INTRODUÇÃO
No contexto global, nunca ficou tão evidente a importância e a relevância da pesquisa científica para a sobrevivência humana, como foi observado diante do caos sanitário provocado pela COVID-19. Porém, não é de hoje que a pesquisa científica tem contribuído para a produção de conhecimentos que visam ao enfrentamento dos problemas sociais no âmbito da saúde, da educação, da cultura, da economia ou da política. Considerando-se que as próprias escolhas dos objetos e processos a serem investigados emergem dos contextos em que os pesquisadores estão inseridos, evidenciamos a relevância das pesquisas em educação para a produção de conhecimentos que forneçam elementos para o enfrentamento das complexas fragilidades da formação escolar oferecida pelo sistema educacional brasileiro.
No âmbito de pesquisas científicas em educação que têm por objetivo, mais do que a aproximação de pesquisadores com os seus “objetos de estudo”, intervir na realidade para transformá-la, temos diferentes modalidades, dentre as quais podemos citar: pesquisa-ação, pesquisa colaborativa, pesquisa participante, pesquisa aplicada, pesquisa interventiva pedagógica etc. Todas essas modalidades buscam, por meio de atuação direta na realidade, enfrentar de forma ativa os problemas da educação, elaborando respostas às problemáticas por meio de ações que possam mudá-la, enquanto documentam as transformações e dificuldades que esses processos desencadeiam. Essas pesquisas no campo científico têm aumentado em programas profissionais de pós-graduação. Conforme Pereira (2021, p. 37):
A pesquisa de natureza interventiva é uma dessas práxis que vem sendo aplicada no campo da educação com bastante sucesso, principalmente a partir do advento dos mestrados e doutorados profissionais em educação, posto que ela intenciona analisar, explicitar e intervir em situações educativas conflituosas, com o intuito de provocar transformações, tendo os sujeitos da educação como protagonistas dessa práxis.
As pesquisas interventivas nos programas profissionais de pós-graduação stricto sensu têm como características a proposição de mudanças da realidade pesquisada, dos participantes e, consequentemente, a formação de pesquisadores e pesquisadoras, seja no campo da gestão, seja nos campos do ensino, da formação de professores ou das políticas públicas em educação, entre outras. (Costa; Ghisleni, 2021). A perspectiva da intervenção evidencia estudos que estão relativamente ligados com a vida profissional desses pesquisadores, “[...] no sentido de contribuir para o desenvolvimento da pesquisa relacionada com seu campo de atuação e que, na maioria das vezes, é desenvolvida diretamente no seu local de trabalho”. (Costa; Ghisleni, 2021, p. 4).
Nesse sentido, essa modalidade de pesquisa “[...] aprofunda a ruptura com os enfoques tradicionais de pesquisa e amplia as bases teórico-metodológicas das pesquisas participativas, enquanto proposta de atuação transformadora da realidade sociopolítica, já que propõe uma intervenção de ordem micropolítica na experiência social”. (Aguiar; Rocha, 2003, p. 67). Nesse tipo de investigação alteram-se as relações entre pesquisadores/as, objeto de estudo e participantes, dependendo da intencionalidade, das proposições e da problemática investigada. Nela ocorre uma interação dinâmica entre pesquisadores/as e participantes em seu contexto social, político e histórico, diferenciando-se de pesquisas positivistas, pois assumem um compromisso político desde a escolha de sua temática até a publicização dos seus resultados.
Por esse ângulo, na concepção de Damiani e outros (2013, p. 58), pesquisas interventivas do tipo pedagógicas “são investigações que envolvem o planejamento e a implementação de interferências (mudanças, inovações) - destinadas a produzir avanços, melhorias, nos processos de aprendizagem dos sujeitos que delas participam - e a posterior avaliação dos efeitos dessas interferências”. Ou seja, não buscam apenas identificar o problema e sim propõem ações para sua resolução, configurando-se como uma investigação que produz conhecimento aplicado.
