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Revista Teias

versão impressa ISSN 1518-5370versão On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.26 no.80 Rio de Janeiro jan./mar. 2025  Epub 08-Maio-2025

https://doi.org/10.12957/teias.2025.82901 

Artigos de Demanda Contínua

SONHOS, COM-FABULAÇÕES E ESCRITA DE POSSÍVEIS NA EJAI: o que pode o estágio supervisionado no ensino de química?

DREAMS, CO-FABULATIONS, AND WRITING POSSIBILITIES IN EJAI: what can a supervised internship in chemistry teaching do?

SUEÑOS, CO-FABULACIONES Y ESCRITURA DE POSIBILIDADES EN LA EJAI: ¿qué puede hacer la práctica supervisada en la enseñanza de química?

Franklin Kaic Dutra-Pereira1 
http://orcid.org/0000-0003-4486-6124; lattes: 0234305843667539

Quézia Raquel Ribeiro da Silva2 
http://orcid.org/0000-0003-2179-7293; lattes: 5239266748192260

1Universidade Federal da Paraíba

2Universidade Estadual da Paraíba


Resumo

Neste artigo objetivamos explorar o estágio supervisionado no ensino de química na educação de jovens adultos e idosos (EJAI), no qual as experiências são tecidas na escrita de textos com-fabulativos. Em um cenário onde os sonhos dos/as estudantes se entrelaçam com os conteúdos químicos, cada aula se transforma em um possível de descobertas e (re)conexões. No entrelaçar das narrativas, os desafios se expandem ao mesmo tempo que abre caminhos, como também, oportunidades. A invisibilidade dos conhecimentos químicos se dissipa diante do olhar sensível dos/as educadores/as estagiários/as, que buscam construir pontes entre o saber acadêmico e o saber vivido. Neste mosaico com-fabulativo e narrativo de/das experiências, o afeto une a vida dos/das aprendizes aos conteúdos, modificando a sala de aula em um espaço de acolhimento e pertencimento. Ao final desta pesquisa, explorada pelo emaranhado das filosofias da diferença e enriquecido pelos estudos nos/dos/com os cotidianos, compreendemos que a educação química na EJAI é muito mais do que a transmissão de conhecimentos; é um convite para mergulhar com os cotidianos dos/as estudantes, celebrando suas histórias, seus sonhos e suas aspirações e inspirações. Concluímos, enfim, defendendo uma educação na EJAI enquanto um compromisso com a construção de um mundo mais justo e humano.

Palavras-chave: educação química; estágio supervisionado; cotidianos; filosofias da diferença; educação de jovens; adultos e idosos

Abstract

In this article, we aim to explore supervised teaching practice in chemistry education within the context of youth, adult, and elderly education (EJAI), where experiences are interwoven through the writing of cofabulative texts. In a setting where students’ dreams intertwine with chemical content, each class becomes a space of possibilities for discoveries and (re)connections. As narratives intertwine, challenges expand while simultaneously opening pathways and opportunities. The invisibility of chemical knowledge dissipates before the attentive gaze of pre-service educators, who strive to build bridges between academic knowledge and lived experiences. Within this co-fabulative and narrative mosaic of experiences, affect bonds learners’ lives to the curriculum, transforming the classroom into a space of care and belonging. Through an analytical framework informed by the philosophies of difference and enriched by studies on/in/with everyday life, we recognize that chemistry education in EJAI extends far beyond the mere transmission of knowledge. Rather, it is an invitation to immerse oneself in students’ daily experiences, celebrating their histories, dreams, aspirations, and inspirations. Ultimately, we conclude by advocating for EJAI education as a commitment to fostering a more just and humane world.

Keywords: chemical education; supervised internship; everyday life; difference philosophies; education for young; adults; and elderly

Resumen

En este artículo, nos proponemos explorar la práctica docente supervisada en la enseñanza de química en la educación de jóvenes, adultos y personas mayores (EJAI), donde las experiencias se entretejen a través de la escritura de textos co-fabulativos. En un contexto donde los sueños de los/as estudiantes se entrelazan con los contenidos químicos, cada clase se convierte en un espacio de posibilidades para descubrimientos y (re)conexiones. En el entrelazamiento de las narrativas, los desafíos se amplían al mismo tiempo que abren caminos y oportunidades. La invisibilidad del conocimiento químico se disipa ante la mirada sensible de los/as docentes en formación, quienes buscan construir puentes entre el saber académico y el saber vivido. En este mosaico co-fabulativo y narrativo de experiencias, el afecto vincula la vida de los/as aprendices con los contenidos, transformando el aula en un espacio de acogida y pertenencia. A través de un marco analítico basado en las filosofías de la diferencia y enriquecido por los estudios en/de/con lo cotidiano, comprendemos que la educación química en la EJAI es mucho más que la mera transmisión de conocimientos. Es, más bien, una invitación a sumergirse en las experiencias diarias de los/as estudiantes, celebrando sus historias, sus sueños, sus aspiraciones e inspiraciones. Finalmente, concluimos defendiendo la educación en la EJAI como un compromiso con la construcción de un mundo más justo y humano.

