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Revista Teias

versão impressa ISSN 1518-5370versão On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.25 no.78 Rio de Janeiro jul./set 2024  Epub 11-Out-2024

https://doi.org/10.12957/teias.2024.83718 

Artigo

DALCÍDIO JURANDIR: do Peixe Frito às páginas de Dom Casmurro

DALCÍDIO JURANDIR: from Fried Fish to the pages of Dom Casmurro

DALCÍDIO JURANDIR: desde el Pescado Frito a las páginas de Dom Casmurro

Lorenna Bolsanello de Carvalho1 
http://orcid.org/0009-0002-0717-1825; lattes: 2853765420247289

Márcia Cabral da Silva2 
http://orcid.org/0000-0002-8748-5893; lattes: 3141195844022565

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/CNPq)

2Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd)


Resumo

O escritor paraense Dalcídio Jurandir compôs o Ciclo do Extremo Norte, conjunto de romances no qual ficcionalizou vivências amazônicas do início do século XX, promovendo a circulação de saberes e de linguagens frequentemente marginalizadas. Seu ingresso na cena literária nacional ocorreu com a publicação de Chove nos Campos de Cachoeira (1941), possibilitada pela vitória do Concurso de Romances Vecchi-Dom Casmurro em 1940. Este artigo tem como objetivo mapear o papel de mediação cultural promovido por epitextos editoriais (Genette, 2009) que envolveram a divulgação do romance inaugural dalcidiano nas páginas do jornal literário Dom Casmurro, uma vez que a apresentação de Dalcídio Jurandir aos leitores do periódico possibilitou a difusão de elementos constitutivos da identidade cultural amazônica. São analisados três artigos jornalísticos relacionados à divulgação do romance e escritos pelos literatos paraenses Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes e Cléo Bernardo. Do ponto de vista teórico e metodológico, a ênfase recai nos pressupostos da História Cultural (Chartier, 2011; 2014), associados à maneira de conceber as relações entre grupos sociais e a circulação da cultura escrita. Este estudo situa-se, pois, na interseção entre a História da Educação e a História do Livro e da Leitura.

Palavras-chave: Dalcídio Jurandir; Chove nos Campos de Cachoeira; epitextos editoriais; mediação cultural; leitura

Abstract

Dalcídio Jurandir, a Brazilian writer from the state of Pará, wrote Ciclo do Extremo Norte, a series of novels in which Amazonian experiences from the beginning of the 20th century were fictionalized, promoting the circulation of knowledges and languages that are often marginalized. This author became part of the national literary scene with the publication of Chove nos Campos de Cachoeira (1941), as he won the Vecchi-Dom Casmurro Novel Competition in 1940. This article aims at mapping the role of cultural mediation promoted by editorial epitexts (Genette, 2009) that involved the dissemination of Dalcídio’s inaugural novel in the pages of the literary newspaper Dom Casmurro, since the presentation of Dalcídio Jurandir to the newspaper readers enabled the dissemination of constitutive elements of the Amazonian cultural identity. Three journalistic articles related to the publicity of the novel, written by the Pará literary writers Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes and Cléo Bernardo, are analyzed. From a theoretical and methodological point of view, the emphasis is on the assumptions of Cultural History (Chartier, 2011; 2014), associated with the way of conceiving the relations between social groups and the circulation of written culture. Therefore, this study is situated in the intersection between the History of Education and the History of Books and Reading.

Keywords: Dalcídio Jurandir; Chove nos Campos de Cachoeira; editorial epitexts; cultural mediation; Reading

Resumen

El escritor paraense Dalcídio Jurandir compuso el Ciclo del Extremo Norte, un conjunto de novelas por lo cual ficcionalizó experiencias amazónicas de principios del siglo XX, promoviendo la circulación de saberes y lenguajes a menudo marginalizados. Su reconocimiento nacional llegó con la publicación de "Chove nos Campos de Cachoeira" (1941), ganadora del Concurso de Novelas Vecchi-Dom Casmurro en 1940. Este artículo tiene como objetivo mapear el papel de mediación cultural de los epitextos editoriales (Genette, 2009) que acompañaron la divulgación de la novela inaugural dalcidiana en las páginas del periódico literario Dom Casmurro, ya que su presentación a los lectores del periódico permitió la difusión de elementos constitutivos de la identidad cultural amazónica. Se analizan tres artículos periodísticos relacionados a la divulgación de la novela, escritos por los literatos paraenses Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes y Cléo Bernardo. En lo que tiene que ver a los presupuestos teórico-metodológicos el énfasis está a la luz de la Historia Cultural (Chartier, 2011; 2014), que investiga las relaciones entre los grupos sociales y la circulación de la cultura escrita. Este estudio se sitúa, pues, en la intersección entre la Historia de la Educación y la Historia del Libro y de la Lectura.

Palabras clave Dalcídio Jurandir; Chove nos Campos de Cachoeira; epitextos editoriales; mediación cultural; lectura

INTRODUÇÃO

Realizado por meio de uma parceria entre a Editora Vecchi e o jornal literário Dom Casmurro, ambos sediados no Rio de Janeiro, o “Grande Concurso de Romances”, lançado em 1939, tinha como objetivo oportunizar a publicação de romances de novos literatos em um contexto em que, segundo Jorge Amado1, o mercado e os programas editoriais brasileiros estavam centralizados em literatura estrangeira ou em nomes já prestigiados pelo cânone nacional. Em 27 de julho de 1940, Dalcídio Jurandir é anunciado pelo periódico como vencedor, fato que possibilitou a publicação de seu romance inaugural, intitulado Chove nos Campos de Cachoeira, e sua inserção na cena literária nacional. Chove nos Campos de Cachoeira, cuja primeira edição foi publicada em 1941 pela Editora Vecchi, é uma obra que narra vivências de sujeitos comuns da Amazônia aproximadamente na segunda década do século XX, período de declínio do Ciclo da Borracha2.

