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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.23  Uberlândia  2024  Epub 17-Mar-2025

https://doi.org/10.14393/che-v23-e2024-45 

Artigos

Da campanha “De pé no chão também se aprende a ler” à trajetória profissional da professora Nair Almeida de Oliveira

De la campaña “De pé no chão também se aprende a ler” a la trayectoria profesional de la maestra Nair Almeida de Oliveira

Lia Machado Fiuza Fialho1 
http://orcid.org/0000-0003-0393-9892; lattes: 4614894191113114

Fernanda Ielpo da Cunha2 
http://orcid.org/0000-0002-4429-5555; lattes: 6809915242569664

José Gerardo Vasconcelos3 
http://orcid.org/0000-0003-0559-2642; lattes: 1590976796851445

1Universidade Estadual do Ceará (Brasil). lia_fialho@yahoo.com.br

2Universidade Estadual do Ceará (Brasil). ferielpo@gmail.com

3Universidade Federal do Ceará (Brasil). gerardovasconcelos1964@gmail.com


Resumo

A pesquisa objetivou compreender, a partir da biografia da professora Nair Almeida de Oliveira, o seu processo de formação profissional e sua atuação como professora na campanha “de pé no chão também se aprende a ler”, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte (1961-1964). Amparando-se teoricamente na história cultural e metodologicamente na história oral entrecruzada com fontes imagéticas, utilizaram-se entrevistas temáticas com a biografada (já falecida) e três pessoas que com ela conviveram. Nair Oliveira, filha de agricultores analfabetos, estudou e tornou-se professora na congregação Irmã Vitória. Dedicou sua vida à educação dos pobres e destacou-se por sua liderança no bairro das Rocas, especialmente na educação de jovens e adultos no período da campanha. Atuou enfaticamente na erradicação do analfabetismo e na democratização da educação de maneira contextualizada, por incorporar a cultura popular nos processos de ensino com o método de Paulo Freire.

Palavras-chave: Biografia de mulheres; Educação popular; Formação de professores

Resumen

La investigación tuvo como objetivo comprender, a partir de la biografía de la docente Nair Almeida de Oliveira, su proceso de formación profesional y su actuación como docente en la campaña “De pé no chão também se aprende a ler”, en la ciudad de Natal, en Rio Grande do Norte (1961-1964). Apoyándose teóricamente en la historia cultural y metodológicamente en la historia oral entrecruzada con fuentes imaginarias, se utilizaron entrevistas temáticas con la biografiada (ya fallecida) y tres personas que vivieron con ella. Nair Oliveira, hija de agricultores analfabetos, estudió y se convirtió en maestra en la congregación Irmã Vitória. Dedicó su vida a la educación de los pobres y se destacó por su liderazgo en el barrio Rocas, especialmente en la educación de jóvenes y adultos durante el período de la campaña. Actuó enfáticamente en la erradicación del analfabetismo y en la democratización de la educación de forma contextualizada, al incorporar la cultura popular en los procesos de enseñanza con el método de Paulo Freire.

Palabras clave: Biografía de mujeres; Educación popular; Formación de profesores

Abstract

The research aimed to understand, based on the biography of professor Nair Almeida de Oliveira, her professional training process and her role as a teacher in the campaign “De pé no chão também se aprende a ler”, in the city of Natal, in Rio Grande Norte (1961-1964). Based on cultural history theory and oral history methodology intertwined with imagery sources, thematic interviews were used with the teacher (now deceased) and three people who lived with her. Nair Oliveira is an illiterate farmers’ daughter, who studied and became a teacher at the Sister Vitória congregation. She dedicated her life to the education of the poor people and stood out for her leadership in the Rocas neighborhood, especially in the young people and adults education during the campaign period. She emphatically worked to eradicate illiteracy and democratize education in a contextualized way, by incorporating popular culture into teaching processes using Paulo Freire's method.

Keywords: Biography of women; Popular education; Teacher training

Introdução

Esta pesquisa se situa no campo da história da educação, mais especificamente, trata da educação de mulheres e da atuação profissional feminina no magistério em movimento de alfabetização popular no início da década de 1960. A partir de um estudo biográfico amparado na perspectiva hermenêutica (DOSSE, 2020), centra ênfase na atuação profissional de uma professora, com destaque para sua luta com o mote de superar o analfabetismo nas camadas menos favorecidas economicamente, que assumiu o compromisso de ensinar na perspectiva ideológica do dialogismo de Paulo Freire.

Nesta óptica, o presente estudo traz como referência a trajetória formativa e atuação profissional da professora Nair Almeida de Oliveira (doravante Nair Oliveira) a partir da sua participação na Campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, que ocorreu na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, na época do prefeito Djalma Maranhão e do secretário de educação Moacyr de Góes, entre os anos 1961 e 1964. Esse contexto histórico educacional foi marcado pelos embates em prol da erradicação do analfabetismo e da formação, em caráter de emergência, das chamadas professorinhas:

Essas moças foram retiradas do anonimato e lançadas na luminosidade da Campanha que galvanizava a cidade. Passaram a ter um título: professorinha. Os pais, na sua maioria de origem humilde, orgulhavam-se da nova situação das filhas. As suas próprias residências passaram a ser denominadas, na vizinhança, como casa da professorinha. (MARANHÃO, 1999, p. 98-99).

Dessa maneira, houve uma dupla formação: às mulheres que já possuíam escolarização primária foi concedida a oportunidade de se qualificarem para atuar como professoras; e às crianças analfabetas foi dada a possibilidade de aprenderem a ler e escrever de maneira contextualizada, a partir do método Paulo Freire, que considerava a realidade dos alunos na seleção de palavras que seriam decodificadas para a aquisição da escrita e da compreensão do mundo.