Palabras clave: educación química; prácticas supervisadas; cotidianos; filosofías de la diferencia; educación de jóvenes; adultos y personas mayores

INTRODUÇÃO

A educação de jovens, adultos e idosos (EJAI) é uma modalidade de ensino fundamental da educação brasileira, com desafios específicos e necessidades distintas. Acreditamos, sonhamos e apostamos que a EJAI visa proporcionar oportunidades de aprendizagem para aqueles/as que não tiveram acesso à educação formal na infância e adolescência, buscando atender às demandas de um público mais maduro, que muitas vezes busca aprimorar habilidades ou conhecimentos específicos (Silva, Santos, 2021).

A EJAI é compreendida enquanto modalidade de educação formada pelos diversos sujeitos integrantes da classe trabalhadora, tais como: jovens, adultos e idosos da cidade, do campo, das comunidades ribeirinhas, das florestas, das águas, dos assentamentos, das comunidades indígenas e quilombolas e dos sistemas prisionais, que [...] vivem seus processos de luta pela dignidade à vida, à educação pública, à saúde pública, ao saneamento, ao lazer, ao trabalho, dentre outros, direito ontológico para a construção da humanidade [...] (Costa, Farias, Conceição, 2021, p. 414).

No contexto brasileiro, a EJAI tem enfrentado desafios como a evasão escolar, a falta de infraestrutura adequada e a necessidade de práticas pedagógicas que considerem as características e experiências dos/as alunos/as adultos/as, promovendo a luta por direitos sociais e inclusão, já que muitos/as alunos/as são trabalhadores/as ou pertencem a grupos marginalizados, que foram e são invisíveis ao Estado.

São crescentes as preocupações no que diz respeito a EJAI em todas as áreas que compõem o espectro da formação docente, inclusive nos currículos escolares e das licenciaturas em química. Ludibriados/as pelos possíveis nos/dos/com os cotidianos escolares na EJAI, pensamos ser necessário (re)elaborarmos caminhos, trilhar outros possíveis, para este segmento que muitas vezes é esquecido nas licenciaturas específicas.

[...] precisamos considerar os processos individuais e coletivos de formação dos professores, as diversas influências recebidas e percebidas e as articulações entre elas, tanto no passado quanto no presente, para que possamos refletir sobre as possibilidades docentes de desenvolvimento de prática curriculares apropriadas a esses grupos, antes de condenar os limites e falhas dessas práticas. (Oliveira, 2010, p. 108).

Tamanhas falhas podem ser detectáveis em currículos que esquecem a EJAI como contexto possível de atuação do/a profissional formado/a em licenciatura em química. Se na EJAI há possibilidade de ensinar e aprender química, por que nos cursos estamos esquecendo a EJAI? A quem interessa apagar a EJAI dos currículos de formação docente das licenciaturas específicas no Brasil? Como a educação química na EJAI pode integrar os sonhos e experiências de vida dos/as estudantes, tornando os conceitos químicos acessíveis e relevantes com/sobre/para seu cotidiano?

Inspirados pelos estudos nos/dos/com os cotidianos escolares na EJAI, convém anunciar a necessidade de os cursos de licenciaturas ofertarem e promoverem, em seus estágios supervisionados a oportunidade de atuação na EJAI, desde o ensino fundamental (anos iniciais e finais) até o ensino médio, afinal, conceituamos os estágios enquanto acontecimentos que agenciam experiências de atuação profissional, no qual há oportunidade de vivenciar as feitorias do trabalho pedagógico do/a docente. Podemos assim dizer, que os estágios nas licenciaturas, em específico a química, devem favorecer momentos de aprendizagem teórico-conceitual sobre a EJAI, aproximando cada estudante desta modalidade para praticarpensar a química nas/das/com as diferentes redes de acontecimentos no âmbito escolar.

Desse modo, pensamos uma química humana, que é carregada de histórias e de movimentações imbricadas nos/dos/com os cotidianos que a EJAI acontece. Não esquecendo, portanto, de que nesta modalidade, estão jovens, adultos e idosos que estão em busca de uma oportunidade no mundo escolar. Como desejantes pela educação, os conceitos químicos, mediados pelos/as estagiários/as, nas mentes ávidas por descobertas, podem despertar um desejo insaciável de compreender as reações, as transformações e a vida. Nas mãos dos/as educadores/as que atuam no estágio na EJAI, a química se torna um possível para não sufocar, como afirmam Deleuze e Guattari (2010), transformando cada aula em uma experiência (Bondía, 2002).

Necessitamos formar docentes que estejam dispostos a encontrar maneiras criativas e acessíveis de traduzir o conhecimento, sem subestimar a capacidade intelectual dos/as estudantes, mas também sem sobrecarregá-los/as com informações demasiadamente abstratas. É uma dança delicada entre simplificar sem banalizar, entre desafiar sem desencorajar, na qual a empatia e a sensibilidade são as ferramentas mais preciosas na/para a educação, sobretudo a educação química.

