Introdução
Neste estudo examinam-se elementos relativos à composição de duas coleções destinadas às crianças brasileiras: Bibliotheca Infantil Quaresma (1894-1897) e Biblioteca de Nanquinote (1936-1947). O objetivo principal consiste em se compreender como esse extrato de público mobilizou investimentos por parte das editoras Quaresma & C - Livreiros editores (Rio de Janeiro) e Editora do Globo (Rio Grande do Sul), de modo a produzirem coleções destinadas à educação de um público leitor específico em perspectiva ampla. No primeiro caso, a pesquisa documental foi realizada na Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional, privilegiando-se o periódico O Paiz (Rio de Janeiro). Trata-se de um periódico de ampla circulação à época (Barbosa, 2007), contendo página recorrente de anúncios, o que facultou exercício analítico profícuo. No segundo caso, examinaram-se, principalmente, os periódicos A Razão (Ceará) e A Federação (Rio Grande do Sul), dois periódicos que circularam no período do lançamento da Biblioteca de Nanquinote e cediam espaço para debates acerca da literatura infantil. O primeiro apresenta texto crítico de teor negativo sobre a Biblioteca de Nanquinote e o segundo, ao contrário, publica matéria elogiosa acerca dos livros da coleção.
A operação metodológica que envolve o jornal como fonte documental tem se ampliado consideravelmente nas pesquisas históricas. De que modo, entretanto, a pesquisa histórica por meio dos jornais pode contribuir para o trabalho do pesquisador no campo da História da Educação? Merece destaque o acesso a acervos históricos que tem sido facilitado por intermédio de plataformas digitais com adequados níveis de funcionamento. Se em períodos de difícil acesso aos acervos físicos, como no contexto da pandemia da COVID-19, que se estendeu por três anos no Brasil e no mundo1, os acervos digitais foram as únicas opções de acesso às fontes por parte do pesquisador, em períodos regulares, esse tipo de acesso proporciona algumas vantagens, tais como a facilidade de consulta sem que haja deslocamentos físicos, o acesso às fontes por um grupo reunido mais numeroso, o levantamento e a sistematização das fontes com mais frequência, o retorno às fontes para verificação de uma informação discrepante, sempre que a sistematização das séries (Certeau, 2002) no âmbito dos grupos de pesquisa assim o exigir.
No entanto, é forçoso sublinhar a não substituição do gesto que diz respeito ao contato físico com esse tipo de fonte. Afinal, como adverte Farge (2009), os arquivos físicos guardam diversos vestígios que carecem de decifração a partir de sua materialidade.
De tal modo, manusear os jornais nos arquivos físicos de guarda permitiria identificar o exato tamanho dos cadernos, o tipo de papel e a qualidade da impressão, o nível de conservação ou de deterioração da fonte, o que inclusive poderia caracterizar os vestígios de seu manuseio. Dobras, rasuras, anotações, desgastes; todos esses aspectos poderiam informar sobre gestos de leitura do passado ou mesmo sobre um provável tipo de leitor. Como se sabe, a categoria apropriação tem se revelado uma das mais complexas na operação historiográfica com os impressos por fatores que, em geral, referem-se a imprecisões, isso é, dificuldade de contornos precisos sobre os leitores reais. Concordando com Chartier (1996), nota-se que:
cada leitor, a partir de suas próprias referências, individuais ou sociais, históricas ou existenciais, dá um sentido mais ou menos singular, mais ou menos partilhado, aos textos de que se apropria. Reencontrar esse fora-do-texto não é tarefa fácil, pois são raras as confidências dos leitores comuns sobre suas leituras. (Chartier, 1996, p. 20, grifos nossos).
Não obstante a dificuldade mencionada, o jornal consiste em um tipo de fonte fecunda para a pesquisa histórica. Por um lado, permite acessar o ideário de um grupo que o dirige em um determinado período, as redes de sociabilidade entres os colaboradores, servindo, inclusive, como observatório de alinhamentos ou afastamentos dos editores e colaboradores da máquina estatal. Por outro, faculta notar elementos privilegiados da vida social e das práticas culturais ali veiculadas. Nesse sentido, é necessário se identificar com lentes microscópicas os cadernos, as colunas, os colaboradores, os anúncios publicitários, entre outros elementos de sua constituição. Nessa direção interpretativa, De Luca (2011) argumenta que o estatuto da imprensa como objeto da pesquisa histórica passou por deslocamentos consideráveis a partir de 1970, a par da história da imprensa e por meio da imprensa.
