INTRODUÇÃO
A prática da capoeira sob a perspectiva do esporte teve como característica a apropriação de um saber corporal específico, modificando ou extinguindo diversos aspectos desta cultura popular, reconfigurando seus saberes e fazeres sob outra perspectiva cultural, a esportiva. Este processo que acarretou impactos significativos e irreversíveis na capoeira ainda carece de maiores reflexões.
Deste modo, este artigo objetivou analisar o processo de esportivização e respectiva institucionalização da capoeira analisando o desenvolvimento dos sports e da evolução da legislação desportiva no Brasil e suas implicações no jogo-luta da capoeira, desde as origens da mesma, até o final da década de 1960, de modo a compreender melhor a capoeira no contexto esportivo do período analisado, tanto sobre os aspectos legais que determinaram, consequentemente, a organização e a institucionalização das práticas corporais e esportivas, como o desenvolvimento destas práticas no Rio de Janeiro e no Brasil, e seus possíveis impactos e influências sobre a capoeiragem e seus principais agentes.
PRIMÓRDIOS DO ESPORTE E DA LEGISLAÇÃO DESPORTIVA NO BRASIL
No Brasil colônia só havia práticas corporais - que atualmente poderiam ser entendidas como esportivas - de caráter utilitário, como a pesca, a caça, as corridas, a canoagem, as caminhadas, a equitação, a natação e o arco e flecha, praticadas pelos indígenas e pelos colonizadores. Durante este tempo, não existiu nenhum instrumento legal que caracterizasse qualquer tipo de normatização das práticas corporais e exercícios físicos que atualmente poderiam ser compreendidos como práticas esportivas (Tubino, 2002, p. 19). De acordo com Manoel Tubino este quadro não mudou durante praticamente todo o período do Brasil imperial. A partir de 1858 foram expedidos decretos específicos para as escolas militares, estabelecendo a obrigatoriedade de exercícios, como a esgrima, a natação, a ginástica, a equitação e o tiro ao alvo naqueles estabelecimentos. Justamente, também neste período, estatutos formalizaram as primeiras formas de organizações associativas do esporte, no caso, no âmbito do turfe.
É importante ressaltar que no século XIX o turfe ainda não era um esporte segundo as compreensões que comumente, às vezes até de forma apressada, hoje tendemos a considerar. A representação em torno do esporte estava longe de ser a de uma prática que solicitasse grande movimentação física, realizada por atletas fortes e musculosos, ligada a dimensões da saúde e estética. Naquele momento não havia ainda uma relação direta entre o esporte e a saúde, a estética, a atividade física. De fato, durante muitos anos o exercício físico era ainda rechaçado e considerado pernicioso por parte significativa da sociedade, principalmente pelas elites. Tanto que o jóquei era normalmente um indivíduo das camadas populares. / Aliás, o próprio conceito de atleta naquele momento tinha um sentido bastante diferenciado [...] no século passado “athleta” significava algo completamente diferente [...] normalmente o termo era utilizado para designar o indivíduo que era um questionador implacável [...] Somente no século XX o termo “atleta” passou a designar corretamente os envolvidos com modalidades esportivas, conforme o sentido e as representações do esporte foram se modificando (Melo, 2001, p. 206 e 207).
Tubino considera importantes os pareceres de Rui Barbosa, de 1882, abordando a necessidade de mais exercícios físicos nas escolas, valorizando as práticas corporais esportivas para os educandos. De acordo com este autor, já no início da República, o mesmo afirma que “[...] quanto às normatizações, os instrumentos legais praticamente referendaram os decretos do Brasil imperial, reforçando a obrigatoriedade de algumas práticas esportivas nos estabelecimentos militares de ensino” (Tubino, 2002, p. 20).
O esporte moderno começou a se organizar no final da primeira metade do século XIX, após a criação do primeiro clube de turfe, o Clube de Corridas, em 1849 (Melo, 2001, p. 206). No final do século XIX o turfe e o remo, que havia se estruturado a partir de 1860, haviam ganho muito prestígio e popularidade.
Se o turfe influenciou decididamente os outros esportes, que utilizavam inclusive sua estrutura de clubes, forma de organização de competições e até mesmo sua linguagem específica, as compreensões sobre o que significava e deveria significar a prática esportiva se modificariam principalmente a partir (e em consequência) do desenvolvimento do remo (Melo, 2001, p. 207).

