Introdução
Este texto é resultado de uma pesquisa bibliográfica sobre o impacto da sociedade multitela, fruto do vertiginoso desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, e os processos de semiformação que nela são gestados. É perceptível a perda da qualidade das experiências humanas em meio a este desenvolvimento tecnológico. Estariam as novas tecnologias empobrecendo o ser humano e desdobrando um cenário de semiformação? Para isso, é indispensável refletir sobre a formação humana à luz dos avanços tecnológicos em nossos dias.
O substrato teórico desse texto é refletir, urdidos pelos fundamentos da Teoria Crítica da Sociedade, acerca da semiformação (Halbbildung) na “sociedade multitela”, mediada pelas novas tecnologias. De modo particular, analisar o processo formativo nesse cenário marcado pela massificação da técnica e pela redução da capacidade de pensar e agir criticamente, num processo de banalização do sentido da vida. O desafio de grande monta que se apresenta é refrear este processo por meio do “esclarecimento” e do desenvolvimento da capacidade crítico-reflexiva e ética do ser humano.
Norteia a nossa pesquisa a visão crítica de Adorno e Horkheimer (1985, p. 8), que pontuam as questões da regressão, da barbárie e do ofuscamento, projetando-os sobre a atual “sociedade multitela” em seu desenvolvimento tecnológico, sua instrumentalização da razão e consequente processo de formação ou semiformação. Esta visão crítica ganha especial contundência quando lemos no prefácio de A dialética do Esclarecimento a seguinte afirmação: “O que nos propusemos era de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando numa nova espécie de barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 8).
A metodologia de cunho bibliográfico preocupa-se em refletir, à luz dos pensadores da chamada primeira geração da Escola de Frankfurt - M. Horkheimer, T. W. Adorno - e de leituras complementares, sobre as novas tecnologias desta “sociedade multitela”, que induz a inusitados padrões de comportamento e de sociabilidade que demandam a atividade da razão instrumental e a semiformação. Os caminhos apontam para uma possível saída, que é agarrar-se com firmeza à formação, mesmo depois que a sociedade já privou de sua base em conformidade com a razão instrumental. Contudo, a única possibilidade de sobrevivência que resta à cultura (Bildung) é a autorreflexão crítica sobre a semiformação, em que se converteu a sociedade multitela1.
Um cenário de contradições
As novas tecnologias na sociedade trazem uma nova maneira de pensar o mundo e, consequentemente, o próprio processo formativo, fruto do desenvolvimento da razão instrumental de nossos dias. A ágora tecnológica tem sido apresentada como o “novo” modelo de sociedade que foi entrando em todos os ambientes. Muda a perspectiva de vida social e de trabalho. Os profissionais de diversas instâncias sentem a necessidade de repensar os métodos, as técnicas e as habilidades. Os cidadãos em geral se deparam com inusitados padrões de comportamento e de sociabilidade, influenciados pelas tecnologias, administrando seus gostos, suas atitudes, bem como o seu imaginário.
Essa transformação em curso, sob a pressão das mídias, faz parte da “sociedade multitela”, que, conforme Rivoltella2 (apud FANTIN; GIRARDELLO, 2012, p. 41), nos permite identificar três características dessa sociedade, tais como: a multiplicação dos espaços do ver, sobretudo com a tela do computador e portáteis em geral, além das já clássicas telas do cinema e da televisão. Convivemos com uma multiplicidade de telas em espaços públicos, como aeroportos, estações e shoppings. Nos acompanham as telas dos DVDs portáteis, dos palmtops e telefones móveis de quarta e quinta geração. Estamos modificando a modalidade e o significado do olhar, que vêm sendo reconfigurados rápida e profundamente com as novas tecnologias. Vivemos em meio a um mosaico de estímulos visuais móveis e descontextualizados, ao vagar de tela em tela, de forma intermitente e interativa.
Os processos de formação mediados pelas novas tecnologias estabelecem as instâncias de compreensão formativas que, de modo acelerado, vêm se convertendo em verdadeiros apêndices da indústria cultural. Há uma progressiva deterioração na formação dos indivíduos e no crescente despreparo dos professores que se tornam cada vez mais baldios, acentuando a semiformação e propagando a massificação do conhecimento e do saber, principalmente com o aumento da dominação técnica que danifica a possibilidade do desenvolvimento da autonomia e da existência de subjetividades. Adorno e Horkheimer (1985, p. 114) afirmam que essa sociedade é basicamente o terreno no qual a técnica conquista seu poder, ou seja, “a racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação”.