Os estágios supervisionados na formação docente em educação química na EJAI são como agentes de descoberta, em que os/as futuros/as educadores/as mergulham nas/das/com as experiências de aprendizagem dos/as estudantes. Sob o olhar atento dos/as mestres/as, eles/as observam, escutam e aprendem, absorvendo cada gesto, cada palavra, cada expressão. É uma oportunidade de se (re)conectar com as necessidades e interesses dos/as estudantes, de compreender suas motivações e suas dificuldades, de construir pontes entre o saber acadêmico e o saber vivido.

Considerando tal contexto, quais são as estratégias pedagógicas para tornar a educação química na EJAI mais inclusiva e acessível, levando em consideração a diversidade de experiências das/os estudantes? Como a educação química na EJAI pode ser utilizada para promover a consciência científica e a cidadania ativa entre as/os estudantes para tomarem decisões informadas sobre questões químicas no mundo ao seu redor? De que forma a educação química na EJAI pode contribuir para a formação de indivíduos críticos e reflexivos, capazes de questionar e avaliar as informações químicas presentes na mídia e na sociedade? Quais são os impactos da educação química na EJAI na construção de narrativas das/os estudantes, especialmente aquelas/es que possuem experiências negativas com a disciplina? Como as/os educadores na EJAI podem integrar os sonhos e aspirações das/os estudantes à educação química, promovendo uma abordagem mais humanizada e centrada em outras produções de subjetividades e outras com-fabulações?

Assim, surge esta pesquisa como uma possibilidade para:

[...] (re)pensar e (re)criar os nossos saberes e as nossas práticas nas escolas, nas universidades, nos demais espaços educativos que percorrem as nossas existências. Com ela é possível experimentar múltiplas possibilidades de fazer um currículo, de fazer uma aula, de formar-se, de constituir-se, de fazer uma escola, de fazer a educação (Sales, 2023, p. 3).

Dito isso, ao aprendermos com Sílvio Gallo (2010, p. 1) que “[...] a educação é, necessariamente, um empreendimento coletivo. Para educar - e para ser educado - é necessário que haja ao menos duas singularidades em contato. Educação é encontro de singularidades”, objetivamos nesta pesquisa, a partir da escrita com-fabulativa discutir as experiências que nos atravessaram (Bondía, 2002), quando docente e estudante estagiária, ousaram performartransgredir-desobedecer um currículo homogêneo, pensado apenas para público-alvo já estabelecido.

Continuando nossa aposta em pesquisas com virada pós, acreditando nos atravessamentos, nos interstícios, nas beiradas, nas arestas, nas escritas com-fabulativas, nos movimentos de pertencimentos de uma pesquisa contracolonial, de uma pesquisa com, alicerçada pelas filosofias da diferença e os estudos nos/dos/com os cotidianos, apresentaremos, a seguir, as apostas teóricas e metodológicas que rondaram os possíveis de fazer esta pesquisa, alicerçada pela pesquisaformação-ação, com pulverização da cartografia (Dutra-Pereira, 2023a; Dutra-Pereira, 2023b; Tinôco, 2023; Passos, Kastrup, Escóssia, 2020; Passos, Kastrup, Tedesco, 2016; Dias, 2012; 2011). Esta é uma pesquisa-vida de com-fabulações na EJAI!

ESCRITAS COM-FABULATIVAS

Em um universo de conhecimentos entrelaçados, no qual o tempo dança ao ritmo das experiências, adentramos os corredores da escola, espaço de aprendizado e transformação. Sob aqueles céus do brejo paraibano, na cidade de Areia, no interior da Paraíba, cada aula de estágio supervisionado em ensino de química na educação de jovens e adultos e idosos (EJAI), numa escola da rede estadual de ensino, revelava-se como um palco de possibilidades, onde tecemos (um)a pesquisa alicerçada pelas escritas, pelas filosofias da diferença, que se entrelaçaram nos/dos/com os cotidianos escolares (Alves, 2010).

Neste cenário efervescente de encontros e desencontros, mergulhamos nas profundezas do fazer pesquisa pós-estruturalista, no qual as fronteiras entre sujeito e objeto se dissolvem em um oceano de significados em constante mutação. Cada vivência, cada experiência nos/dos/com os cotidianos da EJAI, tornava-se matéria-prima para a construção de um conhecimento em constante movimento, em que as verdades são múltiplas, escorregadias e fugidias.

Na beirada das relações (humanas, pós-humanas, não-humanas), cada encontro na sala de aula era um convite ao diálogo, um convite à escuta atenta das vozes silenciadas pela história (de vida) dos/as passageiros da noite. Nas entrelinhas dos cadernos, das escritas e nos gestos dos/nos/com os cotidianos dos/as estudantes, encontrávamos fragmentos de um saber, de histórias de vida, que não se encontram nos livros, mas sim nas vivências e sonhos compartilhados.

