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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.23  Uberlândia  2024  Epub 17-Mar-2025

https://doi.org/10.14393/che-v23-e2024-13 

Artigos

O ambiente familiar e a opção pela docência: um estudo abrangendo três gerações da família Ceccato

El ambiente familiar y la elección por la educación: un estudio para tres generaciones de la familia Ceccato

Joyce Carolina de Freitas1 
http://orcid.org/0000-0003-0659-6485; lattes: 2819316107193915

Giovanna do Amaral Ceccato de Lima Gabinio2 
http://orcid.org/0000-0001-5440-974X; lattes: 8422843658282107

Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira3 
http://orcid.org/0000-0003-3759-0377; lattes: 0198429449537597

1Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Brasil). freitas.joyce@pucpr.edu.br

2Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Brasil). acl.giovannaamaral@gmail.com

3Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Brasil). alboni.vieira@pucpr.br


Resumo

A pesquisa que deu origem a este artigo investigou a relação entre o ambiente familiar e a escolha profissional do magistério. O estudo foi realizado com apoio na história cultural, buscando investigar o lugar ocupado pelo ambiente familiar na escolha da profissão docente. O objetivo geral é analisar a dinâmica da relação entre o ambiente familiar e a escolha profissional do magistério. A pesquisa tem caráter bibliográfico, documental e de campo, com abordagem qualitativa. Os principais autores são: Nóvoa (2000), Moita (2000), Faht (2011), Bohoslavsky (2015) e Bourdieu (1983). A pesquisa de campo envolveu a história de vida de três professoras da família Ceccato, abrangendo o período compreendido entre 1959 e 2015. Com a análise dos dados, compreende-se que a escolha da profissão sofre influência tanto familiar quanto do contexto social e, ambos variando, em maior ou menor grau, de acordo com a época que se vive.

Palavras-chave: Relação familiar; Escolha profissional; Família Ceccato

Resumen

La investigación que dio origen a este artículo investigó la relación entre el entorno familiar y la elección profesional de la docencia. El estudio se realizó con apoyo en la historia cultural, buscando indagar el lugar ocupado por el entorno familiar en la elección de la profesión docente. El objetivo general es analizar la dinámica de la relación entre el entorno familiar y la elección profesional de la docencia. La investigación tiene un carácter bibliográfico, documental y de campo, con un enfoque cualitativo. Los principales autores son: Nóvoa (2000), Moita (2000), Faht (2011), Bohoslavsky (2015) y Bourdieu (1983). La investigación de campo involucró la historia de vida de tres docentes de la familia Ceccato, abarcando el período comprendido entre 1959 y 2015. Con el análisis de los datos, se comprende que la elección de la profesión es influenciada tanto por el contexto familiar como social, y ambos varían, en mayor o menor medida, según la época en que se viva.

Palabras clave: Relación familiar; Elección profesional; Familia Cecato

Abstract

The study that gave rise to this article investigated the relationship between the family environment and the professional choice of teaching. The study was carried out with the support of cultural history to investigate the role of the family environment in one’s choice of the teaching profession. The general objective was to analyze the dynamics of this relationship. The study had a bibliographic, documentary, and field character, from a qualitative approach. The key scholars considered were Nóvoa (2000), Moita (2000), Faht (2011), Bohoslavsky (2015), and Bourdieu (1983). The field research involved the life history of three teachers from the Ceccato family, covering the period between 1959 and 2015. The analysis of the data revealed that the choice of profession is influenced by both the family and the social context, which vary according to the period in which one lives.

Keywords: Family relationship; Professional choice; Ceccato Family

Introdução

Este artigo foi desenvolvido com o objetivo de investigar qual o lugar ocupado pelo ambiente familiar na escolha profissional do magistério, e, para isso, o estudo envolveu três professoras de uma mesma família: avó, tia e neta da família Ceccato, cuja histórias de vida foram estudadas na perspectiva de se compreender a opção pela profissão docente. De um lado, buscou-se investigar como ocorreu a passagem, de geração para geração, da opção pela profissão docente; de outro, verificar se existiram fatores externos que vieram a contribuir para essa escolha e, não menos importante, realizar um registro acerca da vida docente das professoras, permitindo que as histórias vividas não se percam no tempo. As professoras que participaram foram: Roseni que nasceu em 1940, Izabela, nascida em 1963 e Giovanna, nascida em 1990. Elas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando a divulgação do conteúdo das entrevistas, de sua identidade e de suas fotos. O estudo se insere no projeto de pesquisa “História, memória e formação de professores”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUCPR (CEP), e-mail nep@pucpr.br.

Para orientar essa reflexão optou-se por investigar: qual é a relação entre o ambiente familiar e a escolha profissional do magistério? O estudo tem como objetivo geral analisar a dinâmica da relação entre o ambiente familiar e a escolha profissional do magistério. Então, foram estabelecidos três objetivos específicos: investigar as contribuições sobre história de vida docente e influências sobre a escolha da profissão; descrever as histórias profissionais das professoras da família Ceccato e discutir sobre a influência familiar na escolha da profissão docente.

