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Revista Teias

versão impressa ISSN 1518-5370versão On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.25 no.79 Rio de Janeiro out./dez. 2024  Epub 07-Maio-2025

https://doi.org/10.12957/teias.2024.80279 

Artigos de Demanda Contínua

CORPO-MULHER AMAZÔNIDA: pesquisadoras na Filosofia da diferença

THE AMAZONIAN BODY-WOMAN: Women researchers and the philosophy of difference

CUERPO-MUJER AMAZÓNICA: Investigadoras en la filosofía de la diferencia

Caroline Barroncas de Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0001-8430-2855; lattes: 7898558694581023

Mônica de Oliveira Costa2 
http://orcid.org/0000-0003-3771-3955; lattes: 0219564272293424

Monica Silva Aikawa3 
http://orcid.org/0000-0003-4695-9762; lattes: 1717750077563228

1Universidade do Estado do Amazonas

2Universidade do Estado do Amazonas

3Universidade do Estado do Amazonas


Resumo

Esse ensaio objetiva problematizar a existência da mulher e pesquisadora, reafirmando a existência duma multiplicidade de vidas no grupo de estudo e pesquisa Vidar In-tensões, na perspectiva da Filosofia da diferença. Como escrever um corpo-mulher amazônida que pesquisa alinhada à diferença? De que modos se escrever enquanto corpo-mulher pesquisadora que escapa às posições e coordenadas localizáveis? Beleza e delicadeza compõem um feminino instituído num tempo disciplinar em que este corpo segue preso no interior de poderes, limitações, proibições e obrigações. Esses elementos ainda não se encerraram para a mulher e se instalam na sociedade como modo de fabricação da imagem do feminino sensualizado, objetificado, subvalorizado, docilizado e recatado. Suspeitamos dessas verdades e nos posicionamos como mulheres-pesquisadoras no viés do Devir da Filosofia da diferença, enquanto filosofia da multiplicidade e construção incessante que assume uma fluidez provocativa à invenção de conceitos. O texto articula-se à ferramenta da escrita de si foucaultiana, ao assumir o escrever-se enquanto criação de si, multiplicação de formas de vida de mulheres amazônidas que pesquisam nas fronteiras da diferença. Rodamos nossas próprias vidas com o grupo Vidar In-tensões, em atos de si consigo e com outros(as), em fugas dos instituintes do que podemos e devemos ser. Neste, mobilizamo-nos em processos formativos docentes por entrevias menores, clandestinidades, nomadismos, geramos pesquisas femininas desimportantes, desinteressantes, desqualificadas para homens doutos e dialogamos, acontecemos, encontramo-nos no (re)existir na universidade enquanto mulheres-pesquisadoras na Filosofia da diferença. Seguimos como brecha nos espaços mais fechados, num devir-mulher em transformação de si em zona de vizinhança.

Palavras-chave: mulher; pesquisa; filosofia da diferença.

Abstract

This essay utilizes the Philosophy of Difference to problematize the existence of women as researchers as well as to reaffirm our multifaceted existence within research group "Vidar In-tensions." How to write a feminine body from the Amazon who researches aligned with difference? In what ways to write oneself as a female researcher who escapes locatable positions and coordinates? Emotionality, beauty, and delicacy shaped femininity throughout centuries, consequently our body remains confined within powers, limitations, prohibitions, and obligations. These elements are not over yet for women; in fact, they are still present in society to reproduce sensuality, objectification, undervaluation, obedience, and chastity. We face these established truths and position ourselves as women researchers through the lens of the Becoming in the Philosophy of Difference, i. e., a philosophy of multiplicity and construction that assumes a fluidity and leads to the invention of concepts. The text is articulated with the tool of Foucaultian self-writing, by assuming self-writing as self-creation, multiplication of forms of life of Amazon women who research on the borders of difference. We rotate our own lives with the group Vidar In-tensões, in acts of oneself with oneself and with others, in escapes from the instituting of what we can and should be. While creating what can become within our research group, we venture to live through actions towards ourselves and otherwise in a way that escapes any expectations of what we can and should be. We engage in educational formative processes through minor paths, clandestine actions, and nomadism; as a result, we end up generating seemingly insignificant, uninteresting, and disqualified feminine research. We engage in the Philosophy of Difference to address and find ourselves in the process of existing within the university as women and researchers. We continue as a breach in the most enclosed spaces in a becoming-woman and in a selftransformation that occurs within a zone of proximity.

Keywords: woman; research; philosophy of difference.