Em uma perspectiva ampla sobre pesquisas interventivas, podemos compreender, conforme os autores Teixeira e Megid Neto (2017, p. 1056), que “[...] o termo Pesquisas de Natureza Interventiva (PNI) pode ser utilizado com vantagem para enquadrar uma multiplicidade de modalidades de pesquisa caracterizadas por articularem, de alguma forma, investigação e produção de conhecimento, com ação e/ou processos interventivos”. Nesse entendimento, o método de uma pesquisa interventiva não é o de apontar uma verdade sobre o lugar e os envolvidos e sim o de identificar a problemática, compreendê-la e intervir de maneira participativa; neste tipo de pesquisa, o fenômeno é analisado de forma dinâmica e indissociável de questões históricas e sociais.
Para além das distintas modalidades, as pesquisas de natureza interventiva apresentam demandas bastantes específicas aos/às pesquisadores/as para “concretizar a relação dialética investigação e intervenção” (Pereira, 2021, p. 38), na produção de dados. No trabalho de campo os/as pesquisadores/as farão uso de observações, gravações, filmagens e registros escritos, bem como recolhimento de materiais produzidos pelos próprios participantes, os quais serão distintos em cada pesquisa desenvolvida.
A investigação requer respeito e reponsabilidade com a integridade das pessoas envolvidas, bem como com o local da pesquisa; são necessários conhecimentos teóricos, metodológicos e éticos para conduzir a investigação no movimento de produção de dados. “Nas intervenções, a intenção é descrever detalhadamente os procedimentos realizados, avaliando-os e produzindo explicações plausíveis, sobre seus efeitos, fundamentadas nos dados e em teorias pertinentes”. (Damiani et al., 2013, p. 58)
Assim, as pesquisas interventivas demandam, além dos compromissos éticos e políticos de qualquer pesquisador/a, um preparo teórico e metodológico que considere os desafios do planejamento e realização das ações de intervenção, bem como da definição dos melhores instrumentos e procedimentos de registro dos dados.
Diante do exposto, o texto se propõe discutir as possibilidades e dificuldades do uso do diário de campo e da filmagem como técnicas de registro de dados em pesquisas interventivas. Trata-se de um estudo teórico em que recorremos às contribuições de diferentes autores/as sobre o tema, com o intuito de sistematizar recomendações úteis aos/às pesquisadores/as que precisam fazer uso desses procedimentos em pesquisas nas quais são desafiados/as a atuar como formadores/as; professores/as e também como pesquisadores/as.
Diário de campo e filmagem em pesquisas interventiva
Na produção de dados em pesquisas interventivas, o/a pesquisador/a necessita identificar e planejar quais técnicas de registros serão apropriadas ao desenvolvimento da pesquisa e, consequentemente, verificar quais princípios éticos precisam ser observados na geração e análise dos dados, respeitando os participantes e os lugares da pesquisa. Após essa organização ele/a entra em campo com o consentimento das pessoas envolvidas, indicando os tipos de dados a serem produzidos.
Assim, discutiremos abaixo os instrumentos e procedimentos de produção e registros de dados a partir do uso das técnicas diário de campo e filmagem em vídeo-gravação, apresentando aspectos históricos sobre a utilização desses instrumentos, conceituações, cuidados a serem tomados na realização desses registros, bem como as vantagens, dificuldades e respectivos procedimentos éticos.
O diário de campo
Historicamente, o diário de campo surgiu na Europa e no Japão por volta do século X e era usado pelos membros da elite, pessoas que tinham mais acesso à escrita, expandindo-se por volta do século XVII, quando passou a ser usado por religiosos, nobres, cientistas entre outros. Nos séculos XIX e XX, séculos de grandes transformações sociais na área do conhecimento científico, começa a ser usado por pesquisadores/as e cientistas nas áreas da Psicologia, Educação, Serviço Social, História, Antropologia, Sociologia e outras conforme apontam Zaccarelli e Godoy (2010).