E assim, entre química, currículo, cultura, ciência, filosofia, política, histórias de vida, narratividades, escritas e (escre)vivências, entre risos e lágrimas, fomos tecendo os fios da pesquisa, resultando numa história em que cada descoberta viria ser uma epifania (Evaristo, 2020; Ferraço, Dutra-Pereira, 2023; Alves, 2010; Ferraço, 2007). Nas margens da existência, na qual a vida corre livre e selvagem, encontramos a poesia da educação, a beleza efêmera dos momentos, a alegria de aprender e ensinar Química juntos/as. “É este o movimento criativo que nos interessa para pensarmos possibilidade outras na educação [...].” (Souza Marques, 2021, p. 32).

Encontramos um tesouro escondido nas salas de aula da EJAI: a sabedoria dos que caminham sob o sol do brejo paraibano, na única escola que ousa ofertar EJAI, a resiliência dos/as que enfrentam os desafios da vida com coragem e dignidade. E assim, entre o fazer pesquisa e o contar histórias, entre o saber acadêmico e o saber vivido, descobrimos que a verdadeira essência da educação reside na capacidade de sonhar e transformar o mundo, num passo de cada vez.

Em uma pesquisa menor, inspirada pela filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2011a, b), cada momento de observação se tornou uma viagem ao desconhecido, no qual os conceitos se desdobram em múltiplas direções, e as respostas se transformam em novas perguntas. Cada encontro com os estudantes na sala de aula foi uma oportunidade de experimentar o devir, de se abrir para o imprevisível e o inusitado; de escrever-ser (Sales, 2022). Ao invés de buscar respostas e conclusões definitivas, a pesquisa menor (Deleuze, Guattari, 2017; Gallo, 2002) nos convida a explorar os espaços intersticiais entre o que é e o que poderia ser, entre o real e o virtual. É um convite para dançar com as incertezas e abraçar a complexidade do mundo, sem medo de nos perdermos no labirinto do conhecimento.

Assim, cada pequeno gesto na sala de aula, cada olhar trocado entre estudantes e educadores/as, se torna uma peça no quebra-cabeça do saber, uma nota na sinfonia do devir. E no final, o que importa não são as conclusões alcançadas ou as respostas encontradas, mas sim o processo de busca e descoberta, a do (auto)conhecimento e (auto/pós-) transformação que nos leva além dos limites do conhecido. Isso envolve não apenas a expressão individual, mas também a interação e negociação de significados dentro de um contexto social.

À forma como grupos de pessoas se organizam e colaboram para produzir e comunicar significados, conforme Deleuze e Parnet (1998), entendemos os agenciamentos coletivos de enunciação. Desse modo, os agenciamentos coletivos de enunciação podem ser vistos em várias formas de comunicação coletiva, como debates políticos, manifestações públicas, performances artísticas colaborativas e até mesmo em escritas com-fabulativas nas quais pesquisadores/as compartilham ideias e constroem significados juntos. Esses agenciamentos envolvem a interação dinâmica entre diferentes vozes, perspectivas e experiências, resultando na co-criação de sentidos que são influenciados pela diversidade e pela interconexão social.

Nos contextos da pesquisa na educação química especificamente na EJAI, os agenciamentos coletivos de enunciação podem ocorrer em diversas atividades, para construir significados através de experiências individuais e coletivas. Em particular, os agenciamentos coletivos podem ser ainda mais significativos, pois os/as alunos/as trazem uma variedade de experiências de vida e conhecimentos prévios para a sala de aula, enriquecendo assim o processo de aprendizagem colaborativa. “Como escrever sobre o corpo proibido, lacerado, ignorado, justiçado, clandestino?” (Skliar, 2021, p. 17).

Escrever não é certamente impor uma forma (de expressão) a uma matéria vivida. (...) Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido. A escrita é inseparável do devir (Deleuze, 2011, p. 11).

Os textos escritos com-fabulativos, expostos a seguir, revelaram-se como um agenciamento coletivo de enunciação de uma química afetiva na EJAI (Deleuze, Guattari, 2011a; 2011b; 2012a; 2012b; 2012c). São narrativas que transcendem as barreiras do discurso acadêmico e se tornam pontes para o entendimento sensível e empático das experiências vividas pelos/as estudantes e educadores/as (Sales, 2023). Cada palavra, cada imagem, cada metáfora, é um convite para mergulhar nas profundezas da experiência humana e descobrir novas formas de compreender e transformar o mundo ao nosso redor.

A escrita de textos com-fabulativos das experiências no estágio supervisionado em ensino de química na EJAI desempenharam um papel fundamental nos agenciamentos, nos coletivos e nas enunciações. Através da escrita, articulamos as ideias, compartilhamos entendimentos e colaboramos na construção de conhecimento científico numa produção de textos que reverbera sentimentos, experiência e verdades outras produzidas nos/dos/com os cotidianos. A escrita dessas com-fabulações não apenas permitem a expressão de perspectivas de análise, mas também facilitam a comunicação e a negociação de significados, conforme propõem as filosofias da diferença.