Resumen

El presente ensayo tiene como objetivo problematizar la existencia de la mujer y la investigadora, reafirmando la existencia de una multiplicidad de vidas en el grupo de estudio e investigación "Vidar Intensiones" desde la perspectiva de la Filosofía de la diferencia. ¿Cómo escribir un cuerpo-mujer amazónica que investiga alineada con la diferencia? ¿De qué manera escribirse como cuerpo-mujer investigadora que escapa a las posiciones y coordenadas localizables? La belleza y la delicadeza componen un femenino instituido en un tiempo disciplinar donde este cuerpo sigue atrapado dentro de poderes, limitaciones, prohibiciones y obligaciones. Estos elementos aún no han concluido para la mujer y se instituyen en la sociedad como un modo de fabricación de la imagen del femenino sexualizado, objetivado, subvalorado, domesticado y recatado. Sospechamos de esas verdades instituidas y nos posicionamos como mujeres investigadoras desde la perspectiva del Devenir de la Filosofía de la Diferencia, como filosofía de la multiplicidad y de la construcción constante, que asume una fluidez que provoca la invención de conceptos. El texto se articula con la herramienta de la autoescritura foucaultiana, al asumir el escribirse como creación de sí mismo, multiplicación de las formas de vida de mujeres amazónicas que investigan en las fronteras de la diferencia. Hilamos nuestras propias vidas con el grupo Vidar In-tensiones, en actos de sí mismas con uno misma y con otros(as), en fugas de las instituciones de lo que podemos y debemos ser. En este sentido, nos movilizamos en procesos formativos docentes a través de caminos menores, clandestinidades, nomadismos, generamos investigaciones femeninas poco importantes, poco interesantes, descalificadas para hombres eruditos, y dialogamos, sucedemos, nos encontramos en el (re)existir en la universidad como mujeres e investigadoras en la Filosofía de la diferencia. Continuamos como una brecha en los espacios más cerrados, en un devenir-mujer en transformación de sí misma que ocurre en una zona de cercanía.

Palabras clave: mujer; investigación; filosofía de la diferencia.

DAS IMPORTÂNCIAS

Como medir a importância de uma vida? Como garantir a existência de múltiplos sujeitos e grupos? Como torcer a maquinaria que mede as importâncias da mulher e da pesquisadora, especialmente aquelas que se mobilizam pela diferença? É em vista de dar visibilidade para um passarinho na mão de uma criança, um osso na boca de um cachorro, um dente de macaco da era terciária (Barros, 2018, p. 43) e, margear possibilidades de inventar olhares para uma escrita de si que se ocupa do estranhamento aos modelos e a homogeneização, que dizemos de importâncias.

Ao nos alinharmos à Filosofia da Diferença, apresentamos alguns questionamentos acerca de fixações do ser mulher e pesquisadora na diferença. Isso nos incita trazer à tona inquietações quanto à medição e hierarquização da importância de algumas existências geralmente organizadas pelo binarismo (homem - mulher, ciência aplicada - ciências humanas etc.). São marcas cravadas nos corpos, desdobrando seus efeitos nas constituições de si.

Em vista disso, temos como objetivo problematizar a existência enquanto mulher e pesquisadoras na perspectiva da filosofia da diferença, reafirmando a existência de uma multiplicidade de vidas por meio do grupo de estudo e pesquisa Vidar em In-tensões. Emprestamos de Manoel de Barros o conceito de importância, pois destacamos que não é nosso objetivo apontar qualquer hierarquia sobre a ideia de mulher, de pesquisa e das múltiplas possibilidades de existir enquanto mulher-pesquisadora em uma universidade. Queremos enfatizar que a tessitura da importância em destaque é balançada pela linguagem e pela diferença e busca provocar o pensamento para algumas desestabilizações de certezas das quais partimos, quando planejamos e desenvolvemos pesquisas que tomam a vida em devir.

CORPO-MULHER NA DIFERENÇA

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: - Veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar.

(Manoel de Barros)

Ideias são como palavras fotografadas, fabricações discursivas que invadem o que quer que seja, lugares, pessoas, coisas. A mulher historicamente foi e ainda é emoldurada de várias formas, todas elas centradas na ideia de inferioridade, assujeitamento, erotização, exploração ou na massificação de uma mulher que busca igualdade de gênero. Ambas as ideias estão pautadas no viés binário de entender o sexismo. A ciência moderna “masculinizada” opera e detém o poder identitário do que é ser mulher, tirando a oportunidade dela se estranhar pelo seu corpo sensível, de questionar e suspeitar dessa identidade dada e do que ela poderia e deveria ser diante da sociedade.

Essas características fixadas de mulher abalaram sua ocupação profissional. Por essa representação, a figura feminina ficou reclusa a lugares delimitados com relação ao que poderia fazer ou não, sempre em comparação com o masculino, o que limitava, dessa forma, sua atuação em trabalhos que mostrassem capacidade racional. Muitas mulheres escreveram, filosofaram, matematizaram, fizeram ciência e não foram reconhecidas e, muito menos, permitidas a estarem onde gostariam. Entre interdições discursivas do que o corpo feminino pode ou não fazer, a mulher se dispersou em suas singularidades.

A mulher buscou suas ocupações na vida, na ciência e na universidade como professora e pesquisadora. Eram muitos lugares tidos e entendidos somente para homens, mas na história essa luta foi impulsionada pela ideia de igualdade e não pela diferença, pela busca do “sol inteiro no corpo do mar” e pelo esquecimento da importância do “pingo de sol no couro de um lagarto”, como dito ao Manoel de Barros por um fotógrafo-artista. A busca pelo “sol inteiro no corpo do mar” é se moldurar pelo que é maior, o molar, no caso, pelo viés do dito sexismo binário, entre masculino e feminino, mas “o sexismo binário pode ser rompido para além do efeito masculino e feminino. Estes sexismos estancam o movimento, pois vivem dentro das teorias da ciência majoritária, da ciência política das identidades, portanto, reforçando a essência” (Krahe, Matos, 2010, p. 4).

