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Educação e Filosofia

versão impressa ISSN 0102-6801versão On-line ISSN 1982-596X

Educação e Filosofia vol.37 no.81 Uberlândia set./dez 2023  Epub 31-Dez-2023

https://doi.org/10.14393/revedfil.v37n81a2023-67643 

Artigos

O itinerário de Agostinho de Hipona em busca da verdade e seu projeto de formação cristã

The itinerary of Augustine of Hippo in search of the truth and its Christian formation project

El itinerario de Agustín de Hipona en busca de la verdad y su proyecto de formación Cristiana

Juliana Calabresi Voss Duarte* 

Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Ensino: Formação docente interdisciplinar na Universidade Estadual do Paraná (Unespar/Paranavaí). Professora da Rede Estadual de Educação do Estado do Paraná(SEED).

ju.llia@hotmail.com
http://orcid.org/0000-0003-4088-3752; lattes: 1957828466129051

Terezinha Oliveira** 

Doutora em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Professora Titular da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

teleoliv@gmail.com
http://orcid.org/0000-0001-5349-1059; lattes: 7525108577501517

* Rede Estadual de Educação do Estado do Paraná (SEED). Brasil. Email: ju.llia@hotmail.com.

** Universidade Estadual de Maringá (UEM). Brasil. E-mail: teleoliv@gmail.com.


Resumo:

Este estudo objetiva identificar a natureza de verdade por Agostinho de Hipona (354-430), segundo as reflexões contidas no VII Livro da obra Confissões (397) que trata da Busca da Verdade. Para isso, é necessário reconhecer quais percursos o bispo de Hipona percorreu em sua vida terrena, bem como sua vivência filosófica. Nesse itinerário em busca da verdade se envolveu com o maniqueísmo, que em certa medida apresentava uma verdade racional e material, perspectiva que se aproximava do pensamento de Agostinho na sua fase de juventude. Conforme foi amadurecendo intelectualmente e buscando compreensões das questões que permeiam a vida humana pode-se depreender o seu projeto de formação cristã, uma vez que, ao criticar o modo como conduzia sua vida pregressa (anterior à conversão) e evidenciar as mudanças em seus atos cotidianos para se adequar à forma de vida de um bom cristão, o autor explicita um projeto de educação e de sociedade que conduza aos bens eternos e imutáveis. A busca e o encontro da verdade ocorrerão mediante ações decorrentes de um ato de escolha particular, livre.

Palavras-chave: Agostinho de Hipona; Verdade; Formação Cristã; Vontade

Abstract:

This study aims to identify the nature of truth by Augustine of Hippo (354-430), according to the reflections contained in the VII Book of the work Confessions (397) which deals with the Search for Truth. For this, it is necessary to recognize which paths the Bishop of Hippo took in his earthly life, as well as his philosophical experience. In this itinerary in search of the truth, he became involved with Manichaeism, which, to a certain extent, presented a rational and material truth, a perspective that was close to the thought of Augustine in his youth. As he matured intellectually and sought understanding of the issues that permeate human life, his project of Christian formation can be inferred, since, by criticizing the way he led his former life (prior to conversion) and highlighting the changes in his acts to adapt to the way of life of a good Christian, the author explains a project of education and society that leads to eternal and immutable goods. The search and finding of the truth will occur through actions resulting from an act of particular, free choice.

Keywords: Augustine of Hippo; Truth; Christian Formation; Will

Resumen:

Este estudio tiene como objetivo identificar la naturaleza de la verdad de Agustín de Hipona (354-430), según las reflexiones contenidas en el Libro VII de la obra Confesiones (397) que trata de la Búsqueda de la Verdad. Para ello, es necesario reconocer qué caminos tomó el obispo de Hipona en su vida terrena, así como su experiencia filosófica. En este itinerario en busca de la verdad, se involucra con el maniqueísmo, que, en cierta medida, presenta una verdad racional y material, perspectiva cercana al pensamiento de Agustín en su juventud. De haber madurado intelectualmente y buscado la comprensión de los problemas que impregnan la vida humana, se puede inferir su proyecto de formación cristiana, ya que, al criticar la forma en que llevó su vida anterior (previa a la conversión) y destacando los cambios en sus actos para adaptarse a el modo de vida de un buen cristiano, el autor explica un proyecto de educación y sociedad que conduce a bienes eternos e inmutables. La búsqueda y el hallazgo de la verdad ocurrirán a través de acciones resultantes de un acto de libre elección particular.

Palabras clave: Agustín de Hipona; Verdad; Formación Cristiana; Voluntad

Introdução

Nesta proposta de estudo, de natureza bibliográfica, em que se busca identificar a natureza da verdade por Agostinho (354-430), delimitamos algumas reflexões que estão contidas no VII Livro das Confissões (397) que trata da Busca da Verdade. Nessa obra, Agostinho teria estabelecido um diálogo com Deus em que expõe a Ele sua trajetória de vida bem como suas angústias, buscas, dúvidas e erros. De forma particular, nesse escrito o autor deixa transparecer suas inquietações, pois, ainda jovem, declarou que sua juventude cheia de vícios estava morta e, com o avançar da idade, ainda se deixava contaminar por coisas vãs. Ele retrata sua vida perpassando pelas ações pecaminosas até sua conversão e destaca que sempre esteve em busca da felicidade e da verdade.

Para nós, historiadores da educação, desse projeto de busca da verdade do bispo de Hipona pode-se depreender o seu projeto de formação cristã, uma vez que, ao criticar o modo como conduzia sua vida pregressa (anterior à conversão) e evidenciar as mudanças em seus atos cotidianos para se adequar à forma de vida de um bom cristão, o autor explicita um projeto de educação e de sociedade. Isso evidencia que Agostinho, que é considerado um influente filósofo cristão e intelectual do século V, seguramente se preocupou com a formação humana dos homens do seu tempo.

Sobre a importância do estudo do pensamento medieval, Boni diz que por um tempo acreditou-se que o estudo da Idade Média era um estágio superado na história da humanidade, que era de interesse apenas da Igreja. Contudo, há poucos anos “[…] os estudiosos dedicaram-se a um estudo histórico-genético, a fim de descobrir quanto e por quais caminhos o pensamento moderno é devedor do pensamento medieval” (BONI, 2005, p. 431).