Este estudo é relevante porque preenche as lacunas da biografia de Nair Oliveira, educadora com parca visibilidade que não ocupou um lugar de destaque e visibilidade na história oficial, ao tempo que preserva sua memória. Mulher que emergiu das camadas populares e que aproveitou a oportunidade para se capacitar com o mote de lecionar para crianças, adolescentes e adultos nas periferias de Natal, atuando ativamente não apenas no combate ao analfabetismo, mas também no processo de fortalecimento das instituições democráticas, com a defesa de um projeto político, social e educacional para os pobres em um tempo histórico cujo cenário traz à tona o contexto de proximidade do golpe militar de 1964, cujo desfecho trágico culminou no crime da queimada das escolas da campanha.

Nair Oliveira morou toda sua vida no bairro das Rocas, onde atuou como professora no primeiro acampamento escolar, local que se destacou como pioneiro no projeto da campanha. Esse bairro era caracterizado pela dura realidade social, pois apresentava os mais baixos índices de pobreza e analfabetismo de Natal. A comunidade das Rocas era formada por uma população de portuários, pequenos comerciantes, pescadores, estivadores, lavadeiras, agricultores vindos do interior da capital, alguns funcionários públicos, além da marginalidade característica dos bairros periféricos (GÓES, 1999).

Questiona-se, então, como uma mulher pobre, oriunda de um bairro periférico com condições precárias de vida, foi alfabetizada, preparada para a docência e reconhecida como professora de referência na sua comunidade desde sua atuação na campanha “De pé no chão também se aprende a ler”? Para responder ao problema de pesquisa mencionado, desenvolveu-se um estudo com o objetivo de compreender, a partir da biografia da professora Nair Oliveira, o seu processo de formação profissional e sua atuação como professora na campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

Metodologia

A pesquisa ampara-se nos pressupostos da história cultural, campo historiográfico mais evidente no Brasil a partir da última déca da do século XX, que valoriza as manifestações culturais dando a ver também a cultura popular, invisbilizada em séculos anteriores (BARROS, 2005). Isso porque entende-se que todo sujeito produz cultura quando se comunica, especialmente através dos discursos da vida social, logo suas leituras, práticas e representações importam para a história da educação (FIALHO; LIMA; QUEIROZ, 2019). Dessa maneira, lança-se luz às práticas culturais de Nair Oliveira, realizadas nas suas relações de trocas sociais para formar-se professora e militar pela alfabetização dos pobres, considerando tanto as suas práticas discursivas como as não discursivas.

A biografia da professora Nair Oliveira permite mergulhar na história de vida de uma mulher de origem simples e periférica, que viu no magistério a possibilidade de trabalhar de maneira remunerada nas proximidades do lar. História que se imbrica com a de tantas outras moças das classes populares de seu tempo, mas que, ao mesmo tempo, é singular em significados e representações. Uma biografia que desconstrói o modelo biográfico tradicional oficial com discursos edificantes, pois, em vez de privilegiar e glorificar os heróis, nobres e eclesiásticos, possibilita compreender as tensões e enfrentamentos de uma vida comum, nas suas inter-relações com o contexto cultural popular das Rocas. Afinal, como leciona Bourdieu (1989), a construção do objeto a ser investigado e o método escolhido devem ser capazes de pensar e de reconstruir caminhos que direcionem aqueles objetivos tidos socialmente como instigantes, de caráter socialmente importante e científico.

Tal como preconiza Dosse (2020, p. 8), entende-se que “[...] A identidade biográfica não é mais considerada como congelada do jeito de uma estátua, mas sempre sujeita a mutações. Ela não pode ser reduzida a simples transcrições das impressões digitais [...]”. Na biografia de Nair Oliveira, nesse sentido, foi considerado esse emaranhado que se pauta na teia de uma história de vida e suas conexões individuais e coletivas indissociavelmente, analisadas hermeneuticamente, considerando as múltiplas leituras e releituras - da biografada, dos biógrafos e dos leitores -, que vão mobilizar conhecimentos prévios e interpretações singulares (FIALHO; FREIRE, 2018).

“Compreende-se que as pesquisas nesse campo vêm em boa hora proporcionar visibilidade a personagens da História da Educação que foram esquecidos no tempo e nos espaços […]” (XAVIER, A.; VASCONCELOS; XAVIER, L., 2018, p. 1024), mas que contribuíram significativamente para o desenvolvimento educacional de outras gerações. Nesse sentido, conhecer a biografia de Nair Oliveira permite ampliar o conhecimento sobre sua história e acerca da realidade sócio-histórica e educacional do início da década de 1960.

Metodologicamente, optou-se pela História Oral, no gênero biográfico, pois possibilita, a partir de narrativas orais utilizadas como epicentrais na pesquisa, problematizar a história da educação da biografada e suas práticas pedagógicas adotadas na docência (FIALHO; BRAGA JÚNIOR, 2015). Desse modo, as narrativas orais utilizadas no estudo foram coletadas em forma de entrevistas livres, que remetem ao registro da experiência pessoal, como lembranças e esquecimentos, sobre a trajetória profissional da professora Nair Oliveira, registradas em gravador digital. Como considera Alberti (2004, p. 19):

Assim, não é mais fato negativo o depoente poder ‘distorcer’ a realidade, ter ‘falhas’ de memórias ou ‘errar’ em seu relato; o que importa agora é incluir tais ocorrências em uma reflexão mais ampla, perguntando-se por que razão o entrevistado concebe o passado de uma forma e não de outra e por que razão e em que medida sua percepção difere (ou não) das de outros depoentes. [...].

Entende-se que a história oral é um método que não se propõe ao compromisso rígido com a verdade, mas prima pela maior aproximação e fidelização com os dados, ou seja, aceita que a história não pode ser reduzida a uma verdade absoluta e inquestionável por envolver subjetividades. Considera-se a riqueza das lembranças oriundas da memória seletiva, que expressam particularidades afetivas, angústias e conflitos, pois “[...] é, então, através de tais narrativas que é possível resgatar uma teia de significados entrelaçados nos conflitos e na diversidade mnemônica” (VASCONCELOS; ARAÚJO, 2016, p. 20).