Os processos de formação em geral e dos professores em particular estão envolvidos por práticas culturais mediadas pelas novas tecnologias da informação, que vêm se constituindo com “poder” e sendo “aceitos sem resistência” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 114). Práticas que, de forma alucinante e espetaculosa, produzem novas rotinas, novas formas de interação, novas linguagens e, também, configuram novas modalidades de compreensão e de representação dos significados sociais; necessitam, desse modo, de uma crítica acerca da formação cultural (Bildung) que, de certa maneira, tem se conformado ao capitalismo tardio e ao progresso técnico, comandados pela racionalidade tecnológica e instrumentalização da razão.
E meio a esta formação cultural (Bildung) apresenta-se o desafio de formular na prática e na teoria uma educação crítica do indivíduo enquanto processo emancipador, desenvolvendo sua capacidade de captar as contradições e de resistir. Entretanto, neste contexto capitalista e tecnicamente avançado, essa educação crítica se encontra travada pelo desenvolvimento da adaptação e coisificação. É o fenômeno que Adorno (2003) denomina de semiformação (Halbbildung).
A rede informatizada, com suas informações rápidas, embaladas pelas novas tecnologias, apresenta-se como uma nova modalidade de potencialização de conhecimentos que abre perspectivas em termos de pesquisas e interações. Porém, exige um envolvimento de todos os atores a serem beneficiados, desde as crianças da mais tenra idade ao adulto de maior experiência. Há, de certa forma, uma dinamicidade com que ocorrem os avanços tecnológicos e tem em vista o acesso precoce das novas gerações a essa tecnologia marcada pelos computadores, celulares, tablets, notebook etc., necessitando de metodologias e estratégias conscientemente planejadas a fim de contribuir em favor da formação para a humanização e não a mera adaptação dos sujeitos.
Perguntamo-nos sobre o crescimento e o desenvolvimento técnico, de um lado, e a capacidade humana de “raciocinar”, de outro lado. As formas tecnológicas de comunicação, por exemplo, interferem no processo de cognição, sendo capazes, com a mediação tecnológica entre pessoas, culturas e civilizações, de gerar sociabilidades menos solidárias e mentalidades adaptadas. A informação estaria sendo administrada em vista de sua dimensão funcional. Do período da descoberta do fogo até a atualidade, a tecnologia tem seu poderio de destaque nesse processo de mudança e desenvolvimento, caminhando no sentido de que “a maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 11).
Tecnologia, razão instrumental e semiformação
A partir dos anos 1970, o mundo passou a ser atingido por ondas revolucionárias e tecnológicas que modificaram fortemente nossas relações com as coisas, com as pessoas. Desse período em diante, o desenvolvimento tecnológico vem encontrando seu ápice na montagem do progresso técnico, envolvendo o fenômeno da globalização que tem tomado amplas proporções, principalmente no que se refere à rapidez e agilidade na troca de informações e de bens e serviços; ampliaram-se as redes sociais, alimentadas por grandes navegadores de internet com uso de computadores de mais alta tecnologia. Isso provocou impactos diretos na vida social dos indivíduos e, consequentemente, na própria formação cultural desses. (ADORNO, 2003).
Nessa sociedade tecnificada, o palco preferencial está na relação homem-máquina, que acompanha a geração de um mundo artificial, em que o usuário pode habitar, interagir, amar, sofrer, gozar e até pensar num mundo alternativo. Pucci (2009, p. 73) afirma que, “para muitos, a realidade virtual vai se tornando a sua realidade do dia a dia”.
O uso dos recursos tecnológicos, como o uso do computador, vem atuando no sentido de uma aparente melhoria na qualidade da vida humana, principalmente pela rapidez na obtenção da informação e por ser algo atraente e diferente para os indivíduos de todas as idades. É possível ver uma criança de menos de dois anos “conectada” a um computador ou celular por longo período.
