INTRODUÇÃO
Este artigo aborda a formação do coletivo Mulheres de Luanda, constituído por jovens capoeiristas, cuja trajetória se destaca pela utilização da capoeira e da musicalidade como instrumentos de emancipação e protagonismo em seu contexto social.
A compreensão desses aspectos é fundamentada nas narrativas femininas que emergem do grupo, revelando a maneira como a capoeira e a musicalidade contribuem para o empoderamento das participantes. A formação do coletivo se manifesta por meio da ampliação de encontros regulares e debates, os quais abordam temas sugeridos conforme a integração do grupo.
O texto se estrutura com base em memórias pessoais e anotações de campo elaboradas pela primeira autora, que desempenha o papel de pesquisadora reflexiva. Sua posição é delineada a partir de experiências no campo da capoeira, enriquecidas pela vivência como membro do coletivo Mulheres de Luanda. Vale ressaltar que a pesquisa de mestrado da autora se concentra na investigação dos processos educativos e significativos da capoeira para seus praticantes, além de abordar complexas relações de gênero, vivenciadas desde o início de suas atividades como educadora social em 2016 até os dias atuais.
A capoeira, ao longo do tempo, tornou-se um símbolo crucial para a consolidação do grupo, exercendo papel fundamental na formação identitária das capoeiristas. Este fenômeno é compreendido como um ato de resistência e insurgência dos povos africanos, proporcionando a reconstrução de existências e a criação de narrativas que expressam pertencimento, vida e coletividade (Lima, 2021). A relevância histórica da capoeira como forma de resistência no Brasil durante o período colonial, marcado pelo aprisionamento da população negra de diversas regiões da África, é destacada por Silva e Darido (2017). A manifestação cultural da capoeira é descrita como poderosa ferramenta de resistência contra o colonizador, utilizando o corpo como uma forma de defesa contra a opressão.
Contudo, à semelhança de muitos outros esportes, lutas e danças, a capoeira tem sido caracterizada como manifestação cultural em que a presença masculina é privilegiada, assumindo a representação destemida na transmissão das tradições. Mesmo diante da evidente expansão da capoeira e da notória participação feminina, é crucial destacar que as conquistas das mulheres nesse contexto são fenômenos recentes e ainda não se mostram acessíveis a todas as praticantes (Pereira, Marchi Júnior, 2019). Isso cria uma dificuldade intrínseca na mensuração da influência da mulher na capoeira, uma vez que enfrentam desafios consideráveis para obter reconhecimento no âmbito da prática.
A musicalidade na capoeira desempenha papel significativo como meio de preservação e resgate das memórias dos praticantes. As músicas, em maioria, destacam momentos de repressão enfrentados pela população negra tanto no período colonial quanto na contemporaneidade. Além disso, ressaltam estratégias e habilidades dos capoeiristas, contribuindo para a construção de uma narrativa que transcende a esfera física do movimento, envolvendo elementos históricos e culturais (Silva, 2018).
No cenário contemporâneo da capoeira, é perceptível a evolução das mulheres capoeiristas que buscam superar barreiras históricas e estereótipos de gênero. No entanto, a resistência à plena inclusão feminina persiste, refletindo-se em obstáculos que vão desde a sub-representação em rodas de capoeira até a dificuldade de acesso a oportunidades de ensino e liderança. Essas barreiras reforçam a necessidade de compreender como a musicalidade na capoeira pode contribuir para o processo de emancipação das mulheres, oferecendo um olhar crítico sobre a dinâmica de gênero presente nessa manifestação cultural.
Esse resgate, comumente protagonizado por homens, destaca seus feitos e contribuições, no entanto, acaba invisibilizando as mulheres e/ou desestimulando a maioria, por não conseguirem visualizar suas (re)existências na capoeira. Sendo assim, “[...] os modos de violência (física e simbólica) ganham forma não apenas nas letras das músicas, mas são expostas visivelmente, principalmente, nos jogos” (Pinheiro, 2019, p. 3). É a partir dessas premissas que podemos atrelar novos olhares acerca da participação das mulheres na arte da capoeira, legitimando sua participação.
No ano de 2022, na cidade de Sobral, localizada na região Norte do Ceará, um grupo de capoeiristas, estas inspiradas por suas experiências nas rodas e pelo encantamento com o canto na capoeira, iniciou um projeto cujo objetivo central era a valorização de experiências e saberes. Este movimento visava fortalecer as mulheres enquanto capoeiristas. Identificando-se como um coletivo com recorte de gênero, esse movimento permitiu que as mulheres desenvolvessem percepções e significados pessoais compartilhados.