Consoante aos princípios éticos, antes da coleta das oralidades, submeteu-se o projeto de biografia de educadoras ao Comitê de Ética em Pesquisa, que deu parecer favorável sob número 2.585.705/2018. Em seguida, convidou-se e explicou-se o termo de consentimento livre e esclarecido às(os) entrevistadas(os), que concordaram em ter suas narrativas gravadas, transcritas e validadas para os fins desta pesquisa científica e sua respectiva divulgação. Além da biografada, que ainda estava viva na época das entrevistas, contatou-se mais pessoas: Dilma Santina Ielpo da Cunha, ex-aluna do acampamento “De pé no chão também se aprende a ler”; Graça Jeane Almeida de Oliveira, filha de Nair Oliveira; e Antônio Carlos da Silva, genro da biografada, como explicitado no Quadro 1.

Quadro 1 Fontes orais da pesquisa 

Nome da(o) Entrevistada(o) Data Entrevista Tempo da entrevista Entrevistador(a) Relação com a biografada
Nair Almeida de Oliveira 05/08/2015 43m26s José Gerardo Vasconcelos A própria biografada
Graça Jeane Almeida de Oliveira 23/04/2022 44m57s Fernanda Ielpo da Cunha Filha
Antônio Carlos da Silva 23/04/2022 22m14s Fernanda Ielpo da Cunha Genro
Dilma Santina Ielpo da Cunha 26/04/2022 34m19s Fernanda Ielpo da Cunha Moradora do bairro e ex-aluna

Fonte: Elaborado pelos autores (2022).

A seleção das(os) entrevistadas(os) partiu da procura pelas(os) mais velhas(os) do bairro das Rocas. Localizamos inicialmente dona Dilma Cunha, uma moradora antiga do bairro e aluna da referida campanha, que se interessou profundamente pela história das Rocas, dispondo-se imediatamente a colaborar com a pesquisa e mediar o primeiro encontro com a professora Nair Oliveira e posteriormente com os demais sujeitos sociais da pesquisa.

O contato estabelecido com a biografada foi realizado no mês de agosto de 2015, quando houve a oportunidade de entrevistá-la pessoalmente no bairro das Rocas, ficando esse registro guardado nos arquivos pessoais dos pesquisadores, preservando seu ineditismo. Após o falecimento da biografada, no ano de 2020, comovidos com sua partida, realizamos um segundo momento de imersão nas Rocas, de abril a junho de 2022, tendo como propósito a busca de novos depoimentos capazes de aprofundar os estudos sobre a biografia da professora Nair Oliveira na interface com sua atuação na campanha “De pé no chão se aprende a ler”. Consideramos a relevância de dar visibilidade e preservar a história e memória da professora Nair Oliveira, logo entendemos que “[...] cada entrevista biográfica é uma interação social complexa, um sistema de papéis de esperas, injunções, de normas e valores implícitos” (FERRAROTTI, 2014, p. 73). As oralidades foram entrecruzadas com outras fontes imagéticas, concedidas na ocasião das entrevistas pelas(os) próprias(os) colaboradoras(es), quais sejam:

Quadro 2 Fontes imagéticas 

Fonte Local de guarda
Fotografia do início da construção da escola e do Laboratório São José, liderado pela Irmã Vitória, nas Rocas Escola São José, localizada à rua São João de Deus, n. 3, Rocas, Natal/RN
Fotografia da professora Nair Oliveira na época que ensinava no acampamento “De pé no chão também se aprende a ler” Acervo da família
Imagem da professora Nair Oliveira pintada no muro da escola estadual Café Filho pelo artista potiguar Marcelo Escola estadual Café Filho, localizada à rua Décio Fonseca, s/n, Brasília Teimosa, Rocas, Natal/RN
Fotografia da professora Nair Oliveira pintada pelo artista Wellington Potiguar Acervo da família
Fotografia da construção do acampamento “De pé no chão também se aprende a ler” Imagem pública disponível on-line
Acampamento “De pé no chão também se aprende a ler” destruído pelas chamas Imagem pública disponível on-line

Fonte: Elaborado pelos autores (2022).

As imagens ajudam a melhor visualizar a biografada, compreender como ela ficou imortalizada com a arte local e conhecer a história do acampamento, como demonstraremos na seção adiante.

Trajetória pessoal e atuação profissional: uma experiência entre os seus pares do bairro das Rocas durante a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”

Nair Almeida de Andrade, filha de Antônio Faustino de Almeida e Júlia Gomes de Almeida, nasceu em 19 de outubro de 1935, na cidade de Ceará-Mirim, que está situada na mesorregião Leste Potiguar e na microrregião Macaíba, limitando-se com os municípios de Maxaranguape, São Gonçalo do Amarante, Ielmo Marinho, Taipu e o Oceano Atlântico, abrangendo uma área de 726 km². Na época, a cidade possuía aproximadamente 25 mil habitantes e sua economia provinha da pesca artesanal, agricultura familiar e pequenos comércios (IBGE, 2021).

Sua família é composta majoritariamente de agricultores pobres do sertão do Nordeste, marcados pela seca, trabalho sob sol quente, restrição alimentar e outras inúmeras dificuldades e vulnerabilidades sociais. Dona Júlia Almeida teve nove filhos e apenas quatro sobreviveram, sendo Nair Oliveira a mais velha; os demais são Dalva Maria Gomes de Almeida de Oliveira, José Gomes de Almeida e Tereza Gomes de Almeida.

No encalço por melhores condições de vida e perspectivas de estudos para os filhos, a família migrou de Ceará-Mirim para a capital, Natal, em 1941; na ocasião, a biografada tinha 6 anos. Inicialmente foram morar no bairro das Quintas, depois, em 1949, fixaram moradia no bairro das Rocas, permanecendo lá até sua morte, no ano de 2020.