Primeiramente, o diário foi um instrumento de registros para fins pessoais, em que as pessoas manifestavam suas habilidades artísticas, atividades cotidianas, reflexões, sentimentos, suas subjetividades e suas atitudes como sujeitos em sociedade. Posteriormente, tornou-se um instrumento nas práticas de pesquisas científicas, sendo muito usado por cientistas sociais diretamente envolvidos no ambiente pesquisado. No caso das pesquisas interventivas, em que o ato de pesquisar é realizado com o propósito de intervir na realidade e transformá-la, é a relação dinâmica entre pesquisador e participantes que ocupará boa parte dos registros, inicialmente, fornecendo material para definição do caminho a ser trilhado. (Aguiar; Rocha, 2003).
Na literatura encontramos definições para o diário de campo como notas de campo, em que o/a pesquisador/a fará anotações descritivas e/ou reflexivas durante os estudos de observação participante. Bogdan e Biklen (1994, p. 152) argumentam que, na parte descritiva do diário de campo, “a preocupação é a de captar uma imagem por palavras do local, pessoas, ações e conversas observadas. [...] a parte descritiva do diário de campo de longe a mais extensa, representa o melhor esforço do investigador para registar objetivamente os detalhes do que ocorreu no campo”. Já a parte reflexiva das notas de campo abarca a parte subjetiva do/a pesquisador/a, suas ideias seu ponto de vista. Assim, os autores sinalizam que é a parte mais “[...] subjetiva da sua jornada. A ênfase na especulação, sentimentos, problemas, ideias, palpites, impressões e preconceito. Também se inclui o material em que você faz planos para investigação futura bem como clarificações e correções dos erros e incompreensões das suas notas de campo” (p. 165). Essas anotações no diário de campo serão os conteúdos para o delineamento teórico e também para o andamento da pesquisa, uma vez que auxiliam no processo que está em desenvolvimento na busca pela compreensão do objeto em estudo.
Segundo Bogdan e Biklen (1994), as anotações produzidas nos diários de campo podem ser de natureza descritiva e/ou reflexiva. Em relação às notas descritivas os autores recomendam que sejam descritos os sujeitos, o espaço físico, as atividades e os acontecimentos particulares.
Descrever os sujeitos “inclui a sua aparência física, maneira de vestir, de falar e de agir” (Bogdan; Biklen, 1994, p. 163). Os registros dos acontecimentos “incluem uma listagem de quem esteve envolvido no acontecimento, de que maneira e qual a natureza da ação” bem como a produção de “descrições detalhadas do comportamento, tentando reproduzir a sequência tanto dos comportamentos como de atos particulares”. Alertam ainda para a importância de reconstruir os diálogos registrando também os “gestos, pronúncias e expressões faciais” (p. 163).
Por último, recomendam que também seja registrado o comportamento do observador, pois como o pesquisador “é um instrumento de recolha de dados [...], é muito importante que esteja atento ao seu comportamento, suposições e tudo o que possa afetar os dados que são recolhidos e analisados” (p. 163).
Em relação às notas reflexivas os autores indicam as seguintes possibilidades: reflexões sobre a análise, sobre o método, sobre conflitos e dilemas éticos, sobre o ponto de vista do observador e sobre aspectos a serem melhor explicitados ao longo da investigação.
Ao recomendar que os/as pesquisadores/as registrem, ao longo da pesquisa, questões importantes que podem contribuir com a análise dos dados, indicam que este é um momento para que os pesquisadores se questionem sobre o que estão aprendendo, que temas emergem das observações, que conexões, ideias e pensamentos surgem durante os registros. Em relação ao método os autores apontam que é possível avaliar “o que é que foi realizado e o que ainda falta fazer, isso ajuda a pensar os problemas metodológicos e a tomar decisões acerca deles” (Bogdan; Biklen, 1994, p. 166).
Reflexões sobre conflitos e dilemas éticos também podem ser objeto de registros reflexivos, pois o cuidado com a vida dos sujeitos leva os/as pesquisadores/as a avaliar constantemente seus “valores e responsabilidades para com eles bem como para com a sua profissão” (p. 166).