EXPERIMENTAÇÕES COM-FABULATIVAS NA-COM QUÍMICA E A EJAI COM-FABULAÇÕES DE UM PROFESSOR DE ESTÁGIO NA EJAI

Um estágio na EJAI?

Mais um movimento-acontecendo nas redes de formação docente iniciando. Era um semestre atípico. País em euforia! Impacto de aumento dos combustíveis, caminhoneiros parando e isolando o acesso às cidades… como professor, não poderia fugir da luta! Fui iniciar mais um estágio supervisionado, sempre aberto às possibilidades dos acontecimentos que sempre estão em devir.

Não sei muito bem o que queria fazer. Tinha um desejo dentro de mim, enquanto formador de professores que transcendia o fato de seguir os ritos academicistas que são impostos em ementas prontas, que penso terem sido copiadas de algum outro lugar. Nela não constava que alguém pudesse querer ousar atuando durante um estágio no ensino de química na educação de jovens, adultos e idosos. Na conversa ficamos discutindo e pensando em quais turmas iriam ocorrer os estágios, até que ouvi a possibilidade de orientar uma estagiária na educação de jovens, adultos e idosos. Embarcamos no mar de movimentos possíveis…

E agora, como orientar um estágio que deverá pensar num contexto em que o objetivo será ensinar química para os/as jovens, adultos e idosos? É possível subverter o currículo da licenciatura que não previa a EJAI e relacionar com a química? Que química pode ser ensinada na EJAI? Que possíveis são possíveis no ensino de química na EJAI? Como avaliar na EJAI o ensino de química?

Como as metodologias específicas, que tanto discutimos a partir de vivências com a escolarização na idade certa, colaborarão para ensinar química na EJAI? O que quer a EJAI da química? O que a química quer da EJAI?

Foram tantas perguntas que comecei num processo de acordo com os/as estudantes que iriam estagiar na EJAI, para juntes pensarmos em propostas que valorizassem os diversos saberes, conhecimentos e que os conteúdos fossem entrelaçados as vivências de cada pessoa que estivesse na sala de aula. Não podíamos impor uma química numa linguagem que não fosse acessível. Apostar nos acontecimentos-movimentos dos/nos/com os cotidianos e ensinar química era nossa maior preocupação. Seguimos alimentando e sonhando com uma química que se aproximasse da linguagem dos/as estudantes que, após um longo dia de trabalho, estavam na escola para aprender!

Movimento de uma química possível na EJAI

Chegou mais um dia de estágio…sempre uma surpresa. Sempre movimentos que permitiam conhecer a escola, conhecer os/as estudantes, narrar o vivido, escrever os possíveis. Sempre histórias de vidas que estavam entrelaçadas com a química. Histórias que deveriam ser contadas, narradas, escritas, ouvidas…mas quem ousa fazer isso? Nós! Para além de ensinar a ensinar uma química acessível, ousava a impulsionar o debate sobre trabalho, escola, ciência, poesia, viver a vida, dureza da vida, adaptação da ciência… entre outros, por entender que estão indissociáveis da vida daqueles/as estudantes que estão na EJAI. Além disso, quando possível, questionava as estagiárias sobre o que aprendiam em cada encontro para além de uma didática da química. Queria ouvir histórias de vidas que são narradas a todo instante na sala de aula.

O que podem as narrativas das histórias de vida para ensinar química na EJAI? O que elas nos auxiliam no planejamento didático? Como é possível as histórias narradas nas aulas de química na EJAI serem propulsoras de metodologias? Quantas histórias de vidas na/da EJAI cabe na química? O que a química tem das histórias de vidas dos/as estudantes da EJAI? O que podem os acontecimentos nos/dos/com os cotidianos das aulas de química nas escolas que têm EJAI? O que as histórias de vidas de cada estudante ensinam às estagiárias? O que as histórias narradas pelas estagiárias ensinam a mim, orientador?

Foi nos encontros e nas conversas durante as orientações do estágio que aprendemos sobre o que querem os/as estudantes na EJAI. Entre terminar o ensino médio, aprender mais, correr atrás do tempo perdido, existiam vidas que foram e são esquecidas, silenciadas, aniquiladas. Vidas que tiveram, que se abstiveram para cuidar da família, para sustentar uma casa, para terem um lar, para trabalhar ou até mesmo impedida(s) de estudar por seus pais e/ou maridos. Entendi em tais encontros que na EJAI para além de um segmento, de uma matrícula, existem sonhos para serem lançados, sonhos para serem sonhados, sonhos para serem cativados e semeados!

Cabia a nós pensar em estratégias didáticas, não-didáticas, pós-didáticas, para que esses sonhos não fossem mais uma vez aniquilados nas aulas de química. Não podíamos, enquanto professores/as sermos coadjuvantes em encerrar sonhos e tornar ainda mais uma química distante dos cotidianos daqueles/as estudantes. Eram poucos/as, mas estarem ali, naquela sala, era também uma forma de respeitar tanto a ciência química, quanto apostaram também na formação daquelas professoras iniciantes que foram orientadas nos estágios. Assim fizemos da química, em nossos planejamentos, relações diretas nos/dos/com os cotidianos. Experimentamos outros possíveis, outros acontecimentos. Fizemos da química uma aliada na construção de sonhos e de um mundo melhor para cada estudante da EJAI.