E foi na busca pela educação de seus filhos que dona Júlia Almeida conseguiu a primeira oportunidade de acesso à educação formal para Nair Oliveira por meio da Irmã Vitória, freira missionária do bairro das Rocas, cuja missão era alfabetizar as meninas do entorno, dando-lhes oportunidade de educar não apenas para exercerem a esfera doméstica como donas de casa e mãe prendadas, mas também de aprender um ofício para ajudar na renda familiar, ofertar uma profissão. Assim, ela foi letrada pela Irmã Vitória, depois estudou como aluna interna no Ambulatório São José, da mesma congregação, e posteriormente, aos 14 anos, foi contratada como professora nessa mesma escola. Ensinar as crianças do bairro, para a biografada, era uma maneira de retribuir a oportunidade concedida pelas freiras, de realizar uma atividade profissional que considerava nobre e ainda de auxiliar nas despesas da sua família.

Fonte: Acervo da Escola São José nas Rocas.

Figura 1 Início da construção da Escola e Laboratório São José, liderada pela Irmã Vitória, nas Rocas 

Na Imagem 1, do início da segunda metade do século XX, é possível identificar a Irmã Vitória vestida com hábito escuro e corneta branca na cabeça, coordenando a construção do acampamento escolar das Rocas, cercada por crianças, especialmente as meninas do bairro das Rocas, alfabetizadas pelas freiras da congregação.

As Irmãs Vitória representam um projeto da Igreja Católica, das Irmãs da Congregação das Filhas do Amor Divino, cuja responsabilidade seria dar continuidade ao legado de Madre Francisca Lechn1, missionária que se dedicou à educação de mulheres e à formação principalmente de empregadas domésticas. Esse projeto amparava-se na educação mariana, pensado pelos preceitos da igreja católica, valorizando a doutrina, a conduta recatada e o comportamento obediente das mulheres para tornarem-se boas mães e esposas. Com efeito, como o público das Rocas era de meninas pobres, muitas precisavam trabalhar para se sustentar e ajudar suas famílias, de modo que as moças pobres e excluídas socialmente acabavam empregando-se como domésticas (OLIVEIRA, 1999).

A Sociedade do Amor Divino é uma associação de mulheres dedicadas à educação de mulheres, preferencialmente ao atendimento e à formação de empregadas domésticas. Dedicando-se principalmente à assistência e à educação da mulher, os membros da Sociedade querem servir de instrumento ao Amor Divino, cooperando para que a mulher seja conduzida ao seu destino. (OLIVEIRA, 1999, p. 105).

Aos moldes da Congregação das Filhas do Amor Divino, as Irmãs Vitória também atuavam na educação de meninas pobres e desvalidas, preparando-as para o labor em casas de famílias abastadas, onde atuavam como domésticas. Nair Oliveira, diferentemente da maior parte das moças da irmandade, galgou atuação como professora e inclusive casou-se tarde, em 1966, aos 31 anos, com Paulo Fernandes de Oliveira, tendo quatro filhas mulheres: Maria das Graças Almeida de Oliveira, Claudia Graciete de Oliveira Braun, Jane Cleide Almeida de Oliveira e Graça Jeane Almeida de Oliveira.

O seu casamento foi muito conturbado, marcado pela violência doméstica e pelo alcoolismo do marido, o que a fez optar pela separação como um meio de proteger a si mesma e as filhas, como explicitado nas palavras de sua caçula, Graça Jeane Almeida de Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 23/04/2022): “A lembrança que tenho é que ela era uma pessoa muito guerreira. Ela criou quatro filhas sozinhas, porque ela se separou muito cedo, por situações de violência doméstica [...]”. O relato faz refletir que, ao romper e resistir ao ciclo da violência de gênero, a professora Nair Oliveira muda a ordem social patriarcal e o projeto de dominação-exploração: “[...] mulheres podem oferecer resistência ao processo de exploração-dominação que sobre elas se abate e milhões delas têm procedido desta forma [...]” (SAFFIOTI, 2001, p. 120).

Vale salientar que, ao se separar de seu agressor, a professora Nair Oliveira não se preocupou em oficializar o divórcio, colocando-se como uma mulher empoderada que assume de maneira autônoma a criação das filhas e as despesas do lar. Importa destacar que empoderamento feminino perpassa fatores tais como classe social, raça, etnia, sexualidade, religião e até mesmo nacionalidade (LAZZARI; ARAÚJO, 2018). Isso faz refletir que esse empoderamento só foi possível porque, mesmo imersa em uma sociedade machista, fortemente marcada pela educação cristã, a professora Nair Oliveira possuía escolaridade, profissão e apoio das pessoas da comunidade, sendo estes elementos de grande valia para quem busca o rompimento com os ciclos da violência doméstica.

Ressalta-se ainda que a dedicação e compromisso da biografada com a educação ganha legitimidade antes mesmo da campana “De pé no chão”, dando seus primeiros passos ensinando crianças em sua casa, mantendo uma escola improvisada que depois viria a receber o apoio da prefeitura. A professora Nair Oliveira recordou (relato oral, entrevista concedida em 05/08/2015): “Em cada casa funcionava uma escolinha, porque você tinha muita criança para estudar, e as escolas eram poucas, e ele ficou preocupado nisso e fez uma reunião com o pessoal do bairro. Aí, se você tinha uma sala grande, aí já era cedida para fazer uma escola”.

Fonte: Arquivo pessoal da família (2022).

Figura 2 Professora Nair quando começou a ensinar nos acampamentos 

A Imagem 2 retrata a professora Nair Oliveira quando começou a ensinar na escolinha em sua casa, entre os anos de 1956 e 1959. É interessante destacar que esse modelo de escolinhas já existia em todo o Brasil, sendo conhecidas como escolas isoladas ou unitárias, mas foi durante a gestão de Djalma Maranhão que se iniciou o movimento de transformar tais espaços em lócus de execução do projeto de erradicação do analfabetismo inspirado em Paulo Freire. Confirmando ainda as palavras de Graça Jeane Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 23/04/2022), “[...] quando começou esse processo da campanha, não começou pelo acampamento, começou pelas ruas, que se chamava “‘De casa em casa também se aprende a ler’”.

