacional e a religiosidade intrínseca com um índice de 0,407, indicando que a religiosidade organizacional tem uma associação com as outras dimensões.
Da mesma forma, a religiosidade não organizacional e a religiosidade intrínseca apresentaram a maior associação, de 0,564, dentro do constructo. Como o Sig. (2-tailed) foi inferior a 0,10, isso significa que é uma correlação significativa. Porém, em relação à correlação entre as dimensões da Durel e a análise do desempenho dos estudantes, foi observado que a correlação é baixa. As correlações entre desempenho e religiosidade organizacional e entre desempenho e religiosidade não-organizacional se mostraram fracas e negativas – respectivamente, - 0,036 e - 0,052. Apesar de mostrar correlação positiva, a religiosidade intrínseca também indicou correlação fraca com o desempenho, sendo o valor encontrado de 0,054. Como dado confirmatório, o Sig. (2-tailed) apresentou índices elevados em relação ao mínimo indicado, de 0,10 (Fávero e Belfiore, 2017), sendo que os resultados foram de 0,702 para a religiosidade organizacional, de 0,579 para a religiosidade não organizacional e de 0,565 para a religiosidade intrínseca.
Dessa forma, percebe-se que houve uma relação quase nula entre o desempenho dos alunos e seu nível de religiosidade (Field, 2009; Fávero e Belfiore, 2017). Os resultados mostraram que, entre as dimensões da religiosidade e o desempenho dos estudantes, existiu uma correlação baixa, quase nula – no caso das religiosidades organizacional e não-organizacional, a correlação mostrou-se negativa (Moreira-Almeida et al., 2008).
A etapa seguinte consistiu na estimação da regressão linear múltipla, com o objetivo de conhecer a influência, no desempenho dos alunos, das variáveis “religiosidade organizacional”, “religiosidade não organizacional” e “religiosidade intrínseca” e das variáveis dummies “religiosidade do estudante no primeiro semestre” e “crença em Deus”. Os resultados são apresentados na Tabela 4.
Tabela 4 Análise de regressão.
| Modelo | Coeficientes não padronizados | Coeficientes padronizados | t | Sig. | ||
|---|---|---|---|---|---|---|
| B | Erro padrão | Beta | ||||
| 1 | (Constant) desempenho | 59,328 | 3,752 | 15,814 | 0 | |
| Religiosidade organizacional | - 0,586 | 1,017 | - 0,062 | - 0,576 | 0,566 | |
| Religiosidade não organizacional | - 0,745 | 0,997 | - 0,093 | - 0,748 | 0,456 | |
| Religiosidade intrínseca | 0,777 | 0,460 | 0,223 | 1,689 | 0,094 | |
| Religiosidade no primeiro semestre | - 0,612 | 3,768 | - 0,019 | - 0,162 | 0,871 | |
| Crença em Deus | - 7,320 | 4,517 | - 0,175 | - 1,620 | 0,108 | |
Fonte: Dados da pesquisa.
Conforme exposto, as religiosidades organizacional e não organizacional mostraram relação negativa com o desempenho dos estudantes, mas essa relação não apresentou significância estatística. Relação semelhante, porém não estatística, também foi obtida ao se analisar as duas variáveis dummies (“religiosidade no primeiro ano” e “crença em Deus”) incluídas no modelo. Dada a formalidade das duas dimensões, esses achados reforçam o destaque de Kinnaman (2021) de que, em comparação com seus pais, os jovens demonstram uma sensível redução na adesão religiosa e uma menor aceitação da imagem de autoridade das igrejas.