A premiação do concurso contava com o processo de divulgação do título vencedor, que foi então promovido, em parte, nas páginas do periódico. Essa divulgação também visava a garantir a legitimidade do concurso, bem como a confiabilidade das instituições promotoras e dos jurados3, qualidades repetidamente registradas durante a realização do certame. Assim, após a comunicação do resultado do concurso, foram frequentemente publicados anúncios publicitários da obra (antes e depois de seu lançamento) e críticas literárias que a tematizavam. Entende-se que, na apresentação do autor e da obra, em um momento em que Dalcídio ainda era desconhecido por leitores e por intelectuais da cena literária do Centro-Sul brasileiro, foram necessários procedimentos de mediação cultural. Assim, neste artigo4, são discutidos os alinhamentos discursivos inscritos em textos de apresentação produzidos por autores paraenses, levando-se em consideração não apenas as particularidades do periódico em que foram publicados - seus interesses e conveniências -, mas também o lugar de enunciação dos intelectuais que teceram tais avaliações a respeito do romance inaugural dalcidiano. Nota-se que, para se distinguir as fronteiras entre subjetividades e práticas sociais, importam o reconhecimento e a caracterização dos agentes envolvidos com a produção e a divulgação literária (Chartier, 2014); neste caso, escritor, equipe editorial do jornal e críticos literários.

Ademais, nesta investigação, procura-se identificar, nos textos analisados, chaves de leitura que envolvam a reeducação de sentidos e de sensibilidades na perspectiva de realização de um processo de mediação cultural. Conforme afirma Pesavento (2003), por meio da investigação de fontes literárias, é possível verificar vestígios de sensibilidades, valores, razões e sentimentos que moveram sociabilidades de uma determinada época. A Literatura, sendo um registro privilegiado do seu tempo, pode ser tomada como “fonte, traço, marca de historicidade ou sintoma de algo que, desde o passado, venha ao encontro dos problemas postos, fornecendo possibilidades de resposta” (Pesavento, 2003, p. 39) ao historiador a partir de um método rigoroso de análise. E mais, na visão de Júlio Pinto (2024, p. 27), ao se pensar as relações entre ficção e história e a incorporação da literatura na historiografia, importa ter em conta operações mediadas, marcadas por “limites, tensões e possibilidades”. Em decorrência das fronteiras tênues entre uma e outra esfera, neste estudo, o exame desenvolve-se com o devido cuidado em relação à fonte literária e às jornalísticas.

Acresça-se que, no que diz respeito ao exame das fontes privilegiadas neste estudo, adotase o conceito amplo de leitura, com vistas a descrever e analisar comentários veiculados em um periódico por críticos literários, para além dos leitores visados no texto ficcional pelos agentes que produziram a obra. São, portanto, analisados neste artigo três textos jornalísticos publicados em Dom Casmurro, dos quais o primeiro é um artigo de autoria de Dalcídio Jurandir e os outros dois são críticas literárias produzidas por autores paraenses com o objetivo de divulgação do livro. Tais textos jornalísticos são compreendidos na condição de epitextos, uma vez que se reconhece a intenção publicitária ou promocional da obra no periódico como modo de legitimação do concurso realizado pelo jornal. Genette (2009, p. 303) observa a esse respeito que “é epitexto todo elemento paratextual que não se encontra anexado materialmente ao texto no mesmo volume, mas que circula de algum modo ao ar livre, num espaço físico e social virtualmente limitado”. Consideramse, portanto, epitextos produções textuais exteriores à obra, mas a ela associadas. Ao analisá-los, é possível investigar seu caráter de mediação com o público, bem como identificar modos de ler propostos a um leitor-modelo, conceito que seria, segundo Eco (1994, p. 15), “uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar”. Assim, uma vez que os textos analisados foram inicialmente publicados no jornal literário Dom Casmurro, presume-se que o leitor-modelo a quem eles se destinam seja um sujeito letrado, morador do Centro-Sul brasileiro, interessado na cena cultural e literária do período.

Na próxima seção, é analisado o artigo “Tragédia e comédia de um escritor novo do Norte…”, de autoria de Dalcídio Jurandir, publicado em Dom Casmurro no dia 31 de agosto de 1940, pouco mais de um mês após a divulgação do resultado do concurso. No texto, o escritor exprime considerações sobre sua produção jornalística e literária, contextualizando a cena literária paraense, com suas dificuldades de publicação e de projeção. Em especial, é evidenciado o alinhamento do autor ao grupo de intelectuais conhecido como Academia do Peixe Frito, “uma associação informal de escritores, artistas e outros intelectuais que buscava impulsionar a literatura paraense, tanto em termos de produção quanto de publicação e divulgação de obras literárias e textos jornalísticos [...]” (Pereira et al, 2019, p. 1026). Sob a perspectiva da história dos intelectuais (Sirinelli, 2003; Gomes; Hansen, 2016), pode-se percebê-los reunidos em torno de espaços sociais capazes de promover o circuito de ideias, o debate de posições em torno da vida cultural e mesmo das vertentes literárias assumidas ou rejeitadas em um dado momento histórico. Essa parece ser a função mais evidente da Academia do Peixe Frito a ser avaliada nos limites deste artigo.

Na sequência, são examinados dois artigos de autores paraenses veiculados em Dom Casmurro, com o objetivo de identificar procedimentos de mediação cultural e chaves de leitura propostas aos leitores-modelo (Eco, 1994) da obra que, neste caso, se confundem com os leitores projetados pelo jornal literário. Esse exame conta com o reconhecimento e o mapeamento do lugar de enunciação dos críticos literários, uma vez que o alinhamento ideológico e discursivo desses sujeitos, bem como sua identificação ou não com a extração cultural e social de Dalcídio, pode resultar em práticas leitoras (Chartier, 2011), e, consequentemente, em modos de mediação de leitura.