Em Natal, as escolas isoladas chegaram na década de 1950 e foram se espalhando intensamente com o apoio do governo Djalma Maranhão (1956-1959), expandindo-se ainda mais no segundo mandato (1961-1964), a partir da campanha “De pé no chão também se aprende a ler”. Isso faz recordar o número de 86 escolinhas do início do governo, que, no final da segunda gestão, bateu a marca de aproximadamente 1.878 (PRANTO, 2018).

Relembra a biografada que as estruturas das primeiras escolinhas não eram adequadas: “Eu tinha na faixa de uns vinte e cinco a trinta alunos. Botava banco aqui, banco aqui encostado, e aqui, e quem não dava botava tamborete aqui, ali” (NAIR OLIVEIRA, 2018 apudPRANTO, 2018, p. 101). Com efeito, as salas de aula funcionavam com um número grande de alunos e com reduzido material escolar, precisando os docentes, na maior parte das vezes, usar do improviso e inegável apoio que a população local oferecia. Além disso, naquela época, as professoras não eram formadas, muitas tinham apenas o ginásio ou primário, não dominavam o processo de ensino e aprendizagem, tornando-se este também um problema que se refletia na qualidade de ensino dos educandos. As palavras da professora Nair Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 05/08/2015) consubstanciam o exposto: “[...] a professorinha que naquela época quase nenhuma era formada. Tinham ginásio; às vezes, tinham o primário somente, né?”.

Tal realidade explicitada mostra dois aspectos intimamente interligados nesse primeiro momento das escolinhas. De um lado, a própria precarização da implantação das escolinhas, cujo cenário real evidenciava o improviso que permeava as aulas, somado à falta de qualificação das professoras, que, por serem leigas, representava mão de obra barata. De outro lado, também possibilitou a inclusão dessas professoras oriundas das camadas populares no cenário educacional, chamadas a terem uma profissão, receberem um salário e especialmente serem reconhecidas e respeitadas como professoras entre seus pares da comunidade. Educadoras que, ao conhecerem a realidade social e a problemática de sua comunidade, exerciam uma prática mais contextualizada (PRANTO, 2018).

Corroborando o depoimento da professora Nair Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 05/08/2015), destacamos: “Era um emprego que a gente conseguia naquela época, né. Nós tínhamos um salário [...]”. Ou seja, em meio à ausência de campo de trabalho para a mulher, ser professora era, por vezes, a única possibilidade assegurada para se conseguir um emprego remunerado, tornando-se a educação uma marca registrada na sua carreira não só para assegurar a garantia da sobrevivência, como também de uma ascensão social, em um cenário até então marcado pelo pauperismo, mas também por mudanças nas estruturas econômicas, sociais e educacionais do mundo e do Brasil.

O cenário político-social da década de 1950 e dos primeiros anos da década de 1960 se caracterizaram pelo momento Pós-Guerra no mundo, que resultaram na abertura das fronteiras para a globalização dos mercados (GÓES, 1999). As problemáticas do capitalismo, com as desigualdades sociais, as industrializações que exploravam a mão de obra dos trabalhadores, dentre outras questões, passaram a inquietar parte da sociedade, a qual se organizava em sindicatos e discutia maneiras de lutar por melhores condições de empregabilidade e vida (CORTEZ, 2005).

Importa destacar que os moradores da periferia de Natal, como nas Rocas, sentiram o reflexo desse cenário e viram na educação uma possibilidade de se alfabetizarem já adultos, a partir da realidade do contexto social em que viviam, buscando qualificação e união articulada pela luta por melhores condições de trabalho e vida. Dessa maneira, a construção dos acampamentos escolares, que ocorreu entre 1961 e 1964, apoiada pela campanha, teve razoável aceitação das camadas populares. A fase inicial da campanha foi marcada por um amplo movimento de mobilização comunitária, pois, sem dinheiro para construir os estabelecimentos de ensino formal, eram os moradores das Rocas e do Comitê Nacionalista do bairro que se organizam em prol dessa empreitada.

Fonte: Google Imagens.

Figura 3 Construção do primeiro acampamento do bairro das Rocas 

Os acampamentos escolares na região eram cobertos de palhas de coqueiros e chão de barro batido, construídos pelos marceneiros da prefeitura com o apoio dos pescadores canguleiros do Canto do Mangue, que conheciam a geologia das áreas praianas, das dunas, uma verdadeira obra da cultura popular. “A construção é autêntica à obra da cultura popular usada por pescadores das praias nordestinas, herdeira em linha reta da habitação indígena” (GÓES, 1999, p. 101). Concretizava-se, assim, o projeto de educação popular, como elucida Góes (1999, p. 102):

O primeiro ‘Acampamento’ marcou o início do trabalho piloto realizado no bairro Rocas: quatro galpões, com quatro classes cada um e um grande galpão circular para recreação, reuniões de círculo de pais e professores e sessões festivas. Funcionamento em três turnos: pela manhã, à tarde e à noite. Em 1961, construíram-se mais dois ‘Acampamentos’: Rocas e Carrasco. Em 1962, o número cresceu para nove: Rocas Carrasco, Quintas, Conceição, Granja, Nova Descoberta, Nordeste, Aparecida e Igapó. Cobriram-se, assim, os principais limites da cidade. Nesta época, as ‘Escolinhas’, conforme informamos quando abordamos a ‘Primeira Fase’ da Campanha, já haviam se elevado ao número de trezentas.

O início dos acampamentos escolares se revela ainda pela presença ativa do Movimento Popular de Alfabetização (MPA) e pelo Centro de Cultura Popular (CCP) da União Nacional dos Estudantes (UNE), que assumiram compromissos com a campanha, além das ideias e metodologias de Paulo Freire, voltadas à democracia e ao dialogismo do professor com a realidade local (CORTEZ, 2005).