O objetivo central do estudo desenvolvido foi promover um espaço de fala e escuta, explorando as biografias das mulheres e como se percebiam na capoeira. Durante os encontros, foram identificados aspectos relacionados a privilégios, desigualdades e estratégias práticas para ampliar o conhecimento no âmbito da capoeira. A musicalidade emergiu como característica essencial no discurso das mulheres, desempenhando papel relevante na formação do capoeirista e apresentando-se como uma das principais dificuldades a serem superadas. O domínio dos instrumentos tradicionais da capoeira (berimbau, atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco), de ritmos e canto foi identificado como meio crucial para que as mulheres se sentissem mais pertencentes aos rituais de roda e às apresentações culturais, possibilitando-lhes ocupar espaços e narrar histórias de forma autêntica.
Nesse contexto, a pesquisa foi orientada pelo seguinte questionamento: como a musicalidade na capoeira contribui para o processo de emancipação da construção social de gênero de mulheres capoeiristas? Com base nisso, o estudo buscou investigar as contribuições específicas da musicalidade da capoeira no processo de emancipação das mulheres. O relato da experiência e do estudo desenvolvido visou promover a visibilidade do protagonismo feminino de jovens e adolescentes, considerando o recorte de gênero, o contexto da capoeira em Sobral e como cada integrante manifestava suas relações individuais no cotidiano, aliadas à prática da capoeira regional e à musicalidade. Como resultado dos encontros, muitas integrantes conseguiram desenvolver habilidades como o manuseio do berimbau, do atabaque e do pandeiro, além de alinhar o canto com o instrumento e o ritmo, superando uma das principais dificuldades identificadas. Além disso, as participantes ativamente contribuíram para eventos e palestras, enriquecendo o patrimônio cultural da capoeira e fomentando a inclusão e visibilidade do protagonismo feminino neste contexto sociocultural específico.
BREVES NOTAS SOBRE AS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS PELA AUTORA
Neste espaço, propício à reflexão sobre experiências que moldaram minha identidade como mulher, negra, capoeirista e psicóloga, delineio breves notas sobre o entrelaçamento dessas dimensões. O contexto da capoeira revelou-se como um campo rico em informações e oportunidades de expressão e formação, oferecendo-me perspectiva singular sobre os movimentos do corpo na capoeira, que transcendem a prática física para impulsionar a luta antirracista e a construção do direito à equidade de gênero.
Durante minha trajetória na graduação em psicologia, pude aprofundar minha compreensão sobre a importância da pesquisa e do respeito ao multiculturalismo na cidade em que resido. Adotei a abordagem humanista como uma lente que permeia meu discurso, reconhecendo a diversidade cultural como um elemento essencial na compreensão das subjetividades humanas. A percepção de ser capoeirista e um corpo em movimento na luta pelos direitos humanos direciona constantemente minha atenção para a premissa fundamental: “Quais são os obstáculos que a capoeira precisa superar para integrar melhor as mulheres?” Essa reflexão busca não apenas compreender as barreiras existentes, mas também contribuir para o fortalecimento do patrimônio imaterial, tornando proponente, nesta caminhada, a garantia dos direitos humanos.
Assim, ao unir as dimensões da capoeira, da psicologia e de minha identidade como mulher negra, busco não apenas explorar a interconexão desses elementos, mas também lutar por uma capoeira mais inclusiva, que reconheça e celebre a diversidade de suas praticantes. Esse engajamento não se restringe apenas ao âmbito da prática, mas se estende à pesquisa e à promoção dos direitos humanos, tornando-me uma agente na construção de um cenário mais equitativo e respeitoso para as mulheres na capoeira e na sociedade em geral.
A AUTONOMIA FEMININA NA CAPOEIRA
A concepção de gênero transcende características biológicas, uma vez que a categorização como feminino e masculino é socialmente construída e não determinada por diferenças sexuais biológicas (Moore, 1997). Contudo, uma compreensão equivocada se reflete de maneira pronunciada nas rodas de capoeira, quando as mulheres são frequentemente excluídas do jogo sob a alegação de fragilidade e vulnerabilidade. Essa perspectiva distorcida se manifesta nos treinos, quando as mulheres são frequentemente designadas a exercícios que demandam menos força e destreza corporal, enquanto os homens são desafiados com exercícios mais complexos. Até mesmo no manuseio de instrumentos, as mulheres não são incentivadas a tocar e cantar durante as rodas.