Para auxiliar a responder o problema de pesquisa, este estudo trouxe como referencial teórico a história de vida de professores sob a perspectiva de Nóvoa (2000), Burnier et al. (2007) e Moita (2000), com o objetivo de compreender a importância sobre a construção da identidade docente a partir do contexto e vida do professor. Contou com os autores Faht (2011), Filomeno (1997), Bohoslavsky (2015) e Santos (2005) para contextualizar quais são as influências que podem interferir na escolha professional do sujeito. Por fim, o estudo contou com Bourdieu (1983, 2001a e 2001b) para compreender a mescla de diferentes influências que levam o sujeito a realizar suas escolhas de vida.

A história cultural se interessa pelos sujeitos que produzem e recebem a cultura, tendo como “[...] principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade cultural é construída”, revela Chartier (1990, p. 17). A partir da história cultural, os sujeitos se percebem no mundo e se expressam nele, geram suas próprias práticas culturais, como também proporcionam representações culturais, permitindo que essas representações sejam retratadas pelo que já foi construído anteriormente. Dessa forma, a história cultural autoriza a realização de estudos como este, na qual os participantes têm a oportunidade de se reconhecerem como sujeitos que produzem história. A pesquisa de natureza qualitativa do tipo pesquisa de campo contou com a análise de conteúdo de Bardin (2011).

História de Professores

As histórias de vida de professores, ao longo do tempo, tornaram-se material de pesquisa e de estudo na educação. A partir da década de 1990, segundo Burnieret al. (2007), com o início das discussões sobre os saberes docentes e a prática do professor, houve um período de crescimento a respeito do estudo da biografia dos professores. O objetivo desses estudos era de “recolocar os professores no centro dos debates educativos e das problemáticas da investigação”, afirma Nóvoa (2000, p.15).

No processo de formação do professor, as dimensões pessoais e profissionais estão intimamente relacionadas possibilitando a elaboração do ser professor como também estão ligadas na construção de sua identidade, pois o sujeito professor e o sujeito da pessoa são constituídos da mesma figura e uma exerce influência sobre a outra. Dessa forma, em qualquer processo de formação docente é fundamental levar em conta a história de vida do professor. Nias (1991, apudNÓVOA, 2000, p. 15) reforça essa premissa quando afirma que “o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor”. Sendo assim, não se pode anular o ser professor da dimensão pessoal do sujeito, como também não se pode anular da dimensão social da pessoa do ser professor.

A construção da identidade docente é um processo complexo, pois ela não acontece desvinculada da história de vida do professor. Sendo que o docente, no decorrer de sua vida, constrói e desenvolve valores, ideais, concepções, crenças que balizam seu modo de pensar e de agir na vida, logo essas premissas de vida impactam diretamente em como o professor age em sua vida professional. Por isso, é “[...] impossível separar o eu profissional do eu pessoal” (NÓVOA, 2000, p.17).

Perante o impossível processo de separar o ser professional do ser pessoal, é fundamental repensar a construção profissional do professor, levando em conta a sua história pessoal de vida. Moita (2000) enfatiza que, para se formar é preciso ter troca de experiências, conhecimentos e interações sociais, dado que ninguém se forma no vazio. As histórias de vida dos professores, portanto, são o conjunto das histórias de sua família, desentendimentos, relações pessoais, estudos, tudo que compõe o ser integral e “ter acesso ao modo como cada pessoa se forma é ter em conta a singularidade da sua história e sobretudo o modo singular como age, reage e interage com os seus contextos” afirma Moita (2000, p. 115). É a partir da experiência familiar que são internalizados os direitos, a autonomia, a participação, o respeito mútuo e a liberdade individual, portanto, os valores que governam a interação social. A família é o primeiro laboratório social, no qual são forjados os sistemas de representações e crenças das pessoas. É nesse conjunto de interrelações que os processos formativos do professor são construídos.

Caminhos da Pesquisa

Com o objetivo de investigar a relação entre o ambiente familiar e a opção pela docência, este estudo contou com uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico, documental e de campo com emprego da técnica da história oral. De acordo com Minayo (1994, p. 53), a pesquisa é “o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto da investigação”, é a escolha de um ambiente para se aplicar a pesquisa. O recorte aqui pesquisado compreende o período relativo à formação das três professoras participantes, sendo a primeira delas em 1959 e a última em 2015.

Como suporte teórico ao estudo, compreendendo a importância da história de vida de professor, as possibilidades que envolvem a escolha da profissão e o conceito de habitus, a pesquisa bibliográfica foi de grande relevância. Segundo Lakatos e Marconi (2001, p. 183), a pesquisa bibliográfica “[...] abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema estudado [...] e sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto [...]”. Portanto, o presente estudo tem como referencial teórico Nóvoa (2000), Burnier et al. (2007) e Moita (2000) para compreender a importância da construção da identidade docente; Faht (2011), Filomeno (1997), Bohoslavsky (2015) e Santos (2005) contextualizando os fatores de influência na escolha professional do sujeito; e Bourdieu (1983, 2001a e 2001b) para compreender a mescla de diferentes influências que levam o sujeito a realizar suas escolhas de vida.

Do ponto de vista da pesquisa documental, foram relevantes os documentos aos quais as pesquisadoras tiveram acesso, como: fotos, livros de atas de reuniões e livros de chamada. Esses documentos foram auxiliares, também para que as docentes pesquisadas contassem suas histórias de vida. Gil (2008, p. 10) explica que a pesquisa documental é muito parecida com a pesquisa bibliográfica, mas “[...] a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa”.

Nesse estudo “os dados recolhidos são designados por qualitativos, o que significa ricos em pormenores descritivos relativamente a pessoas, locais e conversas, e de complexo tratamento estatístico” (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 16). A abordagem qualitativa é também denominada naturalista “[...] porque o investigador frequenta os locais em que naturalmente se verificam os fenómenos nos quais está interessado, incidindo os dados recolhidos nos comportamentos naturais das pessoas” (BOGDAN e BIKLE, 1994, p. 17)

Por sua vez, a técnica da história oral, investigação frequentemente adotada por pesquisadores de diferentes campos do conhecimento, especialmente na área da Educação, permite uma melhor compreensão do objeto de estudo. Para Thompson (1998, p. 44-45), “Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação [...], traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade”. Neste formato de pesquisa, é possível interpretar os fenômenos educacionais em sua essência, com maior profundidade e clareza, uma vez que esta técnica possibilita estabelecer uma interpretação empírica e detalhada acerca do fenômeno estudado.

O instrumento escolhido para realizar a coleta de dados foi a entrevista. Portelli (1997, p. 9-10) a destaca como sendo “[...] uma troca entre dois sujeitos: literalmente uma visão mútua. Uma parte não pode realmente ver a outra a menos que a outra possa vê-lo ou vê-la em troca” e, seu principal objetivo, é o de registrar experiências de uma pessoa. Neste estudo foram entrevistadas três professoras, pertencentes a três gerações da família Ceccato: Roseni Ceccato, nascida em 1940, que ao longo de 27 anos (1960 - 1987) se dedicou à docência no Grupo Escolar Barão do Rio Branco como servidora pública, atualmente está aposentada; Izabela Ceccato de Lima Baggio, nascida em 1963, também é servidora pública e está no Estado há 37 anos, sendo que nos últimos 20 anos tem atuado como pedagoga e atualmente trabalha no CEEBJA Paulo Freire; e Giovanna do Amaral Ceccato Gabinio, nascida em 1990, trabalha na Educação há cinco anos e atua como professora auxiliar da Educação Infantil em um colégio confessional de Curitiba há dois anos. Sendo elas avó, tia e neta/sobrinha, respectivamente.

Portanto, a família Ceccato foi selecionada para este estudo, justamente, por possuir três gerações de mulheres professoras. O período estudado foi da década de 70, iniciando com a trajetória da professora Roseni, passando para a trajetória da professora Izabela e terminando com a trajetória da professora Giovanna até 2015.

A família Ceccato teve como patriarca Domingos Ceccato (falecido aos 36 anos, de tifo, porém dele as entrevistadas não souberam dizer o ano de nascimento e de falecimento) e a matriarca Othália Stocco Ceccato (1889-1945), ambos vindos ainda crianças da Itália para a cidade de Curitiba e que aqui se casaram. Domingos era alfaiate e Othália, parteira. O casal se instalou no bairro Água Verde, em Curitiba, e tiveram seis filhos: Luiz, Glaci, Nancy, Ari, Osvaldo e João. Dessa forma, a professora Roseni é filha de Luiz Ceccato (1910-2000), primeiro filho do casal, e de Maria Follador Ceccato (1913-1993). O pai tinha como profissão guarda-livros, correspondente ao atual ofício de contador, enquanto a mãe, como era comum à época, atuava como dona de casa.

Inicialmente, as pesquisadoras entraram em contato com as professoras, convidando-as a participarem da pesquisa com entrevista a respeito da escolha da profissão docente. Uma vez obtida a aquiescência da participação, as pesquisadoras passaram à realização das entrevistas que foram previamente agendadas em dias diferentes e duraram em torno de 1h30 cada. Dividiu-se a entrevista em três blocos: infância e adolescência; entrada no magistério; e percurso docente. As entrevistas foram realizadas na casa das entrevistadas, individualmente e gravadas.

No início da entrevista, as pesquisadoras solicitaram que as docentes contassem como havia sido sua infância e adolescência, deixando as professoras à vontade para discorrerem sobre o assunto. Em alguns momentos, foram necessárias pequenas intervenções para voltar ao assunto principal. Para os outros dois blocos da entrevista foram adotadas estratégias similares.

As pesquisadoras pediram autorização para gravar a fala das docentes e, após finalizada a entrevista, passou-se à respectiva degravação. Realizada a degravação, as pesquisadoras retornaram à casa das entrevistadas para que elas pudessem ler a entrevista, fazer eventuais ajustes e, por fim, validarem o arquivo. É relevante destacar que as professoras autorizaram a divulgação de seus nomes e informação pessoais para o estudo, conforme Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de posse das pesquisadoras. No quadro 01, apresenta-se a caracterização das participantes envolvidas na pesquisa.

Quadro 1: Caracterização das participantes da pesquisa 

NOME IDADE INSTITUIÇÃO QUE CURSOU O MAGISTÉRIO E/ OU GRADUAÇÃO ANO DE FORMAÇÃO TEMPO DE MAGISTÉRIO
Roseni (R) 80 Colégio Sagrado Coração de Jesus 1959 (magistério) 27 anos, aposentada
Izabela (I) 57 Colégio Sagrado Coração de Jesus / Universidade Tuiuti do Paraná 1981 (magistério) 1986 (Pedagogia) 39 anos, ainda em atuação.
Giovanna(G) 30 Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) 2018 (Pedagogia) 5 anos, em atuação

Fonte: elaborado pelas autoras, com base nos dados obtidos nas entrevistas (2020).

Para analisar os dados coletados das entrevistas, a pesquisa contou com o método de análise de conteúdo proposto por Bardin (2011, p. 15) que “[...] é um conjunto de instrumentos de cunho metodológico em constante aperfeiçoamento, que se aplica a discursos (conteúdos e continentes) extremamente diversificados”. Bardin (2011) destaca três fases fundamentais para realizar esta análise, quais sejam: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. No Quadro 2, são apresentadas as etapas da análise efetuada.

Quadro 2: Etapas da análise do conteúdo, a partir das entrevistas 

Fase 1 - Pré-análise As entrevistas foram gravadas, posteriormente degravadas e salvas em um arquivo de Word, para poderem ser validadas pelas entrevistadas. Foi realizada uma leitura flutuante do conteúdo obtido.
Fase 2 - Exploração do Material Após a validação, as três entrevistas foram lidas e marcadas com grifos nas partas que apresentavam semelhanças. A partir desses grifos, criou-se categorias e subcategorias de análises para as falas.
Fase 3 - Tratamento dos resultados (AC) As categorias de análise estabelecidas foram: brincadeiras de infância; adolescência; formação escolar; presença ativa dos pais na formação do sujeito. Após a análise dos pesquisadores, as respostas (R1-R3) foram categorizadas, conforme consta do Quadro 3, identificando-se sua incidência.

Fonte: As autoras (2020).

As respostas das entrevistas foram analisadas e categorizadas, conforme demonstrado nos Quadros 03 a 06. Esta análise originou quatro categorias e quatro subcategorias, as quais possibilitam compreender a relação entre o ambiente familiar e a escolha da profissão docente. É relevante destacar que as falas das entrevistadas foram transcritas exatamente conforme as professoras falaram.

Quadro 3: Categorias de análise 

Categoria Subcategoria Incidência
Brincadeiras de infância Tipos de brincadeiras Boneca (2)
Escolinha (3)
Andar de bicicleta (1)
Adolescência Atividades típicas Passear (3)
Estar com os amigos (3)
Brincar com irmãos (1)
Formação escolar Formação docente Magistério (2)
Pedagogia (2)
Presença ativa dos pais na formação do sujeito Atuação permanente dos pais
Exigência com os estudos (3)
Os pais inseridos no grupo de amigos das filhas (2)
Pais motivadores (3)
Pais carinhosos (3)

Fonte: As autoras, 2020.

Após análise dos dados, foi possível identificar que a categoria com maior incidência na fala das professoras foi a presença ativa dos pais na formação do sujeito, com onze apontamentos, seguida da categoria adolescência, com sete incidências. Na sequência, brincadeiras de infância contou com seis ocorrências e, por fim, a categoria formação escolar com quatro acontecimentos.

A influência na escolha da profissão e a construção da trajetória profissional

Considerando as três entrevistas, coletou-se vinte e oito evidências referentes à trajetória inicial de vida das professoras até a formação docente: o Magistério e a Universidade. Identificou-se proximidade no percurso de vida delas, mesmo em períodos distintos.

Para compreender essas escolhas do ser profissional, optamos pela teoria do habitus, de Bourdieu (1983), segundo a qual as primeiras experiências dos sujeitos, que são fundamentais, servem de base diante de novas situações, estabelecendo um comparativo, avaliando, recusando ou selecionando ações pertinentes à sua lógica. Essas primeiras experiências se situam, portanto, no princípio da estruturação de todas as experiências posteriores.

No bojo da teoria do habitus, Bourdieu (1983) relata especificamente sobre estudos, formação de professores e constituição docente como interpretação condicionante da cultura e do social. A constituição da prática escolar que se converte em senso prático e se reflete sobre a particularidade do processo de socialização, também colabora na construção da identidade do sujeito. Ou seja, o habitus é produto de todas as ações realizadas no campo docente, as quais são ao mesmo tempo produto constante de reestruturações e têm por matriz as disposições já incorporadas anteriormente. Por isso, são em parte permanentes, mas, ao mesmo tempo, mutáveis. Segundo Bourdieu (1983, p. 65), o habitus é “um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações [...]”. A trajetória social, composta por diferentes agências socializadoras, que podem ser complementares entre si ou não, também contribui para a construção do habitus.

Na constituição do habitus a família está no cerne, uma vez que é a primeira e a principal instância em contato com o indivíduo. Por meio dessa interação dotada de valores, crenças e costumes, o sujeito se tornará protagonista da sua própria socialização, esclarece Bourdieu (2001a). A família é responsável por transferir ao indivíduo, inconscientemente ou não, o capital cultural, ou seja, valores implícitos e interiorizados de forma profunda, que irão definir a forma como o protagonista agirá frente ao seu próprio capital cultural e à instituição escolar. Bourdieu (2001b) ainda destaca que, embora as famílias apresentem singularidades decorrentes de sua própria socialização, há tendência de aspirações típicas da fração de classe da qual fazem parte.

Em relação à primeira categoria - tipos de brincadeiras-, foi possível observar que, entre outras lembranças relativas à infância das professoras, estava presente a escola. As três entrevistadas, ao rememorarem sua infância, mencionaram brincadeiras com escolinha e alunos. Emocionada, a professora Roseni contou:

Quando eu era criança, na minha casa, que é essa casa aqui, mas hoje é reformada né. Antes, tinha um quintal bem grande, cheio de coisa, e tinha um barracão que eu brincava com a minha prima, Luiza, lá. Nós duas sempre juntas. Eu brincava bastante de boneca com ela, mas o que a gente mais fazia era montar nesse barracão uma escolinha, era bem gostoso, bem divertido (R, 2020).

Na sequência, a professora Izabela também evocou suas memórias:

Na minha infância, eu gostava bastante de escolinha e tinha um balcãozinho aqui embaixo no barracão então, eu entrava lá e tinha quadro-negro, daí colocava as cadeiras, pegava caderno, pegava lápis, nossa... eu adorava ser professora, com giz escrevia e dava aula (I, 2020).

E durante a entrevista com a terceira professora, ela divertiu-se, lembrando que já tinha sido professora durante as férias na fazenda da sua avó:

Meus avós têm uma fazenda e lá minha vó deixou o espaço para eu brincar de escolinha, ela colocou o quadro-negro e mesinhas. A ideia era brincar de professora com as crianças que moravam lá. Antes de iniciarem as férias, eu me lembro que eu montava atividades com a minha mãe e imprimíamos para chegar lá com tudo pronto, e, no final das férias, eu entregava o boletim para os pais das crianças e contava como eles tinham ido nas aulas. Eu ainda colocava na frente uma mensagem de incentivo. Eu gostava muito, assim e eu me divertia fazendo isso (G,2020).

Percebeu-se que, cada qual ao seu modo, na infância, brincava livremente com o divertimento escolhido. O tipo de brincadeira preferido, no entanto, era a “escolinha”, com seus alunos, quadro de giz e as aulas. Brincar de boneca e andar de bicicleta também estiveram presentes na infância delas. Curioso é observar que, apesar da diferença de épocas, os tipos de brincadeiras eram muito próximos, sendo que avó, tia e neta brincaram praticamente das mesmas coisas.

A adolescência é um momento marcante e importante na vida das pessoas, que se caracteriza como “[...] uma etapa do ciclo de vida, de transição entre a infância (fase de desenvolvimento corporal e socialização) para a idade adulta (ápice do desenvolvimento e cidadania)” (FAHT, 2011, p. 22). Esse período traz diversas mudanças e uma delas é a escolha profissional. Filomeno (1997) aponta que, no momento da escolha da profissão não é levada em conta somente a atividade de trabalho em si, mas também o modo de viver, o ambiente e a rotina que a pessoa terá. Ao fazer a escolha profissional, o adolescente leva em conta o que ele quer ser e não apenas o que irá fazer em sua profissão.

Na visão de Bohoslavsky (2015), a escolha profissional está ligada diretamente às relações próximas entre pessoas e, principalmente, à relação com os pais, uma vez que eles são tomados como referências. Para o autor, os pais, no progresso da escolha da profissão por parte dos filhos, desempenham influência na decisão da ocupação profissional, por meio do investimento financeiro na educação, conversas informais ao longo dos anos acerca do futuro profissional dos filhos, criação de expectativas e exigências, diálogos sobre os princípios do mercado de trabalho assim como as regras e princípios que o regem. Como acrescenta Colín (2008), a família é um conjunto dinâmico e evolutivo, contextual e plástico de relações e processos que incide de diferentes maneiras em cada um dos seus membros.

Com respeito à segunda categoria - atividades típicas - notou-se que a adolescência, para as entrevistadas, foi uma etapa relevante para exercitar a liberdade de escolhas, mesmo que essas escolhas ainda fossem assistidas pelos pais. Assim como na infância, as docentes, na juventude, também compartilharam de atividades típicas da idade, como passear, estar com os amigos ou brincar com os irmãos. Nas falas das professoras, notou-se a importância que os amigos e a família tinham para elas, ao comentarem com muito carinho os momentos que viveram.

Ampliando o entendimento de Bohoslavsky (2015), Santos (2005) afirma que a seleção da profissão está envolvida em um ambiente de influência mais amplo, que contempla toda a família do adolescente (além dos pais e irmãos), seus amigos e terceiros. Nessa rede ampla de influências, diretas e indiretas, o adolescente tem que pensar consigo mesmo e se desenvolver para ter sua própria identidade - a qual está diretamente ligada à sua realidade -, ao mesmo tempo em que deve procurar apoio daqueles influenciadores e, ainda, fazendo com que esse processo seja unificador com sua família e não se torne conturbado, o que dificulta ainda mais essa escolha.

As memórias das integrantes da família Ceccato sobre a adolescência geraram momentos de emoção, ficando claro pelas expressões de alegria que as professoras demonstraram. A professora Roseni, agora com oitenta anos, relembrou como era sua vida de “mocinha”:

Eu, adolescente, ia com a Luizinha e com a minha outra prima Marilia na rua XV passear.Lá tinham uns moços bonitos que a gente ia só para olhar, também a gente ia na matinée, que são os cinemas, chamava Cine Avenida, a gente comia pipoca lá, eu gostava de passear, ia para lá e para cá sempre com a Luizinha, os meus pais me deixavam passear (R, 2020).

A cada relato, as pesquisadoras ficavam mais envolvidas com a história de vida de cada uma delas, como a pedagoga Izabela que se divertiu ao contar sobre as festas que fazia na sua casa:

Quando eu era jovem, a gente fazia jantar aqui na minha casa, já esperava minha avó ir viajar, e chamava as amigas para jantar. A gente fazia jantar a fantasia, festa de pijama, era só a mulherada, a gente se divertia tanto, tanto, tanto era assim, era uma delícia (I,2020).

A professora Giovanna concluiu essa fase da entrevista relatando:

Quando eu era adolescente, eu era uma adolescente tranquila, assim eu gostava de sair com as minhas amigas. Eu comecei a namorar muito cedo, com 14 anos, hoje em dia ele é meu marido, então eu gostava de sair com meu namorado, ele ia na minha casa... sempre gostei de ficar perto da minha família, dos meus irmãos, eu sempre gostei muito de brincar com eles. Eu ia na casa das minhas amigas, viajava era uma adolescente normal (G,2020).

Desta maneira, entende-se que as possibilidades criadas pelas famílias permitiram que as entrevistadas tivessem uma adolescência permeada de sociabilidade. As famílias e seu entorno, articuladas por temporalidades diferente (tempo histórico, tempo familiar, tempo individual), incidiram de diferentes maneiras na vida de cada um de seus membros, colaborando para a formação dos sujeitos.

Desse modo, no processo de escolha da profissão, o adolescente decide seu futuro profissional, principalmente, em função das influências que sofre ao longo da sua adolescência e da realidade em que se insere. Assim, é fundamental que os pais, principais indutores, busquem um diálogo constante e transparente junto aos seus filhos com o objetivo de ampliar a visão do adolescente para inúmeras possibilidades existentes, deixando que ele consiga tomar a própria decisão da maneira mais autêntica possível.

Quanto à terceira categoria - formação docente - verificou-se que aos poucos, antes de serem professoras, já formava-se uma certa identidade docente inserida na história de vida de cada uma das professoras. Nóvoa (2000) destaca que o processo de formação do docente está intimamente ligado à construção da identidade, pois o sujeito professor e o sujeito da pessoa são constituídos da mesma figura e uma exerce influência sobre o outra. Ao analisar a fala das professoras, entendeu-se que a história de vida delas não está desvinculada da formação docente, pois todas receberam influência de caráter pedagógico, considerando que a família era constituída de inúmeras professoras. A professora Roseni relata:

Na minha época, todas as moças faziam o magistério, meu pai que me matriculou, minha mãe falava que eu tinha que ser professora, como as minhas tias, se eu não fosse professora ela ‘morreria’. Era normal fazer o magistério, e olha que eu fui uma ótima professora. Eu achava bonito ser professora, as minhas tias sempre estavam arrumadas para ir dar aula, eram caprichosas e elas eram excelentes professoras (R,2020).

Ainda discorrendo sobre o assunto, Izabela (2020) comenta: “todo mundo da minha família era professora: a Miriam, a tia Glaci, a Luizinha, a Marília todo mundo fez magistério, a maioria dessas tias fizeram magistério e eram professoras”.

No que se refere à formação escolar, tanto Roseni quanto Izabela fizeram o curso de Magistério no Colégio Sagrado Coração de Jesus (CSCJ), uma Instituição Confessional Católica e privada, dirigida por religiosas e de grande relevância para a formação de professores, a nível médio, no município de Curitiba-PR. As professoras, ao relatarem sobre essa formação, buscaram fotos para mostrar às pesquisadoras lembranças desse momento marcante.

Izabela apresentou uma foto (Figura 1) que ela e o grupo de formandas tiraram na capela do colégio, para comemorar a conclusão do curso. Na foto, ela é a quarta formanda da esquerda para a direita na parte superior. É possível perceber que as formandas aparentam estar alegres com o momento, todas estão sorrindo, as futuras professoras estão uniformizadas e organizadas, o que reflete a preocupação com esse momento importante.

Fonte: Acervo pessoal da professora Izabela (2020).

Figura 1 Formandas do Magistério, Colégio Sagrado Coração de Jesus, turma única 1982 

A professora relatou que a escolha do local da foto, a capela, era uma tradição para quem se formava no magistério. Foram as irmãs do colégio que organizaram as formandas para a foto. Izabela comentou que as alunas estavam vestidas com o uniforme chamado de gala que era usado apenas em festas e era composto de saia azul marinho, camisa branca de manga curta, meia três quartos branca e sapato mocassim preto. Até chegar nesse dia da foto as futuras professoras fizeram bingos, rifas, para arrecadarem dinheiro para o jantar de formatura no próprio colégio, após a cerimônia de colação. Ainda sobre esse dia, a professora lembrou que ela e as amigas estavam eufóricas, felizes, pois estavam a poucos meses de se formarem como professora, porém, para Izabela também foi um momento triste, já que a turma estava junta desde o quinto ano do primário e, após a formatura, elas iriam se separar.

A professora Roseni, durante a apresentação das fotos, se ateve ao retrato abaixo, de sua coleção de grau, que aconteceu na mesma capela que a da filha, porém 23 anos antes. Na foto, a professora está vestida com beca e usando o capelo, seu olhar é sereno e delicado. Roseni disse que antes da cerimônia formal de colação de grau, foi celebrada uma missa em homenagem às formandas. Como estudava em um colégio de religiosas, as irmãs não permitiam que fossem realizados bailes de formaturas, decisão essa que desagradou um pouco a professora, uma vez que sua família era “festeira”. Não obstante, seus pais ofereceram um jantar aos familiares, após a colação de grau, em comemoração à conquista da filha. Outro ponto que a docente recordou em relação a este dia, foi o fato de sua mãe estar muito feliz e orgulhosa dela, pois ela de fato, agora, era professora assim como as tias.

Fonte: Acervo pessoal da professora Roseni (2020).

Figura 2 Coleção de Grau Colégio Sagrado Coração de Jesus, turma 1959. 

Um fato em comum, entre a tia (Izabela) e a sobrinha (Giovanna) foi não terem escolhido como primeira opção de graduação o curso de Pedagogia. A professora Izabela cursou, durante um ano, Comércio Exterior, mas acabou desistindo e foi sua mãe que a inscreveu no vestibular de Pedagogia. Giovanna cursou Administração e atuou na área por cinco anos, para então ingressar no curso de formação de professores. Quando entrevistada relatou ter se encontrado no curso, mostrou sua foto de colação de grau e afirmou ter certeza da escolha de ser professora. Giovanna contou que sua colação foi um marco em sua vida, pois foi no rito dessa celebração, de outorga de grau, que se concretizou o desejo de ser professora. Na foto, pode-se perceber que ela está vestida com uma beca e segurando o capelo. Demonstra alegria no momento que antecede a cerimônia de colação e grau.

Fonte: Acervo pessoal da professora Giovanna (2020).

Figura 3 Colação de Grau da professora Giovanna, 2019. 

No que se refere à terceira categoria - atividade permanente dos pais -, ficou evidenciada a influência dos pais a partir dos diálogos, das parcerias sociais, como também dos investimentos educacionais que proporcionam aos filhos, propiciando decisões importantes para escolha da profissão. Bohoslavsky (2015) destaca que a escolha profissional e a relação com os pais estão intimamente ligadas, pois eles são a primeira referência para os filhos. São os pais que criam as expectativas iniciais do futuro profissional e exigem dos filhos esse envolvido com a profissão. Evidenciou-se a presença ativa dos pais na formação das entrevistadas desde seu percurso estudantil até momentos de descontração em família.

Da análise das entrevistas, pode-se identificar a exigência que os pais delas tinham com os estudos: as três docentes estudaram em ótimo colégios, tinham apoio e incentivo familiar para estudarem. Os pais das professoras cobravam que elas tivessem boas notas e uma postura ética dentro da escola. Outro ponto marcante e comum para as professoras foi o fato de os pais estarem inseridos no grupo de amigos delas. A professora Izabela relatou que sua mãe, em vários momentos, a acompanhava, junto com as amigas, para irem a encontros ou festas.

Pode-se inferir que os pais das entrevistadas eram amorosos, gentis, mas também exigentes com as notas na escola e com os princípios e valores colocados na sua casa. A proximidade que mantinham com os pais igualmente ficou caracterizada. A professora Izabela relatou com carinho que para obter o seu primeiro emprego, em 1983, foi junto com a sua mãe, de mãos dadas, até a Secretaria de Educação do estado, pois lá existia um departamento que direcionava professoras recém-formadas para trabalhar nas escolas. A professora Giovanna, também deixou clara a parceria com os pais, ao mencionar que no processo de escolha de uma segunda graduação, seus pais a incentivaram e disseram que ser professora tinha tudo a ver com ela.

Para cada uma das entrevistadas foi indagado o que é, na respectiva ótica, ser professora. Cada uma respondeu da sua forma. Para Roseni, ser professora é

colaborar na vida dos outros, tive vários alunos famosos o Murilo que é médico, por exemplo. Quando eu vou me consultar com ele, nossa, ele me adora, fala que fui eu quem ensinou ele a ler e a escrever. Eu fui uma ótima, excelente professora, era exigente. Meus alunos sabiam a tabuada na ponta da língua e os cadernos? Nossa um capricho só (R,2020).

Izabela comentou que ser professora,

é aquela que já nasceu para aquilo, é ter paciência, é ter carinho, é saber compartilhar. Não me vejo sendo não sendo professora, eu gosto muito. Eu me lembro que quando eu era professora do pré, eu adoro alfabetizar né, nossa como a gente se divertia. Aprendia brincando, eu contava uma historinha bem fofa para apresentar as letras, era muito legal nossa, eu adorava (I,2020).

E, por fim, Giovanna compartilhou que ser professora é:

contribuir para a construção de um ser humano integral. Como eu trabalho com crianças, tenho totalmente consciência da minha influência e importância na formação delas. É por isso que eu estudo tanto e me dedico muito, meu objetivo é que quando eles crescerem impactem positivamente tanto na vida das outras pessoas como também no mundo. Eu amo os meus alunos, eu quero que eles sejam muito felizes (G,2020).