Para a religiosidade intrínseca, no entanto, observou-se que o aumento de 1 ponto nessa dimensão elevou o desempenho dos alunos em 0,77, relação que é estatisticamente significativa, ao nível de 10%. Tal achado pode ser justificado tendo por base os argumentos de Lucchetti et al. (2015), ao discutir que a religiosidade intrínseca auxilia o estudante a lidar com o estresse e a ansiedade, sendo capaz de ajudar o aluno a manter uma disciplina de estudos e fazendo com que ele permaneça concentrado nos prazos e nos objetivos futuros. Nesse contexto, são poucos os estudos que verificaram o impacto da religião na vida dos estudantes, sendo que um dos estudos foi o de Rost (2021), que mostra que a religiosidade dos estudantes não esmoreceu durante a pandemia. Mesmo fisicamente afastados, eles continuaram buscando alternativas para manter o seu contato religioso. Por meio de tecnologias digitais, os estudantes se aproximavam de sua comunidade religiosa e, em alguns casos, até mesmo jovens que nunca haviam tido contato com a religião começaram a participar de encontros online.
De forma complementar, com o objetivo de identificar se existem diferenças estatisticamente significativas nos níveis de religiosidade e desempenho acadêmico dos alunos participantes da pesquisa em relação às suas características sociodemográficas, foi realizado o teste Anova de uma via, sendo necessário cumprir um dos dois pressupostos: normalidade dos dados e/ou homogeneidade da variância.
Iniciou-se pela estimação dos testes de pressupostos para o nível de religiosidade, especificamente para identificar se a amostra de dados da pesquisa apresentava distribuição normal. Foi realizado o teste de normalidade de Shapiro-Wilk, recomendável para amostras com N maior que 100 observações (Favero, 2017). O teste tem em sua H0 – hipótese nula – que a distribuição da amostra é normal (p-valor > 0,05) e em sua H1 – hipótese alternativa – que a distribuição da amostra não é normal (p-valor < 0,05) (Favero, 2017). Conforme mostrado na Tabela 4, todos os escores de religiosidade (organizacional, não organizacional e intrínseca), cujos valores de significância do teste (p-valor < 0,05), evidenciam a não normalidade da distribuição da amostra. Resultado semelhante foi obtido para o desempenho acadêmico dos respondentes.
Tabela 5 Teste de normalidade.
| Shapiro-Wilk | ||
|---|---|---|
| Escore | Valor do teste | Valor de p |
| Religiosidade organizacional A1 | 0,386 | 0 |
| Religiosidade não organizacional B1 | 0,233 | 0 |
| Religiosidade intrínseca total | 0,165 | 0 |
| Desempenho acadêmico | 0,962 | 0,002 |
Fonte: Dados da pesquisa.
Embora a distribuição dos dados não tenha apresentado normalidade, esse pressuposto pode, em função de a amostra ser composta por 116 respondentes (amostra > 30 indivíduos), ser relaxado de acordo com as indicações de Hair Junior et al. (2019).
A etapa posterior consistiu na estimação do teste de Levene, para homogeneidade da variância. Havendo homogeneidade, é possível prosseguir com a estimação do one-way Anova; caso as variâncias sejam heterogêneas, é necessário estimar um teste não paramétrico (para dados não normais e heterogêneos) equivalente ao one-way Anova, denominado Kruskall-Wallis.
Na estimação dos testes para identificar possíveis diferenças nos níveis de religiosidade organizacional e variáveis sociodemográficas, os resultados mostraram que alguns dados tinham variância heterogênea, ou seja, o teste de homogeneidade da variância para a religiosidade organizacional foi significativo para as variáveis “residência” e “sustento”.
Para as demais variáveis, verificou-se que o pressuposto de homogeneidade dos dados não foi violado. Em função disso, a estimação do Anova de uma via se mostrou adequada para as variáveis “idade”, “etnia”, “estado civil” e “curso”. Para essas variáveis, o p-valor do teste foi de 0,05, quando analisados idade, etnia, estado civil e curso, evidenciando não existirem diferenças estatisticamente significativas entre essas características sociodemográficas no que tange à religiosidade. Especificamente quanto à variável “gênero”, apesar de haver três opções de resposta (“feminino”, “masculino” e “outro”), apenas um indivíduo entre os 116 respondentes marcou a opção “outro”, tornando-se mais adequada, portanto, a estimação do teste T, que compara apenas dois grupos – nesse caso, feminino e masculino. O valor do teste (p-valor > 0,05) evidencia a diferença entre os grupos, ou seja, o nível de religiosidade organizacional apresenta diferença entre os respondentes que afirmaram se identificar com determinado gênero.
