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Revista Teias

versão impressa ISSN 1518-5370versão On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.26 no.81 Rio de Janeiro  2025  Epub 03-Nov-2025

https://doi.org/10.12957/teias.2025.82832 

Artigos de Demanda Contínua

UMA DIDÁTICA PARA O ENSINO DA LUTA MARAJOARA NO ENSINO MÉDIO

A DIDACTICS FOR TEACHING MARAJOARA WRESTLING IN HIGH SCHOOL

UNA DIDÁCTICA PARA LA ENSEÑANZA DE LA LUCHA MARAJOARA EN LA ESCUELA SECUNDARIA

Renan Santos Furtado1 
http://orcid.org/0000-0001-7871-2030; lattes: 0724633321532061

Carlos Afonso Ferreira dos Santos2 
http://orcid.org/0000-0003-4008-5478; lattes: 0909350979071382

Rogério Gonçalves de Freitas3 
http://orcid.org/0000-0002-8173-5265; lattes: 5898521089584134

1Professor de Educação Física da Escola de Aplicação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Pará

2Professor de Educação Física da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará

3Professor de Educação Física do Centre de Services Scolaire de Montréal (CSSDM)


Resumo

O presente trabalho discute aspectos didático-metodológicos para o ensino da luta marajoara no ensino médio a partir da apresentação de uma sequência pedagógica de quatro aulas desenvolvidas no ano de 2023, com cerca de 136 estudantes do 1º ano. Partindo da ideia de que o ensino médio deve aprofundar conhecimentos com base em reflexões conceituais interdisciplinares e vivência técnica aprimorada, tivemos como objetivo deste estudo apresentar e discutir uma experiência pedagógica com a luta marajoara realizada no Estado do Pará, no contexto de uma escola pública federal da capital Belém. A pergunta que norteou a construção e o desenvolvimento da experiência foi: como ensinar a luta marajoara no ensino médio? Por meio da experiência vivenciada, foi possível inferir que a luta marajoara, quando mediada pedagogicamente, apresenta um amplo potencial educativo, pois, em virtude do seu aspecto de novidade e pertencimento regional, possibilita que os estudantes compreendam dimensões de conhecimento fundamentais do campo das lutas corporais em geral, ao mesmo tempo em que conhecem alguns elementos constitutivos da identidade cultural marajoara.

Palavras-chave: luta marajoara; ensino médio; educação física escolar.

Abstract

This study discusses didactic and methodological aspects for teaching marajoara wrestling in high school, based on the presentation of a pedagogical sequence of four classes developed in 2023 with approximately 136 first-year students. Starting from the idea that high school should deepen knowledge with based on interdisciplinary, conceptual reflections and improved technical experience, the objective of this study was to present and discuss a pedagogical experience with the marajoara wrestling held in the State of Pará, in the context of a federal public school in the capital Belém. The question that guided the construction and development of the experience was: how to teach marajoara wrestling in high school? Through the lived experience, it was possible to infer that the marajoara wrestling, when pedagogically mediated, presents a broad educational potential, because, due to its novelty and regional belonging, it allows students to understand fundamental dimensions of knowledge in the field of body fights in general, at the same time in which know about some constituent elements of marajoara cultural identity.

Keywords: marajoara wrestling; high school; school physical education.

Resumen

El presente trabajo discute aspectos didáctico-metodológicos para la enseñanza de la lucha marajoara en la escuela secundaria, a partir de la presentación de una secuencia pedagógica de cuatro clases desarrollada en el año 2023, con aproximadamente 136 estudiantes del 1º año. Partiendo de la idea de que la escuela secundaria debe profundizar conocimientos con base en la interdisciplinariedad, reflexiones conceptuales y perfeccionamiento de la experiencia técnica, el objetivo de este estudio fue presentar y discutir una experiencia pedagógica con la lucha marajoara realizada en el Estado de Pará, en el contexto de una escuela pública federal en la capital Belém. La pregunta que guió la construcción y desarrollo de la experiencia fue: ¿Cómo enseñar lucha marajoara en la escuela secundaria? A través de la experiencia vivida, fue posible inferir que la lucha marajoara, cuando es mediada pedagógicamente, tiene un amplio potencial educativo, ya que, por su novedad y pertenencia regional, permite a los estudiantes comprender dimensiones fundamentales del conocimiento en el campo de las luchas corporales en general, al mismo tiempo que conocen algunos elementos constitutivos de la identidad cultural marajoara.

Palabras clave: lucha marajoara; escuela secundaria; educación física escolar

INTRODUÇÃO

A luta marajoara pode ser concebida como uma luta brasileira de contato corporal intenso, em que um oponente visa projetar o adversário de costas no chão de areia, lama ou grama a partir de ações de agarre, derrubada e desequilíbrio corporal. Vale destacar que, apesar de a luta se iniciar com os competidores em pé ou em posições variadas de flexão dos membros inferiores, em virtude da dinâmica específica da luta e do seu objetivo de projeção dos oponentes de costas no solo, os combates podem ocorrer em pé ou no chão, tornando os confrontos imprevisíveis e emocionantes para praticantes e espectadores (Campos et al., 2022).