A análise das questões de gênero e das mulheres emergiu como um campo de conhecimento interdisciplinar, permeando naturalmente os âmbitos históricos e educacionais. No entanto, ao longo da história da capoeira, a participação e representatividade das mulheres não foram enfatizadas, sendo frequentemente negligenciadas. Silva, Florêncio e Monte (2019) destacam que o termo gênero foi adotado na década de 1980 como uma expressão que buscava legitimar academicamente os estudos sobre mulheres, abordando essa temática sem necessariamente nomeálas.
Conforme observado por Moraes (2019), a capoeira é marcada por uma notável desigualdade de gênero, evidenciada pela escassa presença de mulheres que se destacaram ou tornaram-se lendas, em contraste com o número expressivo de homens. Essa disparidade, ao longo da história, resultou em diversas formas de violência de gênero, que persistem atualmente, como a exclusão de mulheres de posições de liderança, a falta de reconhecimento de suas habilidades e contribuições, além de episódios de assédio e discriminação dentro dos grupos de capoeira.
As cantigas de capoeira, por sua vez, não fogem a essa dinâmica desigual. Muitas delas perpetuam, de maneira equivocada, a inferiorização da mulher em relação ao homem, reproduzindo machismo, misoginia e preconceitos em suas letras. Essas representações reforçam a violência de gênero nas próprias rodas de capoeira, consolidando estereótipos prejudiciais presentes na sociedade brasileira (Barbosa, 2011). Essa análise crítica ressalta a necessidade premente de desconstruir esses padrões discriminatórios e promover a equidade de gênero nas práticas da capoeira, contribuindo para uma transformação social mais ampla.
Existem poucos registros da existência de mulheres na história da antiga capoeiragem, principalmente mediante reproduções orais de canções, sem referência direta às mulheres capoeiristas, exceto em raros registros escritos de casos isolados.
Os nomes publicados nos escritos de Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Pastinha (1889-1981), fazem parte de um convite às mulheres que se tornaram famosas apenas por ingressarem no universo da capoeira. Como afirmou Pastinha (1960, p. 10) em seu livro, “Todos nascem com a capoeira, não só os homens como as mulheres. Está gravada na história mulheres que jogavam a mandinga e batucavam, como Maria Homem, Júlia, vulgo Fugareira [...]”. No entanto, como sugerem os termos e apelidos utilizados, essas mesmas mulheres eram vistas sob uma perspectiva masculina. Apelidos como Arruaceira, Maria Homem, Júlia Fugareira e Mulher da pá virada demonstram que essas mulheres estavam distantes de desfrutar do mesmo prestígio que os homens capoeiristas (Andrade, Porfírio, Aguiar, 2021).
Sabe-se que algumas das evidências mais antigas sobre a participação da mulher na capoeira são do Norte do Brasil. Há também jornais dos anos de 1876 e 1878 que noticiaram a existência de mulheres capoeiristas transgredindo a ordem pública na Capital Federal, que nessa época era o Rio de Janeiro. Entretanto, a presença feminina na capoeira se dá com maior incidência a partir da década de 1930, quando a mulher aparece como aluna capoeirista nas academias. (Pereira, Marchi Júnior, 2019, p. 4).
Visto que a capoeira é uma manifestação cultural que historicamente tem sido dominada por homens, é crucial que os debates sobre violência de gênero e o apagamento das mulheres sejam tratados com responsabilidade e de maneira contínua nos grupos dessa prática. Apesar de terem sido historicamente invisibilizadas, as mulheres enfrentam e continuam a enfrentar desafios estruturais, buscando progressivamente ocupar esses espaços e, por meio de discussões, destacam e fortalecem suas conquistas e sua presença, na prática da capoeira (Andrade, Porfírio, Aguiar, 2021).
Mesmo com todos os obstáculos, há muitas mulheres que lutam por seus direitos e, de forma coletiva, por narrativas do corpo em movimento e do canto. Ao longo dos anos essa discussão vem tecendo um olhar crítico sobre o papel da mulher na capoeira e suas potencialidades, por meio da construção de coletivos, de análises musicais, de questionamentos dentro de seu próprio grupo de capoeira, como o coletivo Mulheres de Luanda que vem, processualmente, construindo seu caminho e se consolidando.
COLETIVO FEMININO MULHERES DE LUANDA
O coletivo feminino Mulheres de Luanda surgiu com a necessidade de reafirmar a voz da mulher dentro da arte capoeira e confrontar os problemas resultantes de uma sociedade desigual e machista. Apesar do espaço conquistado, percebo que a figura feminina ainda sofre com as mesmas tentativas de silenciamento; um exemplo disso é a misoginia carregada nas letras das músicas de capoeira. Rodrigues (2017, p. 8) relata que a “[...] história musical da capoeira também exibe o desrespeito pela mulher e o papel subalterno ao qual era relegada, dentro e fora da roda de capoeira”.
Pertencentes a esta realidade, mulheres jovens e adultas de uma escola de capoeira localizada em Sobral, Ceará, sentiram a necessidade de se reunir para a criação de um coletivo, do qual a primeira autora deste artigo é integrante. O coletivo foi fundado em 7 de fevereiro de 2022. A primeira reunião aconteceu nesta mesma data e contou com a presença de nove mulheres capoeiristas.
Os encontros são realizados quinzenalmente desde o ano de 2022, inicialmente na Academia da Saúde, espaço cedido pelo gestor do dispositivo, situado em um dos territórios de atuação do grupo de capoeira. Posteriormente, as reuniões passaram a ocorrer na residência de uma das integrantes, configurando este ambiente como o local para a condução de atividades criativas, teóricas e práticas. Essas atividades se dão conforme o plano de ação elaborado, o qual se propõe a abordar temáticas relevantes, como: a História do Brasil colonial; a indagação acerca da narrativa histórica global em modo ficcional em Brasil colônia: início, governo, economia e fim; o apagamento histórico das mulheres e o direito à memória, com ênfase nas questões políticas brasileiras; e o poder político das mulheres, bem como temas relacionados à capoeira, ancestralidade e resistência.
Durante os diálogos promovidos nos encontros, utilizei um diário de campo como instrumento para a realização de registros etnográficos, registrando não apenas informações objetivas, mas também minhas impressões subjetivas em relação às trocas de narrativas ocorridas ao longo do processo. Essa abordagem metodológica visa a enriquecer a compreensão das dinâmicas do grupo e das temáticas discutidas, contribuindo para uma análise mais aprofundada e contextualizada.
Após o primeiro encontro, sentiu-se a carência de designar o coletivo como grupo de estudos e, dessa forma, ter consciência sobre as funções de cada uma dentro e fora da roda de capoeira. Passávamos a nos reconhecer de outras formas e a dar outros significados para nossa prática, consequentemente possibilitando atuarmos em outros espaços de promoção à educação, fossem eles espaços formais ou não formais — nós os estávamos ocupando com novas perspectivas.
Por motivos pessoais, algumas integrantes se desligaram do coletivo e, atualmente, contamos com sete pessoas. Observando as atividades do coletivo evidencia-se, então, o desenvolvimento e aprimoramento individual por meio da troca de experiências, ao compartilharmos saberes sobre toques de instrumentos musicais da capoeira e canto de músicas próprias da arte; identificamo-nos nas vivências e histórias de vida de cada uma, quando se observou o atravessamento subjetivo das participantes, no tocante ao sentimento de empatia e respeito que foram construindo umas com as outras. Cultuava-se a capoeira como responsável por essa construção, que mais tarde chamamos de vínculo.
Um dos propósitos do grupo de estudos é facilitar o processo de iniciação das mais jovens na roda de capoeira, criando relações de amizade e vínculo afetivo, tendo como rede de apoio as próprias participantes. Um trecho da música de Tony Vargas, de domínio público, exemplifica bem isso, quando diz “Quando eu venho de Luanda, eu não venho só”. Essa música faz referência à migração forçada dos negros africanos, assim como aos orixás, divindades da mitologia africana iorubá. O trecho a seguir resultou na escolha do nome do coletivo:
[...] Eu trago ardendo nas costas o peso dessa maldade
Trago ecoando no peito o grito de liberdade
Que é grito de raça nobre, grito de raça guerreira
Que é grito da raça negra, é grito de capoeira
Quando eu venho de Luanda eu não venho só
Quando eu venho de Luanda eu não venho só [...]
A capoeira teve sua origem no período colonial no Brasil; muitas músicas da capoeira representam aquele contexto violento, quando povos africanos aprisionados haviam sido sequestrados de suas terras em navios negreiros, sob as piores condições, passando a viver nesse país em situações subalternas, em condições que repercutem até hoje no cotidiano da população negra, marcada pela desigualdade proveniente da migração forçada e do racismo subalternizante característico do Brasil.
Outra atividade promovida durante os encontros foram os treinos focados em musicalidade e contato direto com instrumentos musicais como berimbau, atabaque, pandeiro e agogô. Mediei essa atividade, pois geralmente as mulheres pouco são incentivadas a tais práticas na capoeira, sendo elas muitas vezes afastadas ou verem negado o direito de estar na bateria (conjunto de instrumentos que compõem a roda de capoeira).
A MUSICALIDADE ENQUANTO INSTRUMENTO DE EMANCIPAÇÃO
Uma das faces do machismo que se faz presente nas rodas de capoeira é a maneira como a mulher é representada nas canções. Algumas cantigas transferem mensagens misóginas, o que contrapõe o processo de transformação que tem ocorrido nos círculos de capoeira com a presença cada vez mais evidente da figura feminina no esporte. Por isso, ao enxergar o caráter formativo da capoeira como modalidade de pedagogia, é preciso refletir sobre qual a função ética e didática das letras das canções, suas implicações e desdobramentos sociais.
Barbosa (2011, p. 1), na busca por identificar a função dessa prática, considera as cantigas de capoeira como tendo uma “[...] função lúdica, ética e didática, sendo utilizadas na roda como ferramenta para transmitir a história e filosofia da capoeira, além das regras do jogo”. A musicalidade nessa manifestação desempenha um papel fundamental desde os instrumentos utilizados até a relação entre a música e a expressão corporal, sendo uma forma de autoafirmação e resistência, capaz de contribuir para a emancipação das participantes; além disso, facilita a comunicação entre jogadores, ditando ritmo, movimento e energia, numa dinâmica que impulsiona os movimentos na roda.
Enquanto grupo de estudos, uma das atividades já desenvolvidas pelo coletivo articulado no início do ano de 2022 foi selecionar algumas cantigas e letras cantadas nas rodas para análise e reflexão, desconstruindo algumas ideias machistas e misóginas presentes em certas letras. Debater o conteúdo e desconstruí-lo em grupo foi o objetivo dessa atividade.
Por mais que cada canção faça parte de uma arte/ritual bastante marcada pela prática musical oral, repassada de mestres para alunos por várias gerações, é difícil precisar e datar o ano em que essas letras foram compostas ou verificar as transformações que elas sofreram. Como refere Barbosa (2011, p. 2), “[...] é comum que as cantigas corroboram certos estereótipos encontrados na sociedade brasileira”.
Diante disso, a capoeira contemporânea do contexto investigado revelou-se, nessa abordagem etnográfica, como um dos espaços em que se pode destacar, na prática, a atitude misógina que predomina ainda em algumas rodas locais.
As letras das canções muitas vezes reverberam o poder masculino como superior e tratam a mulher com insignificância. Outras reproduzem valores sociais, referindo-se à mulher apenas como objeto de prazer para o homem, o qual é referido nas letras ditando o que a mulher pode ou não fazer, vestir e agir. Um exemplo disto se apresenta no corrido, de domínio público, A mulher para ser bonita que em sua letra nos diz:
A mulher pra ser bonita
Paraná
Não precisa de pintar
Paraná
A pintura é do demônio
Paraná
Beleza é Deus quem dá
Paraná
Como se observa, a letra não condiz com a realidade das mulheres de várias idades e contextos que praticam ou que estão inseridas no âmbito da capoeira. Diante das grandes conquistas sociais femininas nas últimas décadas, essa tentativa de controle social e diminuição da mulher é atitude bastante ultrapassada.
No entanto, nota-se que a cantiga citada continua a ser cantada nas rodas, assim como muitas outras, confirmando a hipótese de que alguns valores morais, inculcados pelas letras dessas canções, ainda sobrevivem, apesar de todas as conquistas femininas alcançadas até o momento.
Com base nisso, é impertinente e inaceitável tratar as mulheres com desigualdade de gênero e reproduzir estruturas de prestígio ao homem. Ao falar sobre as mulheres no esporte são reveladas possibilidades de novos olhares, quebra de paradigmas construídos socialmente, assim como justiça de gênero, equidade e inclusão (Andrade, Porfírio, Aguiar, 2021).