Um escritor novo do Norte: procedimentos de mediação cultural

Na edição 159 do jornal literário Dom Casmurro, no dia 27 de julho de 1940, registra-se o nome de Dalcídio Jurandir na condição de vencedor do Concurso Vecchi-Dom Casmurro com o romance Chove nos Campos de Cachoeira. O concurso tinha como objetivo a promoção de novos literatos. Com esse empreendimento, a Editora Vecchi e o periódico Dom Casmurro assumem o papel de agenciadores de leituras e pleiteiam seu reconhecimento como instituições atuantes na construção do cânone brasileiro.

Concorrendo com mais de cinquenta títulos, Chove nos Campos de Cachoeira trouxe às páginas de Dom Casmurro e à cena literária nacional vivências amazônicas marginalizadas, tais como o menino marajoara Alfredo, que brinca com seu caroço de tucumã sonhando em poder estudar em espaços mais prestigiados, como o Rio de Janeiro ou Belém do Pará; ou a prostituta Felícia, frequentemente retratada em condições de miséria, subjugada a violências e a doenças. Entretanto, tendo como prováveis leitores sujeitos letrados do Centro-Sul brasileiro, distantes de existências marajoaras, como as narradas no livro, seria necessário um processo de mediação cultural que promovesse a introdução de Dalcídio e de sua obra no circuito das Letras nacionais para a legitimação da qualidade e da idoneidade do concurso. Ou seja, tratava-se, no primeiro momento de divulgação do romance, do sucesso do concurso, do autor e da obra, bem como da validação do jornal e da editora como agentes promotores de leitura.

As edições seguintes ao anúncio do vencedor contiveram textos de apresentação sobre Dalcídio Jurandir, destacando-se reiteradamente sua naturalidade paraense. Mas é apenas na edição 164, de 31 de agosto de 1940, que um texto de autoria de Dalcídio é publicado no periódico. “Tragédia e comédia de um escritor novo do Norte…” com o subtítulo: “Fala Dalcídio Jurandir - 1º prêmio do Grande Concurso de Romance ‘Dom Casmurro’ - ‘Vecchi Editor’”. O jornal destaca, em layout centralizado e letras proeminentes, antes da reprodução do texto integral, os seguintes tópicos que seriam abordados pelo escritor5:

Numa vilazinha jogada na solidão do Tapazóz, onde Ford é dono de seringais e de homens - Como recebí a notícia do prêmio de DOM CASMURRO e Vecchi Editor - Primeira versão de ‘Chove nos Campos de Cachoeira’, literatura desenfreiada e preocupação de estilo - 365$000 mensais e uma máquina a prestações - A influência do peixe frito na literatura paraense - A ‘nova geração’ do Pará - Onde se fala de ‘Terra Imatura’ - História da remessa do ‘Chove’ - Significação do prêmio e a obra magnífica do DOM CASMURRO6.

A topicalização apresentada não é aleatória, está associada ao realce dos temas de interesse do jornal. Isso pode ser percebido principalmente no último elemento da enumeração, que elogia o periódico e reafirma a importância do concurso. De considerável extensão, o artigo dalcidiano ocupa mais do que a metade da página do jornal, que, por sua vez, possui formato grande de 41 por 58 cm.

No texto, Dalcídio sublinha explicações acerca de elementos geográficos e culturais amazônicos, como pode ser identificado, por exemplo, em “Dois dias assim no Tapajós, descendo7. Tapajós é um grande rio, seu povo luta asperamente contra a febre, a miseria, a ignorancia, a exploração comercial e vai tirando a sua borracha, o seu caucho, couros e plantando seringa na concessão Ford” (Jurandir, 1940, p. 3). Tais explicações não são isentas ideologicamente, uma vez que Dalcídio, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)8, frequentemente utiliza recursos estéticos e argumentativos, como a ironia, para denunciar a situação de marginalização e de exploração da população amazônica: “Sempre dá um movimento à concessão Ford. Pena é que não deixe que os seus trabalhadores tenham garantia alguma no seu trabalho” (Jurandir, 1940, p. 3).

Dalcídio, após informar que havia recebido dois telegramas parabenizando-o por sua vitória no concurso, passa a descrever seu processo de produção não apenas de Chove nos Campos de Cachoeira, mas também de Marinatambalo9, romance que também havia sido enviado ao concurso, desta vez por seu amigo Abguar Bastos, e que permanecera disputando o prêmio até a etapa final, figurando entre os quatro originais mais bem avaliados. As memórias compartilhadas pelo autor entremeiam os movimentos de sua escrita à sua trajetória pelo estado do Pará, transitando entre diferentes cidades do interior e da capital:

Andei escrevendo em Gurupá, depois num barracão no rio Baquiá Preto nas ilhas de Gurupá, onde era empregado. Ali ensinava os dois meninos do patrão Pais Barreto, a ler, nos livros de Felisberto de Carvalho. Passou o tempo e larguei o troço sob o peso do castigo de tanta presunção literária. Em Salvaterra pensei então retirar do entulho os personagens mal esboçados, o fio de algumas impressões vagamente fixadas e fiz o romance. Nada ficou da tentativa de 1929. Estava de férias como inspetor escolar, na vila de Salvaterra para onde me mudei de Belém, por medida de economia (Jurandir, 1940, p. 3).