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 368, de 02 de outubro de 1909.
Figura 1 “As solemnidades do remo”
“As instituições de remo, constantemente e mais denotadamente ainda, passaram a adotar o discurso da ‘educação physica’, e tal esporte a ser reconhecido como uma das formas mais complexas de atividade física” (Melo, 2001, p. 209). Entre o final do século XIX e início do XX, os primeiros clubes desta modalidade náutica de esporte são fundados, alguns se autodenominando, inclusive, como centros de educação physica, segundo Victor Melo (2001). Este foi o caso da capoeira de Sinhozinho. Desde, ao menos, 1930, funcionou no segundo andar da Rua do Rosário 133, no Centro do Rio de Janeiro, o seu Club de Gymnastica Nacional. Mestre Bimba, na Bahia, também seguiu o mesmo caminho quando fundou o seu Centro de Cultura Física Regional, em 1937.
Ambas as academias de capoeira tinham discursos e práticas em consonância com os princípios da Educação Física, assim como as demais modalidades esportivas deste período. Mas não foi somente por esta influência que ambos os mestres de capoeira citados acabaram utilizando, para seus estabelecimentos de ensino, nomes que não se referiam diretamente à capoeiragem. Isto ocorreu devido à mesma ainda estar presente no Código Penal vigente e, também possivelmente, pelo próprio termo capoeira, naquele momento, carregar um alto estigma, significando, ao mesmo tempo, uma prática ultrapassada, ligada à escravidão do período imperial, tipificada como contraventora e criminosa.
Neste período de transição entre séculos também emergiram algumas outras modalidades esportivas no Brasil. O ciclismo, a esgrima, a ginástica, o atletismo, a natação, o tiro ao alvo e o jogo de pelotas, também estavam em pleno desenvolvimento e reorientaram suas ações, segundo Melo, “[...] enquadrando-se nessas dimensões, até mesmo para fugir das imposições legais. Aqueles que não se adequaram assistiram a um paulatino declínio, pelo menos na sua consideração enquanto esporte, como é o caso do turfe” (2001, p. 209).

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 375, de 20 de novembro de 1909.
Figura 2 “Festas da infancia”: “Cyclistas no jardim da Praça da República cumprindo a condição da corrida com obstáculos”
Nos anos iniciais do século XX o remo já conquistara grande popularidade e prestígio e contribuiu de forma fundamental para estabelecer e estabilizar valores que de alguma forma até hoje permanecem ao redor da prática esportiva: o desafio; a ligação com a atividade física tão importante para a manutenção da saúde e para a consolidação de uma nova estética corpórea, onde a beleza diretamente ligada à compleição muscular era valorizada; a suposta honestidade e probidade moral dos que com tal prática se envolvessem; uma suposta “escola de virtudes”. [...]
Já com o desenvolvimento do remo e sua inserção no contexto do projeto de modernização da sociedade brasileira, os novos setores das elites (ou a nova composição das elites) passam a mais claramente concebê-lo como uma estratégia de controle corporal e de adequação da população aos novos valores que estavam sendo forjados.
O remo atendia plenamente às imagens de progresso e de modernidade que se procurava consolidar (Melo, 2001, p. 209 e 210).
Esta suposta escola de virtudes, amparada pelos valores presentes nos esportes, possuía uma relação estreita com os desejos de uma elite que desejava recriar um mundo europeu e ‘civilizado’, uma capital federal modelo e inserida no projeto de modernização da sociedade brasileira. No caso do remo, este, ao abandonar as apostas, ao contrário do turfe, deixou para trás uma prática tradicional, atrasada e conservadora, assumindo uma postura moderna, se ajustando aos valores emergentes na sociedade no Rio de Janeiro, construindo sentidos adequados ao momento (Melo, 2001, p. 211 e 212).
Com o crescimento das atividades esportivas, a legislação começou a se preocupar com sua forma de atividade no espaço urbano. O edital de 07 de maio de 18862, por exemplo, proibia em seu artigo 1º as corridas de cavalo ou a pé, sem a devida licença da Illustre Camara Municipal. Além disso, constava no texto da referida legislação que não seria concedida licença entre 10 e 17 horas nos dias entre 01 de dezembro e 30 de abril.

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 379, de 18 de dezembro de 1909.