Faz-se necessário mencionar que, mesmo com o contexto machista e misógino experienciado por algumas das participantes, diferentemente da canção acima, há vários “cantadores” (termo utilizado na capoeira para quem canta) compondo músicas que contrapõem tais perspectivas, visando estabelecer compreensão às experiências vividas, como a canção de domínio público do Mestre Kilombo Kindawanda, conhecida pela interpretação da mestranda Kallu:
Menina, enxugue a lágrima do rosto
Menina
Enxugue a lágrima do rosto
Olhe bem para o meu olho
Diz apenas a verdade
Pois eu te amo
Eu jamais esquecerei
Foi na roda de capoeira
Que eu conheci você
Menina
Enxugue a lágrima do rosto
Olhe bem para o meu olho
Diz apenas a verdade
Pois eu te amo
Eu jamais esquecerei
Foi na roda de capoeira
Que eu conheci você
Era tão lindo
Tão tão lindo foi
O amor que era tão puro
Por tão pouco se acabou
Menina
O seu corpo é moreno
Sua boca é pequena
Sua pele é macia
Cabelos longos
Jogado ombro meu
Você é minha pequena
Filha de Deus
A composição acima é um relato real que evidencia a existência e a presença da mulher na capoeira, pela paixão de um capoeira que reconhece o sofrimento de sua companheira.
Acerca do ensinamento que as participantes do coletivo desfrutavam com relação à musicalidade, por meio dos relatos foi evidenciada a metodologia de ensino como defasada e, assim, foi solicitado, pelas demais integrantes, a minha participação enquanto mediadora dos treinos em grupos focados na musicalidade.
Como a premissa do coletivo é o empoderamento da mulher capoeirista, destaca-se em nossas ações a ideia de fazer os próprios treinos para as mulheres integrantes, cuja maior dificuldade era justamente aprender a tocar os instrumentos e os toques que representam cada tipo de jogo. Começamos a fazer aulas mais voltadas para os toques e ritmos, e assim surgiu a ideia de produzir um evento de capoeira. O 1° Ginga Sobral: Capoeira, ancestralidade e (re)existência ocorreu em março de 2023 e contou com a presença de professoras/es, contramestres, mestres e alunos de projetos sociais para prestigiarem os cursos de artesanato, maculelê e capoeira regional, celebrando com uma roda de batizado e troca de cordas, tendo como destaque a apresentação cultural das mulheres do coletivo.
Conforme relatado por uma das integrantes, os treinos voltados para os instrumentos e canto era precário:
Primeiro não tinha muita aula de músicas de capoeira, aula de tocar berimbau, tocar atabaque, tinha os instrumentos, mas não tinha muita aula, quando tinha, a metodologia de ensino era precária. Cada tipo de jogo tem a música que se adapta, os toques que formam a dinâmica do jogo. Não se ensinavam os detalhes, queríamos acompanhar os toques e, nisso, muitos integrantes não conseguiam pegar por conta dessa metodologia antiquada. (Relato concedido por uma das integrantes).
Dessa forma, priorizamos os treinos que enfatizam a musicalidade como uma das principais atividades do coletivo, proporcionando que cada uma de nós se reconhecesse como cantadoras, caso assim desejassem. Como consequência dessas práticas, muitas integrantes conseguiram aprimorar suas habilidades no manuseio de instrumentos como berimbau, atabaque e pandeiro, além de sincronizar o canto com os ritmos, superando, dessa maneira, uma das principais dificuldades. Ademais, essas integrantes se destacaram ao participar ativamente de eventos e palestras, contribuindo para a promoção de nosso patrimônio cultural.
Em seus relatos, as próprias integrantes destacaram que o exercício de tocar e cantar em conjunto tem auxiliado em diversos aspectos, como, por exemplo, a desenvolver habilidades de fala em público, uma vez que muitas enfrentavam certa dificuldade devido à timidez. Além disso, essa prática tem ajudado no protagonismo nas rodas, como cantar ditando ritmos e jogos. Entretanto, esse protagonismo muitas vezes encontra-se limitado, dependendo da graduação (corda) e tradição de alguns grupos, pois na capoeira contemporânea existem relações de hierarquia que determinam quem pode ou não executar certas atividades, além de outros papéis que vão sendo desenvolvidos.