A partir do reconhecimento das contribuições desse teólogo e filósofo para a cultura e para a história do pensamento ocidental é que nos dedicamos a esse estudo na tentativa de problematizar a questão da verdade que se apresenta de forma intensa nas discussões agostinianas. Confissões é uma dentre as várias obras de Agostinho na qual se pode observar essa questão. É a partir deste livro e das próprias impressões deixadas pelo autor que vemos a relevância de compreender em que consistiu a sua busca pela verdade. Nessa obra - escrita dez anos após sua conversão ao cristianismo - ele reflete acerca de sua vida nas diferentes fases e relata seus erros e os caminhos pelos quais buscou a verdade, a sabedoria e a felicidade.

Em um primeiro momento, observa-se a imagem de um homem que expõe a sua vida exterior, demonstrando que viveu conforme os seus sentidos corpóreos lhe permitiam viver. À medida que avança nas reflexões, o autor principia a expor sua vida interior, buscando compreensões das questões que permeiam a vida humana. Sob essa perspectiva, Agostinho explicita que, enquanto não havia se convertido ao cristianismo, vivia segundo seus desejos corpóreos sem se preocupar com a sua condição intelectiva de homem.

Ao procurar a verdade e a felicidade manteve contato com pessoas e obras que influenciaram seu modo de pensar, os quais cita em seus textos. As influências filosóficas e teológicas na vida de Agostinho vieram de pensadores como Platão (428/348 a. C.), Cícero (106/43 a. C.), neoplatônicos com destaque para Plotino (205/270 d. C.), Ambrósio (340/397 d. C.) dentre outros. Com os platônicos, Agostinho foi instigado a retornar a si mesmo, entrando no íntimo do seu coração e, com os olhos da alma, passou a ver uma luz imutável: “Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece, conhece a eternidade” (AGOSTINHO, 1997, p. 190). Contudo, até chegar a estas conclusões, Agostinho passou por muitas etapas.

Em um primeiro momento, conforme exposto no Livro VII das Confissões, o autor reconhece sua dificuldade em conceber a essência de Deus e a questão da origem do mal, pois não tinha ideia clara e nítida da sua causa. Nesse desejo de encontrar a verdade, Agostinho se interessou pelo maniqueísmo e pelo ceticismo. Ao aderir à seita dos maniqueus, ansiava por esclarecimentos para suas dúvidas: a essência de Deus e a origem do mal- duas questões que permeiam o campo da filosofia e da religião -, e o maniqueísmo proclamava o ensino da verdade, seguindo um ensinamento racional que, posteriormente, o próprio Agostinho condenou.

Por ser um retórico, um homem de estudos e, portanto, um intelectual, Agostinho leu autores que tiveram impacto em sua vida. Algumas leituras o levaram ao desejo de descobrir a verdade e de alcançar a sabedoria, passando por uma conversão filosófica e moral. Podemos salientar que, quanto mais se aprofundava nos estudos dos filósofos antigos e latinos, mais o autor compreendia a natureza intelectiva do homem e, por conseguinte, compreendia a essência de Deus e a origem do mal. Esses dois problemas o tinham angustiado por um longo tempo, pois a forma como lhes foram apresentados não o satisfazia; ambos principiam a fazer sentido e ser compreendidos a partir do aprofundamento filosófico e de sua conversão.

Nas inquietações de Agostinho qual seria então a natureza da verdade? Onde seria possível encontrá-la? Não se pode desconsiderar que no itinerário de Agostinho se encontram outros temas polêmicos em que ele, na sua fase mais madura, posiciona-se e defende considerando sua atuação nas atividades eclesiais.

1 Um itinerário em busca da verdade

Com a missão de formular o princípio do pensamento cristão, alguns padres da Igreja se dedicaram a refletir e escrever tratados a serem seguidos - foi o que aconteceu com Agostinho, o bispo de Hipona. Em sua caminhada pastoral propôs conteúdo a ser seguido a fim de consolidar a luz da fé ao homem do seu tempo. No entanto, para chegar a esse degrau de maturidade intelectual e de interiorização, Agostinho vivenciou inúmeras experiências.

O teólogo Aurélio Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste no dia 13 de novembro de 354. Filho de Patrício (pagão) e de Mônica (cristã), teve dois irmãos. Passou sua infância em sua cidade natal onde recebeu seus primeiros estudos de gramática, aritmética, latim e rudimentos do grego. Ele não recebeu o batismo quando criança, pois na tradição da época recebia-se esse sacramento, se possível fosse, para a hora da morte. Com o adiamento do batismo, as pessoas acreditavam que seria possível se ter vantagem durante a trajetória da vida, uma vez que: “[...] podiam divertir-se à vontade até o fim e, chegado este, tinham assegurada a salvação pelo baptismo que todos os pecados e suas sequelas apagavam - vida livre, sem peias, sem penitências, sem refreamento, com a bem-aventurança garantida” (AGOSTINHO, 1996, p. 12).

Em virtude dessa tradição e em decorrência de sua conversão tardia ao cristianismo, é que Agostinho recebeu o batismo na Páscoa do ano de 387, juntamente com Alípio e Adeodato, ou seja, junto com o seu amigo e com o seu filho. Outro fato que efetivamente implica a prorrogação do batismo de Agostinho é que ele participou por um período aproximado de nove anos na seita dos maniqueus, antes de sua conversão ao cristianismo.

No itinerário agostiniano se percebe que, por meio de suas experiências, ele foi paulatinamente realizando um movimento da exterioridade para a interioridade. Esse processo ocorre por não encontrar nas vivências exteriores respostas que satisfaziam suas inquietações interiores. Como alcançar a verdade e a felicidade? Quais os caminhos que conduziriam o jovem Agostinho ao encontro dessas buscas?

Das memórias que Agostinho trouxe de sua infância e de sua adolescência sempre procurou fazer um paralelo entre um homem que viveu afastado de Deus e um homem que se permitiu experimentar a Sua Graça. Nesse movimento que nos é apresentado em seus escritos, entende-se que ele desejava alcançar o maior número de fiéis para a religião que passou a professar a partir da ordem divina: ‘Toma e lê...

No contexto que antecede a conversão de Agostinho ao cristianismo há a expressão de uma vida pautada em excessos, vícios e, em certa medida, faltava-lhe a humildade. Não era simpático aos estudos, mas tinha amor pelo jogo, vislumbrando nas disputas o orgulho da vitória e a superioridade sobre os outros. Na adolescência, entregou-se a amores e desejos; tinha paixão por espetáculos frívolos, imitando os atores. O furto fez parte de sua história - bem como fraudes nos jogos - não por necessidade, mas pelo simples gosto de praticá-lo. Nesse período, ele e seus jovens amigos sentiam prazer em praticar o que era proibido. O tagastense admitia ter boa memória, facilidade para falar, sensível à amizade, fugia da dor, da humilhação, da ignorância e não aceitava ser enganado.

