SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.37 número80Formação continuada docente: a perspectiva de caminhante e a (in)completude do ser índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Educação e Filosofia

versão impressa ISSN 0102-6801versão On-line ISSN 1982-596X

Educação e Filosofia vol.37 no.80 Uberlândia maio/ago 2023  Epub 31-Ago-2023

https://doi.org/10.14393/revedfil.v37n80a2023-71077 

Dossiê: Docência - ofício ou vocação?

Apresentação do dossiê: Docência - ofício ou vocação?

Ivan Fortunato* 

Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias e Doutor em Geografia, ambos pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). Professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

ivanfrt@yahoo.com.br
lattes: 8293044394759438; http://orcid.org/0000-0002-1870-7528

Osmar Hélio Alves Araújo** 

Doutor em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professor Adjunto do Departamento de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

osmarhelio@hotmail.com
lattes: 0422935292610713; http://orcid.org/0000-0003-3396-8205

Emerson Augusto de Medeiros*** 

Doutor em Educação pela Universidade Estadual do Ceará (UECE_. Professor Adjunto do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (DCH/UFERSA).

emerson.medeiros@ufersa.edu.br
lattes: 5799425932852626; http://orcid.org/0000-0003-3988-3915

* Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Brasil. E-mail: ivanfrt@yahoo.com.br.

** Departamento de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Brasil. E-mail: osmarhelio@hotmail.com.

*** Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (DCH/UFERSA). Brasil. E-mail: emerson.medeiros@ufersa.edu.br.


Este dossiê nasce do nosso cotidiano como professores formadores nos cursos de licenciatura e na pós-graduação. Nasce, particularmente, de uma inquietação que nos incomoda, faz tempo, qual seja: seria a docência um ofício ou uma vocação? Explicamos!

Muitas vezes, estamos ocupados e preocupados com nossos estudantes, individualmente, aos quais chamamos pelo nome e vice-versa. Os afetos recobrem os momentos de ensinar e aprender, de orientar e de partilhar a vida. Também nos ocupamos e nos preocupamos com aqueles que estão na escola, aprendendo e ensinando coisas da e para a vida, tentando seu melhor para que haja transformação. Aquela boa e velha transformação que recai sobre as ideações de Paulo Freire de transformar pessoas, pela educação, para que as pessoas mudem o mundo para melhor.

Quando temos esses quefazeres voltados às pessoas que nos cercam cotidianamente nas instituições e às pessoas que poderão, de alguma forma, serem alcançadas pelo nosso trabalho de formar professores, parece que o magistério é mesmo uma profissão de dação. Se assim for, vocacionados somos (ou estamos).

Em outros momentos, nos ocupamos da insana burocracia de reuniões, atas, relatórios, ofícios e um papelório (que nos parece) sem fim. Permanecemos passivamente em nossas mesas de trabalho, digitando, revisando, deferindo, indeferindo (e justificando), despachando... e sabe-se lá o que mais. Isso sem falar que há planos de trabalho, de aulas, avaliações, diários de sala, calendário a ser cumprido, estudantes a aprovar e reprovar.

E no nosso trabalho há textos a serem lidos, recomendados, resenhados, discutidos... tudo isso para produção de outros textos ou seminários. Vamos a congressos e organizamos grupos de estudos e de pesquisas, orientamos nossos estudantes e escrevemos também, além pesquisarmos. Focamos nas teorias que se verteram clássicas e discutimos ideias de grandes pensadores (que não são as nossas). Abordamos os meios mais modernosos de ensinar, as tecnologias digitais, o mundo remoto, a motivação para aprender, etc. etc.

Lembramos que as circunstâncias que demarcam nosso dia a dia na docência são seculares. Se fizeram ao longo do tempo, variando, de algum modo, em maior ou menor grau, em contextos (sociedades, civilizações, nações) e tempos diferentes. Não obstante, sejam, em verdade, circunstâncias relacionadas à docência tanto na educação básica quanto no ensino superior.

Também falamos de carreira e das condições (quase sempre) sofridas de trabalho nas escolas, com poucos recursos, baixos salários, salas lotadas e uma falta de vontade de se investir nas escolas como lugares de mudança de nosso status quo imperialista, patriarcal e neoliberal.

Nesses momentos outros, estamos trabalhando na docência como ofício, evidenciando que não apenas o magistério requer ampla formação, como tem prescindido do necessário reconhecimento de sua profissionalização. Requer também de saberes e conhecimentos profissionais específicos sobre a educação, de maneira ampla, e da sala de aula, em particular. Esses saberes e conhecimentos são construídos/mobilizados na formação e na prática educativa. Ou seja, se fazem desde o estudo sistematizado na universidade (ou espaços formativos com esse fim) quando nos debruçamos na formação inicial, ou na experiência vivenciada ao longo da trajetória de vida pessoal e profissional nas escolas ou universidades.

Como ora esquecemos de tudo que envolve carreira para focar exclusivamente nas pessoas e ora não temos tempo nem de responder uma saudação de algum estudante, percebemos que flutuamos pelo magistério da vocação e o magistério da profissão. Que inquietação! Por isso, recorremos aos colegas e lançamos essa dúvida mote: seria a docência ofício ou vocação?