No campo da História da Educação, têm sido desenvolvidas pesquisas sobre coleções de livros. Entre elas convém destacar a pesquisa desenvolvida pela Professora Heloisa Helena Pimenta Rocha para a escrita de sua Tese de Livre-Docência apresentada à Faculdade de Educação da Unicamp, Regras de Bem Viver para todos: a Bibliotheca Popular de Hygiene do Dr. Sebastião Barroso, coleção sobre higiene idealizada pelo doutor Sebastião Barroso voltada para a formação do povo; e por Maria Rita Toledo, a pesquisa que originou o livro Coleção Atualidades Pedagógicas: do Projeto Político ao Projeto Editorial (1931-1981), em que analisa a coleção destinada à formação de professores da Companhia Editora Nacional organizada nos anos de 1930 por Fernando de Azevedo, e sua continuidade até os anos de 1980, sob coordenação de Damasco Penna.
Bibliotheca Infantil Quaresma2 (1894-1897)
Com vistas a se identificar elementos relacionados à composição da Bibliotheca Infantil Quaresma (1894-1897), privilegiou-se o exame do periódico diário O Paiz (Rio de Janeiro), cujos exemplares puderam ser localizados na íntegra na Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional.
O Paiz, publicado no Rio de Janeiro, foi fundado em 1º de outubro de 1884 por João José Reis Júnior - Conde São Salvador de Matosinhos. Sua linha editorial à época definia-se como a de um jornal “independente, político, literário e noticioso”. Neste sentido, O Paiz enfatizava sua autonomia em relação a grupos específicos, ideário que, na visão dos articulistas, permitiria sua “imparcialidade”. Definia-se, ainda, como jornal republicano, destacando-se, nos últimos anos da Monarquia, nas campanhas abolicionistas. No entanto, em nome dos bons costumes de uma capital federal que se desejava civilizada, era bastante conservador (Araújo, 1993, p. 307).
Segundo Leal (s/ ano, p. 1), com a proclamação da República, o jornal “atingiu sua fase de maior influência na vida política brasileira, tornando-se um dos periódicos mais vendidos da capital federal”. Nesse período, o jornal foi vendido para Francisco de Paula Mayrink, empresário e político.
Em termos de difusão, em dezembro de 1884, o jornal registrava uma tiragem de 19.000 exemplares (Castilho, 2013). Entre os anos de 1900 e 1908, a tiragem manteve-se em torno de 15.000 exemplares, havendo relatos, segundo Barbosa (2010), de edições com tiragens entre 28.900 a 30.000 exemplares. Quanto aos aspectos editoriais, no período anteriormente indicado, O Paiz publicava edições entre 6 e 12 páginas, com ilustrações e fotografias, além de textos literários como folhetins e crônicas. Os exemplares eram produzidos em linotipo e a impressão feita em impressoras rotativas Marinoni ou Walter Scott. Apesar da segunda máquina ser considerada uma moderna impressora, o jornal não publicava edições a cores.
Tinha-se como hipótese inicial da pesquisa histórica a constituição de uma coleção de livros para crianças de modo processual. Afinal, em fins do século XIX, quando por ocasião do lançamento dos primeiros títulos da coleção Quaresma destinada à criança, a literatura infantil carecia de aperfeiçoamento, conforme assinala Lourenço Filho (1943, p. 150)3 no excerto a seguir:
A evolução dessa literatura, nos mais adiantados países nestes últimos decênios, e o estudo da gênese de várias obras famosas, como certas composições de Dickens, Marck Twain e Kipling, para não citar já as de D’Amicis, Andersen, Condessa de Ségur e outras, evidencia-nos que, se de uma parte não basta escrever com a intenção de ser lido pelas crianças, de outra, forçoso é reconhecer que também se justifica uma “literatura” para elas intencionalmente planejada, para elas composta e para elas editada.
O planejamento e a edição dos livros infantis pelo livreiro e editor Pedro da Silva Quaresma entre os anos de 1894 e 1897 sugerem planejamento intencional. Notem-se a esse respeito os oito títulos variados que compuseram a coleção Bibliotheca Infantil Quaresma no quadro abaixo.
Quadro 1 Livros que compunham a Bibliotheca Infantil Quaresma
| Livros que compunham a Bibliotheca Infantil Quaresma Quaresma & C - Livreiros-editores | ||
|---|---|---|
| Livro | Ano | Autor/Organizador |
| Contos da Carochinha | 1894 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| Histórias da Avozinha | 1896 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| Histórias da Baratinha | 1896 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| Histórias do Arco da Velha | 1896 | Annibal Mascarenhas/Viriato Padilha4 |
| Os Meus Brinquedos | 1896 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| O Castigo de um Anjo | 1897 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| Teatrinho Infantil | 1897 | Alberto Figueiredo Pimentel |
| Álbum das Crianças | 1897 | Alberto Figueiredo Pimentel |
Fonte: organizado pelas autoras (2023).
Do ponto de vista metodológico, o tratamento das fontes relativas à constituição da Bibliotheca Infantil Quaresma em O Paiz (Rio de Janeiro) foi realizado em duas fases: uma considerada de identificação preliminar das fontes e de levantamento e a outra de sistematização.
A fase preliminar do levantamento geral das fontes e a fase de sistematização
O anúncio localizado em 18/06/1894 (ed.04332, p. 2) trazia indícios de um primeiro título avulso - Contos da Carochinha - e diversos vestígios do direcionamento à criança como extrato de público específico.
Os Contos da Carochinha, que ora apresentamos ao publico, são estas historias que todos nós ouvimos em pequeninos e que sabem todas as crianças de todos os paizes; e é uma escolhida coleção de quarenta magníficos contos populares, que todas as mãis de família devem dar a seus filhos para lerem, afim de guial-os no caminho do bem e da virtude, alegrando-os e divertindo-os ao mesmo tempo. (O Paiz, 1894, p. 2).
No entanto, ainda não se podia considerar a constituição de uma biblioteca endereçada à criança. Uma biblioteca ou coleção é formada por títulos variados e por elementos materiais identificadores, visto que se define por um conjunto de títulos, contendo marcadores materiais que individualizam a coleção, tais como o tamanho do livro, o logotipo da coleção, a identidade da capa, o tipo de letras. Todos esses elementos são pensados como aparelho crítico, capazes de definir a composição de um conjunto de obras, fornecendo unidade à biblioteca, nos termos apontados por Olivero (1999)5. Ademais são essas marcas, por assim dizer, que guardam o potencial de fidelizar o leitor de uma determinada coleção:
É com Gervais Charpentier que a coleção “Biblioteca” se constitui como verdadeiro gênero editorial. Como tal, ele tem suas próprias regras. Uma regra de ordem material, antes de tudo. O trabalho de produção é determinado antecipadamente e é sempre idêntico - papel, caracteres, layout etc. Disso advém essa uniformidade do objeto que desemboca no que será chamado mais tarde de “standard” [padrão], termo que traduz a ideia de uma produção em série. A escolha da cor e da capa visa, em seguida, a produzir uma “imagem de marca” que deixa cada título publicado imediatamente identificável pelo público e que permite fidelizar o consumidor. (Olivero, 1999, p. 35).
A operação metodológica demandou trabalho documental cuidadoso: a localização frequente do título de um livro na página de anúncios registrados em O Paiz junto a outros produtos; a identificação de uma nota crítica sem destaque explícito para o circuito editorial. Para essa etapa, foram elaboradas fichas simples contendo, título, edição, página, resumo. Essas notações são importantes porque permitem ao pesquisador a localização imediata da fonte em meio ao volume de informações veiculadas no periódico estudado.
Ainda na etapa preliminar, foi necessário percorrer o jornal mês a mês, uma vez que havia dois tipos de entradas a serem consideradas: anúncios e notas críticas. O recurso à inserção de palavras-chave no site da Hemeroteca Digital Brasileira nem sempre funciona a contento, exigindo que, por vezes, recorra-se a cada edição de modo individualizado. Nessa direção metodológica, pode-se, inclusive, considerar a necessidade de utilização de um método híbrido: lançamento de palavras-chave e verificação caderno a caderno.
Do ano de 1894 ao ano de 1897, a operação metodológica adotada permitiu, contudo, identificar o lançamento de outros títulos endereçados ao público infantil sob a chancela da Quaresma & C Livreiros- editores.: uns anunciados e, dias depois, lançados; o lançamento de um título na data da edição do jornal consultado e notas críticas sobre a recepção do livro lançado, como se lê em:
É na verdade inacreditável o sucesso que tem feito a serie de livros para crianças que editam os Srs. Quaresma &C.
Ainda ante-hontem exposta á venda a nova obra Historias da Baratinha, foram vendidos até 2 horas da tarde mil exemplares, os únicos que ficaram prontos, isto é, encadernados.
Quer dizer que mais de trezentas crianças, que se dirigiram á Livraria do Povo, não puderam satisfazer a sua justa curiosidade, adquirindo um exemplar
Hoje, porém, na nova remessa, os jovens leitores poderão obter Historias da Baratinha. (O Paiz, 1896, ed. 04468, p. 1).
Os títulos levantados na etapa preliminar foram: em 11/06/1895 (ed. 03905, p. 8), Histórias do Arco da Velha; em 11/09/1896 (ed. 04362, p. 2), Historias da Avozinha; 10/10/1896 (ed. 04411, p. 2), Os Meus Brinquedos; 26/12/1896 (ed. 04468, p. 1), Historias da Baratinha; 08/01/1897 (ed. 04480, p. 2), O castigo de um anjo.
No entanto, em 15/06/1897 (ed. 04638, p. 7), a Quaresma & C. Livreiros-editores faz circular um anúncio extenso, que contém os títulos da coleção já identificados desde o ano de 1894, acrescidos de outros títulos apresentados como novidades. Conforme a concepção veiculada pela editora, tratar-se-ia, então, de uma completa biblioteca infantil, cujos títulos e materialidade dão a ver uma única identidade e o endereçamento define-se por: Livros para Criança. No anúncio, os editores chamavam “a atenção das crianças, mães, pais, professoras e do público em geral para a sua preciosíssima Bibliotheca Infantil”.
Destaca-se ainda que a Biblioteca passará a ser dirigida pelo “popular escritor Figueiredo Pimentel”6.No mesmo tom retórico, registra-se que nunca houve, no Brasil, alguém mais preocupado “com amor e dedicação com o estudo e o divertimento das crianças”. Ressaltam-se, por outro lado, a aceitação e os elogios da impressa à Biblioteca, a qual a essa altura estava completa e era formada pelos seguintes títulos: Teatrinho Infantil, Álbum das Crianças, O Castigo de um Anjo, Os meus Brinquedos, Histórias do Arco da Velha, Histórias da Baratinha, Histórias da Avozinha e Contos da Carochinha.
No final do anúncio, há dois destaques: o primeiro versa sobre o conteúdo e a qualidade dos gêneros que compõem a Biblioteca:
A Bibliotheca Infantil
Como se depreende do que ficou escrito, é pois, uma soberba serie de livros para crianças, sobre todos os gêneros - obras admiráveis pelo ensinamento que fazem, incutindo nas almas jovens o amor da Patria, o culto da familia, a compaixão pelos desgraçados, o afeto pelos animais - todos os sentimentos, em summa, de um coração bem formado. (O Paiz, 1897, ed. 04638, p. 7).
O segundo destaque diz respeito a imitações que, segundo os editores, mereciam cuidados por parte dos leitores, visto estarem sendo realizadas imitações e falsificações, apesar de todos os elementos de identificação da coleção por parte da Quaresma & C. Livreiros-editores, como se lê no excerto abaixo:
Atenção
Chamamos a atenção para as nossas edições, pois, em vista do extraordinário successo desses livros para crianças tem-se feito imitações e falsificações sem conta. Todos eles são encadernados e têm uma capa ilustrada, a mesma sempre, e contêm milhares de gravuras e vinhetas, além do mesmo formato, sempre com mais de 300 paginas. (O Paiz, 1897, ed. 04638, p. 7).
Tendo-se identificado as ocorrências de 1894 a 1897, a hipótese inicial de uma coleção voltada à criança constituída de modo processual se confirmava. Mas, para que a demonstração fosse realizada com rigor teórico-metodológico, não se podia prescindir das séries organizadas por conteúdos, cruzamento de fontes tais como os anúncios, as notas críticas e as remissões.
Nessa etapa, foram elaboradas fichas mais precisas, contendo, título, edição, página, resumo do conteúdo em perspectiva analítica, definição do tipo de texto (anúncio ou nota crítica) e observações. Logo, considera-se a etapa mais complexa da operação metodológica, uma vez que exige leitura crítica, a utilização de dicionários especializados, atenção na descrição acurada da fonte, que pode conter grafia do período, assinatura de colaboradores que utilizam pseudônimos, entre outras minúcias afeitas ao procedimento de análise historiográfica a partir do exame de jornais.
Coube avaliar, a esse respeito, a data precisa do início do trabalho com as ilustrações realizadas individualmente por Julião Machado7 para a Bibliotheca Infantil, o que só ocorreu a partir de 1900, ano da 11ª edição de Historias da Avozinha. Em período anterior, houve a contribuição de outros ilustradores ou a encomenda de gravuras e vinhetas provenientes da Alemanha, dos Estados Unidos, como indica a pesquisa desenvolvida por Santos (2019).
Em acréscimo, observou-se a emergência de um campo de disputa acirrado entre autores e autoras que visavam à escrita de livros infantis no período. Na coluna A Moda, assinada por Ecila Worms, pseudônimo de Julia Lopes de Almeida8, em meio a comentários gerais, destaca-se o tema sobre a qualidade do livro infantil. Ali, a colaboradora de O Paiz e também escritora de livro infantil afirma:
Tenho um rapazinho que frequentemente me pede livros; cai na asneira de lhe comprar Os Contos da Carochinha, porque dessas histórias guardei algumas de cor. [...] Antes de lhe entregar o livro, folheei-o e... Jesus! Que horror! Que frases barbaras, que linguagem mastigada; erros, erros e mais erros eriçavam todo o livro, tirando-lhe a graça natural da fantasia, tornando um livro de deleite em um livro de perversão. Fechei zangada o meu exemplar. Dál-o a uma criança seria um crime. (O Paiz, 1899, ed. 05220, p.1-2).
A coluna de autoria de Julia Lopes de Almeida foi veiculada em O Paiz em 20 de janeiro. Nove dias passados, o periódico cedeu espaço à réplica por parte de Alberto Figueiredo Pimentel, cujo tom ofendido demonstra, sobretudo, que sua reputação como autor de livro infantil estava em risco. O autor inicia com a transcrição da crítica tecida pela autora e, em seguida, parte para a sua própria defesa. Notem-se, no excerto abaixo, alguns elementos relativos à sugerida disputa:
Contos da Carochinha
Defesa contra uma agressão
Leram bem? Prestaram bastante atenção?
Agora, a defesa.
Os Contos da Carochinha foram publicados pela primeira vez em julho de 1894 num folheto de 200 páginas, contendo apenas 40 histórias para crianças. O sucesso obtido foi tão grande, tão rápido, tão inesperado - a edição esgotou-se em 20 dias - que os Srs. Quaresma e C. encomendaram-me mais 20 contos, para fazer o total de 60, e publicaram logo nova edição (...) em um volume cartonado de 323 paginas. Atualmente os Contos da Carochinha estão na 12ª edição, formando um grosso volume de 400 páginas.
(...) S. Ex. pretendia talvez monopolizar a literatura infantil. Escreveu os Contos Infantis, naturalmente o primeiro da serie (...). Olhe, minha senhora, quem julga um livro é o público. Os Contos da Carochinha estão mais que julgados: as crianças adoram-no. (O Paiz, 1899, ed. 05226, p. 3).
A defesa é assinada por Alberto Figueiredo Pimentel logo na página 3 do periódico. Ali, o autor adverte o leitor sobre o sucesso do primeiro título publicado, que, além de ter sido ampliado a pedido dos editores de 40 contos para 60 contos, a edição inicial logo se esgotara. Em acréscimo, observa que Os Contos da Carochinha já se encontravam na 12ª edição em 1899, o que sugere mais de 2 edições por ano. Na segunda parte da defesa, Alberto Figueiredo Pimentel adota curioso tom de denúncia, ao apontar a intenção de Julia Lopes de Almeida de monopolizar a literatura infantil. Não obstante o desejo, ela teria publicado um único título endereçado às crianças. Por último, sublinha que as crianças estariam aptas a julgar a qualidade da obra e já o fizeram: “adorando-a”.
O exame da documentação nesta fase específica permitiu algumas inferências relevantes: a emergência de um campo de disputa entre autores e autoras que visavam à escrita de livros infantis, como Julia Lopes de Almeida e Alberto Figueiredo Pimentel ilustram; o endereçamento dos livros aos pais e professores, cuja mediação estava prevista nas obras; a representação da leitura derivada da análise dos anúncios como boas e edificantes; o conceito de infância de natureza universal, não se contemplando marcadores de raça, gênero ou condição social.
Biblioteca de Nanquinote (1936-1947): levantamento e sistematização das críticas
A ideia da Biblioteca de Nanquinote, composta por, pelo menos, 20 histórias escritas por Erico Veríssimo e outros autores da época, surge em uma reunião entre o próprio Veríssimo e o dono da Livraria e Editora do Globo Henrique Bertaso, conforme afirma o autor no livro biográfico Um certo Henrique Bertaso (Veríssimo, 2011).
Uma tarde discutimos o projeto duma coleção dedicada às crianças, em volumes de formato grande, com ilustrações em muitas cores. Escrevi para essa série (Coleção Nanquinote) seis estórias que apareceram entre 1936 e 1937. Dei ao herói da primeira (Aventuras do avião vermelho) o nome de Fernando. Nesse tempo eu mantinha, na Rádio Farroupilha, sob o pseudônimo de “Amigo Velho”, um programa em que contava estórias para crianças. (Veríssimo, 2011, p. 44).
O início da carreira de escritor de Erico Veríssimo, quando se dedicava à escrita de seus primeiros romances e contos, se mesclava à produção para a infância, concentrada na década de 1930. O escritor-editor lançava-se na escrita e na organização da Biblioteca de Nanquinote, que contou com a contribuição de outros escritores, entre eles Mário Quintana9. Veríssimo “se projetou nos mais diversos domínios da criação literária: das aventuras infantis ao universo épico de O Continente da caricatura social à ficção psicológica, da crônica de viagens ao romance alegórico Incidente em Antares” (Chaves, 1972). Os títulos escritos por Erico Veríssimo que compuseram a coleção Biblioteca de Nanquinote foram:
Quadro 2 Livros de Erico Verissimo na Coleção Biblioteca de Nanquinote.
| Livros de Erico Veríssimo na Biblioteca de Nanquinote - Editora do Globo | |||
|---|---|---|---|
| Livro | Ano | Ilustrador | Tiragem10 |
| Aventuras do avião vermelho | 1936 | João Fahrion | 5000 |
| Os 3 porquinhos pobres | 1936 | Edgar Koetz | 5000 |
| Rosa Maria no castelo encantado | 1936 | Nelson Boeira Faedrich | 5500 |
| Meu ABC | 1936 | Ernest Zeuner | 5500 |
| O urso com música na barriga | 1938 | João Fahrion | 11500 |
| A vida do elefante Basílio | 1939 | Nelson Boeira Faedrich | 10000 |
| Outra vez os 3 porquinhos | 1939 | Edgar Koetz | 10000 |
Fonte: Organizado pelas autoras.
A coleção Biblioteca de Nanquinote configurou-se como um dispositivo de saber e lazer, tornando-se um fomentador de práticas e circulação da leitura e seus editores/organizadores eram considerados os atestadores da legitimidade da coleção e dos critérios de escolha dos títulos e dos autores que escreveram para ela.
As características materiais que garantiam a inserção dos livros na coleção iam desde as dimensões dos livros - 27,5 x 18,8 cm - até a folha de rosto, com cubos coloridos formando o título da coleção e representação dos personagens das diferentes histórias. A folha de rosto padronizada cria uma marca para a coleção, conformando-a com características específicas, além de ser uma opção econômica, visto que, assim, o processo de edição se desenvolve mais rapidamente, pois o projeto gráfico identificador já está planejado, mesmo considerando que a série aqui analisada diz respeito a uma coleção de livros para crianças, que envolve ilustrações e capas específicas.
Nos arquivos da Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional, foram localizados textos críticos sobre a Biblioteca de Nanquinote, uns elogiosos e outros negativos, nos periódicos A Razão (Ceará) e A Federação (Rio Grande do Sul). Recorreu-se à busca pela palavra-chave “Biblioteca de Nanquinote”, que retornou resultados satisfatórios, mas também aos títulos dos dois primeiros livros da coleção - Aventuras do Avião Vermelho e Os três porquinhos pobres, com alguns resultados promissores.
A crítica sobre o lançamento da coleção
Para fins desta análise, é importante contextualizar, de início, os dois periódicos que oferecem elementos para se compreender o lançamento da Biblioteca de Nanquinote. A Razão, jornal cearense, que circulou de 1929 a 1938, tinha como subtítulo: Independente, Político e Noticioso. Circulou, primeiro, sob direção de Monte Arraes. No expediente informava-se que sua circulação era diária e contava com 8 páginas ao longo da semana e 12 aos domingos. O preço variava de $200 o número do dia e 50$000 a assinatura anual. Também era possível adquirir um número atrasado pelo valor de $400. Deixou de circular em maio de 1938, quando o último número - 592 - apresentou o texto intitulado “Aos Leitores e Assinantes da A RAZÃO”, em que os motivos para a dissolução da casa editora e, consequente, extinção do periódico eram expostos11.
O periódico A Federação foi fundado em 1º de janeiro de 1884, na então Província de São Pedro (Rio Grande do Sul). De cunho político-partidário, tinha como missão divulgar os ideários republicanos. Dirigido, primeiro, por Venâncio Ayres (até 1884) e, em seguida, por Júlio de Castilhos. Circulou até novembro 1937, quando se instalou o Estado Novo (1937-1945), sob o comando do presidente Getúlio Dornelles Vargas, que decretou o encerramento das publicações do jornal12. No mesmo ano, após outorga da Constituição de novembro de 1937, foram extintos os partidos políticos no Brasil13.
O texto assinado pelo Padre Helder Câmara14acerca da Biblioteca de Nanquinote, publicado pelo jornal A Razão em 26 de julho de 1936, se destaca na página em meio a manteigas, brincos, botões, cimento e ferro, quartos de pensão e lista de alunos aprovados nos primeiros lugares de concurso de instituição de ensino.
Helder Câmara inicia sua análise apresentando a coleção e o boneco identificador Nanquinote. Prossegue afirmando que, entre defeitos e qualidades do escritor e, também, editor da coleção de livros para crianças, Veríssimo “fez bem em vir para a companhia de Monteiro Lobato e Viriato Correia” (Câmara, 1936, p. 15), reconhecidos escritores que se dedicaram à produção de livros para crianças; o primeiro, distinguindo-se por meio da invenção do Sítio do Picapau Amarelo e o último, destacando-se na produção de impressos por intermédio de livros que contam a história do Brasil para crianças ou ficção infantil15. O religioso afirma, ainda, que as histórias de Veríssimo publicadas até aquela data - Aventuras do Avião Vermelho e Os três porquinhos pobres - muito se aproximavam dos clássicos de Andersen16 e Grimm17, além da influência de Monteiro Lobato. Conforme a apreciação de Helder Câmara, Erico Veríssimo poderia, no futuro, “se acanhar” com os volumes lançados, mas um bom observador poderia acompanhar em suas produções “as sementes dos seus méritos de amanhã” (Câmara, 1936, p. 15).
A seu ver, Veríssimo cederia ao que chamou de “caprichos infantis”, uma vez que, em sua análise, suas histórias incluiriam “absurdos e fantasias impossíveis”, o que lembraria os desenhos animados, com suas sequências “pitorescas e ilógicas”. O religioso cita a história dos três porquinhos pobres que fogem de seu chiqueiro em busca de aventuras, advertindo que não só os animais falam como também as árvores falam, sorriem e telefonam. O sol e a lua atendem aos pedidos infantis e tomam sorvete ou bebem água. Alerta, na sequência, que a imaginação nem sempre é “inofensiva”.
Importa observar a preocupação do religioso quanto ao tipo de formação que seria oferecida às crianças leitoras dos livros da Livraria e Editora do Globo. Na década de 1930, época em que a literatura infantil era entendida como um tipo de manifestação que veicularia moralização e ensino, instruindo as crianças e divertindo-as; a imaginação era bem-vinda, mas com parcimônia. Em pareceres para a Comissão Nacional de Literatura Infantil (CNLI) a professora Elvira Nizynska18, embora afirmasse a importância dos elementos estéticos na Literatura infantil, atribuía, em sua avaliação, peso maior aos elementos educativos, considerando que o livro infantil possuía uma missão civilizadora em relação aos pequenos leitores. Em pareceres sobre centros culturais infantis, a professora ressaltava o ―divertimento útil‖ proporcionado pela leitura de bons livros infantis19. A criança poderia, ao mesmo tempo, divertir e instruir-se de alguma maneira.
Ainda no tocante à apreciação do religioso, ao aproximar Veríssimo de Lobato, Helder Câmara afirma que os dois fazem uso de “termos grosseiros e triviais, como patife e sem vergonha”. No entanto, pondera, a linguagem empregada pelos dois escritores também pode ser atraente, encantadora.
Erico Veríssimo, a exemplo de Lobato, varias vezes, emprega termos grosseiros e triviais, como patife e (escrevo?) sem vergonha (sic). Mas como Lobato, possue linguagem atraente e, por vezes, maneiras encantadoras de dizer:
‘Eu disse que o burro tinha óculos? Não disse. Pois tinha’. (Câmara, jornal A Razão, 26 jul. 1936, p. 15).
Conforme a crítica tecida por Hélder Câmara, Lobato e Veríssimo se aproximavam no uso de uma linguagem mais coloquial no que diz respeito às histórias para crianças. Essa característica podia não ser admirada pelo religioso; contudo, uma linguagem mais simples e acessível aos pequenos leitores era elogiada nas propagandas acerca da coleção editada por Veríssimo e veiculada nos impressos da época.
Na página 3 do jornal A Federação (9 de jul. 1936), entre notícias de greve em dois países europeus, outra sobre o aniversário do comandante da Brigada Militar coronel Canabarro Cunha, sobre a Corte de Londres e uma reunião da Academia Rio Grandense de Letras e outras notícias de caráter político, registra-se, no canto inferior esquerdo da página, matéria crítica sobre o lançamento da Biblioteca de Nanquinote, a coleção dirigida às crianças pequenas.