Essas falhas são expostas por Agostinho nas Confissões - não porque se orgulhava delas -, mas por reconhecer que os caminhos trilhados no passado foram marcados por graves erros e que, nesse momento de sua vida, revisitava-as por meio da lembrança.

A recordação é amarga, mas espero sentir tua doçura, doçura que não engana, feliz e segura, e quero recompor minha unidade depois dos dilaceramentos interiores que sofri quando me perdi em tantas bagatelas, ao afastar-me de tua Unidade (AGOSTINHO, 1997, p. 49).

A partir dessas vivências do jovem tagastense, poderíamos nos perguntar quais as intenções de Agostinho em se entregar e viver esses atos? O que estava procurando?

Alcançar a verdade e a felicidade eram desejos expressos pelo jovem Agostinho. Contudo, encontrava verdades e desfrutava de uma felicidade que não o satisfazia efetivamente. Em algumas situações, experimentou verdades e felicidades passageiras e mutáveis; é nesse cenário de busca, que Agostinho estudou e conheceu obras e pessoas que o influenciaram e se tornaram decisivas na organização do seu pensamento e de suas escolhas, instigando-o a expandir seus horizontes. Agostinho viveu em um contexto em que a educação era um dos elementos fundamentais para a ascensão social (MAIA, 2017). Sem medir esforços, seu pai procurou oferecer uma boa educação a ele. O jovem estudante residiu em Cartago para se dedicar aos estudos liberais. Era o primeiro nas aulas de retórica, o que o deixava ainda mais orgulhoso, e isso ele fazia com a intenção de satisfazer a vaidade humana.

O interesse pela literatura latina foi decisivo para sua vida filosófica. É com mais ou menos dezenove anos que Agostinho teve contato com a obra de Cícero (106 a. C. - 46 a. C.), intitulada Hortênsios, cuja leitura o despertou para a vida filosófica. Assim foi conduzido por um amor à sabedoria: “[...] Devo dizer que ele mudou os meus sentimentos e o modo de me dirigir a ti; ele transformou as minhas aspirações e desejos. [...] Eu passei a aspirar com todas as forças à imortalidade que vem da sabedoria” (AGOSTINHO, 1997, p. 70). Outro tema despertado em Agostinho a partir da leitura de Hortênsios de Cícero foi o da felicidade: “[…] Cícero defendeu um conceito de filosofia como sabedoria e arte de viver que traz a felicidade verdadeira […]” (AGOSTINHO, 1998, p. 112). Por algum tempo Agostinho acreditou que a filosofia iria lhe possibilitar a felicidade que tanto procurava e, somente tempos mais tarde, relacionou a verdade e a felicidade não mais à filosofia, mas ao encontro com Deus.

Ao iniciar um estudo das sagradas escrituras, mostrou-se incapaz de compreender e de nela se concentrar: “[...] a agudeza de minha inteligência não conseguia penetrar-lhe o íntimo. Essa obra foi feita para acompanhar o crescimento dos pequenos, mas eu desdenhava fazer-me pequeno” (AGOSTINHO, 1997, p. 72). No livro do evangelho de São Mateus (18,1), os discípulos perguntam a Jesus: quem é o maior no Reino de Deus? O mestre lhes responde que aquele que se tornar pequenino como uma criança, esse é o maior no Reino de Deus: “[...] se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus [...]” (BÍBLIA, 2002, p. 1736). É a essa pequenez que Agostinho não queria se submeter - tornar-se criança pela simplicidade.

Inicialmente Agostinho julgava que o novo e velho testamentos não estavam à altura dos grandes autores (forma e conteúdo) que já havia lido, fato que se justifica pelo padrão e formação literária ao qual teve acesso (MARÇAL, 2009). Por não apreciar o estilo dos escritos sagrados e não compreender a mensagem contida neles, afastou-se dessas leituras e não fazia questão de expressar atos de humildade. Antes de sua conversão ele relata que:

[...] Eu era incapaz de nele penetrar ou de baixar a cabeça à sua entrada. O que senti nessa época, diante das Escrituras, foi bem diferente do que agora afirmo. Tive a impressão de uma obra indigna de ser comparada à majestade de Cícero. Meu orgulho não podia suportar aquela simplicidade de estilo (AGOSTINHO, 1997, p. 71).

Diante do orgulho, da vaidade e insatisfeito com a leitura das sagradas escrituras se envolveu pelas palavras trazidas pelos maniqueus: “[...] E aí o temos atraído a uma doutrina obscura e a uma prática grosseira, tão distantes da sua límpida constituição espiritual” (AGOSTINHO, 1996, p. 21). Nesse momento, Agostinho ainda se encontrava envolvido por dúvidas, por ideias inconsistentes, sendo facilmente influenciável - como ocorreu com a doutrina maniqueísta que, por ora, trazia racionalmente a explicação para algumas de suas dúvidas.

No ano de 373, Agostinho aderiu à seita dos maniqueus, buscando elucidações para suas dúvidas. Estava, pois, em busca da verdade e o maniqueísmo pronunciava uma verdade: “[...] E me falavam muito dela, mas não a possuíam; pelo contrário, ensinavam falsidades, não só a teu respeito, que és realmente a verdade, mas também sobre a existência do mundo, criatura sua” (AGOSTINHO, 1997, p.72). Durante nove anos, ele seguiu a doutrina maniqueísta, contudo seus integrantes não conseguiam dar respostas que convencesse Agostinho quanto às suas indagações.

Assim, ele ficou à espera de conhecer Fausto, pois os integrantes da seita maniqueísta lhe disseram que ele resolveria as questões mais graves que Agostinho lhe apresentasse. Em um primeiro contato com Fausto, Agostinho se impressionou por sua retórica, contudo logo descobriu que essa pessoa, a quem tanta fama atribuíam, não entendia das disciplinas liberais, demonstrando pouco conhecimento de outras obras. O maniqueísmo procurava responder perguntas capitais para a filosofia com o absoluto apoio na razão, abandonando todo argumento de autoridade. Além da racionalidade, a explicação da existência do mal foram promessas que atraíram Agostinho ao maniqueísmo, visto que queria encontrar explicações racionais para tudo. Não estando convencido, intelectualmente, do dualismo maniqueísta, Agostinho se afastou da seita, continuou a busca por uma explicação racional acerca das ações humanas que tendem para o mal.