Aqui, autorizamo-nos, enquanto corpos femininos, a suspeitar dessa mulher fixada e sujeitada a uma identidade que deve ser consagrada e atingida por uma consciência motriz. Estamos vendo, nesse posicionamento, a importância das diferenças, não igualdade de gênero, pois “a ideia de mulher que busca a igualdade nos direitos dos homens pode matar sua diferença, isto é, sua singularidade” (Krahe, Matos, 2010, p. 4). A diferença não se dá pela medição “com fita métrica nem com balanças e nem barômetros”, como disseram para Manoel de Barros, pois é fluida e múltipla. Portanto, afirmamos que este olhar para a mulher potencializa a sua diferença e sua capacidade de produzir a própria diferença, não pela binaridade, nem pelo jogo da semelhança.

Destarte, nessa filosofia, o conceito que mais se destaca é o de multiplicidade, que se define “pelo fora, pela linha abstrata, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem às outras” (Deleuze, Guattari, 1995, p. 17). Isso (re)constrói uma ideia singularizada da mulher, possuidora de margens borradas de um território demarcado por uma ciência que mortifica outros modos de existir para além do dado como verdadeiro, estabelecendo-se como pontos de conexões a muitas formas de ser e estar no mundo.

Mas de que singularidade ou diferença tratamos quando o tema é a mulher? Lembramonos da “associação clássica da feminilidade com materialidade [que] pode ser remontada a um conjunto de etimologias que ligam matéria com mater [mãe] e matrix [matriz] (ou útero) e, portanto, com uma problemática da reprodução” (Butler, 2019, p. 67). A mulher, comumente tida como a que ocupa uma materialidade da maternidade, um corpo feminino que gera e cuida, um discurso biológico e natural da mulher.

Mas perguntamos: “Que homens ajudaram a tecer essa imagem? Os filósofos foram alguns desses homens. Muitos deles trataram as mulheres de forma negativa. São raros os que destacavam uma posição contrária à da negatividade em relação ao sexo feminino” (Silva, 2015, p. 2). Por essas questões que não encontramos tantas discussões da mulher na Filosofia da Diferença, nem nos deparamos tanto com filósofas e outras estudiosas da academia, mas, ao olharmos a produtividade dessa discussão na tentativa da abertura de fissuras da produção acadêmica, pensamos na posição da mulher e em suas importâncias no lugar que ocupam, rompendo e constituindo entrelugares possíveis de vivermos.

Nós, como professoras universitárias, nos questionamos acerca de como nós, mulheres, nos posicionamos nesse espaço da vida: como intelectuais, mães, esposas, filhas etc.? Ao pensarmos nesse ato singular da mulher em busca de seus processos que produzem suas próprias singularidades, bem como no olhar e na via de conexões com as outras naturezas, propostas pela Diferença de Deleuze, remontamos a ideia clássica da feminilidade como origem e fabricação, não pela fixação moderna, mas pelas características da Filosofia da Diferença, que fazem com que as duas se toquem, a da sensibilidade de multiplicar e produzir outras existências. É que Filosofia da Diferença produz sempre conceitos novos a partir da singularidade, pois “toda criação é singular, e o conceito como criação propriamente filosófica é sempre uma singularidade” (Deleuze, Guattari, 2010, p. 13). Singularizar-se. Movimento mulher de sentir a vida em meio ao descolamento binário em que ela foi fabricada. Sentir por um corpo feminino afetado por marcas que registram condições de deslocar-se mesmo diante de paralisações impostas. Como dançar ao ar livre, assim nos colocamos por autorizações singulares de viver.

Ser “pingo de sol no couro de um lagarto” autoriza a mulher a viver em sua diferença, romper com a sua representação hegemônica para transpor a essência, estar em multiplicidades e criando modos diversos de existências. Por isso, afirmamos que não há um modo de ser único de mulher, tampouco uma identidade feminina. Até porque “em vez da identidade, que tenta reduzir a diversidade a um elemento comum, Deleuze prefere a diferença em si, a variação, a multiplicação, a disseminação e a proliferação” (Paraíso, 2010, p. 588). Pois a mulher é origem, é criação, é sensibilidade que percorre corpos outros que importam. Como nos diz Mãe (2011, p. 56): “Admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa. As mulheres, pensava ele, eram mais intensas”. Intensidades, velocidades, fruição em composições de cotidianos femininos que se fazem em devir-pesquisa e devir-mulher.

Com Nietzsche (2008, p. 358), entendemos devir “como algo que não tem estado final, não projeta uma identidade... Devir como um estado de variação”, fluidez constante, uma dupla captura em que se encontrando o afastamento dos dois para longe de suas supostas essências. Devir-mulher produz um inacabamento que possibilita a invenção de novos modos e que não terá espaços para o fixo, o estático, mas “um contágio” (Deleuze, Guattari, 1997, p. 19). Portanto, em movimentos de escapes identitários, mobilizamo-nos com essas importâncias medidas por métricas fluidas e menores com que, enquanto professoras, pesquisadoras e muito mais, traçamos nossas alianças afetivas e rizomáticas em devires.

IMPORTÂNCIAS DE PESQUISADORAS NA FILOSOFIA DA DIFERENÇA

Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

(Manoel de Barros)

Num olhar apressado e essencialista, a importância dos trabalhos de pesquisadoras é medida pelo quantitativo de artigos científicos publicados em altos estratos, pela presença como conferencista em grandes eventos da área e pelo desempenho e produtividade apresentados, uma espécie de Cordilheira dos Andes. Ao desmontarmos essa posição de detentoras dos conceitos e pensamentos que sustentam uma ciência rígida e repleta de convicções e universais, “aproximamonos daqueles pensamentos que nos movem, colocam em xeque nossas verdades e nos auxiliam a encontrar caminhos para responder nossas interrogações. Movimentamo-nos para impedir a “paralisia” das informações que produzimos e que precisamos descrever-analisar” (Meyer, Paraíso, 2012, p. 17). Buscamos o passarinho nas mãos de uma criança como na epígrafe.

Falamos das pesquisadoras ao mesmo tempo, em que nos ocupamos com as pesquisas das quais se ocupam. Isso se justifica porque os modos de se fazer pesquisa a que nos alinhamos consideram, no processo, a escritura de si. Assumimos a possibilidade de criar-se e recriar-se por meio do desenvolvimento das pesquisas, abandonamos a dimensão ilusória de uma ciência fixa, imutável e consideramos que ela possa ser mutável, instável, em constante deslocamento. Sendo assim, “não podemos comprovar nossas certezas e definir uma verdade absoluta: esses critérios são de outra abordagem da ciência que não almejamos praticar” (Cunha, Prado, 2007, p. 16).

Como as pesquisadoras alinham as pesquisas à escrita de si? Talvez possamos explicar tal indagação afirmando que todo processo de escrita traz consigo o jogo da constituição de subjetividades. A pesquisadora se faz escrevendo e escrevendo-se. Escrever significa também mexer em supostas identidades, em certos preenchimentos e em muitas opacidades. A escrita consiste na captura, no encontro e na feitura, bem como encarna o que se chama mundo real e o trai ao mesmo tempo. A escrita não se restringe ao papel, mas alcança o corpo. Em nossas investigações, mobilizamos as questões que apresentam empecilhos a existência de múltiplos modos de vida, questionar o que foi naturalizado pelo academicismo, por uma agenda de pesquisadores ditos renomados, por agências de fomento. Sentimos o pulsar do cotidiano e as miudezas dos processos formativos, ao mesmo tempo, em que capturamos rastros das singularidades desimportantes, escrevemos e reinventamos a nós mesmas para escaparmos da imobilidade da escrita acadêmica.

“Toda escrita é inscrição de si” (Coracini, Eckert-Hoff, 2010, p. 9). Com fios de uma e de outra, temos a malha ou a teia de conexões com as Amazônias, seus efeitos da pandemia da Covid- 19 no Ensino Superior ou ainda a presença de corpos docentes, infantis e brincantes. A tentativa é de problematizar como as pesquisadoras se inscrevem com seus dizeres na vida e no seu professorar. Esta é apenas uma maneira de se compreender os modos de ser-viver e a existência de uma pesquisadora pelo viés da Filosofia da Diferença ou da Filosofia do Desfazimento, como nomearam Souza e Santos (2011). Uma filosofia da multiplicidade e da construção incessante, que assume uma borrada rigorosidade e provoca a invenção de conceitos. “Não obstante, os novos conceitos são, de fato, novos na medida em que, durante o processo de sua criação, sejam remetidos a outros conceitos, tornando-se conectados à sua história e ao devir de suas conexões presentes” (Aguirre, Monteiro, 2017, p. 3).

Invenções como professorar, (des)olhar, alfabetizArte-se, sujeitos-multidões e vidar intensões buscam questionar lugares-comuns da formação de professores, mesmo que isso, em princípio, cause estranheza aos pesquisadores que transitam por outras perspectivas e que nos identificam como as meninas que pesquisam coisas diferentes pela Filosofia da Diferença. Tais inventividades abrem fendas para cada uma possa nomear de forma diferente e incomum os entendimentos que movimentaram suas pesquisas. Entendemos que a forma como somos nomeadas pelos corredores universitários importa menos que reafirmar o sujeito como efeito das linguagens, dos discursos, das enunciações e dos modos de endereçamento e subjetivação.

Isso mostra que o conceito não surge do acaso, e o conceito de Diferença na filosofia que tratamos estabelece relações estreitas com um conjunto complexo de outros conceitos, deduzindo, pois, que o conceito não é uma elaboração do nada. Destacamos também que junto dessa criação de novos conceitos e da ideia de diferença assumida, outras características podem ser apontadas, como a negação da representação, da defesa às identidades e à transcendência absoluta, assim como elege como ponto central do pensamento a multiplicidade, o diferente e o devir.