Gurupá, Salvaterra e Belém são algumas das localidades estampadas por Dalcídio nas páginas de Dom Casmurro, passando a permear o imaginário dos leitores do periódico. A narrativa das travessias de Dalcídio e de sua composição literária é acompanhada pela reiterada queixa em relação à questão econômica e à falta de incentivo aos escritores e artistas paraenses, como pode ser percebido em: “Saí com os dois romances mas fiquei devendo dois meses de casa, a sessenta mil por mês, e cento e quarenta mil no Veloso, que ainda não pude pagar” (Jurandir, 1940, p. 3). Frequentemente, o autor denuncia a discrepância no fomento à arte nos grandes centros urbanos da época em relação à produção amazônica. Segundo o autor, mesmo o governo paraense estaria mais disposto a financiar projetos de fora do Pará, o que pode ser percebido em: “Aparece uma turminha de malandros metidos a literatos, cantoras, etc., e caem em cheio em cima do govêrno, sangrando o Tesouro. Os da terra ficam no peixe frito” (Jurandir, 1940, p. 3). O “peixe frito” como marcador da identidade paraense segue como tema da escrita do artigo:

Ah! é notável a influência do peixe frito na literatura paraense! Peixe frito é o peixe vendido em postas nos taboleiros do Ver-o-Peso ao lado do mercado em Belém. É a comida para quem não deixa almoço comprado em casa. Ao chegar o meio dia, o pobre se tem a felicidade de haver arranjado dois mil réis leva um embrulhinho envergonhado de peixe para casa. A vida literária do Pará tem se movimentado em torno do peixe frito (Jurandir, 1940, p. 3).

Com a referência ao “peixe frito”, Dalcídio introduz seu alinhamento estético e político à Academia do Peixe Frito, grupo de literatos, jornalistas e artistas paraenses, liderados por Bruno de Menezes (jornalista e poeta), que se reuniam no Mercado do Ver-o-Peso, situado na capital paraense e discutiam as realidades paraense e brasileira, refletindo sobre a produção e a circulação artística e literária nacional. Além disso, o autor promove a mediação cultural ao explicar uma prática alimentícia realizada pela população paraense mais simples: o consumo de peixe frito. Segundo Pereira et al:

[...] sem dúvida, consumir peixe frito era um marcador de identidade e de lugar social de desprestígio; por isso, a expressão que nomeou o grupo traduz muito bem a ideia de resistência e ruptura, proposta por esse movimento, e acentua o seu processo de identificação com o subalterno, com o excluído, com as classes trabalhadoras, com a periferia, com o negro, com os detritos sociais, com os espaços sem pompa, sem brilho e sem frescura da cidade de Belém (Pereira et al, 2019, p. 1028).

Dalcídio faz intensa homenagem ao grupo, utilizando um longo parágrafo para destacar nomes de escritores e artistas dessa geração e das gerações seguintes, conhecidas como “Grupo dos Novos” e “Grupo dos Novíssimos”, que, segundo o autor, “estão fechados na provincia, isolados, boicotados, negados”. Entretanto, o literato subverte o isolamento, o boicote e a negação ao utilizar o espaço de divulgação de seu romance para apresentar à cena literária nacional um quadro dos movimentos artísticos de Belém, revelando inclusive conexões entre intelectuais. É apresentada, ainda, a revista de divulgação cultural Terra Imatura10, dirigida por Cléo Bernardo e Sylvio Braga. O periódico veiculava principalmente temáticas associadas à literatura, às artes e à ciência, apresentando também reflexões de caráter sociopolítico, como o desenvolvimento da região Amazônica, e preocupações relacionadas à justiça social (Coelho, 2003; Maia, 2009).

A posição política e o engajamento de Dalcídio em favor dos excluídos ficam evidentes no excerto a seguir:

Acabei gramando xadrês comum, o mesmo xadrês onde os ladrões de galinhas e porristas passam vinte e quatro horas. Nêle passei três mêses, apenas porque a infamia dos camisas verdes chegava a tudo naquele tempo. Me ficava bem, aliás, estar em companhia daquela pobre gente em ves de estar na companhia dos autores da infamia. E outras histórias. E outras misérias. E a vida do chamado intelectual na provincia é mais trágica do que se pensa. Bancamos bôbos de rei, mas de graça. A não ser a honra dum convite para uma qualquer chateação literária e mais nada. O resto é o peixe frito (Jurandir, 1940, p. 3).

Dalcídio faz referência à perseguição política que vivenciou nos anos 30 pelos integralistas, conhecidos como “camisas verdes”. O autor foi preso duas vezes em função de sua militância e compartilhou a prisão com pessoas desfavorecidas11, das quais conheceu as misérias e as histórias. Essas narrativas, bem como outras recolhidas em sua trajetória por espaços marginalizados do interior e da capital paraense, tornaram-se matéria-prima para a sua escrita literária, uma vez que seus romances são “profundamente marcad[os] pela experiência biográfica, social, cultural, história e política” (Bolle, 2019, p. 23). A voz dos excluídos frequentemente encontra ressonância na produção do escritor, de modo coerente à perspectiva de seus companheiros da Academia do Peixe Frito, segundo Pereira et al:

É nesse sentido que lugares e pequenos momentos do dia a dia, do vai-e-vem dos feirantes, dos estivadores, das pessoas da periferia paraense encontram espaço na literatura para falar de si também. Esse é o grande motivo da APF [Academia do Peixe Frito], visto que ela contribuiu para a formação de uma memória das classes populares na Amazônia, sobretudo em Belém, por meio da vasta produção literária e jornalística de seus membros. Dar voz aos excluídos pelas elites, fazê-los viver e significar por meio da palavra, num tempo em que não se falava nem se pensava em políticas públicas para a população mais carente, é uma posição política de engajamento muito consciente do escritor, já que, a partir dessa atitude, muitas vozes tradicionalmente silenciadas pela força da colonização - que ainda impera na Latinoamérica - (a do negro, do caboclo, do imigrante, do trabalhador, do morador da periferia, do candomblecista) não foram retiradas da cena social, e isso contribui para refrear as tentativas de apagamento desses sujeitos pela sociedade, pela historiografia, pelos poderes públicos (Pereira et al, 2019, p. 1031).