De posse dessa pergunta, ampla, sem muita definição, vários colegas se dispuseram ao desafio de produzir uma escrita que perpassasse o tema. Assim, sem qualquer pretensão de esgotar o tema, apresentamos o dossiê. Aliás, não se esgota. Pelo contrário, coloca foco nessa inquietação que é necessária ser esquadrinhada. Sempre!

Desse modo, o presente dossiê temático, “Docência - ofício ou vocação?”, está organizado em oito textos que discutem a docência e elementos que a compõem ou se associam, como a formação dos professores, a prática pedagógica, a política de formação docente, a identidade docente, o currículo, entre outros temas.

No primeiro artigo do dossiê, Valderesa Moro e Hildegard Susana Jung, da Universidade La Salle, localizada em Canoas, Rio Grande do Sul, colocaram sob um olhar analítico a proposta de educação continuada de uma escola de Educação Básica privada franciscana, localizada no Sul do Brasil. As investigadoras buscaram analisar como essa proposta contribui na construção de si e da prática pedagógica de seus docentes. Apontam, ao final, a importância da formação continuada no processo autoformativo docente.

No segundo artigo, as(o) professoras(o) Jeane Cristina G. Rotta, Ana Júlia Pedreira e Delano Moody Simões da Silva, todos da Universidade de Brasília (Unb), Distrito Federal, discutem a construção da identidade docente a partir das contribuições das práticas reflexivas do Programa Institucional de Iniciação à Docência, o PIBID, com foco na área de ensino de Ciências da Natureza. Sua leitura é importante para se compreender como se dá a formação e o fortalecimento da docência como carreira na licenciatura.

O artigo terceiro também toca na questão da construção da identidade docente. Produzido por Leandra Fernandes Procópio, da Universidad Autónoma de Madrid, e por Marcos Rabelo Procópio, da Universidad Castilla-La Mancha, ambos da Espanha, o artigo tem como propósito discutir, filosoficamente, como as experiências estudantis, anteriores à formação inicial docente, coadunam na construção de sua identidade como futuros professores.

No quarto artigo, Glaurea N. B. de Oliveira, professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e Marcos Garcia Neira, da Universidade de São Paulo (USP), problematizam a questão dos currículos de formação docente (de Educação Física) na formação de subjetivações. Por meio de uma leitura pós-estruturalista de sua problematização, reconhecem que há modos distintos e dissonantes de se perceber a/na profissão.

No artigo de número cinco, Maria Amélia Santoro Franco e Daniella Scalet, da Universidade Católica de Santos, desenvolveram um estudo bibliográfico crítico no qual a docência pela práxis tende a vocacionar o professorado à uma docência comprometida com a transformação social e os ideais de humanização que caracterizam o magistério.

No artigo sexto, Milagros Elena Rodríguez, professora da Universidade do Oriente, da Venezuela, apresenta uma pesquisa transmetódica na qual analisa as categorias dom, vocação e formação por meio de um diálogo com interlocutores de seu próprio país, do México, da República Dominicana e de Cuba, concluindo que precisamos superar nossa formação docente colonial e mecânica, evocando uma nova forma de se pensar o magistério, calcada na ecosofia.

No sétimo artigo, Lucilia V. de Oliveira, professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Umuarama, Solange F. R. Yaegashi, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e Alexandre Shigunov Neto, coordenador de pesquisas do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Itapetininga, promovem uma análise de representações sociais de professores e professoras do Ensino Fundamental a respeito do ensino e da aprendizagem da leitura e da escrita de estudantes. Verificam que esse tipo de pesquisa permite que se reconheçam, como docentes, seus próprios limites e dificuldades a respeito do que lecionam.

Por fim, o último artigo é dos organizadores deste dossiê temático, quais sejam: Professor Ivan Fortunato, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Itapetininga, Professor Osmar Hélio Alves Araújo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), campus Mamanguape, e Professor Emerson Augusto de Medeiros, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), campus Mossoró. Os autores apresentam ideias a respeito da docência como ofício ou vocação por meio de um ensaio no qual são trazidos três princípios que almejam como professores. Problematizam a questão inicial por meio de uma reflexão que nos leva à docência como uma profissão que está entre o ofício e a vocação. Os autores se reportam a docência tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior.

Desde já, esperamos que este dossiê alcance seu objetivo mais fundante: colocar a reflexão sobre a docência em movimento, não permitindo que o magistério seja cristalizado em uma profissão que serve para manutenção do mundo como está.

Salientamos que os esforços dos pesquisadores/autores na construção do presente dossiê temático se fazem como um empreendimento acadêmico importante, dada a complexidade da docência na atualidade. Pensamos que urge no contexto atual, mais do que nunca, em razão da pandemia causada pela covid-19 que assolou a humanidade nos últimos dois anos, a necessidade de dialogar, pesquisar, problematizar, refletir e compreender a docência. Assim, esperamos ter cumprido este feito com o dossiê em tela.

Boas leituras!

Publicado: 31 de Agosto de 2023

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons