CONSIDERAÇÕES INICIAS
A formação permanente de professores constitui-se num processo fundamental para o aprimoramento contínuo da prática docente de modo mais célere e contextual. De forma geral, contribui para a melhoria da qualidade da educação. A sociedade exige, cada vez mais, dos profissionais da área da Educação, um desenvolvimento que dê conta das mudanças sociais, culturais e tecnológicas, por meio de práticas de ensino mais dinâmicas, criativas e inovadoras para os estudantes na contemporaneidade.
Qualificar e investir na formação de professores potencializa-se a construção de novos conhecimentos e habilidades, que se aprimore competências já existentes, que se amplie e ressignifique a compreensão do mundo contemporâneo e se desenvolva práticas pedagógicas mais contextualizadas às demandas socioeducacionais e tecnológicas. Para tanto, os processos que envolvem formação permanente de professores podem ser potencializadores de [re]significação e [re]construção de saberes e fazeres acerca da profissão docente, entre eles aspectos envolvendo as políticas públicas e os processos de gestão escolar e educacional.
Ao mesmo passo que a educação infantil constitui-se numa etapa fundamental na formação básica, em especial, é nela que a criança começa a desenvolver e aperfeiçoar habilidades cognitivas, emocionais e psicossociais e aprende, pela socialização, a se relacionar com o mundo e com outras pessoas, desenvolvendo sua criatividade, curiosidade, hábitos, valores e senso crítico, entre outros aspectos. A escola de educação infantil, sobremaneira, constitui-se em espaço de socialização, em que a criança passa a conviver em grupo e trabalhar as diferenças, sensibilizando-se para a diversidade, o convívio social e coletividades. Nesse sentido, é preciso que os professores se mantenham permanentemente em formação, com vistas à atualização e qualificação de suas práticas pedagógicas e compreensão das múltiplas facetas socioeducacionais que envolvem a formação de crianças.
Nesse cenário, e pelos processos investigativos no curso de Mestrado Profissional do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Gestão Educacional, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), realizou-se uma pesquisa do estado do conhecimento constituída por produções científicas decorrentes de cursos de mestrado e doutorado da área da Educação, e com o foco na formação permanente de professores, em que objetivou-se analisar a produção do conhecimento acerca da formação permanente de professores da educação infantil, no período de 2017 a 2021. Optou-se por esse feito, justamente porque o estado do conhecimento pode proporcionar amplitude e aprofundamento, bem como construção e fortalecimento do campo da Educação, a partir dos delineamentos teórico-metodológicos e dos estudos e resultados de pesquisas encontrados em produções científicas disponibilizadas em repositórios confiáveis.
Parte-se do pressuposto de que os conhecimentos adquiridos com o processo inicial de formação docente não podem ficar endurecidos com o tempo. É preciso que se perceba as singularidades e demandas profissionais, no sentido de investimento na formação permanente, célere e contextual. Para que se acompanhe os desafios da sociedade e se eduque para a participação social, precisa-se estar atento às necessidades educativas de modo a acolher, dar sentido, compreender e auto(trans)formar-se para estabelecer interlocução e interatuação sobre e com as questões educacionais, entre elas as políticas públicas e os processos de gestão administrativo- pedagógicas, entre outras. Desse modo, a formação permanente requer oportunizar, ao professor, participação ativa e (re)construção do conhecimento em seu processo formativo. Já que, segundo os estudos de Porto (2000, p. 14):
A formação não se conclui, cada momento abre possibilidades para novos momentos de formação, assumindo um caráter de recomeço/renovação/inovação da realidade pessoal e profissional, tornando-se prática, então, a mediadora da produção do conhecimento ancorado/mobilizado na experiência de vida do professor e em sua identidade, construindo-se, a partir desse entendimento, uma prática interativa e dialógica entre o individual e o coletivo.
Imbernón (2010), também vai nesta direção quando defende uma formação fundamentada nas problemáticas das práticas socioeducacionais, reiterando que a escola precisa se constituir o centro da melhoria dos processos educativos. Se a formação não estiver vinculada a questões sociais e educacionais em íntima interlocução, será dispersa e contribuirá pouco, pois, a educação dos estudantes e a formação docente necessitam ocorrer ao longo da vida e de suas transformações societais.