Brown, observa que à medida que Agostinho amadurece em idade e pensamento foi percebendo que: “[...] os maniqueístas lhe apresentavam meramente uma gnose em sua forma mais tosca [...]” (BROWN, 2020, p. 70). Mesmo fazendo parte da seita dos maniqueus, Agostinho rejeitou a maneira como eles tratavam a questão do mal e do bem, e não se satisfez com essas explicações para tratar sobre a origem do mal e a própria existência de Deus. O maniqueísmo afirmava ser a verdadeira Igreja dos gentios e o fato de ser uma religião essencialmente estática fez com que Agostinho se afastasse dela: “[...] não mais esperando progredir naquela falsa doutrina; passei a olhar com menor empenho e interesse que havia decidido adotar [...]” (AGOSTINHO, 1997, p. 133).

Desse modo ele não via na seita condições de avançar, passando a condenar esse sistema. Afastou-se da doutrina até que encontrasse algo melhor. Nessa transição, envolveu-se com os chamados Acadêmicos que afirmavam ser preciso duvidar de tudo, e que o homem nada pode compreender da verdade. Assim, ao se distanciar do maniqueísmo Agostinho aproximou-se do ceticismo acadêmico (MARÇAL, 2009). Recuperado do maniqueísmo aderiu provisoriamente ao academicismo de Cícero, vendo-o como um ceticismo universal e classificado como “[...] seu ceticismo é um dogmatismo momentaneamente desencorajado” (GILSON, 2006, p. 438-439). As certezas que tinha na juventude dissiparam-se e assim recorreu aos escritos de Cícero, apropriando-se dos diálogos filosóficos que tratavam das concepções céticas da nova academia. Os acadêmicos negavam que a mente humana pudesse atingir a verdade, mas Agostinho nunca adotou essa visão radical. Sua alternativa era que os homens poderiam “[...] usar uma “autoridade” para apontar o caminho da verdade” (BROWN , 2020, p. 96).

O problema que se colocava para Agostinho girava em torno da questão de como alcançar uma verdade certa e incontestável a respeito das coisas invisíveis?

Superando da seita maniqueia e do ceticismo, gradativamente Agostinho se aproximava da doutrina cristã e começava a empenhar forças na busca de um argumento decisivo para demonstrar a falsidade dos maniqueus. Para ele, o maniqueísmo afundou-se em razão de sua própria inconsistência ao anunciar uma explicação racional das escrituras, comparando-a com as doutrinas científicas. Agostinho, que estava em busca da verdade teve a oportunidade de ir para Milão, e isso ocorreu em um momento em que se encontrava desiludido.

É neste período, com aproximadamente trinta anos, que conseguiu a cátedra municipal de retórica de Milão. Ao ocupar esse posto e com o intuito de ensinar algo distinto do maniqueísmo e do ceticismo - mas sem nada para substituí-los -, passou a ouvir o bispo Ambrósio (340-397 d. C). Agostinho, sendo retórico, começou a acompanhar as homilias do bispo a fim de verificar se realmente a fama que lhe era atribuída tinha fundamento.

Suas palavras me prendiam a atenção. Mas, o conteúdo não me preocupava, até o desprezava. Eu me encantava com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável que o de Fausto quanto à forma. A respeito do conteúdo, porém, não era possível qualquer comparação: perdia-se este último entre as falsidades dos maniqueus, ao passo que o outro ensinava a doutrina mais sadia da salvação (AGOSTINHO, 1997, p. 137).

O bispo Ambrósio dominava Milão, pois a corte era cristã. Ambrósio de Milão comentava alegoricamente o evangelho, seus discursos iam muito além da letra e das imagens materiais, pois buscavam sempre o espírito (BROWN, 2020). Por meio das palavras de Ambrósio, Agostinho, pela primeira vez, encontrou o espiritualismo que se levanta contra a letra. Nesse momento, tem início um progresso modesto que se multiplicará posteriormente. Gilson salienta que não se deve desconsiderar que Agostinho era cristão e que sua conversão não se deu, repentinamente, de forma perfeita e acabada. Sua adesão à doutrina cristã foi um movimento contínuo que se iniciou com a leitura de Hortênsios, prolongando-se com a descoberta do sentido espiritual das escrituras (GILSON, 2006).

O bispo de Hipona informa que fez leituras de Platão, citando-o em muitas de suas obras - lembrando que no curso de Cartago fez a leitura de filósofos gregos e latinos. Nas Confissões Agostinho faz menção às obras platônicas sem especificar quais seriam essas. Na Vida Feliz também encontramos essa referência da leitura de Agostinho: “Li entrementes algumas poucas obras de Platão, pelo qual tu te sentes fortemente atraído [...]” (AGOSTINHO, 1998, p. 121). Aqui também não indica a qual livro se refere, contudo foram leituras que o auxiliaram a encontrar o espiritualismo filosófico, reconhecendo, mais tarde, que a fé provém da humildade e a humildade não se aprende em livros de filósofos.

Depois de ter lido os livros dos platônicos, que me estimularam a procurar a verdade incorpórea, aprendi a descobrir teus atributos invisíveis através das coisas criadas, e compreendi, à custa de derrotas, qual a verdade que eu, imerso nas trevas, não tinha conseguido contemplar (AGOSTINHO, 1997, p. 199).

No excerto, encontramos indicativos de que estava se apropriando de uma nova forma de conceber o mundo para além das coisas visíveis e corpóreas. É por meio das leituras de Plotino que Agostinho se tornou capaz de conceber a espiritualidade de Deus e a irrealidade do mal. Com o platonismo, ele encontrou outro modo de recuperar a razão e explicar o mal. Nesse sentido encontrou nos neoplatônicos o que procurava: convencer-se da existência de uma realidade supra-sensível (BOEHNER; GILSON, 2003). Agostinho precisava superar o materialismo filosófico que era próprio da seita dos maniqueus, e sua emancipação espiritual se deu a partir do contato com os neoplatônicos e com o bispo de Milão - Ambrósio.

A leitura das epístolas de São Paulo, que apresentam um Deus de beleza e bondade infinita, também foi importante para Agostinho, pois permitiu descobrir que todas as verdades encontradas nos livros platônicos poderiam ser encontradas nas epístolas de São Paulo com a segurança da graça de Deus (COSTA, 2014).