A tecnologia da informatização tem tantas possibilidades, que, hoje, a realização de cursos virtuais através do sistema global de redes de computadores interligadas, ou seja, a internet, já é uma realidade. Trata-se de um grande recurso de que a sociedade moderna passa a dispor e que auxilia na resolução de problemas sociais e educacionais os mais variados possíveis. Sabe-se que a informática se encontra presente em todos os lugares e setores da sociedade, de casa aos locais de trabalho, perpassando as múltiplas formas de lazer etc. Por isso, é quase improvável que não se tenha, em nossos dias, utilizado algum recurso tecnológico; até os celulares contam com um sofisticado aparato de recursos que vai sendo atualizado paulatinamente.
A internet, enquanto tecnologia, apresenta o computador como instrumento principal. Trata-se de uma ferramenta primordial, que tem recebido uma atenção maior de cientistas e pesquisadores nas mais diferentes áreas do conhecimento. Por essas lentes, Prado (1999, p. 99) afirma que “o aprendizado de um novo referencial educacional envolve mudanças de valores, concepções, ideias e, consequentemente, de atitudes".
Nesse sentido, a ordem valorativa de inserção no contexto atual consiste num indivíduo determinado pelo domínio da tecnologia, sinônimo esse de refinamento intelectual e de competência para o trabalho. A própria autonomização das tecnologias e a fetichização de seu uso, com as vantagens associadas à velocidade, a produtividade, faz com que o “progresso técnico” seja justificado mesmo quando os resultados caminham para a regressão e irracionalidade, uma vez que, “obstinadamente, insistem na ideologia que as escraviza” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 125).
É mediante essas afirmativas que direcionamos nosso olhar para a tela tecnológica atual. De fato, identificamos a constituição de um pensamento direcionado ao progresso, acreditando que esse novo tempo, que tem como pano de fundo as novas tecnologias, é o melhor momento da história e das relações humanas. Cultiva-se a crença, desmedida, de que nos encontramos num momento de maior conquista e de liberdade, quando, de fato, nunca fomos tão prisioneiros de nossas próprias conquistas, nunca estivemos tão debilitados frente à técnica como atualmente.
Pucci direciona-nos a pensar sobre a desumanização implantada pelo sistema capitalista regido pelas novas tecnologias quando afirma que “o homem de espírito é um espécime em extinção; em seu lugar viceja o homem pretensamente realista” (PUCCI, 2009, p. 70, grifos do autor). Acrescenta:
As imagens e formas culturais que a caracterizavam foram substituídas pelas imagens das artistas de cinema, e pelas canções de sucesso, que, com sua beleza produzida, suas letras e seus títulos padronizados, irradiavam um brilho calculado. As boas maneiras à mesa e no tratamento com o outro, a perda de tempo com a escolha de um presente para a pessoa amada, a lenta construção de experiências duradouras, a precisão escrupulosa na maneira de se expressar, a presença repentina do ato de aprender de cor e do testemunho da memória das coisas, são progressiva e definitivamente trocadas pelo tratamento direto, pela funcionalidade, pela precisão, pela rapidez, pela memória das máquinas (PUCCI, 2009, p. 70).
As novas tecnologias potencializam o atrofiamento da espontaneidade e a poda do espírito crítico. Para Adorno (2003, pp. 13-14), o momento da espontaneidade caracteriza a “formação enquanto algo distinto dos mecanismos de domínio social da natureza”, sendo que o atrofiamento é o contrário. O atrofiamento da espontaneidade e a poda do espírito crítico resultam, desse modo, na semiformação cultural: “A formação cultural agora se converte em uma semiformação socializada, na onipresença do espírito alienado, que, segundo sua gênese e seu sentido, não antecede à formação cultural, mas a sucede” (ADORNO apud PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA, 2010, p. 9).
Adorno (apud PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA, 2010) esclarece que os sintomas de colapso da formação cultural, que se fazem observar por toda a parte, não se esgotam com as insuficiências de um sistema tecnológico que cada vez mais aprisiona os indivíduos nas malhas da “ilusória” socialização. Não é diferente no processo formativo de professores que, iludidos pelas rápidas e etéreas informações, se deixam levar pelo dinâmico e atraente conhecimento tecnológico que, de certa forma, dilui os conflitos e a capacidade de pensar criticamente. Ora, as máquinas qualificam o indivíduo para se comportar em conformidade com os desejos da técnica, entretendo-os por horas à frente da tela ou do seu celular, o que não aconteceria numa reunião de amigos. A absorção de informações é direta, sem debates, sem partilha de conhecimentos, distanciando-se do espírito crítico contido nas relações humanas.
