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Educação: Teoria e Prática

versão impressa ISSN 1993-2010versão On-line ISSN 1981-8106

Educ. Teoria Prática vol.34 no.67 Rio Claro  2024  Epub 05-Set-2024

https://doi.org/10.18675/1981-8106.v34.n.67.s17811 

Resenhas

Pela estrada afora: pelos caminhos do conto Chapeuzinho Vermelho

Along the road: along the paths of the tale of Little Red Riding Hood

Por el camino: por los senderos del cuento Caperucita Roja

Cristina Martins Fargetti1 
http://orcid.org/0000-0001-8999-8601

Laura Martins Fargetti2 
http://orcid.org/0000-0001-6510-8563

1Universidade Estadual Paulista, Araraquara, São Paulo – Brasil. E-mail: cristina.fargetti@unesp.br.

2Universidade Estadual Paulista, Araraquara, São Paulo – Brasil. E-mail: laura.fargetti@unesp.br.

MORAES, F. Chapeuzinho Vermelho na escola, : mil anos de história. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.


O livro de Fabiano Moraes, apesar de ter tido origem em sua dissertação de mestrado em Estudos Linguísticos, portanto, em um contexto acadêmico, é uma obra de leitura muito agradável a amplo público de leitores, das áreas de linguística, literatura, educação e psicologia, por exemplo. Publicado em 2022, em primeira edição, ele antecipa as comemorações do primeiro registro escrito da história Chapeuzinho Vermelho: em 2023, comemoram-se os mil anos de existência registrada desse conto. Ele já existia bem antes do registro medieval, de 1023, feito por Egberto de Liège? Não sabemos, mas podemos imaginar que sim e podemos nos questionar: o que esse conto tem que o faz tão conhecido ao longo de tanto tempo? Uma pergunta para o livro de Fabiano Moraes.

Nossa memória remete o conto a Perrault e aos irmãos Grimm, respectivamente, séculos XVII e XIX. Saber de seu registro medieval e das múltiplas versões que passou a ter é algo que o livro de Moraes nos proporciona e nos aguça a curiosidade. De nossa infância ouvindo “Pela estrada afora eu vou bem sozinha…”, pela coleção “Disquinho”, recuperamos a lembrança das músicas da Chapeuzinho Vermelho e do lobo mau e concordamos com o autor que são de conhecimento geral ainda hoje, tendo sido gravadas nos anos 1960, por composição de João de Barro (1965), famoso músico brasileiro.

O caráter sexual do conto, segundo Moraes, é apontado por inúmeros autores, que referem uma característica de conto de iniciação sexual feminina, veiculado por tradição oral feminina, mas tendo sido recontado por homens, no início, com característica religiosa, no caso medieval, e posteriormente em adaptação burguesa feita por Perrault. Na versão desse autor francês, segundo Moraes, Chapeuzinho Vermelho é devorada pelo lobo, recaindo sobre ela a culpa do ataque, a sua morte e a morte da avó, num conteúdo moralizante que culpa a mulher. Ele aponta que esse final seria diferente para os Grimm, que introduzem o lenhador como salvador de avó e neta, sendo esta versão a mais conhecida a partir dos linguistas alemães.

Com a preocupação da abordagem em sala de aula de outras versões do conto, Moraes nos apresenta, baseado em vários autores, um percurso de Chapeuzinho Vermelho ao longo da história que, seguramente, é desconhecido pelo público. Relata-nos a existência de versões orais coletadas entre os séculos XIX e XX, as quais são referidas como A história da avó e constam de coletâneas na França e mesmo na Itália, como no livro de Ítalo Calvino, Fábulas italianas. Essas versões se aproximariam, em parte, da versão publicada por Perrault, o que mostra a tradição oral europeia ainda resistindo com o passar do tempo, segundo pensamos. Em uma sociedade grafocêntrica como a nossa, saber da persistência de versões orais de histórias já amplamente difundidas em livros é algo que nos surpreende, pois acreditávamos que os contos tradicionais tivessem sido, há séculos, fixados numa escrita e, com isso, inibido, ou mesmo extinguido, a contação oral dessas histórias.