Nos livros platônicos, de acordo com Agostinho não havia a imagem de um amor tão grande, as lágrimas da confissão e o sacrifício. No prólogo do Evangelho de São João, reencontrava tudo em Plotino, menos o essencial, que era que o Verbo se faz carne e mora entre nós. A leitura dos neoplatônicos, segundo Agostinho, pode ter ajudado a conhecer a verdade, mas não concede um meio para alcançá-la: “[...] o cristianismo de São Paulo é a possibilidade de fazer o platonismo passar da mente para dentro do coração e da teoria à prática” (GILSON, 2006, p. 447).

O Apóstolo Paulo, quando se dirige aos Coríntios, convida-os a aspirar aos dons mais altos, ou seja, o amor fraterno:

1.Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. 2.Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. 3.Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria! 4.A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. 5.Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. 6.Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. 7.Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8.A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. 9.A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. 10.Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. 11.Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. 12.Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. 13.Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade (BÍBLIA, 2002, p. 2009-2010).

Em vista do bem comum, os homens são convidados a exercitarem a caridade, sendo esse um amor de dileção que quer o bem do próximo. Sua fonte está em Deus, que nos amou primeiro (I João 4, 19) e entregou seu filho para reconciliar os pecadores (João 3, 16). Nesses escritos, Agostinho - já em uma fase mais madura e na condição de pastor - encontrou a grandeza do amor de Deus e lançou um projeto de formação humana pautado em princípios cristãos, no qual o amor, a caridade e a doação ao próximo são elementos necessários para a constituição de uma sociedade harmoniosa que, em certa medida, são expressões da vontade humana impulsionadas pela liberdade de cada um. As ações humanas devem convergir ao bem comum, sendo o bem social a lei suprema.

Agostinho reconheceu que: “[...] pesquisava mal a origem do mal, e não enxergava o mal que havia na própria busca [...]” (AGOSTINHO, 1997, p. 178). É preciso observar que foi por investigar o entendimento do mal que Agostinho se envolveu com a doutrina maniquéia e, por não encontrar nela as respostas que buscava, acabou por se decepcionar e a abandona. Agostinho passou então a investigar de forma permanente esse problema: “Mas então onde está o mal, de onde veio e como conseguiu penetrar? Qual a sua raiz, qual a sua semente? [...] Mas de onde vem o mal, se Deus é bom e faz boas todas as criaturas?” (AGOSTINHO, 1997, p. 179).

Como o maniqueísmo considerava que o corpo era naturalmente mau, no platonismo o mal deveria ser investigado na vontade humana. O maniqueísmo, para explicar a origem do universo, criou um sistema dualista no qual há dois princípios ontológicos que originam do cosmo: a luz, simbolizando o bem, e as trevas ou a matéria, simbolizando o mal. A luta entre esses dois reinos daria origem aos diversos seres do universo, sendo a matéria a responsável pelos males no mundo.

Desse modo, a explicação da origem do mal no homem ocorreria por ser o homem uma mescla de corpo e alma, ou seja, uma mistura do bem e mal. Como no universo a matéria é responsável pelos males físicos, no homem o corpo é a causa dos males, inclusive os morais. Agostinho, porém, não aderiu a essa explicação para a essência do mal, e sua desconfiança sobre essa questão aumenta quando tem contato com as leituras gregas (artes liberais) (COSTA, 2014). Sobre a vontade humana, o próprio Agostinho desenvolveu uma ideia a partir de sua interpretação. Com as leituras de Plotino, o tagastense aprofundou a ideia de que o mal não é um ser, mas deficiência e privação do ser. O autor examinou o mal em três níveis: metafísico-ontológico, moral e físico.

No primeiro nível explicou que não há mal no cosmos, mas graus inferiores de ser; no segundo nível o mal moral é o pecado, que depende da nossa má vontade. O mal é o uso inadequado da vontade livre, ou seja, do livre arbítrio que o homem recebeu de Deus; no terceiro nível o mal físico (doença, sofrimento e a morte) é a consequência do pecado original. Assim, o pecado é atribuído à própria vontade do homem (AGOSTINHO, 1995).

Deus, sendo por essência o bem, não poderia criar algo que não fosse bom. Para Agostinho, todo bem vem de Deus e como a natureza é criação divina, ela, em si, é um bem. Portanto, como o homem também é criatura de Deus, é a boa vontade que o faz viver com retidão e honestidade, estimulando-o a alcançar o cume da sabedoria, pois, como os seres humanos possuem o livre arbítrio, o bem ou o mal derivam de suas próprias escolhas e ações.

O bispo de Milão (340/397 d. C.), como já mencionamos, um dos intelectuais mais influentes do cristianismo no período, contribuiu para que Agostinho, aos poucos, compreendesse a doutrina cristã, passando a argumentar sobre a falsidade dos maniqueus. Agostinho começou a estimar Ambrósio, a princípio não como mestre da verdade, pois não tinha esperança de encontrá-la na Igreja, mas por ele ter sido bondoso e por ter acolhido fraternalmente o tagastense quando chegou a Milão. Inicialmente Agostinho impressionou-se com Ambrósio, pois ele era capaz de defender o Velho Testamento das críticas dos maniqueus. Com o tempo, percebeu, em seus sermões, que quando se tratava de Deus, os pensamentos não deviam se deter em nenhuma realidade material. O tempo do bispo de Milão se dividia em dar conselhos àqueles que lhe procuravam e alimentar sua alma com leituras: “[...] a mente penetrava o significado, enquanto a voz e a boca se calavam” (AGOSTINHO, 1997, p. 146). Agostinho acompanhava as pregações do bispo de Milão, e de acordo com Brown (2020, p. 101): “Ambrósio, portanto, apresentou Agostinho a algumas idéias totalmente novas”.

Na vivência de Agostinho é possível perceber o movimento pelo qual ele buscou a verdade e qual a sua natureza. Ele procurou a verdade na leitura de filósofos, na inclusão da seita dos maniqueus, no ceticismo, em correntes filosóficas e nas sagradas escrituras, porém foi sob a influência de Ambrósio que Agostinho evoluiu nas ideias sobre o espírito e a matéria, auxiliando-o a abandonar de vez a seita dos maniqueus e a entrar como catecúmeno na Igreja.

2 A verdade que transcende a vida terrena

Após Agostinho percorrer um longo caminho em busca da verdade de forma ininterrupta, sua trajetória intelectual e geográfica o fez ser reconhecido como um filósofo cristão, o qual procurou conduzir os homens de um mundo precário a um mundo perfeito, sendo a sabedoria e Deus os guias nessa caminhada (NOVAES, 2002).

Nessa peregrinação terrestre, ele percebeu e propôs a necessidade de superar um caminho pautado na materialidade, e não tendo encontrado respostas na vida exterior, voltou-se para o interior após uma mudança paulatina de pensamento e de hábitos. Em um estágio mais maduro de sua vida, o tagastense chama a atenção da necessidade de o homem se recolher em sua interioridade. Ele considera que, em muitos casos, o homem se torna um mistério a si mesmo pelo fato de não se voltar ao seu interior: “[...] Os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes dos rios, o oceano, o movimento dos astros, e deixam de lado a si mesmos [...]” (AGOSTINHO, 1997, p. 280). Agostinho reconheceu que estava preso, num primeiro momento, à exterioridade, buscando a vida feliz e a verdade no mundo exterior. A partir de uma vivência voltada à exterioridade, expressou um conflito que decorria de seus hábitos e que, apartar-se deles, exigiria um esforço pessoal. Somente quando se voltou a si, percebeu que Deus habitava dentro dele, no entanto O procurava do lado de fora.

Face às várias questões que Agostinho traz à tona para reflexão, a preocupação com o encontro da verdade é algo que fica manifesto: “Verdade, Verdade! Já então, suspirava por ti do mais íntimo do meu ser [...]” (AGOSTINHO, 1997, p. 72). Essa expressão evidencia o desejo de Agostinho que vinha do seu interior, reconhecendo, posteriormente, que o conhecimento da verdade poderia ser obtido por meio de um processo de autorreflexão da interioridade humana e do conhecimento de Deus, e que somente em Deus é possível encontrar a verdade que não é transitória.

A partir de um percurso filosófico e de uma gradual descoberta de Deus em sua vida, é que Agostinho passou a dar ênfase na reflexão sobre o mundo interior como parte integrante da essência do ser humano. Em um grau de maturidade intelectual, ele reconhece Deus como a própria verdade e deseja praticá-la no íntimo do seu coração: “[…] Tu, a verdade, reinas em toda parte sobre aqueles que te consultam […]” (AGOSTINHO, 1997, p. 299).

Nesse itinerário é possível identificar os pensamentos e ações de um jovem que vivia, em um primeiro momento, para satisfação de prazeres imediatos e de um homem maduro que almejava chegar à felicidade e à verdade eterna. Nesse processo, Agostinho observou a importância do homem conhecer a si mesmo e sua origem. Em determinada ocasião de sua vida travou uma luta consigo mesmo, pois teve que optar por continuar vivendo aquilo que, mais tarde, iria considerar como passageiro e passar a viver o que o levaria à eternidade. Assim, por meio de um processo, Agostinho passou da vivência das paixões à contemplação e defesa daquilo que lhe traria o encontro da verdade e da felicidade: O Sumo Bem.

A partir dessa descoberta, a busca da verdade não se dará mais a partir do mundo exterior, mas a partir do interior. Assim, para Agostinho “[…] verdade (Deus), é ao mesmo tempo, interior, por estar presente na nossa mente (na alma), e transcendente, por ser universal, pois está presente em todos os homens e não pertence a nenhum em particular” (COSTA, 2000, p. 53). Nesse processo de interiorização, passou a contemplar a Verdade a partir dos olhos da alma e não com os olhos do corpo.

[…] não era estável no gozo do meu Deus. Atraído por tua beleza, era logo afastado de ti por meu próprio peso, que me fazia precipitar gemendo por terra. Esse peso eram os meus hábitos carnais; mas a tua lembrança me acompanhava, e eu já não duvidava absolutamente da existência de um ser a quem devia estar unido, se bem que ainda não fosse capaz disso, porque “o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados” (AGOSTINHO, 1997, p. 195).

Agostinho não desprezava a vida terrena, mas a concebia como uma trajetória a ser percorrida rumo à vida celeste; ele reconhecia que Deus estava com ele em toda sua vida, habitando dentro dele, mas ele não estava com Deus, pois o procurava do lado de fora, ou seja, na vida exterior (COSTA, 2000). Ao superar o estado de vida pautado na exterioridade, o homem unido à Verdade é um homem espiritual ao passar pelo processo de desapego das criaturas sensíveis, temporais e mutáveis. A natureza de Deus é reconhecida como suprema verdade e infinita sabedoria.

A busca da verdadeira felicidade, da verdade e da sabedoria foi despertada em Agostinho a partir do contato com textos de filósofos antigos. A importância do tema da felicidade foi discutida por vários filósofos da Antiguidade que se dedicavam à filosofia como caminho que conduz à felicidade. Essa questão se apresentava como um tema importante para Agostinho, tanto que ele a discutiu em diversas obras, com destaque para o De Beata Vita (Sobre a vida feliz).

Após passar pelo processo de conversão, o autor considera a felicidade como a posse do Sumo Bem e não mais a filosofia como porto da felicidade. No entanto como poderia o homem se apossar de Deus e viver a partir do bem supremo? Na Cidade de Deus, o bispo de Hipona observa que essa vivência ocorre conforme a virtude daqueles que querem imitar Deus. Dessa forma, a verdadeira felicidade não se encontra nas coisas terrenas, mas nas eternas, ou seja, em Deus: “[...] que feliz não é o homem que goza do seu corpo, que feliz não é o que goza da sua alma, mas feliz é o que goza de Deus” (AGOSTINHO, 1996, p. 724). Ao aderir ao Sumo Bem (Deus) por meio da sua vontade, o homem possui a vida feliz. Essa adesão faz com que o espírito sinta felicidade, e esse é um dos primeiros objetivos dos homens.

A felicidade, como um desejo a ser alcançado por todos os homens, não estaria na posse do prazer, da honra, da riqueza e da glória como é para alguns, mas, na perspectiva agostiniana, estaria no perfeito conhecimento de Deus que se constitui como o Bem absoluto e perfeito. A posse de Deus se constitui assim como condição da felicidade. Contudo como possuir a Deus e, consequentemente, a felicidade? Essa é uma discussão presente no festim do aniversário de Agostinho e sobre ela três opiniões foram emitidas: “[...] possui a Deus quem faz o que Deus quer. [...] possui quem vive bem. [...] Deus estar presente naqueles em que não reside o espírito denominado impuro” (AGOSTINHO, 1998, p. 137). O homem que age com moderação e temperança se torna feliz, pois vive conforme os preceitos de Deus e adquire bens permanentes; para Agostinho, o homem não pode conservar para sempre aquilo que é perecível e passageiro, e somente em Deus se encontra o que é imutável e eterno.

A partir dessa integrada ligação filosófica e religiosa é que Agostinho apresentou para sua comunidade de fé ensinamentos a serem seguidos. Em meio a tarefas pastorais e como administrador da Igreja local, o bispo de Hipona se dedicava às pregações (homilias) àqueles que estavam confiados ao seu encargo pastoral. Por meio de diálogo permanente, ele buscava instruir, elucidar, conduzir e consolar os seus. Ao catequizar, batizar e prestar direção espiritual almejava levar a fé à alma de todos. Nesse processo de formação cristã, aconselhava - à luz da Palavra - que os homens deveriam agir com moderação, com continência, com paciência e com virtude (AGOSTINHO, 1996).

O cenário social vivido por Agostinho e demais cristãos era marcado por violências, ameaças e intolerância religiosa, o que de certa forma exigia que houvesse uma sólida vivência na fé a fim de que, mesmo em meio às tribulações, não traíssem os preceitos cristãos. A partir dessas orientações formativas a um povo que estava vivendo uma crise, o bispo de Hipona buscava consolidar uma experiência pautada na caridade, na concórdia e na justiça. Para ele, o homem que segue a Verdade usará sua vontade livre para a prática do bem e não do mal. Nessa perspectiva, e em defesa desse projeto, é que Agostinho apresentava para sua comunidade de fé os caminhos para se alcançar essa Verdade e, consequentemente, a felicidade - ambas não mutáveis, mas perenes.

3 O livre arbítrio da vontade

A vida de Agostinho foi marcada por muitas questões para as quais ele próprio buscou respostas. Suas inquietações tiveram início na adolescência e perduraram até o fim de sua vida. Diante do contexto social e religioso em que viveu, foi apresentando projetos formativos que visavam à educação moral e religiosa daqueles que o cercavam; essa proposta atraiu admiradores, seguidores e críticos. Após sua conversão, e já na condição de bispo, passou a nutrir a necessidade de tratar de assuntos relevantes ao período vivido, e cada obra que produziu possuía a intencionalidade de abordar e dar orientações sobre os problemas que suscitavam.

Nos três primeiros séculos - até a época de Agostinho - Tagaste demonstrava prosperidade:

[...] era marcada pelo êxito comercial, agricultura e a grande produção de azeite que alimentava o mercado da luz, ou seja, a iluminação artificial promovida através das antigas lamparinas. [...] já no quarto século a crise chegou e transformou Tagaste em uma cidade sem prosperidade (OLIVEIRA, 2018, p. 20).

Agostinho, que viveu entre a segunda metade do século IV e primeira metade do século V, presenciou muitos conflitos, guerras e invasões seguidas de destruições. Assim, testemunhou acontecimentos decisivos da história como a ruína do Império Romano, a invasão de Roma pelos visigodos, dentre outros acontecimentos. “No século IV, a expansão original chegara a uma estagnação sinistra. Os projetos de construção haviam cessado, os velhos monumentos públicos começavam a ruir [...]” (BROWN, 2020, p. 23).

Então qual seria a explicação para a existência de atos destrutivos entre os homens considerando, na perspectiva agostiniana, que Deus é o autor de tudo o que existe? Seria Deus o autor do mal? Sobre essas questões o bispo de Hipona revela que a prova da existência de Deus desponta como fonte de todo bem e, consequentemente, Ele não é autor do mal. Ao homem foi concedido o livre-arbítrio da vontade, o que para Agostinho se configurava como um dom dado por Deus; para ele, é por meio da vontade livre que o homem poderia viver retamente. Entretanto, se o homem fizer uso da livre vontade para praticar o mal estaria sendo injusto, pois não estaria usando essa liberdade para o bem. Quando há o reconhecimento de que Deus concedeu ao homem a vontade livre, consequentemente, reconhece-se que é um bem e deveria ser usado para a prática do bem, porém alguns homens fazem o mau uso desse bem.

É na obra De Libero Arbítrio que a ideia do problema do livre-arbítrio e da origem do mal moral se encontram. Nesse tratado Agostinho refuta os maniqueus e seus erros, que negavam o livre-arbítrio da vontade humana, fazendo recair em Deus a responsabilidade pelo mal e pelo pecado. Enquanto os maniqueus retiravam da pessoa a liberdade e a responsabilidade pelo mal que praticavam, Agostinho o atribuía à má vontade. As questões de vontade e liberdade estiveram em permanente elaboração até a idade mais avançada de Agostinho, pois estavam ligadas diretamente à prática do mal, sendo que sua origem está no livre-arbítrio da vontade humana: “[...] depende de nossa vontade gozarmos ou sermos privado de tão grande e verdadeiro bem. Com efeito, haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a própria vontade?” (AGOSTINHO, 1995, p. 56-57). A partir da perspectiva de Agostinho é pela vontade que se vive retamente ou não.

Considerando esses dois aspectos abordados por Agostinho - vontade e liberdade - “[...] é necessário que o homem seja educado de modo a não se perverter em más ações, mas que tenha condições de aspirar aos bens superiores” (COSTA; CENCI, 2021, p. 4). Aqui torna-se importante a formação do homem com o olhar voltado para sua interioridade e entendimento acerca de si mesmo.

É própria do homem a vontade de escolher o que vai optar para si, e esta escolha está vinculada à vontade e liberdade. Sobre essa questão Agostinho afirma: “[...] o mal não poderia ser cometido sem ter algum autor. [...] Pois cada pessoa ao cometê-lo é o autor de sua má ação. [...] Ora, elas não seriam punidas com justiça, se não tivessem sido praticadas de modo voluntário” (AGOSTINHO, 1995, p. 25-26). Em vista dessa ideia e de que tudo que Deus criou é bom, Agostinho não atribui a Deus a causa do mal; a Deus é atribuída a graça de auxiliar o homem a se libertar do pecado: “[...] É porque, do céu, Deus nos estende sua mão direita, isto é, nosso Senhor Jesus Cristo. Peguemos sua mão, com fé firme, esperemos sua ajuda com esperança confiante e desejemo-la com ardente caridade” (AGOSTINHO, 1995, p. 145). O homem que cai não pode igualmente se reerguer por si mesmo tão espontaneamente. Agostinho defende a ideia de que o homem precisa da graça de Deus para se fortalecer e se livrar do pecado que se constitui como o mal moral1.

Considerações finais

Agostinho, reconhecido como um dos maiores filósofos e teólogos da Igreja cristã e um dos mais influentes intelectuais na história da civilização ocidental, fez uso do conhecimento produzido pelos pensadores gregos e latinos para elaborar seu próprio pensamento. Vimos que as autoridades que mais influenciaram suas reflexões foram os neoplatônicos, as sagradas escrituras, o bispo Ambrósio e os escritos do apóstolo Paulo.