Do ponto de vista da ação motora, a luta marajoara assemelha-se às chamadas lutas de agarre e curta distância, à medida que golpes traumáticos são proibidos nessa prática corporal (Gomes et al., 2010). Contudo, é preciso notar a especificidade da proibição de estrangulamentos e chave de braços e pernas, fato esse que torna essa luta ainda mais peculiar do ponto de vista das técnicas do corpo mobilizadas durante os confrontos. Apesar da caracterização técnica se aproximar de outras práticas corporais de combate conhecidas, como o wrestling, o judô e o jiu-jitsu, é possível dizer que sua atratividade se encontra na narrativa que associa os combates com a dinâmica cultural da ilha do Marajó, sendo esse um aspecto que não pode ser desconsiderado nos processos de ensino da luta marajoara na escola (Santos, Andrade, Freitas, 2023a).

É importante destacar que a produção contínua de estudos mais sistemáticos sobre a luta marajoara é recente. Tais trabalhos, em termos temporais, dialogam com alguns acontecimentos importantes nos campos da política educacional e esportivo. A título de exemplo, em dezembro de 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é publicada em sua versão final, reforçando o entendimento da luta marajoara como uma luta brasileira que deve ser abordada no ensino fundamental dentro do componente curricular educação física, a partir da unidade temática lutas (Brasil, 2017). Vale dizer que, desde a primeira versão apresentada para consulta pública em setembro de 2015 do documento de caráter de orientação curricular nacional, a luta marajoara já se fazia presente dentro dessa compreensão de que se trata de uma luta da cultura brasileira (Brasil, 2015).

Em junho de 2017, o lutador de MMA Deiveson Alcântara Figueiredo, identificado como praticante de luta marajoara, natural da cidade de Soure/Pará, localizada na Ilha de Marajó, estreou com vitória no UFC. Após uma trajetória de sete vitórias e somente uma derrota, Deiveson se tornou campeão mundial dos pesos moscas, depois de vencer por nocaute o norte-americano Joseph Benavidez, fazendo com que ainda mais atenção nacional e mundial fosse destinada à luta marajoara.

Nesse emaranhado de acontecimentos, que demonstram a ampliação da visibilidade e a difusão da luta marajoara nos espectros da educação básica e do esporte de alto rendimento, começam a emergir um conjunto de produções acadêmicas voltadas para discussões sobre a origem dessa luta e sua ausência nos currículos escolares (Santos, Freitas, 2018), nos cursos de formação de professores em educação física (Santos, Gomes, Freitas, 2020) e nas academias de ginástica (Santos, Andrade, Freitas, 2021). Os trabalhos mencionados demonstram explicitamente a pretensão dos seus autores de legitimar a luta marajoara como campo de conhecimento que deve compor a formação de estudantes e professores de educação física, na perspectiva de uma educação crítica e sintonizada com elementos socioculturais que visam à afirmação da cultura marajoara enquanto parte constitutiva da cultura brasileira.

No que diz respeito à educação escolar, observamos em produções mais recentes a preocupação com o trato pedagógico da luta marajoara em diferentes etapas de ensino da educação básica. Nessa direção, Santos, Andrade e Freitas (2023a) apresentam uma sequência pedagógica de três aulas oriunda da tematização da luta marajoara com estudantes do 3º ano do ensino fundamental em uma escola pública do município de Soure. Lima et al., (2023) socializam uma experiência com estudantes da 3ª série do ensino médio de uma escola pública do município de Campos Sales, no Ceará, em que, a partir da experiência com a luta marajoara, buscou-se aprofundar as bases de uma pedagogia crítica baseada na descolonização do currículo por meio do trato com uma luta corporal brasileira.

Em Furtado (2023), a luta marajoara foi citada como um dos temas abordados dentro da unidade temática de lutas desenvolvida com estudantes da 1ª série do ensino médio de uma escola pública federal de Belém do Pará. De acordo com o autor, a luta marajoara foi capaz de mobilizar um grande engajamento dos estudantes, estando presente como modalidade esportiva dos jogos internos da escola no ano de 2022. Assim, o estudo indica que a luta marajoara transcende o conceito clássico de lutas, que geralmente enfatiza aspectos técnicos e táticos mais gerais, ainda que esteja englobada nele. Por essa razão, no campo escolar, a explicação aprofundada dessa prática cultural necessita explorar os contextos e os simbolismos presentes nessa manifestação, especialmente aqueles relacionados à sua forma tradicional, expressos em um conjunto de características que associam a luta marajoara à vida e à cultura do Marajó (Santos et al., 2024).

No intuito de aprofundarmos a discussão sobre as possibilidades pedagógicas da luta marajoara, neste estudo temos o objetivo de apresentar e discutir, com base no desenvolvimento de uma sequência pedagógica, aspectos didático-metodológicos para o ensino da luta marajoara no ensino médio. Nossas reflexões partem de uma experiência realizada no Estado do Pará, no contexto de uma escola pública federal da capital Belém: a Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (EA-UFPA). A pergunta que norteou o desenvolvimento da experiência foi: como ensinar a luta marajoara no ensino médio? A partir dela, uma sequência pedagógica foi desenvolvida com estudantes de cinco turmas da 1ª série do ensino médio, visando tratar dos aspectos técnicos - gestualidades corporais e ações de ataque, defesa e contra-ataque - imbricados com os elementos socioculturais que compõem a luta marajoara, notadamente influenciados pela história, cultura e linguagem representativas do modo de vida do povo marajoara.