“Passageiros da noite” podem aprender química?

Numa das aulas-orientação do estágio, questionei como estava o desenvolvimento das atividades. Para minha surpresa uma das respostas que mais me tocou dizia respeito da evasão, pois muitos/as dos 20 matriculados/as, não frequentavam mais a aula - aproximadamente umas 7 pessoas compareciam. Além disso, as inúmeras saídas para tomar café e fumar de uma das estudantes da EJAI. Logo me preocupei uma vez que, para além do que acontece no organismo no que diz respeito ao tabagismo, estávamos pensando em como cumprir a carga horária prevista do estágio e, consequentemente, das aulas na escola, tendo em vista o tempo reduzido no turno da noite.

O que fazer para garantir a permanência na EJAI? Como a química contribui para a evasão na EJAI? O que ensinamos em nossas aulas que estão sendo feitas por nossos/as estudantes da EJAI passageiros/as? Como a escola tem excluído e consolidado um processo de invisibilidade dos/as estudantes da EJAI? Pode a química contribuir ou mudar o cenário de evasão? Como ensinar química, numa perspectiva de uma linguagem acessível, para atender os interesses da EJAI? O que pode a química na EJAI para diminuir a quantidade de saídas? Pode a química discutir sobre a química do café e do cigarro?

Questões… questões… questões… inúmeras questões foram criadas para serem discutidas no âmbito do ensino de química na EJAI, sobretudo por estudantes que estavam estagiando numa série e num segmento que pouco se importava nas licenciaturas em química. Por que as licenciaturas em química pouco têm discutido e/ou apresentando a EJAI como possibilidade de atuação do professor/a de química? O que querem e quem quer esse silenciamento nos cursos de formação de professores/as? Como articular uma química dentro dos possíveis para situar-nos nos/dos/com os cotidianos? O que pode a educação química, para fomentar possibilidades e diminuir a ausência dos passageiros da noite na EJAI?

A química deve respeitar os movimentos de todas as pessoas da EJAI, transformando e ajudando na construção de um conhecimento plural, diverso e na/da diferença, alicerçada por práticas que valorizem as questões sócio científicas e as redes informativas nas escolas. Construir uma EJAI com gente, com histórias, é um dos objetivos da Educação Química que foram e são esquecidos nas universidadescolas.

Quantos passam pela escola e não voltam? Por que a escola fecha a porta para estudantes da EJAI? Por que há passagens na EJAI que deixam marcas tristes? Pode a química colaborar numa construção sócio-cientificamente na EJAI? Que práticas são essenciais para ensinar química na EJAI? Como ensino química na EJAI para romper com as relações de exclusão? Caminharemos juntos e juntas na defesa da EJAI e de uma educação química que seja repensada para as pessoas que ousam existir no sistema educacional de ensino.

Construiremos outros possíveis nos estágios supervisionados no ensino de química para valorização dos saberes e dos conhecimentos na EJAI. Manifestaremos sempre na defesa de um currículo inclusivo, respeitando as necessidades de cada um/a que estão na EJAI. Afinal, uma química que explora as relações de poder, que adoece, da perversidade, da reprovação, do aliciamento, ainda persiste em toda educação pública do país. Eis a nossa mudança de rota, nos/dos/com os cotidianos dos/as passageiros/as da noite.

COM-FABULAÇÕES DE UMA ESTAGIÁRIA DE QUÍMICA NA EJAI

Há sonhos na EJAI?

Falar sobre sonhos é como uma convocação amigável para um mergulho interior. Nenhum sonho tem forma para o/a outro/a se não for verbalizado. Sonhos habitam o sensível, o íntimo, o particular. Para os/as que fazem das salas de aula seus lugares de trabalho, ouvir sobre sonhos é algo relativamente comum. A clássica (e problemática) pergunta o que você quer ser quando crescer? nos faz ter a falsa sensação de que acessamos isso, de que sabemos o que habita no coração do outro. Sem desconsiderar as múltiplas interpretações que podem surgir dessa frase, me atenho a pensar em dois pontos: (I) a ideia de que seremos algo quando já somos, aqui e agora e; (II) o entendimento de que, quando crescemos, deixamos de querer e, por consequência, de sonhar. Especialmente este último me desafia a escrita deste texto, tendo em vista a vinculação que estabeleci com a educação de jovens, adultos e idosos (EJAI) ao longo da minha graduação em licenciatura em química.