A ideia de Freire (1996) propõe uma educação compromissada com princípios democráticos, a qual deveria voltar-se para a emancipação e liberdade do homem, de seus educandos, da consciência crítica e política. Para ele, o processo educativo não era algo meramente verbalizado e desvinculado do contexto social, tal como a educação “bancária” tradicional das escolas, que transmitiam o conhecimento sem que os alunos participassem do processo. E foi com essa concepção de educação que as ideias de Freire passaram a ser inseridas nas propostas metodológicas da campanha, incorporando as discussões de justiça social, desigualdade, diálogo, luta de classe, mudança estrutural e do professor crítico. Essa proposta que se firmou durante toda a campanha era propagada nas palestras e cursos realizados por Freire na Secretaria de Educação de Natal, nas quais sempre estava presente a equipe pedagógica que assumia o compromisso de multiplicar seus conhecimentos nos processos de formação das chamadas “professorinhas” (professoras leigas).

Cabe ressalta-se que os cursos de emergências tiveram como finalidade suprir a enorme demanda de professores para atender à população dos bairros periféricos, todavia, como naquela época não existiam professores suficientes com a formação do magistério, a prefeitura passou a apostar nas moças do bairro que possuíam o primário ou ginásio, buscando inicialmente ofertar uma formação mínima para atuar em sala de aula. “[...] Tais professoras recebiam uma formação prévia e um acompanhamento semanal, que no decorrer da Campanha foi sendo sistematizado através das atividades do Centro de Formação de Professores” (PRANTO, 2018, p. 107).

O curso diplomou mil professoras leigas, que, após serem capacitadas, passavam a ser lotadas em uma das escolinhas dos acampamentos e geralmente nos locais mais próximos às suas residências, o que evitava gastar dinheiro com transporte e assegurava a possibilidade do ensino contextualizado. Além disso, poderiam comparecer com vestuário simples, aproximando-se da realidade das crianças que frequentavam as escolas, as quais também poderiam estudar até mesmo de pés no chão, ou seja, sem a necessidade de sapato, tal como se refere o slogan da campanha (GÓES, 2009).

As formações das professorinhas eram acompanhadas por reuniões de planejamento e acompanhamento da equipe do Centro de Formação de Professores (CFP), com os supervisores dos acampamentos, que discutiam os problemas enfrentados por elas durante a semana, realizando estudos, replanejamento dos trabalhos e adequação às demandas a serem resolvidas (SALES; NARCIZO, 2013), tal como recordou Nair Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 05/08/2015):

nós tínhamos a orientadora educacional e nos reuníamos aos sábados para planejar as aulas da semana [...]. Ensinava as matérias de Português, Matemática, Geografia etc. A maioria dos alunos não eram alfabetizados, então a gente começava por letras, por sílabas, formando palavras.

Observamos que o relato acima explicitado pela professora Nair Oliveira se coaduna com o encontrado na pesquisa de Sales e Narcizo (2013, p. 9093) sobre a campanha: “Semanalmente tinha as visitas nos acampamentos [...]. Tudo era discutido com os professores, com as diretoras dos acampamentos [...]. Essa visita não era só para olhar, não! Eram reuniões que fazíamos de acompanhamento, de discussão, de sugestões”. Dessa maneira, era perceptível que havia não apenas a formação das professoras para assumirem a docência, mas também um rigoroso acompanhamento do processo formativo, que seguia as ideias de Paulo Freire, cujas reuniões realizadas ocorriam no intuito de realizar o levantamento das demandas e problemas apresentados, bem como suas possíveis soluções.

Instigava-se o professor a pensar sobre suas práticas, provocando o caminho para uma prática reflexiva, ao mesmo tempo que se propiciava o desenvolvimento de uma formação continuada (SALES; NARCIZO, 2013). Nesse contexto, a professora Nair Oliveira, além de trabalhar com a leitura do mundo, ainda valorizava um ensino lúdico, pois, de maneira criativa, desenvolvia a aprendizagem nos alunos partindo das dificuldades de cada estudante, utilizando, estratégica e metodologicamente, a brincadeira para estreitar os laços de afetividade e aprendizagem, a fim de que seus discentes pudessem gostar da escola. Como lembrou Antônio Carlos da Silva (relato oral, entrevista concedida em 23/04/2022), seu genro: “Ela dizia que uma das dificuldades era prender a criança lá, trazer a criança para a educação, porque muitas passavam necessidades em casa, iam para lá justamente para se alimentar, brincar e correr [...]”. Somam-se a essas memórias as de Dilma Santina (relato oral, entrevista concedida em 26/04/2022), moradora do bairro e aluna durante o acampamento:

a gente brincava de roda, de academia, ficava pulando, brincava de amarelinho, ela ia, assim, ensinando os números: 1, 2, 3, 5 [...] ensinando a gente a contar; ensina a gente através das brincadeiras. Fazia um tipo roda; a gente ficava pulando de um lugar para o outro, aí ela perguntava: ‘Que número é esse aqui?’ [...].

A atuação da professora Nair Oliveira durante a campanha percorreu diversos momentos, abrangendo a educação de crianças, o apoio na formação de outros alfabetizadores voluntários e a alfabetização de adultos do bairro das Rocas. A intervenção de dona Nair Oliveira foi marcada pela forte influência que exercia no bairro, conquistando a população adulta para se alfabetizar. Sobre isso, Graça Jeane Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 24/04/2022) disse:

Essa ideia que formar, educar e alfabetizar a população... tinha até um concurso que era feito nas ruas quem mais alfabetizava; tinha umas faixas que eles colocavam para a disputa: qual a rua que conseguia alfabetizar em menos tempo tantos alunos em 40 horas, 20 horas, em prol da educação. Foi uma ideia que ficou até o golpe de 1964, quando o prefeito foi deposto.