Para as variáveis “residência” e “sustento”, cuja variância não foi homogênea, foi necessário estimar o teste Kruskall-Wallis, equivalente ao one-way Anova. O p-valor do teste em ambas as variáveis, acima de 0,05, evidencia, de modo semelhante ao que ocorre com as demais características, não haver diferença entre os grupos e a religiosidade organizacional.
O Anova tem em sua H0 – hipótese nula – que as médias dos grupos são iguais (p-valor > 0,05) e em sua H1 – hipótese alternativa – que há diferenças entre as médias dos grupos (p-valor < 0,05). Realizou-se o teste de homogeneidade da variância por meio do teste de Levene, que tem em sua H0 – hipótese nula – que as variâncias são homogêneas (p-valor > 0,05) e em sua H1 – hipótese alternativa – que as variâncias não são homogêneas (p-valor < 0,05).
Tabela 6 Homogeneidade da variância e teste F para o nível de religiosidade organizacional conforme as variáveis sociodemográficas.
| Escore | Teste de Levene | Teste F | ||
|---|---|---|---|---|
| Valor | Valor de p | Valor | Valor de p | |
| Idade | 2,389 | 0,073 | 0,902 | 0,443 |
| Gênero* | 0,206 | 0,651 | 4,061 | 0,020 |
| Etnia | 0,234 | 0,792 | 0,051 | 0,737 |
| Estado civil | 0,801 | 0,452 | 0,317 | 0,729 |
| Residência** | 6,585 | 0 | 4,282 | 0,118 |
| Sustento** | 6,399 | 0 | 6,902 | 0,141 |
| Curso | 1,535 | 0,197 | 0,465 | 0,762 |
*Nesse caso, foi estimado o teste T;
**nesse caso, foi estimado o teste F de Welsh.
Fonte: Dados da pesquisa.
Percebe-se, a partir da Tabela 6, que “residência” e “sustento” não apresentaram variância homogênea. Em função disso, foi necessário estimar um teste não paramétrico equivalente ao Anova, denominado Kruskall-Wallis (Favero, 2017). Ao mesmo tempo, o teste F mostrou que “gênero” foi uma variável que influenciou significativamente a religiosidade organizacional.
Na Tabela 7, são apresentados os resultados relativos à religiosidade não organizacional.
Tabela 7 Homogeneidade da variância e teste F para o nível de religiosidade não organizacional conforme as variáveis sociodemográficas.
| Escore | Teste de Levene | Teste F | ||
|---|---|---|---|---|
| Valor | Valor de p | Valor | Valor de p | |
| Idade | 0,165 | 0,920 | 1,042 | 0,377 |
| Gênero* | 0,200 | 0,656 | 1,501 | 0,136 |
| Etnia | 1,061 | 0,350 | 0,527 | 0,755 |
| Estado civil | 1,422 | 0,246 | 0,047 | 0,954 |
| Residência | 0,284 | 0,888 | 0,630 | 0,642 |
| Sustento | 1,177 | 0,322 | 0,497 | 0,738 |
| Curso | 0,629 | 0,643 | 0,614 | 0,653 |
*Nesse caso, foi estimado o teste T;
**nesse caso, foi estimado o teste F de Welsh.
Fonte: Dados da pesquisa.
O teste F apresentado na Tabela 7 mostrou novamente que “gênero” está relacionado a níveis diferentes de religiosidade não organizacional. A Tabela 8 traz os resultados relativos à influência do perfil sociodemográfico sobre a religiosidade intrínseca.
Tabela 8 Homogeneidade da variância e teste F para o nível de religiosidade intrínseca conforme as variáveis sociodemográficas.
| Escore | Teste de Levene | Teste F | ||
|---|---|---|---|---|
| Valor | Valor de p | Valor | Valor de p | |
| Idade | 0,766 | 0,515 | 0,837 | 0,477 |
| Gênero* | 5,877 | 0,017 | 3,242 | 0,002 |
| Etnia | 3,179 | 0,027 | 3,415 | 0,636 |
| Estado civil | 1,027 | 0,361 | 1,670 | 0,193 |
| Residência | 1,632 | 0,171 | 1,914 | 0,113 |
| Sustento | 0,884 | 0,452 | 0,997 | 0,412 |
| Curso | 2,260 | 0,067 | 0,673 | 0,612 |
*Nesse caso, foi estimado o teste T;
**nesse caso, foi estimado o teste F de Welsh.
Fonte: Dados da pesquisa.
Percebe-se, a partir da Tabela, 8 que “etnia” não apresentou variância homogênea. Em função disso, foi necessário estimar o teste de Kruskall-Wallis (Favero, 2017). Já no que se refere a “gênero”, nota-se uma diferença estatística entre os grupos analisados, tendo em vista que a média da religiosidade do gênero feminino foi de 7,910 e a do masculino, de 4,392, ou seja, esse resultado mostrou que os respondentes do gênero feminino tinham maior religiosidade intrínseca. Esse resultado é parcialmente semelhante aos de Souza et al. (2022), que, em seu estudo com 390 docentes e discentes, evidenciaram que nos três domínios da Durel as maiores médias foram para o sexo feminino. Dessa forma, com base em ambos os estudos, destaca-se que as mulheres têm mais religiosidade do que os homens.
Tabela 9 Valor e significância da homogeneidade da variância e do teste F para o desempenho acadêmico dos respondentes conforme as variáveis sociodemográficas.
| Escore | Teste de Levene | Teste F | ||
|---|---|---|---|---|
| Valor | Valor de p | Valor | Valor de p | |
| Idade | 1,712 | 0,169 | 2,828 | 0,042 |
| Gênero* | 2,931 | 0,090 | 0,912 | 0,364 |
| Etnia | 0,350 | 0,706 | 0,699 | 0,625 |
| Estado civil | 2,079 | 0,130 | 7,799 | 0,001 |
| Residência | 1,700 | 0,155 | 3,298 | 0,014 |
| Sustento | 0,444 | 0,722 | 1,073 | 0,373 |
| Curso | 1,392 | 0,241 | 0,484 | 0,747 |
*Nesse caso, foi estimado o teste T;
**nesse caso, foi estimado o teste F de Welsh.
Fonte: Dados da pesquisa.
Para as variáveis “idade”, “estado civil” e “residência”, foi evidenciada diferença entre os grupos, haja vista que o p-valor do teste Anova foi menor que 0,05. Em função disso, foi estimado o teste post hoc de Tukey para encontrar a diferença. Os resultados mostraram que, especificamente para a idade, a diferença estatisticamente significativa entre as médias ficou “entre 19 e 28 anos” e “entre 29 e 38 anos”. Já em relação ao estado civil, a diferença estatisticamente significativa entre as médias foi entre solteiros e casados. E, na variável “residência”, a diferença estatisticamente significativa entre as médias foi entre “morar com os pais” e “morar com familiares”.
Ao se observar os resultados apresentados sobre a influência das características do perfil sociodemográfico sobre as dimensões da religiosidade e o desempenho acadêmico, entende-se que algumas características sobressaíram, como é o caso do gênero, que se destacou em todas as variáveis analisadas, mostrando que o gênero feminino sofreu mais influência em seu desempenho discente e em sua religiosidade do que o gênero masculino. Foi observado também que o estado civil, a idade e a moradia influíram no desempenho acadêmico, tendo em vista que os universitários mais influenciados no que tange à idade tinham entre 19 e 28 anos. Em relação ao estado civil, os mais influenciados foram os solteiros e os estudantes que moravam com os pais. As demais variáveis não mostraram variância significativa dentro da amostra observada.