Quem já se interessou pelos sonhos dos/as estudantes da EJAI? Há sonhos na EJAI? Essas questões em tela nunca me vieram à mente, até o dia em que um dos estudantes me disse: Professora, meu sonho é fazer o ENEM. Enquanto estagiária na disciplina de química digo: Muito bem, faça mesmo, é uma boa oportunidade. Ele ainda elenca o que tem feito para alcançar uma boa nota, enquanto eu, ao ouvir seu relato, sinalizava positivamente. Não houve retorno a este diálogo, tampouco o considerei no momento de escrita do meu memorial de formação. Ele não se fez presente durante muito tempo, foi preciso amadurecimento da minha parte para ele vir à tona.

Amadurecer me fez perceber que o sonho do estudante se confundia com o meu de ser professora de química. Ele sabia dizer seu sonho, eu ainda não. Não sabia que era professora, não me sentia professora, não tinha um plano de ação como ele. Meu sonho ainda não tinha forma nem cor, o dele tinha até sigla. O sonho dele era verbalizado, o meu ainda era escondido, e foi por muito tempo considerando os desincentivos ouvidos por estudantes de licenciatura. Seu sonho o movimentou até aquela sala de aula, o meu também, apesar de ainda não ter conhecimento de sua existência.

A análise que hoje faço do sonho da EJAI me leva ainda a considerar que não era apenas de ENEM que o estudante falava. Ele queria me dizer sobre o futuro, sobre as expectativas que tinha para sua vida e a esperança que nutria em relação à educação. Hoje, ao me ver professora, tenho construído sonhos também alicerçados na educação, apesar deste ser um campo instável e móvel para firmar os pés. Ainda bem que os sonhos voam.

Ao querido estudante que me fez sonhar, espero que seu sonho de ENEM, de mundo, de futuro, nunca se esgote.

Quem sabe o que na EJAI?

Um dos primeiros e poéticos compromissos firmados por alguns/mas de nós quando, ousadamente, nos anunciamos como professores/as diz respeito à valorização dos conhecimentos de nossos/as estudantes. Sendo o primeiro, é ele também primariamente descumprido. Digo isto com gosto amargo, afinal, apesar do nosso esforço, esse compromisso tende, a certa altura, em se perder. Sinalizando obviedades: ainda nos posicionamos como os/as únicos/as que sabem!

Não me entendam mal, o que narro aqui não é um apontar de dedos para nós, professores/as, afinal já temos muitos deles. Isso que falo é uma angústia real. Como todos os textos aqui expostos, este também advém de memórias e recorro à outra para justificar a sua existência. Dos muitos dizeres que me atingiam enquanto estagiária, lembro vividamente: levantou os conhecimentos prévios... E agora, vai fazer o que com eles?

Como não perder a potência dos conhecimentos dos(as) outros(as)? Como cumprir o compromisso ético e político que assumimos? Como considerar as descobertas e aprendizagens específicas de jovens, adultos e idosos no processo de estruturação do currículo de química na EJAI?

Apesar de não pretender responder este complexo emaranhado, acredito que algumas pistas podem nos fazer compreender o distanciamento com o nosso compromisso. Talvez o primeiro movimento a ser feito seja refletirmos sobre os efeitos da colonialidade e suas materializações no campo da educação. Para todo conhecimento tomado como periférico, vulgar, há outro que ocupa a posição de legítimo, superior. A invenção da razão, alicerçada no eurocentrismo, toma como marco científico e intelectual o contexto europeu, projetando interdições em relação a outras racionalidades que fujam deste ideal. Enquanto sujeitos atrelados a este contexto, submetemos e somos submetidos às lógicas que lhe regem, as quais manifestam silenciamentos.

Costurando esta discussão a outras possíveis, podemos pontuar a visão corretiva que ainda se sustenta em relação à EJAI enquanto mecanismo que nos distancia do nosso desejo. Perceber a EJAI como contexto de correção de percursos incompletos nos dá a vil necessidade do domínio, do controle, da regulamentação. Assumir as experiências comuns, que se fortalecem nas vidas cotidianas de nossos/as estudantes, seria abrir espaço para os obstáculos que insistentemente tentamos superar.

Poderia seguir tencionando outras tantas questões, mas quero finalizar esse texto com esperança. Acredito que temos condições de superar visões limitadas/limitantes em relação à EJAI e suas singularidades, nos dedicando a invenção de outras identidades profissionais, outros currículos, outros modos de conhecer, ser e atuar no mundo.

Um compromisso a cumprir: ler a educação de jovens, adultos e idosos enquanto espaço de resistência criativa e contraposição da racionalidade hegemônica.

Temos ensinado química na EJAI com respeito?

Inicialmente, convém dizer que este texto é uma extensão do anterior e surge de uma indagação que me fiz e que acaba por nomeá-lo: temos ensinado química na EJAI com respeito? Quando me pus neste contexto, ocupando a posição de professora, uma das muitas reflexões que fazíamos nas reuniões e aulas de estágio supervisionado era: precisamos respeitar os estudantes que ali se encontram. A priori, achei que o respeito do qual falávamos se relacionava às metodologias e recursos que melhor se alinhariam com as expectativas dos/as estudantes. Não era qualquer experimento que atrairia a atenção do/a estudante cansado/a. Não eram os slides bonitos que convenceriam aqueles/as que dão a pausa para o café/cigarro a voltarem para sala de aula. O respeito para mim era expresso nas etapas de uma sequência didática.