As reflexões sobre o ponto de vista do observador “são usualmente tomadas antes de entrar no campo.” Segundo Bogdan e Biklen (1994) esse é o momento em que os/as pesquisadores/as descrevem suas expectativas, o que pensam encontrar como resultado do estudo. “Quando elas são apresentadas de início, elas podem ser confrontadas e medidas (comparadas) com o que emerge no decorrer do estudo” (p. 166).
Ainda segundo os autores, as notas reflexivas também podem ser produzidas na forma de comentários nos registros produzidos anteriormente que podem estar confusos ou com erros de informação.
Podemos observar que os registros descritivos focalizam aspectos mais objetivos da realidade em relação aos aspectos físicos, do local, das pessoas e dos diálogos; já os registros reflexivos documentam um olhar subjetivo do pesquisador, suas impressões, percepções, ideias, suas análises do objeto observado, delineando um olhar que pode indicar divergências de pensamento. Essas recomendações, além de contribuírem para o andamento metodológico da pesquisa, também podem ser benéficas na qualidade e na velocidade da escrita, uma vez que a maneira mais eficiente de aprender a escrever é escrevendo, conforme os autores Bogdan e Biklen (1994).
Na mesma direção, Gibbs (2009, p. 45) argumenta que o diário de pesquisa, ou diário de campo, ou ainda, o caderno de notas são locais em que os pesquisadores:
Registram suas ideias, discussões com os colegas, noções sobre o próprio processo de pesquisa e qualquer outra informação pertinente ao processo como um todo e à análise de dados. Essa é uma boa ideia para qualquer pesquisador em qualquer etapa do caminho. Para alguns o diário é um documento muito pessoal e reflete sua própria “trajetória” ao longo da pesquisa. Para outros, é um documento muito mais amplo, mais como o que alguns chamam de diário de campo, ou diário de pesquisa, que inclui um comentário cotidiano sobre os rumos da coleta de dados e percepções, ideias e inspirações sobre a análise.
Esses registros são anotações reais, contemporâneas do ambiente da pesquisa em movimento; são formas de documentar o que vemos, sentimos e ouvimos que podem ser registrados, ainda, no próprio ambiente pesquisado, ou serem produzidos após sairmos dele. Entretanto, todos os autores recomendam que essas anotações sejam realizadas o mais rápido possível, para que não haja esquecimento de elementos fundamentais para a pesquisa.
Em pesquisas interventivas, em que os próprios pesquisadores também são responsáveis pela condução dos trabalhos, é fundamental reservar um tempo, após o campo, para que possam registrar o que ocorreu, suas impressões e recomendações para as etapas seguintes da pesquisa. Neste caso, as reflexões sobre o processo, que emanam das descrições do ocorrido, contribuem de forma significativa para o replanejamento de ações de pesquisa, sempre que necessário, realizandose simultaneamente o registro das razões que levaram a isso.
Neves (2006, p. 08) traz orientações importantes quanto aos registros das impressões e reflexões dos/as pesquisadores/as no diário de campo: “Ao se registrar impressões subjetivas e sentimentos, deve-se ter o cuidado de fazê-lo de forma distinta dos acontecimentos em si, para que possa haver uma avaliação posterior tanto dos acontecimentos quanto dos sentimentos e impressões”. Ainda conforme a autora, durante as observações, o pesquisador também pode realizar anotações teóricas no diário de campo que, posteriormente, no desenvolvimento da pesquisa, serão mais bem fundamentadas. Estas recomendações são fundamentais, principalmente, para os pesquisadores iniciantes, uma vez que o trabalho de campo, geralmente, resulta em muitos dados a serem analisados, por isso a organização das anotações dinamizará o trabalho do/a pesquisador/a.