5 Considerações finais
Esta pesquisa teve como objetivo geral analisar a relação entre o nível de religiosidade e o nível de desempenho de estudantes de graduação de uma universidade federal do sul do Brasil durante o primeiro ano da pandemia. Para atingir tal objetivo, foram organizados objetivos específicos para nortear a realização da pesquisa.
O primeiro objetivo específico foi identificar o perfil sociodemográfico dos estudantes, sendo que os resultados mostraram que a maior parte dos respondentes era do sexo feminino (67,2%). Em relação à idade, a maior parte dos alunos tinha entre 19 e 24 anos (35,34%). A etnia que compreende a maioria dos estudantes é a branca (79,3%), e a maior parte dos alunos era solteira (58,6%), residia com os pais (30,2%), exercia atividade remunerada (71,6%) e estudava Administração (42,25%).
Foi criado um perfil com características relativas ao período pandêmico, o qual mostrou que a maior parte dos universitários se manteve na residência atual (89,7%), continuou realizando alguma atividade presencial (63,79%), fez o isolamento social (78,4%) e ficou privada do convívio familiar (41,3%). Além disso, 67,2% acreditaram, em algum momento, estar com Covid-19, 85,3% tiveram suporte psicológico durante a pandemia e 81,9% não faziam parte dos grupos de risco. Somente 9,48% da amostra continuou com seus estudos no período pandêmico.
O segundo objetivo específico desta pesquisa foi mensurar o nível de religiosidade dos estudantes. Primeiramente, foram realizados alguns questionamentos sobre o perfil religioso dos alunos, que evidenciaram que 87,1% acreditavam em Deus, 83,17% sempre acreditaram em Deus e 36,2% não tinham religião, mas acreditavam em Deus. Além disso, a maior parte dos alunos (36,2%) se considerava moderadamente religiosa, e 73,3% não se perceberam mais religiosos durante o primeiro ano da pandemia.
Ao se analisar especificamente a escala Durel, pode-se notar que, em relação à religiosidade organizacional, a maior parte dos estudantes (67,2%) nunca frequentava igrejas, templos ou outros encontros religiosos. Quanto à religiosidade não organizacional, a maioria dos alunos (39,7%) nunca ou raramente dedicava tempo à religião. No que diz respeito à religiosidade intrínseca, 40,5% dos estudantes sentem a presença de Deus em sua vida. Uma parcela de 30,2% dos alunos afirmou também que suas crenças religiosas estão por trás de sua maneira de viver, e 28,4% dos estudantes não se esforçavam muito para viver sua religião.
Contrariamente aos achados de Souza et al. (2022) e em acordo com os de Moreira-Almeida et al. (2008), Koenig e Büssing (2010) e Lucchetti et al. (2015), a religiosidade organizacional apresentou um índice baixo, o que pode refletir possíveis estados sociais dos alunos, como a falta de conexão com uma comunidade religiosa e com outras pessoas, a falta de orientações espiritual e moral e a falta de estrutura e disciplina. No caso da religiosidade não organizacional, o índice foi considerado baixo, o que mostrou que os estudantes não realizavam práticas espirituais, como orações ou meditação, e tinham falta de conexão com o divino, o que pode afetar o desenvolvimento de valores e crenças pessoais que orientem suas escolhas e seus comportamentos. Já em relação à religiosidade intrínseca, a análise mostra um nível de 59,2%, considerado regular, resultado mais próximo dos achados de Souza et al. (2022), indicando que os universitários tinham sua moral e seus valores pessoais influenciados por sua crença e apresentavam aumento no senso de propósito e significado da vida, o que promove uma sensação de bem-estar, satisfação e saúde mental.
O terceiro objetivo específico foi determinar, por meio de autopercepção, o nível de desempenho acadêmico dos estudantes. Durante a pandemia, a maioria dos estudantes considerou que: tirou boas notas sem dificuldades (37,9%); aprendeu o conteúdo e alcançou as notas que desejava (36,2%); teve bom comportamento (44%); tirou boas notas por estar com a matéria em dia (32,8%); buscou aumentar as notas, mesmo elas sendo boas (31%); e esforçou-se bastante nos estudos (33,6%). Por outro lado, a maior parte dos alunos considerou que não teve um bom desempenho em todas as disciplinas (30,2%) e discordou de que se deu bem nos estudos por nunca ter necessitado de exame complementar (36,2%). Além disso, 31,9% afirmaram ter estudado para tirar melhores notas, enquanto 37,9% não concordaram nem discordaram que os professores influenciavam as boas notas.
Os estudantes concordaram que obtiveram boas notas devido à realização das tarefas (49,1%), mostraram satisfação com seu desempenho (37,1%) e consideraram positivos seus resultados em provas e atividades (36,2%). Os alunos gostavam de fazer perguntas aos professores para testar seus conhecimentos (34,5%). No entanto, 38,8% deles não concordaram que novos ensinamentos estimulavam um bom desempenho, mas 33,6% concordaram que buscaram aprender mais sobre os assuntos estudados. As médias obtidas mostram que o nível de desempenho dos estudantes foi de 3,1389, ou seja, ficou acima do ponto neutro (3), com tendência positiva, independentemente de eles estarem em um momento delicado, e que, apesar da pandemia, obtiveram notas regulares, mantendo coesão na compreensão dos conteúdos e atenção às tarefas, entre outros aspectos que seriam exigidos em sala de aula no formato presencial.
Alguns pontos permitiram aos estudantes ter vantagens no cenário pandêmico, como ganho de tempo, aproximação com a família, possibilidade de qualificação, ambiente propício e ensino remoto. Por outro lado, porém, alguns fatores afetaram negativamente o desempenho dos alunos, como falta de interação social, falta de suporte técnico, falta de acesso aos recursos necessários e dificuldade de manter a disciplina.
Em resposta ao objetivo geral do estudo, ao se verificar a relação entre o nível de religiosidade e o nível de desempenho de estudantes de graduação de uma universidade federal da Região Sul durante o primeiro ano da pandemia, por meio da análise de correlação de Pearson e da análise de regressão, percebeu-se que a relação entre as dimensões da religiosidade e o desempenho dos estudantes foi baixa, quase nula – no caso das religiosidades organizacional e não organizacional, a correlação se mostrou negativa.
Já os resultados da regressão reafirmaram a fraca influência das religiosidades organizacional e não organizacional sobre o desempenho. Ao contrário dessas dimensões, porém, a religiosidade intrínseca mostrou uma influência forte e positiva sobre o desempenho, em uma proporção de 1 para 0,777, ou seja, com o aumento do nível de religiosidade, aumentava o nível de desempenho. Por outro lado, fica a reflexão de que a maioria dos estudantes considerou ter tirado boas notas sem dificuldades (37,9%), fato que pode explicar a baixa relação entre a religiosidade e o desempenho, uma vez que, quando está dando tudo certo, recorre-se menos à religiosidade.
Ao se analisar se as caraterísticas do perfil sociodemográfico dos estudantes influenciaram o nível de religiosidade e o nível de desempenho acadêmico durante o primeiro ano da pandemia, percebeu-se que algumas características sobressaíram, como é o caso do gênero, que se destacou em todas as variáveis analisadas, mostrando que o gênero feminino sofreu mais influência em seu desempenho discente e em sua religiosidade do que o gênero masculino. Foi observado também que o estado civil, a idade e a moradia influíram no desempenho acadêmico, tendo em vista que os universitários mais influenciados no que tange à idade tinham entre 19 e 28 anos. Em relação ao estado civil, os mais influenciados foram os solteiros e os estudantes que moravam com os pais. As demais variáveis não mostraram variância significativa dentro da amostra observada.