LUTA MARAJOARA NO ENSINO MÉDIO NA EA-UFPA

O trato com a luta marajoara realizado com estudantes da 1ª série do ensino médio da EAUFPA requer certas explicações para o melhor entendimento da experiência que ora apresentamos e refletimos.

Primeiramente, trata-se de um processo educativo com o referido objeto de conhecimento que tem sido desenvolvido por um dos professores autores do estudo desde o ano de 2018, em colaboração com uma professora da instituição, inicialmente na 2ª série do ensino médio. Posteriormente, no ano de 2020, o mesmo objeto, ainda no período remoto de ensino, foi trabalhado com turmas da 1ª série da última etapa de ensino da educação básica. Além disso, a luta marajoara também tem estado presente no currículo vivido da EA-UFPA, em turmas dos anos iniciais e anos finais do ensino fundamental. Desse modo, é possível dizer que já existe uma certa cultura escolar que compreende a luta marajoara como parte constitutiva da educação física da EAUFPA.

Outra consideração importante diz respeito ao perfil institucional da EA-UFPA. Como a escola compõe a estrutura administrativa e pedagógica da Universidade Federal do Pará (UFPA) e tem como finalidade a integração inovadora entre ensino, pesquisa e extensão (Belém, 2009), faz parte do cotidiano dos estudantes e sujeitos da escola o contato com diferentes formas de conhecimento e manifestações culturais. Nesse contexto, a disciplina de educação física tem se notabilizado pela afirmação de um currículo crítico, reflexivo, problematizador e inovador em torno do universo das práticas corporais, fato esse que pode ser constatado nos resultados dos trabalhos de Furtado, Monteiro e Vaz (2019), Santos (2021), Santos e Monteiro (2022) e Furtado (2022, 2023). Mencionamos esse elemento, dado que existe na escola certa expectativa por parte dos estudantes para a aprendizagem de novos conhecimentos, além da clareza de que a disciplina de educação física integra a proposta formativa da escola e trabalha com a mediação de diferentes objetos de conhecimento no campo da cultura corporal.

Sobre o perfil dos estudantes, como a escola realiza o seu processo seletivo para o preenchimento de vagas e consequente formação das turmas por via de sorteio, temos no cotidiano escolar a presença de um público bastante diversificado. No entanto, em virtude da sua localização nas redondezas do Bairro da Terra Firme, isto é, numa região periférica da cidade de Belém, grande parte dos estudantes reside nos entornos da própria comunidade, além de termos alunos que se deslocam de outras regiões periféricas da cidade de Belém e dos municípios de Ananindeua e Marituba.

Adentrando em aspectos mais específicos do desenvolvimento da sequência pedagógica com a luta marajoara, cabe dizer que as quatro aulas planejadas ocorreram entre os meses de agosto e setembro de 2023, com aproximadamente 136 estudantes, nas cinco turmas da 1ª série do ensino médio, compondo o escopo de discussões e experiências da unidade temática lutas. Cada turma apresenta em média de 25 a 30 alunos, e cada tempo de aula tem duração de 40 minutos. No caso da educação física, a disciplina apresenta dois tempos de aula semanais, totalizando 80 minutos, e ocorre uma vez na semana em todas as turmas. Tempo relativamente breve para o aprofundamento dos saberes propostos, mas que não inviabilizou o desenvolvimento do trabalho pedagógico. Em termos de espaços pedagógicos específicos para o desenvolvimento da temática da luta marajoara, a escola conta com uma sala de práticas corporais, denominada também no cotidiano escolar de sala de lutas, sendo equipada com tatame, além de duas quadras de areia com amplo espaço para a experimentação corporal.

A sequência pedagógica sobre luta marajoara foi desenvolvida a partir da terceira aula do bimestre. Vale registrar que foi a partir dela que conduzimos a discussão a respeito de aspectos didáticos para o ensino dessa luta corporal no ensino médio.

Assim, na primeira aula, realizamos uma abordagem conceitual mais geral sobre o universo das lutas, no intuito de apresentarmos elementos históricos, características, conceitos importantes, como os de arte marcial e esportes de combate, além da classificação das lutas com base na distância entre os oponentes durante os combates. Ainda na primeira aula, realizamos jogos de oposição nos quais situações de agarre e desequilíbrio corporal foram mobilizadas, com o objetivo de realizarmos uma aproximação inicial com alguns gestos técnicos que poderiam se fazer presentes mais à frente na vivência da luta marajoara.