Para a análise dos registros, o/a pesquisador/a precisa identificar, em suas escritas descritivas e reflexivas, o que é fundamental, estabelecer um diálogo com a teoria e com outros dados que tenham sido produzidos e relacioná-los com a problemática investigada e os objetivos estabelecidos para a pesquisa. Nesse processo, nem tudo será analisado, mas será essa interlocução dos dados com as memórias registradas que permitirá, durante a escrita, ampliar a compreensão do objeto de estudo. No processo de análise do diário de campo, é possível acompanhar a evolução do pensamento do pesquisador em relação a sua pesquisa, o que possibilita a abstração de outros conhecimentos em relação ao tema estudado, por ser esse diário “[...] um instrumento de caráter pessoal que alarga as possibilidades de análise, construído no movimento de reflexão contínua sobre os dados registrados” (Helbel, 2022, p. 91).
Nesse sentido, o diário de campo, também contribui com a formação do/a pesquisador/a que vai construindo teias objetivas e subjetivas nas escritas de seu diário de campo, sejam elas pessoais, ou não, durante a pesquisa. Mills (2009, p. 23) afirma que todo pesquisador deve ter um diário, um arquivo que possibilite seus registros de forma criativa.
O arquivo o ajuda também a formar o hábito de escrever. Você não poderá adquirir esse hábito se não escrever alguma coisa pelo menos uma vez por semana. Ao desenvolver o arquivo, pode fazer experiências como escritor e assim, como se diz, desenvolver sua capacidade de expressão. Manter um arquivo é empenhar-se na experiência controlada.
Assim, o diário de campo constitui-se em um instrumento muito importante e, além de contribuir com a geração e análise dos dados da pesquisa, também passa a ser um dispositivo formativo do sujeito pesquisador. Conforme Mills (2009, p. 94, grifo do autor): “Escrever é, entre outras coisas, sempre uma maneira de compreender a nós mesmos. Só compreendemos nossos próprios sentimentos e nossas próprias ideias escrevendo-os”.
Enfim, o diário de campo, é um instrumento que possibilita registrar muitas informações objetivas e subjetivas da realidade investigada e do objeto de estudo, por isso a importância de compreender essa técnica para evitar dificuldades nos procedimentos de produção e registro de dados de uma pesquisa de natureza interventiva, uma vez que é o movimento de informação e de formação do pesquisador e dos participantes - constituído no processo empírico e teórico da investigação - que possibilitará a resolução de uma problemática.
Filmagens em vídeo-gravação
A técnica de filmagem em vídeo-gravação caracteriza-se como um recurso potencialmente útil para as análises das linguagens não-verbal e visual. Para compreendermos essa técnica em pesquisas, faz-se necessário entender que, historicamente, ela está interligada com o desenvolvimento tecnológico, que começou a partir do século XIX e que está cada vez mais inserida em nossas práticas cotidianas por meio das Tecnologia de Informação e Comunicação - TICs. Os registros em vídeo adentraram nossas vidas em filmagens de nascimentos, casamentos, festas de aniversários, uso da internet, realização de exames como ultrassonografia, segurança em bancos, supermercados etc., sendo estas consideradas filmagens técnicas de acordo com Souza (2007).
Ao analisarmos o uso de imagens históricas e culturais, podemos observar que elas estão em nosso cotidiano de forma cada vez mais intensa e, nesse sentido, “Refletir sobre as questões suscitadas pela imagem técnica é também procurar uma ampla e profunda compreensão sobre a nossa história, nossa cultura e nossos modos de subjetivação” (Souza, 2007, p. 78). De certa forma, essas transformações tecnológicas adentraram nossas vidas, mas, nas pesquisas em ciências humanas, a técnica de filmagem em vídeo-gravação ainda está sendo utilizada de forma incipiente; para além das dificuldades técnicas, com o desenvolvimento dos recursos de imagem e som, buscase aprimorar o rigor científico e os cuidados éticos e metodológicos com o uso de imagens. Eticamente, o pesquisador precisa dar ciência dos objetivos da pesquisa aos envolvidos, ter o consentimento livre e esclarecido sobre o uso de imagem e som das pessoas e do local.