Moraes nos afirma, na página 35, seguindo alguns autores, que a versão de Perrault é uma dupla violência: violou uma tradição camponesa predominantemente feminina e fomentou a violência, com a menina como objeto sexual. Seguindo Marín (2015), Moraes vai dizer do cristianismo observado já na versão de Egberto de Liège, na Idade Média, e do caráter burguês nas versões posteriores de Perrault e dos Grimm. O autor (seguindo Zolkowski, 2007) nos mostra que a primeira versão escrita, medieval, ocorreu em um livro manuscrito escolar, em versos em latim, uma vez que Egberto de Liège era professor de trívio, ligado à igreja católica. É uma origem já na tendência escolar, posteriormente observada, de usar contos e fábulas para educar e para veicular preceitos morais. Essa versão medieval teve o título “Sobre a menina salva dos filhotes de lobo”, e segundo a tradução feita pelo próprio autor (Moraes, 2022, p. 55-56), a menina de túnica vermelha, recebida do padrinho em seu batismo, ao sair descuidada, foi capturada por um lobo como alimento para seus filhotes, mas estes não conseguiram mordê-la por conta da proteção espiritual de sua túnica do batismo, que a salvou milagrosamente da morte. Moraes aponta a pouca oralidade da versão medieval, pois se destinava a educar; as versões de Perrault e dos Grimm teriam traços da oralidade, como reprodução de vários diálogos entre as personagens. Além disso, o possível caráter sexual do conto, segundo Moraes, pode ter sido excluído por Egberto de Liège, pois era educador cristão.

Baseado em autores como Nelly Novaes Coelho (Coelho, 1991), Moraes nos diz que Perrault, no final do século XVII, foi o autor que inaugurou o gênero literatura infantil, com obra voltada especificamente para as crianças. Contudo, podemos questionar essa afirmação, pois se a literatura infantil sempre esteve ligada à escola, quer em projeto religioso, quer em projeto burguês, seu início poderia ser pensado como anterior, tendo sido os autores medievais, que faziam uso de contos e fábulas para ensinar, provavelmente os primeiros autores do que se entende por literatura infantil. Antes deles, os clássicos não teriam obras especificamente destinadas à infância. Por exemplo, as fábulas de Esopo, muito usadas posteriormente na escola, não se destinavam, a priori, aos pequenos. De conteúdo moralizante, as fábulas desse autor teriam, na verdade, origem asiática: Esopo foi um escravo na Grécia antiga, de origem asiática (veja-se a excelente tradução direto do grego feita por Maria Celeste Dezotti – Esopo, 2013). Portanto, junto com a comemoração da origem de Chapeuzinho Vermelho, deveríamos também comemorar a origem da literatura infantil, em seus primórdios, já comprometida com a escola, na Idade Média, há um milênio.

Sobre as versões de Perrault e Grimm, Moraes nos mostra o conteúdo sensual e punitivo de Perrault (Chapeuzinho Vermelho deita-se com o lobo nu e em castigo é morta junto com a avó), conteúdo esse eliminado pelos Grimm, que apresentam o lobo vestido e excluem as mortes punitivas ao final. Isso faz da versão dos Grimm, provavelmente, a mais aceita pelos leitores desde sua publicação no início do século XIX, embora posteriormente tenham-se multiplicado as versões do conto. Sobre essa multiplicação, Moraes apresenta, baseado em sólida bibliografia, motivos políticos (o lobo como judeu, para os nazistas; o adjetivo roja [“vermelha”] evitado na Espanha franquista, em repúdio ao comunismo), motivos ideológicos (evitar a moral repressiva dos contos, dando a eles roupagem reconciliatória – a avó que se esconde e não é devorada, o lobo que é perdoado) e filosóficos (volta às características originais do conto, por influência de leitura psicanalítica, tendo assumida sua função educativa necessária).

Com base em análises de Foucault, que tematizam a construção da verdade, o poder e a punição, Moraes analisa a animação “Deu a louca na Chapeuzinho”, de 2005, elencando temas para debate em sala de aula sobre essa versão do conto e a original, temas que abordam a punição muito frequente, o consumismo, a concorrência, a falta de solidariedade, a busca de poder em detrimento do bem comum. Estes pontos devem ser abordados, criticamente, em sala de aula, segundo o autor.