Não apenas de afinidades ideológicas era composto o grupo. Ao apresentar as dificuldades de remessa dos originais de Chove nos Campos de Cachoeira para o Rio de Janeiro, Dalcídio narra o apoio de seus amigos que, entre episódios de frustração e descrença, lhe emprestaram dinheiro e o acompanharam em outras tarefas. Assim, as redes de sociabilidade12 de Dalcídio tornaram-se fundamentais para sua conquista literária. É interessante destacar que Dalcídio foge à tradição de divulgação das qualidades de seu romance e prefere, por várias linhas, explicar os obstáculos sociais e econômicos por que passou para que sua produção chegasse ao concurso. Nesse movimento, abre espaço para evidenciar o coletivo de intelectuais que contribuiu material e ideologicamente para sua produção.

Após apresentar brevemente sua biografia e as dificuldades de sua formação escolar, Dalcídio finaliza o texto parabenizando a iniciativa do jornal: “DOM CASMURRO me lançou e nada posso dizer porque o que ele fez foi agitar a terrível questão dos pobres escritores mergulhados na província” (Jurandir, 1940, p. 3). Desse modo, o excerto corrobora com a ideia de que o concurso cumpriu sua meta de promoção de um escritor desconhecido nacionalmente, passando então a revelar a desigualdade de oportunidades vivenciada pelos autores amazônicos. A respeito de seu romance, Dalcídio utiliza poucas linhas para informar:

Nada mais posso dizer acerca do "Chove nos campos de Cachoeira", porque somente poderia dizer coisas ruins. É um livro tão meu que não sei falar bem dêle, não sei explicar finalmente. Tem tôda a desordem, os defeitos, as lutas dum livro sincero. Eis a coisa ruim que posso ainda dizer... (Jurandir, 1940, p. 3).

Dalcídio subverte o espaço de divulgação de seu livro, utilizando grande parte do texto para expor as precárias condições de publicação na província e para promover o trabalho de seus companheiros de escrita. Para falar sobre o romance, utiliza termos depreciativos, como “desordem” e “defeitos”, ao lado de termos que remetem à resistência e à realidade, como “lutas” e “sincero”. O autor finaliza o texto reafirmando sua identificação cultural como escritor subalternizado da província: “Não me esquecerei nunca da Aldeia” (Jurandir, 1940, p. 3). Cabe destacar que o texto analisado se tornou parte do prefácio da primeira edição de Chove nos Campos de Cachoeira, adquirindo caráter perene e firmando o posicionamento de denúncia construído pelo autor.

Crítica literária e representações da Amazônia

Dentre os nomes citados por Dalcídio Jurandir no texto analisado anteriormente, dois chamam a atenção: “Bruno de Menezes que tem poemas lado a lado com os melhores de Jorge de Lima e Manuel Bandeira” e “meu amigo Cleo Bernardo, um novíssimo, uma alegria e um entusiasmo sem limites e uma das mais puras amizades que encontrei na minha vida”, este, segundo Dalcídio, representante de uma geração “mais remediada” da literatura paraense. A partir da vitória de Dalcídio no concurso, ambos os literatos ganharam espaço em Dom Casmurro para publicar suas avaliações sobre Chove nos Campos de Cachoeira. Assim, observa-se que o resultado do concurso e o esforço de Dalcídio para projetar seus companheiros de produção e reflexão literária possibilitaram a ampliação dos espaços de atuação desse grupo de artistas. Nesta seção, são analisadas as críticas a respeito de Chove nos Campos de Cachoeira assinadas por ambos os autores.

O texto de Bruno de Menezes é publicado na edição 227 de Dom Casmurro, em 22 de novembro de 1941, mais de um ano após a publicação do texto dalcidiano examinado e pouco mais de três meses depois do lançamento do romance, que havia ocorrido no dia 16 de agosto de 1941. O autor inicia sua avaliação promovendo um contraponto entre o livro dalcidiano e as publicações anteriores, de outros autores, que tematizaram a Amazônia:

Todo e qualquer romance amazônico que pretenda viver a realidade ambiente e o conflito humano da terra, terá de ser desnorteante como Chove nos campos de Cachoeira.

Os livros que inutilizaram tantas gerações malogradas, desta região sem escritores, praticaram esse delito, porque ficcionavam com exagero, mentiam à finalidade de sua função histórica.

O volume que aspire uma tentativa de veracidade do nosso drama, não será nunca sobrecarregado de paisagem, nem de almas líricas e essencialmente românticas. Tem de fugir à fantasia literária, à apresentação de falsos tipos, à forma e ao entrecho da obra desenhada (Menezes, 1941, p. 6).

O uso do adjetivo “dernorteante” para qualificar o romance é utilizado de modo valorativo, indicando a necessidade de se enfrentar a sensação de desorientação para que se possa conhecer “a realidade ambiente e o conflito humano da terra” amazônica. Segundo o autor, romances anteriores “ficcionavam com exagero”, utilizando uma perspectiva romântica e fantasiosa sobre o território. O ponto de vista de Bruno de Menezes associa-se à sua preocupação com a inserção da literatura de expressão amazônica no contexto modernista nacional e com o movimento de revisão de conceitos e formas literárias. Pacheco (2003) afirma que, de modo diverso à passividade registrada em livros de História da Literatura, os literatos paraenses, liderados por Bruno de Menezes, já nos primeiros anos da década de 1920, se reuniam para promover debates sobre a renovação literária no Pará:

No Pará e na Amazônia, de um modo geral, assim como em São Paulo, os intelectuais que estavam à margem do cânone literário começaram a se reunir, formar grupos, debater e partir para operar mudanças não só no campo literário, mas também no campo político, econômico e social. O que Georgenor Franco talvez queira explicar é que não estávamos de braços cruzados esperando que São Paulo enviasse a nova moda literária (Pacheco, 2003, p. 171).

Bruno de Menezes não cita diretamente os autores que “ficcionavam com exagero” a Amazônia, mas provavelmente estava criticando sujeitos que não experimentaram, em sua formação, as dores da vivência periférica, sendo meros observadores de um recorte, distanciados e, portanto, mais tendenciosos à fantasia e à idealização do espaço. Vestígios desse posicionamento podem ser observados nos parágrafos seguintes do artigo:

Submissos a esta natureza, que abate o mais animoso, e só admite o fracassado, só aceita o que se acomoda com sua grilheta de vencido, o que não reage, passivo e sem ambições, aos imperativos do meio, assim, sob o esmagamento de tamanhos complexos, jamais poderemos servir de modelos para personagens bem acabados.

Por isso é que, observado e sentido o mundo que nos estrangula, vemos que o homem deste quadrante ainda é uma criatura orfanada, debatendo-se no seu próprio desânimo, encarando as situações de precariedade alimentar e pobreza, com uma aparente revolta feita de ironia e de sarcasmo (Menezes, 1941, p. 6).

É interessante o uso da primeira pessoa do plural no excerto destacado. Ao afirmar que “jamais poderemos servir de modelos para personagens bem acabados”, o crítico posiciona-se na condição de amazônida, como tantos outros, que, nas páginas de autores anteriores a Dalcídio, ganharam contornos romantizados. Para ele, as condições da vida “que nos estrangula” com “situações de precariedade alimentar e pobreza” levam à necessidade de uma postura envolta em ironia e sarcasmo. Em outro excerto do artigo, o literato novamente utiliza a primeira pessoa em sua identificação nas condições de leitor e de sujeito representado nas páginas do romance: “Nós todos, que somos a maioria dos sofridos, estamos ali dentro, contracenando com muitas daquelas figuras. Perpassamos nas entrelinhas como destroços, como palhaços de nós mesmos, caricaturados, postos a nú, pela sátira do romancista” (Menezes, 1941, p. 6). Assim como Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes expressa frequentemente a inter-relação entre a situação da população amazônica e as circunstâncias sociais e econômicas a que é relegada, não condicionando a dureza de vida desse grupo apenas a fatores naturais. O autor situa a importância da obra de Dalcídio Jurandir nos âmbitos social e estético:

Não é outro, que não este, o plano e o desdobramento, a que se deveria subordinar, como o fez, o romance de Dalcídio Jurandir. Desunido no equilíbrio de sua estrutura, eriçado de contrastes na sua densidade humana, impetuoso, agressivo, clamante no que de sincero se nutrem as suas páginas, “Chove nos campos de Cachoeira” é o livro oportuno, que as penas mais autorizadas da Amazônia não tiveram a coragem e a conciência de escrever (Menezes, 1941, p. 6).

As características do romance, descrito como “desunido no equilíbrio de sua estrutura”, “eiriçado de contrastes”, “impetuoso”, “agressivo”, são avaliadas nesse contexto como apropriadas, uma vez que permitem uma experimentação estética corajosa e pertinente ao plano de fundo do território amazônico, sendo um livro que exprime consciência social. A “honestidade” e a “fidelidade” são atributos valorizados por Bruno de Menezes na crítica ao livro, a qual segue em um duplo movimento de divulgação não apenas da obra, mas também da vivência amazônica, como se pode observar no excerto a seguir:

A “Rua das Palhas” e os seus casebres acoitando a vagabundagem do prazer; as habitações familiares transformadas em palco de tragicomédias domesticas; as grandes enxurradas alagando cemitérios; uma vida de canoeiros e infelizes se amando debaixo das pontes; caboclos se embebedando; crianças vadias comendo passarinhos balados e investigando como e por onde a gente nasce; - é o realismo constrangedor, mas fiel, que Dalcídio Jurandir transplantou para os seus capítulos.

Não se pode fazer um livro comum, ao agrado daqueles que não sabem o que é miséria, quando as chuvas, ao contrário de privilegiadas zonas marajoáras, entumescem os rios e insulam as palhoças e chalés (Menezes, 1941, p. 6).

Ao longo do texto, o autor tece considerações a respeito das sujeições vivenciadas pela população amazônica, exemplificando-as por meio de menções a personagens masculinos e femininos elaboradas no romance. Realiza, assim, um processo de mediação cultural importante aos leitores do Sul, muitas vezes desconhecedores de tais experiências de subalternização e de violência.

Ao contrário de outros críticos13 que desaprovam a linguagem popular utilizada por Dalcídio como recurso estético, Bruno de Menezes vê potência no constrangedor realismo do livro. Associa, ainda, os livros comuns “ao agrado daqueles que não sabem o que é miséria”, fazendo uma implícita crítica ao cânone nacional, formado muitas vezes por uma literatura excessivamente preocupada com a estética e que pouco se relaciona com as questões sociais. Bruno de Menezes reafirma essa perspectiva, em outro excerto do artigo, quando pontua:

É que a finalidade da obra investe e rompe com a vulgaridade dos tabus.... Descoroçoa, causa arrepios à sensibilidade dos virtuosos do literatismo…

Muito ao contrário, Dalcídio Jurandir deixou fluir num jorro de imagens e frases novas, em determinadas páginas, pensamentos altos, sugestões de liberalismo, e até uma natural jovialidade sem escândalos (Menezes, 1941, p. 6).