Na aula seguinte, foi realizada uma parceria com estudantes do curso de licenciatura em educação física da Universidade do Estado do Pará (UEPA), na qual abordamos aspectos técnicos e socioculturais no boxe, culminando em uma vivência de situação de combate por via do aparelho tecnológico Xbox 360. Após essas duas primeiras aulas, iniciamos a sequência pedagógica com a luta marajoara, que é atravessada e engrandecida pela realização de um seminário temático que foi encaminhado para os estudantes na segunda aula do bimestre. Para a compreensão inicial dos leitores a respeito da dinâmica e das intenções pedagógicas das aulas de luta marajoara, apresentamos a tabela 1.

Tabela 1 Organização do conhecimento da luta marajoara no ensino médio da EA-UFPA 

Aula Tema Objetos de conhecimento e metodologias
Introdução à Luta Marajoara Nessa aula começamos nossos estudos sobre a Luta Marajoara. Inicialmente, foi exposto um vídeo tratando da especificidade e dos contornos regionais dessa luta de agarre. Em seguida, foi realizada uma exposição por parte do professor contendo aspectos históricos e contemporâneos, conceito, características e regras básicas dessa luta. No final, apresentamos um curto vídeo com as principais técnicas de ataque e defesa da luta, disponível na plataforma Youtube, com o título “Golpes da Luta Marajoara”. Por fim, no tatame da sala de lutas, realizamos combates de Luta Marajoara a partir de delimitações de regras que visaram à maior segurança e compreensão dos estudantes dessa manifestação cultural por via da experiência do corpo. As regras principais socializadas nesse momento foram: início da luta em pé casado, agarre e projeção do oponente de costas no solo (tatame).
Aprofundamento técnico da Luta Marajoara Nessa aula, aprofundamos a aprendizagem da Luta Marajoara, com foco nos seus gestos técnicos (agarre, desequilíbrio e projeção), em especial, nas possibilidades de derrubada e defesa de queda. As atividades foram realizadas na quadra de areia da escola. Focamos em dinâmicas de desestabilização corporal com toque/pegada nas mãos e no ombro e depois em situações de ataque e defesa tendo que tocar e segurar na parte posterior do joelho do oponente. Por último, foram realizadas as situações de tentativa de queda e defesa dentro da dinâmica real da Luta Marajoara.
Seminários Temáticos Nessa aula, tivemos um momento de apresentação e discussão coletiva de questões que compõem o universo das lutas a partir do elemento metodológico do seminário temático.
TEMÁTICAS: 1 - Participação das mulheres nas lutas; 2 - Espetacularização das lutas: o caso das Artes Marciais Mistas (MMA); 3 - Tradição e cultura nas lutas indígenas brasileiras; 4 - Tradição e cultura nas lutas africanas; 5 - Benefícios e malefícios das lutas para a saúde dos praticantes.
Regulamentação e ressignificação da Luta
Marajoara no contexto escolar
Nessa aula, os estudantes foram desafiados a construírem regulamentações e ressignificações da Luta Marajoara. A partir de uma ficha de registro (instrumento pedagógico de avaliação), discutiram e escreveram sobre aspectos já estabelecidos e outros que se encontram em debate pelos praticantes e envolvidos no campo da Luta Marajoara (Figura 6). Por fim, vivenciamos novamente a Luta Marajoara com base nas regras e regulamentações propostas pelos grupos.

Fonte: Autores, 2023.

Neste momento, iremos discutir aspectos metodológicos mais específicos da experiência realizada, no sentido de pensarmos sobre certos pontos que compõem o trabalho com a luta marajoara com os estudantes da última etapa de ensino da educação básica. Esse aspecto é importante de ser sublinhado e representa elemento central desta pesquisa, já que partimos do pressuposto de que o ensino médio necessita seguir de fato a sua tarefa legal e referendada no campo acadêmico de aprofundamento dos conhecimentos do ensino fundamental e de maior participação e engajamento dos estudantes na produção de compreensão acerca dos objetos de conhecimento tematizados.

Sendo assim, atuamos com base em fundamentos presentes em Furtado, Monteiro e Vaz (2019) e Furtado e Borges (2020) sobre o trabalho com o universo das práticas corporais no ensino médio, que podem ser sintetizados nas seguintes sentenças: 1) É preciso que ocorra o aprofundamento do conhecimento e da relação teoria e prática. 2) As experiências corporais e o uso dos elementos técnicos devem estar de acordo com as especificidades dos estudantes da última etapa de ensino da educação básica. 3) É fundamental o aprofundamento da reflexão interdisciplinar do conhecimento. 4) Os estudantes devem ser protagonistas no processo de produção de compreensão sobre os objetos estudados.

INTRODUÇÃO À LUTA MARAJOARA

A primeira aula teve como objetivo apresentar aspectos teóricos e socioculturais da luta marajoara. A aula se dividiu em três principais momentos. Assim, os primeiros 40 minutos do encontro foram utilizados para a apresentação de vídeos, exposição teórica por parte do professor, com auxílio do recurso do powerpoint e diálogo com os estudantes acerca de aspectos conceituais, socioculturais, históricos e técnicos da luta marajoara. É oportuno dizer que, na primeira aula do bimestre sobre lutas, os estudantes receberam um material didático na forma de apostila produzido pelo professor, em que um dos tópicos já continha os aspectos conceituais tratados sobre a luta marajoara.