Este questionamento proporcionou que as professoras contassem várias histórias da sala de aula, e foi perceptível a felicidade com que relatavam cada trecho. Na fala das três docentes nota-se a compreensão do impacto que elas têm sobre a vida de seus alunos, reflexo da responsabilidade do que “ser professora” representa. Juntas, as professoras somam 69 anos de contribuição para a educação.

O emprego da técnica da história oral, na pesquisa de trajetórias de vida, possibilitou às docentes reviverem momentos marcantes em suas vidas, uma vez que são cinquenta anos separando a primeira da última professora e, neste estudo pode-se ter a oportunidade de acessar momentos intrínsecos e pessoais das professoras, fato que ocorre apenas quando há o interesse bastante específico em identificar o motivo desta família ter três gerações de professoras.

Considerações Finais

Com base no estudo elaborado e nas reflexões realizadas após a análise dos dados, entende-se que por mais que o ambiente familiar contribua para a escolha da profissão docente, há outros fatores tão relevantes quanto.

Bourdieu (2001b) destaca que a família é responsável em transferir valores, de forma direta ou indireta para os sujeitos, uma vez que é a primeira e a principal referência do sujeito. Em concordância com o intelectual, na fala das professoras foi possível perceber que em um primeiro momento, a escolha da profissão docente foi determinada e influenciada pela família, já que os valores e princípios eram fortemente voltados para a área do magistério.

Bourdieu (1983) também adverte que as escolhas são realizadas a partir de uma mescla de influências que partem das experiências do sujeito e dos diferentes campos sociais que está inserido. Assim, neste estudo, compreende-se que a escolha da profissão docente pelas participantes resultou de um conjunto amplo de influências. No caso da professora Roseni, houve influência do contexto social da época e da imagem que ela construiu das tias - sempre arrumadas, mulheres respeitadas pela comunidade, com autonomia dentro da profissão -, além de já saber que seu destino era ser professora, uma vez que o pai a matriculou no antigo Curso Normal (magistério) apenas comunicando-a do fato. Esta postura do pai apesar de parecer uma imposição, a professora Roseni se diz estar realizada com sua trajetória e não se arrepende dos anos dedicados ao magistério.

No caso da professora Izabela, nos anos do ensino médio ela cursou, também, o magistério, porque era o costume da sociedade moças serem formadas para a docência. E com o intuito de ter uma remuneração, após concluir o magistério, decidiu lecionar em uma escola e, em paralelo, iniciou o curso de Comércio Exterior com amigas. Izabela acabou desistindo do primeiro curso e formou-se em Pedagogia.

Já a professora Giovanna resolveu primeiro cursar Administração, pois na época ela se inspirou no pai profissionalmente, e depois de 4 anos de formada decidiu, livremente, fazer Pedagogia. Após essa breve retomada da história de escolha da profissão docente, pode-se inferir que no caso da professora Roseni, o fator mais determinante foi a decisão do pai sobre o magistério, ou seja, influenciado pelo contexto social da época que legitimava esse tipo de comportamento. Por outro lado, no caso da Izabela a escolha foi mais livre, afinal ela teve a opção de escolher outra graduação mesmo tendo sido inscrita para Pedagogia, ela poderia ter desistido caso não tivesse se identificado com o curso. Assim, a influência do ambiente familiar não foi preponderante e o que teve maior relevância para ela foi a experiência profissional, anterior ao curso de Pedagogia, como professora regente que despertou o interesse em seguir com o curso para se tornar professora. Finalmente, Giovanna que não teve qualquer influência familiar direta escolheu a profissão após anos de atuação em outra área, decorrente de um processo pessoal de amadurecimento e descobertas.

Portanto ao deixar o indivíduo livre para escolher ainda que toda escolha seja em certa medida determinada pelo contexto social e histórico de cada sujeito, o fator que passa a preponderar no processo de decisão do futuro profissional é o pessoal. Em outras palavras, é o processo de amadurecimento daquele indivíduo dentro do contexto social em que está inserido (amigos, a geração vivida, influência cultural) que o faz ter mais liberdade para decidir a sua profissão. A pesquisa abrangeu a escolha de uma professora na década de 1950, passando pelos anos 1970 e terminou em 2015. Dessa forma, entende-se que no caso específico deste trabalho, a decisão de ser professora foi afetada por diferentes tipos de influências para cada uma das entrevistadas. Se na década de 1950, a família tinha muito peso no futuro profissional da pessoa, já na década de 1970 constatou-se uma maior liberdade sobre este tema e, no ano de 2015, o indivíduo tinha plena liberdade de escolha. Vale ressaltar que o ambiente familiar tem a sua contribuição na decisão, mas não pode ser visto como o único ponto determinante na escolha e, a cada década que passou, o contexto social das pessoas foi se tornando cada vez mais complexo em função do aumento do leque de opções profissionais que surgiram, assim como o volume de informação, o que diminuiu a influência decisiva da família na escolha relativa à profissão.

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Recebido: 17 de Agosto de 2023; Aceito: 28 de Novembro de 2023

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