Figura 4 “Festas Navaes”: “Grupo de marinheiros que jogaou o foot-ball”
A partir da primeira década do século XX, com a fundação dos clubes de futebol ou mesmo com a inclusão desta modalidade esportiva em clubes de remo, entre outros, deu-se o início da história da maior paixão esportiva nacional. Na figura 4, uma foto de um time de futebol uniformizado, composto por homens negros, marinheiros da Marinha de Guerra, os quais participaram da Festa do Estado Menor da Guarnição do Commando Geral das Torpedeiras, na Ilha de Mocangué, na Baía da Guanabara.
Do mesmo modo, na figura 5, está a foto do time de futebol do Germania Foot-Ball Club, também uniformizado, composto por populares. O referido time jogou nesta ocasião com o “Brazil Foot-Ball Club, do Bangú”. Na primeira década do século XX, o futebol já era praticado por membros das classes pobres e, inclusive, na periferia da cidade do Rio de Janeiro. Se até o momento a participação popular nos esportes havia ocorrido por meio de torcedores ou apostadores, ou quando praticantes, como jóqueis no turfe ou como membro de instituições militares e policiais, o futebol veio alterar esta condição de participação popular, oferecendo a possibilidade de apreensão, intervenção e participação direta da população (Melo, 2001, p. 212).

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 379, de 18 de dezembro de 1909.
Figura 6 “A esgrima na Marinha”3

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 375, de 20 de novembro de 1909.
Figura 7 “Festival no quartel da Força Policial: praças em preparativos para o exercicio de saltos gymnasticos”
Na figura 7, uma interessante foto de uma apresentação de saltos de ginástica de praças da Força Policial. A instituição policial, assim como as militares, foi uma das formas pelas quais as classes populares tiveram contato com as modalidades de esportes que emergiam na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Neste caso, é importante ressaltar que a Força Policial tinha capoeiras entre seus soldados.
Esporte, formação de professores e instrutores e a capoeira
Nos anos 30, o futebol confirmava a preferência popular amadurecida e desenvolvida rapidamente na década anterior e, ao mesmo tempo, nesta modalidade começaram os conflitos no campo da regulamentação e normatização do esporte, o que levou, já durante o Estado Novo, ao início da regulamentação do esporte pelo Estado, e também de sua longa história de intervenção que só terminou efetivamente com a Lei Zico, Lei nº 8.672, de 06 de julho de 1993. Esta regulamentação, aos poucos, também abarcaria a formação dos instrutores dos esportes e práticas corporais:
No Brasil, este tipo de formação teve início nos primeiros anos de 1930, antecipado por formação de civis em entidades militares desde a década de 1910. Antes disso, no século XIX, a Educação Física, quando existente, dependia de professores de classe que conduziam atividades físicas por adaptações de conhecimentos correntes ou improvisações. Na primeira metade do século XX, militares atuaram como “instrutores” no sistema escolar em vários estados brasileiros (Da Costa, 2006, p. 14.3).
Em relação ao desenvolvimento das instituições de formação dos professores ou instrutores, a “[...] maioria dos atuais estabelecimentos de Ensino Superior de Educação Física originou-se de escolas militares, passando posteriormente para escolas normais [...] e depois para departamentos ou institutos de universidades” (Da Costa, 2006, p. 14.3). Dentro desta perspectiva, a formação de instrutores e professores de Educação Física, incluindo os civis, na primeira metade do século XX, estava arraigada no militarismo e nos fundamentos da eugenia. Entre as conclusões resultantes do I Congresso Brasileiro de Eugenia, ocorrido em junho de 1929, estava a indicação para que o governo organizasse, com a máxima urgência, Escolas Superiores de Educação Física a fim de preparar os professores, “indispensáveis à cultura física nacional” (Da Costa, 2006, p. 14.4).
Entretanto, estes projetos não eram novos. Algumas décadas antes, já se discutia a implementação de exercícios físicos nas escolas públicas, a fim de colaborar com a melhoria da saúde dos alunos, o que necessitaria de investimento na formação de instrutores, como é possível verificar em uma matéria da revista O Malho, de 1909, conforme a figura 8:

Fonte: revista O Malho, Ano VIII, nº 375, de 20 de novembro de 1909.