Em seguida, Moraes analisa o conto “Fita verde no cabelo”, de Guimarães Rosa, discutindo o aspecto imagético da publicação da década de 1990, voltada ao público juvenil. A publicação original havia sido em 1964, poucos dias antes do golpe militar, no jornal O Estado de São Paulo, e seu tom sombrio, trágico, em que a menina vai visitar a avó que falece e não pode mais abraçá-la, vê-la e beijá-la, é sinal da versão adotada por Rosa, a de Perrault, em um conto destinado ao público adulto, antevendo o medo que o momento político suscitava nas pessoas (e que se confirmou na ditadura militar). Moraes analisa a edição juvenil, abordando a noção de Foucault das práticas de si, com a estética de si como busca de tornar a própria vida uma obra de arte, e com isso ele elenca como tema possível de ser discutido, a partir da leitura do conto na sala de aula, entre outros, a finitude da vida, a inevitável morte. Seguramente, esse é um tema importante, contudo pode se tornar inapropriado em ambiente escolar, segundo pensamos, pois pode levar a críticas de pais e responsáveis dos alunos, que o veriam como mórbido demais para seus filhos. Segundo noticiado recentemente, um professor norte-americano foi demitido por abordar esse assunto com seus alunos, pedindo-lhes que imaginassem a morte de cada um deles mesmos, que elaborassem seu testamento e seu obituário; isso não agradou aos pais dos alunos e, para escapar de um processo, a escola demitiu o docente. Com certeza, o tema da finitude da vida é relevante, entretanto merece respeito e abordagem cuidadosa, que seja orientada por psicólogos, em sintonia com as tendências religiosas observadas entre os alunos. Um docente não deve estar sozinho na empreitada de enfrentar um tema polêmico desses, precisa estar amparado, e, pela Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019, aprovada no início de 2022, as redes públicas de Educação Básica devem contar com profissionais da Psicologia e do Serviço Social, que, entre outras atribuições de inclusão social, podem estabelecer com os docentes diálogos e orientações. Basta saber como será implementada tal Lei, diante da escassez de profissionais, e qual a previsão para sua implementação.

Chapeuzinho Amarelo, obra do compositor Chico Buarque, teve, em segunda edição, ilustração premiada de Ziraldo, como nos conta Moraes, que passa a analisar a obra. A Chapeuzinho aqui tem cor amarela como o medo que tem do lobo e, segundo o autor, quando este aparece na história, tenta assustar a menina pronunciando o seu nome LOBO, LOBO, LOBO, diversas vezes, e isso libertaria totalmente a menina do seu medo, porque ela passaria a ouvir BOLO e a imaginar um bolo de lobo; com isso, com a fragmentação da linguagem, novo sentido apareceria, libertador. Principalmente esse ponto é enfatizado por Moraes para ser utilizado na escola, questionando preconceitos veiculados por palavras, que muitas vezes precisam ser ressignificadas por grupos minoritários e marginalizados, e trabalhar tal aspecto tocaria nos temas da ética e da pluralidade cultural. Concordamos com o autor com essa riqueza de discussão, contudo a obra de Chico Buarque tem um problema linguístico que não é observado por Moraes: a palavra LOBO tem a primeira sílaba tônica e a palavra BOLO também. Assim, a pronúncia repetida de LOBO nunca produzirá a sensação auditiva de BOLO. Para existir essa sensação, seria necessário que o lobo tivesse algum engasgo e pronunciasse seu nome como LOBÔ, LOBÔ, LOBÔ, acentuando a segunda sílaba. Mas isso parece pouco natural, tão forçado como passar a entender BOLO a partir da escrita da palavra LOBO em repetições. Mais uma vez nos encontramos com a questão de sermos uma sociedade grafocêntrica. Acreditamos que a dificuldade com a tonicidade das sílabas não tenha escapado à atenção do compositor, tão acostumado a buscar rimas, sonoridades e métricas para suas composições; e isso tanto é verdade que, na sequência de sua história, ele elenca palavras invertidas de propósito pela menina, e aí respeita, quase sempre, as sílabas tônicas: “raio” torna-se “orrái”, “barata” vira “tabará” e por aí vai nosso poeta, respeitando as tônicas em suas inversões cômicas, quase totalmente. Apesar de nosso apreço por essa obra tão querida pelos leitores, consideramos de grande importância que tal observação seja levada em conta pelos professores que forem utilizá-la em sala de aula, uma vez que, ao contrário do que se pensava antigamente quando o aluno era tido como tábula rasa, nossos alunos, desde tenra idade, têm juízo linguístico, pois são falantes nativos da sua língua. Alguns têm, inclusive, questionamentos linguísticos muito precocemente e, para não os inibir e silenciar, precisamos estar preparados para críticas, com um embasamento linguístico. Uma criança pode justamente perguntar: “Como LOBO vira BOLO, se a pronúncia não deixa, professor?”. E aí o professor, no lugar de inibir com uma reprovação da pergunta, deve mesmo congratular um pequeno pesquisador linguista, que conseguiu separar fala de escrita.