Há uma incongruência entre desenvolvimento tecnológico e emancipação humana, e, nesse sentido, Horkheimer (2002, p. 7) nos alerta:
Parece que, enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência, ao crescente mecanismo de manipulação das massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanhada de um processo de desumanização. Assim, o processo ameaça anular o que se supõe ser seu próprio objetivo: a ideia de homem.
A debilitação intelectual mediada pela tecnologia é tão notória que basta alguém de grande efervescência imagética pronunciar-se em redes sociais de comunicação para que seja disparada uma resposta de adoração e de endeusamento notório, com uso de símbolos e palavras de aprovação. Falatórios sem consistência teórica e envolvidos pela âncora nebulosa e inconsciente da semiformação são “aplaudidos” por um grupo de seguidores que discutem sobre tudo, mas que sabem muito pouco do que discutem. As imagens de poderio profissional e formativo esmagam a capacidade de refletir sobre as informações que são compartilhadas diariamente em redes sociais e de comunicação, inclusive por ditos professores e formadores de opinião.
Essas imagens de empoderamento docente, no caso, produzidas pelas tecnologias de informação, constroem significados e operam em um contexto no qual a diversidade de lutas sociais e modos de contestação ficam submersos. A manipulação apoia-se numa estratégia central de “fazer-se visto” numa sociedade instrumental que se apoia na superficialidade das coisas e das relações.
Diante de tamanha rede tecnológica da informação, vão se propagando tipos formativos que nada mais são do que mera repetição débil das coisas. Se visitarmos redes sociais de professores que se dizem intelectualmente formadores e pesquisadores, há a grande decepção do que se vê, ouve e lê no cenário da precária socialização em sintonia com o “brilho da falsa racionalidade vazia”. (ADORNO apud PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA, 2010, p. 12, grifo nosso).
No cenário da sociedade formalmente vazia, a desumanização é sentida e percebida, segundo Ramos-de-Oliveira (2003, p. 117), no “imenso processo de devolução edulcorada de corriqueiras e vazias opiniões generalizadas do senso comum” via redes tecnológicas de informação e comunicação. Sem deixar de citar os diversos profissionais educacionais, no caso, os professores, que até então mantinham uma história de vida humana e profissional ética respeitada, são agora meras presas da indústria cultural e tecnológica por “romper as barreiras da formação e serem tragados de imediato e reproduzidos em ritmo avassalador numa eterna igualdade tão bem denunciada pela Teoria Crítica” (RAMOS-DE-OLIVEIRA, 2003, p. 117).
Assim, professores debilitados em sua formação se deixam manipular por certa submissão tecnológica e mercadológica, com a publicidade de si próprios e do que produzem em um único fim banal, ou seja, fazem-se mercadoria com o apelo: “comprem-me”. Sobre isso, citamos a pressão para o crescimento da produtividade individual, padronizada, quantificada, como se estivéssemos numa competição de artigos científicos publicados em revistas qualificadas na grande arena da indústria mercadológica acadêmica:
Ganhar a vida é preencher o curriculum e, nestes termos, desaparecem as leituras repetidas, lentas e meditadas, assim como desaparecem os ócios criativos, durante os quais o cérebro reordena os materiais nele incorporados e procede as descobertas e invenções. Não é fascinante que cientistas geniais tivessem publicado menos artigos do que qualquer modesto professor dos nossos dias? (BERNARDO, 2014, p. 74).
Há, também, a reprodução e exposição de todos os seus “ofícios” de mestre em redes sociais (viagens, palestras, eventos etc.), divulgação de sua própria imagem com o rompimento da sua intimidade. Essa imagem e intimidade acabam sendo escancaradas pelas janelas, portas e portões que expõem a vida pessoal, bem como dos relacionamentos amorosos e familiares. Estamos diante da propagação débil da autoimagem perdida em vários selfies, por sua vez corrigidos por programas de imagem e fotografia que tiram a naturalidade e a própria essência humana desse indivíduo. Há, de certa forma, a redução da pessoa “ao estatuto de bagatela quando tudo o que pensa e faz fica exposto aos olhares alheios” (BERNARDO, 2014, p. 74).
As fronteiras protetoras do indivíduo são eliminadas porque ele expõe publicamente todos os seus gestos a todos os olhares: “Quem não chama a atenção constantemente para si, quem não causa uma sensação corre o risco de não ser percebido” (TÜRCKE, 2010, p. 37). A realização prática deste paradoxo é um dos maiores triunfos ideológicos e tecnológicos do capitalismo, que enceta uma época de incontestada dominação. O triunfo é tão completo que a exacerbação do eu e a liquidação da privacidade são deixadas ao encargo de cada pessoa. Ao mesmo tempo, destrói-se o social pela concentração no individual, diluindo-se as fronteiras do indivíduo pela supressão da privacidade. A esse paradoxo, denominamos futilidade.
Assim,
A indústria cultural, em sua dimensão mais ampla [...], perpetua essa situação, explorando-a, e assumindo-se como cultura em consonância com a integração, o que, se for mesmo essa, não será aquela. Seu espírito é a semicultura, a identificação. As grosseiras pilhérias sobre os novos ricos que confundem palavras estrangeiras perduram teimosamente, porque expressam um mecanismo que leva todos os que riem juntos a se iludirem de terem conseguido a identificação. Eis uma tentativa condenada ao fracasso (ADORNO apud PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA, 2010, p. 19).
Pelas novas tecnologias e indústria cultural, realiza-se a grande tarefa de iludir, transmitir a aparência como se fosse a verdade e liquidificar qualquer consciência que fure, com a resistência típica da crítica, as muralhas “sólidas” da semiformação. Aliada à tecnologia, a indústria informativa alimenta a ideologia, no sentido de visão falsificada da realidade social dos indivíduos, pela mediação do lucro, da técnica, da razão instrumental; converte tudo em mercadoria embalada e pronta para ser devorada ou, mesmo, para devorar quem julgue dela se apossar.
Sobre esse assunto, referendamos Türcke (2010, p. 15), que traz a discussão acerca dos “confeccionadores de notícias” na sociedade altamente “tecnificada”. Frequentemente, estes precisam decidir, em questão de minutos ou mesmo segundos, quais notícias são veiculadas por meio de palavras e imagens chamativas e desviantes, midiatizadas pela fronteira da falsificação. Na verdade, todo o espetáculo da informação produzido é apenas uma nova roupagem que mascara o velho já conhecido.
Essa sociedade tecnológica se estrutura como nenhuma sociedade anterior, minando tudo aquilo que pareceu ser natural: “relações estabelecidas de trabalho, de propriedade e patrimoniais, hábitos superados, rituais, fundamentações de crenças, ritmos e extensões de vida comuns, velocidade, formas de pensamento e de percepção” (TÜRCKE, 2010, p. 9). Desse modo, nossa formação cultural vai sendo engolida pela excitação da semiformação.
A magia tecnológica é sentida pela “eternidade de um instante, pela imagem da paisagem de um corpo, pela infinidade de um azul cambiante de um fechar de pálpebras”, pelo slogan espetaculoso de uma revista científica qualificada por sistemas avaliativos, pelas espetaculosas imagens fotográficas expostas de viagens internacionais (TÜRCKE, 2010, p. 26). Tudo tão versátil que os limites da sua utilização estão hoje muito longe de serem descobertos ou sequer imaginados, principalmente porque vêm produzindo mudanças drásticas em nossa maneira de agir, de perceber e de pensar; ainda, sua presença vertiginosa e seus efeitos práticos se fazem sentir em todos os ambientes sociais.
A grande empreitada consiste nos indivíduos singulares e éticos que não caíram inteiramente neste crisol da semiformação. A esperança reside na aposta do que é expressão do verdadeiramente humano, e não o seu atual simulacro.
Desafio ético-humano-social ante os avanços tecnológicos
Pensar todas essas questões postas na sociedade tecnificadamente administrada, mantendo como centro de nossas preocupações a ética ante os avanços tecnológicos, constitui um instigante desafio intelectual, principalmente porque o processo formativo tem se configurado frágil e desacreditado diante da introdução das novas tecnologias, em que o “novo” se torna útil e abundante, propagando uma formação funcionalista e instrumental (semiformação) adaptada a um sistema tecnológico que cada vez mais devora os indivíduos que o utilizam.
Motivados por esse desafio, bem como por sua urgência, lançamos esforços que façam avançar as reflexões acerca dessa conjuntura social e tecnológica que tem debilitado os indivíduos de forma geral e os profissionais educacionais de maneira particular.