Figura 8 “Pela saude e força da nossa infancia”4
A partir de 22 de julho de 1925, quando foi criada e regulamentada a Escola de Educação Física da Marinha por meio do Ato do Ministro da Marinha, outras leis e decretos do governo também criaram centros de instrução, escolas e institutos de formação de professores de Educação Física em alguns Estados do Brasil. Sendo uns de origem militar e outros de origem civil, estes tipos de estabelecimentos ampliaram a oferta destes profissionais e desenvolveram tecnicamente sua formação. Ao final da primeira metade do século XX, já havia uma estrutura desenvolvida para a formação dos professores de Educação Física no país, ao menos, nas principais cidades brasileiras (Da Costa, 2006, p. 14.3 a 14.6). Neste sentido, observa-se que houve um alinhamento da formação destes instrutores e professores com o projeto de país, de nação.
Entretanto, no caso da capoeira, não houve o desenvolvimento de professores ou instrutores direcionados para a prática. Ainda que durante a primeira década do século XX tenham existido, no Rio de Janeiro, propostas e ações para tornar o jogo-luta um esporte, estas não emergiram de seus representantes populares5, dos sujeitos portadores da herança cultural da capoeiragem. Estes, nem ao menos, chegaram a participar diretamente destes processos. A única possibilidade em que isso poderia ter ocorrido foi com Cyriaco. Logo após a vitória de Cyriaco sobre o campeão japonês de jiu-jitsu Sada Myaco, em 1909, por meio da idealização de Raul Pederneiras, chegou-se a discutir um plano para desenvolver uma escola de capoeiragem, aproveitando Cyriaco como instrutor. Contudo, com a morte do capoeira poucos anos depois o plano não logrou êxito.
Talvez, caso Cyriaco não tivesse falecido, uma proposta pioneira de esportivização da capoeira teria sido realizada por um representante legítimo da capoeiragem como prática popular, oriundo das gerações que mantiveram o saber corporal de suas heranças culturais das maltas do Rio de Janeiro. Destarte, caso Cyriaco tivesse desenvolvido uma escola de capoeiragem, é certo que ele sofreria influências externas na implementação deste plano. Contudo, se tais influências seriam convergidas para o desenvolvimento de uma capoeira esportivizada, mais próxima ou distante de suas origens culturais, isto é impossível afirmar. A capoeira só iniciaria realmente seu irreversível processo de esportivização, e posterior institucionalização, a partir da década de 1930.
Cabe lembrar que, já na década de 1920, no Rio de Janeiro, Sinhozinho, um notável instrutor de esportes que conhecia a capoeiragem, teve destaque com sua capoeira nominada Luta Nacional. Entretanto, a mesma abdicava de seus aspectos ritualísticos enfatizando o caráter utilitário da prática, enfatizando e desenvolvendo o lado esportivo da mesma, voltado para a preparação física, para a luta e o combate corporal.
Desenvolvimento da organização e institucionalização dos esportes no Brasil e a capoeira
Quanto aos esportes - incluindo neste rol as modalidades de luta no Brasil, como o boxe, o catch-as-catch-can e a luta greco-romana -, o seu desenvolvimento e difusão acabou por acarretar naturalmente a criação de federações regionais. Sobre as lutas, especificamente, no Rio de Janeiro foi criada a primeira federação de pugilismo, em 1930. Logo a seguir, em 1933, foi criada a Confederação Brasileira de Pugilismo. A capoeira como projeto de “Gymnastica Nacional (Capoeiragem)” (Burlamaqui, 1928) galgou aspectos institucionais quando foi inserida como Luta Brasileira em estatutos de fundações de algumas federações de pugilismo, dentre elas, em 05 de março de 1933 na Federação Carioca de Pugilismo, em 11 de novembro de 1930 na Federação Baiana de Pugilismo, que só veio se oficializar em outubro de 1935, e em 04 de novembro de 1936 na Federação Paulista de Pugilismo (Vieira, 2004, p. 2 e 3). Estas formas associativas foram, poucos anos depois, regulamentadas por meio de decretos e leis durante o período do Estado Novo.