Com todos os sentimentos mobilizados nos encontros com estudantes da EJAI, me vi desafiada em relação ao respeito. Poderia ele se isolar em um planejamento? Estava comunicando esse respeito para os/as estudantes? O que seria então ensinar química com respeito? Ao irromperem, esses questionamentos me desampararam, eu não tinha resposta para eles. Esse desassossego me fez ter dimensão da tradução imediatista e utilitária que fiz sobre o respeito, desconsiderando sua centralidade no processo educativo.

Ultrapassar os sentidos primeiros me aproximou das reflexões tecidas por Paulo Freire. Iniciei compreendendo o respeito em associação ao compromisso, a ética, a escuta interessada e a necessidade de fortalecer no/a outra/o a posição que assume de sujeito de direitos. Quando passo a explorar outros caminhos, para além da leitura pragmática inicial, não deixo de perceber a necessidade de conhecer “[…] quem são, o que fazem, o que sabem, o que vivem, o que querem, que desafios enfrentam” os/as estudantes da EJAI (Freire, Betto, 2000, p. 77).

Nesse sentido, tento tecer caminhos pedagógicos de receptividade e pulsação de vida, e foi assim que surgiram encontros sobre o desastre em Brumadinho, sobre as blitz feitas nos entornos da escola e os impactos causados na frequência dos(as) estudantes, sobre bebidas alcoólicas, sobre a produção e venda da cachaça na cidade em que habitamos, sobre os sonhos, sobre o futuro.

E o que a química tem com isso? Entorto essa pergunta e digo: em que lugar a química se distancia disso? Que tipo de química não se importa com os impactos socioambientais que atingiram os/as brumadinhenses? Que ensino de química não se interessa pela presença do/a estudante? Como ignorar as raízes históricas, sociais e políticas que sustentam a cidade de Areia enquanto capital paraibana da cachaça? E os processos de sua produção? E suas múltiplas influências? Que tipo de química nega sonhos?

De todo esforço intelectual e afetivo que dediquei nessa jornada de aprender/ensinar sobre a química na EJAI, percebo que o respeito que habita o cotidiano e as relações que nele se fortalecem advém de experiências pedagógicas de criação coletiva, que dão a ver as lutas, preocupações, expectativas e conhecimentos desses/as estudantes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao percorrer os caminhos rizomáticos da educação química na educação de jovens e adultos e idosos (EJAI), mergulhamos em um universo rico em possibilidades, no qual as comfabulações, os sonhos, o afeto e os possíveis se entrelaçam para dar vida às experiências vividas nos cotidianos escolares. Nesta pesquisa-vida, por assim entendermos que são indissociáveis, descobrimos que a escrita com-fabulativa é uma forma de ampliar as vozes, trazer as histórias e os sonhos dos/as estudantes, tornando-os/as participantes de suas próprias aprendizagens.

Ao explorar nos/dos/com os cotidianos da EJAI, encontramos um terreno fértil para semear o afeto e a empatia, perspectivas essenciais para uma educação que transcende os limites da sala de aula e se insere na vida dos/as estudantes. Nas entrelinhas das com-fabulações aqui compartilhadas, descobrimos que o afeto pode ser o elo que une os/as aprendizes aos conteúdos de química, transformando o processo de ensino-aprendizagem em uma experiência profundamente humana.

Entretanto, também nos deparamos com desafios e obstáculos que permeiam o cenário educacional da EJAI. A invisibilidade da relação cotidiana das vivências de cada estudante com os conhecimentos químicos, por exemplo, pode se tornar um obstáculo para a permanência e a participação desses/as nos encontros propostos, impedindo que se sintam parte integrante do processo de aprendizagem - para conhecer as práticas químicas realizadas durante os estágios sugerimos fortemente a leitura Silva et al. (2021). Nesse sentido, é fundamental que os/as educadores/as, sobretudo nos estágios, adotem abordagens sensíveis e inclusivas, reconhecendo e valorizando os conhecimentos dos/as estudantes, buscando formas criativas de tornar os conteúdos acessíveis e relevantes para suas vidas, conforme ecoa Dutra-Pereira e Tinôco (2025).

Por fim, podemos afirmar que a educação química na EJAI é muito mais do que a transmissão de conceitos e fórmulas. É uma oportunidade de construir pontes entre o conhecimento e a experiência, entre diferentes tempos (presente, passado e/ou futuro). É um convite para mergulhar nos/dos/com os cotidianos dos/as estudantes, reconhecendo e celebrando suas histórias. É, acima de tudo, um ato de amor e dedicação, um compromisso com a construção de um mundo bonito, habitável, possível, mais justo, igualitário, equânime e humano, onde cada indivíduo tenha a oportunidade de sonhar e realizar seus sonhos plenamente.

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Recebido: 19 de Março de 2024; Aceito: 06 de Outubro de 2024

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