É preciso lembrar que há regularidades caracterizadas pelos binarismos, pelas certezas advindas de métodos científicos, pelas generalizações que massificam e nos tornam sujeitos (racional, iluminado e universal), bem como pela centralidade geográfica autorizada e consolidada para realizar pesquisas. Também há dispersões e descontinuidades que apontam para a resistência ao poder que as regularidades instauram. Nossas produções e invenções têm gerado práticas educacionais, currículos e pedagogias que apontam para a abertura, a transgressão, a multiplicação de sentidos. Abrem-se para “a dispersão, para a ruptura, para a desobediência das regras e para a emergência do heterogêneo” (Coracine, 2010, p. 28).

Nesse sentido, as pesquisas nos desafiam a problematizar, a questionar e a nos (re)formular ao longo do percurso. “O convite é deixarmos para trás o lago sereno das certezas” e “pensar de outra forma o que pensamos” (Fischer, 2007, p. 58). As pesquisadoras nessa perspectiva se diferem das demais por não tomarem como ponto de partida um caminho traçado e pensado previamente para se alcançar a resposta para sua investigação. O que buscamos na construção do caminho investigativo é observar como os discursos inventam modos de ver e dizer as coisas e os sujeitos que dela se depreendem (a mulher, a pesquisadora, a amazônida, etc.). Talvez nossas escolhas nos possibilitem ir além dessas problematizações e nos “atravessem como pesquisadoras que fazem de seu trabalho e de si mesmas uma obra de arte” (Corazza, 2002, p. 127).

Os recortes, as perguntas e o desmonte nos permitem sentir e problematizar os acontecimentos que constituem os objetos discursivos na trama das empirias eleitas. Na confecção das pesquisas, buscamos fazer nossas escolhas a partir de uma ampla rede discursiva, já que compreendemos que cada discurso fabrica uma verdade e atua para a sua naturalização. Assim, “operavam como máquinas de produção de sentido e de significados que funcionavam proliferando o “real”, produzindo sensibilidades e instaurando formas de ver e dizer” (Albuquerque Júnior, 2009).

Verbos como montar, problematizar, desconfiar, espreitar, destruir, suspender, borrar e rasurar fazem parte de como compreendemos a vida e a posição de pesquisadoras, bem como mostram o nosso constrangimento de lidar com a complexidade e fluidez dos estudos. Entendemos também que investigar o tempo presente implica estarmos atentas as mudanças nas condições sociais, nas relações culturais e nas racionalidades. “Mudaram os espaços, a política, os movimentos sociais e as desigualdades. Mudaram também as distâncias, as geografias, as identidades e as diferenças. Mudaram as pedagogias e os modos de ensinar e aprender. Mudaram as estratégias de ‘colonizar’, de educar e de governar” (Paraíso, 2012, p. 26).

Tais mudanças nos compelem a novas formas de ver e dizer o mundo. Mudaram nossos verbos, nossas arquiteturas de pesquisas, mudaram os outros e a nós também. A pesquisa desse tempo, a que Corazza chama “tempo do desafio da diferença pura” (2005, p. 12), gera descontinuidade em razão das muitas das invenções da modernidade. Em nossas pesquisas, ocupamo-nos e lutamos contra o sujeito racional, as causas universais, as metanarrativas, a linearidade histórica e o conceito de progresso. Mesmo que assumamos todos os pressupostos citados ao longo do texto, preocupamo-nos que eles nos auxiliem desde que não percamos de vista a dúvida, o inesperado, a provisoriedade do conhecimento e de cada uma de nós. Não é para amarrar um significado a um conceito, mas detalhar escolhas possíveis que nos ajudem a flutuar na pesquisa. Orienta, mas não prende.

DOUTAS? DESAGEROS DE CORPO-MULHER PESQUISADORA

Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém, não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com moscas do que com homens doutos. (Manoel de Barros)

Em nosso deságio por homogeneidades, modelos e simetrias, seguimos com esse defeito de alma ou de corpo e conversando com moscas. Conversas essas tidas por alguns como devaneios, divagações ou perda de tempo, mas perdemos o tempo, na verdade, para olhar mais demoradamente para nossos processos, problematizando e buscando captar devires.

Há quem diga que as questões da mulher e do feminino são pautas ultrapassadas, já que este gênero é maioria em diversos setores da sociedade, entre elas, a pesquisa, a ciência e a educação. Misoginia, mansplaining, manterrupting, gaslighting, bropriating, sexismo e sororidade são palavras vigentes no vocabulário feminista e corriqueiramente usadas para o empoderamento da mulher pesquisadora. Todavia, ainda há movimentos de afirmação da fala-escrita-pesquisa feminina pela voz masculina da cientificidade, pois supostamente isso não é coisa de mulher. É necessário que performemos uma imagem masculinizada para legitimação de nossos atos? Um disfarce mais endurecido e sisudo nos modos de pesquisar confere qualidade à pesquisa?

Sensibilidade, beleza e delicadeza compõem um feminino construído num tempo disciplinar no qual este corpo segue preso no interior de poderes com limitações, proibições ou obrigações que ainda não se encerraram para a mulher pesquisadora e que se instituíram na sociedade como um modo de fabricação da imagem do feminino que é sensualizado, objetificado, subvalorizado, docilizado e recatado (Foucault, 1987). O aparelho legal também institucionaliza uma docilização com a validação ou nulidade de seus atos pelo marido, ou pelos herdeiros e até o seu direito à profissão e os usos de seu próprio corpo chegou a passar pela autorização do esposo (Brasil, 1916). Vale relembrar que a mudança no Código Civil Brasileiro ocorreu apenas no ano de 2002 e “tratar de completar os códigos civis e constituições existentes com direitos para as mulheres e direitos definidos segundo seu modo de ser, isto é, além de uma especificidade sexuada, para as cidadãs enquanto pessoas” (Irigaray, 2002, p. 8).

Essas questões fortalecem uma ideia de mulher subalterna e coerente ao mundo arquitetado pelo masculino, o que revisita a compreensão de que masculino e feminino são arquitetados no tempo-espaço e determinados discursivamente. A questão de gênero do feminino transita em vias traiçoeiras do sexismo, vive em meio ao discurso majoritário do homem e se posiciona na diferença da máquina dual homem-mulher. Irigaray (2002) incita entrever, fabricar laços e modos de pensar as diferenças sexuais que estejam em rota de fuga do binarismo.

Um discurso potente ao feminino seria o de “respeito e valorização da mulher na escolha de suas prioridades e das maneiras de produzir” (Ibidem, 2002, p. 7). Nesse sentido, a micropolítica de enunciados de corpos (femininos), Butler (2019) destaca que o ser, o corpo, a sexualidade, o sexo, encontram-se presos nesse dever ser prescrito e articula uma ideia de concepção de gênero enquanto espetáculo em contingência, em revisitação do corpo (aqui, o feminino) e sua fabricação discursiva.

E nós, antecedidas por outras tantas forças femininas, percorremos as linhas manoelinas e temos desagero em aceitar essas medidas predefinidas a nós. Optamos por discursos alternativos a essas composições de mulheres pesquisadoras em nossas arquiteturas impróprias. O devir-mulher nos aconchega, e, por ele, podemos sair de nosso passado e do nosso futuro (Deleuze, Parnet, 1998). Este devir não é mera imitação nem ajustamento a modelos, mas uma dupla captura de um novo corpo-mulher sempre em mudança. Esse corpo-mulher pesquisadora se encaminha em linhas de fuga desse feminino codificado que abre espaços de experimentações e se ocupa com microfeminilidades e com devires.

Então, perguntamos: o que pode o corpo feminino que se ocupa da pesquisa? Essa questão é muito pertinente ao conceito de multiplicidade deleuze-guattariano e nos leva à problematização do corpo e da existência da mulher-pesquisadora na via da Filosofia da Diferença, objeto desse ensaio. Tal indagação nos remete ao abandono do cosmopolitismo e o alinhamento a uma cosmopolítica (Stengers, 2018): o corpo feminino não deseja ocupar o lugar do corpo masculino; tão menos pretende ser parte de um todo maior já dado. A ele, interessa proliferar alianças improváveis que sintam os efeitos das posições humanas mínimas. A cada pesquisa realizada, um corpo feminino é abalado, reconfigurado, desbotado e reinstaurado, pois multiplicar um corpomulher pesquisadora é de uma natureza experimental e composicional de uma causa comum. Tal escrita de si corta a continuidade e regularidade de uma suposta representação de um “nós” preexistente e margeia um “nós”, cada vez diferente que nos lança para além do que se diz.

Somos multiplicidade. Nosso ser mulher se infiltra nesta filosofia com o Vidar em InTensões e desafia o poder das tradições acadêmicas, ainda que já tenhamos enraizado nós mesmas na dialética e na fenomenologia. Tomadas por esta posição do feminino, sentimos nesta escrita o grito dessa mulher-multiplicidade. A diferença entre mulheres, como mulheres, sendo mulheres, continua muito fundamentada em filósofos masculinos, por isso, emergimos em nascimentos de corpos nômades. O quanto essa escrita traduz as nossas importâncias na Filosofia da Diferença? O que podemos com esta invocação feminina na pesquisa com a Diferença? O que pode o corpo feminino com a Filosofia da Diferença?

Nas conversas com moscas, trazemos o corpo feminino à escritura, enunciamos nossas operações por e com nossas microações de transformação como mulheres-pesquisadoras. São microfeminilidades nas quais nos constituímos como potentes modos de existir na universidade, enquanto mobilizações com a Filosofia da Diferença que compõem o Vidar in-Tensões. Este foi uma linha-grupo que se constituiu em clandestinidade acadêmica e hoje já conta com o suposto aval dos órgãos competentes, formada com professoras e estudantes que se encontraram em desconformidade com o educar, com as ciências naturais e as Amazônias. Dizemo-nos linha-grupo em clandestinidade, pois nosso laço veio de grupo de pesquisa anterior, numa linha de pesquisa intitulada “Formação de professores para o Ensino de Ciências na Amazônia” e, foi se transformando em Vidar. Estar numa linha “para o Ensino” e transmutar em “Vidar” balançou o pulsar da academia com cotidianos, singularidades e vidas.

A Figura 1 materializa algumas dessas produções-movimentos do/no Grupo Vidar, os temas discutidos nessa trajetória de mulheres-pesquisadoras na Amazônia. “Um Corpo-Mulher Amazônida” surge em uma biocolagem do si, microscopado da imensidão florestal, fluvial e edafical, em metamorfose consigo e o próprio ambiente. Com seus pés no solo e nas águas, este corpo em meio ao grupo de pesquisa vem marcado por encontros e explode em galhos com os ateliês (auto)formativos, as arqueologias das ciências naturais, as trilhas narrativas e autobiografias, os modos de educar e cuidar as infâncias... Sua medula, suas ramificações nervosas periféricas criam uma associação íntima com o sistema condutor das plantas, transmutam-se com o cuidado de si, as multiplicidades, o professorar, as Amazônia(s), as mulheres amazônidas e destoam de como as pesquisas em educação vem sendo elaboradas, subvertem o ambiente acadêmico. Um micro rizoma florestal feminino que pouco tem a ver com conhecimento arborescente, não fazemos brotar novos saberes, nem enraizamos teoria, nem fixamos metodologia, pretendemos movimentos, explosões, sensibilidades, simbioses com pesquisa-vida, mulher-floresta, galhos-igarapés, virtual-atual.

Fonte: Aikawa, 2024.

Figura 1 Um corpo-mulher amazônida 

Fonte: Aikawa, 2024.

Figura 2 Reflorestar-se em auroras 

O ato inaugural do Vidar se mobiliza por pesquisas com as ideias foucaultianas, em que a subjetividade docente pela linha das discursividades se articulou às nossas investigações autobiográficas. Governamentalidade, biopoder, passaram a fabricar as lentes em nossos modos de existir na pesquisa. Suas materialidades em filmes, desenhos e textos literários passaram a se encontrar com a pedagogia, as ciências naturais e se incorporaram em nossos projetos e pesquisas, especialmente naquilo que se denomina contexto amazônico.

Sobre este, interessa-nos pensar o encontro com as pesquisas na Amazônia para além das ideias de escassez, precariedade, desconhecimento, características coladas àquilo que se chama de realidade amazônica. Como nos lembra Souza (2014, p.30) “afastando-se os entulhos promocionais, as falácias da publicidade e a manipulação dos noticiários de acordo com os interesses econômicos, nota-se que a Amazônia vem sendo quase sempre vitimada, repetidamente abatida pelas simplificações, pela esterilização de suas lutas [...]”. Estabelecemos discussões para colocar em xeque um caminho sem desvios ao assumir rotas alternativas e múltiplos pontos de chegada. Mas como fazer isso? Como nos tornamos fortes para explodir as formas como lemos, compreendemos, pensamos a Amazônia? Nos posicionando numa trajetória sinuosa de leituras feitas, desfeitas e refeitas, ideias propostas e experimentadas, possibilidades que permitem compor a trama enunciativa que fabrica uma Amazônia entendida como real e que se diz que o Brasil e o mundo precisam conhecer, proteger, contemplar, explorar...

Sendo assim, borramos a grandeza espacial que de antemão já é motivo suficiente para frustrar qualquer tentativa de conferir unidade a essa imensa multiplicidade e nos ocupamos com a magnitude de um “território de dentro”, com pesquisas na Amazônia na qual não se habita, mas pela qual se é habitado. Amazônidas loiras e orientais, num território dito de índio, talvez seja essa a Amazônia que nos habita. Quem sabe é essa a cara de uma mulher da Amazônia que trazemos em nós, enquanto ouvimos ao meu redor “Você é daqui?”, “Nasceu aqui?”, “Não parece daqui!” Talvez nossos daqui não coincidam. Quiçá sejam muitos ou nenhum. Nenhum palpável, nada tangível, apenas fluidez. É possível que aqui água e terra componham um múltiplo que alterna caminhos aquáticos e solo firme. É por entre os movimentos de criação e subversão no ambiente acadêmico pesquisado que o grupo de pesquisa se faz em corpo-mulher amazônida (Figura1).

Borramos a ideia de escrita acadêmica e montamos pesquisas com as poesias, fotografias, biocolagens. Montamos projetos de ensino outros no Curso de Licenciatura em Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências na Amazônia. Modificamos as reuniões do grupo de pesquisa em encontros, aqueles que se atualizam em infinitudes de singularidades e o que se passa entre elas, no meio delas (Deleuze, Parnet, 1998), encontros com os quais espreitamos Amazônia(s), infância(s), docência(s), alegria(s), afastamentos, devir(es). A própria existência desse grupo se faz em subversão aos padrões estabelecidos do pesquisar e ensinar na universidade, aos modelos de projetos ditos adequados, das desaprovações de escrituras de si.