Ao passo que a capoeiragem iniciava um caminho como prática esportiva e institucionalizada, sua prática sob a perspectiva da cultura e do folclore paralelamente também começava um processo de discussão e amadurecimento. Após a repercussão positiva do primeiro Congresso organizado em Recife, em 1934, por Gilberto Freyre, em setembro de 1937, ocorreu uma segunda edição do Congresso Afro-brasileiro, em Salvador. Este evento constituiu importante marco para a reabilitação pública das heranças africanas na Bahia e, consequentemente, no Brasil. “Uma das metas declaradas do Congresso era pôr fim à perseguição policial do candomblé e à repressão mais geral da cultura afro-baiana”6 (Assunção, 2014, p. 11). O evento, com o auxílio de Edison Carneiro, ajudou a promover a fundação da União de Seitas Afro-brasileiras, uma federação de casas de candomblé e, mais tarde, suas influências, muito possivelmente, fizeram surgir, em 1941, o Centro Esportivo de Capoeira Angola - CECA, capitaneado pelo Mestre Pastinha, na Bahia. Na década de 1940, “estudos sobre o folclore ganharam visibilidade, fazendo emergir um paradigma culturalista que buscava as autenticidades e as manifestações que representavam a essência brasileira” (Cunha et al, 2014, p. 747). Autores como Edison Carneiro, Jorge Amado e Renato Almeida contribuíram com esta perspectiva (Vassalo, 2003 apudCunha et al, 2014, p. 747). A repercussão destes estudos culturais sobre a capoeira da Bahia pode ter sido um dos fatores que contribuíram para que a prática deixasse de figurar no novo Código Penal que entrou em vigor em 1942. Da mesma maneira, podem ter ajudado no desenvolvimento e reelaboração de discursos que embasaram as ideias e projetos de uma capoeira esportiva. Mesmo por caminhos diferentes, a capoeiragem começava a receber outros tratamentos, ao contrário daquele que vinha sendo oferecido pelas forças de segurança pública.
Desta maneira, neste intenso período dos anos 30 e 40, os primeiros passos da legislação brasileira em relação ao esporte ocorreram no período do Estado Novo, com a criação do Conselho Nacional de Cultura, por meio do Decreto-lei nº 526, de 01 de julho de 1938. O artigo 2º, parágrafo único, alínea h, incluía “a educação física (ginástica e esportes)” como atividade de “desenvolvimento cultural” sob a administração deste Conselho (Lardies, 1971, p. 14). Até que, por meio do Decreto nº 1.056, de 19 de janeiro de 1939, foi criada a Comissão Nacional de Desportos, que ficou encarregada de desenvolver o projeto para a futura lei base para o esporte nacional. Logo após outros decretos, estabeleceu-se o Decreto Lei 3.199 de 14 de abril de 1941, com 61 dispositivos, que “estabelece as bases de organização dos desportos em todo o país” (Lardies, 1971, p. 27), criando o CND, Conselho Nacional de Desportos, e tendo no Capítulo III, art. 15, inciso III, a constituição da “Confederação Brasileira de Pugilismo”, além das confederações de Desportos, de Basket-ball, de Vela e Motor, de Esgrima, e de Xadrez, respectivamente nos incisos I, II, IV, V e VI (Lardies, 1971, p. 29 e 30).
Após o Ministro do Estado da Educação ter resolvido aprovar a Deliberação nº 71/53 (Lardies, 1971), foi permitido, a título de experiência, o funcionamento de centros de instrução pugilística.
Em 1953, o governo brasileiro expediu a Deliberação 071/53 do Conselho Nacional de Desportos - CND, órgão do Ministério da Educação e Saúde Pública. Esta medida que tinha como objetivo exercer um controle sobre o cidadão que praticava atividades esportivas, em especial as Artes Marciais, enquadrando a Capoeira nesta categoria, determinava o cadastramento de todos os seus praticantes e sua comunicação aos órgãos governamentais (Vieira, 2004, p. 4).
Destarte, a perspectiva de regulamentação do esporte, que vinha desde o Estado Novo, não tinha apenas o caráter organizativo e normatizador, mas também, e precipuamente, de controle e vigilância. Neste sentido, as lutas e artes marciais talvez tenham sido um dos focos principais da regulamentação oriunda do Estado, visto seu passado de resistência, contestador e bélico, tanto no Brasil, como no caso da capoeira, como em outros países estrangeiros, de acordo com cada modalidade. No ano de 1962, a CBP, Confederação Brasileira de Pugilismo, alterou o seu estatuto, ampliando o rol de práticas. Neste documento, entre outras coisas, foi incluído por meio “[...] dos seus Departamentos Especiais, o reconhecimento do Jiu-Jitsu e da Capoeiragem como atividades pró-desporto, ou seja, em vias de regulamentação até que se enquadrassem no modelo desportivo especializado conceitualmente concebido” (Jaqueira, Araújo, 2013b, p. 4). De acordo com Jaqueira, Araújo (2013b, p. 2), a capoeira entrou no período em que estes autores denominam de “oficialização”, quando esta “[...] passou a integrar o leque de lutas da eclética Confederação Brasileira de Pugilismo”. A capoeira, ao ser inserida no rol normatizador da Confederação Brasileira de Pugilismo, permaneceu por várias décadas como Departamento Nacional de Luta Brasileira.