Há a desvalorização do professor, que, assim como os demais, em uma maioria, se permitem viver essa virose da semiformação, com aulas reduzidas de seu caráter crítico, com a pressão quantificável de publicações científicas que acabam produzindo textos sobre “tudo” (todos os assuntos) no mar da superficialidade; com exposições alucinadas de si mesmo, na luta pela garantia de um espaço glitter na sociedade e na educação, entre outros efeitos semiformativos. Ainda, a repetição e o conformismo na produção são percebidos com publicações de assuntos comuns e envolvidos no modismo temático das pesquisas, uma vez que o pesquisador acaba lendo e escrevendo aquilo que todos os outros já leram ou escreveram. Tudo isso graças ao Google, que é hoje o principal mecanismo de pesquisa na internet e que, de certa forma, “incorpora, no seu sistema de ordenação dos sites, o mesmo critério de avaliação que preside aos curricula, colocando em primeiro lugar os sites mais visitados” (BERNARDO, 2014, p. 76).
Adorno (2003, pp. 113-114) afirma que o travamento da experiência (formação cultural crítica) na atualidade nos reenvia ao mecanismo “psicodinâmico” de repressão em prol do “sempre idêntico”, uniformizado, da sociedade massificada e totalmente administrada. Com relação a essa “adesão” podemos nos referir à fraqueza do eu, que nada mais é do que a semiformação: um travamento da vontade, como diria Kant (1980).
Para superar essa situação que amesquinha o ser humano, própria da sociedade tecnológica e pós-industrial, uma das propostas é a de cunho ético-humano-social. Trata-se de organizar a “terra” dos homens e das mulheres em favor da humanização das pessoas que, nesse contexto atual, se encontram em crise do humano, uma crise da ética por excelência. Agostini (2007, p. 217) afirma que “o próprio ser humano necessita de uma fonte a partir da qual possa lançar raízes para firmar a sua vida e responder com adequação aos desafios que ecoam por toda parte”, esclarecendo-nos sobre a falta de ética, recorrente nesse contexto social, que tem se alongado por todos os campos da vida social, inclusive do próprio indivíduo. Essa ausência ética pode ser aclarada pela pauperização da experiência do pensar, ecoando sobre os mecanismos que tornam inconsciente a barbárie como se ela fosse sinônimo necessário de ilustração e progresso técnico.
Adorno, em seus escritos, preferiu falar mais em moral que em ética, embora a literatura sobre uma ética possível a partir da filosofia adorniana cresça no contexto de seus escritos. Em suas contribuições para o campo da ética, Adorno, por meio da Mínima Moralia (1992a), nos introduz a uma investigação fragmentada sobre questões de ordem moral inseridas em momentos aparentemente insignificantes da realidade concreta. Também há evidências da filosofia moral na obra Dialética Negativa (1970), com os escritos sobre a liberdade que nasce como crítica determinada de Kant e da reflexão histórico-teórica sobre o tema.
O esforço, neste texto, é tentar reconstruir o ponto de vista sobre a relação entre ética e prática social (tecnologia), sobretudo com a obra Dialética do Esclarecimento (1985). Isso significa identificar que o ser humano está sendo atingido naquilo que ele tem de mais profundo, que é a sua consciência, com a aceitação tácita dos costumes instrumentais da razão enquanto lei natural: “na verdade o sujeito Ulisses nega a própria identidade, que o torna sujeito, e se conserva vivo mediante mimetismo do que é amorfo”3 (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 86). A conclusão desse episódio denuncia todo o problema envolvido com a aniquilação, ainda que simbólica, do Eu.
Na busca ético-humano-social, Adorno considera o fortalecimento do Eu enquanto antítese, ou seja, no sentido de resistir aos ataques do sistema padronizador e unificador da sociedade, que rouba do indivíduo a sua capacidade de fazer experiência. Neste Eu, Adorno associa explicitamente a crítica enquanto domínio interno da natureza ao processo educacional do qual somos não apenas participantes, mas vetores ativos. Sobre isso, direciona esse caminho aos professores, que, enquanto recalcados nas esquisitices, retornam “maneirismos da fala, sintomas de petrificações, paralisias e inabilidades” (ADORNO, 1995, pp. 78-79).
Agostini (2007, p. 218) afirma que a “crise ética de nossos dias exige um mergulho nas raízes do ser humano. Trata-se, na verdade, de nos perguntar quem é ele em sua origem, ou seja, na sua essência”, não para fugir dos desafios históricos, mas para mobilizá-lo “naquilo que lhe é vital”, enquanto se distingue pela “capacidade crítica, reflexiva e de discernimento” (p. 225). Sobre isso, podemos estabelecer uma relação com Marcuse (1988, p. 20), que apresenta a razão (consciência crítica) como uma força histórica objetiva capaz de libertar os indivíduos dos grilhões da tirania e opressão e fazer do mundo um lugar de progresso e felicidade. Afirma ele: “Todas as ficções desaparecem diante da verdade, e todas as loucuras se aquietam diante da razão” (MARCUSE, 1988, p. 20). Nesse sentido, o esclarecimento não é resultado mecânico de uma revolução, mas um processo vagaroso, pois a mudança no modo de pensar é lenta e dolorosa, é histórica e pessoal:
Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão liberdade. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que possa chamar liberdade, a saber: a de fazer uso público de sua razão em todas as questões. [...] O uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento (MARCUSE, 1988, pp. 102-103).
Desse modo, a tentativa de superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade, com a denúncia pela autorreflexão da presença hegemônica de uma racionalidade instrumental que a todos sufoca. Superar ou resistir à barbárie pelo caminho da ética é abastecer-se da autonomia para realizar os desígnios da espécie humana, bem como o reconhecimento da subjetividade (livre) do outro.
A formação deve, ancorada pela ética, ser envolvida pela consciência livre e autônoma do indivíduo, “sem status e sem exploração”, servindo de antítese à semiformação (ADORNO apud PUCCI; ZUIN; LASTÓRIA, 2010, p. 13). Ressoa muito forte o desafio de “desdobrar a capacidade ética do ser humano”, enquanto sujeito ético, desenvolvendo “a capacidade crítica, reflexiva e de discernimento, sendo capaz de interpretar, enquanto sujeito ético-crítico, sua própria existência nas circunstâncias históricas em que vive” (AGOSTINI; SILVA; SILVEIRA, 2017, p. 2017).
Considerações finais
As diversas e complexas dúvidas que pairam atualmente nos horizontes dos processos formativos mediados pelas novas tecnologias, envolvem tanto a reflexão quanto a viabilidade do projeto de uma formação cultural voltado à autonomia (livre) dos indivíduos (Bildung), tal como esse projeto figurou no romantismo alemão. Nesse sentido, orienta-nos a pensar em novos contornos assumidos pela autorreflexão crítica do pensamento e das práticas, comprometidos com a formação emancipatória dos sujeitos nesse tempo atual.
Nossa necessidade ético-humano-social reivindica uma autonomia legítima capaz de não permitir esquecer que o preço de tal acomodação seja também o relaxamento de nossa vigilância crítica e a renúncia de nosso dever. Por isso, é imprescindível investir na “formação do sujeito Ético”, que, para Rodrigues (2001, p. 246), “coroa todo o processo educativo”, enfatizando que “este só pode ocorrer pela aquisição do mais alto grau de consciência de responsabilidade social de cada ser humano e se expressa na participação, na cooperação, na solidariedade e no respeito às individualidades e à diversidade”. Mais do que formar para conhecimentos e habilidades, numa conformação e adestramento próprios da atual sociedade administrada, precisamos educar para a emancipação e a autonomia. O processo formativo tem nisto o seu objetivo fundamental, ou seja, a formação do sujeito ético, crítico-reflexivo, capaz de ação e reflexão, no sentido da práxis, enquanto “unidade indissolúvel entre minha ação e minha reflexão sobre o mundo” (FREIRE, 2008, p. 30).
O pensamento de Adorno e Horkheimer põe em tela uma aguda reflexão acerca dos impasses e das perspectivas emancipatórias via avanços tecnológicos, provocando-nos a pensar em possibilidades de uma formação realmente crítica em meio aos marcos da formação cultural do atual contexto de semiformação generalizada. No texto Anotações sobre Teoria e Prática, Adorno (1992b, p. 97) afirma: “Pensar é uma forma de atuar e a teoria é uma forma de prática”. Nesse prisma, Adorno fortalece o pensamento crítico, sendo que a teoria, num mundo não livre, é o arauto da liberdade.










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