Assinado, simplesmente, por X., o texto começa caracterizando as duas primeiras histórias - Aventuras do avião vermelho e Os três porquinhos pobres - como “simples e fluentes”. Com um entendimento diverso daquele emitido pelo padre Hélder Câmara no texto publicado no jornal A Razão, complementa explicando que são histórias “contadas numa linguagem despretensiosa e sem a pluralidade artificial dos que não sabem falar à alma ingênua das crianças”. Definem-se as histórias, pois, como livres de “pluralidade artificial” e “simples e fluentes”.
No texto se elogia o “imaginozo creador” das primeiras histórias da Biblioteca de Nanquinote, e afirma-se que, ao se “lançar [na] tão difícil e complicada literatura [para crianças], venceu com a mesma despreocupação e superioridade com que venceu nas demais”. Ainda segundo o autor anônimo, “muita gente de nome têm escrito intencionalmente para a infancia” e prossegue indicando que “aconteceu que as crianças, quasi todas, não entenderam seus livros e não se interessaram por eles”. Veríssimo, ao contrário, pondera o crítico anônimo, “soube usar de todos os recursos convenientes, com suas frases curtas, suas ideias claras e suas palavras comuns”, tendo, desse modo, conseguido encontrar um meio de se comunicar com as crianças de forma a se interessarem pelo que narrava. Esse trecho do texto veiculado pelo periódico A Federação evidencia quais seriam as prerrogativas, na concepção do crítico, de uma história infantil de qualidade: frases curtas, ideias claras, palavras comuns.
Sublinha-se, por último, que a concorrência estaria surpresa e temerosa pela boa qualidade dos livros impressos e ainda com o valor de venda, “acessível a todas as crianças”. Veríssimo, dono de uma “imaginação fecunda e um talento brilhante” é, então, elogiado. Ao se encerrar o texto, declara-se que “a Biblioteca de Nanquinote triunfou. E o que é certo é que esses livros de Erico interessam tanto às crianças como aos grandes”.
Considerações finais
A constituição da Bibliotheca Infantil Quaresma entre 1894 e 1897 assinala uma fase promissora para os livros literários endereçados às crianças leitoras brasileiras. Por um lado, observou-se um segmento expressivo do mercado editorial - a Quaresma & C. Livreiros-editores ou Livraria do Povo (Rio de Janeiro) - investindo em livros com identidade material e de conteúdo que prometiam oferecer alegria e divertimento ao leitor infantil. Em acréscimo, sublinhou-se acirrada disputa pela escrita de livros infantis entre escritores consagrados como Julia Lopes de Almeida e Alberto Figueiredo Pimentel ilustraram. Por outro, notou-se que os títulos e conteúdos veiculados nos livros da coleção deveriam sofrer os filtros ideológicos por parte de professores, das mães de famílias, convocadas a participarem da recepção das obras “que guiariam as crianças no caminho do bem e da virtude”; crianças designadas conforme abordagem universal, não se contemplando marcadores de raça, gênero ou condição social.
Nos anos de 1930, tem-se notícia de um outro tipo de coleção destinada às crianças, formada por, pelo menos, 20 títulos e organizada pela engenhosidade de Erico Veríssimo, destacado escritor e editor no sul do país. Trata-se da Biblioteca de Nanquinote, que, por sua vez, sintetiza uma aposta da Editora do Globo de Porto Alegre, intentando alcançar os pequenos leitores. Se, por um lado, a ideia de organização da coleção surge em uma conversa informal entre o escritor e o dono da casa editora; por outro, sua conformação é debatida em jornais da época que ora elogiavam os livros e a iniciativa de composição da biblioteca, ora criticavam os textos e o vocabulário utilizado pelos autores das obras.
Da análise dos textos publicados pelos dois periódicos examinados, A Razão (Ceará) e A Federação (Rio Grande do Sul), nota-se que os livros escritos e editados por Erico Veríssimo não foram unanimidade entre os críticos. Contudo, nenhum dos autores dos textos examinados deixou de reconhecer o movimento realizado pelo escritor e pela Editora do Globo como de relevância para a afirmação da literatura infantil circulante no país à época.
Por último, convém assinalar que ambas as coleções analisadas - Bibliotheca Infantil Quaresma e Biblioteca de Nanquinote - possuíam identidades bem definidas, seguindo o padrão em série (Olivero, 1999). Conforme a crítica veiculada nas fontes examinadas, os livros infantis ora poderiam orientar as crianças leitoras na direção do bem e da virtude, ora constituíam matéria de entretenimento, desde que regulada pela visão hegemônica dos adultos.










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