Conforme apontam os autores Powell, Francisco e Maher (2004), a capacidade da utilização de vídeo-gravação em pesquisas, o desvelar, momento a momento, de sons e imagens de um fenômeno que é o objeto de investigação, tem se tornado um imenso e poderoso recurso metodológico para os pesquisadores. Entretanto, no que concerne à imagem, todo cuidado é necessário no desenvolvimento dos processos metodológicos de uma pesquisa uma vez que ela carrega os modos subjetivos dos sujeitos participantes, bem como do investigador. Ela registra momentos que expressam conhecimentos e experiências vivenciadas na construção do conhecimento histórico e social de um fenômeno. Por isso, nessa relação entre pesquisadores/as e pesquisados/as, a consciência de que é necessário assumir uma postura dialógica e alteritária se faz importante e necessária no campo da investigação e da geração de dados na pesquisa interventiva. Como afirmam Nunes e Almeida (2022, p. 416):
O pesquisador busca tornar-se um com o outro que é alheio, estranho a si, mas que tem o que lhe falta, o que ainda não sabe, o que precisa saber, o que precisa pesquisar. Ele depende do outro para conhecer seu próprio interior e nesse processo, é preciso aceitar, discutir e incorporar valores que pertencem a um e ao outro. A alteridade é a afirmação da diversidade e da importância das diferenças.
Concordamos com os autores quando afirmam que precisamos conhecer, respeitar e compreender os sujeitos participantes da pesquisa em suas especificidades sociais, culturais, políticas, dentre outras. As diferenças que caracterizam os/as participantes constituem-se em riqueza, na perspectiva qualitativa de pesquisa. Sendo assim, vale ressaltar que “o uso do vídeo na pesquisa em ciências humanas, deve estar compromissado com a desmistificação da técnica, colocando-a a serviço dos processos de criação do conhecimento e do próprio sujeito” (Souza, 2007, p. 86). Há, assim, conforme a autora, estratégias metodológicas e reflexivas nessa relação participativa, com o uso e a mediação dos instrumentos técnicos para análise mais profunda dos contextos físicos, sociais, virtuais e subjetivos representados no momento.
Para que o uso da técnica de filmagem em vídeo-gravação possa ser utilizado como recurso metodológico na produção de material empírico, devemos considerar os aspectos éticos, técnicos, de catalogação, de organização e análise do material. Pinheiro, Kakehashi e Angelo (2005, p. 718) afirmam que o uso do vídeo, “[...] não se resume ao aspecto puramente técnico de captação de imagens e sons, mas implica em planejar adequadamente. [...] para conhecer melhor o universo de estudo. O vídeo constitui-se em método de observação indireta de coleta de dados”.
Quando as ações são complexas e difíceis de serem captadas na íntegra somente pelo investigador, o uso do vídeo auxilia, pois pode ser visto por outros e revisto, várias vezes pelo pesquisador. (Loizoz, 2002; Pinheiro; Kakehashi; Angelo, 2005). Desse modo, esse recurso auxilia o pesquisador em seus registros, em face das dificuldades de realizar anotações quando está na coordenação das atividades de pesquisa intervenção. Nesse sentido, a filmagem além de registrar a fala dos participantes, proporciona a captura visual de ações e expressões dos sujeitos em seus movimentos, elementos imprescindíveis para a construção da análise e posterior escrita.
No planejamento, o pesquisador precisa estar atento aos aspectos técnicos do uso da filmagem na coleta de dados. Desse modo, ele precisa ter um conhecimento prévio ao manusear a câmera, verificar a qualidade de som e de imagem, observar se há necessidade de um microfone extra, conectado à câmera para garantir a qualidade do som, escolher imagens fixas ou em movimento, usar ou não um tripé como recurso para filmagens de longa duração, escolher o ambiente, ajustar a iluminação e o tempo de filmagem. Nesse sentido, Garcez, Duarte e Eisenberg (2011, p. 255) recomendam, “[...] para que uma vídeo-gravação desempenhe, efetivamente, o papel a ela destinado em contextos investigativos, é necessário que o pesquisador esteja minimamente familiarizado com o equipamento e sinta-se à vontade para utilizá-lo”. Ainda no planejamento, considerando o fator tempo de filmagem, os autores Pinheiro, Kakehashi e Angelo (2005, p. 719) apontam que “[...] deve ser planejado de acordo com a natureza do fenômeno e também com a frequência de sua ocorrência e deve ser constantemente reconsiderado pela avaliação da qualidade das imagens e dos sons captados, seja pelo aspecto técnico ou conceitual”.