Nossos projetos-pesquisas mobilizam a formação inicial docente, a arte e a vida, ao mesmo tempo, em que o feminino em seus microespaços estremece a pesquisa em educação. Essa composição de pesquisas e vidas no Vidar transforma-se em verbo e reverbera em redescobertas de si, do feminino, e movimentamo-nos em meio a invenções e descontinuidades criando ficções de um devir-mulher da/na pesquisa universitária. Na produção do nosso próprio devir, rodamos nossas próprias vidas em atos de si consigo e com o outro, em fugas dos instituintes do que podemos e devemos ser. Transitamos em processos formativos docentes, em vias clandestinas e nômades. Geramos pesquisas femininas desimportantes e desqualificadas para os homens doutos. Acontecemos, encontramo-nos no (re)existir na universidade. Seguimos sendo brecha nos espaços mais fechados num devir-mulher, numa transformação de si que se dá numa zona de vizinhança com Deleuze, Foucault, Barros e com Irigaray e Butler, com Oliveira, Costa e Aikawa.

Aqui nos constituímos corpos-mulheres em posição de reflorestamento do sensível. Uma escrita que abandona os fundamentos, as padronizações. Como nomeia Gonçalves (2013), uma autobiografia-deriva, essa que nos lança em um campo aberto, sedento em ser explorado, inventado. Uma autobiografia que reclama um reconhecimento sensível, pequenas autonomias estéticas, assim ela mesma eu seu autorretrato diz: “Tu que mais que outros trouxeste o criançamento ao ato de escrever, poetizaste a infância, revolucionaste a linguagem e as palavras em sua escrita literária poética. Estética da existência é o que viveste, deixaste vivo em teus escritos e me fazes (re)viver-me enquanto Autobiografia” (Oliveira, Costa, Aikawa, 2023, p. 12).

As experiências do grupo Vidar em In-tensões nos mobilizam na perspectiva de uma escrita de si foucaultiana anunciada em auroras de constituições outras das ditas pesquisas autobiográficas enquanto semente que germina docências, pesquisas, corpos-mulheres que se fazem em meio a artesania do sensível. Um “tipo de escritura de si que nos convide a experimentar e exercitar outros modos de subjetivação produzida no contra-fluxo da formalidade dos textos acadêmicos” (Chaves, 2018, p. 48), que funcionam ditando normas e formas ditas legítimas de ser professoras e pesquisadoras. Nossa vida em corpo-mulher amazônida, é um ato de fabricar artesanalmente um exercício de escrita “como arte de pedir licença para escutar uma vida em nascença constante, fugidia, desloucada” (Dias, 2017, p. 05).

CONSIDERAÇÕES

Potências em devir-mulher, fugacidades e estranhezas nos inventam como professoras e pesquisadoras na vida. Nesse texto, mobilizamos linhas de fugas que nos levaram a questionar as habitações que constituem as importâncias do corpo-mulher. Pensar no corpo-mulher é trazer a sensibilidade como eixo molecular de fazer-se outras de existências, frente ao que a ciência moderna institui enquanto ciência, universidade, pesquisa, ordenando quem e como se fazem e produzem esses espaços. Por isso, o devir-mulher é uma possibilidade de sair da zona do sexismo binário e das políticas de identidades que fixam posições culturais determinantes. Habitar um corpo-mulher em zonas margeadas da invenção do cotidiano e da vida movidas por sensibilidades outras nos faz desconhecê-la e entrar em uma zona de vizinhança em nossos fazeres enquanto professoras e pesquisadoras, de conexão com outras naturezas, pois o devir-mulher e suas variações de pesquisas é menor, é frágil, é abertura constante.

Ao compor uma vida feminina em uma Universidade na Amazônia, resistimos à ordem discursiva vigente travando lutas, escapando às visibilidades macroscópicas. Visibilizamos uma Amazônia tocada e retocada pela urbanidade, pelo humano que nunca, em nenhum tempo deixou de metamorfosear-se nela e com ela. Na invenção dessa tessitura de vidas e pesquisas, elegemos temas e uma perspectiva de olhar que permite produzir sentidos e sensações, fluir alegria e bemestar, olhando especialmente para a potência dos movimentos nas escolas e na universidade.

O ato de realizar uma pesquisa no viés da Filosofia da diferença já se caracteriza como transgressão, visto que ela não é vista como parte do conjunto das perspectivas de pesquisa eleitas como adequadas. Sendo assim, implodimos ementas das disciplinas, desformamos planos de ensino, borramos a tabela das áreas de pesquisas que desenvolvem os demais pesquisadores, habitamos espaços e afetos de uma filosofia que dá as mãos a felicidade de vidas que tomam a si próprias nas mãos.

Quando o devir-mulher flui, rasga-se a ideia de gênero e transborda na potência de criar vidas, escapando do pensamento maior, e busca ser um menor nesse contágio da produção da cultura em pesquisas educacionais. Sim, nós nos importamos e estamos corpos-mulheres amazônidas pesquisadoras na Filosofia da diferença!

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Recebido: 20 de Novembro de 2023; Aceito: 21 de Maio de 2024

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