A perspectiva da discussão conceitual com certo grau de profundidade corrobora nossa concepção de ensino médio (Furtado, Monteiro, Vaz, 2019; Furtado, Borges, 2020). No caso da luta marajoara, exploramos o seu conceito e caracterização enquanto luta de curta distância, junto a aspectos históricos e socioculturais (Santos, Freitas, 2018). Além disso, abordamos alguns elementos do seu emergente processo de esportivização com base em Santos, Andrade e Freitas (2023b). Já nesse momento, percebemos bastante atenção e curiosidade dos estudantes em relação ao conhecimento tratado, muito em virtude do caráter contemporâneo do desenvolvimento da luta marajoara enquanto campo de conhecimento, prática esportiva e manifestação cultural paraense.

No segundo momento da aula, foi formada uma roda em volta do tatame da escola, para realização de confrontos de luta marajoara a partir da regra básica de colocar o oponente de costas no solo. Fizemos a delimitação do tempo de até 3 minutos de combate, além da organização de formas de contato que seriam permitidas ou proibidas com base nas regras da luta e com o intuito de preservação da integridade física dos estudantes. Nesse momento eminentemente experiencial da aula, conseguimos aguçar ainda mais a curiosidade dos estudantes em relação aos confrontos de luta marajoara. Com exceção de uma única turma, tivemos a participação quase que total dos estudantes, com alguns deles lutando mais de uma vez. Sendo assim, o caráter de novidade e o desafio proposto pela luta marajoara mobilizaram amplo engajamento das turmas, criando inclusive certa expectativa para a próxima aula, que seria realizada na quadra de areia da escola.

A figura 1 apresenta um momento no qual duas estudantes se confrontaram em um combate de luta marajoara de acordo com os conhecimentos introdutórios assimilados. Em termos gerais, cabe ressaltar que essa etapa da sequência prezou pela vivência da luta segundo suas ações motoras básicas, as quais incluem preparação (pé casado), desequilíbrio e derrubada (encostamento), independentemente da execução sofisticada de técnicas específicas, como as apontadas por Campos, Pinheiro e Gouveia (2019), as quais seriam trabalhadas na aula seguinte.

Fonte: Registro fotográfico dos autores, 2023

Figura 1 Realização de confronto de luta marajoara 

Finalizamos a aula reforçando o conceito da luta marajoara e a sua característica central, isto é, ter que colocar o adversário de costas no solo. A partir da experiência do corpo, foi possível a ampliação da compreensão do conceito. Por último, o professor indagou as turmas sobre as principais dificuldades que tiveram nas situações de combate. Em geral, os estudantes falaram sobre a necessidade de maior conhecimento técnico para derrubar e se defender das tentativas de queda dos oponentes. Assim, esse aspecto foi considerado para a construção didática da próxima aula.

APROFUNDAMENTO TÉCNICO DA LUTA MARAJOARA

A segunda aula sobre luta marajoara prevista na sequência teve quatro momentos estruturados e objetivou vivenciar um conjunto de possibilidades técnicas que visam ao maior êxito dos sujeitos nos confrontos de luta marajoara.

Inicialmente, ainda na sala de lutas, retomamos a discussão da aula anterior sobre as características da luta marajoara, inclusive relembrando a posição inicial dos confrontos. Além desse ponto, falamos sobre a necessidade de reconhecermos nossas características físicas para organizarmos as estratégias nos confrontos. Nesse momento, fizemos o diálogo com o objeto de conhecimento saúde e práticas corporais tratado no bimestre anterior, especialmente, com os conceitos de aptidão física, capacidades físicas e biotipo corporal.

Do ponto de vista conceitual, a abordagem temática da saúde associada à prática de luta marajoara expressa a necessidade de reflexão crítica de aspectos como integridade física, hábitos motores, estado morfológico funcional de grupos musculares, além de questões como especialização esportiva precoce e inadequações metodológicas no trato escolar com as lutas (Campos, Antunes, 2021). Tais associações revelam princípios educativos que consideram a dimensão técnica no ensino das lutas, mas sobretudo valorizam o componente físico como eixo norteador de práticas benéficas e seguras.

No segundo momento, os estudantes foram dirigidos à areia para realizar atividades de confrontação, porém, a partir de regras delimitadas para que começassem a pensar sobre as possibilidades de contato corporal, de derrubar e se defender das quedas no decorrer dos combates. Tomamos como referência a sequência pedagógica produzida por Santos, Andrade e Freitas (2023a), com adaptações para o perfil dos estudantes do ensino médio da EA-UFPA.

Desse modo, as seguintes atividades foram propostas: sempre em duplas e com os pés casados e mãos espalmadas na posição inicial da luta, começamos com uma atividade em que um oponente tentaria desequilibrar o outro no intento de tirá-lo da posição inicial da luta, porém, fazendo uso somente das mãos. Trocamos a base do pé casado logo em seguida. Na segunda atividade, o desafio era o mesmo, desequilibrar o oponente da sua base de apoio (pés casados), mas, dessa vez, as mãos de cada um deveriam estar nos ombros dos seus respectivos oponentes.