Nessa direção, a etapa da educação infantil constitui-se prioritária no cenário das políticas públicas, o que permite compreender que a educação é o processo social que mais integraliza o ser humano como tal e o faz atuante no seu meio, evidenciando, assim, a relevância para a socialização na infância e a formação integral humana.
É público que a Constituição Federal do Brasil de 1988 (CF) normatiza e garante o direito à educação, visando o pleno desenvolvimento dos sujeitos antes mesmo do primeiro ano de idade (Art. 205 e 208), a fim de que os indivíduos possam educar-se de modo ativo, promovendo, desde cedo, a transformação do meio social e o avanço do bem comum (Brasil, 1988). Corroborando, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), Lei nº 9.304/96, normatiza no Art. 29 que: “A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” (Brasil, 1996).
Destaca-se, nesta perspectiva, a necessidade de as políticas públicas para a educação infantil e de profissionalização de professores que atuam nesta etapa estarem em constante atualização, visto que, entre outros aspectos, as políticas públicas e a formação permanente de professores contribuem com a qualificação e possíveis melhores condições de trabalho para que o exercício da docência aconteça de forma mais contemplativa e de acesso e sensibilização a todos os estudantes. Logo, ao construir estado do conhecimento, acerca da formação permanente de professores, buscase estar contribuindo para o fortalecimento do campo da Educação Infantil e da formação de professores no Brasil.
Com esta expectativa de estabelecer um diálogo profícuo com a produção do conhecimento acerca da formação permanente de professores da educação infantil, nas seções deste artigo, apresenta-se a metodologia adotada na pesquisa do estado do conhecimento, o percurso recorrido, bem como os resultados e reflexões acerca dos achados, as considerações finais e as referências utilizadas.
ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
A metodologia utilizada foi a do estado do conhecimento, com base na análise de conteúdo para a construção, categorização e análise dos dados. Deste modo, realizou-se uma pesquisa embasando-se na perspectiva de que
[...] a construção do Estado do Conhecimento, fornece um mapeamento das ideias já existentes, dando-nos segurança sobre fontes de estudo, apontando subtemas passíveis de maior exploração ou, até mesmo, fazendo-nos compreender silêncios significativos a respeito do tema de estudo (Morosini, Fernandes, 2014, p. 158).
Também, conforme Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021), o estado do conhecimento é definido como uma pesquisa que está fundamentada na identificação, no registro e na categorização que favorecem a reflexão e a síntese das produções científicas existentes, entre elas dissertações e teses, em uma determinada área e/ou campo de conhecimento. Por isso, as autoras sinalizam a necessidade de haver, como critérios de mapeamento, um recorte temporal (período de tempo), uma definição do contexto (instituições e territórios) e a escolha dos gêneros textuais que serão contemplados (como artigos de periódicos, teses, dissertações, entre outros a definir).
Além disso, Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021) apontam que o estado do conhecimento é um tipo de pesquisa bibliográfica que pode estar associada a estudos bibliométricos, mas não como regra, o que contribui para o avanço da pesquisa científica em determinada área do conhecimento na perspectiva quantitativa e, sobremaneira, qualitativa.
Portanto, escolheu-se uma base de busca na área da Educação, delimitando-se dissertações e teses com o recorte temporal no período de 2017 a 2021, em que se considerou os seguintes critérios para o delineamento da pesquisa, conforme retrata a Figura 1.
A busca das obras junto a BDTD, no período de 2017 a 2021, apresentou indicadores relevantes de pesquisas que versam sobre educação infantil, formação permanente e qualificação de professores. No entanto, ao se observar o foco das produções, muitas não possuíam aderência com a temática a qual se pesquisava. Assim, optou-se por delimitar o rastreio com o auxílio do recurso da Microsoft Ctrl – F, o que permitiu ter produções mais afinadas com os descritores (Formação permanente de professores da educação infantil e Qualificação dos professores da educação infantil), em atendimento ao objetivo desta pesquisa.
A partir disso, as produções científicas selecionadas em cada descritor foram organizadas em tabelas, sendo apresentadas, primeiro, de modo quantitativo para demonstrar o número de obras encontradas e o número de obras escolhidas para análise; depois, de modo qualitativo, destacando título, modalidade, autor, instituição e ano, aprofundando-se as discussões nesta dimensão. Na sequência, a análise das produções escolhidas a partir do resumo, introdução e conclusão, bem como das contribuições qualitativas de cada obra quanto ao objeto desta pesquisa.
RESULTADOS E REFLEXÕES EM TELA
Para melhor visualização e compreensão do mapeamento realizado, inicialmente, apresenta-se um panorama dos dados de rastreio a partir dos descritores. Deste modo, na busca com o descritor 1 - Formação permanente de professores da educação infantil, utilizou-se o descritor tal como redigido e com combinações do operador AND, a fim de permitir maior alcance na pesquisa. Os resultados apresentaram obras diversas, trazendo produções sobre alfabetização, estudos sobre a alimentação escolar e, ao delimitar-se a busca do descritor, selecionou-se, para análise, cinco trabalhos, sendo quatro dissertações e uma tese, conforme demonstra o Quadro 1.
Quadro 1 Dados do descritor 1
| Descritor 1: Formação permanente de professores da educação infantil 2017 - 2021 | |||
|---|---|---|---|
| Dissertações encontradas | 46 | Dissertações analisadas | 04 |
| Teses encontradas | 07 | Teses analisadas | 01 |
| Título | Modalidade | Autor | Instituição | Ano | |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Que saberes anunciam profissionais da Educação Infantil? Um estudo em contexto de uma formação in lócus | Dissertação | Andressa de Oliveira Martins | Universidade Federal de São Carlos/SP | 2017 |
| 2 | Formação continuada e a dimensão formativa do cotidiano | Dissertação | Thais da Costa Motta | Universidade do Estado do Rio de Janeiro/RJ | 2019 |
| 3 | Formação permanente de professores de educação infantil numa diretoria regional de educação de São Paulo: sentidos, contextos e práticas | Dissertação | Patrícia Santana Freire Peres | Universidade Nove de Julho/SP | 2020 |
| 4 | A importância do registro para a reflexão crítica da prática no chão da escola de Educação Infantil | Dissertação | Tais Romero Gonçalves | Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP | 2020 |
| 5 | Auto(trans)formação permanente com professoras: a escuta sensível e o olhar aguçado na do-discência com as turmas multi-idades da Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo/UFSM | Tese | Juliana Goelzer | Universidade Federal de Santa Maria/RS | 2020 |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Na busca com o descritor 2 - Qualificação dos professores da educação infantil, também utilizou-se o descritor tal como redigido e com combinações do operador AND, a fim de permitir maior alcance na pesquisa. Os resultados diminuíram para a metade se comparados aos do descritor Assim, considerou-se para análise apenas duas dissertações, já que as demais produções se afastaram do tema de busca porque tratavam de assuntos como o ensino lúdico, a inclusão na escola e outros mais abrangentes numa perspectiva mais ampla de formação, conforme demonstra o Quadro 2:
Quadro 2 Dados gerais do descritor 2
| Descritor 2: Qualificação dos professores da educação infantil 2017 - 2021 | |||
|---|---|---|---|
| Dissertações encontradas | 21 | Dissertações analisadas | 02 |
| Teses encontradas | 02 | Teses analisadas | 0 |
| Título | Modalidade | Autor | Instituição | Ano | |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Educação infantil no município de Cachoeira do Sul/RS: impasses e perspectivas na formação de professores | Dissertação | Mirian Cristina Hettwer | Universidade Federal de Santa Maria/RS | 2018 |
| 2 | Formação continuada: conhecendo uma experiência com professores e coordenadores pedagógicos do município de São Bernardo do Campo | Dissertação | Aline Maria de Faria Borborema Zan | Universidade Nove de Julho/SP | 2020 |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Com este cenário, visualizou-se produções de apenas três estados brasileiros, realizadas em quatro, dos cinco anos, do recorte temporal, o que evidenciou que o tema investigado é emergente e precisa ser mais explorado no meio acadêmico, a fim de que se construa um escopo epistemológico voltado para a formação permanente de professores da educação infantil. Apesar de se encontrar muitas pesquisas que se realizam na etapa da educação infantil, ainda são poucas as que exploram a formação permanente dos professores da primeira infância.