O compromisso da professora com os alunos do bairro era uma bandeira presente no cotidiano da biografada e do reconhecimento por quem dela foi aluno, o que faz ainda do trabalho de Nair Oliveira significativo no processo de ensinar a ler, escrever e contar, sendo os resultados do seu trabalho frutos que germinarão entre seus pares das Rocas. Alguns de seus alunos conseguiram romper a condição de pobreza e de falta de oportunidade ao serem alfabetizados, ressignificando suas vidas através do conhecimento, principalmente ao conseguirem dignamente uma profissão através dos estudos e/ou ao se formarem em nível superior, tal como afirmou dona Dilma Santina (relato oral, entrevista concedida em 26/04/2022):

Hoje aqui nas Rocas temos muita gente que se formou por causa dela [...]. Ela foi uma ótima professora. Ensinava era por amor mesmo, tinha paciência demais [...]. Nas Rocas saiu médico, engenheiro, artista, todo mundo sabe que ela ajudou. Se eles são doutores, é porque teve uma mãozinha dela.

Ou ainda exercendo influência nas escolhas profissionais de sua filha, como revelou Graça Jeane (relato oral, entrevista concedida em 24/04/2022):

ela foi influência para mim. Hoje em dia, sou professora com todos os percalços que os professores passam, principalmente do ensino básico, por causa dela. Eu tinha muita admiração pelo trabalho que ela fazia. Ela sempre alfabetizou; ela alfabetizou os meninos daqui tudinho; ela chegou até a alfabetizar o bisneto. Estava a ensinar ele começando pelo caderninho, com pinturas, com as atividades alfabetizadoras, mas, na verdade, ela alfabetizou todas as meninas daqui de casa, com 4 a 5 anos. Ela começava com esse processo de alfabetização; a gente começava a aprender a ler com ela.

Vale mencionar que Nair Oliveira alfabetizava a partir dos elementos da cultura popular, valorizando-os de tal modo que ela se tornou a primeira bibliotecária do bairro, dada sua paixão pela leitura e pela cultura. Ela participava das ações propostas nos cursos promovidos nos círculos de cultura popular destinados às professoras e alunos, os quais tinham como referência as ideias freireanas de alfabetização de adultos, despertando a consciência política e social a partir de suas realidades, ao mesmo tempo que propunham a construção da identidade cultural desses sujeitos, dando-lhes oportunidades de inserção nos espaços culturais e preservando suas produções, como mencionou Graça Jeane Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 24/04/2022):

Ela tinha uma paixão pela educação que nunca foi de enriquecer financeiramente, mas de uma riqueza cultural. Ela falava muito não só da questão de conteúdo, mas também da questão da emancipação, da comunidade, das pessoas aprenderem para ter uma independência, da questão cultural [...].

Inspirada em Paulo Freire, Nair Oliveira estimulava os filhos das Rocas a se envolverem com a arte, a música, o esporte, a poesia, a leitura, em articulações para que aprendessem a tocar um instrumento, fizessem parte do coral, participassem de festas e eventos, envolvendo-se com as atividades da concha acústica2. Tais inserções, tão significativas para a professora Nair Oliveira, fazem com que ela compreenda a cultura como sendo um processo facilitador de emancipação do homem, um processo democrático, ou, como elucida Góes (2009, p. 142), “[...] essa cultura deve levar o homem a assumir o papel de sujeito da própria criação cultural, fazendo-o não apenas receptor, mas principalmente criador de expressões culturais”. Sales e Narcizo (2013, p. 9094) publicam depoimentos que colaboram com o encontrado na biografia de Nair Oliveira:

O acampamento era um centro de cultura. Tudo da comunidade acontecia ali, as festas, o resgate das festas tradicionais, pastoris, fandangos. Tudo isso era introduzido no currículo e aconteciam as festas no acampamento; [...] Era um processo de educação preocupado com uma dimensão pedagógica humana, democrática, que procurava abranger todas as dimensões do processo educativo - cultura, teatro, música, literatura.

Sendo a arte um meio de expressão tão significativo para a professora Nair Oliveira, seu legado trouxe inspiração para os artistas potiguares, que pintaram sua imagem onde tudo começou, no bairro das Rocas, no acampamento do “De pé no chão também se aprende a ler”, hoje Escola Café Filho. Homenagem mais que merecida, pois, através dessa tela, podemos conhecer o passado, descobrir uma mulher cujos legados foram a educação e a cultura como seus compromissos maiores aos filhos das Rocas.

Fonte: Escola Municipal Café Filho (2022).

Figura 4 Pintura do artista potiguar Marcelo. 

A segunda tela foi uma manifestação de carinho pessoal à professora Nair Oliveira e seus familiares, elucidando mais uma vez a sua importância no bairro como educadora do artista Wellington Potiguar à família da biografada, em reconhecimento à importância da educadora em sua vida.

Fonte: Arquivo pessoal da família (2022).

Figura 5 Pintura do artista Wellington Potiguar 

A campanha “De pé no chão se aprende a ler” durou pouco tempo, ao contrário das marcas deixadas por Nair Oliveira em seus alunos. Os acampamentos foram destruídos por um incêndio proposital em junho de 1964, que coincide com as ações paramilitares, escondidas na calada da noite para interceptar criminosamente a educação popular nos primeiros meses do golpe. Some-se ainda a prisão e exílio do prefeito Djalma Maranhão, tristemente recordada pela professora Nair Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 05/08/2022): “Só sei nessa história que eu não fui ver Djalma preso, eu não tive coragem”.

Com a queima dos acampamentos, foram destruídos sonhos; colocava-se em ruína não só um plano de governo, tendo sido rompidas as expectativas dos moradores das Rocas, das professoras e de todos os envolvidos na campanha que acreditavam no empoderamento dos excluídos por meio da educação contextualizada, como afirmou Graça Jeane Oliveira (relato oral, entrevista concedida em 24/04/2022) ao recordar as palavras da professora Nair Oliveira:

inclusive é uma das coisas que eu percebia que ela ficava triste, quando incendiaram, atearam fogo no acampamento. Falam que foi um acidente, mas não foi. A história oficial diz que foi um acidente, mas ela dizia que não foi bem isso. Ela dizia que, depois que acabou com tudo, que as professoras não foram demitidas, mas colocadas em outras funções. Ela dizia que, para apagar com a história de vez, com o projeto, tocaram fogo. Alguém foi contratado para tocar fogo na escola. Hoje em dia, são duas escolas: a Henrique Cartesiano e a Café Filho.