Fonte: Registro fotográfico dos autores, 2023.

Figura 2 Atividade de desequilíbrio 

O objetivo dessas duas primeiras atividades foi fazer com que os estudantes compreendessem as possibilidades de desequilíbrio do oponente a partir da utilização das mãos e de certas regiões do corpo. Um fato interessante é que neste momento não foi trabalhado ainda o desafio da queda/derrubada, sendo esse um aspecto que tornou a aula atrativa para os alunos que estavam com receio de cair na areia.

Na terceira atividade, seguindo na posição inicial da luta com os pés casados, os discentes tiveram que alcançar a região posterior de um dos joelhos (região poplítea) dos oponentes. Assim, eles deveriam atacar e se defender ao mesmo tempo. Em seguida, o desafio era tentar chegar aos dois joelhos do oponente simultaneamente. Nesse momento, começaram a perceber a necessidade de se proteger das tentativas de queda e naturalmente foram colocando as pernas para trás, além de ações variadas com os braços para o impedimento do contato do adversário. Até esse momento da aula, não tivemos situações de projeção do oponente no chão.

Fonte: Registro fotográfico dos autores, 2023.

Figura 3 Atividade de impedimento de contato do oponente 

No terceiro momento da aula, em uma roda, realizamos primeiramente confrontos com as regras e os desafios das atividades anteriores. Em seguida, foi realizada a dinâmica específica da luta marajoara, com a tarefa de colocar o oponente de costas no solo. Nesse momento, os confrontos ficaram mais técnicos e vários deles terminaram sem ninguém conseguir derrubar o oponente de costas no chão de areia.

Fonte: Registro fotográfico dos autores, 2023.

Figura 4 Confronto real com objetivo de encostamento 

Outro fato curioso é que, em três turmas, os estudantes foram se distribuindo na quadra de areia e realizando vários confrontos de luta marajoara simultaneamente, reforçando o engajamento e a curiosidade de seguir aprendendo e vivenciando um elemento novo e tradicional da cultura paraense. No último momento da aula, dialogamos sobre os avanços dos estudantes nas situações de combate, com foco na identificação da necessidade da aprendizagem da defesa e organização de estratégias para a luta, tal como demonstrado na imagem abaixo, que apresenta a aplicabilidade das ações técnicas vivenciadas na aula.

Fonte: Sistematização dos autores, 2023.

Figura 5 Estratégias técnicas da luta marajoara vivenciadas na aula 02 

O resultado do acontecimento da aula 02 aponta uma necessidade de aprendizagem de elementos técnicos na prática de luta marajoara pelos estudantes, a fim de se apropriarem tecnicamente de gestos corporais convencionados pela tradição e cultura que a produziram no contexto da Amazônia Marajoara. Segundo Mauss (2003), pessoas e grupos fazem uso de seu corpo de acordo com normas coletivas transmitidas pela tradição, responsáveis pela produção de técnicas corporais simbolicamente ligadas à sua cultura. Por esse prisma, a aprendizagem de gestos técnicos da luta marajoara pelos educandos permitiu aproximá-los significativamente de elementos da cultura dessa manifestação corporal, ao passo em que foram instrumentalizados na direção da execução de ações técnicas (ataque, defesa, contra-ataque) eficazes nas dinâmicas de confronto real.

SEMINÁRIOS TEMÁTICOS

Na aula destinada aos seminários temáticos, que teve como objetivo aprofundar os conhecimentos sobre o universo das lutas por via do diálogo a respeito de questões históricas e contemporâneas presentes neste universo em diferentes contextos socioculturais, apesar de a luta marajoara não ser uma das temáticas específicas elencadas para o seminário, ela se fez presente em várias apresentações. Principalmente nas discussões sobre lutas indígenas e africanas, vários grupos abordaram as similaridades técnicas e culturais de certas manifestações com a luta marajoara, corroborando as observações de Santos e Freitas (2018), que analisaram semelhanças quanto ao objetivo e às ações motoras desta com outros tipos de luta, como a portuguesa galhofa e o wrestling. Além disso, no tema sobre MMA, foram realizadas citações da luta marajoara, assim como na discussão sobre mulheres nas lutas.

Na dinâmica dos seminários, embora outras temáticas tenham sido colocadas para a discussão, após duas aulas específicas tratando da luta marajoara, muito da atenção, da curiosidade e do universo de interesse dos estudantes ainda estava nessa manifestação cultural. Vale dizer que o momento do seminário cumpre a demanda de aprofundarmos discussões conceituais dentro do universo das lutas, além do potencial diálogo interdisciplinar com outros campos de conhecimento, como a área da saúde, a sociologia, a antropologia e a psicologia.

A escolarização da luta marajoara, alcançada primeiramente por meio das vivências práticas e, depois, pelas discussões nos seminários, revela um movimento pedagógico que expressou as possibilidades vastas de articulação desse conhecimento com aspectos contemporâneos das lutas, assim como com questões que envolvem tradição e cultura na abordagem específica da luta marajoara.