Nessa conjuntura, do total de sete produções científicas, encontrou-se em abordagens diferentes a potência da formação permanente pensada e realizada de maneira mais específica ou generalista nos contextos de atuação profissional micro (escola) ou macro (rede ou sistema de ensino), tal como representa a Figura 2, que elucida algumas das dimensões científicas que representam a produção do conhecimento nas obras selecionadas.
De modo qualitativo, as produções científicas selecionadas para análise foram lidas e escolhidas a partir de seus resumos, introduções e conclusões, as quais, foram interpretadas como forma de compreender a abordagem do tema, o recorte temporal estipulado e a emergência de se compreender e seguir pesquisando a formação permanente de professores da educação infantil.
Das cinco produções selecionadas no primeiro descritor, inicia-se com a dissertação de Martins (2017), intitulada “Que saberes anunciam profissionais da Educação Infantil? Um estudo em contexto de uma formação in lócus”, que objetivou compreender, dentro de um projeto de extensão universitária, que saberes de profissionais de educação infantil são mostrados na atividade do projeto. A pesquisa priorizou levantar e descrever aspectos referentes à participação e identificar e analisar saberes revelados no contexto desta ação de extensão universitária. De abordagem qualitativa, esta pesquisa foi realizada por meio de levantamento bibliográfico, com o apoio teórico de autores, como Kramer (2005, 2011), Nóvoa (1997, 2013), Gatti (2005, 2009), entre outros, explorando o referencial teórico em torno de temas como formação de professores, educação infantil e saberes. Também, foi desenvolvida técnica de grupo focal, com registro de filmagens e transcrição das imagens e áudio; posteriormente, culminou com a análise de conteúdo. Conforme Martins (2017), os resultados do trabalho despontaram saberes específicos para a atuação na educação infantil e, também, a importância da formação permanente. Assim, a aproximação entre a universidade e as escolas de educação infantil possibilitou a formação em contexto deste grupo de profissionais. Além disso, as conclusões do trabalho corroboram com a premissa da importância de uma formação específica e personificada para esta etapa da Educação Básica.
Hettwer (2018), em sua produção final de mestrado, intitulada “Educação infantil no município de Cachoeira do Sul/RS: impasses e perspectivas na formação de professores”, objetivou conhecer as políticas públicas de oferta formação de professores de educação infantil do município de Cachoeira do Sul/RS. Para isso, realizou um estudo de caso de abordagem qualitativa, em que a coleta de dados aconteceu pela pesquisa documental e realização de grupo focal com profissionais de uma Escola Municipal de Educação Infantil, via Pró-Infância. O referencial teórico-metodológico que qualificou a pesquisa contou com autores, como Ariès (2011), Ostetto (2017), Horn (2004), Barbosa (2008), Oliveira-Formosinho (2002), Kramer, Nunes e Carvalho (2013), para tratar da formação de professores da educação infantil; e com base numa proposta de formação em contexto de acordo com os estudos de Oliveira-Formosinho (2002). Os temas foram sugeridos pelo grupo de trabalho para os encontros formativos que fizeram parte do projeto de formação da referida escola. De acordo com a autora, os resultados evidenciam a necessidade de formação específica de professores para a educação infantil. Os dados permitem perceber que os professores necessitam conhecer o processo de desenvolvimento das crianças e as diversas fontes de aprendizado. As reflexões também ajudam a compreender a relevância do olhar político para a qualificação do trabalho realizado com as crianças, pensando nos seus direitos e respeitando as suas especificidades e potencialidades. Hettwer (2018) salienta as emergências que esta etapa educativa traz e que uma formação mais focada poderia estar permitindo compreensões e fazeres mais imediatos.