Dialogando com esse universo, Loizos (2002, p. 152) apresenta alguns desafios para o pesquisador na gravação de vídeos ao destacar que “[...] é relativamente fácil obter imagens que podem ser usadas, e relativamente difícil ter uma boa qualidade de som”. Assim, nos alerta quanto à qualidade da imagem e do som, nas questões técnicas do material e do local da pesquisa, que posteriormente serão analisadas. Loizos enfatiza, ainda, que o pesquisador precisa ter ciência que as imagens e a tecnologia são uma contribuição, não um fim em si.
Outro desafio relativo à questão da vídeo-gravação é que a filmagem pode deixar os participantes distraídos, tímidos e levá-los a apresentar comportamentos muito formais, para atender as expectativas do pesquisador, imprimindo, assim, dificuldades de se expressarem. Nesse sentido, é preciso realizar outras atividades, que antecedam às gravações, para que os participantes possam se acostumar e ficar à vontade diante da câmera. (Loizoz, 2002). Então, faz-se necessário que o pesquisador realize um planejamento minucioso ao usar a vídeo-gravação a fim de alcançar o objetivo da pesquisa, pois “A dimensão técnica da vídeo-gravação deve ser pensada de forma sempre articulada aos objetivos da pesquisa, já que influi diretamente na coleta/produção dos dados e, consequentemente, nos resultados”. (Garcez; Duarte; Eisenberg, 2011, p. 255-256).
Tão importante quanto o planejamento técnico da pesquisa, é a catalogação, decodificação e organização dos dados, visto que o pesquisador precisa estar ciente de que a filmagem nos proporciona um grande volume de informações e nem tudo que foi gravado será usado na análise. Assim, torna-se necessário selecionar os dados pertinentes aos objetivos da pesquisa. Os autores Powell, Francisco e Maher (2004, p. 100) ressaltam que:
Devido à intensidade da mídia, o uso de dados de vídeo resulta frequentemente numa enorme quantidade de informação. Para propósitos analíticos, isso leva ao desafio de não apenas se familiarizar com o conteúdo dos dados do videoteipe, mas também de conhecê-lo em seus mínimos detalhes.
Os autores orientam a assistir e as gravações várias vezes sem anotações, sem impor impressões analíticas, como um momento de observação do que foi gravado. Recomendam ainda que, na sequência, seja feita a descrição dos dados importantes, anotando eventos particulares de situações com a respectiva codificação no tempo da gravação, situando, assim, atividades ou significados. Aconselham que, nessa fase, as anotações sejam descritivas sem inferências do pesquisador, o que lhe permite familiarizar-se com o conjunto de dados para se localizar nos episódios gravados. (Powell; Francisco; Maher, 2004).
A partir da descrição dos dados da gravação já identificados, passa-se a rever os vídeos identificando, analisando e anotando os momentos significativos ou eventos críticos. Com isso, começa-se a fase da transcrição analítica das falas, dos gestos, dos comportamentos, dos movimentos do corpo, das contradições; dados que possam fornecer elementos relativos ao objetivo de pesquisa (Powell; Francisco; Maher, 2004). Esses procedimentos, realizados de forma sistemática e cuidadosa, dinamizarão o trabalho do pesquisador, facilitarão a transcrição dos dados e atribuirão credibilidade à pesquisa. Outra forma de dinamizar esse trabalho de análise na investigação científica, é o uso de programas de computador, o que permite “[...] a integração de documentos em diferentes formatos - textos, imagem gráfica, áudio e vídeo - no mesmo ambiente operacional” (Garcez; Duarte; Eisenberg, 2011, p. 257-258).
A partir da compreensão e análise do material obtido, inicia-se a construção e interpretação dos dados empíricos, à luz do referencial teórico e do fenômeno estudado, os quais irão compor a síntese da pesquisa, assim, “[...] obtém-se os conceitos que possibilitarão [a]o pesquisador alcançar níveis de análise mais consistentes para desvelar o fenômeno” (Pinheiro; Kakehashi; Angelo, p. 720, 2005).
Diante do exposto, percebemos que o uso de filmagem em vídeo-gravação é um recurso que demanda cuidados, atenção e disposição e possibilita a geração de dados de forma mais precisa do que o registro descritivo de observação, auxiliando na realização de análises críticas e reflexivas sobre o objeto de pesquisa, para a construção de conhecimentos.
Em pesquisas interventivas, em que o pesquisador conduz o processo de ensino ou de formação, torna-se necessário o apoio de pesquisadores auxiliares para operar o equipamento e auxiliar durante o desenvolvimento das atividades, pois, ao contrário do que ocorre com o diário de campo, que pode ser redigido após a saída do campo, a filmagem registra o momento da ação.
Com o avanço tecnológico, o que era extremamente difícil há alguns anos atrás, tornou-se comum, uma vez que os próprios aparelhos celulares produzem vídeos com qualidade suficiente para produção de registros que podem ser analisados. Entretanto, sem um planejamento adequado que leve em conta os objetivos da pesquisa para direcionar o foco da gravação, pode-se obter um volume grande de dados sem produzir material relevante para a pesquisa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este texto discute as possibilidades e dificuldades do uso do diário de campo e da filmagem como técnicas de registros de dados em pesquisas interventivas. A partir de estudos teóricos, apresentamos os desafios desses registros nas ações de pesquisas de natureza interventiva nas quais os/as pesquisadores/as atuam também como formadores/as ou professores/as, o que dificulta o registro das ações desenvolvidas. Buscamos apresentar aspectos históricos, discutir os conceitos teóricos, mostrar como realizar esses registros, apontar as vantagens, dificuldades, possibilidades e cuidados éticos durante seu uso.
As pesquisas de natureza interventiva são caminhos metodológicos em que pesquisadores/as e participantes atuam de forma participativa na construção do conhecimento em relação à problemática estudada. Seu objetivo é identificar uma problemática e nela intervir de maneira propositiva. Assim como em outras modalidades de pesquisa, a ética é essencial no processo investigativo interventivo. Para que seja possível o estabelecimento de trabalho cooperativo e propositivo, faz-se necessário assumir uma postura dialógica e alteritária ao estar em contato direto e indireto com os modos objetivos e subjetivos de vida pessoal, profissional e social dos envolvidos na pesquisa. No estudo teórico realizado, foi possível identificar que por meio do uso dessas técnicas são produzidas muitas informações relevantes para a análise de processos formativos e de ensino. Mas, para que sejam úteis ao pesquisador, e garantam a rigorosidade exigida na pesquisa científica é necessário um planejamento minucioso e procedimentos adequados durante o trabalho de campo.
Além do planejamento e do rigor no processo de produção dos dados, é necessário adotar determinados cuidados na análise do material produzido, articulando os dados de campo com os objetivos da pesquisa e o referencial teórico que a orienta, bem como a discussão dos dados com outros pesquisadores de forma a não incorrer em análises parciais e/ou incompletas.
Conforme apontamos, o diário de campo e a filmagem são possibilidades na geração e análise de dados e podem contribuir para a produção de conhecimentos que contribuam para mudanças possíveis na realidade investigada, a partir de uma visão crítica e reflexiva do ambiente de pesquisa.
Apontamos como limite deste estudo a ausência de exemplos de registros e análises com materiais produzidos a partir de pesquisas. Por isso, recomendamos a publicação de outros trabalhos em que relatos de campo de pesquisadores/as que realizaram pesquisas utilizando essas técnicas de produção de dados compareçam nos textos, pois poderão ser úteis, principalmente para pesquisadores iniciantes, uma vez que nem sempre as teses e dissertações dedicam maiores detalhes sobre seus usos.