O movimento notado demonstra o êxito da experiência proposta, uma vez que se observou a apreensão aprofundada de conceitos e temas relacionados ao fenômeno. Em acordo com o pensamento freiriano, a produção de conhecimento por parte dos estudantes teve como base a curiosidade epistemológica, na qual se assume a rigorosidade metódica como motor para o pensar certo e crítico, em um exercício permanente de reflexão, ação e apropriação acerca de dado fenômeno apreendido da realidade (Freire, 1983; 2001).

Considerando o alcance a uma aprendizagem significativa no contexto dos seminários temáticos, ainda que constitua uma prática da cultura corporal regional, portanto, próxima à realidade dos discentes, verificamos que a luta marajoara representou um conhecimento novo, sendo a ela atribuídos significados educativos decorrentes da apreensão de competências, conceitos e experiências ligadas historicamente a essa manifestação corporal.

REGULAMENTAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO DA LUTA MARAJOARA NO CONTEXTO ESCOLAR

A última aula da sequência pedagógica teve como objetivo propor que os estudantes reformulassem e construíssem regulamentações para a luta marajoara, tendo em vista a sua melhor organização para o contexto escolar. Na imagem abaixo, apresentamos o instrumento didático utilizado para organizar a atividade. No final da aula, foram vivenciados novos combates de luta marajoara no tatame a partir de regras e regulamentações estabelecidas pelos grupos.

Fonte: Sistematização dos autores, 2023.

Figura 6 Instrumento pedagógico de avaliação 

Cabe destacar que, nessa aula, os estudantes apresentaram um conjunto de proposições acerca de formas de contato, sistema de pontuação, punição para infrações às regras, tempo, quantidade e função dos árbitros e posição inicial da luta marajoara. Nesse momento, observou-se a manifestação de uma maior autonomia dos estudantes na reflexão sobre como a luta pode ser potencializada sem que a sua característica central seja modificada.

O fato observado evidencia um debate recente relativo à institucionalização da luta marajoara no Pará. Estudos como o de Santos, Andrade e Freitas (2023b) indicam a perspectiva de universalização das regras da luta por parte da Federação Paraense de Luta Marajoara (FPLM), entidade autorreguladora da prática de luta marajoara no Estado. Tendo por finalidade a construção de um livro de regras, essa instituição pretende viabilizar a adequação dessa luta corporal às características esportivas, discutindo propostas que, em certa medida, podem implicar a perda de suas características tradicionais, grosso modo, no envenenamento da luta marajoara, de acordo com os autores.

Um diálogo entre as proposições dos estudantes e o atual processo de regulamentação esportiva da luta marajoara indica duas reflexões. Primeiramente, nota-se que, enquanto sujeitos do processo educativo, os educandos agiram como interlocutores de propostas que, objetivamente, valorizaram aspectos culturais e organizativos da luta. Em outro plano, essa atitude demonstra que, relativamente a sua esportivização, a luta marajoara é permeada por uma série de visões, antagonismos e possibilidades que ora apontam uma tendência de incerteza quanto aos rumos de sua regulamentação, ora reafirmam a necessidade de reflexão crítica sobre sua possível descaracterização neste iminente processo.

Em referência às atividades desse momento avaliativo, na imagem que segue, apresentamos uma proposição dos estudantes sobre a posição inicial dos confrontos, na qual se vislumbra uma possibilidade de ressignificação de um dos aspectos da luta marajoara no ambiente escolar, a preparação para o confronto.

Fonte: Registro fotográfico dos autores, 2023.

Figura 7 Proposição discente sobre posição inicial da luta marajoara 

Nesse contexto de possibilidades educativas, é oportuno dizer que, apesar de fecharmos a sequência pedagógica nesta quarta aula, correspondente à sexta aula do bimestre que trata do objeto de conhecimento lutas, dois outros momentos do calendário escolar dialogaram com os conhecimentos sobre luta marajoara tematizados nesse período. O primeiro deles ocorreu com a realização, ainda no corrente ano, do simulado no formato do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O simulado contou com 120 questões, distribuídas entre treze componentes curriculares obrigatórios que integram a grade curricular da 1ª série do ensino médio da EA-UFPA. A disciplina de educação física é responsável pela elaboração de quatro questões. Sendo assim, uma delas, elaborada pelo professor das turmas, foi sobre a luta marajoara, conforme exposto na tabela a seguir.