Na dissertação de Motta (2019), “Formação continuada e a dimensão formativa do cotidiano”, verificou-se que o objetivo foi de perceber os sentidos da formação, por meio de um diálogo compreensivo com as narrativas das professoras em conversas com as crianças. Se refere a narrativas que contam sobre as concepções que fundamentam as práticas pedagógicas com os pequenos, tratando das experiências e da formação. Sendo esta uma pesquisa-formação, foi elaborada com aporte teórico-metodológico de base (auto)biográfica e os estudos nos/dos/com os cotidianos, tendo como tripé a articulação entre três campos: as concepções de infância, as práticas pedagógicas com crianças pequenas e a formação docente. Como metodologia investigativa, a autora desenvolveu um curso de extensão intitulado “Das artes de fazer às artes de dizer na educação infantil”, propondo a escrita das narrativas docentes nos diários de itinerância. Assim, estabeleceu diálogos formativos com autores, como Nóvoa (1999, 2005, 2012), Pineau (2003, 2010), Josso (2004, 2010), Rancière (2015) e Bakhtin (2011, 2012, 2014), entre outros. Com base na interpretação das narrativas, ao finalizar a pesquisa, Motta (2019) considera que o que move a formação, independente do formato ou proposta, é o fato de os professores estarem disponíveis para viverem o processo. “De desejar formar-se e de fazer um trabalho dedicado e profundo de reflexão sobre as teorias e práticas que arcabouçam a nossa profissionalidade” (Motta, 2019, p. 175).
A dissertação de Gonçalves (2020), intitulada “A importância do registro para a reflexão crítica da prática no chão da escola de Educação Infantil”, investigou o papel do registro reflexivo na elaboração do planejamento na escola de Educação Infantil. De abordagem qualitativa, este estudo adotou como referencial teórico-metodológico princípios da pesquisa-ação baseados em autores, como Elliot (1990), Almeida (2015), Freire (2011), e Zabala (2004), entre outros.
A análise dos dados ocorreu à luz de uma metodologia autoral, que acompanhou a transformação dos registros durante o trabalho realizado. Os resultados apontam que esses registros partiram de uma escrita com caráter primordialmente burocrático e foram se transformando em uma escrita reflexiva, permitindo compreender que este tipo de registro pode ser utilizado como uma ferramenta com potencial de transformação do planejamento realizado pelas professoras e do trabalho docente como um todo. Em suas considerações finais, Gonçalves (2020) releva que a escrita dos registros é um meio formativo bastante válido, visto que “[...] o professor pode revelar seu papel de pesquisador quando escreve, lê o que escreveu, revê o que foi escrito e reflete sobre o que pensou enquanto escreveu, em um movimento circular necessário na formação continuada em serviço” (p. 70). O que leva a compreender que a formação em contexto faz com que o professor enfatize suas realidades e que a escola se construa a partir da escuta e análise compartilhada dos seus movimentos.
A quinta produção se refere à tese “Auto(trans)formação permanente com professoras: a escuta sensível e o olhar aguçado na do-discência com as turmas multi-idades da Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo/UFSM”, de Goelzer (2020). Trata-se de uma pesquisa dialógica desenvolvida com professoras que atuaram, de 2008 a 2018, em turmas multi-idades da Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo (UEIIA), Unidade de Ensino da Universidade Federal de Santa Maria. A pesquisa objetivou compreender os possíveis desafios que a escuta sensível e o olhar aguçado às crianças em turmas multi-idades, da Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo da UFSM, provocam para os processos auto(trans)formativos permanentes com as professoras. Foi desenvolvido um estudo de caso a partir da pesquisa auto(trans)formação de natureza qualitativa, fundamentada nos pressupostos Jossonianos e Freireanos. A dinâmica metodológica da pesquisa esteve ancorada nas cartas pedagógicas e nos círculos dialógicos investigativo- auto(trans)formativos, sendo que a interpretação dos construtos foi realizada a partir da perspectiva hermenêutica. Na interrupção, como Goelzer (2020) intitula as considerações finais, fica compreendido que se constitui um desafio a escuta sensível e o olhar aguçado às singularidades das crianças. As interpretações mostram que as professoras precisam estar dispostas a reconhecer as particularidades das crianças, o contexto da turma e da escola para a atuação e formação. Defende a relevância da permanência dos estudos dessas profissionais, pois, ao acolher peculiaridades, precisa-se buscar conhecimento para reforçá-las e extingui-las, mas também para compreendê-las.