Para concluir seu livro, Moraes passa a analisar uma versão indígena do conto. Trata-se de A indiazinha Chapeuzinho Verde, de 2016, escrito por Maria Lucia Takua Peres, formada em Letras, pertencente à etnia Guarani, que vive em aldeia em Itaipulândia-PR. O conto pode ser encontrado na Internet,1 e já foi objeto de estudo em trabalhos acadêmicos. Como fez com as versões anteriores, Moraes resume o conto e passa a fazer sua análise, antes discutindo a relação de europeus e povos originários, infelizmente a partir do ponto de vista de um europeu, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. No início do livro, Moraes havia feito alusão ao antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro e sua teoria do perspectivismo, mas ele não aparece nas referências bibliográficas ao final e suas ideias não são discutidas no livro. A escolha de Viveiros de Castro poderia ter levado a discussões antropológicas intrigantes, sob o ponto de vista de um intelectual brasileiro. Moraes, entretanto, aborda texto de Ailton Krenak, e, com as ideias de Krenak, passa a dialogar com a versão guarani da Chapeuzinho. Tudo iria bem se os krenak2 e os guarani tivessem uma mesma cultura, uma mesma língua, e se Ailton Krenak fosse um pensador que representasse ambos. Mas não é assim. Os krenak e os guarani são grupos muito distantes, com outras formas de pensar, com línguas totalmente diferentes, com diferentes organizações sociais e histórias. Para compreender um trabalho feito por uma indígena guarani seria mais apropriado aproximar-se dos guarani, mais do que Moraes fez, mais do que procurar saber o significado apenas de tekoha. Infelizmente, o autor cometeu o erro comum de igualar povos diferentes na mesma classificação “indígena”. Sua iniciativa de trazer uma versão indígena do conto europeu é, contudo, louvável, traz à luz a produção de uma representante de um povo minoritário, que, vencendo o preconceito por ser mulher e indígena, conseguiu se formar em um curso de ensino superior, tornando-se professora.

Concluímos que a obra de Fabiano Moraes traz um estudo aprofundado sobre o conto tradicional Chapeuzinho Vermelho, em suas inúmeras versões, com discussão de autores que anteriormente a abordaram e com tratamento teórico adequado, sendo que nossas críticas, portanto, não o desabonam. Retomando nossa questão inicial, a saber, “o que esse conto tem que o faz tão conhecido, ao longo de tanto tempo?”, podemos dizer que o autor nos mostra um excelente caminho para essa compreensão e, portanto, seu livro constitui uma leitura muito apropriada para todo professor, principalmente.

1Disponível em: https://guatafoz.com.br/a-indiazinha-de-chapeuzinho-verde/. Acesso em: 14 jul. 2023.

2Segundo uma convenção da Associação Brasileira de Antropologia, na década de 1950, os nomes de povos e de línguas indígenas são invariáveis, não sofrem flexão de gênero e de número. Razão pela qual os nomes dos povos indígenas mencionados não estão com marcas de plural.

Referências

BARRO, J. de. O Chapeuzinho Vermelho. Coleção Disquinho. São Paulo: Gravações Elétricas SA, 1965. Disco de vinil. [ Links ]

BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Brasília: Diário Oficial da União, 2019. [ Links ]

ESOPO. Fábulas Completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. Ilustrações de Eduardo Berliner. São Paulo: Cosac Naify, 2013. [ Links ]

MORAES, F. Chapeuzinho Vermelho na escola: mil anos de história. Petrópolis: Editora Vozes, 2022 [ Links ]

PERES, M. L. T. A indiazinha Chapeuzinho Verde. Foz do Iguaçu: Guatá - Cultura em Movimento. Disponível em: https://guatafoz.com.br/a-indiazinha-de-chapeuzinho-verde/. Acesso em: 14 jul. 2023. [ Links ]

Recebido: 17 de Julho de 2023; Revisado: 14 de Agosto de 2023; Aceito: 16 de Agosto de 2023

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