Tabela 2 Questão relacionada à luta marajoara, incluída no simulado no formato do ENEM 

A Luta Marajoara pode ser concebida como uma prática corporal que apresenta intensa relação com os aspectos do cotidiano do Arquipélago do Marajó. Santos e Freitas (2018) afirmam que a luta em questão começou a ser produzida no século XVIII, a partir da dominação portuguesa, da introdução das primeiras cabeças de gado do Marajó e do contato entre indígenas (nativos), negros africanos e vaqueiros. Portanto, é possível dizer que a Luta Marajoara é uma síntese de culturas, isto é, resultado da influência de sujeitos e práticas culturais que habitavam a região do Marajó, que construíram uma prática corporal altamente influenciada pela dinâmica cultural da região.
Do ponto de vista conceitual, podemos dizer que a Luta Marajoara
a) apresenta-se na forma de luta de curta distância, em que um oponente visa derrubar o outro de costas no solo, podendo usar golpes traumáticos durante os confrontos.
b) assemelha-se com modalidades como o Judô e o Jiu-Jitsu, em virtude da distância média entre os oponentes durante os confrontos.
c) manifesta características de lutas indígenas e africanas, não sofrendo influências do contexto cultural da ilha do marajó.
d) pode ser concebida como uma luta de agarre, caracterizada como um confronto de curta distância, pois existe um intenso contato corpo-a-corpo que pode ocorrer na argila, na areia ou na grama.
e) ocorre na areia, na argila ou na grama, em round de 5 minutos, sendo permitido os lutadores utilizarem algum objeto como implemento no momento do combate.

Fonte: Autores, 2023.

Além da presença da luta marajoara compondo a temática de um item do simulado da 1ª série do ensino médio, a modalidade esteve presente novamente nos jogos internos da EA-UFPA, que foram realizados entre os dias 12 e 19 de dezembro de 2023. Na ocasião, cada turma escolheu quatro participantes para representar a turma na competição de luta marajoara, sendo duas meninas e dois meninos, totalizando a participação de 20 estudantes.

Fundamentalmente, a vivência de aspectos técnicos, imbricada às reflexões sobre aspectos socioculturais envolvidos na prática de luta marajoara no contexto do ensino médio, configurou um espaço-tempo de importante valor educativo tanto para o componente curricular, quanto para os sujeitos que participaram da experiência pedagógica desenvolvida na EA-UFPA.

No que se refere ao componente curricular educação física, o desenvolvimento do conhecimento sobre a luta marajoara prezou pela sua abordagem técnica, mas também por questões relacionadas, como influência cultural, tradição, esportivização e possibilidades de ressignificação da luta na escola. Essa ampla diversidade de abordagens sobre o tema representou uma prática inovadora do ponto de vista do currículo, pois proporcionou a problematização de um saber contemporâneo que de alguma maneira dialoga com o contexto cultural vivido pelos estudantes da EA-UFPA.

Relativamente a tais sujeitos, pode-se afirmar que sua expectativa foi atendida, à medida que a aprendizagem de um conhecimento novo lhes possibilitou refletir e produzir saberes, assim como atuar de forma autônoma e engajada em função dos desafios técnicos propostos na vivência de luta marajoara no contexto da etapa escolar que frequentam, cumprindo com a expectativa educativa de aprofundamento do conhecimento, sobretudo técnico, previsto no ensino médio, segundo os fundamentos sistematizados por Furtado, Monteiro e Vaz (2019) e Furtado e Borges (2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A luta marajoara, em tempos recentes, configurou um tema que ganhou notoriedade nos diversos segmentos de prática que compõem o universo das lutas, local e regionalmente. Em virtude disso, na escola, seu conhecimento passou a ser considerado nas experiências educativas do currículo da educação física, nas etapas de ensino fundamental e médio.

O desenvolvimento do tema no 1º ano do ensino médio da EA-UFPA representa uma contribuição ao campo das lutas corporais brasileiras, mas acima de tudo aos debates que envolvem de modo específico a luta marajoara, em especial nos aspectos relacionados à cultura, tradição e técnica. Em referência a este último, podemos considerar que a necessidade de aprofundamento do conhecimento sobre as práticas corporais previsto na etapa do ensino médio, no currículo de educação física, dialoga com a sistematização da experiência discutida neste texto, em que a dimensão técnica da luta marajoara serviu como eixo basilar, possibilitando a estudantes novas formas de produção e de compreensão sobre esse objeto.

Nesse sentido, a partir da experiência corporal contextualizada com as características do público de estudantes do ensino médio da EA-UFPA, buscamos efetivar uma abordagem educativa, fundamentada em aspectos didáticos sistematizados, em que as técnicas corporais da luta marajoara se relacionam com aspectos fundamentais da sua contextualização teórica. Desse ponto de vista, cremos que as discussões sobre as suas origens históricas, tradição e esportivização podem ser mais bem compreendidas à medida que os estudantes compreendem, pela experiência do corpo, o conjunto de significados presentes nas ações motoras típicas da luta marajoara.

A partir da experiência vivenciada, é possível inferir que a luta marajoara, quando mediada pedagogicamente, apresenta um amplo potencial educativo, pois, em virtude do seu aspecto de novidade e pertencimento regional, possibilita que os estudantes compreendam dimensões de conhecimento fundamentais do campo das lutas corporais em geral, ao mesmo tempo em que conhecem alguns elementos constitutivos da identidade cultural marajoara.

Por fim, esperamos, com o presente trabalho, inspirar outras atividades educativas e ampliar as possibilidades de ensino da luta marajoara no ensino médio, certos de que a ampliação das vivências e sistematizações pedagógicas acerca desse objeto de conhecimento serão fundamentais para seu reconhecimento no ambiente escolar e no currículo da Educação Física.

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Recebido: Março de 2024; Aceito: Março de 2025

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