Destaca-se que houve prevalência de mulheres respondentes nesta pesquisa, assim como há maior participação delas em todos os ambientes, inclusive em ascensão e assumindo cargos de liderança, agregando responsabilidades organizacionais e familiares, conciliando casa, trabalho e família. Talvez por esses motivos elas acabem sofrendo maior influência, já que a literatura pregressa aponta também mais religiosidade para as mulheres.
Este estudo é limitado, devido ao número de estudantes que responderam à pesquisa, sendo necessário que mais estudantes possam opinar sobre melhorias que poderiam ser implementadas nas universidades. A religiosidade ainda é um tema escasso em pesquisas empíricas brasileiras e, por sua representatividade na vida e na sociedade, merece atenção especial. Além disso, mesmo com a pandemia, surgiram na pesquisa aspectos positivos que poderiam ser estudados e empregados na educação universitária.
Tendo em vista os resultados encontrados, percebe-se que ainda há muito a se pesquisar em relação à religiosidade, como, por exemplo: investigar os motivos pelos quais a religiosidade intrínseca apresentou resultados muito superiores às religiosidades organizacional e não organizacional; verificar se o sentido de comunidade que as instituições religiosas propiciam favorece o desempenho dos estudantes; evidenciar quais são os aspectos que afastam os universitários das instituições religiosas; analisar, por meio de pesquisa qualitativa, os dados numéricos encontrados para religiosidade e desempenho, para melhor compreendê-los; investigar os solteiros, em épocas de crises sanitárias ou epidemias/pandemias, quanto ao seu desempenho e à sua religiosidade; analisar o aumento do acompanhamento psicológico frente à diminuição do acompanhamento espiritual dos estudantes, dado que a religiosidade é imaterial e o profissional de psicologia sabe ouvir, falar e orientar, o que é distinto da orientação religiosa. Essas são algumas sugestões de pesquisa para estudos futuros.
Em relação aos docentes, a contribuição deste estudo está na reflexão de que eles podem disponibilizar materiais e encontros para tratar da religiosidade, com as demandas referentes à identidade, ao autoconhecimento, aos valores e à diversidade, cujos campos sociais, culturais e religiosos são amplamente demandados e vistos como formas específicas para aplicação no campo universitário. Esse espaço pode ser de escuta e de fala e pode contribuir para que as pessoas sejam mais compassivas, generosas, pacientes e atentas a si, aos outros, à natureza e ao ambiente, independentemente das diferentes religiosidades.
Dessa forma, depreende-se que é relevante que o docente seja sensível à sua dimensão espiritual e busque conhecer teorias e metodologias de suporte para a prática docente, com foco no desenvolvimento dos discentes e de seu desempenho. Para o discente, os resultados contribuem para o reconhecimento e a reflexão sobre sua atual situação quanto ao seu desempenho no curso em que está matriculado. Os resultados também podem sensibilizar os estudantes em relação à própria religiosidade como forma de autocuidado, de desenvolvimento do ser e de autoconhecimento, o que pode aumentar o otimismo em momentos de tensão – e isso pode acarretar melhora do apoio social.
Com essa sensibilização em relação às dimensões da religiosidade, de acordo com as inclinações pessoais e, às vezes, coletivas, pode-se prover um rumo norteador, com um equilíbrio e uma centralidade em meio ao caos – como o que foi vivenciado na pandemia – e aos desafios diários enfrentados, promovendo bem-estar e desenvolvimento positivo. Por esse motivo é possível vislumbrar-se como se podem acrescentar informações acerca da religiosidade como forma de compreender o desempenho discente em diferentes contextos.