Uma preocupação apontada por Agostinho no percurso de sua vida teve por base a busca da verdade. Almejando encontrá-la, seguiu doutrinas que apareceram no decorrer da sua vida - como o maniqueísmo. Contudo, não satisfeito com a explicação dada a questões essenciais que considerava essenciais - a essência de Deus e a origem do mal -, ele continuou sua busca.

A partir do seu processo de conversão ao cristianismo e de seu amadurecimento intelectual, juntamente com as contribuições de obras e de homens que também buscavam essas reflexões, ele começou a estabelecer suas próprias conclusões acerca das questões que marcaram seu esforço em conhecer a verdade e contribuir com a doutrina cristã - posteriormente defendida por Agostinho.

Ao descrever sua trajetória, Agostinho mostra como estava preso, num primeiro momento, à exterioridade, voltado para fora de si, buscando a verdade no exterior. A partir de um longo processo que passou a contemplar a verdade e reconhecer Deus como a Verdade que tanto almejava, os escritos do bispo de Hipona, foram marcados por essas questões em que passa a contemplá-la a partir do seu amor verdadeiro pela sabedoria (aspecto filosófico) e seu encontro com a pessoa de Cristo (aspecto teológico).

Ao tratar da doutrina cristã (no início do seu episcopado) propôs conteúdos, métodos e um conjunto de regras que ajudavam os homens de seu tempo - e de tempos posteriores - a viver os ensinamentos deixados por Cristo. Nesse sentido, buscou consolidar a fé cristã. A atenção de Agostinho estava voltada aos homens e à sua formação moral cristã, visando ao bem comum. Como filósofo, trouxe à tona a reflexão de assuntos que inquietavam os homens e, enquanto teólogo propôs um projeto de formação cristã que perpassou por diferentes campos da sociedade: educacional, político e religioso. Suas obras expressam essa preocupação formativa que o contexto social exigia no momento. Durante seu percurso filosófico e teológico, Agostinho concluiu que as ações humanas decorrem da vontade, mas que, por uma questão de liberdade, algumas se voltam ao bem comum e outras, ao privado. A vida de Agostinho é a expressão do uso da vontade: em alguns momentos para a prática de vícios (jovem), em outros para a prática das virtudes (adulto).

É a partir da vontade livre que muitos homens buscam cotidianamente a felicidade em diferentes lugares; essa busca é uma necessidade natural que move toda atividade de natureza humana. Levar uma vida feliz ou infeliz, por exemplo, depende da boa vontade de cada um. O homem é livre para fazer o bem e não é forçado a cometer o mal por nenhuma necessidade. Nessa perspectiva, o bispo de Hipona insistiu fortemente na bondade essencial e infinita de Deus e se mostrou defensor da liberdade humana e da graça divina. Para ele, com a intervenção divina, ou seja, a partir da graça de Deus, o homem poderia superar seu estado de pecado, que decorre do mal moral. Essa posição defendida por Agostinho foi refutada por outras religiões ao defender que o homem por si só o supera.

Alguns homens podem dizer que são felizes ao abraçarem corpos e objetos de seus ardentes desejos, ou ainda, sedentos, diante de uma fonte, saciam a sede, ou quando famintos saciam a fome com uma abundante refeição. No entanto, outros diriam, e assim afirmava Agostinho, que o encontro com a Verdade é que torna o homem feliz. É por meio da verdade que se possui o Bem supremo, e essa Verdade se constitui na sabedoria que vem de Deus, assim é feliz aquele que desfruta do sumo Bem. Essa verdade contém em si todos os bens verdadeiros, e os homens, conforme seu grau de inteligência, escolhem para si um só ou diversos bens para seu gozo. O ato de buscar as verdades que podem conduzir ao encontro da felicidade se encontra na vontade livre que cada homem possui. Agostinho dizia que há duas classes de homens: uns seguindo e amando as coisas eternas e outros, as coisas temporais.

O livre arbítrio é visto por Agostinho como um bem em si mesmo, porém não é o bem mais perfeito, considerando que existiriam bens inferiores, médios e grandes. Há objeções sobre essa questão, pois alguns acreditam que o livre-arbítrio da vontade não deveria ser dado ao homem, visto que eles se servem dele para pecar. O bispo, entretanto, concebe essa vontade livre entre os bens recebidos de Deus, e que, ainda que o homem possa usar mal a liberdade, a sua vontade livre deve ser considerada um bem. Independente do grau de bem, todos devem ser glorificados, pois é melhor do que se eles não tivessem sido concebidos à humanidade.

Agostinho não tinha clareza da causa do mal, por isso buscava essa compreensão. Após algum tempo de busca, o mestre de Hipona chegou à conclusão de que no universo, criado e governado por Deus, não há espaço para o mal físico. O mal, por seu turno, não pode ser definido como uma substância, pois toda a natureza é um bem. Nesse sentido, o mal se caracteriza pela ausência do que deveria ser, ou seja, o mal não é. O mal se constitui como o mau uso da vontade livre do homem.

Assim, para a efetivação de um projeto de formação cristã, a busca pela verdade é um elemento da ação humana pautada nos princípios do livre-arbítrio que, essencialmente, é um bem; por sua vez, esse ato de liberdade é uma propriedade da vontade humana que pode se voltar para o bem ou para mal.

A partir da insuficiência humana é que Agostinho reconhece o próprio Deus como Verdade imutável que ele, em um primeiro momento, procura no mundo exterior e não O encontra; posteriormente entende que Deus e, consequentemente, a felicidade - que não é passageira -, habita no interior do próprio homem. O homem sendo livre e, por meio da sua vontade, escolhe os bens temporais ou eternos e, de acordo com suas escolhas, pode contribuir com a edificação de uma cidade celeste mesmo vivendo na cidade terrena.

Referências

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1 Esse posicionamento de Agostinho despertou, posteriormente, entre os pelagianos a defesa de teses contrárias, em que defendiam que: “[...] o homem, mesmo depois da queda, pode não pecar, assim como poder pecar, ou basta querer que pode, de forma que o pecado original em nada afetou a sua liberdade, bem como não há necessidade da graça divina para querer e poder o bem” (COSTA, 2019, p. 123).

Recebido: 28 de Novembro de 2022; Aceito: 18 de Outubro de 2023; Publicado: 31 de Dezembro de 2023

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