Como a CBP era um órgão de referência na regulamentação das lutas e artes marciais, a inclusão da capoeira em seu estatuto repercutiu para as federações regionais, como se pode constatar no Estatuto da Confederação Brasiliense de Pugilismo, na qual o fez constar entre seus artigos a modalidade capoeira, publicado na página 61, seção 1, do Diário Oficial da União, em 21 de dezembro de 1962.
Não seria inoportuno lembrar que Sinhozinho, o maior expoente da capoeira carioca como proposta esportivizada de luta neste período, morre justamente ao final do primeiro semestre de 1962. Talvez este fato, tenha sido preponderante para que a capoeira tenha sido incluída, ou mesmo lembrada pela CBP, deste modo, gerando o reconhecimento oficial da capoeira como forma ou modalidade de luta e esporte.
Obviamente, outras regulamentações e formas de normatizações, assim como outros decretos relativos ao esporte no Brasil foram criados nas décadas seguintes, quando é possível constatar a maior organização da prática também por meio de diversas federações esportivas, mas este estudo se deteve na análise do desenvolvimento da legislação esportiva que envolveu a capoeira até o final da década de 1960.
O processo de desportivização da Capoeira demandou a regulamentação da modalidade de luta, a fim de promover a igualdade de condições aos atletas competidores. Para tanto, era necessário harmonizar seus golpes e movimentos, tarefa que esbarrou na idiossincrasia dos envolvidos no contexto, capoeiristas ou praticantes de outras artes marciais (Jaqueira, Araújo, 2013b, p. 1).
Todavia, o exercício de regular o desporto de identidade nacional não se mostrou pacífico, nem tampouco, célere, eivado de idiossincrasias que não deixavam a sua faceta desportiva maturar em conformidade ao que se propôs inicialmente, no intuito de dar novo status à expressão, outrora perseguida enquanto contravenção penal. Os aspectos lúdicos, rituais e folclóricos da Capoeira tornaram-se o ponto nevrálgico das discussões entre os protagonistas do encontro de 1968, discussão que ultrapassou as questões técnicas e perdeu-se em situações insólitas ligadas à territorialização e ao sentido de propriedade da matéria (Jaqueira, Araújo, 2013b, p. 4).
O momento da oficialização da desportivização da Capoeira foi marcado pela realização de competições da modalidade e pela busca da consecução de seu regulamento oficial, motivo para a realização do I Simpósio de Capoeira, em 27 de agosto de 1968. Essa fase terminou em 1972 com a confecção do Regulamento Técnico de Capoeira - RTC, apenas homologado em 1973 (Jaqueira, Araújo, 2013b, p. 3).
Torna-se peremptório e oportuno apontar que os Simpósios de 1968, realizado na Escola Nacional de Educação Física, e de 1969, que aconteceu no Campo dos Afonsos, patrocinados pela FCP, Federação Carioca de Pugilismo, ambos realizados na cidade do Rio de Janeiro, tornaram-se o palco de um embate ideológico, principalmente, entre as capoeiras carioca e baiana.
Esta culminância é fato simbólico, pois a não conclusão de resultados objetivos dos eventos fez emergir o latente regionalismo de ambas as práticas, seus corporativismos, territorialismos e visões diferentes, demonstrando claramente as diferenças de projeto e ideais esportivos. Enquanto as propostas cariocas no Simpósio de 1968 operavam exclusivamente a capoeira como esporte, como luta, de forma muito objetiva e utilitária, sem qualquer manifestação musical ou ritualística, abandonando parte dos seus aspectos culturais, alinhavandose às outras práticas de lutas regulamentadas, a proposta baiana, representada pela capoeira de Mestre Bimba, não abria mão dos seus aspectos musicais e ritualísticos, mesmo sendo uma proposta que também dialogava, à sua maneira, com os princípios do esporte.
Portanto, se antes, na Bahia, já havia conflitos entre o discurso mais esportivizado de Mestre Bimba, com sua Luta Regional ou Capoeira Regional7, e o de Mestre Pastinha e outros angoleiros, que defendiam a Capoeira Angola com seus fundamentos culturais, o embate de discursos entre as perspectivas esportivas e as da cultura na capoeira ganhou mais força a partir dos Simpósios organizados pela Federação Carioca de Pugilismo.
O Simpósio de 1969 ocorreu de forma diferente do primeiro. Neste segundo evento, um grande número de mestres e capoeiristas de diferentes Estados do Brasil foram convidados para participar, sendo este, sem dúvidas, o maior encontro de capoeiristas de todo o Brasil, até aquele momento, na história. Todavia, assim como no Simpósio de 1968, este evento não produziu resultados objetivos. Entretanto, é possível entender que o Simpósio de 1969 influenciou sobremaneira os desdobramentos acerca dos aspectos organizacionais e normatizadores da capoeira nos anos posteriores.
Apesar de já existirem investigações sobre esses dois eventos, como os já realizados por Jaqueira, Araújo (2013a e 2013b), os Simpósios de 1968 e 1969, por se tratar de eventos de muita importância para a história da capoeira, ainda necessitam de maiores investigações e discussões mais aprofundadas, não só sobre os eventos em si, mas, sobretudo, sobre os seus desdobramentos posteriores para a capoeira.
Não se pode deixar de registar o fato destes simpósios terem sido realizados em pleno regime da ditadura militar, momento em que as organizações sociais, inclusive as esportivas, eram reguladas, fiscalizadas e orientadas conforme as diretrizes do regime do momento.
Em alguns Estados do Brasil, desde a década de 1960, muitos capoeiristas já vinham se organizando formalmente em grupos com estatutos oficialmente registrados. Contudo, no início da década de 1970, a articulação de parte dos capoeiristas para uma organização em torno de uma federação específica de capoeira fez com que outros capoeiristas, principalmente do Grupo Senzala, não aderissem a essa forma de organização fazendo um contraponto com um discurso voltado para o lado cultural contra a perspectiva esportivizada e de organização de campeonatos das federações de capoeira. A criação das federações de capoeira foram entendidas por alguns capoeiristas como forma de controle e cooptação pelo governo militar e a não participação nestas formas de organização uma maneira de se opor ao controle e intervenção do Estado na prática da capoeira. Destarte, muitos outros fatores, que não cabem na discussão e objetivos deste trabalho, fizeram parte destes embates entre os capoeiristas naquele período.
De fato, mesmo a capoeira estando presente no campo esportivo formal, por meio de regulamentos e estatutos de federações esportivas, na prática, até a década de 1960, não houve um desenvolvimento das questões técnicas como modalidade esportiva, ao ponto de possibilitar a realização de competições ou de eventos semelhantes. A única forma de competição esportiva da qual a capoeira fez parte durante este período foi nos ringues, em combates de vale-tudo, sendo que, em alguns desses casos, foi utilizada a proposta de Burlamaqui (1928) como orientadora nesses eventos. Outros fatores mais complexos e específicos da prática, que não convém neste trabalho serem analisados, também contribuíram para que a capoeira não vingasse e se desenvolvesse como modalidade esportiva e de competição, do mesmo modo que outras formas de luta e de esportes.

Fonte: Burlamaqui (1928, p. 16).
Figura 9 Campo de Luta para a realização da Gymnastica Brasileira, de acordo com as regras criadas por Zuma, Annibal Burlamaqui
Os apontamentos históricos aqui levantados sobre a relação entre a capoeira e a legislação desportiva no Brasil, indicam que a capoeira - enquanto prática popular considerada bárbara (Melo, 2007) - esteve ao largo do sistema legislativo que tratava dos esportes e das práticas corporais até a década de 1930, mas de modo concreto até a década de 1940, quando a mesma deixou de ser efetivamente considerada crime.
Antes disso, algumas poucas propostas de organização e formalização foram tentadas no início do século XX, como a obra de Zuma (Burlamaqui, 1928), focada na metodização do ensino, com regras para competição as quais serviram como referência por até quatro décadas após sua publicação, ou por tentativas políticas, como a de Coelho Netto, Germano Haslocher e Luiz Murat.8
Do mesmo modo, não é possível deixar de comentar sobre a possibilidade, apresentada por Alceu Maynard Araújo (2004), da prática da capoeira ser incluída nas atividades pedagógicas das Escolas Normais de São Paulo. É possível que o autor estivesse se referindo a algum projeto para aproveitar o capoeira carioca Mêne, de quem foi aluno em 1927, nos programas escolares do ensino secundário e normal. De acordo com Araújo:
A opinião dos administradores sobre a capoeira modificou-se. Um dos mais lúcidos e dinâmicos presidentes do estado de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque (governou São Paulo de 14-7-1927 a 24-10-1930), considerando que as várias nações têm seu esporte nacional (a Inglaterra, o box; o Japão, o jiu-jitsu; Portugal, o jogo-da-porra etc.), incentivou o ensino da capoeira entre os alunos do sexo masculino nas Escolas Normais do Estado, como salutar esporte nacional de ataque e defesa. Com o Estado Novo e a desorganização que implantou no ensino secundário e normal, saiu dos programas escolares. (Esperamos que um dia volte.) (Araújo, 2004, p. 376).
Sem precedentes para a época, mesmo em outros Estados brasileiros, este fato deveria ser mais profundamente pesquisado a fim de desvendar a possível existência de um projeto neste sentido. Se levarmos em conta que, ainda nos dias atuais, mesmo respaldada pela Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, a prática da capoeira nas escolas ainda encontra resistência e preconceito, o projeto mencionado por Alceu Maynard Araújo, se realmente existente, pode ser considerado um fato inovador para a época, possibilitando outros olhares para o movimento de institucionalização da capoeira e sua inserção nas escolas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As considerações acerca da legislação e suas respectivas relações com a capoeira, permitem situar o jogo-luta no cenário legislativo e normativo a fim de entender como o Estado, seja o colonial, o imperial ou o republicano brasileiro, interveio nas manifestações populares, no esporte e suas respectivas expressões, dentre elas a capoeira, assim como também, enquadrava e condenava os comportamentos sociais e os criminosos em seus diferentes tempos e regimes legislativos.
Destarte em que pese a importância histórica e cultural da capoeira no Brasil, mesmo com as garantias constitucionais de 1988 e com o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial já no século XXI, sobretudo os contornos científicos e as informações até o momento possíveis de identificar, é correto afirmar que a capoeira, legitimamente concebida como esporte nacional, ainda não conseguiu no universo jurídico legal ser contemplada com o destaque necessário e como um dos símbolos da matriz cultural e esportiva do Brasil. Dentro destes embates entre a perspectiva da capoeira como esporte ou como cultura ao longo do tempo, o fato de alguns elementos do jogo-luta terem sido registrados em 2008 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN e, posteriormente, em 2014, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, fez pender esta balança para o lado da cultura nos últimos anos.
Por último, não se pode deixar de considerar que o crescimento dos sports, principalmente do futebol, no início do século XX, com sua respectiva difusão de valores e virtudes, alinhavadas com o projeto de modernização da sociedade brasileira e com o desejo das elites de transformar o então Distrito Federal em uma cidade nos moldes europeus, pode ter contribuído para o afastamento dos jovens, possíveis candidatos a iniciantes na prática da capoeiragem, atividade ainda perseguida e constante como contravenção no Código Penal.
Como já afirmado, apesar de no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, terem existido na primeira década do século XX propostas e ações para tornar a capoeira um esporte, estas não emergiram de seus representantes populares. Os sujeitos portadores da herança cultural da capoeiragem não chegaram a participar diretamente destes processos naquela ocasião, fato que só iria ocorrer, de certa maneira, na Bahia, a partir da década de 1930, já que na capital federal, neste mesmo período, este processo de esportivização do jogo-luta ocorreu por meio de sujeitos esportistas.
O processo de esportivização da capoeira acarretou impactos significativos e irreversíveis ao se apropriar do saber corporal popular da capoeiragem, reconfigurando seus saberes e fazeres sob outra perspectiva cultural, a esportiva. Criminalizada e carregando o estigma do passado, a prática da capoeira como jogo e como luta agregou novos elementos e ganhou novos contornos ao travar um diálogo, no decorrer do século XX, com as mudanças encontradas nos novos contextos onde esta expressão se manifestou. Um dos campos por onde a capoeira transitou e pelo qual sofreu intervenções foi o esportivo, que também era regido por legislações e regulamentações específicas que influenciaram diretamente nos processos de esportivização e institucionalização da capoeira e, consequentemente, em mudanças acerca de sua organização, ensino e prática.
