Fonte: http://www.dhnet.org.br/educar/penochao/imagens.htm. Acesso em: 22 fev. 2023.

Figura 6 Acampamento “De pé no chão se aprende a ler” destruído pelas chamas 

Foi um ano de transformação política, especialmente no campo da educação, com queimas de livros, tortura, perseguição e exílio. Tais acontecimentos mexeram tanto com Nair Oliveira que desde então aliou-se ao silêncio como mecanismo de defesa para não se lembrar desse episódio, rompendo-o poucas vezes, a exemplo das entrevistas concedidas para permitir a realização desta pesquisa. “[...] Com certeza, há fatos da história da humanidade e também da vida pessoal que não gostaríamos de recordar, mas elas permanecem na nossa memória [...]” (CORTEZ, 2005, p. 29).

Nair Oliveira enfrentou inúmeras situações desfavoráveis ao exercício das suas práticas educativas, alicerçadas no seu compromisso de ser educadora de periferia, que não se rendeu em buscar melhor educação para sua comunidade. Cada experiência ampliava sua formação profissional e consolidava sua consciência crítica e dedicação na luta pela democratização da educação. Afinal, “[...] a formação docente remete-nos a um processo de dimensões pessoais e profissionais, estimulado pelas experiências e aprendizagens adquiridas no decorrer do percurso de vida [...]” (ALMEIDA, 2011, p. 4).

Pode-se dizer, portanto, que a formação de Nair Oliveira esteve intimamente ligada às suas escolhas, aos investimentos em sua formação e aos percalços e tensões enfrentados, o que fez com que ela se tornasse sujeito de sua própria história e constituísse uma identidade em constante construção de si a partir das relações coletivas que foi construindo, com as quais foi interagindo ao longo da sua vida. Como afirma Josso (2010, p. 81): “[...] não é uma individualidade sem ancoragens coletivas (familiar, de pertenças a grupos diversos com os quais todos e cada um tem uma história)”, ao contrário, é um pertencimento que resultou em admiração e respeito por todo o trabalho dedicado a inúmeras gerações nas Rocas.

Suas experiências e práticas pedagógicas, socializadas, ampliadas e ressignificadas nos espaços de formação, permitiram uma atuação contextualizada, reconhecida por seus pares, mas invisibilizada pela ciência. Nesse sentido, registram-se a história e memórias de uma mulher pobre e periférica, que foi capaz não só de aprender uma profissão e se dedicar à docência, mas também de lutar pela inclusão da sua comunidade no processo educacional. Sua bandeira era o compromisso de alfabetizar e ensinar sobre as injustiças sociais, por acreditar que somente com a educação e o conhecimento as pessoas seriam capazes de se libertar, de se empoderar e de mudar seu contexto sociocultural. Nair Oliveira partiu no contexto da Covid-19, em 2020, sendo vítima de um infarto agudo, todavia seu legado se perpetua no imaginário social das Rocas.

Considerações finais

Conclui-se, nesse breve espaço temporal que antecede ao golpe militar de 1964, que a resistência dos trabalhadores e seus filhos em busca do conhecimento formal e da possibilidade de ascensão social foi uma batalha ininterrupta. O grande objetivo da campanha “De pé no chão também se aprende a ler” era erradicar o analfabetismo que perdurava na cidade de Natal/RN. O prefeito Djalma Maranhão, juntamente com os comitês nacionalistas formados em sua administração, em ações dialógicas com o povo pobre da periferia de Natal, entrelaçou-se em uma guerra sem tréguas contra o monstro do analfabetismo. Em cada rua da cidade de Natal/RN, em cada beco das Rocas e do Canto do Mangue, as luzes do conhecimento foram penetrando e atuando.

Foi no bairro das Rocas onde surgiu a ideia e também o primeiro acampamento a partir dos saberes populares de pescadores, artesãos, agricultores, lavadeiras, pequenos comerciantes e tantos outros artífices que contribuíram com seus saberes. Dona Nair Oliveira, que chegou muito jovem à cidade de Natal/RN, indo morar nas Rocas, participou desse movimento desde o seu nascedouro. Como professorinha, integrou essa batalha de erradicação do analfabetismo. Alfabetizou as filhas, as netas e o bisneto, bem como as crianças e os adultos das Rocas.

Por fim, sobrevoam as homenagens a ela, a professorinha Nair, grafadas nas lembranças das pessoas do bairro. Artistas populares grafam seu rosto em paredes de escolas. O reconhecimento da população em memória da professora Nair Oliveira é algo encantador. É nesse vasto campo de saberes que também lhe rendemos a nossa homenagem. Uma vida dedicada ao exercício do magistério, abreviada em contexto da pandemia da Covid-19, com sua morte decorrente de um infarto agudo em 2020. Ela nos deixou, mas o seu legado permanece nas ruas e paredes do bairro. Seus ensinamentos despertaram o gosto de muitos jovens que seguiram com suas formações acadêmicas ou interesses pelas artes, música e literatura. Descanse em paz, professora. Apesar da ditatura militar de 1964, que ateou fogo no acampamento, a campanha “De pé no chão também se aprende a ler” foi vitoriosa; seu legado eternizado.

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1Nasceu em 1833, no sul da Baviera, Alemanha. Estudou com as Irmãs Escolares, formando-se professora. Foi para Viena, onde dedicou-se às jovens vindas do interior em busca de emprego na capital. Fundou a Congregação das Filhas do Amor Divino, em 1868 (Filhas do Amor Divino, https://filhasdoamordivino.com/).

2Segundo Góes (2009), a concha acústica era considerada o pulmão por onde se respirava a inteligência de Natal. Mais precisamente, seria o palco onde aconteciam as representações ao ar livre, o cenário para as grandes concentrações, o local para os debates de temas variantes e apaixonantes. A concha acústica constituía, com a galeria de arte e uma biblioteca, a principal praça de cultura de Natal.

Recebido: 14 de Janeiro de 2024; Aceito: 20 de Abril de 2024

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