As outras duas produções científicas, do conjunto de sete, discutem a formação permanente ou continuada de professores da educação infantil a partir da organização e oferta de Secretarias e Departamentos Educacionais de determinadas regiões, enfatizando a qualificação dos professores de educação infantil de modo mais amplificado no contexto da gestão educacional.
Neste panorama as duas últimas produções científicas são dissertações, sendo que a primeira tem como título “Formação permanente de professores de educação infantil numa diretoria regional de educação de São Paulo: sentidos, contextos e práticas”, de autoria de Peres (2020). Teve como objeto de estudo a formação permanente na Educação Infantil, oferecida pela Divisão Pedagógica do Departamento de Educação Infantil da Diretoria Regional de Educação Jaçanã, Tremembé, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, de modo a analisar os sentidos, as estratégias, as abordagens e a avaliação da formação oferecida pela respectiva Divisão. De cunho qualitativo, os instrumentos de coleta de dados foram análise de documentos oficiais e entrevista. Os referenciais teóricos relacionados à formação de professores e grupos colaborativos estiveram ancorados em autores, como Gatti (2008), Imbernón (2009), Nóvoa (1995), Tardif (2014), e Fullan (2001), entre outros. Com a culminância dos resultados, Peres (2020) considera que a proposta formativa analisada cumpre o que pretende, mas as educadoras sentem faltam de formações mais culturais, maior tempo para a multiplicação dos conhecimentos adquiridos nas formações e a escuta do grupo de professores, para que as necessidades percebidas por eles sejam consideradas nas formações, mostrando a necessidade de se refletir e estudar os assuntos que surgem nas escolas. Mas, como a proposta é da Diretoria Regional, por vezes, foge das emergências locais, fato que evidencia o quão válido é, em alguns casos, considerar uma formação que se aproxime mais das demandas da realidade escolar e que possa ser realizada de maneira contextualizada.
Por fim, a dissertação de Zan (2020) enfatiza a “Formação continuada: conhecendo uma experiência com professores e coordenadores pedagógicos do município de São Bernardo do Campo”. Tem como objeto de estudo o curso de formação continuada e em serviço “Escola da infância: práticas e fundamentos à luz da BNCC”, oferecido aos professores e coordenadores pedagógicos da Educação Infantil pela Secretaria de Educação em São Bernardo do Campo, São Paulo, a partir do qual emergiram algumas inquietações que motivaram e direcionaram o desenvolvimento da pesquisa. Foi delimitado como objetivo geral analisar a inter-relação dos conteúdos discutidos no referido curso com a constituição da profissionalidade e da prática pedagógica do professor. A pesquisa foi desenvolvida com base na abordagem qualitativa, do tipo pesquisa-ação, cujos instrumentos de coleta de dados foram o questionário com questões abertas e a pesquisa documental. O estudo foi fundamentado em autores, como Nóvoa (1992), Gatti (2019), Pinazza (2004), Kramer (1994), Christov (1998), Andaló (1995), entre outros. Segundo a autora, os resultados obtidos indicam que o referido curso contém características importantes que qualificam a formação continuada em serviço do professor, trazendo reflexões a partir dos conteúdos teóricos respaldados nacionalmente. Ainda assim, algumas colocações afirmam que a formação realizada na escola é um lugar privilegiado para o progresso de todos da comunidade escolar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização do estado do conhecimento proporcionou visualizar, na base de dados da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), um panorama das produções científicas a respeito da construção do campo da formação permanente, na perspectiva de discussão neste trabalho que é com professores de educação infantil.
Sendo assim, após analisar as produções selecionadas e categorizadas, que versam sobre formação permanente e sobre qualificação dos professores da educação infantil em diferentes desdobramentos, cabe afirmar que os trabalhos utilizam bases teóricas e chegam a percepções bem próximas, concluindo que a formação permanente tem muito a ofertar quando acolhida e realizada no contexto de atuação profissional e articulada à proposta político-pedagógica das escolas.