Reafirmam-se, portanto, o incentivo e a valorização da renovação estética, fundamentalmente associados à consciência social necessária a romances que se proponham a representar espaços periféricos. O texto é finalizado com a veiculação de mais imagens poéticas e duras que buscam representar o território amazônico e o livro dalcidiano, atuando, assim, como expressões de mediação cultural a leitores-modelo (Eco, 1994) do romance:

Quanto à fisionomia das águas fortes que emolduram as descrições, as introspecções psicológicas, ela está trançada com nitidez flagrante, desde as chuvas prolongadas, engordando a terra, o Arari avolumando o leito e amolecendo barrancos, os mururés florindo em touças variegadas, a desolação da planura a perder de vista, sem a mancha de uma rês, e os desejos mais justos e puros, dos moços que anseiam deixar aquele emparedamento, tombando, desiludidos, como “borboletas mortas”... (Menezes, 1941, p. 6).

O texto de Cléo Bernardo, por sua vez, traz como título “Chove nos Campos de Cachoeira: Faltava nos campos encharcados a sombra de Eutanázio andando” e, apesar de ter sido publicado apenas no dia 13 de dezembro de 1941, na edição 230 de Dom Casmurro, é datado de “Belém, 1-1041”. O texto possui tom poético e é repleto de subjetividade, de modo que, desde suas primeiras linhas, evidencia-se o despertar de impressões e de sensações derivadas da leitura:

Fazia sol, havia vento, era meio-dia quando terminei de lêr “CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA”. O estranho romance objetivo e impessoal de Dalcidio Jurandir. Aceito êsse livro cheio de dimensões e contôrnos como a primeira mensagem da nossa geração. Mensagem dolorosa, acendida de desespero e vida, marcada de verdade (Bernardo, 1941, p. 11).

Novamente, termos frequentemente utilizados de modo pejorativo, como o adjetivo “estranho”, adquirem valor positivo. Cléo Bernardo posiciona-se no texto na condição de leitor, refutando sua expertise: “Não sou crítico e quero dizer deste romance tudo o que os meus olhos viram” (Bernardo, 1941, p. 11). Essa estratégia discursiva busca aproximar o literato dos leitores do artigo, uma vez que possibilita o processo de identificação de sensibilidades e de compartilhamento de sentidos.

A crítica de Cléo Bernardo, de modo diverso às duas anteriormente analisadas, realiza extensa apreciação dos personagens do romance, produzindo um mapeamento detalhado dos tipos humanos apresentados na obra. Entretanto, cumpre essa tarefa justificando as realizações dos personagens como modos de luta pela sobrevivência diante dos dramas humanos. Assim, o artigo alça a escrita dalcidiana a uma expressão da universalidade da dura condição humana, contextualizada em uma região socialmente esquecida, fato que adensa os processos de opressão e de sofrimento. Nesse sentido, o autor sugere suas chaves de leitura: “O povo e a infância, para mim, são as duas fontes de capacidade criadora. Dalcidio foi buscar na enorme miséria do povo e na desordem humana, a causa das primeiras e últimas angústias irreparaveis” (Bernardo, 1941, p. 11).

O texto apresenta variadas referências a literatos brasileiros e estrangeiros e a filósofos. São alguns dos nomes mencionados pelo autor: Katherine Mansfield, Rilke, Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Lúcio Cardoso, Manuel Bandeira, além de Nietzsche e Marie Curie; Dostoiévski é citado três vezes. É possível notar, então, que Cléo Bernardo posiciona-se enquanto conhecedor da tradição literária e do pensamento humanístico. Tais alusões a referências importantes do mundo letrado ocidental, bem como as várias citações diretas incorporadas ao texto, são vestígios de que o leitor-modelo do jornal e, portanto, do artigo seja um sujeito letrado com ampla experiência cultural, capaz de compreender o dialogismo presente no texto de Cléo Bernardo e capaz de se identificar com a postura de leitor por ele performada. Pode-se afirmar, ainda, que a longa intertextualidade tecida por Cléo Bernardo contribui para a valorização de Dalcídio Jurandir, que escapa à escala local e é colocado lado a lado com autores legitimados nacionalmente: “‘Chove’ fica ao lado dos romances de Graciliano Ramos, talvez, o maior romancista contemporâneo do Brasil” (Bernardo, 1941, p. 11). Ao aproximar Dalcídio Jurandir de nomes como Graciliano Ramos e Lúcio Cardoso, o autor enfatiza a densidade psicológica e a qualidade literária presentes no romance social dalcidiano.

Em determinada passagem, ao final do texto, há uma mudança na interlocução, e Cléo Bernardo interpela diretamente o romancista: “Continua, amigo. Que ‘Chove nos campos de Cachoeira’ seja o pior dos teus livros - como desejou naquele almoço do teu aniversário, em Santarém, o meu amigo de todas as infâncias, esse Wilmar Fonseca” (Bernardo, 1941, p. 11). Desse modo, Cléo Bernardo deixa enfim evidente sua familiaridade com Dalcídio Jurandir, expondo as redes de sociabilidade compartilhadas por ambos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O mapeamento das chaves de leitura propostas pelas críticas literárias ao romance inaugural de Dalcídio Jurandir produzidas por escritores paraenses aponta vestígios históricos de disputas de valores culturais e literários que permearam a formação do cânone nacional moderno. Nesse contexto, a proposta de reformulação de cânone em favor de um espaço periférico sugeriu, por meio da denúncia das desigualdades, a subversão da ordem estabelecida. O alinhamento ideológico dos críticos paraenses com a extração cultural e social de Dalcídio revela uma defesa em relação à necessidade de espaço no cânone literário nacional para a expressão amazônica realizada a partir do lugar de vivência e não de mera observação. Dalcídio, por sua vez, denunciou que a ausência de incentivo material para a sobrevivência do escritor paraense na condição de profissional das Letras dificultava o desenvolvimento da produção literária na província.