Durante esses encontros, foi construída uma rede de apoio na qual uma integrante auxilia a outra, exemplificado pela troca de saberes entre uma das integrantes (sendo a primeira, a pesquisadora) com mais tempo de jogo e compreensão sobre toques, e as demais integrantes do coletivo que, em troca mútua, desenvolveram uma rede de apoio, projetos e apresentações culturais, discursando a respeito da capoeira e seus desdobramentos.
Durante os treinos de toques, ritmos e canto, incentivei as participantes a explorarem canções que abordassem a história da capoeira, especialmente os corridos, uma forma de cantiga que dinamiza o ritmo e é amplamente entoada nas rodas da nossa região. Além disso, busquei letras que destacassem a presença e a participação das mulheres na capoeira. Os encontros foram conduzidos de maneira participativa e prática. Sugeri que cada participante mantivesse um diário de bordo para registrar suas reflexões pessoais sobre as aulas e as pesquisas realizadas. Reuníamonos quinzenalmente, e a frequência assídua das praticantes contribuiu para o desenvolvimento fluido de novos conhecimentos, facilitando a integração das mais jovens ao grupo de capoeira.
O protagonismo surge, então, da sensação de indiferença e conflitos de gênero, próprios de contextos ainda vigentes que estimularam novas formas de melhorar a comunicação e a compreensão de si mesmas, instigando-as a falarem sobre suas inquietações, questionamentos e expectativas.
Apesar de haver participantes de várias faixas etárias, como aquelas que estão no ensino fundamental e ensino médio, assim como outras com mais idade e com mais experiências de vida, juntas desenvolvemos métodos para nos fortalecermos, não somente sobre a capoeira enquanto atividade física, mas também sobre outros aspectos sociais e educativos inerentes à capoeira, valorizando cada uma das mulheres a partir de suas vivências e das trocas de experiências nos espaços de debate que se mantêm.
ASPECTOS CONCLUSIVOS
No transcorrer desse estudo, exploramos a trajetória da mulher na capoeira, evidenciando como esse percurso é permeado por estereótipos e apagamentos da figura feminina na capoeira. Enfrentar os desafios encontrados nesse caminho não se revela tarefa simples, uma vez que a desconstrução de práticas machistas exige reavaliação profunda de atitudes, implicando desconstrução individual e a construção de uma nova estrutura social. Esse processo implica a quebra de fronteiras de gênero que, historicamente, perpetuaram a desigualdade e o apagamento das mulheres na capoeira.
É de se notar que, frequentemente, mulheres subjugadas por uma estrutura patriarcal internalizam discursos machistas, submetendo-se a situações constrangedoras e subalternas em relação aos homens que compartilham o mesmo espaço. Os apontamentos aqui destacados evidenciam que a atuação coletiva das mulheres na capoeira desempenha papel expressivo no enfrentamento das desigualdades entre homens e mulheres. Essa contribuição só se torna possível por meio da coletividade, informação e coragem necessária para narrar novos acontecimentos e construir novos aprendizados.
Conclui-se que o ato de cantar, de refletir sobre as letras das canções e estudar temas relevantes para a vivência na capoeira influenciam positivamente a compreensão individual de cada integrante sobre sua identidade. Além disso, essas práticas contribuem para o desenvolvimento do papel de cada mulher no grupo, proporcionando oportunidades para ressignificação de sentidos e representações associadas a essa expressão cultural.
Por meio dos encontros promovidos pelo coletivo Mulheres de Luanda, juntamente com treinos e estudos, observa-se uma evidente evolução individual das integrantes, assim como significativa contribuição para a ressignificação de laços afetivos; do papel enquanto mulher em uma sociedade patriarcal; e a habilidade de melhor se posicionar nas rodas de capoeira quando confrontadas com atitudes subalternizantes.
A participação das mulheres na capoeira representa um processo contínuo e desafiador, mas é fundamental para a construção de um espaço inclusivo e igualitário. Ao compartilhar nesse artigo a experiência com o coletivo Mulheres de Luanda, almejamos inspirar outras mulheres a lutar por seus sonhos e a transpor barreiras do machismo, em qualquer área de suas vidas.
Finalmente, é crucial enfatizar que a participação feminina na capoeira não é apenas relevante, mas sim reflexo da ocupação de um espaço que sempre pertenceu às mulheres. Estabelecer um ambiente seguro para as capoeiristas mais jovens é um processo gradual, mas por meio de diálogos sobre direitos, equidade e coletividade aspira-se alcançar progressos significativos nessa jornada de transformação.