Mesmo com focos distintos, as discussões evidenciam que formar professores da educação infantil, em perspectiva permanente, contribui para uma educação mais contextualizada, equânime, problematizadora e acolhedora, a qual é capaz de formar sujeitos que se desenvolvam nas potencialidades e nas fragilidades de suas particularidades e espaços de atuação profissional.
Todas as produções apontam, e algumas até problematizam, as políticas públicas de formação de professores com vistas à efetivação deste processo formativo e às implicações que ele traz, como as condições de trabalho, a valorização e a inter-relação direta com a qualidade da educação no Brasil, já que a formação dos professores é um dos aspectos indispensáveis para a sua melhoria. Pode-se afirmar que os trabalhos avaliam como regulares as políticas de Estado, no entendimento de que há necessidade de ampla e indispensável revisão e rearticulação contextual.
Nesse sentido, a partir das constatações e análises, é evidente, pelo teor das produções científicas, que se precisa de novas perspectivas que contribuam para soluções de problemas levantados e relacionados ao formato das propostas formativas de professores que atuam na etapa da educação infantil, tendo em vista os temas abordados, os processos reflexivos com discussões e trocas de experiências envolvendo boas práticas, o tempo que o professor tem para se dedicar às formações, o espaço para interações e, até mesmo, os recursos, sejam materiais, pedagógicos, humanos ou financeiros.
Além disso, na análise das produções, percebe-se tentativas de realização de formação permanente, ainda, a prática de diversos projetos que acontecem nas escolas com a intenção de garantir a permanência do processo formativo dos seus professores de maneira mais personalizada, e que são bem-sucedidos, mas que também sofrem as faltas que os sistemas, de modo geral, enfrentam. Nesta lógica, com base na concepção de Nóvoa (1992, p. 16),
Importa valorizar paradigmas de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, que assumam a responsabilidade do seu próprio desenvolvimento profissional e que participem como protagonistas na implementação das políticas educativas.
Por isso, compreender as questões que emergem no contexto das escolas precisa ser o foco das formações. No entanto, o que parece é que está ratificada a ideia de que a formação de professores é apenas voltada para explorar temas mais gerais da área da educação, entendendo esse explorar de modo mais raso e genérico. Ou seja, mudar essa realidade se torna um grande desafio, pois vai além da mudança da proposta formativa. Precisa contemplar a concepção dos professores, a melhoria da atuação de alguns e a valorização por parte do poder público com ofertas de bons espaços, tempos e organizações formativas que oportunizem aos professores ressignificar suas práticas cotidianas e não apenas aumentar os conhecimentos que possuem. O que está em tela é o princípio da formação permanente, ou seja, qualificar conhecimento e boas práticas, ao invés de quantificar conhecimento, títulos e investir apenas na progressão funcional de maneira contínua. Esses são os movimentos básicos e mínimos para que, concretamente, aconteça a formação permanente.
Assim, com a pesquisa do estado do conhecimento, foi possível compreender que a escola se constitui num lócus potente para a formação e desenvolvimento profissional do professor, salientando, mais uma vez, a importância deste estudo, e permitindo a organização de dados científicos no processo de construção do campo da formação permanente de professores da educação infantil.
Ademais, esta busca, categorização e análise possibilitaram visualizar a relevância da presença de estudos e pesquisas que, como infere a Figura 3, são fontes de maior visão, protagonismo e lucidez aos seus simpatizantes, aos que respeitam, consideram e desejam contribuir com o avanço da ciência e, neste caso, da educação infantil.

Fonte: Disponível em: https://www.listasliterarias.com/2022/04/10-melhores-tirinhas-do-armandinho.html
Figura 3 Reflexão sobre a importância da produção de conhecimento
Então, que se tenha cada vez mais estudos, mais pesquisas, mais publicações sobre formação permanente de professores da educação infantil e tantos outros temas caros à sociedade. Que a loucura de e por conhecimento acometa muitas pessoas e seja, cada vez mais, fonte de informação, participação, inspiração e coragem para novos e necessários tempos.
