Novas oportunidades de publicação e de pertencimento à cena literária nacional geram, portanto, novas representações sobre esse território, permeando, por vezes, a difusão de realidades, vivências e saberes invisibilizados. No caso de Dalcídio Jurandir, pode-se perceber que o espaço de divulgação inicial de seu romance inaugural foi permeado por vozes de escritores conterrâneos, que, por sua vez, ecoaram outras vozes amazônicas. Segundo Pereira et al (2019, p. 1041): “Por meio da poíesis, [os] escritores peixefritanos recolheram fragmentos, detritos, farrapos, enfim, rastros de uma realidade social amazônica e os tomaram como fagulhas para iluminar uma compreensão crítica do seu presente em diálogo refletido com o passado, com a tradição”.

Por fim, importa destacar a relevância de se pesquisar os posicionamentos e a projeção de literatos associados a um movimento artístico local, com vistas a contribuir para investigações que procuram redimensionar e pluralizar as concepções de modernismo brasileiro, levando em consideração as condições sociais, políticas e econômicas da produção livresca no Brasil.

1Em 1939, Jorge Amado, idealizador do concurso, passa a ocupar o cargo de redator-chefe do jornal literário Dom Casmurro. Em seu artigo “Grande Concurso de Romances”, descreve a dificuldade de publicação dos novos literatos. AMADO, Jorge. Um novo concurso de romance - prêmios “Dom Casmurro” e “Vecchi Editor”. Dom Casmurro, Rio de Janeiro, 12 ago 1939, n. 113, p. 1.

2Segundo Santos (1980), a extração da borracha concentrou os fatores de produção econômica na Amazônia. Uma vez que a economia da borracha estava fortemente ligada à possibilidade de modernização da região, os processos de ascensão e de declínio da urbanização amazônica seguiram a temporalidade do extrativismo gomífero.

3No princípio do concurso, a comissão julgadora era formada por Érico Veríssimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Wilson de A. Louzada e Omer Mont’Alegre. Ao longo do processo, que durou um período mais extenso do que o inicialmente previsto pelo periódico, alguns intelectuais precisaram ser substituídos. Assim, a formação final da comissão julgadora contava com Álvaro Moreyra (no cargo de redator-chefe do periódico), Eugênia Álvaro Moreyra, Omer Mont’Alegre (representando a Editora Vecchi), Rachel de Queiroz e Wilson Louzada.

4Este artigo é um recorte de uma pesquisa de doutorado em andamento, realizada com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

5Foram mantidas, nesta e nas demais reproduções das fontes analisadas durante este artigo, a ortografia e a acentuação dos textos originais.

6JURANDIR, Dalcídio. Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte. Dom Casmurro, Rio de Janeiro, 31 ago 1940, n. 164, p. 3.

7No texto, Dalcídio informa que estava angustiado com a possível divisão de Itaituba em setores censitários. Naquele momento, o autor chegava a Santarém, onde recebera a notícia de vitória no concurso. Desde o dia 1º de março de 1941, Dalcídio atuava como delegado do secretário da Delegacia Regional do Recenseamento. JURANDIR, Dalcídio. Portaria designando DJ como secretário da delegacia regional de recenseamento. Belém, 1º de março de 1941. Acervo Dalcídio Jurandir. Documentos Pessoais. DJ Dp 32. Fundação Casa de Rui Barbosa.

8Ao longo do mapeamento de fontes desta pesquisa, ainda não foi possível precisar o período de militância de Dalcídio associado ao PCB. Sabe-se de sua ativa participação no movimento da Aliança Nacional Libertadora (Nunes et al, 2006, p. 31) e de suas prisões como “agitador” em 1936 e 1937. Além disso, sua participação política também pode ser comprovada pelo teor de seu posicionamento no I Congresso Brasileiro de Escritores em 1945 e pela publicação do romance histórico, social e proletário Linha do Parque (1959), encomendado pelo Comitê Central do PCB, em que são narradas lutas do movimento operário no Sul do país.

9Depois de reescrito, Marinatambalo resultará em Marajó, segundo romance dalcidiano, publicado em 1947 pela Editora José Olympio.

10A revista paraense Terra Imatura circulou entre 1938 e 1942.

11Segundo Perez (1971, p. 119), Dalcídio foi preso pela primeira vez em 1936 e “em 1937 é prêso novamente - desta vez por três meses. Fica na cadeia de São José, num xadrez comum, onde nem verba sequer havia para a alimentação”.

12É fundamental destacar o papel de Guiomarina, esposa do escritor, nesse processo. Mesmo doente, Guiomarina datilografou em quinze dias o romance, o que permitiu o seu envio para o concurso segundo as normas exigidas.

13Citamos, como exemplo, a crítica de Álvaro Lins publicada no dia 27 de setembro de 1941 no Correio da Manhã, em que afirma “O que falta ao livro do sr. Dalcidio Jurandir é a realização literária, é o domínio do material romanesco, é a consciência mesma da obra. Não sendo um romance de valor, sobretudo valor literário, Chove nos campos de Cachoeira revela os indícios de um romancista”. O crítico caracteriza Dalcídio como “um autor mais ou menos ingênuo, quase infantil em vários aspectos, provinciano em todos os sentidos (no bom e no mau sentido), muito sincero, muito espontâneo, muito natural”. LINS, Álvaro. Romances de concurso. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27 set 1941, Crítica Literária, n. 14387, p. 2.

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Recebido: Abril de 2024; Aceito: Maio de 2024

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